quinta-feira, agosto 20, 2015

Saibam procurar os que desejam autoajuda.

A pequena introdução ao romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, contém mais sabedoria que todos os livros do acadêmico Paulo Coelho (lamentavelmente, membro da Academia que Machado fundou e que, como tudo o mais no Brasil, desceu a ladeira da mediocridade), se é que eles contêm alguma. Este romance é considerado por Sidney Silveira o maior romance já escrito no Brasil. Aliás, Sidney está ministrando, com o prof. Sérgio Pachá, um extraordinário e imperdível curso sobre Machado.

A introdução vale também como uma aula de como escrever, de como expressar, com pouquíssimas linhas, todo um modo de ser, de ver o mundo, de interpretar as relações humanas e sociais, de, enfim, se colocar no mundo como observador e crítico. Vamos ao texto, então. Divirtam-se! Os negritos são meus. Não os pude evitar!

Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará, é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez.. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevia-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião. 

 Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.
Brás Cubas


sexta-feira, agosto 14, 2015

Assunção segundo Corção: é rima e é solução

O dogma da Assunção

A 15 de agosto, como todo o povo católico sabe, a Igreja comemora a Assunção de Nossa Senhora. Esta festividade litúrgica se situa, no ano eclesiástico, na grande planície que fica entre as grandes festas do Cristo e do Espírito Santo. De Pentecostes até natal há uma espécie de campo juncado de santos mortos que um dia ressuscitarão e terão um corpo de glória. Ora, o que a Igreja ensina cantando, neste dia 15 de agosto, é que a Mãe de Deus, por favor especial, pelo fato de ter sido escolhida para a consumação do mistério da encarnação, e pelo fato de ter sido isenta do pecado original, mereceu entrar na glória, de corpo e alma, antes do grande dia em que todos os santos verão Deus com sua carne e seus ossos, como reclamava o paciente e impaciente Jô.

Desde 1o. de novembro de 1950, a crença na Assunção da Virgem Santíssima está incorporada à dogmática católica. Embora tenha sido sempre um hábito difundido, uma convicção digamos assim oficiosa da tradição católica, foi naquela data que o Papa Pio XII definiu o dogma da Assunção, e proclamou que a crença na subida de Maria aos céus, em corpo e alma, tem fundamento na revelação e portanto na fé divina. O Papa absteve-se de determinar o modo, as circunstâncias, os pormenores de tão misterioso e importante acontecimento, limitando-se a proclamar o dogma da Assunção no seu aspecto central e principal. A Sagrada Congregação dos Ritos, na mesma data, deu ao dogma, à verdade teológica que constitui o enunciado do dogma, uma roupagem de sinais litúrgicos, de referência escriturísticas, de imagens que formam o atual texto da festa máxima que glorifica a Rainha dos Céus e da Terra. A Mulher glorificada pelo Apocalipse, a Filha do Rei vestida de ouro do salmo 44, a Mãe que com seu Filho será inimiga vitoriosa do Demônio segundo o Gênesis, a cantora do Magnificat, todas essas imagens que se aplicam semelhantemente à Virgem Santíssima e à Igreja, esposa de Cristo, procuram tornar visível, na luz da fé, (que é um começo, um lampejo da luz da Glória), esse mistério que passa a medida de nossa inteligência natural.

O mundo descrente, diante da proclamação do dogma, que foi um dos mais belos atos do grande Papa Pio XII, mostrou-se escandalizado e houve até manifestações grosseiras de homens tidos por muito inteligentes. Parecia-lhes que a Igreja, com essa proclamação que se lhes afigurava inteiramente inoportuna, lançava um desafio às modernas luzes da moderníssima cultura.

E agora permitam-me dizer uma coisa. Eu acho que eles tiveram razão de se escandalizarem. Realmente, para o mundo que anda entretido com as coisas da hora que passa, com as idéias em voga, com os problemas efêmeros, respeitáveis uns, menos respeitáveis outros, para o mundo que só é mundo, que só cuida do que não permanecerá, que só pensa em fumaça, que só ama o que é inconsistente e frágil – para esse mundo a palavra da Igreja, interpretação e tradução da palavra de Deus, deve ter uma estranha dureza. Todos os dogmas são duros; mesmo o dogma que é pão teve para os ouvidos descrentes dureza de pedra. “Essas são palavras duras...” murmuraram os fariseus no dia em que Jesus lhes ensinou que Ele era comida, que Ele era pão.

