29/01/2010

Expondo as Perigosas Premissas dos Economistas Liberais

Brian McCall -- Colunista do Remnant, Oklahoma, EUA [*]
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Notas do blogueiro:
1) Este blog recebe seu primeiro colaborador. Guilherme Ferreira Araujo, amigo e irmão em Cristo, traduz este importante artigo. Agradeço-lhe a colaboração, e espero contar com ela mais vezes.
2) O assunto do artigo é muito importante: a concepção católica da economia. Ele já apareceu no blog muitas vezes. Convido os leitores que ainda não leram verificar a seguinte seqüência de posts: Corporação Cristã: a verdadeira Escola de Salamanca - Parte I, Corporação Cristã: a verdadeira Escola de Salamanca - Parte II, Corporação Cristã: a verdadeira Escola de Salamanca - Parte III, Corporação Cristã: a verdadeira Escola de Salamanca - Parte IV, Corporação Cristã: a verdadeira Escola de Salamanca - Parte V, Corporação Cristã: a verdadeira Escola de Salamanca - Parte VI, Corporação Cristã: a verdadeira Escola de Salamanca - Parte VII, Corporação Cristã: a verdadeira Escola de Salamanca - Final e Opondo-se à heresia austríaca. Verifiquem também Economia e catolicismo e Juros: Böhm-Bawerk, Ludwig von Mises e Santa Catarina de Sena.
3) Tom Woods, economista dito liberal, cujas idéias são comentadas neste artigo, é na verdade economista austríaco. Ele é autor de um livro de defesa da Igreja, recentemente traduzido pela Editora Quadrante, de título “Como a Igreja Católica Construiu o Ocidente”. O livro é razoável nos capítulos não-econômicos. Quanto chega na economia, Woods defende a heresia austríaca e suas idéias são lamentáveis.
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A hipótese central subjacente a todo o pensamento econômico liberal (em contraste com pensamento econômico católico) é a ganância. Ora, economistas liberais nem sempre usam essa palavra; eles podem chamá-la “razão de lucro”, “interesse próprio” ou “maximização da riqueza”, mas todos esses termos se resumem à mesma coisa.
Os economistas liberais mais inteligentes ocultam esse princípio declarando que ele é válido apenas no interior da “estrutura” econômica. Uma vez que a riqueza é gerada a moralidade pode ter algo a dizer sobre o que alguém fará com ela; mas, dentro da análise do processo de produção, a maximização do lucro é o critério supremo para a avaliação das escolhas econômicas: a alternativa que produz mais riqueza é a chave para a escolha da ação humana (até mesmo se alguém reconhecer que a moralidade pode impor demandas a um uso ulterior dessa riqueza). Todas as outras considerações no fim retificam esse único critério.
Responsabilidade social, práticas de caridade, preocupação com a segurança de trabalhadores e outros valores podem ser levados em conta pelos economistas liberais, mas somente depois de obtido máximo lucro ou a maximização da riqueza. Uma decisão de doar computadores para uma escola é justificada pelo conselho diretor de uma empresa apenas na medida em que o empreendimento espera receber em algum momento uma quantidade maior de riqueza do que aquela empregada na doação por meio de publicidade ou da boa vontade do cliente. É por isso que os participantes de um sistema controlado e regulamentado pelo pensamento econômico liberal podem ser pessoas decentes, mas sua filosofia impede a “intrusão” de tal moralidade nas decisões de um negócio, no qual a geração do lucro é o maior bem a ser procurado.
Isso isenta os economistas liberais das exigências de justiça e equidade da Lei Moral (Divina e Natural). Além disso, alguns economistas liberais abrem exceções a algumas ofensas odiosas à Lei Natural tal como a fraude e a violência. Não obstante, o homem está sujeito inteiramente à Lei Divina e Natural. Nós não somos livres para escolher quais normas observar e quais deixar fora de nosso “framework” artificial.
Ora, alguém que tenha uma noção do seja que o catolicismo provavelmente sabe que essa filosofia é defeituosa. Para ver exatamente por que ela é defeituosa, nós exploraremos a Doutrina da Economia Católica.
Como ensina Santo Tomás de Aquino, fiando-se em Aristóteles: O homem age em conformidade com os fins. Nós escolhemos ações que, à luz de todos os fatos relevantes, parecem atingir um fim particular. Alguns fins são incompletos; eles não aperfeiçoam todos os aspectos da natureza humana. Alguns fins são mais completos; eles abarcam mais aspectos da natureza humana. O último ou mais completo fim do homem é a salvação eterna; a visão beatífica. Ao atingir esse fim a natureza do homem chega à perfeição. Abaixo desse fim perfeito há outros fins necessários que devem ser perseguidos a fim de que tornem alcançável o fim perfeito. O fim natural mais elevado é o viver uma vida virtuosa numa sociedade pacífica. Abaixo desse fim natural perfeito, a criação de uma riqueza temporal suficiente é um dos fins imperfeitos encerrados naquele fim natural perfeito.
A fim de que possa vir a conhecer, amar e servir a Deus, e viver bem com a sua vizinhança neste mundo de modo a atingir seu fim último – felicidade no paraíso – o homem deve satisfazer as necessidades físicas de sua natureza corporal. A satisfação das necessidades temporais humanas fornecidas pela riqueza é, portanto, um dos fins em direção ao qual a natureza humana, e consequentemente a lei natural, o dirige.
No entanto, nós não podemos perder de vista o fato de que esse fim é apenas intermediário, imperfeito. A riqueza ou lucro não é um fim último em si mesmo; é um meio para se alcançar outros fins e deve ser moralmente avaliado como tal. Ele deve limitar-se, portanto, ao âmbito que se sujeita aos fins últimos naturais e sobrenaturais do homem.
Aqui nós vemos que o erro fatal do economista liberal é que ele faz de um fim imperfeito o critério perfeito da decisão, dentro de uma estrutura que ele usa arbitrariamente para separar a atividade econômica do mesmo grau de escrutínio moral que governa outra atividade humana.
O efeito disso é que a obtenção de riqueza torna-se infinita. Quando um fim imperfeito é tratado como perfeito, então é corrompido, e a orientação própria do homem em direção ao seu verdadeiro fim é obscurecida. É por isso que é exigido do homem pôr limites no aumento da riqueza como um critério de tomada de uma decisão no campo econômico, do mesmo modo que ele deve pôr justo limite em seu apetite concupiscente.
A busca da riqueza
O desejo pela riqueza, assim como o desejo por outras coisas, não é mal em si mesmo, mas deve ser refreado. A geração da riqueza, de acordo com o pensamento econômico Católico, deve ser refreada assim como os desejos de concupiscência devem estar sujeitos à razão. Henrique de Hesse explica isso da seguinte maneira: “Quem quer que tenha o suficiente para essas coisas (para sustentar alguém, para realizar atos de piedade, para manter provisão razoável para futuras emergências, ou para manter a prole), mas ainda trabalha incessantemente para acumular riquezas ou um status social mais elevado, ou de tal modo que mais ele viva sem precisar trabalhar, ou de tal modo que seus filhos sejam ricos e poderosos – tudo isso é impulsionado por condenável avareza, prazer físico e orgulho.” [1]
Ter o suficiente para tudo isso e ainda desejar mais excede as fronteiras da prudência. Então, refreios no desejo pela riqueza não são excessivos, mas antes muito prudentes. Há um limite mais externo para a ganância. São Bernardo concorda com a seguinte conclusão: “Por elas mesmas, no que tange ao bem-estar espiritual, elas [as riquezas] não são nem boas nem más, antes o uso delas é bom, o abuso, ruim; o desejo veemente por elas é pior; a ganância por ganhar ainda mais é vergonhosa.” [2] O uso adequado da riqueza é virtuoso; seu abuso – a avidez por ganhar – é um vício.
Não obstante, a filosofia da economia liberal afirma que toda escolha que aumente a rede de riqueza é boa; o princípio não admite nenhum limite. A razão do lucro, na filosofia do economista liberal, não pode admitir o limite defendido pela filosofia da economia católica. O lucro é sempre bom e mais lucro é sempre algo melhor – novamente, dentro da estrutura que os economistas liberais usam para dispensar a economia de escrutínio moral, enquanto declaram que fora dessa estrutura os capitalistas podem ser pessoais morais e generosas no que tange à decisão de como eles usarão sua riqueza.
Santo Tomás usa uma imagem da natureza para demonstrar como ser propriamente cuidadoso com os bens temporais significa manter tal desejo em seu limite próprio – um tempo adequado. “A formiga é cuidadosa num tempo adequado, e é isso que é proposto para o nosso exemplo. A previsão justa do futuro pertence à prudência. Mas seria um cuidado ou previsão desordenada do futuro se um homem se pusesse a buscar coisas temporais, às quais os termos ‘passado’ e ‘futuro’ se aplicam, como fins, ou se ele passasse a buscá-los excedendo as necessidades da vida presente, ou se ele passasse a monopolizar o tempo por preocupação.” [3] Nós podemos buscar lucros, mas fazê-lo em excesso é um vício, tanto como ser irresponsável em relação a eles (monopolizar o tempo por preocupação).
Comedimento moral VS. Interferência do governo
Antes de prosseguir nesse argumento eu devo dar uma pausa para esclarecer que o reconhecer um comedimento moral sobre a razão do lucro não é análogo ao asseverar que o governo deve impor esse comedimento em todas as circunstâncias. A questão de qual seja o equilíbrio apropriado na lei pública da Igreja, governo local, governo nacional e refreamento pessoal dirigido por um confessor é uma questão que trata dos meios apropriados. Este é em si um tópico vasto; por séculos e à luz de diferentes circunstâncias o equilíbrio entre o foro íntimo (confissão) e os vários foros externos (cortes civis e eclesiásticas) tem permanecido e continuará.
Não obstante, proponentes do Liberalismo Econômico frequentemente procuram pôr em desordem a questão tentando desviar do assunto deste tópico. Eles confundem o argumento de que a moralidade requer esse refreio com a defesa de um estado policial totalitário. Ao fazer isso, os economistas liberais evitam ter de argumentar contra a questão real: o princípio do lucro não pode ser o único critério de avaliação da justiça e da moralidade das escolhas econômicas.
Ao retornar ao refreio necessário, lembre-se dos outros fins da existência humana. Quais são esses fins? Eles não são senão os fins naturais e sobrenaturais do homem. Então, por exemplo, viver de forma justa ou devolver aos outros seus direitos é um fim da natureza social do homem. A Justiça é uma das virtudes cardeais que o homem deve esforçar-se por obter de modo a aperfeiçoar sua trajetória em direção ao fim perfeito. Portanto, é ilícito obter lucro através do uso de meios que violam a justiça comutativa (que inclui mais que a fraude). O pensamento econômico liberal rejeita esse refreio. Isso para não dizer nada da lei divina à luz da qual as ações humanas devem ser julgadas.
O economista liberal católico Tom Woods argumentou que “a economia é a ciência cujo propósito é empregar a razão humana para descobrir como os fins humanos podem ser alcançados. O que deveriam ser esses fins é assunto para ser decidido pela Teologia e pela Filosofia Moral.” [4] Tudo quanto nos leve ao fim escolhido da forma mais eficiente será a escolha econômica correta. Não obstante, a moral católica não permite ambivalência em relação aos meios. Mesmo que os fins de alguém sejam bons (enquanto estabelecidos pela Teologia e pela Filosofia Moral, como diria Tom), os meios escolhidos também devem ser moralmente justos. Deste modo, afirmar que a economia é meramente a ciência dos “meios” é um argumento imperfeito. A escolha dos meios não é moralmente neutra. Os meios têm implicações morais.
Um típico argumento de economista liberal é que um salário baixo (que esteja abaixo do valor intrínseco do trabalho desempenhado para aquele salário) é aceitável se o livre-mercado produzir tal ordenado (devido a um grande número de trabalhadores desempregados, por exemplo). [5] Argumenta-se que até mesmo o trabalhador que recebe um salário injusto estará em melhor situação no final das contas porque o lucro obtido pelo empregador aumenta a riqueza geral para a sociedade, ou para expor isso da forma favorita dos economistas liberais, uma maré crescente levanta todos os barcos. Admitindo por um momento que essa assertiva seja de fato verdadeira (apesar de ela ser contra-intuitiva), [o fato é que] o pensamento econômico católico proíbe o pagar um salário injusto como sendo um meio para esse fim. Mesmo que mais riqueza seja gerada para a economia ou mais pessoas tenham empregos, se esse fim é alcançado através da violação da justiça, ele não pode justificar um meio injusto. Um trabalhador tem recebido um valor menor do que o do trabalhado realizado. A sociedade pode ser mais próspera, mas o fim do homem chamado justiça foi violado pelo uso de meio injusto. Conforme foi mostrado, a economia é “livre de valores” [6] simplesmente porque ela recusa considerar os valores morais que refreiam o uso de meios injustos.
Ora, o motivo pelo qual economistas liberais não conseguem perceber o erro de os fins justificarem os meios é o afirmar que as atividades econômicas são amorais – não têm implicações morais. Tom Woods, por exemplo, afirma que “absolutamente nada no campo da lei econômica derivada da praxeologia envolve reivindicações normativas” e “é absolutamente irracional argumentar que... a lei econômica deveria ser subordinada à lei moral.” Tom declara isso baseado numa compreensão da Economia como um mero estudo da ação humana para descobrir leis ou operações naturais independentes. [7] Visto que essas leis fazem parte da “natureza” elas não são morais ou imorais; elas apenas existem. Ele compara as leis econômicas até mesmo com a lei da gravidade. [8] O erro decisivo nesse raciocínio é que todas as ações humanas envolvem escolha. As ações humanas não são como a gravidade, que é pré-determinada e opera de forma independente. Escolhas sempre têm implicações morais; ou elas são moralmente lícitas ou são escolhas ilícitas. Tom está certo: a economia envolve o estudo das ações humanas. Não obstante, ao contrário do estudo da gravidade, que existe naturalmente, todos os atos humanos são produtos de uma escolha e têm implicações morais, assim como refreios naturais e divinos.
Consideremos um dos exemplos favoritos de Wood de uma “lei econômica” semelhante, para ele, à gravidade: a lei da oferta e da procura. [9] Quando a oferta diminui ou a demanda aumenta os preços aumentam. Ele afirma que isso pode ser observado empiricamente e, portanto, o movimento do aumento dos preços em decorrência da queda da oferta ou do aumento da demanda é moralmente neutro; isso acontece como resultado da força de uma “lei econômica natural”. Essa asserção é falsa. Os preços não são forças autônomas independentes da escolha humana. Os preços aumentam porque as pessoas escolhem aumentá-los.
Ora, pode ser verdade que desde a aurora da Era Liberal as pessoas passaram a aumentar os preços em tais contextos porque elas acreditam, erroneamente, que não têm escolha alguma: “Uma vez que os preços sempre aumentam com diminuição da oferta, eu tenho de elevar o meu preço.” Na Cristandade, entretanto, quando as pessoas não estavam embriagadas com a propaganda do Liberalismo Econômico, essa não era a reação usual. As causas, natureza e duração da falta de oferta, ou do aumento da demanda, tinham de ser consideradas diante de uma associação, ou de uma autoridade pública, ou um padre confessor que permitiria o mercador a elevar os preços. Então, preços podiam ser alterados, mas desde que houvesse uma razão moralmente lícita para fazê-lo, como um aumento sustentado no custo do transporte das mercadorias.
Além disso, diferentemente da Economia Liberal tal como defendida por Tom Woods, a Economia Católica afirma que não é moralmente permissível o aumento dos preços em decorrência da necessidade particular de um comprador de mercadorias e serviços. Santo Tomás ensina que é injusto da parte de um vendedor cobrar mais porque o comprador necessita particularmente de uma mercadoria. [10]
Para usar outro exemplo oferecido por Woods, [11] se uma crise como os ataques terroristas a Nova York ocorresse e as pessoas fossem destituídas de seus lares, seria justo elevar o custo de um quarto de hotel em 185% simplesmente porque mais pessoas querem quartos? Woods afirma que sim, alegando que permitir esse tipo de extorsão é bom porque permite que o meio pecuniário – o quarto – vá para a pessoa que mais o valorize. Na verdade, isso faz com que o quarto fique com os mais ricos, que podem ou não ser aqueles que dão mais valor ao quarto. Uma pessoa que possua meios modestos e que não tem nenhum outro lugar para encontrar abrigo para sua família pode dar maior valor ao quarto do que um milionário que apenas não quer passar uma noite com seus parentes. A diferença é que o homem de meios moderados tem menos riqueza para expressar o maior valor que dá ao quarto.
Tom tenta desviar do assunto nesse ponto, argumentando que o manter os preços dos quartos em níveis normais num período de crise provocará o desperdício de recursos limitados, com uma família utilizando dois quartos quando ela usaria apenas um se os preços fossem mais altos. [12] Antes de tudo, é precisamente o locatário mais rico, e não o chefe de família com baixo salário, que provavelmente receberá mais do que é devido, locando mais que um para o seu conforto, então o argumento falha por conta disso.
De qualquer modo, uma vez que esse efeito envolve a escolha humana, ele não é inevitável. O proprietário do hotel pode simplesmente determinar que numa emergência uma família com quatro membros poderá locar apenas um quarto de modo que outros que necessitem possam ocupar o segundo quarto. Não há necessidade de elevar o preço em 185% para alcançar o racionamento justo de recursos escassos. Não obstante, uma vez que Tom começou com a falsa premissa moral de que preços e outras decisões econômicas são independentes de uma escolha humana moral, ele argumenta falsamente que as escolhas econômicas deveriam cair onde elas puderem, assim como uma bola jogada só pode cair no chão devido à lei da gravidade.
Então, no final o obscurecimento da escolha humana moral envolvida em todas as atividades econômicas torna-se uma fachada através da qual a riqueza pode ser buscada sem quaisquer limites morais.
Conclusão
A Economia não é uma disciplina que lida com forças invariáveis independentes tal como a física. Ela é o estudo das ações humanas relativas aos meios para se criar bens temporais. Toda ação humana e todos os meios usados para alcançar fins devem ser orientados para, e limitados pelos, fins últimos do homem.
Essa simples verdade tem sido atacada por séculos pelos economistas liberais. É o momento de darmos à Verdade de Cristo, à lei moral natural, o seu lugar apropriado na economia. O único desejo do homem que pode ser moralmente ilimitado é o desejo por Deus. O desejo pela riqueza deve estar sujeito a limites justos, com Deus e Sua lei à vista a todo momento.
Notas:
[1] Henry of Hesse, De contractibus, em John Gerson, Opera omnia, 4 vols. (Cologne, 1483–4), 4, cap. 12, fol. 191ra.
[2] São Bernardo de Clairvaux, De consideratione, trans. George Lewis (Oxford, 1908), bk. 2, ch. 6, p. 47.
[3] Aquino, Summa Theologica II-II, 55, Art. 7 Respostas às Objeções 1 e 2.
[4] Tom Woods, The Church and the Market (Lexington Books 2005)¸ p. 31.
[5] Veja Tom Woods, The Church and the Market, p. 50 et. seq.
[6] Tom Woods, The Church and the Market, p. 31.
[7] Tom Woods, The Church and Market, p. 16.
[8] Tom Woods, The Church and the Market, p. 43.
[9] Veja, por exemplo, Tom Woods, The Church and the Market, Chapter 2.
[10] Summa Theologica II-II Q. 77, Art. 1.
[11] Tom Woods, The Church and the Market, p. 46-47.
[12] Id. p. 47.


