Do livro "A Coisa", publicado em 1929.
Gilbert Keith Chesterton
Sir Arthur Keith,[1] em suas recentes observações sobre a alma, “deixou o gato escapar da maleta”. Ele o deixou escapar daquela maleta elegante e profissional que é usada pelo “médico” a quem ele descreve como conscienciosamente compelido a afirmar que a vida da alma cessa com o último suspiro do corpo. Talvez a figura do gato não se adéqüe muito bem à maleta; o gato é um animal místico, cujas nove vidas podem muito bem representar a imortalidade, pelo menos na forma da reencarnação. De qualquer forma, ele “deixou o gato escapar da maleta”, no sentido de revelar um segredo que tais homens sábios deveriam sabiamente guardar. O segredo é que tais cientistas não falam como cientistas, mas simplesmente como materialistas.
Não faz muito tempo, em sua famosa conferência sobre antropóides no Congresso de Leeds, Sir Arthur Keith disse que falava simplesmente como o primeiro jurado de um júri. É verdade que ele aparentemente não consultou o júri; e rapidamente se tornou claro que o júri violentamente discordou; o que é pouco usual num júri, depois que o primeiro jurado entrega o veredito. Mesmo assim, usando essa imagem, ele quis alegar a completa imparcialidade de tipo jurídico. Ele quis dizer que um jurado está obrigado, por juramento, a considerar inteiramente os fatos e a evidência, sem medo ou favorecimento. E esse efeito seria centenas de vezes mais efetivo se tivéssemos a liberdade de imaginar que as simpatias pessoais do jurado estivessem do outro lado; ou, pelo menos, se não soubéssemos que elas estavam muito intensamente de um único lado. Sir Arthur deveria ser cuidadoso em preservar a impressão de que, falando estrita e unicamente como antropólogo, ele foi forçado a aceitar a seleção natural de antropóides. Ele deveria então deixar que se inferisse que, como um simples cidadão, ele estaria ansiando por visões seráficas e esperanças celestiais; estaria pesquisando as Escrituras e esperando pelo apocalipse. Ele, na vida privada, seria um mórmon multiplicando as estrelas em sua coroa celestial ou um carismático continuamente convulsionado pelo Espírito Santo. O problema foi que os fatos forçaram-no na direção da conclusão darwiniana. E um homem desse tipo, sendo forçado a aceitá-los, seria uma testemunha confiável, porque relutante. No julgamento de Darwin, o homem poderia ter simpatias para com o acusador, mas como jurado, seria forçado a apoiar o réu.
E agora, Sir Arthur Keith jogou fora toda aquela imparcialidade imperial. Ele fez um grande esforço para dogmatizar e estabelecer a lei sobre a alma; que não tem nada a ver com o assunto de sua especialidade, exceto na medida em que é assunto de todos. Mas mesmo não tendo relação com sua especialidade, serviu para mostrar a todos qual é o lado de Sir Arthur. Transformou o primeiro jurado num inequívoco advogado daquele lado. De fato, tal apoiador está mais para uma das partes da acusação do que de um advogado; pois toda a questão é que sendo um ser humano particular, ele, há muito tempo, tem um preconceito particular. De agora em diante, é óbvio que Keith decidir em favor de Darwin é simplesmente como Bradlaugh[2] decidir em favor de Darwin, ou Ingersoll[3] decidir em favor de Darwin, ou qualquer ateu, num banco no Hyde Park, decidir em favor de Darwin. Quando ELES escolhem o lado da seleção natural, podemos concordar que isso é uma seleção muito natural.
Quanto à conclusão em si, parece quase inacreditavelmente inconclusiva. A menos que as palavras de Sir Arthur Keith tenham sido muito distorcidas, ele afirmou especialmente que a existência espiritual acaba juntamente com as funções físicas; e que nenhum médico poderia conscienciosamente dizer nada diferente. Por mais que seja grave o ferimento chamado morte (que é, de fato, freqüentemente fatal), este é um caso em que, surpreendentemente, é desnecessário chamar um médico. Há sempre uma ironia, mesmo nas páginas simples de minhas histórias de detetive favoritas, no fato de que todo mundo corre para um médico tão logo estejam certos de que um homem está morto. Mas na história de detetive pode haver pelo menos algo a ser aprendido, pelo médico, a partir do cadáver. Na especulação doutrinal não há absolutamente nada; apenas a eterna história de detetive é confundida pelo doutor em medicina fingindo ser um doutor em divindade. A verdade é que toda essa história é mero blefe e mistagogia. O médico “vê” que a mente desapareceu com a morte. O que o médico vê é que o corpo não pode mais chutar, falar, espirrar, assobiar ou dançar. E um homem não precisa ser médico para perceber isso. Mas se o princípio de energia – aquele que o fez chutar, falar, espirrar, assobiar e dançar – existe ou não existe em algum outro plano de existência, disso o médico não sabe mais do que qualquer homem. E quando os médicos estão lúcidos, alguns deles (como um ex-cirurgião chamado Thomas Henry Huxley[4]) dizem não acreditar que médicos, ou quaisquer outros homens, sabem algo a respeito. Esta é uma posição inteligível; mas não parece ser a de Sir Arthur Keith. Ele se manifestou publicamente para NEGAR que a alma sobreviva ao corpo; e para fazer a extraordinária observação de que qualquer médico deve dizer o mesmo. É como se disséssemos que qualquer competente construtor ou sobrevivente devesse negar a possibilidade da Quarta Dimensão; porque ele aprendeu o segredo técnico de que um edifício é medido pela largura, profundidade e altura. A pergunta óbvia é: Por que mencionar um sobrevivente? Todo mundo sabe que tudo é, de fato, medido por três dimensões. Qualquer um que pense existir uma quarta dimensão o faz apesar de estar muito consciente que as coisas são medidas por três. Ou é como se um homem fosse responder a um metafísico berkeliano, que assegura que toda a matéria é uma ilusão da mente, dizendo: “Posso usar a evidência de um operário inteligente que realmente tenha de trabalhar com concreto sólido ou aço; e ele lhe dirá que eles são muito reais.” Devemos naturalmente responder que não precisamos de um operário para nos dizer que as coisas sólidas são sólidas; e é num outro sentido que o filósofo diz que elas não são sólidas. Igualmente, não há nada que possa fazer um médico materialista, exceto o que possa fazer qualquer homem materialista. E é quando um homem absorveu todo aquele materialismo óbvio que ele começa a usar sua mente. E, como alguns afirmam, ele não para mais.
Essa grande erupção anti-filosófica no campo filosófico foi, contudo, esclarecedora em certo sentido. Jogou alguma luz nas afirmações prévias do conferencista em áreas que ele tinha mais direito de fazê-las. Mesmo nestas coisas ele traiu uma curiosa simplicidade comum entre os cientistas oficiais. A verdade é que eles se tornam constantemente menos cientistas e mais oficiais. Eles desenvolvem aquele fino disfarce usado diariamente pelos políticos. Eles realizam diante de nós os mais habilidosos truques com a mais desastrada transparência. É como assistir a uma criança tentando esconder alguma coisa. Eles estão perpetuamente tentando nos enganar com grandes palavras e sábias alusões; na suposição de que nunca nos tornaremos sábios – nem mesmo da forma divertida e apequenada deles. Todo escritor famoso que nos troveja “Galileu” supõe que saibamos ainda menos que ele sobre Galileu. Todo pregador da ciência popular que nos atira uma longa palavra pensa que iremos consultar o dicionário e espera que não a estudemos seriamente, nem mesmo numa enciclopédia. O uso que eles fazem da ciência é assaz parecido com o uso que dela faz os heróis de certas histórias de aventura, em que o homem branco amedronta os selvagens com a previsão de um eclipse ou com a produção de um choque elétrico. Estas são, em certo sentido, verdadeiras demonstrações de ciência. Eles estão, em certo sentido, certos em dizer que são cientistas. Onde talvez estejam errados seja em supor que somos selvagens.