E nós mesmos, em nossa imperfeitíssima fé, freqüentemente achamos esquisita a palavra de Deus e freqüentemente temos medo de encarar de frente um de nossos artigos de fé. E é por isso que a Igreja nos incita a estudarmos a doutrina revelada e a meditarmos sobre as suas conclusões. A teologia, sob certo ponto de vista, é uma especialidade para os doutos; mas, tomada no sentido mais amplo, deve ser estudada por todos; e o estudo do dogma é gerador de piedade, isto é, tonificador da alma; é fortificante espiritual e, sobretudo, integrador intelectual. Que quer dizer isto? Que sentido vital terá essa palavra? Como devemos fazer para pensarmos no dogma da Assunção, com as luzes da fé, mas também com as luzes naturais da razão, e não apenas com a inclinação afetiva que é boa, mas que só é boa quando estiver submetida à razão e à fé? Se o leitor tiver um pouquinho de paciência, já lhe darei um resumo da idéia contida naquela expressão.

O estudo teológico da sagrada doutrina é diferente do estudo do puro catecismo por ser mais desenvolvido e mais orgânico. Enquanto o catecismo nos dá uma lista, por assim dizer, de artigos de fé, a teologia nos ensina a ligar, a tomar como conexos os ditos artigos, a contemplar o grande corpo luminoso da dogmática conjunta e global. E quem estudar a doutrina com tal orientação verá uma coisa maravilhosa: os artigos que pareciam estranhos e dificilmente aceitáveis enquanto vistos isolados, destacados, tornam-se luminosos, claros, belos, invencíveis, inevitáveis, inegáveis, quando são vistos no grande conjunto, no grande corpo que é uma das formas do próprio Corpo de Deus.

É certo que mesmo assim não temos ainda, no que concerne aos mistérios de Deus, a luz plena que só teremos no dia da Glória. Por enquanto vivemos de fé, do lumen Christi, que tem algo de noturno, e vemos tudo em sinais e enigmas; depois, no céu, teremos o lumen gloriae, que é o fulgor do próprio Deus desvendado e visto face a face. Antes disso, estamos um pouco no escuro, no deserto, no mundo cuja figura passará. Mas aqui mesmo, na caminhada e na obscuridade, já teremos uma estrela de Belém, com luz mais viva, se estudarmos e meditarmos nas verdades religiosas, e se pouco a pouco conseguirmos descobrir os lineamentos, os contornos, do grande conjunto doutrinal. Então teremos uma estranha, uma curiosa sensação: antes do estudo e da meditação, cada artigo de fé era esquisito em seu isolamento, cada palavra do catecismo era uma palavra disciplinar e dura; depois do estudo, o conjunto se impõe de tal forma, com tal força, com tal remuneração para as aflições do espírito, que agora o que nos parece esquisito, estranhíssimo, bizarro, é o fato de existirem pessoas que não crêem em Cristo Jesus, nos seus mistérios, na sua Igreja, nos seus dogmas, na Assunção da Maria Virgem.

