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terça-feira, junho 11, 2013

Editoras católicas são raras, mas existem.

Falo de uma nova editora, a Castela Editorial, de Gabriel Galeffi Barreiro, que além de editor é um excelente tradutor. A editora lançou três livros muito bons. Na ordem de lançamento temos: Sete mentiras sobre a Igreja Católica (já na 2a. edição), Dez datas que todo católico deveria conhecer e A Confissão.  
 
Os três livros são traduzidos, e muito bem, por Gabriel Galeffi. Os dois primeiros são de Diane Moczar, professora de História da Northern Virginia Community College, nos EUA. Sim pessoal, existem professores de História católicos; o espécime é raro, mas com paciência conseguimos achar alguns.  
 
Quais são as sete mentiras? Os títulos dos capítulos já dizem o essencial: Idade Média, “idade das trevas”; Igreja Católica, inimiga do progresso; Uma cruzada contra a verdade; A sinistra Inquisição; A ciência no tribunal, a Igreja Católica versus Galileu; Uma Igreja corrompida até o topo; e A oportuna Lenda Negra. Há muito mais mentiras que estas, mas a escolha de Moczar é muito boa. Seu texto é simples, direto e muito claro. A historiadora é porém muito compreensiva com nossos inimigos; senti falta de um espírito mais belloquiano, por assim dizer. Senti falta de um ataque mais direto na jugular de nossos inimigos. Contudo, é um livro para se ler com prazer e proveito. 
 
As dez datas foram, do mesmo modo, muito bem escolhidas: 313 d.C., O Edito de Milão; 452 d.C., São Leão Magno impede a invasão dos hunos; 496 d.C., O batismo de Clóvis e o nascimento da França católica; 800 d.C., A coroação de Carlos Magno, pai da cristandade; 910 d.C., A fundação da Abadia de Cluny e o renascimento da vida religiosa; 1000 d.C., Início da era mais gloriosa da Igreja; 1517 d.C., A catástrofe protestante; 1571 d.C., A Batalha de Lepanto, a vitória naval de Nossa Senhora; 1789 d.C., A era da Revolução; 1917 d.C., Fátima e o século XX. Peço a atenção dos leitores para três capítulos em especial: sobre o protestantismo, sobre a Revolução Francesa e sobre Fátima; eles são muito bons. Todo católico tem obrigação de conhecer estas datas escolhidas por Moczar. 
 
O terceiro livro da Editorial Castela é um clássico da literatura católica: A Confissão, de Mons. de Ségur. O livrinho desse grande apologista do século XIX é tão essencial quanto o que ele escreveu sobre o Inferno, também lançado recentemente no Brasil, pela Editora Ecclesiae. Quem tem alguma dúvida sobre o Sacramento da Penitência ou deseja algumas ideias de como abordar o assunto de modo apologético, não pode deixar de ler esta pérola. Chamo a atenção dos leitores para duas coisas no livro. Primeiramente, destaco o prefácio da edição do livro; é um prefácio muito esclarecedor, assinado por um “sacerdote católico”. Esse padre, que não quis se identificar, comenta a calamidade em que se transformou a Confissão hoje no Brasil, com os padres transformando este Sacramento em verdadeiras “salas de terapia”. Há exceções, é claro, e o padre ensina como identifica-las, como encontrar os padres piedosos que nos possam confessar. Em segundo lugar, destaco a deliciosa história ouvida por Mons. de Ségur, narrada diretamente por ninguém menos que São João Maria Vianney, sobre um importante cavalheiro que foi procurá-lo para “uma conversa” em sua paróquia. O cavalheiro não queria se confessar, só conversar. O que Santo Cura d’Ars faz com esse homem é espetacular e eu não vou atrapalhar a surpresa do final do livro.

quinta-feira, novembro 15, 2012

O “Último Teorema de Fermat” e as mentiras sobre a Igreja Católica e os católicos.


Divulgar mentiras e desinformação contra a Igreja é o esporte favorito de muitos. Quem não se lembra das trave$$ura$ de Dan Brown e o seu Código Da Vinci. Mentiras sobre as Cruzadas, sobre a Inquisição, sobre a Igreja e a ciência, etc., abundam e enchem milhões de páginas desde Pentecostes.

Esperamos sempre encontrar tais mentiras em livros de história geral, ou de divulgação barata como o livro de Brown. Nossa expectativa é menor em livros de história da matemática, como o livro de Simon Singh, O Último Teorema de Fermat, Ed. Record, 2006. O Sr. Singh não consegue esconder seu desprezo pela Igreja em várias passagens do livro, que narra a interessantíssima história do último teorema, dentre muitos, enunciado por Pierre Fermat numa margem do seu exemplar da Aritmética de Diofante de Alexandria. Todos os outros teoremas foram provados, restando este, que afirma ser impossível encontrar três números inteiros – x, y e z – em que xn + yn = zn, para n>2. Para n=2, a igualdade é válida, pois expressa o teorema de Pitágoras. Na margem do livro, Fermat não só enuncia o teorema como afirma tê-lo provado, mas não registra a prova, dizendo-a longa demais para ser contida em tão pouco espaço.

Vocês veem que o assunto é muitíssimo interessante e aparentemente alheio a assuntos teológicos. Mas nada é alheio à teologia. O Sr. Singh, para tornar o livro mais interessante e mais compreensível ao leitor comum, se propõe a contar uma longa história, que começa na antiguidade grega, exatamente com Pitágoras, e termina em 1995, ano em que o teorema de Fermat foi finalmente provado; mais de trezentos anos depois de ter sido enunciado.

A Igreja e os católicos participam da história contada por Singh sempre como bárbaros. Vou tomar apenas dois exemplos contidos no livro. O primeiro se refere à queima da Biblioteca de Alexandria. Singh conta a seguinte história, que ele provavelmente tirou do mentiroso Gibbon: No ano de 389 “o imperador cristão Teodósio ordenou que Teófilo, bispo de Alexandria, destruísse todos os monumentos pagãos. Infelizmente, quando Cleópatra reconstruiu e reequipou a Biblioteca, ela decidiu alojá-la no Templo de Serápis. E assim a Biblioteca foi jogada no meio da fúria para a destruição de ícones e altares. Os estudiosos ‘pagãos’ tentaram salvar seis séculos de conhecimento, mas antes que pudessem fazer qualquer coisa foram linchados pela horda de cristãos. O mergulho em direção à Idade das Trevas tinha começado.” Que malvados esses católicos, não é mesmo? Não só colocam fogo na imensa biblioteca, que continha todo o conhecimento humano até então, como ainda assassinam os grandes homens que a queriam salvar! Que odiosos são esses idólatras cristãos assassinos!

Vamos usar duas fontes para desmascarar essa historinha de botequim. A primeira é a obra História Eclesiástica do Padre da Igreja Sócrates de Constantinopla, ou Sócrates Escolástico. No livro V, capítulo XVI, da referida obra, Sócrates conta o seguinte.

“Por solicitação de Teófilo, bispo de Alexandria, o imperador ordenou então a demolição dos templos pagãos daquela cidade; ordenando ainda que a execução da ordem fosse dada a Teófilo. Aproveitando essa oportunidade, Teófilo expôs os mistérios pagãos à execração pública. Para começar ele esvaziou o templo de Mitra e fez uma exibição pública dos símbolos desses mistérios sangrentos. Então ele destruiu o templo de Serápis e também exibiu todas as suas extravagantes superstições, e fez com que o falo de Príapo fosse trazido para o meio do fórum. Os pagãos de Alexandria, e especialmente os professores de filosofia, não se contiveram em seu ódio por tal exposição pública. (...) eles se lançaram impetuosamente sobre os cristãos, e assassinaram cada um dos que eles puderam alcançar. Os cristãos tentaram resistir, mas isso só piorou a situação. A carnificina só terminou quando findou a saciedade pelo derramamento de sangue. Descobriu-se então que, embora poucos pagãos tenham morrido, pereceu um grande número de cristãos. (Heládio, um sacerdote de Júpiter, admitiu ter assassinado nove homens com suas próprias mãos). Depois desses tumultos, Teófilo mandou demolir os templos pagãos.”

Como fica agora a historinha de botequim do Sr. Singh? Quem massacrou quem? Os tais estudiosos estavam enfurecidos pela exposição pública de seus ritos sangrentos e secretos. Mas, e a imensa biblioteca, contendo todo o conhecimento humano, que os cristãos destruíram? Bem, para desmascarar esta mentira não precisamos mais do que a Wikipedia – quem diria? – que nos informa que: “Um texto mais antigo, do historiador Ammiano Marcelino, indica que a biblioteca foi destruída no tempo de Júlio César; quaisquer livros que tenham sido guardados no tempo de Serápis não estavam mais lá, na última década do século IV. O autor pagão Eunápio de Sardis testemunhou a demolição, e embora detestasse os cristãos, e fosse um estudioso, seu registro da destruição do templo não menciona nenhuma biblioteca.”

A historinha do Sr. Singh é composta de três partes: os cristãos destruíram os templos pagãos de Alexandria no final do século IV; eles queimaram a biblioteca de Alexandria; eles massacraram quem tentou evitar tal ato de vandalismo. A primeira parte é verdadeira, com o detalhe de que foi Teófilo que solicitou a Teodósio a destruição dos templos e não o contrário. A segunda parte é uma mentira deslavada e na terceira parte ocorreu justo o contrário. Pois é, a Idade das Trevas começou muito mal; com uma grande e gorda mentira.

O segundo exemplo é realmente interessante. O Sr. Singh fala de muitos matemáticos em seu livro, como se pode imaginar. Ele descreve suas obras no que concerne ao tema principal do livro, que é o último teorema de Fermat. Ele não comenta nada sobre traços pessoais de nenhum desses estudiosos, atendo-se apenas às suas obras. A única exceção é para o matemático Cauchy, que ele descreve gratuitamente como “hipócrita, fanático religioso e pessoa extremamente impopular com seus colegas. Ele só era tolerado na Academia por seu talento.” Bem, Cauchy era um fervoroso católico, com um pequeno detalhe: era um fervoroso católico na época da Revolução Francesa! Um homem que sempre confessou sua Fé e que por isso foi perseguido, destituído de empregos, exilado, etc. Numa época em que os jesuítas eram extremamente impopulares, ele escreveu duas obras em defesa deles. Em 1810, ele escreveu para sua mãe: “eles reclamam que minha devoção me torna muito orgulhoso, arrogante e presunçoso... Deixaram-me de lado acerca da temática religiosa e ninguém a menciona para mim.” É de se imaginar sobre o que Cauchy fala aqui: qualquer católico que afirma que o catolicismo é verdadeiro é acusado de arrogante, pois o chique, o sinal de humildade é dizer que não existe verdade, ou que cada um tem a sua, ou que cada um consegue absorver uma parte dela, etc. Mas Cauchy foi um dos maiores matemáticos que já existiu na face da Terra; ele produziu 789 artigos matemáticos e muitos livros. Suas obras completas cobrem 27 volumes. Deve ser a isso que se refere o Sr. Singh, quando fala de seu talento.

Mas o mais curioso de tudo isso é que o matemático que originou todo o enigma que foi resolvido em 1995, o matemático que enunciou o teorema que se tornou o mais famoso do mundo, o matemático francês Pierre de Fermat era – adivinhem? – UM FERVOROSO CATÓLICO! Isto o Sr. Singh não tem a gentileza de nos informar.

E assim se vão mais algumas mentiras sobre a Igreja e sobre nós católicos.

quarta-feira, setembro 26, 2012

Todos os Caminhos Levam a Roma: resenha de um leitor II.

