sexta-feira, junho 15, 2018

O que é a santidade?

OBS: Este texto foi publicado na revista Verbum, Ano I, no. 1, em julho de 2016.

Os santos são chamados também de justos e perfeitos nas Sagradas Escrituras e nas obras dos teólogos. Um terrível preceito nos é dado pelo próprio Nosso Senhor Jesus Cristo: “Estote ergo vos perfecti, sicut et Pater vester caelestis perfectus est” (Mt 5, 48). A tradução mais recomendável seria: “Sede pois perfeitos, como também vosso Pai celestial é perfeito”. Muitas são as traduções que no lugar de perfeitos usam o termo “santos”. Do ponto de vista conceitual o termo é correto. Ninguém negará que santidade envolve perfeição. O que nos faz tremer é que Nosso Senhor quer que sejamos perfeitos como o Pai celeste. Essa tremenda responsabilidade nos faz exclamar com Bernanos: “Mas qual é o peso de nossas chances, para nós que aceitamos, de uma vez por todas, a assustadora presença do divino em cada instante de nossas pobres vidas?”

E contudo, a presença de santos, justos e perfeitos em toda a história do Povo de Deus, tanto na Velha Aliança quanto na Nova Aliança é, talvez, o maior milagre de Deus. Isto porque sabemos que não somos capazes de santidade por nós mesmos; seu peso seria insuportável para nossos fracos ombros. Todavia o desfile dos santos continua até hoje. Chesterton tem um modo saboroso de descrever esse desfile: “Um santo é um remédio porque é um antidoto. Na verdade, esta é a razão pela qual o santo é, não raro, um mártir; ele é confundido com um veneno, por ser um antidoto. Ele será encontrado geralmente restaurando a sanidade no mundo pelo exagero daquilo que o mundo negligencia, o que não é absolutamente o mesmo elemento em todas as épocas. Todavia, cada geração busca seu santo por instinto; e ele não é o que o povo quer, mas, ao contrário, o que o povo precisa. Este é o significado das palavras dirigidas aos primeiros santos, “Tu és o sal da terra”. Cristo não disse aos apóstolos que eles eram simplesmente pessoas excelentes, ou as únicas pessoas excelentes, mas que eram pessoas excepcionais; pessoas permanentemente incongruentes e incompatíveis; e o texto sobre o sal da terra é realmente agudo, sagaz e picante como o gosto de sal. Porque são pessoas excepcionais é que eles não devem perder sua excepcional qualidade; “Se o sal perde seu sabor, com que ele será salgado?” é uma questão muito mais penetrante do que qualquer mero lamento.”

O desfile dos santos que receberam a honra dos altares nos oferece todo tipo de homem e todo tipo de mulher; prostitutas, reis, rainhas, mendigos, eremitas, nobres, soldados, virgens, sábios, ignorantes, homens de saúde perfeita e longevos, homens frágeis e de vida curta, viúvas, escravos, escritores e analfabetos. E o mais curioso – e para nós o mais precioso – é que a santidade não dependeu no mais mínimo detalhe da condição temporal e vital de nenhum deles. Eles seriam santos em qualquer posição; São Luis seria santo como rei que foi, mas também como mendigo, se ele o fosse. Santa Maria do Egito seria santa se fosse uma rainha, e não uma prostituta convertida por Nossa Senhora. Como dizia Chesterton, a diversidade dos santos é maior que a dos criminosos. A santidade nos oferece o espetáculo da diversidade de caráter e comportamento como nenhum outro fenômeno humano. Podemos afirmar que só na santidade se encontra a verdadeira liberdade humana; é nela que podemos ver a fertilidade da unicidade de Deus na ordem da natureza. É como se na diversidade da santidade pudéssemos perscrutar a inconcebível fertilidade do Deus Uno.

O maior exemplo de santidade vem diretamente da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade e é a luz maior que nos ilumina. Mas Ele está, embora tenha sido feito homem, ainda muito próximo de Deus, sendo o Próprio Deus. Ainda mantém aquela unicidade indecifrável, que esconde toda a diversidade. Daí a importância dos santos, da mais admirável diversidade, da mais impressionante humanidade. Os santos da Igreja são a continuação do trabalho de Nosso Senhor em Seu incessante chamamento a nós, miseráveis pecadores, a uma vida de perfeição. É como se seu exemplo tivesse de ser rebaixado para nos sentirmos chamados. Os santos provam que simples homens podem se aproximar do exemplo de Deus.

Meditando sobre a vida de Santa Catarina de Sena, nosso grande Gustavo Corção nos deixa valiosas observações sobre a santidade. Partindo do Introitus da Missa de Virgem não Mártir (Dilexisti) – dilexisti justitiam, et odisti iniquitatem – Corção nos diz: “o que nos ensinam os santos, com palavras e obras, é que não basta traçar na areia uma tênue linha que separe o bem do mal; e que é preciso, resolutamente, entre os céus e os infernos, erguer muralhas de ódio, e cavar abismos de amor”.