O dogma da Assunção, na verdade, não tem nada de especialmente repugnante ao bom senso, como andaram dizendo. Para começo de argumentação devo dizer que devia repugnar ao bom senso a idéia mesquinha que pretende reduzir toda a Realidade aos fenômenos sensíveis e à rotina dos dias que passam diante de nossa observação. E o resto? E as origens de tudo? E o fim de tudo? Será sensato não pensar nessas coisas? Não creio que alguém se possa gabar de ter na vida a famosa atitude do avestruz. Além disso, o dogma da Assunção não é tão bizarro, tão novo, tão incôngruo como parece a quem só tem notícia da doutrina católica por alguns boatos esparsos. Não. O dogma da Assunção se prende teologicamente ao dogma do pecado original, e ainda mais diretamente, ao dogma da encarnação. A descida de Deus à humana condição pôs no mundo da Carne um princípio de levitação divina com todas as suas numerosas conseqüências. Uma delas é a própria Ascensão do Senhor. Outra, que vem com a super-lógica dos divinos mistérios, é a Assunção de Maria. Prende-se a Assunção a Pentecostes, à vida da Igreja com sua coroa de sacramentos, que são por assim dizer estilhaços da divina explosão, ou que são o Cristo socializado; e prende-se à estrutura psíquica sobrenatural da piedade individual, pela qual imitamos Maria sendo gruta para o Cristo que nasce em nós, e sendo um corpo que sobe de claridade em claridade, como dizia o apóstolo. Prende-se à Liturgia, que é uma espécie de assunção, todos os dias e horas realizadas na missa e no ofício divino. E finalmente se prende a Assunção de Maria ao grande dogma da Ressurreição da Carne. Maria é uma antecipação, e todos nós sabemos que nas coisas eternas uma antecipação no tempo não traz modificação profunda. Se já era crença nossa a ressurreição da carne, porque se admira alguém do fato de proclamarmos uma ressurreição da carne? No fundo, a esperança do mundo descrente, do mundo que só é mundo, a esperança dos desesperados é que nossa religião seja apenas um hábito de falar e de gesticular. E um hábito de falar palavras vazias e inconseqüentes. Enquanto falamos na ressurreição em termos vagos, e ainda não verificados, o mundo nos deixa falar com complacência. Mas quando o dogma recentemente definido e proclamado, ou melhor, quando o dogma que já existia implícito, adormecido como a bela do bosque no castelo das verdades de Deus, se torna explícito, concreto, referindo-se a um fato ocorrido com uma pessoa... então o mundo se irrita, ou descobre espantado que não eram tão inconseqüentes e tão estéreis e tão estéreis como pensavam os outros artigos já conhecidos.

Assunção de Maria e ressurreição dos mortos são verdade articuladas como a mão no pulso e no braço, e ambas se prendem à encarnação como o braço se prende no tronco, e todas se nutrem do mesmo sangue e do mesmo sacratíssimo coração de Jesus. Quando se diz que a Igreja é Una, Santa, Católica, também se diz que é Una, Santa, Católica, a doutrina composta de muitos artigos de Fé. A divisão deles, a tendência e o perigo do despedaçamento, vem de nossa fraqueza mental, de nossa condição carnal. Por causa da natureza humana ser o que é, temos de aprender a doutrina ponto por ponto, andando, caminhando, somando, colecionando; mas só aprendemos bem e só começamos a tirar forças do dogma, quando começamos a aprender a grande lição da unidade. E então, maravilhosamente, a inteligência se alegra com a proclamação de um dogma que vem completar, que vem tornar explícito o que já estava implícito. E então a alma agradece a Deus que a engrandeceu, como engrandeceu Maria. O Magnificat torna-se nosso, oração nossa; e a Assunção de Maria torna-se nossa, assunção nossa. Já no Cristo tínhamos no céu a nossa pobre e amada carne. Agora temo-la de um modo que, por ser menos divino, se torna mais próximo de nós, resultando em nos tornar por isso mais divinos.

Assumpta est Maria in caelum. Os anjos alegram-se e bendizem o Senhor. E o salmo cantado nas Vésperas acrescenta: “Iremos atrás de ti levados pela recendência de teus aromas...”

Além disso, o dogma da Assunção, com toda a sua aparente incongruência, responde aos instintos mais profundos gravados em nossa natureza. Deus não nos fez para a morte e para a corrupção. Não só o espírito, mas a própria carne humana grita por vida eterna e clama contra a morte. Maria é a mulher vitoriosa. É a mãe que se debruça em nosso sonho de angústia, em nossas insônias de desespero, e nos diz, como quando éramos pequeninos e tínhamos medo do escuro: “Sou eu...” repetindo a palavra de seu Filho naquela noite em que os discípulos se assustaram quando o viram chegar por sobre as águas. Maria repete Jesus. “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que guardam as minhas palavras” disse Jesus aos discípulos e ao povo que queria reduzir a maternidade de Maria ao nível das coisas naturais, e, por conseguinte, queria esquecer a transcendência de sua divina missão. Mas é a própria Maria quem melhor guarda as palavras de seu Filho. Repete Jesus nas palavras de verdade, nas palavras de misericórdia. E repete Jesus na subida aos céus.