Nota: esta resenha é do amigo, futuro afilhado e irmão na Fé, Augusto de Carvalho Mendes. Veja a opinião de outro leitor aqui.



Nesse final de semana, peguei o livro de Chesterton Todos os Caminhos levam a Roma, recém traduzido pelo professor Angueth, e o li rapidamente. Gostaria de parabenizar o Tradutor por mais esse relevante serviço prestado aos leitores brasileiros! 

O livro é de leitura muito agradável, fiquei lendo por horas durante a madrugada do sábado para o domingo, lendo metade dele, e concluindo a leitura na segunda. Como podem ver, o livro pode ser lido rapidamente e, garanto, com bastante proveito. 

Ficou tudo muito bom, da capa à tradução, passando pelas excelentes notas que ajudam muito na compreensão dos textos e pela introdução que mostra o que poderia, talvez, ser chamado de "pré-história" da conversão de Chesterton (ou, talvez, em outro sentido, o catolicismo “pré-histórico” dele).

Nunca tinha lido nenhum livro do Chesterton e agora estou convencido da sua importância para os católicos. Digo isso tendo em vista o modo de argumentação, as imagens literárias e os exemplos usados por ele. Chesterton consegue exprimir verdades da Doutrina Católica de uma forma mais compreensível para o leitor do século XXI. Para os que querem conhecer, transmitir e defender a Fé Católica, parece-me realmente importante ler Chesterton, visto que, por exemplo, num debate sobre religião feito hoje, um argumento ao estilo escolástico não sei acompanhado pelos ouvintes por nem um minuto, algumas comparações feitas pelos Padres da Igreja dificilmente seriam compreensíveis, mas, ao contrário, as imagens e comparações feitas pelo escritor inglês são muito mais acessíveis e inteligíveis, tanto por sua capacidade expressiva, quanto pelo fato de que, infelizmente, ainda vivemos muitos dos problemas vividos e combatidos por ele. Aquilo que o Concílio Vaticano II disse que queria fazer, Chesterton fez várias décadas antes e sem distorcer e falsificar, em vários pontos, a Fé Católica.

Achei bastante interessante que Chesterton aborda alguns aspectos que seriam também desenvolvidos por Eric Voegelin. Contudo, como Voegelin não era católico, não pôde se valer do benefício que Chesterton aponta no livro sobre o desenvolvimento de idéias dentro da Igreja Católica e descambou para uma crítica exagerada, assim me parece, de tudo que se consolide numa doutrina bem formulada, mais ou menos como os modernistas, confirmando que Chesterton estava certo: fora do local correto, ou seja, fora da Igreja Católica, uma idéia excelente pode se converter numa monstruosidade, mesmo quando desenvolvida por um homem genial e profundamente honesto.

Só me resta procurar os livros já publicados e esperar pelos próximos lançamentos que, se Deus quiser, chegarão.

Muito bom livro!

quinta-feira, setembro 20, 2012

Todos os Caminhos Levam a Roma: resenha de um leitor.

Nota: Recebi quase simultaneamente a opinião de dois leitores, e amigos, sobre o livro que traduzi recentemente: Todos os Caminhos Levam a Roma. Publico aqui a resenha de Frederico Branquinho, meu caro ex-aluno, amigo e irmão na Fé, que agora está construindo seu reino familiar na Capital Federal. A outra resenha publico num post a seguir.



Acabei de reler o "Todos os Caminhos Levam a Roma" marcando as partes que mais gostei. A escolha dos textos foi muito feliz. Fiquei imaginando o grande apologista literário, Chesterton defensor fidei, esgrimindo com grande desenvoltura - apesar do peso - ao redor de uma magnífica Catedral Gótica, cujas torres representariam os principais temas defendidos nos ensaios: a juventude, a complexidade, a verdade, a unicidade e a perfeição (ou completude) da Igreja. 

Sobre a juventude da Igreja, realmente nada se compara ao Introibo ad altare Dei. Para além disso, cito dois trechos do primeiro ensaio que eu gostei muito; um pela atualidade e o outro pela beleza. O primeiro se aplica muito bem àqueles lugares onde a verdadeira Igreja ainda está viva hoje em dia:
Eu a tenho chamado pela expressão convencional "antiga religião". Mas ela não é uma antiga religião; é uma religião que se recusa a envelhecer. Neste momento da história, ela é uma religião muito jovem. Muito especialmente, uma religião de jovens.

O segundo eu transcrevo em inglês para ressaltar o domínio de Chesterton da língua inglesa e o desafio para os seus tradutores. A repetição de uma palavra no original soa melhor que a diversificação da tradução:
I cannot understand how this unearthly freshness in something so old can possibly be explained except on a supposition that it is indeed unearthly (Não consigo entender como esse frescor etéreo em algo tão antigo pode ser possivelmente explicado, exceto pela suposição de que este algo seja um frescor sobrenatural).

Do ensaio "A Defesa da Complexidade", eu grifei uma passagem com a qual eu me identifiquei completamente:
E, enquanto isso, qualquer camponês católico, ao segurar uma pequena conta do Rosário em seus dedos, pode estar consciente, não de uma eternidade, mas de um complexo, quase um conflito, de eternidades; como, por exemplo, nas relações de Nosso Senhor e Nossa Senhora, nas da paternidade e da infância de Deus, nas da maternidade e da infância de Maria. Pensamentos desse tipo têm, num sentido sobrenatural, algo análogo ao sexo; eles dão cria. São férteis e se multiplicam; e não há fim para eles. 
Eu só acrescentaria: e nos dão uma alegria sobrenatural!

Dos dois ensaios "A História de uma Meia-Verdade", eu marquei o primeiro parágrafo todo, mas não vou reproduzi-lo. Escolhi outros dois trechos menores. O primeiro lembra uma aula do curso de filosofia do Olavo:
(...) e, com certeza, a Igreja é muito mais interessada nos homens que em movimentos. O mais miserável dos homens é imortal, e o  mais poderoso dos movimentos é temporal, para não dizer temporário.

O segundo também!:
Os moralistas protestantes aboliram o confessionário e a psicanálise restabeleceu o confessionário, com cada um de seus alegados perigos e nenhuma de suas admitidas salvaguardas.

No próximo ensaio, Chesterton nos mostra que a Igreja é incomparável:
Num sentido, podemos dizer que não há algo como uma religião budista ou mesmo uma religião muçulmana. Noutro sentido, podemos dizer que se estas são religiões, então o cristianismo não é uma religião. Com efeito, esta última sugestão, embora mais ou menos simbólica, aproxima-se da verdade sobre a matéria. Pois a verdade é - usando sua expressão favorita em sua frase anterior - verdadeira e realmente "única". O cristianismo não é uma religião, é uma Igreja. (...) Ela corresponde a uma combinação de coisas que são, não obstante, uma coisa; e esta coisa é realmente uma. Há só uma espécie e há somente um exemplar.

Por fim, o fim do livro, o fechamento com chave de ouro. Para abrigar todas as verdades juntas - estas coisinhas vigorosas e repelentes (se não estamos preparados para recebê-las) - só um lugar perfeito:
Mas a Igreja não é um movimento e sim um lugar de encontro, um lugar de encontro para todas as verdades do mundo.

terça-feira, novembro 08, 2011

De Imitatione Christi: as lições de um acadêmico do século XXI.

Pois é. Eu renovo toda vez minha disposição de não ler prefácios e introduções de obras religiosas antigas editadas pela Vozes, Paulus, Loyola, etc. (Vejam aqui um dos comentários que fiz sobre isso.) Nunca tenho a disciplina para cumprir o meu objetivo inicial. Aconteceu de novo. Comprei Imitação de Cristo com os comentários e orações de São Francisco de Sales, Editora Vozes, 2ª edição, 2011. Herdei um exemplar deste livro de meu pai; Editora Paulinas, 1958, tradução, da década de 1930, de Pe. José Maria Cabral. Comprei a edição moderna pelos comentários do santo.

Não li o livro ainda, nem sequer o folheei, porque cometi o erro de ler a Apresentação da obra, de autoria de Faustino Teixeira. O Sr. Faustino, devo dizer Dr. Faustino, é professor da UFJF e está ligado ao PPCIR. Também não sabia o que era PPCIR e olhei no Google: Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião. A área do professor é teologia das religiões, diálogo inter-religioso e mística comparada. Suspeito que ele faça parte da linha de pesquisa Religião e Diálogo, que possui os seguintes projetos: Pluralismo e diálogo, Ecumenismo, Buscadores do diálogo, Estudos de mística cristã e islâmica, Religião e laicidade, Religiões e filosofias da Índia. Achei charmosíssimo o projeto “buscadores de diálogo”; que coisa mais moderna, mais século XXI!

Mas, vamos em frente! O que nos diz o Dr. Faustino na sua peça de apresentação do extraordinário livro de Kempis. O leitor fica informado de várias coisas surpreendentes ao ler as três páginas da apresentação. Por exemplo, o doutor nos conta que o livro Imitação de Cristo é obra da Idade Média. Ai, meu Jesus Cristo! Toda vez que leio o que dizem da Idade Média, fico com urticária. Os povos de tal época, segundo Dr. Faustino e “grandes historiadores” que ele cita, cultivavam grandes medos: medo da miséria, do além, do outro, da violência e das catástrofes. Ele nos diz ainda que “a questão da morte dominava as consciências, e junto a ela a consciência da impotência da consciência humana. Como desembaraçar-se de sua terrível situação sem a ajuda de Deus?” O que nos faz responder com um suspiro: é mesmo, como? Mas esses medievais, como eram primitivos esses povos! Nós, por exemplo, não temos mais medo da miséria, do além, do outro, da violência e das catástrofes. Não, nós somos seres do século XXI; onde já se viu? Hoje, temos medos muito mais sofisticados: da AIDS, do aquecimento global, do colesterol, do triglicérides, de comer gordura, de comer açúcar, de não freqüentar uma academia (que hoje, no ilustrado século XXI, significa uma sala com um punhado de aparelhos de ginástica), de fumar, de tomar cerveja, de ser politicamente incorreto, da água do mundo acabar (ela vai evaporar um dia e não vai voltar mais!), das sacolas plásticas de supermercado, de ficar velho e não poder fazer uma cirurgia plástica, de... Mas, medo da morte? Quem tem medo da morte? Hoje, não se fala mais nisso; é assunto proibido. Isso era importante só na Idade Média. Hum, aqueles medievais!

Hoje nós temos opções: podemos ser espíritas e acreditar que quando morrermos, vamos para um lugar lindo, uma cidade ou uma fazenda, ficaremos vivendo lá até reencarnarmos de novo. De vez em quando, damos uma fugidinha e visitamos alguns que estão ainda vivos. Podemos ser budistas e teremos o objetivo de, depois de muitas encarnações, entrarmos no Nivarna, que é literalmente NADA. Não teremos o medo da morte e almejaremos o NADA; não é muito mais ilustrado que a atitude medieval de temer a morte? Poderemos nos converter ao Islã e ter um Deus irracional, que nos subjugará para sempre. Hoje temos opções, somos homens do diálogo.

Mas, vamos em frente, guiados por Dr. Faustino. Ele nos diz que a respostas desses traumas, desses medos medievais foi a busca da interioridade e que a Imitação de Cristo expressa isso. Resumindo: Kempis era um medroso e por isso se recolheu e escreveu o livro.

