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sexta-feira, outubro 07, 2011

Sermão de Johann Tauler: os cinco pórticos da piscina Betesda.

Nota do blog: o Pe. Tauler foi um dos grandes sermonistas da Igreja e uma figura proeminente na Alemanha do século XIV. Dois outros textos do padre Tauler se encontram aqui e aqui.

No Evangelho de São João (João 5:1-11), lemos que Jesus foi a Jerusalém num dia de festa dos Judeus. Havia uma piscina com cinco pórticos, onde um grande número de enfermos jazia esperando que um anjo do Senhor descesse e agitasse as águas da piscina. A primeira pessoa que mergulhasse na água depois de ela ser agitada seria curada de sua doença. Havia um homem cuja doença durava já trinta anos. Quando o senhor Jesus o viu e soube que ele lá jazia por tanto tempo, Ele disse: “Queres ser curado?” O doente respondeu: “Senhor, não tenho ninguém que me lance na piscina, tão logo a água seja posta em agitação; e, enquanto eu vou, outro desce antes de mim.” Nosso Senhor disse: “Levanta-te, toma a tua enxerga e anda.” Ele foi perguntado logo depois, mas ele não sabia se fora Jesus que tinha feito aquilo por ele. Mais tarde, contudo, nosso Senhor o encontrou e disse: “Eis que ficaste curado. Não tornes a pecar, para não te suceder coisa pior.”

Essa piscina de água significa o Filho, nosso querido Senhor Jesus Cristo, e as águas que se agitam na piscina significam o Precioso Sangue do Filho querido de Deus, que é Deus e homem. Ele nos lavou totalmente em Seu precioso sangue, e em Seu amor Ele lavará todos os que vierem a Ele até o final dos tempos. O grande número de enfermos que esperavam, nas margens da piscina, a agitação das águas significa, em certo sentido, toda a raça humana. Eles esperaram por toda a vida, sob a Lei Antiga, e depois que morreram, esperaram no limbo até que o Precioso Sangue nessa adorável piscina pudesse se agitar para curá-los; pois até que isso acontecesse, eles nunca conseguiriam recuperar sua saúde e ser salvos. Mesmo atualmente, quando nossa salvação já foi forjada, ninguém pode ser salvo, ou recuperar a saúde, exceto por meio da maravilhosa água da piscina, isto é, do sangue de nosso Senhor Jesus Cristo. E o doente que não vier a ela, deve morrer e perecer eternamente.

Havia cinco pórticos que levavam a essa piscina. Num certo sentido, eles significam as cinco chagas de nosso Senhor, por meio das quais e nas quais somos todos curados. Mas em outro sentido, esses cinco pórticos significam cinco virtudes que devemos praticar. Cada um de nós precisa de todas elas, mas cada um é mais particularmente doente numa parte de sua natureza que o outro e, portanto, precisa de exercitar uma particular virtude mais que as outras. O primeiro pórtico, a primeira virtude a ser praticada, é uma profunda e abjeta humildade. Um homem deve se considerar um nada. Deve saber como subjugar-se pacientemente a Deus e a todas as Suas criaturas, e aceitar tudo, qualquer que seja sua causa, como vindo diretamente de Deus e de ninguém mais. Deve confiar em Deus com humilde temor, desprezando-se verdadeiramente em tudo que lhe ocorrer, tanto na alegria quanto na tristeza, na riqueza ou na pobreza.

domingo, novembro 07, 2010

O diabo rodeia-vos como um leão a rugir (1 Ped 5:8)

