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sexta-feira, maio 13, 2011

50 anos de Vaticano II: contribuições de um católico perplexo

Nota do blog: Tenho mostrado, neste blog, minha perplexidade com a situação da Igreja pós-conciliar. Com ela a tira-colo, escrevi um pequeno livro. Com ela, novamente, tomo conhecimento da comemoração dos 50 anos do Concílio Vaticano II (isto é, do início dos trabalhos conciliares, em 11 de outubro de 1962) que está sendo preparada para o ano que vem (os milenaristas de sempre bem podem ter razão agora; em 2012, talvez o mundo acabe!). Decido, também com ela, participar, não da comemoração, mas da lembrança, terrível lembrança, dos 50 anos pós-conciliares. Vez ou outra, vou escrever algo sobre estes anos aqui no blog. Começo hoje, dia 13 de maio (A 13 de maio, na Cova da Iria, no céu aparece a Virgem Maria!), data expressiva e irremediavelmente ligada ao Vaticano II, pois, segundo as mais abalizadas opiniões, Nossa Senhora teria ordenado não convocar o Concílio e nem alterar a Missa de Sempre. Começo com as impressões de Nelson Rodrigues que, já disse aqui, é mais católico que a CNBB. O trecho que vai abaixo é da crônica de 5/4/1968 (o Concílio tinha pouco mais de 2 aninhos, pois promulgado em 8 de dezembro de 1965, e já mostrava todo o seu “potencial”), intitulada “Os Dráculas”. Os negritos são todos meus.

Que Nossa Senhora de Fátima nos proteja neste furacão conciliar!
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Quero crer que certas épocas são doentes mentais. Por exemplo: – a nossa. Ainda anteontem, falei da idéia inusitada de D. Hélder. O nosso querido arcebispo propõe uma missa cômica (se duvidarem, leiam a última edição dominical de O Jornal). Por trás de suas palavras, sentimos o tédio cruel de uma missa que se repete, com uma monotonia já irrespirável, há 2 mil anos. E ele sugere que se substitua o órgão, o violino, a harpa, o címbalo, pelo reco-reco, o tamborim e a cuíca. 

Por aí se vê que ele, como o dr. Alceu,[1] é um progressista. Não sei se o leitor entendeu todo o alcance da sugestão.[2] D. Hélder propõe, se bem o entendi, que se enfie o sobrenatural na gafieira ou por outra: – que se faça da catedral uma gafieira gótica. Parece ao arcebispo de Olinda que se pode louvar a Deus, igualmente ou até com vantagem, com a cuíca, o pandeiro, o reco-reco e o tamborim

A missa, como a conhecemos, nos últimos vinte séculos, é triste, é depressiva, é neurótica. E quem sabe se a Virgem, se Jesus, se os santos não hão de preferir, por fundo musical, o samba? Seria uma boa maneira de espanar o pó que 2 mil anos depositaram em certas representações católicas. 

Mas falei de épocas que parecem doentes mentais. Só em nossos dias um arcebispo poderia irromper num jornal, na televisão ou rádio e lançar a idéia da missa cômica. Estamos pertinho da Semana Santa. É o caso de, na Sexta-Feira da Paixão, cada um levar seu reco-reco, sua cuíca, seu tamborim e seu pandeiro. Nada de lúgubres e mórbidas procissões. E chorar por que, se tristezas não pagam dívidas? Mas, como eu ia dizendo: – se em qualquer outra época, de razoável sanidade, alguém sugerisse tal coisa, seria um escândalo inominável. Em sua indignação, os fiéis dariam arrancos triunfais de cachorro atropelado. Hoje, não. 

Hoje, achamos perfeitamente normal que se instale a vida eterna numa gafieira. Daqui a pouco, um outro há de propor que, dentro das igrejas, garçons passem bandejas de salgadinhos, mães-bentas, caldo de cana, grapete e chica-bon.[3] Mas volto à minha observação anterior: – d. Hélder não espantou ninguém. Não houve escândalo, ninguém arrancou os cabelos etc. etc. 

Essa impotência para o espanto dá que pensar. Eis o que me pergunto: – e por que, meu Deus, por quê? Vejo católicos justificando a guerrilha, achando a guerrilha uma atividade nobilíssima. E o dr. Alceu só não a recomenda para o Brasil, porque, diz ele, os nossos camponeses não são politizados. Eu me lembro de que, antes da esquerda católica, não tínhamos dráculas neste país. 

E já os temos. Amaldiçoados? Não. Abençoados. Sim, abençoados, absolvidos por respeitáveis homens de fé. (...) 