Dr. Faustino ainda nos alerta para uma coisa que ninguém deve ter percebido antes: o acentuado traço cristocêntrico da obra. Uau! É de tirar o fôlego! Então a Imitação de Cristo é uma obra cristocêntrica!? Ele diz: “no Livro II vem reforçada a piedade cristocêntrica...” É incrível.

Mas não é só. O doutor nos informa: “a espiritualidade presente na obra Imitação de Cristo é a expressão de uma época, tendo iluminado a dinâmica litúrgica de um tempo que sofreu inúmeras modificações.” Esta frase vem terminada com uma nota de rodapé que nos informa que as orações diversas contidas na edição francesa da obra com os comentários de São Francisco de Sales são mantidas “com o intuito de conservar uma memória, ainda que o seu conteúdo seja próprio de uma época anterior ao Vaticano II.”

Bem, vamos por partes. Kempis viveu nos Países Baixos sob a influência de um misticismo proveniente da Alemanha, principalmente de Mestre Eckhart, João Tauler e Henrique Suso. As idéias de Eckhart foram condenadas por João XXII, dois anos após sua morte. Há traços de panteísmo e gnose nas idéias de Eckhart, principalmente sua idéia de uma centelha divina habitando no interior do homem.[1] Será então que é possível afirmar que De Imitatione Christi é caudatária desse caldo cultural. A julgar pelas evidências históricas e pela opinião de grandes historiadores, um dos quais citados pelo Dr. Faustino, isto é exatamente o que esse livro não é. Um dos historiadores citados na apresentação em tela é Johan Huizinga e sua obra O Outono da Idade Média. Vamos ver o que Huizinga tem a dizer do livro (pag. 369-370, Ed. Cosacnaify, 2010).

“Porém é desses círculos que provém a obra mais forte e bela dessa época, a Imitatio Christi. Trata-se do homem que não era teólogo nem humanista, não era filósofo nem poeta, e na verdade nem mesmo místico, e que escreveu esse livro, que por séculos haveria de servir de consolo para as almas. Tomás de Kempis, o homem quieto, introvertido, cheio de ternura pelo milagre da missa e com a concepção mais estreita sobre a orientação divina, (...). E o seu livro de sabedoria simples sobre a vida e a morte, endereçado às almas resignadas, transformou-se num livro atemporal. Nele, todo o misticismo neoplatônico fora deixado de lado, baseando-se unicamente na voz do amado mestre Bernardo de Claraval.”

Caem por terra algumas coisas ditas pelo Dr. Faustino. Que o livro seja “datado”, pois ele se elevou acima e além de sua época; é atemporal. Que ele esteja numa linha direta com certa “nova espiritualidade” vinda dos Países Baixos. Que há influências agostinianas no livro – Kempis era monge agostiniano. Onde ele vê influências de Santo Agostinho deve-se procurar a influência de São Bernardo de Claraval.

Huizinga continua: no livro “tudo é constante e melancólico, tudo é mantido em um tom menor: há somente paz, calma, a espera tranqüila, resignada e a consolação. (...) E mesmo assim as palavras desse homem apartado do mundo, como as de nenhum outro, conseguem nos fortalecer diante da vida.” Que belas palavras que não foram ditas pelo Dr. Faustino!

Voltemos ao comentário sobre a espiritualidade do livro de Kempis. Fala-se de espiritualidade como uma expressão de época, não como algo real, verdadeiro enquanto tal; espiritualidade seria algo construído pelo ser humano, diferente em cada época. No caso, esta espiritualidade do livro de Kempis foi uma reação aos medos medievais. Ou seja, a dimensão espiritual do homem é algo criado pelo homem. Mas o melhor de tudo é que as duas primeiras frases da apresentação do Dr. Faustino são: “A Imitação de Cristo é uma das obras mais difundidas da espiritualidade cristã, e sua popularidade é impressionante, só sendo ultrapassada pela Bíblia. É o livro que vem alimentando o mundo cristão há muitos séculos, enquanto expressão da devoção moderna.” Ou bem o livro é uma expressão de uma espiritualidade verdadeira e por isso eterna, ou bem é uma obra datada. Há que se decidir. Huizinga e a história já se decidiram. Falta apenas o Dr. Faustino.

Mas o que dizer da referência ao Concílio Vaticano II; “uma época anterior ao Vaticano II.” Vocês sabem, não é mesmo?, o CVII mudou tudo; antes está a coisa primitiva, depois a modernidade. Antigamente os santos diziam assim: “meu Deus, eu sou um miserável pecador e só vou me salvar se o Senhor tiver misericórdia de mim. Como sou pecador, vou procurar, através de penitências e mortificações, pagar um pouco de minha dívida. Esta é impagável, eu sei, mas aceite, meu Deus, eu suplico, estes pequenos sacrifícios. Vou ainda, com sua graça, procurar imitar seu Filho dileto. Livre-me, eu suplico, do Inferno.” Hoje, depois do CVII, isso é interioridade, é ser cristocêntrico e, sobretudo, é produto de vários medos. Todo católico teme a morte, não porque não exista nada do lado de lá, mas porque do lado de lá existe a Justiça Divina e nunca estamos seguros de nos salvar. Isto é o temor de Deus, que é o pré-requisito de toda a sabedoria, segundo Santo Agostinho. Os medievais temiam a morte porque eram racionais; nós tememos o aquecimento global porque somos irracionais. Escolha logo o seu temor, caro leitor, enquanto é tempo.


[1] Para os mais observadores, é interessante um trecho do livro que talvez revele uma possível influência verbal de Eckhart sobre Kempis, que obviamente não mancha a obra com nenhuma suspeita de heresia. Aliás, a publicação desta obra, na maioria das suas edições, possui tanto o IMPRIMATUR, quanto o NIHIL OBSTAT. Por acaso, a edição em tela, não possui nenhuma das duas declarações eclesiásticas. Mas, vamos ao trecho em questão, que se encontra no Livro III, Cap. LV Em latim, temos: Nam modica vis, quæ remansit, est tamquam scintilla quædam latens in cinere. Hæc est ipsa caro naturalis, circumfusa magna caligine, adhuc judicium habens boni et mali, veri falsique distantiam, licet impotens sit adimplere omne quod probat, nec pleno jam lumine veritatis, nec sanitate affectionem suarum potiatur. Em português (Edições Paulinas, trad. Pe. J. Cabral, 1958): Na verdade, a pouca força, que lhe ficou, é como uma centelha (scintilla) coberta de cinzas (cinere). É a mesma razão natural envolta em densas trevas, possuindo ainda o discernimento do bem e do mal, e fazendo a distinção do verdadeiro e do falso; todavia sente-se incapaz de cumprir o que aprova, pois já não possui a plena luz da verdade, nem a pureza dos seus afetos.

sexta-feira, agosto 12, 2011

Crônicas de Gustavo Corção em pleno século XXI! Quem diria!?

Surpresa agradabilíssima ver um livro de crônicas do grande Corção publicado em pleno 2010 (Coleção Melhores Crônicas: Gustavo Corção, Editora Global). A seleção das crônicas e o prefácio da edição foram feitos por Luiz Paulo Horta, que desde 2008, leio em sua biografia no final do livro, é membro da ABL. 

No livro, (re)encontramos crônicas que são verdadeiras aulas de catecismo e doutrina católica: Advento, A Primazia do Espiritual, Quaresma, As Duas Vontades, Ressuscitou!, Precisa-se de uma Catarina de Sena, Rue du Bac, A Civilização do Prazer, Quinta-Feira Santa, Marcos de Eternidade, De Profundis, Credo in unum Deum, Morte e Mortificação, E Nós nos Gloriamos na Cruz. Há algumas crônicas que poderíamos classificar como chestertonianas, como Vênus e Natal Interior. Há crônicas de muito lirismo, algumas de crítica literária e musical; há algumas extraídas do grande livro de Corção, O Desconcerto do Mundo, que Manuel Bandeira saudou como digno de Prêmio Nobel, como o texto Machado de Assis e o Eclesiastes (aqui e aqui).

O livro ganharia muito se o Sr. Horta o tivesse acrescido de informações bibliográficas e de um pequeno estudo crítico do Corção cronista. A maioria das crônicas vem sem data e local da publicação original, o que dificulta, para o leitor recente de Corção, a apreensão das circunstâncias sob as quais o cronista escrevia. 

No prefácio, o Sr. Horta não consegue esconder sua admiração pelo grande lutador católico e pelo grande escritor, mesmo que esta admiração venha mitigada por críticas às suas posições políticas pós-64 e às sua posições teológico-doutrinais pós-CVII. Já o título do prefácio revela, talvez, o elevado lugar que o Sr. Horta reserva para Corção; Sinal de Contradição. 

Mas é exatamente no pequeno texto do prefácio, que o selecionador, e prefaciador, se mostra em confusão, ou mesmo em contradição. Não sei se o Sr. Horta é católico, mas suponho que sim. Sendo católico e um intelectual, membro da mais alta academia literária do país, ele nos surpreende por sua ingenuidade, na melhor das hipóteses, e aparente desconhecimento da gravíssima crise atual da Igreja, que já era anunciada e profundamente sentida por Corção. Ele diz, por exemplo: “João XXIII queria o aggiornamento da Igreja, uma Igreja que prestasse mais atenção aos ventos da modernidade, que se inserisse na vida de todos os dias. E isso de fato aconteceu; já não conseguimos pensar a Igreja sem o Vaticano II, com a sua valorização dos leigos, a reforma da liturgia que acabou com a missa em latim, e assim por diante.” Alguém que conhece minimamente o pensamento de Corção, não consegue deixar de imaginar o que ele diria acerca de tal comentário. O Sr. Horta subscreve certamente as idéias modernistas, condenadas pelo Papa São Pio X como a síntese de todas as heresias. Se ele não consegue pensar a Igreja sem o Vaticano II, é porque ele não consegue pensar a Igreja de forma nenhuma, pois há uma notícia que tem de ser dada ao prefaciador: a Igreja começou uns dois milênios antes desse concílio. Ora, dizer que o concílio “acabou com a missa em latim”, sem dizer, no mínimo, algo sobre o Summorum Pontificum, em pleno ano de 2010, é, desculpem-me a expressão, de lascar! Suponho também que a valorização dos leigos seja o aparecimento dos famigerados ministros da Eucaristia, da Comunhão da mão e de pé, das leituras feitas por leigos e leigas, etc. Isto não tem nada de catolicismo verdadeiro, é preciso dizer. 

O Sr. Horta continua: “No nosso cenário brasileiro, Alceu Amoroso Lima empunhou decididamente a bandeira dos ‘otimistas’, E, desde então, é difícil achar quem ainda sustente a tese de que o Vaticano II foi uma ameaça aos alicerces da Igreja.” É de se perguntar como um “imortal” pode ser tão ... (estou procurando uma palavra mais cordial) ... tão ... vá lá! desconhecedor de uma Fé que ele parece professar? Onde vive o Sr. Horta? Que paróquia freqüenta? Meu Deus! Será que ele já ouviu falar de Michael Davies, de Romano Amério, do cardeal Ottaviani, de Gherardini? Será que ele tem acompanhado as declarações atuais, ao menos, do episcopado brasileiro? (Vejam aqui e aqui, por exemplo.) Não sabe ele que mesmo Roma admite haver muitos, muitos bispos hereges? (Vejam aqui). Não terá o Sr. Horta lido Nelson Rodrigues, outro grande cronistas brasileiro, sobre Alceu Amoroso Lima, D. Hélder Câmara e os padres de passeata, que poucos anos depois do concílio já surgiam no cenário eclesiástico? Será que o Sr. Horta nunca leu Mt 7, 15-20? De um simples leigo católico pode-se desculpar um desconhecimento deste; não de uma intelectual, membro da Academia Brasileira de Letras. 