[*] Tradução autorizada pelo The Remnant. Para ler o artigo em inglês, clique aqui. (N. do T.)

26/01/2010

Tesouro de Exemplos – mais três historinhas

Do livro Tesouro de Exemplos

VIVA CRISTO REI!

No México, não faz muitos anos, um presidente, chamado Calles, perseguiu com furor não só os padres, mas também todos os católicos militantes. Em setembro de 1927 os soldados de Calles prenderam três jovens: José Valência, Nicolau Navarro e Salvador Veigas, porque faziam propaganda em favor da religião.

Depois de maltratá-los brutalmente, conduziram-nos a 3 de janeiro de 1928, para longe da cidade, e ali os espancaram e feriram com cutelos.

Repreendeu-os José Valência, dizendo:

- Sois uns perversos, martirizando-nos ferozmente; Deus vos perdoe!

E dirigindo-se aos companheiros, recordou-lhes que eram católicos, que a verdadeira pátria era o céu, para onde logo partiriam. E todos os três gritaram: Viva Cristo Rei! Viva a Mãe de

Deus!

Furiosos, os cruéis soldados os espancaram de novo e cortaram-lhes a língua, dizendo:

- Vamos ver se agora falais e rezais!

Ao volver-se o mártir para seus companheiros para mostrar-lhes o céu, fuzilaram-no e em seguida cortaram-lhe a cabeça.

Os outros dois companheiros imitaram o heroísmo do primeiro. Em seguida aquela soldadesca tomou os cadáveres e, levando-os à cidade, deixou-os no meio da praça, como se tivesse realizado uma grande façanha.

Acudiu logo uma multidão imensa de curiosos. Chamaram também a mãe do jovem mártir José Valência. A heróica senhora, em vez de chorar, olhos fixos no céu exclamou:

- Senhor, bendigo-vos por terdes disposto que eu fosse a mãe de um mártir!

E julgando-se indigna de abraçar o corpo do filho, beijou-lhe os pés devotamente.

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CORTEM-LHE A CABEÇA

Conta-se que Teodorico, famoso príncipe ariano, tinha a seu serviço um católico, a quem estimava muito, a ponto de nomeá-lo seu ministro. Esse indivíduo, querendo merecer ainda mais as graças do príncipe, renunciou à religião católica abraçou a ariana, que era uma perigosa heresia.

Ao ter notícia dessa resolução do seu ministro, dirigindo se aos seus dois guardas, disse-lhes o príncipe:

- Cortem-lhe a cabeça!

Estranhando os guardas aquela ordem, acrescentou Teodorico:

- Cortem-lhe a cabeça porque, se este homem é infiel a Deus, não deixará de ser infiel a mim, que não passo de um puro homem.

E o ministro, que esperava grandes favores à custa de sua religião, foi imediatamente decapitado.

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EXPIAÇÃO

Um capelão francês visitava uma ambulância e aproximando-se dum soldado disse-lhe:

- Amigo, disseram-me que você está gravemente ferido e sofre muito.

- O sr. levante o cobertor que me cobre.

Horrorizado viu o capelão um peito robusto sem braços.

- Não se assuste - disse o soldado; levante agora a coberta dos pés.

Faltavam as pernas até os joelhos.

- Pobrezinho! - exclamou o sacerdote.

- Não se compadeça de mim, padre; dê-me antes parabéns, porque antes da guerra eu reduzi ao mesmo estado uma imagem de Jesus Crucificado.

Foi assim: Ao chegarmos à encruzilhada do caminho, eu e meus companheiros encontramos um grande crucifixo e o enchemos de insultos e blasfêmias. Quis avantajar-me a eles em impiedade e com meu sabre cortei os braços e as pernas da imagem. Quando começaram a sibilar as primeiras balas é que compreendi a enormidade de meu crime. Lembrei-me de minha igreja, do vigário, de minha defunta mãe, de meu catecismo.