Mas é muito divertido para nós que assistimos a preparação que fazem para nos dar o choque elétrico, quando estamos seriamente esperando ser chocados pelo choque. É como uma piada, quando nós, os selvagens ignorantes, somos não só capazes de prever o eclipse, mas capazes de prever a previsão. Dentre os fatos que nos são familiares por um longo tempo está o de que os homens de ciência encenam e preparam seus efeitos como o fazem os políticos. Eles também o fazem muito mal – exatamente como os políticos. Nenhum desses modernos mistagogos perceberam quão transparentes se tornaram seus truques. Um dos mais familiares e transparentes deles é o que é chamado de uma “contradição oficial”. É uma estranha forma simbólica de declarar que algo ocorreu pela negação de que tenha ocorrido. Assim, reportagens sobre a ilibada reputação dos políticos são sempre publicadas depois de escândalos políticos de forma tão regular quanto a publicação dos “bluebooks”.[5] Assim, o “Right Honourable Gentleman”[6] espera que não lhe seja necessário contradizer o que o “Honourable Member”, com certeza, não poderia ter pretendido insinuar. Portanto, um membro do Gabinete do Primeiro Ministro nega publicamente que não há qualquer alteração na política do governo em relação a Damasco. E então, Sir Arthur Keith nega publicamente que não há nenhuma alteração na atitude científica em relação a Darwin.
E quando ouvimos isso, damos um suspiro de satisfação; pois todos sabemos o que ISSO significa. Significa mais ou menos o oposto. Significa que houve uma briga dos diabos dentro do partido sobre Damasco, ou, em outras palavras, que está começando a acontecer um escândalo dos diabos sobre os desacreditados darwinistas dentro da comunidade científica. A coisa curiosa é que no último caso, as autoridades não estão apenas solenemente expressando a contradição oficial, mas muito mais simplesmente supondo que ninguém perceberá que seja oficial. No caso da similar ficção política, os políticos não somente sabem a verdade, mas sabem que nós também sabemos. Todos sabem, pela fofoca que é repetida em todos os lugares, exatamente o que significa o acordo absoluto em tudo que se relaciona ao Primeiro Ministro e seus colegas. O Primeiro Ministro não espera realmente que acreditemos que ele é o sagrado e amado rei de uma irmandade de cavaleiros que lhe juraram fé e lhe entregaram seus corações, a ele somente. Mas Sir Arthur Keith realmente espera que acreditemos que ele é o primeiro jurado de um júri contendo todos os diferentes homens de ciência, todos em absoluta concordância que a opinião particular de Darwin seja “eterna”. Isto é o que chamei de segredo infantil e de truque desastradamente transparente. Esta é a razão de eu dizer que eles nem sequer sabem o quanto sabemos.
Pois o político é menos pomposamente absurdo que o antropólogo, mesmo que os testemos pelo que eles chamam de Progresso; que é apenas e principalmente uma outra palavra para Tempo. Todos conhecemos o otimismo oficial que sempre defende o governo atual. Mas isso é como uma defesa oficial de todos os governos passados. Se um homem dissesse que a política de Palmerston[7] é eterna, o acharíamos um pouco desatualizado. Ora, Darwin era figura proeminente no tempo de Palmerston; e está igualmente desatualizado. Se o Sr. Lloyd George[8] se levantasse e dissesse que o grande Partido Liberal não recuou de uma única posição assumida por Gobden e Bright,[9] os únicos Tribunos do Povo, concluiríamos relutantemente (se tal coisa fosse concebível) que ele falava asneiras a um povo ignorante em relação à história do partido. Se um reformador social afirmasse solenemente que toda filosofia social ainda procedesse estritamente dos princípios de Herbert Spencer, deveríamos saber que isto não é verdade e que somente uma autoridade absolutamente fossilizada poderia pretender que fosse. Ora, Darwin e Spencer não eram somente contemporâneos, mas camaradas e aliados; e a biologia darwiniana e a sociologia spenceriana foram consideradas como partes de um mesmo movimento, que nossos avós consideraram um movimento muito moderno. Mesmo considerada a priori como uma questão de probabilidade, parece portanto assaz improvável que a ciência daquela geração fosse algo mais infalível que sua ética ou política. Mesmo baseado nos princípios que Sir Arthur professa, parece muito estranho que não haja agora nada mais a ser dito sobre o darwinismo do que o que ele disse. Mas não precisamos apelar para aqueles princípios ou para aquelas probabilidades. Podemos apelar para os fatos. Por acaso, sabemos alguma coisa sobre os fatos; e Sir Arthur Keith não parece saber que sabemos.
Foi num jornal católico que certas afirmações foram feitas sobre o atual darwinismo; afirmações que o próprio Sir Arthur Keith se esforçou em contradizer; e sobre as quais o próprio Sir Arthur Keith se mostrou sensacional e desastrosamente errado. É provável que a história seja agora conhecida de todos os leitores do jornal; mas é provável que ela nunca chegue ao conhecimento da maioria dos jornalistas, e ela certamente não será comentada na maioria dos outros jornais. Ao tocar sobre essa controvérsia cômica, a maioria dos jornais são jornais de partido; e apóiam o líder do partido quando publicam a contradição oficial. Eles não deixam o público saber quão triunfantemente suas outras contradições foram contraditadas.
Quando o Sr. Belloc afirmou que esses darwinistas estavam desatualizados e desconheciam os avanços recentes da biologia, ele citou, dentre muitas autoridades recentes, o biólogo francês Vailleton, que nega a possibilidade da seleção natural num caso particular relacionado a répteis e aves. Sir Arthur Keith, vindo resgatar o Sr. H. G. Wells, e ansioso por provar que ele e o Sr. Wells não estavam desatualizados ou desconheciam a recente biologia, contraditou o Sr. Belloc categoricamente.[10] Disse que não havia tal afirmação no livro de Vialleton; em outras palavras, ele acusou o Sr. Belloc de ter citado erroneamente ou de ter mal-entendido o livro de Vialleton. Revelou-se assim, para a surpresa de todos, especialmente do Sr. Belloc, que Sir Arthur Keith não conhecia a existência do livro. Ele se referia a um trabalho anterior e preliminar do mesmo autor, publicado muito tempo atrás. Este foi o último trabalho de Vialleton que ele leu. A notícia do importante livro, do qual eu, um mero homem da rua, ignorante e não-científico, tinha ouvido falar pelo menos alguma coisa, não tinha caído aos ouvido de Sir Arthur. Em resumo, a acusação geral, que os darwinistas estão desatualizados, foi provada tão completamente quanto teria sido possível a qualquer controvérsia existente no mundo.
Agora, quando uma coisa dessas acontece, sobretudo quando acontece a nós, nas páginas de um jornal em que escrevemos, com um de meus próprios amigos, como se pode esperar que pessoas em nossas posições levem seriamente em consideração o discurso na abertura da Associação Britânica em Leeds? Como podemos manter um rosto sério, quando o Presidente faz uma pose, apontando para as estrelas, e declara que o darwinismo é igualmente eterno? Essa coisa não é dirigida a nós; mas aos repórteres; da mesma forma que a verdadeira história de Wells e Belloc é geralmente mantida fora das reportagens.
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[1] Sir Arthur Keith (1866 – 1955) foi um eminente anatomista e antropólogo escocês. (N. do T.)
[2] Charles Bradlaugh (1833 – 1891) foi o mais famoso ateu militante do século XIX na Inglaterra. (N. do T.)
[3] Robert G. Ingersoll (1833 – 1899), veterano da Guerra Civil americana, político, ateu militante e grande defensor do racionalismo científico e humanista. (N. do T.)
[4] Médico e biólogo inglês, principal defensor da teoria da evolução de Darwin. (N. do T.)
[5] Relatórios do governo inglês que são publicados regularmente. (N. do T.)
[6] Título aplicável à nobreza inglesa e também aos membros do Conselho Privado do Reino Unido. (N. do T.)
[7] Henry John Temple, 3º Visconde de Palmerston (1784 – 1865) – Político inglês que foi Primeiro Ministro de 1855 a 1858. (N. do T.)
[8] Político liberal inglês, único Primeiro Ministro inglês nascido no País de Gales. (N. do T.)
[9] Políticos radicais ingleses do séc. XIX. O Partido Liberal inglês surgiu de grupos radicais como os de Cobden e Bright. (N. do T.)
[10] Em contraposição ao livro “Outline of History”, a dupla Chesterton/Belloc escreveu vários livros. Chesterton escreveu uma de suas obras-primas, O Homem Eterno. Belloc manteve com Wells, na década de 1920, uma polêmica, que é aqui mencionada, que gerou vários livros: “Um complemento ao livro Outline of History do Sr. H.G. Wells”; “As Objeções do Sr. Belloc Ainda Persistem”, uma resposta ao livro-reposta de H.G. Wells, “As Objeções do Sr. Belloc”.