Não quero ser enfático. Mas me parece estar havendo, no Brasil, uma degringolada de valores. Vimos d. Hélder propor a missa cômica; e ninguém se espantou. Vimos o dr. Alceu declarar que, por causa de um passarinho, pode-se matar um homem. Uma coisa está ligada à outra e ambas se explicam. Se d. Hélder pode propor a gafieira gótica, e se o dr. Alceu absolve um monstruosíssimo assassinato (se bem que hipotético), tudo é permitido e vale tudo.[4]    


[1] Alceu de Amoroso Lima, o Tristão de Atayde. (Nota do blog.)
[2] Nós, depois de 50 anos, não só entendemos o que D. Hélder estava propondo, como sabemos no que deu sua proposta! (Nota do blog.)
[4] Esta é a versão rodriguiana do Lex orandi, lex credendi. (Nota do blog.)

domingo, junho 21, 2009

Nelson Rodrigues, Amoroso Lima, dom Hélder Câmara e Gustavo Corção: a tragédia da Igreja pós-conciliar vista por quem falava o que via

Reproduzo, logo abaixo, um trecho do capítulo 28 (Flor de Obsessão), do livro Anjo Pornográfico (uma biografia de Nelson Rodrigues), de Ruy Castro, editado pela Companhia das Letras, 1992.

O texto de Ruy Castro mostra Nelson Rodrigues comentando, com toda sua verve, a atuação de dois homens ligados à Igreja Católica. Por meio desses comentários, podemos perceber o início das conseqüências trágicas que o Concílio Vaticano II trouxe para a Igreja. Foi lá que se gestaram “coisas” do tipo de Pe. Marcelo ou Pe. Fábio de Melo. Foi lá que se gestaram os “freis betos” da atualidade. Foi lá que começou a se cristalizar a idéia de que Jesus Cristo teria sido um Marx avant la lettre. Amoroso Lima e dom Hélder foram para Nelson os símbolos da tragédia que viria se abater sobre nós. E ele estava certo!

Nelson também percebeu quem representava, em termos de idéias, a Igreja verdadeira. Percebeu que Gustavo Corção era o remanescente de uma intelectualidade católica que ia rapidamente desaparecer do Brasil. A frase “o verdadeiro Alceu é o Gustavo Corção” é lapidar.

Vamos ao texto. As notas são todas minhas.

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Durante todo o ano de 1968, Alceu foi personagem quase diário das “Confissões”, dividindo os holofotes apenas com dom Hélder Câmara. Alceu era colunista do Jornal do Brasil; dom Hélder, àquela altura, arcebispo de Recife e Olinda. Os dois simbolizavam para Nelson a nova Igreja Católica que “pedia perdão pelos seus dois mil anos” e que trocava a vida eterna pelo “paraíso socialista”. Alceu e dom Hélder eram também grandes favoritos entre o “Poder Jovem”, a massa de adolescentes que, de Pequim a Nova Iguaçu, acreditava sinceramente que iria dominar o mundo em 1968. Nelson abriu guerra nas três frentes: contra Alceu, dom Hélder e o “Poder Jovem”.

Ninguém poderia ter opiniões politicamente mais antipáticas numa época em que toda a “intelligentsia” brasileira parecia ter se radicalizado à esquerda. Alceu e dom Hélder, ex-integralistas e, agora, neo-socialistas, eram admirados pela coragem com que se opunham aos militares. Nelson via neles outra coisa: em Alceu, um velho oportunista tentando adular a juventude; em dom Hélder, um insaciável apetite promocional, um “globe-trotter” de si mesmo. Quanto aos jovens de 1968 (a quem Alceu atribuía a “razão da idade”, desculpando-os por qualquer besteira que fizessem), Nelson não os achava acima de críticas apenas por terem nascido em 1952.

Havia muito de pessoal nos seus ataques, mas estes tinham a ver com a sua idéia de coerência. Não conseguia entender, por exemplo, que um homem com um passado absolutamente reacionário como Alceu pudesse agora ser levado a sério ao classificar a revolução soviética como o “maior acontecimento do século”[1]. Nelson desencavou um livro de Alceu, “Indicações políticas”, de 1936, em que o mestre proclamava a sua “mais viva simpatia pelo fascismo e por toda essa moderna reação das direitas, que mostraram a não-inevitabilidade do socialismo”. Como se podia mudar de chapa com tanta simplicidade?

Nelson julgava ter a resposta: em 1936, Alceu admirava o totalitarismo de direita; em 1968, o totalitarismo de esquerda. [2] Nelson escreveu na época: “Dirão os idiotas da objetividade que [Alceu] passou da direita para a esquerda. Não é exato. Historicamente não existe mais esquerda. O que estamos vendo, com o socialismo, comunismo ou que outro nome tenha, é a direita, na sua forma mais inumana, bestial, demoníaca.”[3]

Em 1992, tal parágrafo seria endossado por muita gente, inclusive pelos batalhões de ex-marxistas.[4] Mas, em 1968, escrever isso era o mesmo que condenar-se à morte em vida. E Nelson enumerava os milhões de mortos de “fome punitiva” por Stalin, o pacto germano-soviético às vésperas da Segunda Guerra (que obrigava os comunistas brasileiros a dar vivas a Hitler por uns tempos) e os recentes intelectuais soviéticos dissidentes, internados em hospícios – para concluir que, ao contrário do que pensava Alceu, o maior acontecimento do século fora “o fracasso daquela mesma revolução”.