Pedi a Deus que me castigasse nesta vida. E Deus me ouviu como o sr. está vendo. Como tratei ao crucifixo' assim fui tratado. Quanto maiores forem os meus sofrimentos, tanto maior será o meu consolo; pois assim estou seguro de que Deus quer perdoar-me.

21/01/2010

Lições das missas dominicais pós-Vaticano II– Parte XXVIII

Comento aqui o artigo do Sr. Domingos Zamagna intitulado “Catequese e Ecumenismo”, n’O DOMINGO de 27/09/2009.

Este artigo é muito explícito em pontos que foram apenas anunciados nos artigos anteriores. O que o Sr. Zamagna prega é má doutrina. Não é má doutrina segundo minha opinião, que, neste caso, merece tanta atenção quanto à do próprio articulista. É má doutrina segundo a verdadeira e tradicional Doutrina Católica.

Já no início do artigo, o Sr. Zamagna, citando um grande pensador do século XX, que ele não declina o nome, diz que esse século foi o século do ateísmo e do ecumenismo. Cita na maior inocência sem se dar conta de que este é causa daquele. O ecumenismo leva à apostasia e depois ao ateísmo. Se algum indivíduo minimamente inteligente acredita que em todas as religiões há meios de salvação, logo ele se desvincula da Igreja e procura algum culto que lhe seja menos exigente. De religião em religião, passando pelas religiões orientais, que não são outra coisa senão um materialismo disfarçado, ele chega facilmente ao cientificismo rasteiro, alardeado incessantemente pela mídia, e daí ao ateísmo. Isto é a conclusão lógica do ecumenismo. Ele começa negando que a Verdade esteja somente na Igreja Católica e acaba negando que exista Verdade. Este é o caminho da grande apostasia que existe hoje na Igreja.

Na sua inocência ou inconsciência, o Sr. Zamagna declara sua esperança de que o século XXI seja o século de um “reavivamento da fé e um incremento do movimento ecumênico”. Uma coisa não leva à outra, pois se estamos falando da Fé, aquela cujo depósito se encontra única e exclusivamente com a Igreja Católica, é claro que seu reavivamento significará um decremento do “movimento ecumênico”. Feliz expressão “movimento ecumênico”! Ela desnuda exatamente o que é o ecumenismo: um movimento. Como o foi, e ainda o é, o movimento comunista, o movimento fascista, o movimento ambientalista, etc. Colocamos assim o ecumenismo com seus irmãos siameses. São movimentos políticos, ao estilo de Judas Iscariotes. São heresias, no sentido em que elas são entendidas pela tradição católica.

Chama a atenção do leitor a seguinte frase do Sr. Zamagna: “a busca da unidade entre os cristãos, certamente um movimento moderno inspirado pelo Espírito Santo ...” Meu Deus! Esses pregadores pós CVII consideram que o primeiro papa foi João XXIII. Quando é que a Igreja desistiu de converter os hereges? Quando é que a Igreja deixou de rezar pela conversão dos hereges? Quando é que pregadores do talante de São Francisco de Sales deixaram de pregar aos protestantes com o intuito de sua conversão? O que é novo, e o que não é em absoluto inspirado pelo Espírito Santo, é a idéia herética de que a união dos cristãos seja feita, não a partir da conversão à Igreja Católica, mas a partir da conversão dos católicos a uma religião comum, que contenha elementos comuns aos dois (ou três, quatro, etc.) lados. Chesterton chamava esta religião de “Religião da Irmandade Universal”, cujo fundamento seria o que ele chama de “Fé Progressista”. E com quem irmanaríamos? Quem seriam nossos irmãos nesta ampla e progressista religião? Chesterton nos diz: “O deão da Catedral de São Paulo [da Igreja Anglicana] que se permite alegremente chamar a Igreja Católica de uma corporação traidora e sangrenta; o Sr. H.G. Wells que se permite comparar a Santíssima Trindade a uma dança indigna; o Bispo de Birmingham [bispo da Igreja Anglicana] que se permite comparar o Santíssimo Sacramento a uma bárbara festa de sangue.”

Diz ainda, perigosamente, o Sr. Zamagna: “A Igreja sempre nos ensinou que permanece nela a plenitude das verdades reveladas e dos meios de salvação instituídos por Jesus Cristo; mas essa convicção deve ser acolhida com humildade e no respeito às demais religiões ...” É-me impossível não lembrar novamente de Chesterton. Diz este escritor em sua obra-prima Ortodoxia: “O mundo moderno está repleto de antigas virtudes cristãs que enlouqueceram. Essas virtudes enlouqueceram porque ficaram isoladas umas das outras e vagueiam por aí sozinhas. (...) Acontece, porém, que a humildade está no lugar errado. A modéstia afastou-se do órgão da ambição e estabeleceu-se no órgão da convicção, onde nunca deveria estar. O homem podia duvidar de si, mas não duvidava da verdade. Agora se dá exatamente o contrário.” A convicção do Sr. Zamagna é humilde, pois ele relativiza a verdade, e sua ambição monstruosa: nada mais do que fundar a “Religião da Irmandade Universal”.

No final do artigo, o Sr. Zamagna declara sua concepção de catequese: “Daí a importância de, ao lado da exposição correta da fé cristã e católica, fazermos também verdadeira exposição sobre as outras religiões, sem caricaturas.” Note a expressão “fé cristã e católica”! Que significa isto? Há uma fé cristã e outra católica? Ora! se existe de início tal dúvida, como catequizar alguém? Além disso, o Sr. Zamagna está confundindo catecismo com estudo comparado de religiões.

Mas o articulista continua: “Essa mesma lealdade devemos esperar de quem não professa nenhuma crença ou segue uma religião diferente da nossa, o que não nos impede de valorizar os pontos de convergência doutrinária e ultrapassar as barreiras do preconceito para realizarmos a prática comum da justiça e do amor.” Este é um exemplo prático da humildade enlouquecida, da humildade localizada no “órgão da convicção”. A religião do Sr. Zamagna é aquela que é tão ampla que inclui, não só os inimigos declarados da Fé Católica, mas até os ateus. Inclui não só o deão da Catedral de São Paulo ou o Bispo de Birmingham, mas também H.G. Wells. Catequese para ele é a pregação do vale tudo doutrinário, do quem quiser pode entrar, do amor à criatura e não ao Criador.

1. Para fazer DOWNLOAD DO LIVRO com os primeiros 28 posts sobre a Missa de Paulo VI (e algumas coisas mais) clique aqui.

2. Para ver outros comentários sobre a Missa nova, clique: Parte XX, Parte XXI, Parte XXII, Parte XXIII, Parte XXIV, A dissolução da catequese: Romano Amério conta como foi, Parte XXV, Parte XXVI, Parte XXVII

16/01/2010

O QUE É “A COISA”?

 

Tenho traduzido um livro de Chesterton pouco conhecido do público brasileiro (“A Coisa”), público este que conhece muito pouco desse extraordinário escritor católico inglês. Em algum momento um leitor pediu que eu desse uma contextualização maior sobre o livro e sobre os ensaios nele contidos. Não tive tempo de fazer mais do que, em todo ensaio traduzido, adicionar a frase “Do livro ‘A Coisa’, publicado em 1929”. Pretendo agora dar um pouco mais de informação sobre o livro, traduzindo a introdução do mesmo e também um comentário de Dale Ahlquist, contido em seu interessante livro “G.K. Chesterton: The Apostle of Common Sense” [G.K. Chesterton: O Apóstolo do Senso Comum].

Apenas como informação adicional, “A Coisa” é o primeiro livro de Chesterton publicado após sua conversão, que ocorreu em 1922. Chesterton era, de fato, um católico muito antes disso. Sua conversão demorou muito, pois ele esperou sua esposa, que era anglicana, para que ambos se convertessem simultaneamente. Que maior prova de amor um marido pode dar à sua esposa?

Sobre esta conversão Ahlquist diz na introdução de seu livro: “Em 1922, eles [seus críticos] ficaram ainda mais chocados, quando G.K. Chesterton se tornou membro da Igreja Católica Romana. Que um grande homem de letras abraçasse a antiga Igreja de Roma era algo como um escândalo no mundo literário e no meio intelectual. Eles pensaram que Chesterton tinha repentinamente se tornado mais limitado, quando de fato, se tornara universal. O que para eles era um completo quebra-cabeça era, para o próprio Chesterton, a peça final do quebra-cabeça, a completude de um completo pensador.”

Antes de passar aos uextos, listo abaixo, na ordem em que aparecem no livro, os 9 ensaios que traduzi até agora, de um total de 35.

A lógica e o tênis

Por que sou católico

A máscara do agnóstico

Um pensamento simples

A Revolta contra as Idéias

As superstições do protestante

Raízes da sanidade

Inge versus Barnes

O que pensamos a respeito

Pretendo traduzir todos os ensaios, se Deus quiser. Vamos aos textos.

Comentário de Dale Ahlquist – Capítulo 6

Em 1929, Chesterton publicou uma coleção de ensaios sobre o sugestivo título “A Coisa”. (Edições modernas do livro têm adicionado o subtítulo “Por que sou católico”, que é o título de um dos ensaios do livro.) O que é “A Coisa”? Não é apenas qualquer coisa. Não é apenas outra coisa. É A Coisa. É a Igreja Católica.

Nesse livro Chesterton compara “A Coisa” com todas as coisas: filosofias mundanas, negócios, nacionalismo, protestantismo, agnosticismo, arte, história, educação, e até mesmo esportes. A palavra “católico” significa “universal”, e nesse livro Chesterton mostra como A Coisa aplica-se a tudo o mais. Ele também mostra com A Coisa se opõe a tudo o mais. Os ataques contra a fé católica vêm de todos os lados. Chesterton nota que a “tolerância religiosa” parece significar que o cristão liberal e tolerante vê o bem em todas as religiões e nada, exceto o mal, na Igreja Católica. Ele não apenas defende a Igreja de uma grande variedade de ataques, ele mostra como ela é a solução correta para todos os dilemas do mundo. Em todos os casos, a posição católica é a do senso comum. “A Fé”, diz ele, “devolve ao homem seu corpo, sua alma, sua razão, sua vontade e sua própria vida.”

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INTRODUÇÃO

Do livro “A Coisa”, publicado em 1929.

Gilbert Keith Chesterton

Objetar-se-á naturalmente em relação à publicação destes ensaios dizendo que são de natureza efêmera e controvertida. Em outras palavras, o crítico normal os desprezará como excessivamente frívolos e desgostará deles por serem excessivamente sérios. A trégua de bom gosto assaz unilateral, envolvendo todas as questões religiosas, que prevaleceu até pouco tempo atrás, agora deu lugar a uma guerra assaz unilateral. Mas a trégua pode ainda ser invocada, como o terrorismo do gosto é invocado contra a minoria. Todos conhecemos o bom e velho coronel conservador que jura, com sua face vermelha, que não vai falar de política, mas aquela condenação ao inferno de todos aqueles malditos socialistas não é política. Todos temos um agradável sentimento pela querida e velha senhora, que vive em Bath ou Cheltenham, que não sonharia maldizer ninguém, mas que certamente pensa que todos os discordantes são excessivamente temerários ou que empregados irlandeses são realmente impossíveis. É no espírito dessas duas pessoas admiráveis que a controvérsia é agora conduzida na imprensa, em nome de uma Fé Progressiva ou de uma Religião da Irmandade Universal. Assim, contanto que o escritor empregue gestos de companheirismo e hospitalidade vastos e universais a todos os que estão prontos a abandonar suas crenças religiosas, lhe é permitido ser tão rude quanto ele queira a todos os que se aventuram a retê-las. O deão da Catedral de São Paulo se permite alegremente chamar a Igreja Católica de uma corporação traidora e sangrenta; o Sr. H.G. Wells se permite comparar a Santíssima Trindade a uma dança indigna; o Bispo de Birmingham[1] se permite comparar o Santíssimo Sacramento a uma bárbara festa de sangue. Considera-se que frases como estas não conseguem perturbar aquela paz e harmonia humanas que todos os humanitaristas desejam; não há nada NESSAS expressões que poderia interferir com a irmandade e a simpatia que une a sociedade. Podemos estar certos disto, pois temos a palavra dos próprios escritores de que seu objetivo é gerar uma atmosfera de liberalidade e amor. Se, portanto, qualquer interrupção infeliz estragar a harmonia da ocasião, se for realmente impossível que essas festividades fraternais transcorram sem algum tolo distúrbio, ou sem alguém fazer uma cena, é óbvio que a culpa deve recair sobre uns poucos indivíduos irritáveis e irritantes, que não aceitam essas descrições da Trindade, do Santíssimo Sacramento e da Igreja como expressões que tranqüilizem seus sentimentos ou satisfaçam suas idéias.