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Leiam, do livro "A Coisa": Por que sou católico, A Revolta contra as Idéias, A lógica e o tênis, Um pensamento simples, Raízes da Sanidade.
Sábado, Novembro 07, 2009
Sexta-feira, Novembro 06, 2009
Tradução deste blog na revista Conhecimento Prático: Literatura
O número 27 da revista "Conhecimeto Prático: Literatura" traz um artigo de Chesterton traduzido por este blog, juntamente com uma introdução preparada pelo pessoal da editora. Os modestos esforços deste blogueiro estão surtindo algum efeito, com a graça de Deus.
Terça-feira, Novembro 03, 2009
Rudolph Allers no Jornal Mineiro de Psiquiatria
Outro dia, mencionei aqui o livro de Rudoph Allers que traz uma crítica arrasadora da psicanálise: Freud - Um estudo crítico da psicanálise.
Pois bem, em seu no. 31, o Jornal Mineiro de Psiquiatria traz a introdução deste livro. Vale a pena ler a introdução e, em seguida, comprar o livro. Consultem a Estante Virtual. Eu comprei minha cópia lá.
Pois bem, em seu no. 31, o Jornal Mineiro de Psiquiatria traz a introdução deste livro. Vale a pena ler a introdução e, em seguida, comprar o livro. Consultem a Estante Virtual. Eu comprei minha cópia lá.
Segunda-feira, Outubro 26, 2009
Lições das missas dominicais pós-Vaticano II– Parte XXVI
N’O DOMINGO, Semanário Litúrgico-Catequético, de 13/09/2009, Pe. Paulo Bazaglia comenta, no artigo intitulado “Encontrando a vida”, o Evangelho Mc 8, 27-35. Nesta passagem Jesus pergunta aos discípulos quem eles acham que Ele é, diz que vai sofrer muito, ensina a Pedro uma dura lição e acaba dizendo “quem quiser salvar a vida perdê-la-á, mas quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, salvá-la-á.”
O artigo do Pe. Bazaglia é, de fato, um exemplo didático do livre exame das Escrituras, proposto por Lutero. Se Pe. Bazaglia fosse pastor protestante, eu nada comentaria de seu artigo. Sendo padre, eu não posso deixar de comentar e reprovar o que ele escreve.
“Um dos grandes enganos do cristianismo, ao longo destes dois milênios, é ter transformado a cruz de Jesus de conseqüência em princípio”, diz Pe. Bazaglia. Veja que esse padre vem nos dizer que o cristianismo bimilenar, que só pode ser o catolicismo (palavra incômoda para os padres moderninhos), cometeu um engano que, não fosse, ele, Pe. Bazaglia, dele não teríamos notícia. Imaginem vocês toda a galeria dos Padres gregos e latinos, muitos deles santos e doutores da Igreja. Imaginem os santos medievais, Santo Alberto Magno, Santo Tomás de Aquino, São Boaventura. Imaginem depois, Santa Catarina de Sena, Santa Teresa de Ávila, Santo Inácio de Loyola. Um pouco depois, São José Maria Grignion de Montfort, Santo Afonso Maria de Ligório. Enfim, todos estes e muito mais, todos estavam enganados em relação ao significado da cruz. Numa missa imaginária em que se encontrassem todos esses santos, Pe. Bazaglia, em sua homilia, iria subir ao púlpito e dizer: todos os senhores estão e estiveram errados com relação ao significado da cruz. Imaginem a cena!
Ora, por que a Cruz deve ser o princípio para todo católico? Porque a Cruz significa Redenção e se não partirmos da Redenção, da certeza de que a Cruz nos redimiu, não a todos, mas a muitos de nós, de onde é que partiríamos? É ela que nos dá a confiança de que nós merecemos o perdão de Deus, não pelos nossos mérito, mas pelos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Pe. Bazaglia discorda disso. Querem ver? Ele diz: “Quando a cruz se transforma em princípio para a vida cristã, no entanto, a cruz de Jesus é traída. A cruz como princípio se torna facilmente dissociada da vida, levando a um espiritualismo vazio que nada transforma e pode chegar ao masoquismo.” Pe. Bortolini, em artigo do mesmo semanário, chama também de traidor a todo católico que respeita a tradição da Igreja. Agora, ficamos sabendo que nós católicos que colocamos a Cruz de Cristo como princípio de nossas vidas, somos também traidores, e também masoquistas. Chamar a frase do Pe. Bazaglia de herética é pouco. É preciso já ter perdido todos os resquícios de catolicismo para que se afirme algo tão blasfemo.
Duas lembranças me ocorreram quando li a frase acima. A primeira é que a acusação de masoquista foi feita também a São Padre Pio que, segundo os acusadores, se infligia os ferimentos dos estigmas de Cristo. Ele que viveu, durante 50 anos, literalmente crucificado. Este santo, Pe. Bazaglia, transformou a Cruz em princípio. Na verdade, ela, a Cruz, se incrustou em sua carne. São Padre Pio, rogai por nós.
A segunda lembrança foi a de 1Cor 1, 18: “De fato, a palavra da cruz é loucura para aqueles que se perdem; mas, para nós, que estamos no caminho da salvação, é força de Deus.”. Lembrei também de 1Cor 1, 22-23: “Na verdade, os judeus pedem milagres e os gregos procuram a sabedoria; nós, ao invés, pregamos a Cristo crucificado, que é um escândalo para os judeus e uma loucura para os gentios.”
Mas, Pe. Bazaglia nos informa que São Paulo estava “enganado” quando dizia (Gal 2, 19): “De fato, eu, por meio da lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus; com Cristo me encontro cravado na cruz, e já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim.” Isso, no livre exame de Pe. Bazaglia é “espiritualismo vazio”. São Paulo estava “traindo a cruz” quando dizia (Gal 5, 24): “Ora, os que pertencem a Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e os seus desejos.”
Pe. Bazaglia ainda nos surpreende ao final do artigo. Ele diz: “O único bem que temos é a vida, presente de Deus, e somente a encontraremos à medida que a entregarmos em favor dos irmãos, pela mesma causa de Jesus.” Ai, meu Jesus Cristinho! Pe. Bazaglia não sabe o que quer dizer perder esta vida para ganhar a outra.
Vamos ver se este padre aprende alguma coisa sobre “perder esta vida” para obter a outra de Santa Teresa de Ávila. Ela diz no “Caminho da Perfeição”, capítulo VIII, o seguinte. Os negritos são meus.
“Agora vamos ao desapego que devemos ter, pois tudo está nisto se for com perfeição. Digo que aqui está tudo, porque, abraçando-nos só com o Criador e não se nos dando nada de todas as coisas, Sua Majestade infunde as virtudes de maneira que, trabalhando nós pouco a pouco o que está em nosso poder, não teremos muito a pelejar, pois o Senhor toma em Sua mão a nossa defesa contra os demônios e contra o mundo. Pensais, irmãs, que é pequeno bem procurar este bem de nos darmos todas ao Todo sem fazermos partilhas? E, pois n’Ele estão todos os bens.”
Então, “perder esta vida” é morrer para o mundo, “não se nos dando nada de todas as coisas”. Mais à frente, ainda falando às suas filhas do Carmelo, Santa Teresa diz: “mas resta desapegarmo-nos de nós mesmas e este apartar-nos de nós mesmas e sermos contra nós é coisa dura, porque estamos muito unidas a nós e nos amamos muito.”
Assim, Pe. Bazaglia, morrer para esta vida, estarmos “com Cristo cravados na cruz”, não é ser solidário, não é “entregarmos a vida em favor dos irmãos” – que pode muito bem significar um marxismo de segunda mão –, não é participarmos de pastorais de nossa paróquia, não fazermos doação para o “Criança Esperança”. É muitíssimo mais que isso. É desapegarmos das coisas do mundo e também de nós mesmos. É “sermos contra nós”. E isso, padre, significa estarmos crucificados com Cristo, significa colocarmos a Cruz em primeiro lugar, no princípio. E isso, quem o consegue?
1. Para fazer DOWNLOAD DO LIVRO com os primeiros 19 posts sobre a Missa de Paulo VI (e algumas coisas mais) clique aqui.
2. Para ver outros comentários sobre a Missa nova, clique: Parte XX, Parte XXI, Parte XXII, Parte XXIII, Parte XXIV, A dissolução da catequese: Romano Amério conta como foi, Parte XXV
O artigo do Pe. Bazaglia é, de fato, um exemplo didático do livre exame das Escrituras, proposto por Lutero. Se Pe. Bazaglia fosse pastor protestante, eu nada comentaria de seu artigo. Sendo padre, eu não posso deixar de comentar e reprovar o que ele escreve.