De qualquer forma, o livro com as crônicas de Corção vale pela lembrança do grande católico, do grande escritor e do grande chestertoniano brasileiro. O Sr. Horta e a Editora Global prestam, neste sentido, um serviço à memória do grande cronista e aos seus leitores, já antigos e os mais recentes.

sexta-feira, julho 25, 2008

A Teologia da Deformação e "Didaqué: Instrução dos Doze Apóstolos"

A coleção Patrística da Editora Paulus é extraordinária. As traduções dos documentos e Padres antigos são primorosas. São já quase trinta livros, se não me engano, traduzidos e que valem cada centavo de seu preço.

Dito isso, a nota negativa vai para a introdução (às vezes) e as notas explicativas (quase sempre) que os editores adicionam às obras. Aí se encontra todo o modo de pensar modernista que invadiu a Igreja depois do Concílio Vaticano II. É muito triste ler textos tão importantes para a nossa fé, tingidos de comentários tão demoníacos. É a Teologia da Libertação tentando reinterpretar toda a Tradição da Igreja.

Para se ter uma primeira idéia do que estou falando, reproduzo abaixo um texto da Apresentação, texto comum a todos os livros da coleção.

Na tentativa de eliminar as ambigüidades em torno da expressão [Padre da Igreja], os estudiosos convencionaram em receber como ‘Padre da Igreja’ quem tivesse estas qualificações: ortodoxia de doutrina, santidade de vida, aprovação eclesiástica e antiguidade. Mas, os próprios conceitos de ortodoxia, santidade e antiguidade são ambíguos.” [Negritos são meus.]

Vocês entenderam, não é? Pelo que é dito acima, a Igreja não sabe bem o que é santidade, ortodoxia e antiguidade. Veja se isso não beira a heresia. Quem não sabe o significado desses termos é a Igreja do Vaticano II. A Igreja de sempre, nunca teve dúvidas de que Santo Tomás de Aquino é santo. De que o Catecismo Romano do Concílio de Trento é ortodoxo e que São Paulo viveu na antiguidade. Ora bolas!

Para dar exemplos das notas explicativas que causam tanto desprazer ao leitor, separei algumas dessas notas no texto “Didaqué: Instrução dos Doze Apóstolos” que pode ser considerado o primeiro Catecismo católico. Supõe-se que esse documento tenha sido escrito ainda no primeiro século da era cristã e, portanto, enquanto ainda viviam os apóstolos. O autor é desconhecido. O texto é muito interessante e a simplicidade de sua redação não trai a profundidade de sua doutrina. É um pequeno texto que vale a pena ser lido.

Escolhi três notas específicas que dão o sabor modernista de todos os comentários.

No que se segue, o texto do Didaqué aparece em negrito, o texto dos comentários dos editores aparece na fonte normal e os meus comentários aparecem em itálico.

5Dê a quem pede a você e não peça para devolver, pois o Pai quer que os seus bens sejam dados a todos. Feliz aquele que dá conforme o mandamento, porque será considerado inocente. Ai de quem recebe: se recebe por estar necessitado, será considerado inocente; mas se recebe sem ter necessidade, deverá prestar contas do motivo e da finalidade pelos quais recebeu. Será posto na prisão e interrogado sobre o que fez; e daí não sairá até que tenha devolvido o último centavo. 6 A esse respeito, também foi dito: Que a sua esmola fique suando nas mãos, até que você saiba para quem a está dando. (1:5-6)

Sobre o versículo 6: Não basta ajudar materialmente o necessitado para desencargo de consciência. É preciso entrar em comunhão, participando de toda a situação do pobre, porque nem sempre a ajuda material é o aspecto mais importante. O grande desafio é acabar com a pobreza, e não simplesmente conservar os pobres como ocasião de fazer caridade.

Primeiramente, observemos a sabedoria do Didaqué. O texto anuncia o preceito: dar a quem te pede sem pedir de volta. Depois o texto admoesta quem pede, para que se peça quando se precisa: “ai de quem recebe ...”. E finalmente, anuncia a responsabilidade de quem dá: “que sua esmola fique suando em suas mãos” antes de dá-la a qualquer um. Ou seja, tanto quem dá, quando quem recebe, tem responsabilidades no ato. Quem recebe, tem de ser necessitado e quem dá tem de se certificar de que está dando a que necessita.

Agora, vamos aos lamentáveis comentários da edição da Paulus. O que salta aos olhos no comentário é: “o grande desafio é acabar com a pobreza”. Ora, desde que o mundo é mundo apenas um tipo de indivíduo prometeu acabar com a pobreza. Foi o comunista que, em nome do extermínio da pobreza, exterminou muito mais de 100 milhões de pessoas. Lembremos aqui as palavras do próprio Cristo: “Pobres sempre os terei entre vós, porém a Mim nem sempre tereis”(Jo. 12:1-9).

11Quanto a vocês, servos, sejam submissos aos seus senhores, com respeito e reverência, como à imagem de Deus. (4:11)

O versículo 11 mostra que as comunidades nascentes ainda não tinham consciência de que o Evangelho exige transformações estruturais para acabar com a desigualdade e a exploração.

Percebam a malícia desse comentário. O que o comentador quer dizer é que o autor do Didaqué era um ingênuo. Ele não sabia que devemos mudar as estruturas sociais e políticas, desrespeitando quem quer que seja para isso. Ele não sabia também que o Evangelho demanda tal coisa. Ora, o comentador não leu, ou não entendeu, São Paulo, que disse: “Servos, obedecei aos vossos senhores temporais, com temor e tremor, de coração sincero, como se fosse a Cristo; não servindo só quando sois vistos, como para agradar aos homens, mas fazei-o como servidores de Cristo”(Ef. 6:5)

O Catecismo Romano (mandado publicar pelo Concílio de Trento) determina, quando fala sobre o quarto mandamento da lei de Deus, que: “Devemos, no entanto, honrar não só aqueles que nos deram a vida, mas também os que merecem o nome de pais, como são os Bispos, sacerdotes, reis, príncipes, magistrados, tutores, curadores, mestres, educadores, anciãos e outras pessoas de igual condição”.(III V 13)

Qual é o limite dessa obediência? Bem, o limite está nas Escrituras: “É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens”(At. 5:29). Assim, se qualquer um dos que merecem nossa obediência nos ordenar coisas contrárias à lei de Deus, devemos desobedecer.

Para o comentador revolucionário, o autor desconhecido do Didaqué, São Paulo e os Bispos do Concílio de Trento eram todos uns ingênuos. O esperto mesmo é o comentador modernista e malicioso da edição da Paulus.

1Reúnam-se no dia do Senhor para partir o pão e agradecer, depois de ter confessado os pecados, para que o sacrifício de vocês seja puro. 2Aquele que está de briga com seu companheiro não poderá juntar-se a vocês antes de se ter reconciliado, para que o sacrifício que vocês oferecem não seja profanado. (14:1-2)

A Eucaristia é a celebração da fraternidade. Para que ela não seja profanada no seu significado profundo, exige-se reconciliação, não só no momento do culto, mas na vida concreta.

O comentador, depois de se mostrar comunista e modernista, agora se revela blasfemador. Afirmar que a Eucaristia é a celebração da fraternidade é blasfêmia! Vejamos o que o Catecismo Romano nos diz da Eucaristia. “Entre todos os Sagrados Mistérios que Nosso Senhor e Salvador nos confiou, como meios infalíveis para conferir a divina graça, não há nenhum que possa comparar-se como o Santíssimo Sacramento da Eucaristia. (...) Além disso, essas palavras [da consagração do vinho] exprimem certos efeitos admiráveis do Sangue derramado na Paixão de Nosso Senhor, efeitos que estão na mais íntima relação com este Sacramento. O primeiro é o acesso à eterna partilha, cujo direito nos advém da ‘nova e eterna aliança’. O segundo é o acesso à justiça pelo ‘Mistério da fé’; porquanto Deus nos propôs Jesus como vítima propiciatória, mediante a fé em Seu Sangue, para que ele mesmo seja justo e justifique a quem acredita em Jesus Cristo. O terceiro é a remissão dos pecados.”

O Catecismo Romano, que o comentador parece não conhecer, devota 40 páginas ao Sacramento da Eucaristia. E o nosso comentador diz simplesmente que é a “celebração da fraternidade”. Ora essa! Isso é ou não é blasfêmia? Celebração de fraternidade é quando eu convido amigos para saborear comigo um churrasco em minha casa! Tenha mais respeito com o sacrifício de cruz que o Filho de Deus sofreu por nós!!

O que eu posso dizer como conclusão é: leiam a coleção Patrística da Editora Paulus, mas não leiam nem a Introdução a cada uma das obras, nem as notas explicativas

sábado, maio 03, 2008

Sábios ignorantes

George Gilder

O novo livro de David Berlinsky descreve como a ciência tem se tornado atualmente a religião dominante da intelligentsia. O nome mais adequado a essa nova religião – que se baseia no ateísmo e no materialismo – é “cientificismo”, pois suas alegações religiosas ultrapassam muito seu conteúdo científico.[1]

O cientificismo reflete a tendência dos cientistas de se tornarem o que Ortega y Gasset chamou de “bárbaros da especialização”. O saber muito sobre uma só coisa lhes dá a confiança de pontificar sobre outros assuntos nos quais suas especialidades são irrelevantes, ou de inflar seus pequenos remendos de especialização na direção de “grandes teorias unificadas”.[2] Sabendo cada vez mais sobre cada vez menos, eles finalmente ascendem aos canais de TV, tagarelando sobre qualquer coisa e sobre todas as coisas. George Clooney ou Carl Sagan, Al Gore ou James Watson – atores, políticos, cientistas – quem os consegue distinguir, no seu balbuciar de relativismo moral e escatologia anticapitalista?

A ideologia superficial desse tipo de gente é o alvo do livro de Berlinsky. Um Ph.D. de Princeton, judeu secular, ex-fellow do Institute de Hautes Etudes Scientifiques in France – agora membro do Discovery Institute, fundado por mim – Berlinski domina uma gama de disciplinas científicas e filosóficas que o projetam muito além do campo dos bárbaros orteguianos. Autor polivalente de cintilantes obras em matemática e lógica, ele tem escrito, nos últimos anos, incandescentes ensaios em biologia, física, psicologia e matemática na revista Commentary que têm provocado uma enxurrada de respostas embasbacadas na seção de cartas (As respostas de Berlinsky são criminosamente letais).