É preciso também explorar, com o grande católico brasileiro, a diferença entre o santo e o homem bom, naturalmente bom. Diz ele: “A diferença [entre os dois tipos de homens] é maior do que a semelhança. É enorme. Mesmo sem tentar a exploração mais profunda da misteriosa conversação entre uma alma e seu Criador, já poderemos apreciar, pelas manifestações exteriores e visíveis, pelas fisionomias, pelos gestos, a imensa distância que existe entre um quadro de virtudes naturais e a estrutura da alma dos perfeitos.”

E ele continua: “Nós que não somos santos, ai de nós, construímos e cultivamos nossas pequenas virtudes de um modo mesquinho, como o homem que, desejando agasalhar-se em pouco pano, encolhe-se nas dobras exíguas e trata de não fazer gestos muito amplos. (...) Tentando evitar os desequilíbrios mais fortes o que nos resta é sofrear cautelosamente os desejos. Foge-se assim às tentações abafando as aspirações. E vai-se pela vida afora, devagar, como o sujeito que anda às apalpadelas, no escuro, com medo das cadeiras.”

Eis então nosso caminho, de nós que mesquinhamente tentamos percorrer o caminho dos santos. Então “o homem honesto, simplesmente honesto, vai assim trilhando seu caminho, e conseguindo evitar os principais, ou mais visíveis pecados, sem ter nas costas a cruz do santo ódio. A menor detestação do mal equilibra-se com a menor dileção do bem.”

Mas isso não é santidade, pois nela, “ao contrário, o que logo se vê, com fulgurante evidência, é a dilatação da alma e o alargamento dos extremos. As virtudes, que no homem ainda sujeito às leis dos sentidos, ou mal libertado desse jugo, eram meras disposições facilmente abaláveis (faciles mobiles), e sem conexão orgânica, tornam-se, pela infusão da Caridade e pelo acréscimo dos dons, virtudes reais, forças verdadeiras, dificilmente abaláveis (difficiles mobiles) organicamente e harmoniosamente conexas. E, em lugar do tíbio e claudicante indivíduo que apenas consegue fazer algumas coisas boas, à custa de compromissos, demissões e pusilanimidades, vê-se então esta alma vivificada pela graça abrir as grandes asas das virtudes que nos pareciam opostas e paradoxais, erguer-se sem medo no largo voo dos albatrozes.”

Não é por outra razão que inumeráveis santos recomendavam a leitura da vida dos santos, seus irmãos. São Bernardo, São Felipe Neri, São Francisco de Sales, Santo Afonso Maria de Ligório e muito outros nunca se cansaram em recomendar a leitura da vida dos santos como algo absolutamente necessário a todo católico, leigo ou religioso. Com o exemplo dos santos, tão humanamente semelhantes a nós, aprendemos a via entre as disposições faciles mobiles e as difficiles mobiles.

Os leitores objetarão que o pobre escriba não definiu o que seja santidade, e estarão corretos. Santidade é mistério, e a mente católica, como nenhuma outra, sabe aceitar os mistérios divinos, não como enigmas a serem decifrados, mas como uma seta a ser seguida e uma dádiva a ser desfrutada.

quarta-feira, junho 13, 2018

Viva Santo Antônio!

Minha mãe me deu o nome de Antônio por uma promessa que fez ao santo, de quem era devota. Levava-me toda terça-feira em sua Igreja e me entregou ao grande santo. Agora, ele tem de carregar esse peso, coitado! Imagino que ele esteja ralhando com ela lá no Céu por essa carga em suas costas.
Mas eu peço: não desista de mim, Grande Santo Antônio!

terça-feira, junho 05, 2018

Na Itália, o novo ministro da Família diz: alegro-me por ser cristão.

Lorenzo Fontana, o novo ministro da Família, atrai o ódio das elites globalistas por suas posições pró-família tradicional. Mas isso não parece amendrotá-lo, segundo ele explicou numa carta publicada pelo jornal italiano Il Tempo.

"O ódio das elites não me amedronta. A fúria de certos ideológos relativistas ultrapassa as fronteiras da realidade, chegando a colocar em dúvida certas evidências flagrantes, que se encontram totalmente em nossa constituição.

"A República reconhece os direitos da família como sociedade natural fundada no casamento. Este será o princípio de minha ação ministerial.

"Nós afirmamos as coisas que pensamos ser normais, quase evidentes: que um país para crescer precisa de crianças, que mamãe se chama mamãe (e não progenitor no. 1), que papai se chama papai (e não progenitor no. 2)"

Em Il Tempo, o ministro da família defende, ponto por ponto, suas posições, ridicularizando as "reações de certos ambientes que fazem do relativismo sua bandeira". Ele não pretende se assustar pela "revolta das elites".

"Não tememos a ditadura do pensamento único", ele promete. "Vamos em frente, grandemente motivados, temos grandes projetos a realizar. Temos os ombros muito largos para resistir aos ataques gratuitos, para responder-lhes com a evidência dos fatos, com a força das ideias, e com a concretização das ações. Mas nunca lutar pela normalidade foi um ato tão heróico como é hoje em dia".

Lorenzo Fontana, em sua carta, cita, em seu auxílio, o grande papa São Pio X: "Eles vos chamarão de papistas, retrógrados, intransigentes, clericais: sejais confiantes!"

Em seguida, ele diz ter orgulho "de não ter medo" de se declarar "cristão" e de "ser pela vida".