“Um dos grandes enganos do cristianismo, ao longo destes dois milênios, é ter transformado a cruz de Jesus de conseqüência em princípio”, diz Pe. Bazaglia. Veja que esse padre vem nos dizer que o cristianismo bimilenar, que só pode ser o catolicismo (palavra incômoda para os padres moderninhos), cometeu um engano que, não fosse, ele, Pe. Bazaglia, dele não teríamos notícia. Imaginem vocês toda a galeria dos Padres gregos e latinos, muitos deles santos e doutores da Igreja. Imaginem os santos medievais, Santo Alberto Magno, Santo Tomás de Aquino, São Boaventura. Imaginem depois, Santa Catarina de Sena, Santa Teresa de Ávila, Santo Inácio de Loyola. Um pouco depois, São José Maria Grignion de Montfort, Santo Afonso Maria de Ligório. Enfim, todos estes e muito mais, todos estavam enganados em relação ao significado da cruz. Numa missa imaginária em que se encontrassem todos esses santos, Pe. Bazaglia, em sua homilia, iria subir ao púlpito e dizer: todos os senhores estão e estiveram errados com relação ao significado da cruz. Imaginem a cena!
Ora, por que a Cruz deve ser o princípio para todo católico? Porque a Cruz significa Redenção e se não partirmos da Redenção, da certeza de que a Cruz nos redimiu, não a todos, mas a muitos de nós, de onde é que partiríamos? É ela que nos dá a confiança de que nós merecemos o perdão de Deus, não pelos nossos mérito, mas pelos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Pe. Bazaglia discorda disso. Querem ver? Ele diz: “Quando a cruz se transforma em princípio para a vida cristã, no entanto, a cruz de Jesus é traída. A cruz como princípio se torna facilmente dissociada da vida, levando a um espiritualismo vazio que nada transforma e pode chegar ao masoquismo.” Pe. Bortolini, em artigo do mesmo semanário, chama também de traidor a todo católico que respeita a tradição da Igreja. Agora, ficamos sabendo que nós católicos que colocamos a Cruz de Cristo como princípio de nossas vidas, somos também traidores, e também masoquistas. Chamar a frase do Pe. Bazaglia de herética é pouco. É preciso já ter perdido todos os resquícios de catolicismo para que se afirme algo tão blasfemo.
Duas lembranças me ocorreram quando li a frase acima. A primeira é que a acusação de masoquista foi feita também a São Padre Pio que, segundo os acusadores, se infligia os ferimentos dos estigmas de Cristo. Ele que viveu, durante 50 anos, literalmente crucificado. Este santo, Pe. Bazaglia, transformou a Cruz em princípio. Na verdade, ela, a Cruz, se incrustou em sua carne. São Padre Pio, rogai por nós.
A segunda lembrança foi a de 1Cor 1, 18: “De fato, a palavra da cruz é loucura para aqueles que se perdem; mas, para nós, que estamos no caminho da salvação, é força de Deus.”. Lembrei também de 1Cor 1, 22-23: “Na verdade, os judeus pedem milagres e os gregos procuram a sabedoria; nós, ao invés, pregamos a Cristo crucificado, que é um escândalo para os judeus e uma loucura para os gentios.”
Mas, Pe. Bazaglia nos informa que São Paulo estava “enganado” quando dizia (Gal 2, 19): “De fato, eu, por meio da lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus; com Cristo me encontro cravado na cruz, e já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim.” Isso, no livre exame de Pe. Bazaglia é “espiritualismo vazio”. São Paulo estava “traindo a cruz” quando dizia (Gal 5, 24): “Ora, os que pertencem a Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e os seus desejos.”
Pe. Bazaglia ainda nos surpreende ao final do artigo. Ele diz: “O único bem que temos é a vida, presente de Deus, e somente a encontraremos à medida que a entregarmos em favor dos irmãos, pela mesma causa de Jesus.” Ai, meu Jesus Cristinho! Pe. Bazaglia não sabe o que quer dizer perder esta vida para ganhar a outra.
Vamos ver se este padre aprende alguma coisa sobre “perder esta vida” para obter a outra de Santa Teresa de Ávila. Ela diz no “Caminho da Perfeição”, capítulo VIII, o seguinte. Os negritos são meus.
“Agora vamos ao desapego que devemos ter, pois tudo está nisto se for com perfeição. Digo que aqui está tudo, porque, abraçando-nos só com o Criador e não se nos dando nada de todas as coisas, Sua Majestade infunde as virtudes de maneira que, trabalhando nós pouco a pouco o que está em nosso poder, não teremos muito a pelejar, pois o Senhor toma em Sua mão a nossa defesa contra os demônios e contra o mundo. Pensais, irmãs, que é pequeno bem procurar este bem de nos darmos todas ao Todo sem fazermos partilhas? E, pois n’Ele estão todos os bens.”
Então, “perder esta vida” é morrer para o mundo, “não se nos dando nada de todas as coisas”. Mais à frente, ainda falando às suas filhas do Carmelo, Santa Teresa diz: “mas resta desapegarmo-nos de nós mesmas e este apartar-nos de nós mesmas e sermos contra nós é coisa dura, porque estamos muito unidas a nós e nos amamos muito.”
Assim, Pe. Bazaglia, morrer para esta vida, estarmos “com Cristo cravados na cruz”, não é ser solidário, não é “entregarmos a vida em favor dos irmãos” – que pode muito bem significar um marxismo de segunda mão –, não é participarmos de pastorais de nossa paróquia, não fazermos doação para o “Criança Esperança”. É muitíssimo mais que isso. É desapegarmos das coisas do mundo e também de nós mesmos. É “sermos contra nós”. E isso, padre, significa estarmos crucificados com Cristo, significa colocarmos a Cruz em primeiro lugar, no princípio. E isso, quem o consegue?
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Quinta-feira, Outubro 22, 2009
RAÍZES DA SANIDADE
Do livro "A Coisa", publicado em 1929.
G.K. Chesterton
O Deão da Catedral de São Paulo, quando está certo, está muito certo. Ele está certo com toda aquela ênfase ressonante que o faz, em outras questões, tão imprudente e desastrosamente errado. E não posso senão saudar com gratidão o desdém com que ele se referiu ultimamente a todo o contra-senso dos jornais a respeito do uso de glândulas de macacos para transformar homens velhos em homens jovens; ou macacos jovens, se isso for o próximo passo na direção do Super-homem. Ele tentou, não de forma artificial, contrabalançar sua denúncia daquele materialismo tão experimental que ele sempre nos acusa de denunciar, dizendo que esse materialismo é um extremo do mal e que o catolicismo é o outro. A esse respeito, ele diz uma das coisas usuais que comumente considera fácil dizer, e que nós geralmente consideramos toleravelmente fácil responder.
Um bom exemplo das acusações contraditórias do Deão contra Roma é que ele aparentemente nos coloca na mesma categoria daqueles que deixam seus filhos completamente “inadvertidos” a respeito dos perigos morais do corpo. Isso é muito divertido, considerando que temos sido insultados, por décadas, por forçarmos os jovens na direção da infame Confissão.
Outro dia mesmo, notei que Sir Arthur Conan Doyle reviveu esta acusação de um ataque à inocência; e deixarei o Deão Inge[1] e Sir Arthur resolver esta questão. E quando ele nos acusa de indiferença em relação à eugenia e à procriação de criminosos e loucos, é suficiente que ele próprio tenha denunciado a perversão da ciência manifestada no caso dos macacos. Talvez ele permita que outros se ofendam igualmente com os esquemas que fazem os homens agirem como loucos e criminosos a fim de evitarem a loucura e o crime.
Há, contudo, outro aspecto dessa questão de estar certo ou errado, que não é tão freqüentemente associado conosco, mas que é igualmente consistente com nossa filosofia, e que tem uma notável relação com o tipo de questão aqui levantada pelo Deão Inge. Este aspecto se relaciona não só a questões em que o mundo está errado, mas, ainda mais especialmente, a questões em que o mundo está certo. O mundo, especialmente o mundo moderno, alcançou uma curiosa condição de ritual ou rotina; na qual podemos quase dizer que ele está errado mesmo quando está certo. Ele continua, em grande parte, fazendo as coisas razoáveis. Mas ele está rapidamente cessando de ter qualquer argumento razoável para fazê-las. Está sempre nos afirmando a morte da tradição. Está sempre nos denunciando por superstição; e suas próprias e principais virtudes são agora, quase inteiramente, superstições.