Está claro em todas essas afirmações que elas são aceitas por todas as pessoas inteligentes, exceto por aqueles que não as aceitam. Mas como eu mesmo, em minha experiência política, me aventurei a duvidar do direito do coronel conservador de amaldiçoar seus oponentes políticos e dizer que isso não é política, ou da senhora de amar a todos e odiar os irlandeses, tenho a mesma dificuldade em admitir o direito do cristão mais liberal e tolerante de ver o bem em todas as religiões e nada, exceto o mal, na minha. Mas sei que publicar réplicas para se contrapor a isso, particularmente réplicas diretas que já foram usadas em controvérsias reais, será considerado por muitos como uma provocação e uma impertinência.

Bem, devo confessar neste caso que sou tão antiquado a ponto de senti-lo como um ponto de honra. Penso que posso dizer que sou normalmente do tipo sociável, que se dá bem com seus semelhantes; nem sempre estou disposto a discutir ou disputar; e valorizo muito as relações geralmente alegres que mantenho com aqueles que de mim diferem por meros argumentos. Gosto muito da Inglaterra, mesmo como ela é, muito diferente do que foi ou poderá vir a ser; tenho vários gostos populares, das histórias de detetives à defesa dos bares; vi-me em muitas situações do lado da maioria, como por exemplo, na propaganda do patriotismo inglês durante a Grande Guerra. Posso até descobrir nessas simpatias um material suficiente para interesses populares; e, num sentido mais prático, nada me satisfaz mais do que escrever histórias de detetive, exceto lê-las. Mas se nesta excessivamente feliz e preguiçosa existência descubro que meus companheiros de religião estão sendo execrados com insultos por dizerem que sua religião é verdadeira, não seria correto que eu não me colocasse na posição de ser também insultado. Muitos deles tiveram uma vida muito dura e eu, uma vida muito fácil, para não considerar um privilégio ser objeto dos mesmos curiosos e controvertidos métodos. Se o deão da Catedral de São Paulo realmente acredita, como ele indubitavelmente diz, que os mais devotos e devotados líderes da Igreja Católica, quando aceitam (realista, e mesmo, relutantemente) o fato de um milagre moderno, eles fazem parte de uma “lucrativa impostura”, devo preferir acreditar que me acusa, juntamente com homens melhores que eu, de me tornar um impostor meramente por lucro imundo. Se a palavra “jesuíta” é usada como sinônimo da palavra “mentiroso”, devo preferir que a mesma simples tradução deva se aplicar à palavra “jornalista”, o que é muito mais freqüentemente verdade. Se o deão acusa os católicos, como católicos, de desejar que homens inocentes morram na prisão (como ele faz), devo preferir que ele me conte como responsável por alguma parte desse terrível e sanguinário melodrama; isso poderia, em qualquer caso, servir de material para uma história de detetive. Em resumo, é precisamente porque eu simpatizo e concordo com meus companheiros protestantes e agnósticos, em noventa e nove assuntos em cem, que sinto ser um ponto de honra não desprezar suas acusações nesses pontos, se eles realmente têm tais acusações a fazer. Sinto muito se este pequeno livro parece ser controvertido em assuntos sobre os quais todo mundo se permite ser controvertido, exceto nós mesmos. Mas temo que não haja solução para isso; e se asseguro ao leitor que tentei começar escrevendo-o com um inquebrantável espírito de caridade, é sempre possível que a caridade possa ser tão unilateral quanto a controvérsia. De qualquer maneira, o livro representa minha atitude em relação à controvérsia; e é quase impossível que tudo nele esteja errado, exceto o que esteja certo.


[1] Bispo da Igreja Anglicana. (N. do T.)

09/01/2010

O profeta “frei” Betto: agora ele se mostra inimigo da Igreja

“Frei” Betto, chamado por Pe. Gelson de profeta (clique aqui e veja também os comentários), escreve um artigo no Estado de Minas de 07/01/2010, intitulado “Novo olhar sobre o universo”. Nele este “frei” ataca a Igreja Católica, enaltece Galileu e Copérnico e cita, como gran finale, o herético e impostor Teilhard de Chardin. Ele mostra de uma só tacada, que, não só não é católico, como é inimigo da Igreja.

Mostra também que “o modo de concebermos Deus” é comandado pela ciência. Aqui ele mostra que não entende nada sobre a ciência. O objeto da ciência não é Deus e sim um recorte muito limitado do que chamamos de natureza. Colocar-se à mercê da ciência para conceber Deus é de um primarismo mental colossal.

Assim, ele nos descreve como a cosmovisão de Ptolomeu “favoreceu a hegemonia espiritual, cultural e econômica da Igreja Católica, encarada pela fé como imagem da Jerusalém Celeste.” Ficamos a imaginar toda a expansão da Igreja na época pós-apostólica, naqueles trezentos anos terríveis sob a pata do Império Romano, com tanto sangue dos mártires escorrendo pelas ruas de Roma, os pregadores cristãos falando, não sobre Cristo, não sobre a Redenção, não sobre a Ressurreição, mas sobre Ptolomeu e seus ciclos e epiciclos. É só lermos na História Eclesiástica, de Eusébio de Cesaréia, a história do martírio de São Policarpo, bispo de Esmirna. Vejamos uma passagem dessa obra, quando narra o martírio do bispo.

“Logo em volta dele foram dispostos os materiais adequados para a fogueira. Como se preparavam para fixá-lo, pregando-o, disse: ‘Deixai-me assim, pois Aquele que me concedeu aguardar com firmeza o fogo, conceder-me-á ainda, sem a garantia de vossos pregos, ficar imóvel na fogueira.’ Por isso, não foi pregado, e sim amarrado.

“Amarrado, com as mãos às costas, parecia um cordeiro escolhido, tirado de grande rebanho, para se tornar um holocausto agradável a Deus onipotente. Então, disse: ‘Pai de teu filho bem-amado e bendito Jesus Cristo, por meio do qual adquirimos o conhecimento de Ti, Deus dos anjos, das potestades, e de toda a criação, da geração dos justos que vivem diante de Ti, eu Te bendigo porque me julgastes digno deste dia e desta hora; de participar do número dos mártires, do cálice de teu Cristo, para a ressurreição da vida eterna, do corpo e da alma, na incorruptibilidade do Espírito Santo. Seja recebido entre eles diante de Ti, hoje, num sacrifício gordo e aceitável, conforme preparaste e manifestaste previamente, e que consumaste, Deus sem mentira e verdadeiro. Por isso e por todas as coisas, eu Te louvo, Te bendigo, Te glorifico, pelo eterno e sumo sacerdote, Jesus Cristo, Teu Filho bem amado, por quem a Ti, com Ele, no Espírito Santo, glória seja dada agora e nos séculos futuros. Amém.’ ”

Isso tudo ocorreu com Policarpo quando ele já passava dos 80 anos. E veja que “frei” Betto nos quer fazer crer que o cristianismo se fortaleceu à sombra de ciclos e epiciclos, de um modelo de medição de posição de estrelas e planetas concebido por Ptolomeu. Nada a ver com Cristo e seus apóstolos e mártires. Nada a ver com o Espírito Santo iluminando os cristãos ao longo da história e fortalecendo sua Igreja. E notem só a malícia da expressão “hegemonia econômica da Igreja”.

Esse herege malicioso considera que a cosmovisão da Jerusalém Celeste foi criada por Ptolomeu. Será que ele já ouviu falar de Santo Agostinho e sua obra a Cidade de Deus?

Ele prossegue profetizando: “Com o advento da Idade Moderna, (...) o paradigma da fé deu lugar à razão, a religião à ciência.” Aqui se demonstra de forma cabal que esse “frei” não conhece também Santo Tomás. Mas não precisamos ir muito alto. Não precisamos escalar a montanha chamada Santo Tomás de Aquino. Precisamos apenas perguntar ao articulista do Estado de Minas, exatamente como esses paradigmas se sucederam. Como a razão sucedeu à fé e a religião, à ciência. Isso quer dizer que hoje o homem não deve ter fé, porque a razão já provou que é inválido tudo em que acredita aquele que tem fé? O homem religioso deve, agora, desistir de sua religião porque a ciência desacreditou completamente seus fundamentos? Diga-nos senhor “frei”, em que a mecânica quântica descredencia o Decálogo, ou a teoria da relatividade descredencia o dogma da Imaculada Conceição, ou a segunda lei da termodinâmica descredencia a presença de Nosso Senhor no Sacramento da Eucaristia, ou a genética descredencia o Pecado Original? Quanto à razão, em que ela fica diminuída num homem que crê nas aparições de Nossa Senhora ao longo da história, ou na ressurreição de Lázaro, ou não transformação de água em vinho nas bodas de Caná, ou nos cinco estigmas de São Padre Pio, ou nas visões de Santa Brígida da Suécia, para citar alguns exemplos?

Os que dão algum crédito a tais argumentos devem ler, no mínimo, o livro de David Berlinsk, The Devil's Delusion, que demonstra integralmente que a ciência não tem autoridade alguma em relação a nenhuma religião do mundo.

Existem coisas também hilariantes no artigo em tela. Exaltando a mecânica quântica, nosso “frei” solta esta: “No interior do átomo, a nossa lógica cartesiana não funciona, pois ali predomina o princípio da indeterminação, ou seja, não se pode prever com exatidão o movimento das partículas subatômicas.” Uai! como diríamos nós mineiros (eu e ele), dados e roletas têm também resultados unitários indeterminados. Será que eles também destroem a “lógica cartesiana”. Aliás, o quem vem a ser essa “lógica cartesiana”? Será que o articulista do jornal mineiro já ouviu falar de estatística? A confusão deste senhor é monu-mental!

Outra coisa hilariante é esta: “Nossa visão religiosa agora é pananteísta. O pananteísmo diz que Deus está em todas as coisas.” Notaram a palavrinha “agora”. Este senhor se considera fundador de uma nova religião. Só que se ele continuar assim vai acabar descobrindo o catolicismo qualquer hora destas! A presença de Deus em toda a criação é uma das muitas coisas em que os católicos sempre acreditaram. Para nós Deus está presente inclusive no Inferno, através de sua Justiça. Seria necessário apenas que esse senhor lesse a Questão 8 da Suma Teológica, de Santo Tomás de Aquino. Esta questão é sobre a existência de Deus nas coisas e está divida em 4 artigos: Deus está em todas as coisas?; Está Deus em toda parte?; Deus está em toda parte por sua essência, presença e poder?; Estar em toda parte é próprio de Deus? Não seria pedir muito que as pessoas estudassem um pouco antes de opinar.

Sejamos claros: “frei” Betto não conhece a Doutrina Católica e é um inimigo da Igreja. E ainda há padres que o consideram profeta!