The Devil´s Delusion (algo como O Delírio do Demônio) é um trabalho incendiário e ruidoso de polêmica erudita, único em sua sofisticação e autoridade científica. Em vez de criticar a ciência desde fora, Berlinsky condena seu ateísmo desde dentro. Recusando-se a ceder ante as credenciais do cientificismo, ele argumenta incisivamente que o fetiche anti-Deus da ciência moderna tem levado muitos cientistas à loucura do niilismo, o que também prejudica seu trabalho científico.[3]

Detalhando o registro de massacres horrendos cometidos por agressivos ateus durante o século XX, Berlinsky observa “o que qualquer um capaz de ler as fontes alemãs já sabia: uma sinistra corrente de influência corre desde a teoria da evolução de Darwin até a política de extermínio de Hitler”. Um argumento implícito fundamenta todos esses horrores: (A) “Se Deus não existe, então tudo é permitido”; (B) “Se a ciência é verdadeira, então Deus não existe”; (C) “Se a ciência é verdadeira, então tudo é permitido”. Como mostra Berlinsky, essas proposições levaram previsivelmente (Dostoevsky e Nietzsche previram isso, afinal) ao Holocausto.[4]

Ao contrário, nota Berlinski, Christopher Hitchens (God Is Not Great[5]) parece por a culpa dos excessos de Hitler no Vaticano, e Sam Harris (Letter to a Christian Nation[6]) chega quase a culpar os judeus por esses excessos: Harris acusa “sua [dos judeus] recusa em assimilar (e) sua cultura religiosa (que é) tão desagregadora ... e conflitante com as percepções civilizadoras da modernidade quanto qualquer outra religião.” Para Sam Harris, em Santa Bárbara, “percepções civilizadoras da modernidade” são evidentes nas praias repletas de palmeiras, nos cafés e teatros locais e no doce aroma do iluminismo que impregna o ar refrescante, mas Berlinsky, com razão, pergunta-se se homens que usam o ateísmo para atenuar o anti-semitismo pode servir de guia confiável para influências civilizadoras.

Depois de demonstrar a obtusidade moral da ciência atéia, The Devil´s Delusion prossegue criticando suas limitações debilitantes mesmo como meio explicativo da realidade física. Ignorando a estrutura hierárquica do universo, com o conceito precedendo o concreto, o algoritmo precedendo o computador, a palavra DNA precedendo a carne, e a teoria precedendo o experimento, a ciência tem cegado a si própria para o indispensável papel da fé para todos os tipos de conhecimento. Na visão de Berlinsky, há um ponto de convergência crucial entre as leis físicas e as leis morais: “Em ambos os casos não sabemos porque as leis são verdadeiras mas podemos sentir que a questão esconde um profundo mistério.” A ciência, como assevera Berlinsky, “está, em todas a áreas, saturadas de fé.”

A fé que é necessária ao trabalho científico, contudo, está corrompida por um ateísmo complacente que afasta a ciência da realidade de suas próprias e necessárias suposições religiosas e hierárquicas. A ciência não abriga, de forma alguma, a idéia de “como o mundo ordenado física, moral, mental, estética e socialmente em que vivemos pode ter surgido da efervescente anarquia do mundo das partículas sub-atômicas.” O chamado “modelo padrão” parece suprir “tantas partículas elementares quando os fundos de pesquisa aplicados para encontrá-las”, ao mesmo tempo em que oferece escasso apoio à suposição reducionista de que o mundo é mais bem compreendido pelo processo de atomização cada vez mais agudo.

Além do reducionismo, a ciência oferece pelo menos 7 teorias incompatíveis sobre a realidade: a teoria quântica, focalizada em elementos sub-atômicos; a teoria da relatividade, abarcando todo o universo; a teoria das cordas, que procura a grande unificação em infinitésimos multidimensionais; a termodinâmica, com sua seta do tempo e a declinante entropia; a evolução, com sua grandiosa ascensão materialista; a biologia molecular, com seus códigos genéticos descendentes; e o conceito de entrelaçamento macro-quântico, que liga entidades quânticas espalhadas pelo cosmos além do espaço e tempo convencionais. Cada teoria oferece impressionantes insigths a respeito de alguns domínios limitados, mas fracassa em harmonizá-los com as regiões vizinhas.

Erodindo a coerência de todo o conjunto está o caráter autodestrutivo do materialismo subjacente: uma teoria que nega a significância das teorias e dos teoristas. Refutando prontamente a si mesma está a idéia de que idéias são meros epifenômenos de sistemas físicos (cérebros) que se formam a partir de processos aleatórios.

Todos os sistemas físicos incompatíveis da ciência moderna repousam, em última análise, sobre a lógica matemática. Assim, a descoberta matemática mais importante do século XX fez picadinhos de todo o materialismo ateísta: a inexorável incompletude gödeliana da matemática. Tal como Kurt Gödel, Alan Turing, Alonzo Church e Gregory Chaitin provaram que a lógica matemática, seja expressa em termos de algoritmos computacionais, seja em termos de equações diferenciais, se fundamenta, em última análise, em premissas externas a si mesma. Em outras palavras, a fé é importantíssima para a lógica matemática e para a lógica computacional, que são, por sua vez, esquemas conceituais abstratos de nenhuma forma redutíveis ao dogma materialista.

Para aparentemente desviar a atenção desse vergonhoso paradoxo do ateísmo, alguns cientistas têm se agarrado a um conjunto de risíveis quimeras. Richard Dawkins, por exemplo, aceita a idéia de um “megaverso”, uma estupenda “Paisagem” de infinitos universos paralelos que explicaria as absurdas improbabilidades do materialismo darwinista, pela suposição de que nosso próprio universo é apenas um de um arranjo infinito. Como comentou o físico Leonard Susskind: “Os físicos e cosmologistas estão começando a considerar nossos 10 bilhões de anos luz como algo infinitesimal que é parte de um megaverso estupendo.” O Prêmio Nobel Steven Weinberg resume o argumento, numa transparente tautologia disfarçada de ciência: “Qualquer cientista que estuda a natureza deve viver numa parte da paisagem onde os parâmetros físicos assumem valores adequados para o aparecimento da vida e sua evolução, até o surgimento de cientistas.” Os outros parâmetros são supostamente válidos nos outros universos que não abrigam vida.

Contrária a qualquer evidência empírica, sem nenhum apoio lógico e contra o senso comum, essa estupenda circularidade é chamada de Princípio Antrópico e é considerada uma explicação superior à idéia de Deus. Tal como Dawkins afirma: “É melhor muitos universos do que um deus.” Berlinsky conclui que a preferência de Dawkins pela “Paisagem e pelo Princípio Antrópico representa o relativismo moral aplicado à Física.”

Para evitar o fracasso da infiniversal “Paisagem”, Dawkins termina com o que ele chama de “artimanha final do Boeing 747”. Berlinsky explica tanto a decolagem como a queda:

O apelo ao Boeing 747 tem o objetivo de evocar um sarcasmo jocoso atribuído ao astrofísico Fred Hoyle. A emergência espontânea da vida na terra, observou Hoyle, é tão provável quanto o é a construção de um Boeing 747 pela ação de um tornado que atingisse um ferro velho. Apesar de ser ateu, Hoyle era cético a respeito da teoria da evolução de Darwin ... Como a metáfora do ferro velho expressa com rara economia a impossibilidade do aparecimento espontâneo da vida – essa impossibilidade é aparente em virtualmente qualquer tentativa de cálculo – isso tem sido um constante aborrecimento para Dawkins. Mas Dawkins afirma que se um tornado não pode criar vida, então Deus não pode ter criado o Universo ... A artimanha final do Boeing 747, escreve Dawkins, ‘se aproxima de uma prova de que Deus não existe’. Vocês entenderam?

Como tais absurdas circularidades são cridas e respeitadas por pessoas sérias? Berlinsky conclui que “a disposição dos físicos de explorarem, em pensamento, tais estratégias devem sugerir a um psicanalista perspicaz não tanto um desejo de descobrir uma nova, mas a de evitar, uma velha idéia.” Mas a idéia de um Deus num universo hierárquico é essencial ao pensamento coerente ou para uma cultura edificante de qualquer tipo. Uma cultura que não aspira ao divino, se torna obcecada com a fascinação do mal, desvairando-se em frivolidades, na depravação e no bestial. Sem o sentido de transcendência, a ciência acaba perseguindo o reducionismo trivial, da próxima partícula ou dimensão da corda ao, cada vez mais obscuro, argumento para a animalidade do homem ou para a infinitesimalidade do universo.

A comunidade científica permanece inconsciente desses problemas principalmente por causa de sua estreiteza de horizontes de sua atitude defensiva, protegida pela insignificância da “revisão pelos pares” e pela imunidade à crítica desde fora. “A ciência alega que não necessita de crítica por ser supremamente autocrítica,” escreve Berlinsky. “Um sistema assim concebido sempre trabalha para a satisfação de quem o concebeu”.

O público tende a concordar com isso por causa da alegada relação entre a ciência moderna e a engenharia e a tecnologia. Voltemos então ao 747. Dawkins e seu aliado, Daniel Dennett, declaram que não existem crentes devotos em aviões. Qualquer um que viaje pelo ar, eles dizem, confia sua vida à validade e confiabilidade da ciência moderna. Poucos viajantes encontrariam consolo se, olhando de relance para a cabine dos pilotos, eles os vissem rezando em vez de observando os instrumentos.

Por se basearem no design inteligente e na engenharia “top-down”, contudo, os cientistas que possibilitaram a existência dos aviões não têm nada em comum como o materialismo ateu e o relativismo moral de Dawkins e Dennett. As equações de Navier-Stokes, a ciência dos materiais, a física de estado sólido, a química molecular, o projeto de computadores, dentre uma lista de disciplinas realmente científicas, são expressões não de um processo aleatório “bottom-up”, mas de um planejamento hierárquico em que as idéias e esquemas precedem sua construção física. Na maior parte da história da ciência, de Michael Faraday a Enrico Fermi, seus protagonistas eram mestres da tecnologia do seu tempo. Eles construíam os dispositivos que testavam seus conceitos e estruturavam suas teorias. A ciência e a engenharia são disciplinas cognatas.

Começando com Einstein, contudo, os cientistas alcançaram um papel de gurus filosóficos e profetas teológicos. Somente Einstein e Richard Feynman foram capazes de cumprir sua missão. À procura de grandes teorias, essencialmente teologias, que pudessem unificar todos os esquemas conflitantes da física, mesmo Einstein e Feynman chegaram a reconhecer a futilidade dessa busca. Mas seus sucessores continuaram a busca em círculos tautológicos cada vez menores, chegando, ao final, nos círculos darwinianos da sobrevivência dos mais aptos como a explicação de tudo. Concretizando as abstrações matemáticas e forçando suas equações a extremos que não podem ser sustentados num universo gödeliano, as grandes teorias científicas perderam todo o contato com os fundamentos da realidade da engenharia.

The Devil’s Delusion é um trabalho prometéico que remove os escombros da ciência e cultura modernas. Ele liberta o conservadorismo de sua escravidão a um cientificismo espúrio e estabelece os fundamentos para o realinhamento dos verdadeiros cientistas, dentre os quais há muitos amigos potenciais. Bill Buckley, em seus últimos dias, declarou: “O livro de Berlinsky é todo ele atraente: é dogmático, profundo, brilhantemente polêmico, divertido, e claro, vastamente erudito. Eu o parabenizo por isso.” Buckley estava certo, como sempre. É o livro definitivo do novo milênio.




© 2008 by National Review, Inc., 215 Lexington Avenue, New York, NY 10016


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[1] A tradução e publicação deste artigo, neste blog, têm a permissão da National Review. O artigo foi publicado na edição de 5 de maio de 2008. (N. do T.)