Essa coerência que cobrava de Alceu como se lhe mordesse os calcanhares, Nelson não exigia de si mesmo em relação ao homem que fora um de seus maiores adversários até fins de 1967: Gustavo Corção. Apenas quatro anos antes, em 1963, Nelson ainda o estava espinafrando e dizendo a seu respeito: “Um homem em que falta a metade satânica não é nada. Um santo sem nenhuma nostalgia do pecado é um monstro de circo de cavalinhos. Por exemplo: o Gustavo Corção. É uma virtude sem brecha, sem racha e se goteira”. E voltava à sua imagem dos anos 50, a de que, entre ser virtuoso como Corção e roubar galinhas, ele preferia assaltar o galinheiro mais próximo.

Mas o ano de 1967 já estava provocando uma rearrumação no tabuleiro. Corção, colaborador do “Diário de Notícias”, escreveu naquele ano que “cada vez mais admiro Nelson Rodrigues e cada vez menos Alceu Amoroso Lima”. Nelson não lia Corção havia anos e quem lhe chamou a atenção para o artigo foi o amigo comum de ambos, Luís Eduardo Borgerth.

Nelson foi ler o artigo e se deu conta de que, se queria defender uma igreja voltada para a vida intelectual, e não para a luta de classes, passara todos aqueles anos combatendo o inimigo errado. Veio-lhe o embrião de uma idéia que ele desenvolveria depois: “O verdadeiro Alceu é o Gustavo Corção”. Pediu a Borgerth que os apresentasse. Tinham passado décadas se atacando e nunca haviam trocado um olhar. (...) Os agravos e arranca-rabos passados foram esquecidos, em nome de uma profunda afinidade que agora os unia: a defesa do Céu contra as hordas de bárbaros coletivistas que o atacavam.

Quem tivesse essas idéias – e se atrevesse a trocar Alceu e dom Hélder por Gustavo Corção – deveria evitar passar pela porta do “Antonio´s”, o restaurante da avenida Bartolomeu Mitre, no Leblon, de onde, segundo Nelson, “as nossas esquerdas guardavam uma sábia distância do Vietnã”. Acontece que Nelson atrevia-se a ir eventualmente ao “Antonio´s”, porque era aonde iam seus amigos – alguns deles, também amigos de Tristão e dom Hélder.

A implicância com dom Hélder realmente começara no episódio de seu casamento com Lúcia. Mas também era verdade que dom Hélder mudara muito e sem pedir a autorização de Nelson. Poucos anos antes, por exemplo, o então bispo auxiliar do Rio era compadre de Roberto Marinho, padrinho de seu filho Roberto Irineu e fazia edificantes sermões pela rádio Globo. De repente, a partir de João XXIII, demitira-se de seu papel de “funcionário do sobrenatural” e só falava na reforma agrária e na luta armada – era louvado pela imprensa internacional com “el arzobispo de La revolución” e “Il arcivescovo rosso del Brasile”.[5]

Nelson não sabia o que mais o impressionava em dom Hélder: se o ator, a vedete, sempre atento a um microfone ou a um flash de fotógrafo – ou se o falso padre sob cuja batina ele imaginava ver os pés de cabra do anti-Cristo.

Mas Nelson não se limitava a martelar contra Alceu, dom Hélder, o “Poder Jovem”, as esquerdas do “Antonio´s” e os “marxistas de galinheiro”. Através das “Confissões”, comprava brigas também com os “padres de passeata” por atacado (tinha horror a padres sem batina, que considerava, “vestidos com um anúncio da ‘Ducal’ ”); o Jornal do Brasil (imaginava ver seu proprietário, “amarrado ao pé de mesa e lhe sendo dado de beber numa cuia de queijo Palmira”); as estudantes de psicologia da PUC; os sociólogos; as grã-finas “amantes espirituais de Guevara”; as feministas (“Todas as feministas são umas patuscas”); Jean-Paul Sartre e Bertrand Russel (“dois Acácios”); e até Alexandre Dumas filho, o de “A damas das camélias” (preferia Dumas pai, o de “Os três mosqueteiros”). Mas seu pendor polêmico se frustrava porque quase ninguém comprava de volta suas brigas. Nelson Rodrigues era um reacionário, um caso perdido ou, para outros, um palavrão.[6]

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[1] E não, por exemplo, como seria de se esperar de um católico, as aparições de Nossa Senhora em Fátima.

[2] Nelson, certamente, não leu Hayek e seu extraordinário “The Road to Serfdom”. Deste livro, da edição comemorativa dos 50 anos de sua primeira edição (The University of Chicago Press, 1994), extraio uma citação de uma frase de Mussolini: “Fomos os primeiros a afirmar que quanto mais complicadas são as formas que a civilização assume, mais restrita deve se tornar a liberdade individual”. Há um capítulo neste livro de Hayek intitulado “As raízes socialistas do Nazismo”. O pulo do fascismo para o socialismo não é só fácil como natural e, talvez, inevitável.

[3] Aqui, Nelson se equivoca, naturalmente. Pois o que ele estava vendo não era uma direita bestial, mas uma esquerda na sua forma mais natural. Quanto a esquerda não é bestial, está só disfarçando, guardando para o futuro toda a sua bestialidade.