O que quero dizer é que quando estamos certos, estamos certos por princípio; e quando eles estão certos, estão certos por preconceito. Podemos dizer, se eles assim o preferirem, que eles estão certos por instinto. De qualquer forma, eles ainda estão contidos, por saudável preconceito, contra muitas coisas em direção as quais eles correriam pela sua própria lógica doentia. É mais fácil tomar exemplos muito simples e extremos; e alguns dos extremos estão muito mais perto de nós do que muitos imaginam.
Assim, muitos de nossos amigos e conhecidos continuam a entreter um saudável preconceito contra o canibalismo. O momento em que este próximo passo na evolução ética será dado parece ainda distante. Mas a noção de que não há muita diferença entre os corpos de homens e de animais – de que não estão, de nenhuma forma, distantes, mas muito próximos – é expressa em centenas de maneiras, como um tipo de comunismo cósmico. Podemos quase dizer que é expressa de todas as formas, exceto pelo canibalismo.
Essa noção é expressa, como no caso de Voronoff,[2] na colocação de partes de animais nos homens. Ela é expressa, no caso dos vegetarianos, na não colocação de partes de animais nos homens. É expressa quando se deixa um homem morrer como morre um cachorro, ou quando se considera mais patético a morte de um cachorro do que a de um homem. Alguns se inquietam sobre o que acontece com os corpos dos animais, como se estivessem certos de que um coelho se ressentisse em ser cozido, ou que uma ostra exigisse ser cremada. Alguns são ostensivamente indiferentes ao que acontece aos corpos dos homens; e negam toda a dignidade aos mortos e todo gesto de afeto aos vivos. Mas todos têm uma coisa em comum; consideram os corpos humano e bestial como coisas comuns. Pensam neles sob uma generalização comum; ou, na melhor das hipóteses, sob condições comparativas. Entre pessoas que chegaram a esta posição, a RAZÃO para desaprovar o canibalismo já se tornou muito vaga. Permanece como uma tradição e um instinto. Felizmente, graças a Deus, embora seja agora muito vaga, é ainda muito forte. Mas, embora o número dos mais ardentes pioneiros éticos que provavelmente começariam a comer missionários cozidos seja muito pequeno, o número daqueles dentre eles que conseguiriam explicar suas próprias razões reais para não fazê-lo é ainda menor.
A razão real é que todas essas sanidades sociais são agora as tradições dos antigos dogmas católicos. Como muitos outros dogmas católicos, eles são sentidos de uma maneira vaga mesmo pelos pagãos, na medida em que são pagãos sadios. Mas quando se trata de, não meramente senti-los, mas formulá-los, será descoberto que eles são uma fórmula da Fé. Este é o caso de todas aquelas idéias de que os modernistas mais desgostam, sobre “criação especial”,[3] sobre a imagem Divina que não acontece por mera evolução, e sobre o abismo entre o homem e as outras criaturas. Em resumo, são aquelas mesmas doutrinas pelas quais homens com o Deão Inge estão nos acusando, como coisas que nos impedem de ter uma completa confiança na ciência ou uma completa unidade com os animais. São elas que se interpõem entre os homens e o canibalismo – ou possivelmente as glândulas de macacos. Eles têm o preconceito; e que eles o retenham por muito tempo! Nós temos o princípio, e eles são bem-vindos quando o quiserem.
Se Euclides estivesse demonstrando com diagramas pela primeira vez e usasse o argumento da REDUCTIO AD ABSURDUM, ele teria agora somente produzido a impressão que seu próprio argumento era absurdo. Estou bem consciente de que exponho-me a esse perigo por estender o argumento de meu oponente a um extremo, que pode ser considerado uma extravagância. A questão é, por que é uma extravagância? Sei que, neste caso, será argumentado que a característica social do canibalismo é rara em nossa cultura. Pelo que sei, não há restaurantes canibais ameaçando se tornarem moda em Londres, como os restaurantes chineses. Antropofagia não é como Antroposofia, um assunto de conferências públicas; e, variadas como são as religiões e moralidades entre nós, cozinhar missionários ainda não é uma missão. Mas se alguém tem uma lógica tão modesta que não perceba o significado de um exemplo extremo, não tenho dificuldade em dar um exemplo muito mais prático e urgente. Há alguns anos, todas as pessoas sãs teriam dito que o Adamismo[4] era muito mais louco que a antropofagia. Um banqueiro que andasse sem roupa pelas ruas seria um contra-senso equivalente a um açougueiro que vendesse carne humana ao invés de carne de carneiro. Ambos seriam o surto de um lunático sob a ilusão de ser um selvagem. Mas temos visto os Novos Adâmicos ou o Movimento dos Sem Roupa se instituírem muito seriamente na Alemanha; com uma seriedade de que somente os alemães são capazes. Os ingleses são provavelmente ainda ingleses o suficiente para rirem e desgostarem disso. Mas eles riem por instinto; e eles desgostam somente por instinto. Muitos deles, com sua atual e confusa filosofia, teriam provavelmente uma grande dificuldade em refutar um professor prussiano de nudez, por mais que eles desejassem ardentemente dar nele um chute. Pois, se examinarmos as controvérsias correntes, descobriremos a mesma condição negativa e indefensável do caso da teoria do canibalismo. Todos os argumentos da moda usados contra o puritanismo levam, de fato, ao adamismo. Não quero dizer, claro, que eles não sejam muitas vezes praticamente saudáveis como contra o puritanismo; também não digo que não haja melhores argumentos contra o puritanismo. Mas digo que em relação à lógica pura, o homem civilizado baixou a guarda; e está, por assim dizer, nu contra os ataques da nudez. Desde que ele esteja meramente satisfeito em argumentar que o corpo é belo ou que o que é natural é certo, ele se rendeu ao adâmico em teoria, embora ainda possa demorar, queira Deus, um longo tempo antes que ele se renda na prática. Aqui, novamente o teórico terá de defender sua própria sanidade com um preconceito. Somente o teólogo medieval pode defendê-la com uma razão. Não preciso me aprofundar muito sobre esta razão; é suficiente dizer que ela é fundada na Queda do Homem, tal como o outro instinto, contra o canibalismo, é fundado na Divindade do Homem. O argumento católico pode ser colocado resumidamente dizendo-se que o corpo do homem não é o problema; o problema é a alma do homem.
Em outras palavras, se o homem fosse completamente deus, poderia ser verdade que todos os aspectos de seu ser corporal fossem divinos; tal como se ele fosse completamente uma besta, dificilmente poderíamos culpá-lo por qualquer dieta, por mais bestial que fosse. Mas dizemos que a experiência confirma nossa teoria sobre a complexidade humana. Esta não tem nada a ver com coisas naturais em si. Se narizes vermelhos misteriosamente fizessem os homens assassinar, faríamos leis para cobri-los; mas narizes vermelhos seriam tão puros quanto narizes brancos.
Em muitas pessoas modernas há uma batalha entre as novas opiniões, que eles não seguem até seus fins, e as antigas tradições, que eles não seguem até seus começos. Se eles seguissem adiante com as novas noções, isso os levaria até Bedlam.[5] Se eles seguissem retrospectivamente os melhores instintos, isso os levaria a Roma. Na melhor das hipóteses, eles permanecem em suspenso entre duas lógicas alternativas, tentando dizer a si mesmos, como o faz o Deão Inge, que eles estão meramente evitando dois extremos. Mas há esta grande diferença em seu caso: a questão em que ele está errado é, não importa sob que forma pervertida, uma questão de ciência, enquanto que a questão em que ele está certo é simplesmente uma questão de sentimento. Não preciso dizer que eu não uso a palavra aqui num sentido depreciativo, pois nessas coisas há um parentesco muito próximo entre sentimento e sentido. Mas o fato permanece de que todas as pessoas nessa posição podem apenas ser sentimentais. Toca a nós sermos também razoáveis.
__________________________________________________________________
[1] William Ralph Inge (1860-1954), professor, escritor e padre anglicano. (N. do T.)
[2] Serge Abrahamovitch Voronoff (1866-1951), médico francês de origem russa, ganhou fama por sua técnica de extrair tecido de testículos de macacos para enxertá-lo em testículos humanos. (N. do T.)
[3] Diríamos hoje, design inteligente. (N. do T.)