05/01/2010

Lições das Missas de Paulo VI

Acabo de atualizar o arquivo do livro em que compilo meus comentários sobre os textos dos folhetos das Missas do Rito de Paulo VI. Para fazer download da versão atualizada, clique aqui.

03/01/2010

O QUE PENSAMOS A RESPEITO

Do livro "A Coisa", publicado em 1929.

Gilbert Keith Chesterton

Estava passando os olhos outro dia numa revista semanal, que é supostamente da área da cultura popular; neste caso em particular, da área da ciência popular. Na prática, ela oferece principalmente o que seus leitores otimistas chamam de “pensamento moderno” e o que mais comumente chamamos de modernismo. A revista não é, de modo algum, injusta ou exclusiva a pontos de vistas opostos; mais de uma vez ela me permitiu réplicas a artigos nela contidos; e lendo a edição em questão, meus olhos foram atraídos pelo meu próprio nome.

Ele apareceu num artigo sobre as doutrinas religiosas do Sr. Arnold Bennett. A proeminência desse nome na mídia em conexão com esses assuntos é um dos impressionantes mistérios do moderno jornalismo. Tenho não somente uma grande admiração pelo seu gênio artístico, mas também, de muitas formas, aprecio fortemente a personalidade humana do Sr. Arnold Bennett. Gosto de sua vitalidade e desprezo pelo desprezo. Gosto de sua humanidade e sua compassiva curiosidade sobre tudo que é humano. Gosto daquela essencial ausência de esnobismo que o torna capaz inclusive de se simpatizar com os esnobes. Mas falar das crenças religiosas do Sr. Arnold Bennett parece-me exatamente como falar das aventuras de caça às raposas do Sr. Bernard Shaw ou da coleção de vinhos raros do Sr. Pussyfoot Johnson,[1] das visões celestiais do Sr. Arthur Keith[2], ou dos votos monásticos de Sr. Bertrand Russel. O Sr. Arnold Bennett nunca ocultou, me parece, o fato essencial de que ele não tem crenças religiosas; como são estas entendidas na língua inglesa da forma que a aprendi. Que ele tenha vários estimáveis sentimentos e simpatias morais não duvido por um momento. Mas a questão do Sr. Arnold Bennett é, no momento, um parêntesis. Menciono-o aqui meramente porque estava no tal artigo em que fui mencionado; e confesso que considerei a referência um pouco estranha. Não surpreenderá o leitor o fato de que o autor considerou-me menos modernista que o Sr. Arnold Bennett. Minhas crenças religiosas não são tão puras, virginais e inocentes, mas foram desfiguradas com afirmações definitivas sobre várias coisas. Mas o autor declarava ter descoberto algo duvidoso e misterioso sobre minha atitude; e o que me mistifica é sua mistificação. Ele delicadamente sugere que há mais coisas em mim do que os olhos podem ver; coisas interiores, que vão além daqueles espetáculos papistas, mas que é inútil submeter-me a uma vivissecção para descobrir o segredo. Ele diz: “O Sr. Chesterton não quer nos esclarecer; pelo que sabemos, ele é modernista o bastante em seus próprios pensamentos.”

Ora, seria um pouco irritante se um ateu dissesse, de algum inofensivo cristão protestante como General Booth[3]: “Pelo que sabemos, ele é ateu o bastante em seus próprios pensamentos.” Podemos mesmo arriscar perguntar como o ateu pôde formar alguma noção sobre o que General Booth pensou, em tão completa contradição com tudo o que ele dissera. Ou eu mesmo, por outro lado, poderia parecer descortês se sugerisse que o Sr. Arnold Bennett pudesse estar ocultando sua conversão por covardia; e expressasse tal coisa da seguinte forma: “O Sr. Bennett nunca nos dirá a verdade sobre isso; pelo que sabemos, ele é papista o bastante em seus próprios pensamentos.” Posso ser inclusive interrogado sobre como chegara a tais suspeitas sobre os pensamentos secretos do Sr. Arnold Bennett; se escondera sob sua cama e ouvira-o sussurrar orações em latim em seus sonhos, ou contratara um detetive particular para verificar a existência de seu cilício e de suas relíquias ocultas. Pode-se perceber que, até que eu produza um caso PRIMA FACIE para minhas suspeitas, seria mais cortês supor que as opiniões do Sr. Bennett fossem o que ele próprio disse que são. E se eu fosse sensível a tais coisas, poderia fazer uma solicitação bastante incisiva de que as pessoas que não soubessem nada a meu respeito, exceto o que eu digo, acreditasse, para a conveniência geral, no que eu digo. A respeito do assunto modernismo, de qualquer forma, nunca houve a mínima dúvida ou dificuldade sobre o que digo. Pois, de fato, eu sempre tive um forte desprezo intelectual pelo modernismo, mesmo antes de acreditar realmente no catolicismo.

Mas eu pertenço, como um produto da evolução biológica, à ordem dos paquidermes. E não sou movido minimamente por qualquer irritação; mas somente por uma extrema curiosidade a respeito da razão real para aquele notável ponto de vista. Sei que o autor não quis dizer nada ofensivo; estou muito mais interessado em saber o que ele quis dizer. E a verdade é que, sob meu ponto de vista, encontra-se escondida naquela frase curiosa e enigmática toda a controvérsia moderna sobre o catolicismo. O que o homem quis realmente dizer foi que: “Mesmo o podre e velho Chesterton deve pensar; ele não pode ter deixado de pensar completamente; deve haver alguma função cerebral em atividade a fim de preencher as horas vagas de sua vida equivocada e inútil; e é óbvio que se um homem começa a PENSAR, ele só pode pensar mais ou menos na direção do modernismo.” Os modernistas pensam realmente assim. Esta é a questão. Esta é a piada.

O que temos realmente de enfiar a marteladas dentro da cabeça desses indivíduos é que um homem pode pensar cada vez mais profundamente sobre o catolicismo e não sobre as dificuldades do catolicismo. Temos de fazê-los ver que a conversão é o começo de uma vida intelectual ativa, frutífera, progressista e mesmo venturosa. Pois ESTA é a coisa em que eles não podem presentemente acreditar. Eles honestamente dizem a si mesmos: “O que ele pode estar pensando, se não estiver pensando sobre os Erros de Moisés, segundo as descobertas do Sr. Fulano de Almeida, ou ousadamente denunciando todos os terrores da Inquisição que existiam dois séculos atrás na Espanha?” Temos de explicar, de alguma forma, que os grandes mistérios como o da Santíssima Trindade ou do Santíssimo Sacramento são os pontos iniciais para reflexões muito mais estimulantes, sutis e mesmo individuais, que comparado com eles, todo esse blablablá cético é tão ralo, frívolo e poeirento quanto uma maldosa matéria sensacionalista numa pequena cidade da Nova Inglaterra. Assim, aceitar o Logos como uma verdade é estar na atmosfera do absoluto, não somente com São João Evangelista, mas com Platão e todos os grandes místicos do mundo. Aceitar o Logos como um “texto” ou uma “interpolação” ou “desenvolvimento” ou uma palavra morta num documento morto, usada apenas para dar, em rápida sucessão, umas seis datas diferentes para aquele documento, é estar totalmente num plano inferior de vida humana; é estar se debatendo por um mero sucesso negativo; mesmo que fosse realmente um sucesso. Exaltar a Missa é entrar num suntuoso mundo de idéias metafísicas, que iluminam todas as relações de matéria e mente, de carne e espírito, das mais impessoais abstrações, tanto quanto das mais pessoais afeições. Planejar desdenhar e minimizar a Missa com fugazes comentários sobre o que ela tem em comum com Mitras e as Religiões de Mistérios, é estar completamente tomado por um espírito apequenado e pedante; não somente um espírito inferior ao catolicismo, mas inferior mesmo comparado ao mitraismo.

Como disse antes, é muito difícil dizer como podemos atacar essas coisas. Nós e nossos críticos falamos em duas línguas diferentes; assim, os próprios nomes com que descrevemos as coisas do lado de dentro significam coisas totalmente diferentes nas etiquetas que eles pregam na parede do lado de fora. Não raro se disséssemos as grandes coisas que temos a dizer, elas soariam como as pequenas coisas que eles nos acusam de dizer. Um processo filosófico só pode começar pelo fim correto; e eles tomam tudo pelo fim errado. Mas estou disposto a pensar que devemos começar contestando uma frase, ou seqüência de palavras, muito comum; uma coisa que se tornou um slogan e uma legenda; ou, na linguagem popular ordinária, uma manchete. Porque os jornalistas a repetem incessantemente, e chama para ela atenção pelo fato de repeti-la, talvez possamos chamar a atenção negando-a.

Quando um jornalista diz, pela milésima vez, “Uma religião viva não é feita de tediosos e empoeirados dogmas, etc.”, devemos interrompê-lo com um grito e dizer, “Ei – você está errado de início.” Se ele se permitir perguntar o que são os dogmas, descobrirá que são precisamente os dogmas que estão vivos, que são inspiradores, que são intelectualmente interessantes. Ardor, caridade e unção são admiráveis como flores e frutos; se você está interessado no princípio vivo, você deve estar interessado na raiz ou na semente. Em outras palavras, você deve estar inteligentemente interessado na afirmação da qual tudo começou; mesmo se for apenas para negá-la. Mesmo se o crítico não puder concordar com o católico, pode chegar a perceber que são algumas idéias a respeito dos Cosmos que o faz católico. Ele pode perceber que o fato de ser cósmico desta forma, e o católico daquela forma, é o que o faz diferente das outras pessoas; e o que o faz, no mínimo, uma figura, de nenhuma forma desinteressante, da história humana. Ele não chegará a nenhum lugar perto disto sentimentalizando contra o sentimento católico, ou pontificando contra os pontífices católicos. Ele deve tomar as idéias como idéias; e então descobrirá que as idéias mais interessantes de todas são aquelas que os jornais denigrem como dogmas.

Por exemplo; a doutrina da Dupla Natureza de Cristo é interessante, no sentido mais genuíno; deve ser interessante para qualquer um que a entenda, muito antes de nela acreditar. Ela tem o que se pode chamar, com toda a reverência, de um interesse estereoscópico; o interesse de ter dois olhos na cabeça que criam um objeto, de ter dois ângulos num triângulo que determinam o terceiro. A antiga seita monofisista declarava que Cristo tinha apenas a natureza divina. A nova seita monofisista declara que Ele tinha apenas a natureza humana. Mas não é um trocadilho ou um ardil, mas uma verdade, dizer que o monofisista é por natureza monótono. Em qualquer de suas duas formas, ele está naturalmente num mesmo tom. A questão da verdade histórica objetiva é uma outra questão, que não quero discutir aqui, embora esteja pronto a discuti-la em qualquer lugar. Estou discutindo sobre estímulo intelectual e o ponto inicial do pensamento e da imaginação. E estes, como todas as coisas viventes, nascem da conjunção de duas, e não de uma apenas. Assim, leio com simpatia, mas uma simpatia que não vai além do sentimento, os estudos dos modernos monofisistas sobre a vida de um limitado e meramente mortal Jesus de Nazaré. Eu respeito o respeito deles; admiro sua admiração; sei que tudo que dizem sobre a grandeza humana e o gênio religioso é verdade, até certo ponto. Mas esse ponto está sobre uma linha somente; e não tem o poder de convencimento que têm as coisas que podem convergir. E então, depois de ler tal tributo a um mestre da ética, à maneira dos Essênios, talvez eu vire uma outra página do mesmo livro, ou de um similar; e me depare com alguma frase referente a uma religião real, embora pagã; talvez com algum suposto paralelo com o que é chamado um Cristo pagão. Já vi escrito, mesmo que apenas a respeito de Atis e Adonis, “Havia uma concepção de que o deus se sacrificou por si mesmo.” O homem que consegue ler estas palavras sem um arrepio está morto.