[4] Prova cabal de que a análise de Nelson estava errada, pois, não existem ex-marxistas, como nos faz crer Ruy Castro.

[5]Ver, neste blog: Nelson Rodrigues “entrevista” D. Hélder Câmara, Nelson Rodrigues “entrevista” D. Hélder Câmara – Parte II, Nelson Rodrigues é mais católico que a CNBB .

[6] Nelson foi, em certo sentido, o Olavo de Carvalho da década de 1960. Denunciava o então Imbecil Coletivo, que viria ser definido e atacado por Olavo, com instrumentos muito mais cirúrgicos, nos anos 1990. Fizeram com Nelson o mesmo que fazem com Olavo, simplesmente ignoram suas críticas, pois não têm, e não tinham, como contrapô-las.

terça-feira, agosto 12, 2008

Nelson Rodrigues é mais católico que a CNBB – Parte II

Nota prévia – Desnecessária qualquer nota prévia. A situação fala por si mesmo. E Nelson fala (escreve) muito bem. Que São José proteja a Igreja de seu Filho adotivo. Ah, sim! O título da crônica de que extraio os trechos abaixo: Quem extravasa ódio?

Em que consiste o Paredão de Manchete? É uma enquête. A revista escolhe uma vítima e chama uma série de personalidades. Faz-se o julgamento ou, melhor do que isso, a execução. As perguntas devem ser mortíferas como balas.

Quando o Zevi fez o convite, a minha modéstia estrebuchou. Aleguei que o Paredão exige os méritos especialíssimos que me faltam. Quem se lembraria de fuzilar um homem secundário como eu? (...)

(...)

(...) Propus ao Zevi: – “Arranja outro nome.” Ele insistiu, quase zangado: – “É você, só serve você.” Tenho comigo a velha pusilanimidade, sim, o velho medo de contrariar os amigos. Disse: – “Vá lá, vá lá.”

(...)

(...) Finalmente, veio trazer as perguntas um rapaz, Buarque de Holanda, talento das novas gerações. Eu tinha que ler e gravar as respostas na hora. (...)

(...)

O momento mais lacinante do Paredão ocorre com a pergunta do jovem ator Paulo José. Excelente menino. Mas diz o seguinte: – “As posições de D. Hélder, autenticamente cristãs, estão apoiadas no pensamento da Igreja de hoje.” E continua: – “Estabelecendo confronto, pergunto: – qual é o outro pensamento da Igreja? Existe outra coisa que mereça ser lida ou vivida?”

Como posso descrever o meu escândalo profundo? Considero invencível um rapaz que chega à boca de cena e anuncia, de fronte alta: – “A Igreja começa e acaba em D. Hélder.” Não lhe apareceu um parente, um contraparente que cochichasse: – “Além de D. Hélder, há pra mais de dois mil anos.” Simplesmente, ele enxota os vinte séculos como quem afasta, com o lado do pé, uma barata seca. Rapaz fortemente atualizado, jamais desconfiou de que tivesse existido, alhures, um Cristo.

Ver também: Nelson Rodrigues “entrevista” D. Hélder Câmara, Nelson Rodrigues “entrevista” D. Hélder Câmara – Parte II, Nelson Rodrigues é mais católico que a CNBB

domingo, agosto 10, 2008

Nelson Rodrigues é mais católico que a CNBB

Nota prévia - Num dos meus comentários sobre o folheto das missas dominicais, comentei sobre o que dizia o padre Nilo Luza (redator do folheto) sobre o milagre da multiplicação dos pães. O padre fazia, usando o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, apologia do “fome zero”. O padre esquecia da dimensão eucarística do pão, de sua função de alimento da alma.

É obvio que o pão sempre tem uma dimensão material, de matar a fome do corpo, apesar de não ser essa a dimensão a ser explorada numa homilia sobre a multiplicação dos pães. Mesmo assim, falar do “fome zero” quando se quer falar da dimensão material do pão é de uma impropriedade extraordinária.

Para falar da miséria, da fome e do pão, convoco um autor (e uma crônica). Não, não é Santo Atanásio, não é Santo Agostinho, não é nem mesmo Santo Tomás de Aquino. Esqueçam Chesterton e Belloc. Esqueçam papas e cardeais. Convoco Nelson Rodrigues, o reacionário. Sua crônica?
Marxismo e asma. Que São José proteja a Igreja de Cristo que hoje se encontra invadida por apóstatas.


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Já lhes falei do meu amigo marxista. Sempre o encontro com a bombinha da asma. Ele próprio declara, com tenebroso humor, que se não fosse a bombinha estaria morto e enterrado desde a Primeira Batalha do Marne. Dizem seus amigos que seu marxismo e todo o seu horror à ordem capitalista são de fundo asmático.