[4] Crença do séc. II e II, que defendia uma nudez ritualística, à semelhança da nudez de Adão no Paraíso. (N. do T.)
[5] Nome popular do Hospital Santa Maria de Belém, em Londres, que é um sanatório de psicopatas. (N. do T.)
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Leiam, do livro "A Coisa": Por que sou católico, A Revolta contra as Idéias, A lógica e o tênis, Um pensamento simples.
G.K. Chesterton
O Deão da Catedral de São Paulo, quando está certo, está muito certo. Ele está certo com toda aquela ênfase ressonante que o faz, em outras questões, tão imprudente e desastrosamente errado. E não posso senão saudar com gratidão o desdém com que ele se referiu ultimamente a todo o contra-senso dos jornais a respeito do uso de glândulas de macacos para transformar homens velhos em homens jovens; ou macacos jovens, se isso for o próximo passo na direção do Super-homem. Ele tentou, não de forma artificial, contrabalançar sua denúncia daquele materialismo tão experimental que ele sempre nos acusa de denunciar, dizendo que esse materialismo é um extremo do mal e que o catolicismo é o outro. A esse respeito, ele diz uma das coisas usuais que comumente considera fácil dizer, e que nós geralmente consideramos toleravelmente fácil responder.
Um bom exemplo das acusações contraditórias do Deão contra Roma é que ele aparentemente nos coloca na mesma categoria daqueles que deixam seus filhos completamente “inadvertidos” a respeito dos perigos morais do corpo. Isso é muito divertido, considerando que temos sido insultados, por décadas, por forçarmos os jovens na direção da infame Confissão.
Outro dia mesmo, notei que Sir Arthur Conan Doyle reviveu esta acusação de um ataque à inocência; e deixarei o Deão Inge[1] e Sir Arthur resolver esta questão. E quando ele nos acusa de indiferença em relação à eugenia e à procriação de criminosos e loucos, é suficiente que ele próprio tenha denunciado a perversão da ciência manifestada no caso dos macacos. Talvez ele permita que outros se ofendam igualmente com os esquemas que fazem os homens agirem como loucos e criminosos a fim de evitarem a loucura e o crime.
Há, contudo, outro aspecto dessa questão de estar certo ou errado, que não é tão freqüentemente associado conosco, mas que é igualmente consistente com nossa filosofia, e que tem uma notável relação com o tipo de questão aqui levantada pelo Deão Inge. Este aspecto se relaciona não só a questões em que o mundo está errado, mas, ainda mais especialmente, a questões em que o mundo está certo. O mundo, especialmente o mundo moderno, alcançou uma curiosa condição de ritual ou rotina; na qual podemos quase dizer que ele está errado mesmo quando está certo. Ele continua, em grande parte, fazendo as coisas razoáveis. Mas ele está rapidamente cessando de ter qualquer argumento razoável para fazê-las. Está sempre nos afirmando a morte da tradição. Está sempre nos denunciando por superstição; e suas próprias e principais virtudes são agora, quase inteiramente, superstições.
O que quero dizer é que quando estamos certos, estamos certos por princípio; e quando eles estão certos, estão certos por preconceito. Podemos dizer, se eles assim o preferirem, que eles estão certos por instinto. De qualquer forma, eles ainda estão contidos, por saudável preconceito, contra muitas coisas em direção as quais eles correriam pela sua própria lógica doentia. É mais fácil tomar exemplos muito simples e extremos; e alguns dos extremos estão muito mais perto de nós do que muitos imaginam.
Assim, muitos de nossos amigos e conhecidos continuam a entreter um saudável preconceito contra o canibalismo. O momento em que este próximo passo na evolução ética será dado parece ainda distante. Mas a noção de que não há muita diferença entre os corpos de homens e de animais – de que não estão, de nenhuma forma, distantes, mas muito próximos – é expressa em centenas de maneiras, como um tipo de comunismo cósmico. Podemos quase dizer que é expressa de todas as formas, exceto pelo canibalismo.
Essa noção é expressa, como no caso de Voronoff,[2] na colocação de partes de animais nos homens. Ela é expressa, no caso dos vegetarianos, na não colocação de partes de animais nos homens. É expressa quando se deixa um homem morrer como morre um cachorro, ou quando se considera mais patético a morte de um cachorro do que a de um homem. Alguns se inquietam sobre o que acontece com os corpos dos animais, como se estivessem certos de que um coelho se ressentisse em ser cozido, ou que uma ostra exigisse ser cremada. Alguns são ostensivamente indiferentes ao que acontece aos corpos dos homens; e negam toda a dignidade aos mortos e todo gesto de afeto aos vivos. Mas todos têm uma coisa em comum; consideram os corpos humano e bestial como coisas comuns. Pensam neles sob uma generalização comum; ou, na melhor das hipóteses, sob condições comparativas. Entre pessoas que chegaram a esta posição, a RAZÃO para desaprovar o canibalismo já se tornou muito vaga. Permanece como uma tradição e um instinto. Felizmente, graças a Deus, embora seja agora muito vaga, é ainda muito forte. Mas, embora o número dos mais ardentes pioneiros éticos que provavelmente começariam a comer missionários cozidos seja muito pequeno, o número daqueles dentre eles que conseguiriam explicar suas próprias razões reais para não fazê-lo é ainda menor.
A razão real é que todas essas sanidades sociais são agora as tradições dos antigos dogmas católicos. Como muitos outros dogmas católicos, eles são sentidos de uma maneira vaga mesmo pelos pagãos, na medida em que são pagãos sadios. Mas quando se trata de, não meramente senti-los, mas formulá-los, será descoberto que eles são uma fórmula da Fé. Este é o caso de todas aquelas idéias de que os modernistas mais desgostam, sobre “criação especial”,[3] sobre a imagem Divina que não acontece por mera evolução, e sobre o abismo entre o homem e as outras criaturas. Em resumo, são aquelas mesmas doutrinas pelas quais homens com o Deão Inge estão nos acusando, como coisas que nos impedem de ter uma completa confiança na ciência ou uma completa unidade com os animais. São elas que se interpõem entre os homens e o canibalismo – ou possivelmente as glândulas de macacos. Eles têm o preconceito; e que eles o retenham por muito tempo! Nós temos o princípio, e eles são bem-vindos quando o quiserem.
Se Euclides estivesse demonstrando com diagramas pela primeira vez e usasse o argumento da REDUCTIO AD ABSURDUM, ele teria agora somente produzido a impressão que seu próprio argumento era absurdo. Estou bem consciente de que exponho-me a esse perigo por estender o argumento de meu oponente a um extremo, que pode ser considerado uma extravagância. A questão é, por que é uma extravagância? Sei que, neste caso, será argumentado que a característica social do canibalismo é rara em nossa cultura. Pelo que sei, não há restaurantes canibais ameaçando se tornarem moda em Londres, como os restaurantes chineses. Antropofagia não é como Antroposofia, um assunto de conferências públicas; e, variadas como são as religiões e moralidades entre nós, cozinhar missionários ainda não é uma missão. Mas se alguém tem uma lógica tão modesta que não perceba o significado de um exemplo extremo, não tenho dificuldade em dar um exemplo muito mais prático e urgente. Há alguns anos, todas as pessoas sãs teriam dito que o Adamismo[4] era muito mais louco que a antropofagia. Um banqueiro que andasse sem roupa pelas ruas seria um contra-senso equivalente a um açougueiro que vendesse carne humana ao invés de carne de carneiro. Ambos seriam o surto de um lunático sob a ilusão de ser um selvagem. Mas temos visto os Novos Adâmicos ou o Movimento dos Sem Roupa se instituírem muito seriamente na Alemanha; com uma seriedade de que somente os alemães são capazes. Os ingleses são provavelmente ainda ingleses o suficiente para rirem e desgostarem disso. Mas eles riem por instinto; e eles desgostam somente por instinto. Muitos deles, com sua atual e confusa filosofia, teriam provavelmente uma grande dificuldade em refutar um professor prussiano de nudez, por mais que eles desejassem ardentemente dar nele um chute. Pois, se examinarmos as controvérsias correntes, descobriremos a mesma condição negativa e indefensável do caso da teoria do canibalismo. Todos os argumentos da moda usados contra o puritanismo levam, de fato, ao adamismo. Não quero dizer, claro, que eles não sejam muitas vezes praticamente saudáveis como contra o puritanismo; também não digo que não haja melhores argumentos contra o puritanismo. Mas digo que em relação à lógica pura, o homem civilizado baixou a guarda; e está, por assim dizer, nu contra os ataques da nudez. Desde que ele esteja meramente satisfeito em argumentar que o corpo é belo ou que o que é natural é certo, ele se rendeu ao adâmico em teoria, embora ainda possa demorar, queira Deus, um longo tempo antes que ele se renda na prática. Aqui, novamente o teórico terá de defender sua própria sanidade com um preconceito. Somente o teólogo medieval pode defendê-la com uma razão. Não preciso me aprofundar muito sobre esta razão; é suficiente dizer que ela é fundada na Queda do Homem, tal como o outro instinto, contra o canibalismo, é fundado na Divindade do Homem. O argumento católico pode ser colocado resumidamente dizendo-se que o corpo do homem não é o problema; o problema é a alma do homem.