O arrepio é mais forte em nós, claro, porque está ligado a um fato e não a uma fantasia. Nesse sentido, não admitimos que haja nenhum paralelo com as antigas lendas pagãs, como sugerem os livros dos modernos pagãos. E, de fato, estamos seguros em afirmar que seja apenas senso comum dizer que não pode haver um paralelo integral entre o que foi admitidamente um mito ou mistério e o que foi admitidamente um homem. Mas a questão aqui é que a verdade oculta mesmo nos mitos e mistérios está completamente perdida se nos limitamos à consideração de um homem. Nesse sentido, há uma verdade irônica e inconsciente nas palavras dos modernos pagãos, que cantam que “o pagão nos sobrevive e enfrenta”, e que “nossas vidas e nossos ardentes desejos são duas coisas diferentes”.[4] Isso é verdade em relação aos modernistas, mas não é verdade em relação a nós, que encontramos simultaneamente a realização de um desejo ardente e a história de uma vida. É inteiramente verdade que houve, em muitos mitos pagãos o débil prenúncio dos mistérios cristãos; embora ao dizer isso admitimos que os prenúncios eram sombras.[5] Mas quando todo o parentesco imaginário tiver sido explorado ou permitido, não será verdade que a mitologia possa se elevar à altura da teologia. Não é verdade que um pensamento tão ousado ou tão sutil como este tenha passado pela mente que criou os centauros e os faunos. Nas mais espantosas e gigantescas das fantasias épicas primitivas não havia nenhuma concepção tão colossal quanto um ser que fosse tanto Zeus quanto Prometeu.

Mas apenas faço uma advertência aqui, não a fim de discutir sua verdade contra aqueles que não acreditam nela, mas a fim de insistir em seu intenso interesse intelectual para aqueles que nela acreditam. Desejo apenas explicar àqueles que se interessam, que uma mente repleta com a verdadeira concepção dessa Dualidade tem muito que pensar e não necessita escavar deuses mortos para desacreditar o Homem Eterno. Não há necessidade que eu seja modernista em meus próprios pensamentos, ou monofisista em meus próprios pensamentos; pois penso que essas idéias são muito mais tolas e triviais que as minhas próprias. Nas belas palavras da canção de amor em “The Wallet of Kai Lung”, uma das poucas, verdadeiras e psicológicas canções de amor do mundo: “Esta pessoa insignificante e universalmente desprezada prefere sem hesitação seus próprios pensamentos aos dos outros.”[6]

Muitos outros exemplos poderiam ser dados. Esta pessoa (se me for permitido uma vez mais usar a graciosa locução chinesa) logo exauriria o entusiasmo de descobrir que Maria e Maia começam, ambas, com um M, ou que a Mãe de Cristo e a Mãe do Cupido foram ambas representadas por mulheres. Mas sei que nunca devo exaurir a profundidade daquele insondável paradoxo, que é definido tão audaciosamente no próprio título de Mãe de Deus. Sei que há conexões de pensamentos e imaginação muito mais profundas, saudáveis e libertadoras naquele enigma do perfeitamente humano ter tido, uma vez, uma autoridade natural sobre o sobrenaturalmente divino, do que em qualquer tipo de identificação iconoclasta que assimila todas as imagens sagradas achatando todas as suas faces. No momento em que Cristo é feito igual a Osíris, pouco sobra de ambos; mas Cristo, como concebido pela Igreja Católica, é uma combinação complexa, não de duas coisas irreais, mas de duas coisas reais. Da mesma forma, um Astarot[7] exatamente igual a uma madona de Rafael, ou vice versa, pareceria uma visão algo monótona; enquanto que há algo que é, no sentido mais intelectual, único sobre a concepção da THEOTOKOS. Em resumo, em toda essa mera unificação das tradições, verdadeira ou falsa, há algo que pode ser muito simplesmente descrito como tola. Mas os dogmas não são tolos. Mesmo os que são chamados de finas distinções doutrinais não são tolos. São como as delicadas intervenções cirúrgicas; que separam nervo de nervo, mas para promover a vida. É muito fácil achatar tudo num raio de quilômetros com dinamite, se seu objetivo é promover a morte. Mas tal como o fisiologista está tratando com tecidos vivos, assim também o teólogo está tratando com idéias vivas; e se ele faz uma distinção entre elas, é naturalmente uma finíssima distinção. É costume – que embora sendo deste nosso tempo, já é um costume que exala mau cheiro – alegar que os gregos ou italianos que discutiam sobre a Trindade ou sobre os Sacramentos estavam dividindo fios de cabelo ao meio. Não sei se dividir fios de cabelo é mais triste do que tingir o cabelo, na tentativa vã de imitar os cabelos dourados de Freia ou os cabelos negros de Cotito. A subdivisão de um fio de cabelo nos diz, pelo menos, sobre sua estrutura; enquanto que sua mera descoloração não nos diz nada. A Teologia nos introduz na estrutura das idéias; enquanto que o sincretismo teosófico meramente elimina todas as cores dos coloridos contos de fada do mundo. Mas meu único propósito aqui é tranqüilizar o gentil cavalheiro que estava preocupado com a secreta doença da modernidade que estaria corroendo minha mente, de resto, vazia. Apresso-me ardentemente em explicar que estou muito bem, obrigado; e que tenho muitas coisas em que pensar sem cair na loucura baconiana de paralelos pagãos, ou no estabelecimento de conexões entre a lenda do touro morto por Mitras e a “música que matou a vaca.”[8]



[1] William Eugene “Pussyfoot” Johnson, americano e grande defensor da proibição da venda de bebidas alcoólicas. Como autoridade fiscalizadora ele ganhou o apelido de “pussyfoot”, passo de gato, por sua discrição felina ao perseguir suspeitos de desobediência à lei seca. (N. do T.)

[3] William Booth, metodista inglês e fundador do Exército da Salvação, do qual era General. (N. do T.)

[4] Do poema Dolores, do poeta vitoriano Alegernon Charles Swinburne (1837 – 1909), cujos temas eram sadomasoquistas, lésbicos e anti-religosos. (N. do T.)

[5] Prenúncio em inglês é “foreshadowing” e sombra é “shadow”. Daí a observação de Chesterton. (N. do T.)

[6] “The Wallet of Kai Lung” é um livro de contos de Ernst Bramah, que teve sua primeira edição em 1900 e fez muito sucesso. Kai Lung é um contador de histórias da antiga China. (N. do T.)

[7] Em demonologia, Astarot é o Príncipe do Inferno. (N. do T.)

[8] Referência a uma antiga canção folclórica que diz: “Havia um velho homem, e ele tinha uma velha vaca. \ Mas ele não tinha ração para lhe dar, \ Então ele pegou seu violino e tocou-lhe uma música – \ Considere, boa vaca, considere, \ Não é tempo da grama crescer. \ Considere, boa vaca, considere.’ ” Aqui Chesterton contrapõe o mitraismo à caridade cristã. Veja Tg 2, 15-16. (N. do T.)

29/12/2009

Santo Afonso de Ligório: o modernismo presente em sua Congregação

Na introdução ao livro de Santo Afonso, “A Prática de Amor a Jesus Cristo”, o Pe. Francisco Costa, que é Redentorista, depois de duas ou três páginas de comentários sobre o livro, acrescenta o seguinte: “Agora, é importante que quem lê esse (sic!) livro tenha bem presente que ele foi publicado pela primeira vez em 1768. Por isso certos conceitos expressos nele são daquele tempo.”

Esta frase faz acender uma luz vermelha em meu detector de modernista. Fico esperando o pior. E o pior aparece logo.

O livro de Santo Afonso está traduzido “em quase todas as línguas faladas no mundo” e foi considerado pelo santo como a “mais devota e útil” de suas obras, nos informa Pe. Francisco. Santo Afonso é também o criador da Congregatio Santissimi Redemptoris, ou seja, dos Redentoristas, Congregação a que pertence Pe. Francisco.

O autor da introdução continua: “Vamos perceber que certos conceitos cristológicos que nele aparecem não se ajustam com a cristologia de nosso tempo. Mas quem quiser estudar cristologia deverá buscar outros livros escritos nos tempos de hoje.” Quais seriam estes conceitos o padre não nos informa.

Pe. Francisco avança mais nos dizendo: “é bom alertarmos para a evolução de certos conceitos a respeito das virtudes da humildade, da obediência, do amor ao sofrimento. Tudo isso sofre o condicionamento do tempo.” A luz vermelha agora está piscando e uma sirene começa a tocar. Parece que identificamos um modernista em seu pleno vigor. Um modernista Redentorista impugnando parte da obra de Santo Afonso, criador de sua Congregação.

Vamos escutar Santo Afonso sobre a humildade. Cito alguns trechos da obra.

“Que ama a Deus é verdadeiramente humilde. Não se orgulha vendo em si algumas boas qualidades. Sabe que tudo quanto possui é dom de Deus; de seu, só tem o nada e o pecado. Por isso, conhecendo os dons concedidos por Deus, mais se humilha, sentindo-se indigno e tão favorecido por Deus.”

“Achando-se perto da morte, São João Ávila, que teve uma vida santa desde a juventude, veio assisti-lo um sacerdote que lhe dizia coisas muito sublimes, tratando-o como um grande servo de Deus e como um grande sábio, o que ele era de fato. Mas João lhe disse: ‘Padre, peço-lhe que recomende a minha alma como se faz a um malfeitor condenado à morte; porque eu sou isso’. É isto o que sentem os santos!”

“Para ser humilde não basta ter um baixo conceito de si e da própria fraqueza. Diz Tomás de Kempis que o verdadeiro humilde é aquele que reconhece seu nada e se alegra nas humilhações.”

“Causa admiração e escândalo uma pessoa que comunga com freqüência e depois se ressente com qualquer palavra de desprezo.”

Santo Afonso está desatualizado, nos garante Pe. Francisco. Ele diz que lendo o livro, “às vezes fica a impressão de que a humildade consiste numa negação de si mesmo e de seus valores; numa renúncia aos direitos e à dignidade da pessoa humana.” Padre Francisco contrapõe ao conceito de humildade do grande Santo Afonso os direitos e a dignidade da pessoa humana. Meu Deus! Será isso ignorância invencível? Quem dera fosse! Mas não, isso é um padre corroído de modernismo até a alma. Pe. Francisco! ouça apenas esta frase: o humilde “sabe que tudo quanto possui é dom de Deus; de seu, só tem o nada e o pecado.” Ninguém fica com a impressão de que humildade é negação de si mesmo e de seus valores. Humildade é isso e muito mais. Que direito ou dignidade temos diante de Deus, quando tudo que temos de bom foi ele que nos deu e tudo que temos de ruim nós construímos?

Pe. Francisco continua intrépido: “Também quando fala da obediência, o autor não foge ao pensamento da época: obediência cega. Não se pensava ainda numa obediência co-responsável, na necessidade do diálogo dentro da comunidade para se descobrir a vontade de Deus e assim obedecer conscientemente.” Segundo Pe. Francisco, para saber a vontade de Deus, temos de convocar uma assembléia e decidir numa votação. Será que vale a maioria simples ou qualificada? Vontade de Deus decidida no voto!