[2] O trecho de La Rebelión de las Masas a que se refere o autor é: “Pero esto crea una casta de hombres sobremanera extraños. El investigador que ha descubierto un nuevo hecho de la naturaleza tiene por fuerza que sentir una impresión de dominio y seguridad en su persona. Con cierta aparente justicia, se considerará como 'un hombre que sabe'. Y, en efecto, en él se da un pedazo de algo que junto con otros pedazos no existentes en él constituyen verdaderamente el saber. Ésta es la situación íntima del especialista, que en los primeros años de este siglo ha llegado a su más frenética exageración. El especialista "sabe" muy bien su mínimo rincón de universo; pero ignora de raíz todo el resto. He aquí un precioso ejemplar de este extraño hombre nuevo que he intentado, por una y otra de sus vertientes y haces, definir. He dicho que era una configuración humana sin par en toda la historia. El especialista nos sirve para concretar enérgicamente la especie y hacernos ver todo el radicalismo de su novedad. Porque antes los hombres podían dividirse, sencillamente, en sabios e ignorantes, en más o menos sabios y más o menos ignorantes. Pero el especialista no puede ser subsumido bajo ninguna de esas dos categorías. No es un sabio, porque ignora formalmente cuanto no entra en su especialidad; pero tampoco es un ignorante, porque es aún hombre de ciencia y conoce muy bien su porciúncula de universo! Habremos de decir que es un sabio ignorante, cosa sobremanera grave, pues significa que es un señor el cual se comportará en todas las cuestiones que ignora, no como un ignorante, sino con toda la petulancia de quien en su cuestión especial es un sabio.” (N. do T.)

[3] Que o afastamento de Deus nos leva à loucura é um tema recorrente em toda a tradição católica, a começar pela Escritura Sagrada. O livro Sabedoria afirma que foi a loucura que fez com que “pelos bens visíveis não chegaram a conhecer aquele que é, nem considerando as suas obras, reconheceram quem era o Artífice.” (Sb 13,1). Quem queira algo mais extenso não pode deixar de ler a encíclica de Leão XIII intitulada Aeterni Patris. (N. do T.)

[4] Apenas para fazer justiça, não podemos esquecer de Victor Frankl que disse essas eloqüentes palavras: “Não foram apenas alguns ministérios de Berlim que inventaram as câmaras de gás de Maidanek, Auschwitz, Treblinka: elas foram preparadas nos escritórios e salas de aula de cientistas e filósofos niilistas, entre os quais se contavam e contam alguns pensadores anglo-saxônicos laureados com o Prêmio Nobel. É que, se a vida humana não passa do insignificante produto acidental de umas moléculas de proteína, pouco importa que um psicopata seja eliminado como inútil e que ao psicopata se acrescentem mais uns quantos povos inferiores: tudo isto não é senão raciocínio lógico e conseqüente.” Em “Rorty e os Animais”, O Imbecil Coletivo, de Olavo de Carvalho, nota 1. (N. do T.)

[5] Deus Não É Grande, Ediouro, 2007 (N. do T.)

[6] Carta a uma Nação Cristã, Companhia das Letras, 2007. (N. do T.)

domingo, setembro 09, 2007

Homem ou coelho?

C.S. Lewis


Pode-se ter uma boa vida sem se acreditar no cristianismo? Esta é a questão sobre a qual me pediram para escrever e, imediatamente antes de tentar respondê-la, tenho um comentário a fazer. A questão parece ter sido formulada por uma pessoa que diz a si própria, “Não me importo se o cristianismo é ou não verdadeiro. Não estou interessado em descobrir se o universo real é mais parecido com o dos cristãos ou com o dos materialistas. Tudo em que estou interessado é em ter uma vida boa. Vou escolher minhas crenças não porque as penso verdadeiras mas porque as considero úteis.” Francamente, acho difícil alguém simpatizar com esse estado mental. Uma das coisas que distingue o homem de outros animais é que ele quer conhecer as coisas, quer descobrir o que é a realidade, simplesmente por conhecer.[1] Quando esse desejo é, em alguém, completamente sufocado, penso que esse alguém tenha se tornado algo menos que um homem. De fato, não acredito que nenhum de vocês tenha perdido esse desejo. Muito provavelmente, pregadores tolos, ao sempre dizerem o quanto o cristianismo ajudará a vocês e o quanto ele é bom para a sociedade, tenham levado vocês a esquecerem que o cristianismo não é um comprimido que se toma para algum mal. O cristianismo alega ter uma explicação para fatos – alega poder dizê-los o que é o universo real. Sua explicação sobre o universo pode ser verdadeira, ou pode não ser, e uma vez que a questão está à sua frente, então sua natural curiosidade deve fazê-los querer conhecer a resposta. Se o cristianismo não é verdadeiro, então nenhum homem honesto desejará nele acreditar, não importa o quão útil ele seja: se ele é verdadeiro, cada homem honesto desejará nele acreditar, mesmo se isso não o ajudar de forma alguma.

Tão logo percebemos isso, percebemos algo mais. Se o cristianismo for verdadeiro, então é muitíssimo improvável que aqueles que nele acreditam e aqueles que nele não acreditam estejam igualmente equipados para ter uma boa vida. O conhecimento dos fatos deve fazer diferença para as ações realizadas. Suponha que você encontre um homem a ponto de morrer de fome e queira fazer algo de bom para ele. Se você não tivesse nenhum conhecimento da ciência médica, você iria, provavelmente, dar a ele uma grande quantidade de comida sólida; e, como resultado, seu homem morreria. Isso é o que significa agir no escuro. Da mesma forma, um cristão e um não-cristão devem, ambos, desejar fazer o bem a outros homens. Um deles acredita que os homens são eternos, que eles foram criados por Deus e, de tal forma, que eles só podem encontrar sua verdadeira e permanente felicidade na união com Deus, que eles se perderam terrivelmente no caminho, e que a fé obediente em Cristo é o único caminho de volta. O outro acredita que os homens são um resultado acidental do trabalho cego da matéria, que eles começaram como meros animais e, mais ou menos, evoluíram permanentemente, que eles irão viver por volta de setenta anos, que sua felicidade é totalmente atingida por meio de bons serviços sociais e por organizações políticas, e que tudo o mais (p. ex., vivisseção, controle de natalidade, o sistema judicial, educação) deve ser avaliado como “bom” ou “mau” simplesmente na medida em que ajuda ou atrapalha aquele tipo de “felicidade”.

Ora, há muitas coisas que esses dois homens concordam em fazer para seus semelhantes. Ambos aprovariam sistemas de esgoto e hospitais eficientes e uma dieta saudável. Mas, cedo ou tarde, a diferença de suas crenças produziria diferenças em seus propósitos práticos. Ambos, por exemplo, poderiam ser muito preocupados com a educação: mas os tipos de educação que eles desejariam para o povo seria obviamente muito diferentes. Onde o materialista perguntaria, a respeito de uma proposta de ação, apenas se “Ela aumentaria a felicidade da maioria?”, o cristão teria a dizer, “Mesmo que ela aumente a felicidade da maioria, não podemos realizá-la. Ela é injusta.” E todo o tempo, uma grande diferença atravessaria todas as suas políticas. Para o materialista, as coisas como nações, classes, civilizações devem ser mais importantes que os indivíduos, porque os indivíduos vivem, cada um, míseros setenta anos e o grupo pode durar séculos. Mas para o cristão, indivíduos são mais importantes, pois eles vivem eternamente; e raças, civilizações etc. são, em comparação, criaturas de um dia.

O cristão e o materialista têm crenças diferentes sobre o universo. Eles não podem estar ambos certos. Quem estiver errado agirá de uma forma que não se adequa ao universo real. Conseqüentemente, com a melhor das boas intenções do mundo, ele estará ajudando seus semelhantes a se destruírem.

Com a melhor das boas intenções do mundo ... então não será culpa sua. Certamente Deus (se houver um Deus) não punirá um homem pelos seus erros “honestos”? [2] Mas isso era tudo o que você pensava? Você está preparado para correr o risco de trabalhar no escuro em toda a sua vida e fazer um infinito mal, desde que alguém nos assegure que nossa própria pele estará a salvo, que ninguém nos punirá ou nos culpará? Não acreditarei que o leitor está neste nível. Mas mesmo se estiver, há algo a ser dito.

A questão diante de nós não é “Alguém pode ter uma boa vida sem o cristianismo?”. A questão é, “Você pode?” Todos sabemos que tem havido bons homens que não foram cristãos; homens como Sócrates e Confúcio que nunca ouviram falar de cristianismo, ou homens como J.S. Mill que muito honestamente não poderia nele acreditar. Suponha que o cristianismo seja verdadeiro. Esses homens estavam numa ignorância ou erro honesto. Se suas intenções fossem tão boas quanto suponho (pois, claro, não posso ler os segredos de seus corações) espero e acredito que a misericórdia de Deus remediará os males que suas ignorâncias, deixadas a si mesmo, naturalmente produziriam em si próprios e naqueles que eles influenciaram. Mas o homem que me pergunta, “Não posso viver uma boa vida sem acreditar no cristianismo?” não está na mesma posição. Se ele não tivesse tido notícia do cristianismo ele não estaria formulando essa questão. Se, tendo tido dele notícia, e o tendo considerado seriamente, ele tivesse decidido que ele não era verdadeiro, então, novamente, ele não estaria formulando a questão. O homem que formula a questão ouviu falar do cristianismo e não está certo, de forma alguma, de que ele não seja verdadeiro. Ele está realmente perguntando, “Será que eu preciso me preocupar com ele? Será que eu não posso apenas esquecer a coisa, sem cutucar a onça com a vara curta, e simplesmente me preocupar com a parte ‘boa’? Não são as boas intenções suficientes para me manter seguro e sem culpa, sem a necessidade de bater naquela temerária porta e ter de verificar quem estará, ou não, lá dentro?”

Para tal homem, pode ser suficiente responder que ele está realmente pedindo para ficar com a parte ‘boa’ antes de ele ter feito o melhor de si para descobrir o que ‘boa’ significa. Mas essa não é toda a estória. Não precisamos perguntar se Deus o punirá por covardia ou preguiça; ele próprio se punirá. O homem está se esquivando. Ele está tentando deliberadamente não saber se o cristianismo é verdadeiro ou falso, porque ele prevê problemas sem fim se ele se provar verdadeiro. Ele se parece com o homem que deliberadamente se ‘esquece’ de consultar a lista de tarefas do dia porque, se o fizesse, poderia encontrar seu nome relacionado a alguma tarefa desagradável. Ele se parece com o homem que não verifica sua conta bancária porque teme o que possa descobrir lá. Ele se parece com o homem que não vai ao médico quando uma misteriosa dor aparece, porque teme o que o doutor pode lhe contar.

O homem que permanece um incréu por tais razões não está na situação de um erro honesto. Ele está numa situação de erro desonesto, e essa desonestidade se difundirá por todos os seus pensamentos e ações: uma certa volubilidade, uma vaga preocupação no fundo de sua mente, um embotamento de toda a sua sutileza mental, resultará. Ele terá perdido sua virgindade intelectual. Rejeição honesta de Cristo, embora seja um erro, será perdoado ou curado – “Todo aquele que falar contra o Filho do Homem, ser-lhe-á dado perdão.” [3] Mas evitar o Filho do Homem, olhar para o outro lado, fazer de conta que você não O notou, ficar repentinamente absorvido com algo do outro lado da rua, deixar o telefone fora do gancho porque pode ser Ele do outro lado da linha – isso é uma coisa muito diferente. Você pode não estar certo ainda se deve ser um cristão; mas você sabe muito bem que deve ser um Homem, não uma avestruz, escondendo sua cabeça na areia.