Anteontem procurou-me, irritadíssimo. Chama-me para um canto: – “Preciso falar contigo.” Arquejava, e teve que usar a bomba. Fez tanto “suspense” que pergunto, interessado: – “Mas o que é que há?” Olhou para os lados e então, ainda ofegante, disse: – “Aquele teu artigo está de um reacionarismo!” – pausa, e repetiu, de olho rútilo e lábio trêmulo: – “De um reacionarismo, rapaz!”

Até hoje não sei se a sua irritação era mesmo irritação ou deslumbramento. Ainda perguntei: – “Meu artigo?” Ah, sou um autor sujeito a lapsos fatais. Quantas vezes me esqueço do que escrevi há meia hora? Foi ele quem me alumiou a memória: – “O artigo da fome!” Era verdade. Eu escrevera recentemente artigo sobre a fome de 1917, 18 e 19.

É de caso pensado que ponho as datas. E, com efeito, a fome muda o seu comportamento de época para época. Nos anos citados ela não tinha o apelo, o patético, a promoção dos nossos dias. Bem me lembro dos meus seis, sete anos. De vez em quando vinha gente bater na nossa porta: – “Um pedaço de pão! Um pedaço de pão!” Eis a palavra e a imagem: – pão. Há uns quarenta anos não vejo ninguém pedir pão a ninguém.

Outro dia ocorreu um episódio que me parece singularmente ilustrativo. Uma santa senhora deu pão a um mendigo. O sujeito apanhou o pão e o olhou, esbugalhado, como se não entendesse a esmola. E súbito deu-lhe uma ira, um ódio. Agrediu a senhora, deu-lhe uma surra de pão. A vítima pôs a boca no mundo. Com um rapa fulminante o mendigo a derrubou: e, por cima da senhora, queria enfiar-lhe o pão pela goela abaixo.

Assim se comporta a fome da nossa época. Vive do ódio. Outrora, não. Na Confissão que provocou o divertido horror do marxista asmático eu escrevia, justamente, sobre os famintos da minha infância. Ah, naquele tempo tínhamos por aqui uma fome sem raiva, sem agressividade, dócil, mansa e como que consentida.

Um dia houve um enterro em Aldeia Campista. Salvo engano, o morto era “Seu” Ferreira, português rico, dono de um armazém. Quatro cavalos de crepe e penacho puxavam o carro fúnebre. Na hora certa o enterro vai partir. E então acontece o seguinte: o cocheiro desmaia, simplesmente desmaia (caiu-lhe a cartola).

Corre-corre no portão. Dois ou três agarram o homem; dão-lhe tapinhas na cara. Finalmente, abre os olhos; arquejante, geme: – “Quero comer, quero comer.” E fazia o apelo por entre lágrimas. Foi carregado para o interior da casa enlutada. Lá dentro alguém improvisa um prato fundo de feijão com arroz. O cocheiro começa a comer. Súbito pára e, de boca cheia, pergunta: – “Tem uma pimentinha?”

Aquele homem não comia há dois dias. E não faltou à funerária. Lá estava, de cartola, fazendo o enterro de luxo. E, não fosse derrubado pela inanição, chegaria ao cemitério. Eis o que eu queria dizer: era uma fome sem Ministério do Trabalho, sem greve, sem reivindicações salariais. Ainda garoto, tivemos uma cozinheira que tinha um filho por ano, matematicamente. Chamava-se Hortência. Era uma fecundidade radiante. Dizia, na cozinha, esplêndida de vaidade: – “Tenho os meus filhos em pé.”

E assim chegou aos nove, dez, onze filhos. A fome levou nove. Exatamente nove filhos. Os mais resistentes morriam aos cinco, seis anos. Pois a mãe os enterrava sem pena, nem ressentimentos. Ter os filhos e perdê-los era a sua rotina. Ela própria não odiava a fome, e repito: não havia desespero, nem tristeza, na sua fome.

Muitos anos depois, vou a Caxias e a encontro lá. Já se tinham incorporado à vida brasileira os direitos trabalhistas. Falava-se, na época, que o novo salário-mínimo seria de seis mil cruzeiros antigos. A minha ex-cozinheira, já alquebrada, já avó, ralhava com o genro: – “Sei contos é demais. Onde já se viu? Seis contos é abuso.”

Claro que o marxista queria que eu apresentasse uma cozinheira retórica como “La Passionaria”. E, como não a descrevi derrubando bastilhas e decapitando marias antonietas, o leninista me chamava de reacionário[1]. Curioso é que ele escreve bem. Se deixasse de fazer concessões às esquerdas, seria capaz de obra-prima. Também a asma o prejudica literariamente.

O Brasil de minha infância não tinha assalto por isso mesmo: porque a fome não assaltava e digo mais, a fome ainda não assaltava. O assaltante não quer comer. Mata e fere para ter o supérfluo. Dirá alguém que estou falsificando a verdade. Mas insisto em que só a fome literária do Zola arromba padarias, e só ela pendura o padeiro num pedaço de pau.[2]

Hoje há uma fúria. Quantos vivem da fome? Por exemplo: D. Hélder. Sempre teve gênio promocional e nunca foi um obscuro. Mas faltava ao D. Hélder anterior o dramatismo, a potência, a fama do D. Hélder da fome. A fome tem-no feito. Podíamos apresentar a fome como a autora de D. Hélder. Ele precisava ter, por fundo, a mortalidade infantil. Mas coisa curiosa! Os grandes indignados da fome não são as suas vítimas, mas os que não a tem. Sim, são os bem alimentados que vociferam e dão patadas.