Em outras palavras, se o homem fosse completamente deus, poderia ser verdade que todos os aspectos de seu ser corporal fossem divinos; tal como se ele fosse completamente uma besta, dificilmente poderíamos culpá-lo por qualquer dieta, por mais bestial que fosse. Mas dizemos que a experiência confirma nossa teoria sobre a complexidade humana. Esta não tem nada a ver com coisas naturais em si. Se narizes vermelhos misteriosamente fizessem os homens assassinar, faríamos leis para cobri-los; mas narizes vermelhos seriam tão puros quanto narizes brancos.
Em muitas pessoas modernas há uma batalha entre as novas opiniões, que eles não seguem até seus fins, e as antigas tradições, que eles não seguem até seus começos. Se eles seguissem adiante com as novas noções, isso os levaria até Bedlam.[5] Se eles seguissem retrospectivamente os melhores instintos, isso os levaria a Roma. Na melhor das hipóteses, eles permanecem em suspenso entre duas lógicas alternativas, tentando dizer a si mesmos, como o faz o Deão Inge, que eles estão meramente evitando dois extremos. Mas há esta grande diferença em seu caso: a questão em que ele está errado é, não importa sob que forma pervertida, uma questão de ciência, enquanto que a questão em que ele está certo é simplesmente uma questão de sentimento. Não preciso dizer que eu não uso a palavra aqui num sentido depreciativo, pois nessas coisas há um parentesco muito próximo entre sentimento e sentido. Mas o fato permanece de que todas as pessoas nessa posição podem apenas ser sentimentais. Toca a nós sermos também razoáveis.
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[1] William Ralph Inge (1860-1954), professor, escritor e padre anglicano. (N. do T.)
[2] Serge Abrahamovitch Voronoff (1866-1951), médico francês de origem russa, ganhou fama por sua técnica de extrair tecido de testículos de macacos para enxertá-lo em testículos humanos. (N. do T.)
[3] Diríamos hoje, design inteligente. (N. do T.)
[4] Crença do séc. II e II, que defendia uma nudez ritualística, à semelhança da nudez de Adão no Paraíso. (N. do T.)
[5] Nome popular do Hospital Santa Maria de Belém, em Londres, que é um sanatório de psicopatas. (N. do T.)
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Leiam, do livro "A Coisa": Por que sou católico, A Revolta contra as Idéias, A lógica e o tênis, Um pensamento simples.
Sexta-feira, Outubro 16, 2009
A dissolução da catequese: Romano Amério conta como foi
Comentei aqui, já por duas vezes (uma, duas), artigos que estão sendo publicados n’O DOMINGO, semanário dito litúrgico e catequético, sobre catequese, em função do ano catequético de 2009, assim definido pela abortista CNBB.
Estes artigos e as idéias que contêm são uma conseqüência do Concílio Vaticano II. A catequese católica foi uma das primeiras coisas que se dissolveram depois do concílio. Romano Amério, em seu magistral Iota Unum, fala sobre a dissolução da catequese no capítulo XIII de seu livro. Diz o autor que “com a remoção da autoridade magisterial e a redução da verdade à mera busca da verdade, a reforma da catequese não podia senão se dar no sentido heterodoxo que mudou seu conteúdo por meio da mudança de método.”
Amério comenta que ainda em 1969, um congresso em Assis pedia, em seu documento final, o abandono de qualquer conteúdo dogmático na catequese, isto é “qualquer coisa especificamente católico”. Devia-se substituir o ensino da religião católica pelo ensino da história das religiões, pois o primeiro tipo de ensino era “considerado um privilégio injusto num país democrático”.
O Sínodo Episcopal de 1977 discutiu a nova catequese, esta que aparece nos artigo d’O DOMINGO. O Bispo de Saragossa, segundo Amério, defendeu que a catequese “deve promover a criatividade, o diálogo e a participação ativa dos catecúmenos, sem esquecer de que é uma ação da Igreja.” Amério comenta a seguir: “Criatividade é, de fato, uma absurdidade moral e metafísica, mas mesmo que não fosse, dificilmente poderia ser o objetivo da catequese, pois na visão cristã, o homem não se torna um fim em si mesmo; o fim é dado, ele simplesmente tem de querê-lo.” Declarações ainda mais assustadoras foram feitas neste sínodo: “a catequese dever trazer a experiência de Cristo”, “a catequese é liberada pela experiência de Deus pela humanidade cristã e é uma assimilação mais profunda do amor e da fé.” Amério comenta, dizendo: “há ressonâncias místicas e modernistas nestas afirmações. Catequese é doutrina e não é liberada por uma experiência existencial dos crentes, pois ela tem conteúdo sobrenatural que a experiência não pode alcançar.”
O Bispo do Quênia ainda diz, no mesmo sínodo: “a catequese deve se responsabilizar por denunciar as injustiças sociais ... e defender iniciativas na direção da libertação social dos pobres.” Isto é marxismo da pior qualidade, claro.
Qual a conseqüência de tudo isso? Diz Amério: “As duas principais características da nova catequese, isto é, de que ela é uma busca ao invés de uma doutrina e de que ela tenta produzir reações existenciais ao invés de convicções intelectuais, estão refletidas em atitudes frente a uma variedade de catecismos e à memorização. Onde não há conteúdo dogmático a ser afirmado, não há um catecismo universal único, pois não há fórmulas de fé válidas para toda a Igreja, precisamente em virtude daquele conteúdo único. Aqueles métodos antigos, da época da Igreja primitiva, que tiveram continuidade no catecismo do Concílio de Trento, no de São Roberto Belarmino, no de São Pedro Canísio, no de Rosmini e no de São Pio X, foram abandonados.”
Acho que bastam estas palavras de Amério para que entendamos como o Concílio Vaticano II afetou o ensino de nossa fé. E não admira, claro, que algum modernista de plantão comece escrever asneiras, num semanário qualquer, sobre a catequese católica, que de católica não tem nada. Lendo Amério, entendemos como chegamos à situação atual.
É desesperadora a situação de pais que vêem seus filhos freqüentarem aulas de catecismo atualmente. Qualquer católico minimamente informado sobre sua religião sabe que o que eles aprendem não é o catolicismo. Por isso, a única forma de ensinar catecismo para nossos filhos é nos transformarmos em seus próprios catequistas.
Continuarei comentando os artigos d’O DOMINGO sobre catequese, na esperança de mostrar aos catequistas bem intencionados as mentiras que são faladas numa publicação que tem a aprovação da CNBB.
Estes artigos e as idéias que contêm são uma conseqüência do Concílio Vaticano II. A catequese católica foi uma das primeiras coisas que se dissolveram depois do concílio. Romano Amério, em seu magistral Iota Unum, fala sobre a dissolução da catequese no capítulo XIII de seu livro. Diz o autor que “com a remoção da autoridade magisterial e a redução da verdade à mera busca da verdade, a reforma da catequese não podia senão se dar no sentido heterodoxo que mudou seu conteúdo por meio da mudança de método.”
Amério comenta que ainda em 1969, um congresso em Assis pedia, em seu documento final, o abandono de qualquer conteúdo dogmático na catequese, isto é “qualquer coisa especificamente católico”. Devia-se substituir o ensino da religião católica pelo ensino da história das religiões, pois o primeiro tipo de ensino era “considerado um privilégio injusto num país democrático”.