Mas mesmo assim – pois a honra intelectual desceu a um nível muito baixo em nossos dias – escuto alguém lamuriando com a questão, “Ele me ajudará? Ele me fará feliz? Você pensa mesmo que minha situação melhorará se me tornar cristão?” Bem, se você precisa mesmo de minha resposta, ela é “Sim.” Mas eu não gostaria de dar uma resposta neste ponto. Eis aqui a porta atrás da qual, segundo alguns, o segredo do universo está esperando por você. Ou isso é verdade ou não é. E se não for, então o que a porta realmente esconde é simplesmente a maior fraude, a maior empulhação jamais registrada. Não é, obviamente, tarefa de todo homem (um homem, não um coelho) tentar descobrir o que está atrás da porta e, então, se devotar com todas as suas energias a obedecer e honrar esse tremendo segredo ou a expor e destruir essa gigantesca impostura? Desafiado por tal situação, poderá você permanecer totalmente absorvido com seu próprio abençoado ‘desenvolvimento moral’?

Certo, o cristianismo lhe fará bem – muito mais do que você alguma vez desejou ou esperou. E o primeiro pedacinho de bem que ele lhe fará é martelar em sua cabeça (e você não gostará disso!) o fato de que o que você até agora chamou de “bom” – tudo aquilo sobre “ter uma vida decente” e “ser bom” – não é bem o acontecimento magnificente e da maior importância que você supunha. Ele lhe ensinará que, de fato, você não poderá ser ‘bom’ (não por vinte e quatro horas) contando apenas com seus próprios esforços morais. E então ele lhe ensinará que mesmo que você pudesse, você ainda não teria atingido o propósito pelo qual foi criado. A mera moralidade não é o fim da vida. Você foi feito para algo muito diferente. J.S. Mill e Confúcio (Sócrates estava muito mais próximo da realidade) simplesmente não sabiam o que significa a vida. As pessoas que continuam a perguntar se não se pode ter uma vida decente sem Cristo, não sabe o que é a vida; se eles soubessem, eles saberiam que ‘uma vida decente’ é um mero mecanismo comparado com a coisa de que nós homens somos feitos. A moralidade é indispensável: mas a Vida Divina, que se dá a nós e que nos convida a ser deuses, planeja algo para nós em que a moralidade será nele absorvida. Temos de ser re-feitos. Todo o coelho que existe em nós desaparecerá – o coelho preocupado, escrupuloso e ético e também o covarde e sensual. Sangraremos e guincharemos na medida que punhados de pêlos forem arrancados; e então, surpreendentemente, descobriremos por sob o pêlo uma coisa que nunca antes imaginamos: um Homem real, um deus imemorial, um filho de Deus, forte, radiante, sábio, bonito e imerso em alegria.

“Mas quando vier o que é perfeito, será abolido o que é imperfeito” [4] A idéia de atingir ‘uma vida boa’ sem Cristo é baseada num duplo erro. Primeiramente, não podemos tê-la; e em segundo lugar, ao estabelecer ‘uma vida boa’ como nosso objetivo, perdemos a verdadeira razão de nossa existência. A moralidade é uma montanha que não podemos subir por nossos próprios esforços; e se pudéssemos, apenas pereceríamos no gelo e no ar irrespirável do cume, na falta daquelas asas com as quais o resto da jornada terá de ser empreendida. Pois é de lá que a ascensão real começa. As cordas e os machados ‘já eram’ e o resto é uma questão de voar.



Extraído do livro God in the dock [Deus no banco dos réus.]




[1] A primeira frase da Metafísica de Aristóteles é “Πάντες ἄνθρωποι τοῦ εἰδέναι ὀρέγονται φύσει.” [Todos os homens têm, por natureza, desejo de conhecer.] (N. do T.)

[2] A expressão aqui é ‘honest error’ que tem a acepção de erro involuntário, mas também do produto de um esforço honesto de entendimento que, no entanto, está marcado pelo erro. (N. do T.)

[3] Lucas, XII, 10.

[4] I Cor. XIII, 10.

quinta-feira, abril 05, 2007

Ateus solitários da Aldeia Global - Final

Michael Novak


Segunda: O Peso do Pecado. Levou alguns anos até que eu entendesse que, tal como algumas pessoas não têm ouvido para música, outras (como descreveu Friederick Hayek) “não têm ouvido para Deus”. Outros ainda dizem que não têm “necessidade” de Deus. Eles não sentem nenhum vazio interior em que Deus pudesse se encaixar. Parece-me, ademais, uma das bênçãos do ateísmo que ele anule qualquer sentimento de Julgamento, qualquer impressão de que os atos de alguém possam ofender um Amigo, qualquer consciência do pecado. O “pecado” parece, de fato, um restolho de uma época, há muito, passada. Beati voi! Eu gostaria de exclamar aos ateus: sorte sua!

“No coração do cristianismo está o pecado”, disse, certa vez, um grande cristão. Alguns têm a consciência de fazer coisas que não deviam e de deixar de fazer outras que deviam. Somos conscientes do pecado contra nossa própria consciência – fazendo deliberadamente o que sabemos ser errado, por fraqueza ou por um forte desejo que esteja ainda fora do controle. Posteriormente, às vezes, sentimos remorsos de tanto que nos dói o que fizemos – e mesmo assim, o que foi feito, está feito e nada que fizermos pode apagar nosso erro. E, às vezes, nosso erro é vergonhosamente grave.

Foi sobre essa experiência virtualmente universal que Jesus, como João Batista antes dele, inicialmente falou a seus ouvintes. “Arrependam-se! Façam penitência. Decidam não mais pecar” (Mesmo que a probabilidade de voltar a pecar seja alta; tal como um homem manco que apesar de ter sido curado, sabe que, a qualquer momento, seu joelho pode falhar novamente.)

Cristianismo nada tem a ver com arrogância moral. Ele tem a ver com realismo moral e humildade moral. Onde quer que você veja pessoas cheias de si condenando os outros e inconscientes de seus próprios pecados, você não está na presença de um cristão alerta, mas de um pedante enganador. Foi, na realidade, uma grande revolução na história humana quando o Deus cristão e judeu revelou-Se como alguém que enxerga diretamente o que vai pelas consciências e não é ludibriado por atos externos. (Os filósofos pagãos na Grécia e Roma podem ou não ter levado os deuses a sério, mas eles não tinham vergonha de mostrar pietas em ritos religiosos, sem nenhuma preocupação com a consciência.) O respeito bíblico pela consciência dignifica e honra grandemente os atos interiores de reflexão, comprometimento e escolha. Ele desviou um forte raio de atenção do ato externo para o ato interior de consciência. Ele dignificou enormemente a veracidade e a humildade. Finalmente, a obrigação interior de consciência para com o Criador se tornou o fundamento da liberdade religiosa – que nenhum outro poder se atreva a interferir com essa obrigação primeira para com Deus, que é antecedente à sociedade civil, ao estado, à família, e a qualquer outra instituição. (Ver “Estatuto da Liberdade Religiosa”, 1785, de Jefferson.)

Terceira: O Fio Dourado e Brilhante da História Humana. Na libertação dos judeus do Império Seleucido (celebrada no Hanukkah), do Egito (celebrada na Páscoa) e da Babilônia (celebrada na poesia dos profetas de Israel), a liberdade é o tema principal do Velho Testamento. Cada história nesse Testamento tem como seu eixo a arena da vontade humana e as decisões aí tomadas (ocultas ou externas). Assim, para a religião bíblica, liberdade é o fio dourado da história humana. Essa concepção de liberdade é realizada internamente no recesso da alma e também, institucionalmente, em todas as sociedades e políticas.

Nenhuma outra religião, exceto o cristianismo e o judaísmo, coloca a liberdade de consciência tão perto do centro da vida religiosa. Por exemplo, o Islam tende a pensar Deus em termos de vontade divina, muito longe da natureza e da lógica. Independentemente da razão, tudo que Allah deseja, se realiza. O judaísmo e o cristianismo tendem a pensar Deus como Logos, luz, fonte de toda lei e da inteligibilidade de todas as coisas. Essa diferença na concepção fundamental de Deus altera, também, a concepção fundamental de cada religião com relação ao ser humano: compreensão ou submissão.

Quarta: O Razão do Cosmos é Amizade. Se alguma vez lhe ocorreu perguntar, mesmo que você seja ateu, por que Deus criou este vasto, silencioso, virtualmente infinito cosmos, você deve ter descoberto que a melhor resposta é, numa única palavra, “amizade”. De acordo com as Escrituras, inteligentemente lidas, o Criador fez o homem um pouco inferior aos anjos e um pouco mais complexo que os outros animais. Ele fez os seres humanos suficientemente conscientes e racionais para que eles pudessem se maravilhar com o que Ele tinha criado e agradecê-Lo. E, ainda mais importante, Ele criou os seres humanos para oferecê-los, em sua liberdade, Sua amizade e companhia. Se não há liberdade, não há amizade.

Amizade não é a única forma bíblica de pensar sobre a relação entre Deus e o homem; também é uma boa forma imaginar o futuro de nossa nação e do mundo para o qual devemos trabalhar. Dessa visão, o judaísmo e o cristianismo oferece ao mundo uma forma de medir o progresso ou o declínio. William Penn chamou sua capital de “Philadelphia” e fez da liberdade de religião seu princípio fundamental. Mesmo os ateus da Revolução Francesa nomearam seus princípios “Liberdade, Fraternidade, Igualdade” – cada um deles é um termo que deriva não dos gregos ou romanos, mas da religião bíblica. Uma civilização mundial constituída sobre a mútua amizade é um poderoso imã, e uma medida realista. Amizade não requer uniformidade. Ao contrário, sua demanda fundamental é o respeito mútuo, desejando o bem do outro como outro. Ela faz nascer um desejo de conversar – de uma forma razoável, sobre as diferenças de ponto de vista, de expectativas – e um senso de responsabilidade prática.


ALGUMAS DIFERENÇAS ENTRE O CRISTIANISMO E O ATEÍSMO

Reconheço que o horizonte cristão esboçado acima, em rápidas pinceladas, pode parecer absurdo para ateus como Dawkins, Dennett e Harris. Eles podem procurar, em vão, por evidências empíricas, do tipo que eles são capazes de reconhecer como evidências, de que esse esboço de Deus e do homem possa ter, minimamente, um contato com a realidade que eles conhecem. Por outro lado, não é difícil para um cristão bem intencionado se colocar no lugar de um ateu e ver o mundo como os ateus o vêem. Os quatro princípios do paradigma esboçados acima – amizade, liberdade, o perdão dos pecados e a aceitação da absurdidade – não excluem o ponto de vista ateu. De fato, aprende-se muito sobre cada princípio com os escritos de ateus, incluindo Sartre, Camus, Silone, Moravia, Dewey, Sêneca, Aristóteles e milhares de outros. O cristianismo parece ser mais capaz de compreender e simpatizar com os ateus do que estes com o cristianismo. Senão por outras razões, os três livros aqui resenhados mostram o quanto é difícil para os ateus contemporâneos (da escola científica) mostrar alguma simpatia pelo modo cristão de ver a realidade. Como um pouco acima de dois bilhões de pessoas são, atualmente, cristãs – aproximadamente uma a cada três pessoas – a inabilidade dos ateus contemporâneos de compreender os sentimentos de tantos companheiros – da breve viagem de uma única vida humana – parece ser uma grave deficiência humana.

Repetindo, não é difícil para um cristão sério “vestir” o ponto de vista, os métodos e as disciplinas da biologia evolucionária. Milhares de alunos universitários fazem isso a cada ano. Tem-se apenas que limitar a atenção e a compreensão ao que essa disciplina conta como evidência e rigor metodológico. Tem-se que conhecer seus conceitos e axiomas importantes. Tem-se que se limitar ao ponto de vista e às questões formuladas (não adianta formular questões que vão além do estrito limite imposto pela própria disciplina.) Se você dá conta de viver dentro desses limites, tanto melhor.