Ainda ontem, uma grã-fina batia o telefone para mim. Reclamava de uma Confissão que tratava, justamente, da fome da Índia. E a excelente senhora agrediu-me como se eu fosse o culpado, da fome do Nordeste, da Índia, Paquistão, Biafra, e de todos as misérias passadas, presentes, e futuras.

Perguntou-me: – “Você acha que a Índia gosta de passar fome? Acha que a Índia gosta de ver as cinzas do próprio cadáver no rio? Sua literatura sobre a fome é desumana.” Eu poderia responder-lhe: – “Meu anjo, por que é que você não asfalta uma favela com seu colar de quinhentos milhões antigos?” Mas sou um tímido e um delicado. E conversei longamente no telefone.

Disse-lhe eu o óbvio total: – a fome é o mais antigo hábito dos hábitos humanos. Ora, um hábito não dói, não faz sofrer. Por exemplo: a Índia. Há seis mil anos que o cadáver é atirado no rio. E o cadáver já não se espanta mais. Lá, milhões de sujeitos não moram. E bebem, a mãos ambas, a água da sarjeta. Do outro lado da linha, a grã-fina esperneava: – “Isso é blague. Não brinque com coisas sérias.” Por fim, como ela tomava a verdade por piada, disse-lhe: – “As vítimas da fome sofrem menos. Quem se descabela, e soluça, e quer chupar a carótida das classes dominantes, são a senhora, D. Hélder e o Dr. Alceu.”[3] Ao ouvir falar no Tristão, pulou: – “Você quer negar a bondade do Alceu?” Com a humildade de um torpe que fala de um santo, desejei que o Mestre tivesse milhares de boas ações, inclusive do Banco do Brasil, da Vale do Rio Doce, Petrobrás e outras. A grã-fina perdeu a paciência. Bateu o telefone.

[1] Nelson vê aqui o óbvio ululante, como ele mesmo gostava de dizer: o marxismo é filho dileto da Revolução Francesa, aquele episódio que, assim se diz, criou o mundo moderno. E a Igreja pós-conciliar optou pela Revolução Francesa, como nos diz candidamente João Paulo II: "Nos documentos do Concílio Vaticano II pode-se encontrar uma sugestiva síntese da relação entre o cristianismo e o iluminismo" (João Paulo II, Memória e Identidade, Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2005, pg 126). (Nota do blogueiro)

[2] Quem quiser saber quais são as raízes da violência no Brasil, o texto fundamental, para mim, é o de Olavo de Carvalho: Bandidos e letrados. Olavo e Nelson diagnosticam certeiramente o problema. (Nota do blogueiro)

[3] E a CNBB. (Nota do blogueiro)

domingo, junho 22, 2008

Nelson Rodrigues “entrevista” D. Hélder Câmara – Parte II

Eis a paisagem obrigatória: – um terreno baldio que tenha, no alto, uma lua de sangue e, por fundo, a gargalhada dos sátiros e duendes. Além de mim e d. Hélder, a única presença consentida é a de uma cabra vadia. O arcebispo foi pontualíssimo. Chega exatamente quando o sinal dava as doze badaladas. Alhures, uma coruja pia. D. Hélder pergunta: – “E o pessoal? Não vem ninguém?”.

Explico-lhe que o charme das entrevistas imaginárias é o pudor, o sigilo, o mistério. É preciso que ninguém as veja e ninguém as ouça, a não ser a cabra. D. Hélder vira-se: – “Em que jornal trabalha a cabra?” Respondo-lhe que a cabra tem vários defeitos, menos o de ser jornalista. Esclareço ainda: – “A única função da cabra é paisagística”. A frustração do sacerdote foi total. Fechou a questão: – “Só falo para jornal, rádio, televisão.” Pergunto: – “É sua última palavra?”. Era.

E já que não havia outro remédio, tratei de convocar uma imprensa também imaginária para ao local. Instantaneamente, apareceram lá o caminhão da Globo e os locutores-volantes, o Washington Rodrigues, o Pallut, o Paradelas, fotógrafos, correspondentes estrangeiros, a BBC de Londres etc. etc. Essa platéia espectral foi um afrodisíaco para o bom padre. O Justino Martins surgiu e prometeu uma capa de Manchete. O Cláudio Mello e Souza daria uma capa de Fatos & Fotos. Mas d. Hélder parecia ainda insatisfeito: – “E a Life não mandou ninguém?”. Tive que providenciar um enviado imaginário da Life.


Todos presentes, comecei – “D. Hélder, a diretora de um colégio religioso de São Paulo disse o seguinte: – que ser prostituta é uma profissão como outra qualquer. O senhor concorda?”. D. Hélder não respondeu logo. Semicerrou os olhos, juntou as mãos, como se rezasse. Os faunos e as ninfas, que costumam infestar os terrenos baldios, vieram espiar. Suspense aterrador. E, súbito, o arcebispo pula: – “Não! Não!”