Alegremo-nos, porque o nosso mais profundo susto, o nosso mais terrível medo, o nosso mais angustiado anseio é atendido por esse sinal maravilhoso que apareceu no céu: Signum magnum apparuit in coelo. Uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés, e na cabeça uma coroa de doze estrelas. Cantai um cântico novo.

Cantemos. Alegremo-nos. A humanidade geme sob a ameaça da morte. Nem sempre se fala nisso. Na maior parte das vezes a gente acha melhor desconversar, fingir que ela não existe, esquecer. De repente ela aparece e rouba uma pessoa amada, e então a gente grita, como Jó, que não quer morrer, que quer ver Deus estando em sua carne e seus ossos; ou chora como o bom pai que quer ver de novo, belo, jovem, resplandecente, o filho que um dia lhe trouxeram frio e despedaçado...

Lembrai-vos, ó piedosíssima Virgem Maria, dos que a morte e a frágil vida separaram, consolai os aflitos, intercedei pelos que sofrem injustiças, abrigai os pecadores. Rainha assunta ao céu, rogai, rogai por nós!

Roguemos também à Santa Mãe de Deus que interceda pela sorte do mundo e pela sorte de nosso infortunado país. Roguemos que a Misericórdia Suplicante obtenha de Deus a confusão de seus inimigos e a purificação de nossos costumes, de nossas instituições, e de nossos homens públicos. Há muito sofrimento nestas terras maltratadas, Santa Mãe de Deus; rogai por nós, vossos olhos misericordiosos a nós volvei, e depois deste desterro mostrai-nos Jesus, bendito fruto do vosso ventre, ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria. Rogai por nós, Santa Mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

(revista A ORDEM, out. 1960)

Fonte: Permanência

quinta-feira, julho 16, 2015

Primeiro Congresso Monfort de Minas Gerais: OS CATÓLICOS E O FALSO DILEMA ENTRE DIREITA E ESQUERDA.

Segue a programação do primeiro Congresso Montfort em Belo Horizonte, conforme:
 
 
TEMA:
 
“OS CATÓLICOS E O FALSO DILEMA ENTRE DIREITA E ESQUERDA”
 
 
Data e horário:
Dia 1º de agosto de 2015 (sábado)
Início às 9 horas da manhã e término com a Santa Missa que começa às 17 horas.
 
Local:
Colégio Santa Maria – Unidade Nova Suíça.
Rua Lindolfo de Azevedo, 345 – Nova Suíça – Belo Horizonte. (ônibus 9202, 4150, 8203, S21) *
Referência: 4 quarteirões atrás do Cefet da Av. Amazonas
O estacionamento interno está liberado para os participantes do evento.
 
 
 
PROGRAMAÇÃO:
 
1.ª AULA: 9:00 às 10:30
DIREITA E ESQUERDA: DUAS FACES DA MESMA MOEDA
Palestrante: Prof. Dr. Antonio Emílio Angueth de Araújo
 
CAFÉ: 10:30 às 10:45
 
2.ª AULA: 10:45 às 12:15
A IMPORTÂNCIA DA QUESTÃO DOUTRINAL NA LUTA DA REVOLUÇÃO CONTRA A IGREJA CATÓLICA
Palestrante: Prof. Dr. Alberto Zucchi
 
 
ALMOÇO – 12:15 – 13:45 (Restaurante “self service” ao lado do colégio)
 
 
3.ª AULA: 13:45 às 15:15
LIBERALISMO COMO AGENTE DESAGREGADOR DA SOCIEDADE CIVIL E DA IGREJA
Palestrante: Subdiácono Thiago Bonifácio, IBP
 
CAFÉ: 15:15 às 15:30
 
4ª. AULA: 15:30 às 17:00
A ILUSÃO DA REVOLUÇÃO DE 64
Palestrante: Prof. Marcelo Andrade
 
 
Ao final do Congresso, às 17:00h, será celebrada a Santa Missa na Capela do Colégio.
 
 
 
INSCRIÇÃO:
 
Enviar e-mail para: cartas@montfort.org.br ou respostacatolica1@gmail.com, com o título CONGRESSO MONTFORT MINAS GERAIS, contendo as seguintes informações:
 
  1. Nome Completo
  2. E-mail
  3. Cidade / UF
  4. Telefone para contato
  5. Se fizer parte do clero ou ordem religiosa, informar qual sua Diocese e a qual Ordem/Congregação pertence.
 