A arte de fazer isso não é diferente de aprender a pensar como um grego antigo, ou para os católicos, de aprender ver as coisas como um batista, um luterano e um presbiteriano, ou para este último se colocar, provisoriamente, no lugar de um católico. A forma estranha de Dawkins, Dennett e Harris de entender a vida humana é algo que um crente sensível deve necessariamente aprender, cedo ou tarde. Não se pode imaginar que se passe por um curso em Harvard, que se lecione em Stanford ou outra universidade, sem aprender como pensar, falar e trabalhar dentro do horizonte, pontos de vista, método e disciplinas de um ateu.

Tampouco essa arte é somente o produto de nossa era moderna e pluralística. O jovem Tomas de Aquino, com seus vinte anos, foi um dos primeiros homens no Ocidente a ter em suas mãos uma tradução autêntica de diversos livros de Aristóteles, cujas versões originais gregas estavam perdidas havia milhares de anos. Como seus comentários linha-a-linha de alguns desses livros mostram, Aquino dominou completamente o ponto de vista muito diferente do seu. Não muitos anos depois, ele teve de fazer o mesmo ao ler al-Farabi, Avicena, Averroes e outros grandes filósofos árabes.

E assim, quando um leitor cristão se defronta com o argumento do prof. Dawkins de que Deus não existe, porque todas as coisas mais inteligentes vem somente ao final do processo evolucionário, não no princípio, o primeiro reflexo do cristão é cair na gargalhada – mas como um estudante atento, ele também está obrigado a observar que, sim, do ponto de vista da biologia evolucionária, deve ser assim. O argumento pode não ser intelectualmente ou filosoficamente satisfatório; quando suas implicações práticas são comparadas com aquelas do ponto de vista cristão, a biologia evolucionária pode não ser atrativa como uma forma de vida. Se se quer ser um biólogo evolucionário, no entanto, deve-se aprender a se confinar dentro das disciplinas que o campo impõe.

Do ponto de vista do catolicismo romano pelo menos, não há dificuldade em aceitar todos os descobrimentos da biologia evolucionária e, ao mesmo tempo, não aceitar a biologia evolucionária senão como uma ciência empírica – ou seja, não como uma filosofia da existência, uma metafísica, uma completa visão da vida humana. É mais fácil para o cristianismo absorver muitas, muitas descobertas do mundo contemporâneo – da ciência à tecnologia, política, economia e arte – do que para aqueles cujo ponto de vista está confinado à era contemporânea absorver o cristianismo. Essa é apenas uma das razões pelas quais podemos esperar que o último sobreviverá à primeira.

É obvio que pelo menos Dawkins é muito consciente das limitações convencionais do ateísmo científico. Ele escreve que “uma resposta quase-mística à natureza e ao universo é comum entre os cientistas e racionalistas. Isso não tem conexão com uma crença sobrenatural.” Umas poucas páginas de seu livro, em quase todas as seções, são escritas para mostrar como o ponto de vista ateu pode satisfazer o que até agora tem sido considerado aspiração religiosa. O ateísmo tem, também, diz ele, suas consolações, suas fontes de inspiração, sua consciência da beleza, seu senso de espanto. Para tais satisfações, não há necessidade de se voltar para a religião. Dawkins faz um bom trabalho em restaurar, para a vida do ateísmo científico, a resposta subjetiva, emocional, de espanto para com a beleza. Para Dawkins, o ateísmo científico é humanístico, um passo significativo para além do positivismo lógico estéril de duas ou três gerações passadas.


... OU TUDO É PERMITIDO

Mas o ateísmo tem uma limitação mais grave, uma limitação que se revela nas ações de seus proponentes. Uma de minhas partes favoritas do livro de Sam Harris é sua tentativa de minimizar os horrores dos regimes autodeclarados ateus na história moderna: o fascismo na Itália, o nazismo na Alemanha e o comunismo na União Soviética. Nunca na história tantos cristãos foram mortos, torturados, levados a morte por marchas forçadas e presos em campos de concentração. Uma proporção ainda maior de judeus sofreu mais sob os mesmos regimes, particularmente o nazista, do que em qualquer outro tempo na história. A desculpa que Harris apresenta é muito fajuta. Primeiro ele dirige a atenção do caráter declarado do regime, para as personalidades de Hitler, Mussolini e Stalin: “Ao mesmo tempo em que é verdade que tais homens são às vezes inimigos da religião organizada, eles nunca são especialmente racionais. De fato, seus pronunciamentos públicos são freqüentemente psicóticos ... O problema com tais tiranos não é que eles rejeitem o dogma da religião, mas que eles abraçam outros mitos mortais.”

Em outras palavras, ateus psicóticos não são, na realidade, ateus. Será que Harris aceitaria uma alegação dos cristãos de que os maus cristãos não são, na realidade, cristãos? O problema real não é que aqueles tiranos rejeitam o “dogma” da religião, mas que eles se lambuzam com a carnificina permitida pelo relativismo radical de todas as coisas. E eles são confortados pela “lei natural” que absorvem do darwinismo old-fashioned: que o mais forte deve sobreviver e o mais fraco perecer.

Nossos autores podem rejeitar o argumento de que o ateísmo está associado ao relativismo. No entanto, o argumento mais comum contra se confiar no ateísmo é de Dostoevsky: “Se não há Deus, tudo é permitido.” Não haverá nenhum Juiz das ações e das consciências; ao final, é cada um por si. Certamente, alguns ateus “de um caráter particular” e detentores de distinções acadêmicas, que foram criados com hábitos inculcados por culturas religiosas do passado, podem se dar ao luxo de viver, por duas ou três gerações, de maneira indistinguível da dos modestos cristãos e judeus. Esses indivíduos continuam honestos, compassivos, comprometidos com a igualdade de todos e firmes crentes no “progresso” e “irmandade”, tempos depois de terem repudiado a justificativa original para tal lista de virtudes. Mas, cedo ou tarde, uma geração pode aparecer que leve a sério a metafísica do ateísmo. Isso foi o destino de uma nação altamente culta da Europa de nosso tempo.

Lembremos do pronunciamento de despedida de George Washington:

"Permitamo-nos com cautela supor que a moralidade possa ser mantida sem a religião. Qualquer que seja a importância que se dê à influência da educação refinada nas mentes individuais, tanto a razão quanto a experiência nos proíbem de esperar que a moralidade nacional possa prevalecer, com a exclusão do princípio religioso."

Se a moralidade fosse deixada sob a responsabilidade da razão apenas, nunca chegaríamos a acordos, pois os filósofos veementemente – e interminavelmente – discordam uns dos outros e a grande maioria deles hesitaria na ausência de sinais morais claros. Ademais, em momentos de tensão, grandes intelectuais do nível de um Heidegger e vários precursores do pós-modernismo (notavelmente o desconstrucionista Paul de Man) demonstraram uma vergonhosa adaptação aos imperativos do nazismo ou do comunismo.

Dawkins tenta se desviar dessa falha na visão neo-darwinista do acaso e da seleção natural cega, enumerando quatro razões para o altruísmo, fundadas na biologia evolucionária:

"Primeira, há o caso especial de parentesco genético. Segunda, há a reciprocidade: o pagamento de favores recebidos, e os favores feitos em “antecipação” de pagamento ... Terceira, o benefício darwniano de adquirir uma reputação de generosidade e gentileza. E quarta, há o benefício particular adicional da generosidade pública como uma forma autêntica de propaganda."

A essas razões baseadas na natureza do egoísmo, os judeus e cristãos poderiam adicionar três ou quatro. Primeira, não amar o próximo é desapontar o Criador que deseja que sejamos Seus amigos. Segunda, seria uma falha em nossa imitação do Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos determinou que O seguíssemos. Terceira, a experiência confirma que o amor aos outros está de acordo com nossa natureza comunal, começando na família, mas irradiando através da política e da economia. (Adam Smith referia-se a essa lei superior como “simpatia”.) Quarta, não há dúvida de que todo mandamento cristão tem um fundamento na natureza, mas tende a tencionar a natureza ao seu limite. A fé cristã não rejeita, mas se fundamenta na natureza, adiciona coisas a ela, a leva a uma perfeição mais rica.

Finalmente, nossos três autores não demonstram capacidade de reflexão cuidadosa sobre o que os judeus e cristãos realmente têm a dizer sobre Deus. A própria concepção atéia deles a respeito de Deus é uma caricatura, um busto horroroso que qualquer um sentirá o dever de rejeitar. Dawkins ridiculariza um Deus onisciente que também seja livre. Se um Deus onisciente sabe agora de Suas ações no futuro, como isso deixa espaço para que Ele mude de idéia – e como isso O faz onipotente? Não está Ele preso num torno? Mas, claro, isso é o mesmo que imaginar Deus vivendo no tempo, tal com Dawkins vive no tempo. É não conseguir perceber a diferença entre um ponto de vista desde a eternidade, fora do tempo, e um ponto de vista desde dentro do tempo. Isso é também uma incapacidade de perceber a liberdade que a Causa Primeira, fora do tempo (simultânea a todo instante de tempo) pode permitir, dentro do tempo, aos papéis das causas segundas, das contingências e dos particulares.

A vontade de Deus não é anterior às decisões humanas. É simultânea a elas e, assim, permite que elas aconteçam. Quando os católicos celebram o sacrifício da Missa, por exemplo, imaginamos que nosso momento de participação nessa Missa – como em cada outro momento de nossas vidas – é, aos olhos de Deus, simultâneo com a sangrenta morte de Seu Filho no Calvário. Aos nossos olhos, parece uma “encenação”, mas aos olhos de Deus ambos os momentos são um único. Sem dúvida, para alguns isso é excessivamente místico, e sua filosofia subjacente excessivamente sofisticada, especialmente para aqueles de gostos literais e puramente empíricos. Nossos três autores, de qualquer forma, apresentam uma idéia muito primitiva de Deus. Se nós tivéssemos tal visão, seríamos também, quase certamente, ateus.

O mundo interior de alerta e autoquestionamento das pessoas religiosas parece ser um território inexplorado por nossos autores. Em torno deles estão milhões de pessoas que despendem muitos momentos a cada dia (e horas a cada semana) em comunhão com Deus. Apesar disso, dessa parte interior e silenciosa dessas vidas – e por que esse silêncio interior toca aqueles que o considera verdadeiro, e parece mais real do que qualquer coisa em suas vidas – nossos escritores parecem inconscientes. Certamente, se nossos amigos ateus fossem reconsiderar seus métodos, e aprofundar sua compreensão de termos como “experiência” e “empírico”, eles poderiam chegar próximo a se colocarem no lugar de seus muitos companheiros religiosos, que consideram o teísmo mais satisfatório intelectualmente – menos autocontraditório, menos alienante de sua própria natureza – do que o ateísmo.

A única forma de os seres humanos chegarem a compreender uns aos outros é pelo aprendizado de se colocar no lugar do outro. Se essa máxima de Habermas é verdadeira, podíamos desejar que nossos três autores tivessem feito mais para diminuir o grande fosso que separa o crente do incréu no nosso tempo presente. Mesmo assim, devemos ser gratos que nossos autores tenham aberto uma janela na alma dos ateus, de tal forma que podemos, o resto de nós, entender melhor o que é o mundo do ponto de vista deles – e mesmo nos ver, por breves momentos, como eles nos vêem.


Ver também "Ateus solitários da Aldeia Global" - Parte I, Parte II, Parte III e Parte IV