Santo Afonso, graças a Deus, discorda de Pe. Francisco. Diz o santo: “Se queremos ser santos, todo o nosso esforço deve ser de nunca seguir nossa vontade, mas sempre a vontade de Deus; o resumo de todos os preceitos e conselhos divinos se reduz em fazer e sofrer aquilo que ele quer e como ele quer. Peçamos, portanto, ao Senhor que nos dê a santa liberdade de espírito.” O santo nos dá uma dica preciosíssima para descobrirmos a vontade de Deus: “Não se preocupa em fazer muitas coisas, mas procura realizar perfeitamente aquilo que acha ser a vontade de Deus. Por isso coloca as menores obrigações de seu estado antes das ações mais grandiosas e gloriosas, porque percebe que nestas pode haver lugar para o amor próprio, enquanto que naquelas se encontra certamente a vontade de Deus.” Comparem agora a assembléia do Pe. Francisco com os conselhos de Santo Afonso e escolham o que acharem melhor.

Há muitas outras coisas similares na introdução ao livro do santo de que pouparei os leitores. Há coisas piores. Padre Gervásio Fábri dos Anjos, também redentorista e tradutor do livro, achou por bem omitir um trecho do livro que traduziu. Isso acontece quanto Santo Afonso está discorrendo sobre como se comungar bem. Note que a preparação para a comunhão é, para nós católicos, de suma importância. Mas a palavra do santo é cortada e uma nota de rodapé nos informa: “Transcreve Santo Afonso neste parágrafo as normas práticas sobre a comunhão freqüente segundo a mentalidade da época. Por serem ultrapassadas, omitimos para não confundir os leitores menos avisados.” [Página 106, nota 68, Editora Santuário, 1982.] Vejam, Pe. Gervásio nos está protegendo contra as palavras de Santo Afonso.

Em primeiro lugar, isso é um absurdo em qualquer caso. Um tradutor tem, por obrigação ética, traduzir o texto do autor, mesmo que nele haja erros. No caso, o absurdo é ainda maior, pois está se cortando a palavra de um Santo e Doutor da Igreja, num assunto que é definido dogmaticamente pelo Concílio de Trento. Caso o padre-tradutor quisesse discordar do santo fundador de sua congregação, que ele o fizesse em nota de rodapé, depois de traduzir a passagem completa. Absurdo dos absurdos!

Fica o conselho que já dei aqui em outro post, quando comentei outros livros: leiam este livro, pois ele é muitíssimo importante, mas não leiam nem a introdução, nem as notas do tradutor.

23/12/2009

Mensagem de Natal de 2009: Por que o Verbo se encarnou?

E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós. (Jo 1, 14)


Deus criou todas as coisas do nada, “mas apiedou-se mais do gênero humano do que dos demais seres existentes; não se contentou com criar os homens, conforme fizera a todos os animais irracionais da terra, mas criou-os à sua imagem, fazendo-nos partícipes do poder de seu próprio Verbo, como uma espécie de sombra do Verbo.” Isto nos diz Santo Atanásio, o santo que venceu Ário, o primeiro dos grandes heresiarcas que quase destruiu a Igreja.

O santo continua ainda dizendo: “Ora, Deus não apenas nos tirou do nada, mas pela graça do Verbo, fez-nos viver segundo Deus. Os homens, contudo, se desviaram dos bens eternos, e por instigação do diabo, voltaram-se para as coisas corruptíveis, tornando-se deste modo para si mesmos causa de morte.” Diz ainda: “Com a presença do Verbo, a corrupção natural não nos teria tocado.”

Com o pecado de Adão e Eva, contra os homens se desencadearam a corrupção e a morte com toda a sua força, não podendo eles contar mais com a presença do Verbo. Com a expulsão do Paraíso, caímos na morte. Depois da Queda, “os homens contudo não se detiveram em certos limites, mas avançando pouco a pouco, ultrapassaram finalmente qualquer medida”, nos diz Atanásio. “Difundiram-se adultérios e roubos e toda a terra se encheu de morticínios e rapinas. ... todos rivalizaram em iniqüidade.”

Continua o santo: “Seria incoerente que a palavra de Deus mentisse no caso de que, promulgada com toda a certeza a lei de morte para o homem transgressor do preceito [não comer da árvore do bem e do mal], este não morresse após a transgressão, mas ficasse sem efeito a sentença divina. Deus não seria verídico, se após ter declarado que haveríamos de morrer, de fato, não morrêssemos. Por outro lado, não convinha que, uma vez criados, seres racionais e partícipes do próprio Verbo perecessem e, corrompidos, voltassem ao nada. Então, o que faria Deus, que é bom, uma vez que seres racionais pereciam e as obras divinas se precipitavam na ruína? (...) Era preferível não ser, do que ser e perecer por abandono.”

Este o dilema do Criador, nas palavras do grande santo que venceu o arianismo. Diz mais: “Por conseguinte, não convinha deixar os homens serem arrebatados pela corrupção, por ser isto impróprio e indigno da bondade de Deus. Por esta razão, o Verbo de Deus incorpóreo, incorruptível, imaterial veio a nossa terra, embora dela não estivesse longe anteriormente. De fato, ele não abandou parte alguma da criação, mas tudo enche, permanecendo, contudo, unido ao Pai. Mas, vem por condescendência, favorecendo-nos com sua filantropia e manifestação.”

Quando então, neste Natal, contemplarmos aquele Menino Deus na manjedoura, tenhamos consciência do momento extraordinário em que o Verbo se encarnou, para nos recuperar da Queda, da corrupção, da morte. Mas como é que o Verbo encarnado pode nos recuperar a incorruptibilidade? Responde Santo Atanásio: “O Verbo, portanto, compreendia que a corrupção dos homens de forma alguma poderia ser destruída, a não ser pela morte. Mas, era impossível que o Verbo morresse por se imortal, ele, do Pai o Filho. Por isso, assume corpo mortal, a fim de que este, partícipe do Verbo, superior a tudo, seja capaz de morrer por todos, e graças ao Verbo que nele habita, permaneça incorruptível e doravante faça cessar em todos a corrupção, pela graça da ressurreição. Por conseguinte, qual sacrifício e vítima imaculada, oferece à morte o corpo que assumiu, e logo faz desaparecer a morte de todos os corpos idênticos ao seu, através da oferta de vítima correspondente. (...) Com efeito, pelo sacrifício de seu próprio corpo, ele pôs termo à lei que pesava sobre nós, renovou-nos o princípio da vida, deu-nos a esperança da ressurreição.”

Assim, Queda, Natal, Paixão e Ressurreição é toda a história de Amor de Deus para conosco. É isto exatamente que devemos festejar neste Natal: Deus nos ama e enviou seu Filho para nos resgatar. O poder do Pecado Original que pesava sobre nós pode ser vencido se colocarmos em prática as palavras de Seu Filho e se participarmos da Sua Vida que jorra através dos Sacramentos da Igreja. Com isso, voltaremos um dia ao Paraíso, à incorruptibilidade, à contemplação beatífica de Deus.

A todos os leitores deste blog, desejo um Santo Natal, no seio da Igreja Católica, fora da qual não há Salvação.

19/12/2009

Padre Gelson defende “frei” Betto e dirige doces palavras ao blogueiro

Padre Gelson, sendo admirador de “frei” Betto, escreve ao blog para protestar contra o artigo Ufa! “Frei” Beto, finalmente, confessa não ser católico. A primeira grande lição, sutil é verdade, que o doce padre me dá é que o apelido do “frei” se escreve com “tt”. Fica mais sofisticado mesmo! Não pega bem para alguém tão moderno, com tantas idéias novas – como o aborto, a modernização da Igreja, o ecumenismo, o comunismo, etc. – não pega bem se chamar apenas Beto. Este nome talvez coubesse a um carpinteiro da Galiléia, mas não a pessoa tão sofisticada, de idéias tão avançadas.

Mas vamos à mensagem simpática do padre Gelson: “Olá...leio aqui abaixo que os comentários devem ser aprovados pelo autor do blog: portanto, vc só posta o que te interessa. Mesmo assim, voce lendo meu comentário já basta. Você é analfabeto pois nem sabe que a palavra TEMOR, tem dois sentidos. tire esse lixo de blog do ar e para de publicar idéias ridículas sobre nosso querido frei Betto. Grato! Padre Gelson

É verdade, Pe. Gelson, eu só posto o que me interessa. Foi para isto que criei o blog. Aqui só se publica o que me interessa. Mas veja que seu comentário me interessou. Interessou-me tanto que ele ganhou um post.

Interessou-me primeiro pela sua maneira educada de se dirigir a mim: chamou a mim de analfabeto, ou seria analfabetto?, e ao meu modesto blog de lixo. Analfabeto, considero que não sou, pois escrevo bastante aqui, e em outros lugares, e também leio um bocado. Sua apreciação sobre o blog – lixo foi o adjetivo – é completamente aceitável. Um blog que se objetiva católico não pode agradar a todo mundo, nem à maioria. Não pode nem mesmo agradar a todos os padres, no atual momento da Igreja. E pode de fato ser que ele seja mesmo muito ruim. Aceito sua apreciação com tranqüilidade, creia-me.

Interessou-me, em segundo lugar, pela fúria que lhe causou minhas observações sobre as idéias de seu querido “frei” Betto. Mas, padre, sendo eu católico e sendo o senhor padre, não daria para o senhor, ao invés da fúria – da ira, do descontrole – tentar me explicar o que tem a ver os dois significados da palavra TEMOR, com o que eu disse sobre “frei” Betto? Sua ira lhe impediu de ler um dos comentários que faço no referido post sobre os dois temores: o filial e o servil. O senhor está, por acaso, dizendo que não devemos um desses temores a Deus? Que não Lhe devemos o temor filial? Que não Lhe devemos o temor servil? Não creio que seja isso, pois se o senhor negar quaisquer desses dois temores a Deus, o senhor cometerá falta grave. Creio que o senhor não sendo analfabeto como pensa que sou, e sendo padre e tendo freqüentado algum seminário deve ter lido, pelo menos, os quatro primeiros capítulos do Eclesiástico. Eles são um pequeno tratado sobre o temor de Deus. O temor de Deus de que fala Santo Agostinho, citado no post em questão, é o temor nos dois sentidos, padre. Ele é o fundamento do catolicismo, do amor a Deus, do amor a Nosso Senhor Jesus Cristo.

Mas, padre, isso são conceitos e idéias de um analfabeto, segundo sua avaliação. O senhor é padre e tem a obrigação de ensinar a Doutrina da Igreja, tem a obrigação de corrigir os fiéis em seus erros. Padre, diga-me, e a todos os meus leitores, onde está a falha no meu raciocínio, onde está o erro em minha análise. Digo que ninguém a que falte o temor a Deus, nos dois sentidos, pode ser considerado ou se considerar católico. Onde isto está errado? Corrija-me, padre, por caridade!

Uma observação sobre analfabetos, padre. À frase “tire esse lixo de blog do ar e para de publicar idéias ridículas” falta, no mínimo, o fundamental paralelismo verbal. Sendo a frase imperativa, ou bem o senhor diz “tire esse lixo de blog do ar e pare de publicar idéias ridículas” – neste caso, o senhor estaria usando a terceira pessoa, você – ou bem o senhor diz “tira esse lixo de blog do ar e para de publicar idéias ridículas” – caso em que o senhor estaria usando a segunda pessoa, tu. Ficaria melhor também que o senhor dissesse “este blog” no lugar de “esse blog”, pois o senhor estava postando um comentário no próprio blog.

Mas, padre, isso não tem importância nenhuma, pois o senhor tornou muito clara a sua confusa fúria.

16/12/2009

AS GRANDES HERESIAS: o livro que não querem que você leia

Isto é o que nos informa Anthony Esolen em seu “The Politically Incorret Guide to WESTERN CIVILIZATION” (Guia Politicamente Incorreto da CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL).

A série dos “Politically Incorret Guide (PIG)” é publicada pela Editora Regnery e se compõe de muitos livros interessantes. Há um sobre a Ciência e as mentiras que se falam em seu nome. Há outro sobre o Islã, cujo autor está em local secreto. Há outro sobre o darwinismo.