 
Será enviado e-mail de retorno confirmando a inscrição.
 
O valor da inscrição é de R$20,00. Nesta taxa estão incluídos o material do Congresso além dos dois ‘coffee-breaks’.
 
O almoço não está incluso no valor da inscrição. Será indicado um restaurante bem próximo ao local do Congresso.
 
Clérigos e Religiosos são isentos de taxa de inscrição.
 

domingo, maio 03, 2015

Libido Dominandi: o projeto de dominação do homem por meio da luxúria.

Muito se beneficiarão aqueles que, ao lerem o livro de Mons. Delassus, que indiquei no blog, lerem concomitante ou sequencialmente o livro de E. Michael Jones, Libido Dominandi: Sexual liberation and Political Control. O blog já fez algumas alusões a este livro (aqui, aqui, aqui e aqui).

Abaixo, traduzo alguns trechos da introdução do livro. Observo, mais uma vez, que este livro fundamental ainda não encontrou tradução para o português, em nosso pobre país.

(...) Não é segredo que a luxúria é também uma forma de vício. Minha questão aqui é que o sistema atual sabe disso e explora a situação em seu próprio benefício. Em outras palavras, “liberdade” sexual é realmente uma forma de controle social. O que queremos realmente dizer é que isto é um sistema gnóstico de duas verdades. A verdade exotérica, aquela propagada pelo sistema por meio da propaganda, da educação sexual, dos filmes de Hollywood e do sistema universitário – a verdade, em outras palavras, para consumo geral – é que a liberação sexual é liberdade. A verdade esotérica, aquela que permeia as operações manuais do sistema – em outras palavras, as pessoas que se beneficiam da “liberdade” – é o exato oposto, isto é, que a liberação sexual é uma forma de controle, um modo de manter o sistema no poder pela exploração das paixões do ingênuo, que se identifica com suas paixões, como se elas fossem ele mesmo, e com o sistema que lhe possibilita identificar-se como tais paixões. Às pessoas que sucumbem a suas paixões desordenadas são disponibilizadas, então, racionalizações do tipo que infestam páginas pornográficas da Internet e que são, com isso, transformadas numa poderosa força política por aqueles que são os mais especializados em manipular o fluxo de imagens e racionalizações.

(...) A revolução sexual não foi um levante social; não foi um coalescer de “partículas de revolta e iluminação”; ela foi, ao contrário, uma decisão da classe dirigente da França, Rússia, Alemanha e dos EUA, em vários momentos, durante os últimos 200 anos, no sentido de tolerar o comportamento sexual fora do casamento como uma forma de insurreição e, então, como uma forma de controle político.

(...) O que se segue é a história de uma ideia. A ideia de que a liberação sexual poderia ser usada como uma forma de controle não é uma nova ideia. Ela é o centro da história de Sansão e Dalila. A ideia de que o pecado é uma forma de escravidão é central nos escritos de São Paulo. Santo Agostinho, em sua magnum opus em defesa do cristianismo contra as acusações dos pagãos (de que o cristianismo teria contribuído para a queda de Roma), dividia o mundo em duas cidades, a Cidade de Deus, que amava Deus ao ponto da extinção de si mesma, e a Cidade do Homem, que amava a si mesma ao ponto da extinção de Deus. Agostinho descreve a Cidade do Homem como “ansiando por dominar o mundo”, mas ao mesmo tempo se via “ela própria dominada por seu domínio”. Libido Dominandi, paixão por domínio, então, é um projeto paradoxal, praticado invariavelmente por pessoas que são, elas mesmas, escravos das mesmas paixões que incitam nos outros para dominá-los.

A dicotomia que Agostinho descreve é eterna; existirá enquanto o homem existir. Os revolucionários do Iluminismo não criaram nenhum novo mundo, nem criaram um novo homem para habitar esse admirável novo mundo. O que fizeram foi adotar a visão de mundo de Agostinho e, então, reverter seus valores. “O estado do homem moral é aquele de tranquilidade e paz, o estado do homem imoral é aquele de perpétuo desassossego”. O autor dessa afirmação não foi Santo Agostinho (embora ele teria concordado incondicionalmente com ela); o autor foi Marques de Sade. Menciono isso para mostrar que ambos, Agostinho e Sade, compartilhavam a mesma antropologia e a mesma psicologia racional, se quiserem. Onde diferiam era nos valores que atribuíam às verdades dessas ciências. Para Agostinho, o movimento era mau; para Sade, o revolucionário, o movimento perpétuo causado pelas paixões incontroladas era bom porque perpetuava “a necessária insurreição em que o republicano deve sempre manter o governo do qual é membro.”