Flashes assustam os grilos e os sapos do terreno baldio. Todos sentiram que d. Hélder ia fulminar a iniqüidade. De braços abertos, vai falando: – “Nunca, jamais! Ser prostituta não é uma profissão como outra qualquer. Absolutamente. É uma profissão que exige prendas raras. Raras”.

Instalou-se ali no mato, o caos profundo. A imprensa imaginária já não sabia se d. Hélder estava contra ou a favor. Os taquígrafos não perdem um suspiro do orador. Mas didático, d. Hélder está falando: – “Qualquer uma poder ser datilógrafa, não é exato? Mas uma messalina tem que possuir dons outros, atrativos especiais. Uma gaga não pode ser messalina. Uma bruxa de disco infantil não pode fazer prostituição. Tanto a gaga como o bucho morreriam de fome. Portanto, é injusto falar em ‘uma profissão como outra qualquer’. Ou estou enganado?”. O orador é aplaudido como um tenor no dó de peito.

O representante imaginário da Life faz a sua pergunta: – “É verdade que o senhor brigou com os 2 mil anos da Igreja?”. D. Hélder não ouviu direito. O outro repete: – “É verdade que o senhor brigou com o passado da Igreja?”. A resposta foi de uma rara felicidade: – “Meu amigo, que tem passado é a adúltera recuperada”. Neste momento, uma admiradora de J. G. de Araújo Jorge aparece com um livro: – “O senhor quer escrever isso no meu álbum?”. D. Hélder arranca da batina uma caneta e põe lá: – “Quem tem passado é a adúltera recuperada”. Na sua vaidade autoral, o arcebispo pergunta: – “Gostou?”. E a moça: – “Lindinho”.

Agora era a vez da estagiária do Jornal do Brasil. Eis a pergunta: – “O que é que o senhor acha do amor?”. D. Hélder fez um risonho escândalo. Diz: – “Oh, oh!”. E responde com outra pergunta: – “Que idade você tem?”. Resposta: – “Dezenove”. D. Hélder ralhou, alegremente: – “E como é que você, aos dezenove anos, fale em amor? O que é o amor? Isso não existe, nunca existiu. O amor é a doença do sexo”. Estaca ao som da própria frase. Diz: – “Acho que fui feliz”. E repete: – “O amor é a doença do sexo”. Estimulado pela frase, foi adiante: – “O amor tem que ser exterminado. Nunca a morbidez é do sexo, sempre do amor. O sexo é de uma pureza, de uma inocência, de uma saúde totais. Vejam a lição dos vira-latas e dos gatos vadios. Olhem a praça da República. Não se conhece um Werther entre os gatos do Campo de Santana. Jamais um vira-lata matou, ou se matou, ou deu manchete na Luta ou no Dia. Precisamos matar o amor” .

Era o fim. A aragem fina desfez a imprensa imaginária. O Justino Martins tornou-se diáfano, o Cláudio Mello e Souza, incorpóreo, a estagiária, alada. Paletós, camisas, gravatas e sapatos, tudo se volatilizou. E, por muito tempo, o terreno baldio ficou ressoante da sábia frase: – “O amor é a doença do sexo”.

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Ver também, Nelson Rodrigues “entrevista” D. Hélder Câmara.

quinta-feira, junho 12, 2008

Nelson Rodrigues “entrevista” D. Hélder Câmara

Outro dia, num e-mail pessoal, dizia a um amigo que lendo “O século do nada”, de Gustavo Corção, podíamos sentir toda a angústia que ia na alma do grande pensador católico produzida pelo desastre do catolicismo, com o triunfo do modernismo (no sentido dado ao termo por São Pio X), consolidado pelo Concílio Vaticano II.

Nelson Rodrigues, através de suas crônicas dos anos 1960, registrou o mesmo fenômeno, desde um outro ponto de vista, com um outro tipo de texto, mas sem deixar de demonstrar seu mais extraordinário espanto. Leiam abaixo, trechos tirados de suas crônicas em que ele entrevista imaginariamente D. Hélder Câmara, então expoente da “nova” Igreja.

Quem, como nós, já convive com a “nova” Igreja há quase 50 anos, sabemos que tudo que d. Hélder disse imaginariamente a Nelson Rodrigues, os bispos da CNBB puseram em prática neste nosso triste país.

Entrevista

“(...) Até que, um dia, na crônica, ocorreu-me a idéia das ‘entrevistas imaginárias’. Aí estava a única maneira de arrancar do entrevistado as verdades que ele não diria ao padre, ao psicanalista, nem ao médium, depois de morto.

“Fascinou-me a ‘entrevista imaginária’. Precisava, porém, arranjar-lhe uma paisagem. Não podia ser um gabinete, nem uma sala. Lembrei-me, então, do terreno baldio. Eu e o entrevistado e, no máximo, uma cabra vadia. Além do valor plástico da figura, a cabra não trai. Realmente, nunca se viu uma cabra sair por aí fazendo inconfidências. Restava o problema do horário. Podia ser meia-noite, hora convencional, mas altamente sugestiva. Nada do que se diz, ou faz, à meia-noite, é intranscendente. Boa hora para matar, para morrer ou, simplesmente, para dizer as verdades atrozes.

