sábado, novembro 29, 2008

Lições das Missas dominicais pós-Vaticano II – Parte XI

O Evangelho deste domingo, 23/11/2008, na Missa de Paulo VI é Mt. 25, 31-46. Belíssimas e terríveis as palavras de Jesus. É a descrição do Juízo Final: “Todos os povos da terra serão reunidos diante Dele, e Ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas à sua esquerda dos cabritos.” E então Ele prossegue, para as ovelhas: “Eu estava com fome e me destes de comer ...”. E para os cabritos: “Eu estava com fome e não me destes de comer.” Espantados, ovelhas e cabritos se perguntavam quando tinham dado (ou não) de comer ao Filho do homem. Disse Ele então: “Todas as vezes que (não) fizestes isso a um desses pequeninos, foi a mim que (não) fizestes!”

O que Nosso Senhor nos está dizendo? Será que é: “Arregacemos as mangas e partamos para a construção de novo mundo, de nova sociedade, a civilização do amor”? Isso é a interpretação do Sr. Carlos Francisco Signorelli, presidente do CNLB, em seu texto no Semanário Litúrgico-Catequético, de 23/11/2008. Pessoas como o Sr. Signorelli consideram Jesus um Marx avant la lettre, como já mencionei em outro texto. Ele teria vindo ao mundo para nos ensinar como mudar as estruturas sociais, como fazer a revolução, como “construir a civilização do amor”. Já disse também, em outro lugar, que era isso exatamente o que Judas, o traidor, achava de Jesus. Ele O considerava o libertador de Israel do jugo do Império Romano.

A Catena Áurea reproduz muitos comentários dos santos e doutores da Igreja sobre esta passagem do Evangelho. Vou comentar aqui o que escreve Santa Catarina de Sena sobre esse assunto.

O texto que reproduzo abaixo é do livro Diálogo, Editora Paulus, 10ª edição de 2007; tradução, notas e introdução de Frei João Alves Basílio, OP. Note como Deus fala sobre a caridade e como ela é ou não praticada. Os negritos são meus.

“2.6 Toda virtude é praticada no próximo

“Vou explicar-lhe agora que toda virtude se realiza no próximo, bem como todo pecado.

“Toda pessoa que vive longe de mim prejudica o próximo; e a si, dado que cada um é o primeiro próximo de si mesmo. Tal prejuízo pode ser desordem geral ou pessoal. Em geral, porque sois obrigados a amar os demais como a vós mesmos. De que maneira? Socorrendo espiritualmente pela oração, dando bom exemplo, auxiliando quanto ao corpo e quanto ao espírito, conforme as necessidades. No caso de alguém nada possuir, pelo menos há de ter o desejo de auxiliar! Quem não me ama, também não ama os homens; por isso não os socorre. Quem despreza a vida da graça, prejudica antes de tudo a si mesmo, mas prejudica também os outros, deixando de apresentar diante de mim – como é seu dever – orações e aspirações em favor deles. Todo e qualquer auxílio prestado ao próximo deve provir do amor que se tem por aquela pessoa, mas como conseqüência do amor que se tem por mim. Da mesma forma, todo mal se realiza no próximo, e quem não me ama, também não tem, amor pelos outros. A origem dos pecados está na ausência da caridade para comigo e para com o homem. Para fazer o mal, basta que se deixe de fazer o bem. Contra quem se age, a quem se prejudica na prática do mal? Primeiramente contra si mesmo; depois contra o próximo. A mim, não me prejudica. Eu não posso ser atingido, a não ser no sentido de que considero feito a mim o que se faz ao homem. Será um prejuízo que leva à culpa com privação da graça e, nesse caso, coisa pior não poderia acontecer; ou será uma recusa de afeição e amor, obrigatórios e que exigem o socorro pela oração e súplicas diante de mim. Tudo isso é auxílio de ordem geral, porque é devido aos homens em comum.

O auxílio de ordem pessoal consiste na colaboração prestada às pessoas com quem convivemos, pois existe a obrigação aos homens de se ajudarem mutuamente com bons conselhos, ensinamentos, bons exemplos e qualquer outra obra boa de que se necessite. (...) Quem não me ama, certamente não agirá convenientemente e prejudicará os demais. Nem serão apenas prejuízos por omissão do bem, mas ações más e danos até repetidos.”