Nota do blog: trecho do sermão XXXV.
O demônio gosta muito de enganar as pessoas com uma exagerada melancolia. Quando vemos quão fracos e inclinados ao pecado somos por natureza, como dissemos, ficamos tristes e miseráveis. Aí se aproxima o leão, o diabo, e sussurra: “Você vai gastar toda a sua vida em tristeza e penitência? Você seria um tolo! Divirta-se como os outros fazem. Tenha algum prazer na vida. Deus cuidará de que você se arrependa em seu leito de morte. Faça o que quiser e aproveite a vida enquanto você é jovem; haverá tempo suficiente para ser santo na sua velhice.” Oh, crianças, tomem muito cuidado enquanto há luz, para que a escuridão não lhes peguem despreparadas! Sede sóbrias, vigiai, e tomai muito cuidado. Vocês viverão a vida apenas uma vez; e quando morrerem, será que encontrarão em vocês “as plantas que Meu Pai no céu não plantou,” das quais o próprio Nosso Senhor disse que “deviam ser arrancadas pelas raízes”? Crianças, sejam sábias e considerem estas questões cuidadosamente.
O demônio pode nos causar todos os tipos de problemas. “Oh,” dizem as pessoas, “se ao menos eu tivesse um diretor espiritual com quem conversar! Tenho as mais temerosas idéias e estou num estado terrível.” Bem, minha querida criança, eu conheço muito as idéias que o demônio pode colocar em nossas cabeças, e meu conselho é este: o que o demônio coloca em sua cabeça, você retira de lá; esteja em paz e entregue seu coração a Deus. Não preste atenção a tais idéias, não deixe seus pensamentos se fixarem nelas, deixe-as simplesmente passar pela sua mente. Vocês sofrerão frequentemente tais experiências dolorosas; isto é obra do demônio e surge da melancolia exagerada. Ele acabará levando-a ao desespero. “Nada tem valor,” você dirá. O que fazer, então? Deposite a carga de todas as suas preocupações em Deus, ancore-se n’Ele. Quando os marinheiros estão em perigo e pensam que vão encalhar nas pedras, lançam sua âncora e ela afunda no fundo do Reno, e isto os salvam. Devemos fazer o mesmo; quando o demônio nos ataca com tentações horríveis, da mente ou do corpo, nada há a fazer exceto lançar nossa âncora, a âncora da perfeita confiança e esperança em Deus. Não importam os remos e o leme, a âncora é tudo que precisamos; e isto é o que você deve fazer em cada sofrimento da alma ou do corpo.

quarta-feira, outubro 27, 2010

Pois a minha carne é um verdadeiro alimento (Jo. 6:55)

Johann Tauler

Beneditino do séc. XIV


Nota do blog: Tauler deixou uma coleção de sermões, proferidos principalmente em conventos de freiras dominicanas, que são uma obra clássica do catolicismo, tendo influenciado grandes santos, como São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila. Eis um pequeno destes sermões, proferido numa Missa de Corpus Christi.


Não há matéria que está tão próxima de um homem e que tanto se torna parte dele quanto a comida e a bebida que ele coloca em sua boca; e assim Deus encontrou esta maravilhosa forma de Se unir a nós tão intimamente quanto possível e se tornar parte de nós ... Todavia São Bernardo disse: “Quando nos alimentamos de Deus, somos consumidos por Ele e Ele se alimenta de nós.” Quando Deus se alimenta de nós? Ele assim o faz quando morde e mastiga nossas consciências; como um homem mastiga a comida em sua boca, assim os castigos de Deus mastigam um homem, enchendo-o de temor e medo, aflição e amargura, de tal forma que ele não sabe o que acontecerá consigo.

 

Querida filha, quando isso acontecer com você, agüente firme. Deixe Deus morder e mastigar você. Não procure evitá-lo, nem mesmo tente tomar o lugar de Deus; e não corra para o seu diretor espiritual à procura de consolação, porque isso a privaria de uma proveitosa aflição. Não, a primeira coisa que você deve fazer é, confesse sua falta a Deus; e não por meio de exercícios devotos e pequenas orações piedosas, mas com um profundo lamento das profundezas de sua alma: “Ah! Senhor, tenha piedade de mim, miserável pecador.”

 

Também, não fuja de si mesma. É mil vezes mais proveitoso para você passar por isso até o fim do que ler um grande número de livros ou fazer outra coisa que poderia ajudá-la a escapar da aflição. Por outro lado, você deve ficar atenta em tais períodos para evitar que o demônio lhe fira com uma excessiva melancolia. Ele gostaria de servir a você ervas amargas: mas as ervas que Nosso Senhor coloca à sua frente são doces e saudáveis, e quando Ele já estiver lhe castigado, toda a sua mente estará plena de doçura. Você terá n’Ele uma fé amorosa, vinda de uma confiança e inocente esperança.