“(...) E súbito um nome ilumina minhas trevas interiores: -- ‘D. Hélder!’. De todos os vivos e mortos do Brasil, era ele o mais urgente, o mais premente. E, de mais a mais, uma batina é sempre paisagística

“Ontem, finalmente, houve, no terreno baldio, a ‘entrevista imaginária’. À meia-noite, em ponto, chegava d. Hélder. Lá estava também a cabra, comendo capim, ou, melhor dizendo, comendo a paisagem. À luz do archote, começamos a conversar. Primeira pergunta: -- ‘O senhor fuma, d. Hélder?’. Resposta: -- ‘A entrevista é imaginária?’ Acho graça: -- ‘Ou o senhor duvida?’. E d. Hélder: -- ‘Se é imaginária, fumo. Qual é o teu?’. Digo: -- ‘Caporal Amarelinho’. Cuspiu por cima do ombro: ‘Deus me livre. Mata-rato!’.

“Faço a pergunta: -- ‘Que notícias o senhor me dá da vida eterna?’. Riu: -- ‘Rapaz! Não sou leitor do Tico-Tico nem do Gibi. Está-me achando com cara de vida eterna?’. No meu espanto, indago: -- ‘E o senhor acredita em Deus? Pelo menos em Deus?’. O arcebispo abre os braços, num escândalo profundo: -- ‘Nem o Alceu acredita em Deus. Traz o Alceu para o terreno baldio e pergunta’.

“Ele continuava: -- ‘O Alceu acha graça na vida eterna. A vida eterna nunca encheu a barriga de ninguém’. D. Hélder falava e eu ia taquigrafando tudo. Aquele que estava diante de mim nada tinha a ver com o suave, o melífluo, o pastoral d. Hélder da vida real. E disse mais: -- ‘Vocês falam de santos, de anjos, de profetas, e outros bichos. Mas vem cá. E a fome do Nordeste: Vamos ao concreto. E a fome do Nordeste?’.

“Não me ocorreu nenhum outro comentário senão este: -- ‘A fome do Nordeste é a fome do Nordeste’. D. Hélder estende a mão: -- ‘Dá um dos teus mata-ratos’. Acendi-lhe o cigarro. ‘Diz cá uma coisa, meu bom Nelson. Você já viu um santo, uma santa? Por exemplo: -- Joana D’arc. Já viu a nossa querida Joana D’arc baixar no Nordeste e dar uma bolacha a uma criança? As crianças lá morrem como ratas. E o que é que esse tal de são Francisco de Assis fez pelo Nordeste? Conversa, conversa!’

“Lanço outra isca: -- ‘É verdade que o senhor vai para o Amazonas?’. Riu: -- ‘Onde fica esse troço? Ó rapaz! Ainda nunca desconfiaste que a fome do Nordeste é o meu ganha-pão? E o Amazonas é terra de jacaré. Tenho cara de jacaré?’. Concordo em que ele não tem nenhuma semelhança física com um jacaré. Indago: -- ‘E o comunismo?’.

“D. Hélder conta: -- ‘Quando estive nos Estados Unidos, bolei um cartaz assim: O arcebispo vermelho! Era eu o arcebispo vermelho, eu!’. Insinuei a dúvida: -- ‘Mas esse negócio de comunismo é meio perigoso’. Nova risada: -- ‘Perigosa é a direita. A direita é que não dá mais nada. O arcebispo vermelho fez um sucesso tremendo nos Estados Unidos.’.

“ Pede outro cigarro. Fez novas confidências: -- ‘Sou homem da minha época. Na Idade Média, eu era da vida eterna, do Sobrenatural. Fui um santo. É o que lhe digo: -- cada época tem seus padrões. Benjamim Costallat, no seu tempo, era o Proust. O charleston já foi a grande moda. Pelo amor de Deus, não me falem da vida eterna, que é mais antiga, mais obsoleta do que o primeiro espartilho de Sarah Bernhardt. Hoje, a moda não é mais Benjamim Costllat, nem o charleston. Entende? É Guevara. O santo é Guevara. E acompanho a moda’.

“Desfechei-lhe a pergunta final: -- ‘E a Presidência da República?’. D. Hélder respira fundo: -- ‘Depende. A fome do Nordeste é o barril de pólvora balcânico. Fome, mortalidade infantil, muita miséria e cada vez maior. Chegarei lá’. Era o fim da ‘entrevista imaginária’. Despedi-me assim: -- ‘Até logo, presidente’. Respondeu: -- ‘Obrigado, irmão’. E antes de partir fez a última declaração: -- ‘Olha, as donas de casas têm uma simpatia para curar dor de barriguinha em criança. Acredito mais na simpatia do que na ressurreição de Lázaro’. Disse isso e sumiu na treva.”