“Toda virtude é praticada no próximo, bem como todo pecado” é um extraordinário resumo das palavras de Jesus. Assim como Santo Tomás de Aquino dizia que chegamos ao conhecimento racional máximo de Deus a partir das coisas sensíveis, de suas criaturas, assim também pecamos ou exercitamos as virtudes na criatura sensível de Deus chamada homem. Somos virtuosos ou pecadores no próximo.

Que dizer do texto do Sr. Signorelli? Ele começa criticando os antigos colégios católicos, que ficavam contando as orações, jaculatórias, confissões e comunhões dos alunos. Coisa gravíssima na visão deste senhor. Aliás, a palavra católico é usada só aqui, para consignar a crítica. Católico é mesmo muito retrógrado. Imagina ficar contando oração, jaculatória, confissão e comunhão. O que vale receber Cristo na Eucaristia? Imagina se isso se iguala a “construir a civilização do amor”!!!!

Depois, ele segue falando que “ser cristão não é viver da boca para fora”. Daqui para frente ele fala apenas de cristão, não de católico. Fala ainda que: “Ser cristão é viver como Jesus viveu, amar como Jesus amou ... Os gestos externos ou internos, as orações e jaculatórias, tudo isso não é ponto de partida no relacionamento com Deus. É ponto de chegada.”

Primeiramente, esse senhor parece desconhecer que Jesus orava permanentemente: “Ele saiu para um lugar deserto e se pôs em oração”. Ele rezava com tal freqüência que os discípulos Lhe perguntaram como rezar. E aí Ele lhes ensinou a Oração Dominical. Oração permanente é dever de todo católico, como diz Deus a Santa Catarina. Rezar pelos outros faz parte da caridade católica! Agora, isso de ponto de partida e chegada, eu não me meto, pois não entendi o que o Sr. Signorelli quis nos dizer.

No próximo parágrafo, o Sr. Signorelli nos fala de sua concepção de caridade: devemos acabar com a pobreza do mundo, apenas isso! Para isso, basta ser marxista. É claro que nenhum regime comunista jamais acabou com a pobreza no mundo, muito pelo contrário. Aliás, foi Jesus mesmo Quem disse: “Pobres sempre os terão entre vós”. Reduzindo assim o conceito de caridade, o Sr. Sigorelli, depois de arregaçar as mangas, termina seu artigo com uma frase do famigerado e herético documento de Aparecida: “homens e mulheres da Igreja no mundo e homens e mulheres do mundo na Igreja.”

Bem, todos sabem quem é o príncipe deste mundo! É a ele que o Sr. Signorelli parece adorar.

Termino com uma frase da carta 266 de Santa Catarina a Ristoro Canigiani: “A norma é [da caridade] esta: a pessoa há de estar disposta a entregar a própria vida para a salvação das almas, e a dar os bens materiais para salvar o corpo do próximo.” Não para salvar a sociedade, não para salvar o mundo: para “salvar o corpo do próximo”.

Para ver outros comentários, clique: Parte I, Parte II, Parte III, Parte IV, Parte V, Parte VI, Parte VII, Parte VIII, Parte IX, Parte X

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Um comentário:

Gederson disse...

Prezado Prof. Angueth,
Salve Maria!

Parabéns novamente pela denúncia do mau uso que é feito do folheto da Missa. A interpretaçáo do Sr. Carlos Francisco Signorelli, talvez seja uma reformulação da que consta nas bíblias pastorais. Veja a interpretação da Bíblia Pastoral:

" Esta é a única [será mesmo?] cena dos Evangelhos que mostra qual será o conteúdo do juízo final. Os homens vão ser julgadospela fé que tiveram em Jesus. Fé que significa reconhecimento e compromisso com a pessoa concreta de Jesus. Porém, onde está Jesus? Está identificado com os pobres e oprimidos, marginalizados por uma sociedade baseada na riqueza e poder. Por isso, o julgamento será realização ou não de uma prática de justiça em favor da libertação dos pobres e oprimidos. Esta é a prática central da fé, desde o início apresentada por Mateus como o cerne de toda atividade de Jesus:
"cumprir toda justiça" (3,15). É a condição particular da vida do Reino." Bíblia Pastoral, Mt 25, 31-46

Curiosamente, esta Bíblia aponta uma ligação de Mt 7, 21-23 com Mt 25, 31-46. Veja:

21. Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. 22. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não pregamos nós em vosso nome, e não foi em vosso nome que expulsamos os demônios e fizemos muitos milagres? 23. E, no entanto, eu lhes direi: Nunca vos conheci. Retirai-vos de mim, operários maus! Mt 7,21-23 Bíblia Ave-Maria

Agora veja a interpretação da Bíblia Pastoral:

"Nem mesmo o ato de fé mais profundo da comunidade, que é o reconhecimento de Jesus como o Senhor, faz que alguém entre no Reino. Se o ato de fé pela palavra não for acompanhado de ações, é vázio e sem sentido. A expressão "naquele dia" indica o Juízo final e nos remete a Mt 25, 31-46, onde são mostradas as ações que qualificam o autêntico reconhecimento de Jesus como Senhor."

Peço desculpas, mas tenho que ir um pouco mais longe, citando os versículos de Mt 7, 24-28 e a interpretação dada pela Bíblia Pastoral, veja:

24. Aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática é semelhante a um homem prudente, que edificou sua casa sobre a rocha. 25. Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela, porém, não caiu, porque estava edificada na rocha. 26. Mas aquele que ouve as minhas palavras e não as põe em prática é semelhante a um homem insensato, que construiu sua casa na areia. 27. Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela caiu e grande foi a sua ruína. 28. Quando Jesus terminou o discurso, a multidão ficou impressionada com a sua doutrina. Mt 7, 24 -28 Bíblia Ave Maria

Agora veja a interpretação da Bíblia Pastoral:

"Construir a casa sobre a rocha é viver e agir de acordo com a justiça do Reino apresentada no Sermão da Montanha. Construir a casa sobre a areia é ficar na teoria, sem passar para a prática.


Passo agora aos comentários.

É incrível como eles não conseguem enxergar o óbvio. Aqueles que dizem Senhor, Senhor, não praticam o ato de fé pela palavra, praticam através de ações concretas de fé. Mesmo que expulsar demônios, curar enfermos, pregar e fazer milagres fossem um ato de fé apenas na palavra, não seriam vázias. Porque quem opera estas coisas, é Cristo independentemente da dignidade do operante.

O problema destes, é que oferecem apenas a experiência de fé, eles não oferecem integralmente a verdade de fé que liberta. Porque esta separada da caridade e como diz São Paulo, "ainda que tivesse fé ao ponto de transportar montanhas, e não tivesse a caridade, eu nada seria." A função da fé é servir e potencializar o amor para transformá-lo em caridade, por isto o mesmo apóstolo diz que por ora subsistem a fé, a esperança e a caridade. Mas que a última é superior as primeiras, porque ela não cessará, mas se tornará perfeita quando se consumar a fé e a esperança.

Já o problema de Mt 25, 31-46, consiste em se ler apenas o sentido literal dos versículos que descambam exatamente para a prática sem a teoria (A inversão marxista da relação entre theoria e práxis). Confirmada pelos versículos de Mt 7, 24-28.Ora, as bem aventuranças são efeitos do cumprimento dos mandamentos. Não são mandamentos em si e a palavra de Cristo não se resume ao Sermão da Montanha sobre o qual Mahatma Gandhi dizia que se a bíblia se perdesse e fosse conservada apenas este sermão seria o suficiente.

Nosso Senhor também disse "sem mim nada podeís fazer." O interessante é que a interpretação materialista que fazem destes versículos é desautorizada pela primeira tentação de Nosso Senhor. Se a salvação resume-se ao que argumentam, então a pedra se transforma em pão, então só de pão viverá o homem. Neste caso, teremos uma tanto uma caridade como bem aventuranças que não procedem da fé, mas apenas do humano.

O que é de maior gravidade nos versículos de Mt 25, 31-46, é que também houve uma adulteração na tradução.

Em textos antigos se-lê "Os pequeninos que crêem em mim"(O que concorda com outros textos: Aquele que faz tropeçar um dos pequeninos que crê em mim...) e não "a um dos menores de meus irmãos, mas foi a mim que o fizeram." No primeiro caso tem se o critério objetivos da crença para estabelecer os pequeninos. Já no segundo, não se tem nenhum critério para se saber quem são os irmãos menores. Então qualquer um pode ser um "irmão menor de Jesus."

Tudo isso sem considerar a riqueza e o poder que foram citados perjorativamente como se fossem maus em essência. Tudo serve aos propósitos modernos do relativismo e da subjetividade. Para não mais me prolongar fico por aqui, fique com DEUS.

Abraço

Gederson