Pelo nome, dá para perceber que são obras que vão contra a corrente da cultura esquerdista atual. Todos os livros da série citam obras inconvenientes para a cultura esquerdista. Estas obras são chamadas “aquelas que não querem que você leia”.

Quem são os que não querem que leiamos certos livros? No dizer de Elizabeth Kantor (autora de um PIG sobre literatura inglesa e americana) são “os vândalos que tomaram o controle das universidades e que não querem que os estudantes aprendam. Mais e mais, vivemos com viseiras, ignorantes de tudo exceto as modas atuais.”

Pois bem, Esolen em seu livro sobre a Civilização Ocidental coloca como um dos livros que os vândalos não querem que você leia AS GRANDES HERESIAS, de Belloc. Dentre outros, ele também coloca a Bíblia, O Homem Eterno, de Chesterton, Religion and the Rise of Western Culture, de Christopher Dawson, etc.

Esolen diz sobre o livro de Belloc: “Sempre vale a pena ler Belloc, pois ele é agradável e perspicaz, mas o tratamento que ele dá às heresias – desde a heresia ariana, passando pela catastrófica heresia islâmica, até a aparentemente benigna heresia moderna – é envolvente e magnífico. É uma condenação de todas as coisas contrárias ao bom, ao belo e ao verdadeiro. Como tal, é certo que ele ofenda a muitos – um sinal seguro de que atingiu o alvo.”

Os leitores brasileiros podem ler esta obra que acaba de ser lançada, em português, pela Editora Permanência.

11/12/2009

As superstições do protestante

Do livro "A Coisa", publicado em 1929.

Gilbert Keith Chesterton

Aquele delicioso jogo de adivinhação, que tem há muito tempo causado uma alegria inocente em tantas famílias católicas, o jogo de adivinhar em qual linha de um artigo sobre, por exemplo, paisagem ou Elegia Latina, flagraremos o deão da Catedral de São Paulo[1] apresentando o antídoto ao Anti-Cristo; ou a trama papal revelada – este que é o mais familiar de nossos jogos católicos de salão me entreteve como um tipo de substituto das palavras cruzadas, quando achei que tinha encontrado um feliz exemplo. Escrevi acima sobre “famílias católicas”, mas quase escrevi, por força de associações, “lareiras católicas”. Imagino que o deão realmente pensa que, mesmo com este clima, matemos os fogos domésticos acesos, como o fogo de Vesta, em permanente expectativa de reascender os fogos de Smithfield. Seja como for, esse tipo de jogo de adivinhação ou palavra cruzada é raramente decepcionante. O deão já deve então ter tentado centenas de formas de chegar a seu adorado assunto; e mesmo ocultá-lo, como um canhão disfarçado, até que ele lance o bombardeio numa perfeita explosão de mau humor. Então as palavras cruzadas não são mais um quebra-cabeça, embora as palavras sejam suficientemente apropriadas; especialmente aquelas devotadas o grande processo histórico de desfazer a Cruz.

No caso desse artigo particular, foi somente próximo ao seu final que o assunto real saltou sobre o leitor numa emboscada. Acho que era um artigo geral sobre superstição; e, sendo um artigo jornalístico de um tipo moderno, era claramente devotado a discutir superstição sem defini-la. Num artigo inteligente desse tipo, pareceu suficiente ao escritor sugerir que superstição é algo que ele não gosta. Algumas coisas são também do tipo que eu não gosto. Mas tal escritor não é razoável nem quando está certo. Um homem deve ter uma objeção algo mais filosófica a histórias de má sorte do que chamá-las de credulidade; tanto quanto um homem deve ter uma objeção mais filosófica à Missa do que chamá-la de magia. Dificilmente seria uma refutação aos espiritualistas provar que eles acreditam em espíritos; ou uma refutação aos deístas provar que eles acreditam numa divindade. Credo, crença e credulidade são palavras de mesma origem e podem ser, de muitas formas, jogadas para lá e para cá. Mas quando um homem supõe a absurdidade em algo que todos os outros acreditam, desejamos, em primeiro lugar, saber em que ele acredita; em que princípio ele acredita; e, acima de tudo, em que princípio ele não acredita. Não há traço de algo parecido com isso na peça de jornalismo metafísico do deão. Se ele tivesse parado para definir seus termos, ou, em outras palavras, para nos dizer de que falava, tal análise abstrata teria preenchido algum espaço no artigo. Talvez não sobrasse espaço para todo o alarido contra o Papa.

O deão da Catedral de São Paulo pôs a mão na massa num parágrafo na segunda metade de seu artigo, em que ele revela aos seus leitores todos os horrores de uma citação de Newman; uma passagem muito chocante e vergonhosa em que o apóstata degradado diz que está feliz com sua religião e em estar cercado pelas coisas de sua religião; que aprecia ter objetos que tenham sido abençoados pelos santos e bem-aventurados, que há um sentido em ser protegido por orações, sacramentais, etc.; e que a felicidade de tal tipo satisfaz a alma. O deão, tendo nos dado este apavorante relance da condição espiritual do cardeal, fechou a cortina com um grunhido e diz que isso é paganismo. Que diferença da ortodoxia cristã de Plotino!

É exatamente esse pequeno relance que me interessa; não tanto um relance da alma do cardeal, mas da mente do deão. Pereceu-me repentinamente que vejo, numa forma muito mais simples que anteriormente, a real questão entre ele e nós. E a coisa curiosa sobre a questão é esta: que o que ele pensa sobre nós é exatamente o que pensamos sobre ele. O que eu, por exemplo, sinto mais intensamente, na consideração de um caso como o do deão e sua citação do cardeal, é que o deão é um homem ilustre, inteligente e culto, sempre interessante, algumas vezes justo, ou pelo menos justificado ou justificável; mas que ele é antes de tudo defensor de uma superstição, como esta seria compreendida por alguém que a pudesse definir. O que a faz ainda mais divertida é que ela é, num sentido assaz especial, uma superstição pagã. Mas o que a faz intensamente interessante, pelo menos para mim, é que o deão é devotado ao que pode ser chamado, por excelência, de uma supersticiosa superstição. Quero dizer que ela é, num sentido especial, uma superstição LOCAL.

O deão Inge é uma pessoa supersticiosa porque está adorando uma relíquia; uma relíquia no sentido de uma coisa remanescente. Ele está idolatricamente adorando o fragmento de algo; simplesmente porque aquele algo casualmente sobreviveu num lugar chamado Inglaterra; numa forma assaz surrada chamada protestantismo cristão. É como se um patriota local venerasse a estátua de Nossa Senhora de Walsingham somente porque ela estivesse em Walsingham e sem nem mesmo lembrar que ela está no Paraíso. É ainda mais como se ele venerasse um fragmento lascado do dedo da estátua e esquecesse de onde ele tinha vindo e ignorasse completamente a Nossa Senhora. Não penso que seja supersticioso respeitar a lasca em relação à estátua, ou a estátua em relação ao santo, ou o santo em relação ao esquema da teologia e filosofia. Mas penso ser supersticioso venerar, ou mesmo aceitar, o fragmento porque ele casualmente está lá. E o deão Inge aceita o fragmento chamado protestantismo porque ele casualmente está lá.

Consideremos, por um momento, toda a questão, como fazem os filósofos; envoltos num ar universal acima de todas as superstições locais como a do deão. É óbvio que há três ou quatro filosofias ou cosmovisões possíveis aos homens razoáveis; e, em grande parte, elas estão incorporadas nas grandes religiões ou no amplo campo da irreligião. Há o ateu, o materialista ou monista ou qualquer nome que ele se dê, que acredita que tudo é, em última análise, material, e tudo que é material é mecânico. Esta é enfaticamente uma cosmovisão; não muito brilhante ou animadora, mas é uma em que é possível encaixar muitos fatos da existência. Então há o homem normal com sua religião natural, que aceita a idéia geral de que o mundo tem um projeto e portanto um projetista; mas sente que o Arquiteto do universo é inescrutável e remoto, tão remoto em relação ao homem quanto o é em relação ao micróbio. Esse tipo de teísmo é perfeitamente são; e é realmente a antiga base da sólida e algo estagnada sanidade do Islã. Há ainda o homem que sente o peso da vida tão amargamente que deseja renunciar a todo desejo e toda divisão e restituir um tipo de unidade e paz espiritual da qual nossos eus individuais nunca deveriam ter se separado. Esse é o temperamento ao qual o budismo, e muitos místicos e metafísicos, responde. Então há um quarto tipo de homem, algumas vezes chamado místico, que talvez devesse ser chamado mais propriamente de poeta; na prática ele pode muito freqüentemente ser chamado de pagão. Sua posição é esta: este é um mundo crepuscular e não sabemos quando ele termina. Se não sabemos o suficiente para abraçarmos o monoteísmo, muito menos o sabemos para abraçarmos o monismo. Pode haver um mundo além; mas podemos apenas perceber algumas pistas dele; podemos nos deparar com uma ninfa na floresta; podemos ver fadas nas montanhas. Não sabemos o suficiente sobre o natural para NEGAR o preternatural. Esse foi, nos tempos antigos, o mais saudável aspecto do paganismo. Esse é, nos tempos modernos, a parte racional do espiritualismo. Todas essas são possíveis como visões gerais da vida; e há uma quarta que é, pelo menos, igualmente possível, embora certamente mais positiva.

Toda a questão dessa última posição pode ser expressa no verso de um belo poema de M. Cammaerts sobre jacintos; LE CIEL EST TOMBE PAR TERRE. O Céu desceu ao mundo da matéria; o poder espiritual supremo está agora operando através da máquina da matéria, ocupando-se milagrosamente com os corpos e almas dos homens. Ele abençoa todos os cinco sentidos; tal como os sentidos do bebê são abençoados pelo batismo católico. Ele abençoa até mesmo os presentes e as lembranças, como relíquias e rosários. Ele opera através da água e do óleo, ou do pão e do vinho. Ora, esse tipo de materialismo místico pode agradar ou não o deão, ou qualquer outra pessoa. Mas não posso de forma alguma entender porque o deão, ou qualquer outra pessoa, não VÊ que a Encarnação é tão parte dessa idéia quanto a Missa; e que a Missa é tão parte dessa idéia quando a Encarnação. Um puritano pode considerar blasfêmia que Deus possa se tornar uma hóstia. Um muçulmano pode considerar blasfêmia que Deus possa se transformar num trabalhador na Galiléia. E ele está perfeitamente certo, de seu ponto de vista; e dado seu princípio primário. Mas se o muçulmano tem um princípio, o protestante tem apenas um preconceito. Isto é, ele tem somente um fragmento; uma relíquia, uma superstição. Caso seja profano que o miraculoso deva descer ao plano da matéria, então o catolicismo é certamente profano; e o protestantismo é profano; e o cristianismo é profano. De todos os credos e conceitos humanos, nesse sentido, o cristianismo é o mais completamente profano. Mas porque um homem deveria aceitar um Criador que era um carpinteiro e então se preocupar com a água benta, porque ele deveria aceitar uma tradição protestante local de que Deus nasceu em algum lugar particular mencionado na Bíblia, meramente porque a Bíblia foi deixada em algum lugar na Inglaterra, e então dizer que não se pode acreditar que uma benção possa permanecer nos ossos de um santo, porque ele deve aceitar a primeira e mais estupenda parte da história do Céu descendo sobre a Terra e então furiosamente negar algumas poucas e pequenas deduções a partir disso – esta é a coisa que eu não entendo; nunca pude entender; cheguei à conclusão de que nunca poderei entender. Posso apenas e tão somente atribuí-la à superstição.

[1] Ver RAÍZES DA SANIDADE. (N. do T.)