O mesmo pode ser dito sobre a liberdade. O que um chama liberdade, ou outro chama servidão. Mas a dicotomia das duas cidades – uma rebaixando a si mesma por causa do amor a Deus, a outra rebaixando Deus por causa de seu amor a si e a seus desejos – é algo sobre o que ambas concordariam.


O que segue é a história de um projeto nascido da inversão das verdades cristãs pelo Iluminismo. “Mesmo aqueles se que armaram contra Vós”, escreve Agostinho, dirigindo-se ao Todo Poderoso na Confissões, “não fazem outra coisa que não copiá-Lo de modo perverso”. O mesmo poderia ser dito do Iluminismo, que começou como um movimento para liberar o homem e quase do dia para a noite se tornou um projeto para controla-lo. Este livro é a história dessa transformação. (...) A melhor forma de controlar o homem é fazê-lo sem que ele perceba que está sendo controlado, e a melhor forma de fazer isso é através da sistemática manipulação de suas paixões, porque o homem tende a se identificar com suas paixões como se dele fossem. (...) Foi necessário o gênio do mal desta nossa época para aperfeiçoar um sistema de exploração financeira e política baseada na intuição que São Paulo e Santo Agostinho tiveram a respeito do que chamavam de “escravidão do pecado”. Este livro descreve a sistemática construção de uma visão de mundo baseada nessa intuição.

sexta-feira, maio 01, 2015

Como a Maçonaria planejou, no século XIX, destruir a Igreja.

Transcrevo abaixo um trecho do extraordinário livro de Mons. Henri Delassus (que ainda estou lendo) A Conjuração Anti-Cristã, escrito em 1910 e agora editado pela Editoria Castela. Ainda comentarei este livro no blog.

Frente a esta conjuração, Antonio Gramsci parece um iniciante bem chinfrim. Todos que já leram sobre a infiltração comunista nos EUA sabem como o modelo das sociedades secretas foi usado amplamente. Leiam, por exemplo, Witness, de Wittaker Chambers (aqui e aqui).

O que vocês lerão é um trecho de um dos documentos da Alta Venda, grupo secretíssimo, que controlava tanto a Maçonaria quanto os Carbonários. Ninguém, nesses dois grupos auxiliares sabia da existência desse grupo superior, constituído de 40 membros, cujo controlador-mor era alguém, na época, conhecido como Nubius. O plano traçado então era destruir a Igreja com o concurso de um Papa. Vejam o que dizia o documento.

No caminho que traçamos para nossos irmãos encontram-se grandes obstáculos a vencer, dificuldades de mais de uma natureza a suplantar. Triunfaremos pela experiência e pela perspicácia; mas o objetivo é tão belo que importa abrir todas as velas ao vento para alcança-lo. Procurai o Papa cujo perfil acabamos de traçar. Estendei vossas redes no fundo das sacristias, dos seminários e dos conventos. O pescador de peixes torna-se pescador de homens; vós, vós conduzireis amigos (nossos) para junto da Cadeira Apostólica. Tereis pregado uma revolução com tiara e capa, marchando com a cruz e o estandarte, uma revolução que precisará ser apenas um pouco estimulada para pôr fogo nos quatro cantos do mundo. Que cada ato de vossa vida tenda, pois, à descoberta dessa pedra filosofal.

Em outra parte do documento se diz que bastava ter

o dedo mínimo do sucessor de Pedro comprometido com a conjuração, e esse dedo mínimo vale, para essa cruzada, todos os Urbanos II e todos os São Bernados da cristandade.

Sabendo o que sabemos sobre a crise da Igreja e os efeitos do Concílio Vaticano II, não podemos deixar de admirar o grau de profetismo, da capacidade de trabalho demoníaco e do sucesso que tais planos alcançaram em pouco menos de um século.