O Sínodo Episcopal de 1977 discutiu a nova catequese, esta que aparece nos artigo d’O DOMINGO. O Bispo de Saragossa, segundo Amério, defendeu que a catequese “deve promover a criatividade, o diálogo e a participação ativa dos catecúmenos, sem esquecer de que é uma ação da Igreja.” Amério comenta a seguir: “Criatividade é, de fato, uma absurdidade moral e metafísica, mas mesmo que não fosse, dificilmente poderia ser o objetivo da catequese, pois na visão cristã, o homem não se torna um fim em si mesmo; o fim é dado, ele simplesmente tem de querê-lo.” Declarações ainda mais assustadoras foram feitas neste sínodo: “a catequese dever trazer a experiência de Cristo”, “a catequese é liberada pela experiência de Deus pela humanidade cristã e é uma assimilação mais profunda do amor e da fé.” Amério comenta, dizendo: “há ressonâncias místicas e modernistas nestas afirmações. Catequese é doutrina e não é liberada por uma experiência existencial dos crentes, pois ela tem conteúdo sobrenatural que a experiência não pode alcançar.”
O Bispo do Quênia ainda diz, no mesmo sínodo: “a catequese deve se responsabilizar por denunciar as injustiças sociais ... e defender iniciativas na direção da libertação social dos pobres.” Isto é marxismo da pior qualidade, claro.
Qual a conseqüência de tudo isso? Diz Amério: “As duas principais características da nova catequese, isto é, de que ela é uma busca ao invés de uma doutrina e de que ela tenta produzir reações existenciais ao invés de convicções intelectuais, estão refletidas em atitudes frente a uma variedade de catecismos e à memorização. Onde não há conteúdo dogmático a ser afirmado, não há um catecismo universal único, pois não há fórmulas de fé válidas para toda a Igreja, precisamente em virtude daquele conteúdo único. Aqueles métodos antigos, da época da Igreja primitiva, que tiveram continuidade no catecismo do Concílio de Trento, no de São Roberto Belarmino, no de São Pedro Canísio, no de Rosmini e no de São Pio X, foram abandonados.”
Acho que bastam estas palavras de Amério para que entendamos como o Concílio Vaticano II afetou o ensino de nossa fé. E não admira, claro, que algum modernista de plantão comece escrever asneiras, num semanário qualquer, sobre a catequese católica, que de católica não tem nada. Lendo Amério, entendemos como chegamos à situação atual.
É desesperadora a situação de pais que vêem seus filhos freqüentarem aulas de catecismo atualmente. Qualquer católico minimamente informado sobre sua religião sabe que o que eles aprendem não é o catolicismo. Por isso, a única forma de ensinar catecismo para nossos filhos é nos transformarmos em seus próprios catequistas.
Continuarei comentando os artigos d’O DOMINGO sobre catequese, na esperança de mostrar aos catequistas bem intencionados as mentiras que são faladas numa publicação que tem a aprovação da CNBB.
Quinta-feira, Outubro 15, 2009
Lições das missas dominicais pós-Vaticano II– Parte XXV
N’O DOMINGO (Semanário Litúrgico-Catequético) de 06/09/2009, o Sr. Zamagna escreve um artigo intitulado “Direitos e deveres na catequese”. Este artigo é um exemplo vivo do que o Concílio Vaticano II pode fazer com nossas cabeças e nossos corações; quanto nos vamos afastando do verdadeiro catolicismo, aquele ensinado pela Tradição, quando aceitamos o relativismo religioso, quando esquecemos (ou fingimos esquecer) que só há salvação na Igreja Católica.
O “Aurélio” nos ensina que catequese é “instrução metódica e oral sobre coisas religiosas”. Tecnicamente não existe apenas catequese católica. Outras religiões catequizam. Nesta perspectiva geral, qualquer um pode catequizar.
Contudo, não é esta perspectiva de catequese que se espera encontrar numa publicação católica chamada de Semanário Litúrgico-Catequético. Aqui se espera uma perspectiva de catequese católica.
Vamos começar pelo início. O Sr. Zamagna começa o artigo assim: “Desde quando Jesus Cristo ordenou aos discípulos que evangelizassem até os confins da terra, a catequese passou a ser não só um dever da Igreja – missionária por natureza –, mas também um direito de cada pessoa.” Ai, meu Jesus Cristo! Quanto tolice! Quer dizer que Jesus nos manda aos confins da terra, nos manda ensinar Seu Evangelho, nos avisa que isso não vai ser fácil e que pode nos custar a vida, nos alerta para estarmos preparados para lutar, nos manda salvar almas, e com isso Ele está criando um direito? O senhor não sabe a diferença entre direito e dever? Catequizar no sentido estrito, católico, é DEVER da Igreja e, portanto, de cada um de nós.
Sei bem porque o Sr. Zamagna colocou esta palavrinha “direito” na conversa. É que ele quer defender o direito dos outros de catequizar sobre outras coisas, claro. Ele é relativista religioso. Vejam o que ele diz em seguida: “Será um direito apenas dos católicos ou, numa perspectiva mais abrangente, apenas dos cristãos? Trata-se de um direito mesmo dos que não conhecem ainda a fé cristã.” Aqui aprendemos muitas coisas. A primeira, é que ser cristão é “mais abrangente” que ser católico. A segunda, é que a catequese agora está aberta aos que “não conhecem ainda a fé cristã”. De que catequese está-se falando aqui, então? Notem a confusão extraordinária que pode habitar a cabeça de uma pessoa.
Recapitulando: (1) Jesus criou um direito quando mandou Seus discípulos catequizar até os confins da terra; (2) Este direito se aplica aos católicos, mas de forma mais abrangente aos cristãos; e (3) Por fim, é direito também dos que “ainda não conhecem a fé cristã”, que catequizarão, ou seja, instruirão sobre coisas que não sabemos.
O parágrafo final do artigo é mais elucidativo das verdadeiras idéias do Sr. Zamagna sobre catequese. Ele diz: “Todos os batizados têm esse dever. Mas é um serviço que se estende de modo particular aos que, na nova aliança, recebem o chamado para o ministério de pastores. Os cristãos e seus pastores ...” Não admira o uso dos termos “cristãos” e “pastores” aqui, no lugar de católicos e padres. O Sr. Zamagna é quase protestante, se não o for por inteiro. Ele termina o artigo dizendo que a catequese deve ser feita “evitando o escândalo das divisões, para que o mandato do Senhor seja realmente executado...” Ou seja, se não incluirmos na catequese católica os protestantes (eles são legião) não estaremos cumprindo o mandato do Senhor, aquele mandato que criou um direito, que depois se estendeu até aos que não professam a fé cristã.
Quem poderá dizer que isto não é fruto do Concílio Vaticano II? Leiam este diálogo assustador entre Paulo VI e padre Bouyer sobre a reforma litúrgica que estava então em andamento.
1. Para fazer download do livro com os primeiros 19 posts sobre a Missa de Paulo VI (e algumas coisas mais) clique aqui.
2. Para ver outros comentários sobre a Missa nova, clique: Parte XX, Parte XXI, Parte XXII, Parte XXIII, Parte XXIV
O “Aurélio” nos ensina que catequese é “instrução metódica e oral sobre coisas religiosas”. Tecnicamente não existe apenas catequese católica. Outras religiões catequizam. Nesta perspectiva geral, qualquer um pode catequizar.
Contudo, não é esta perspectiva de catequese que se espera encontrar numa publicação católica chamada de Semanário Litúrgico-Catequético. Aqui se espera uma perspectiva de catequese católica.
Vamos começar pelo início. O Sr. Zamagna começa o artigo assim: “Desde quando Jesus Cristo ordenou aos discípulos que evangelizassem até os confins da terra, a catequese passou a ser não só um dever da Igreja – missionária por natureza –, mas também um direito de cada pessoa.” Ai, meu Jesus Cristo! Quanto tolice! Quer dizer que Jesus nos manda aos confins da terra, nos manda ensinar Seu Evangelho, nos avisa que isso não vai ser fácil e que pode nos custar a vida, nos alerta para estarmos preparados para lutar, nos manda salvar almas, e com isso Ele está criando um direito? O senhor não sabe a diferença entre direito e dever? Catequizar no sentido estrito, católico, é DEVER da Igreja e, portanto, de cada um de nós.
Sei bem porque o Sr. Zamagna colocou esta palavrinha “direito” na conversa. É que ele quer defender o direito dos outros de catequizar sobre outras coisas, claro. Ele é relativista religioso. Vejam o que ele diz em seguida: “Será um direito apenas dos católicos ou, numa perspectiva mais abrangente, apenas dos cristãos? Trata-se de um direito mesmo dos que não conhecem ainda a fé cristã.” Aqui aprendemos muitas coisas. A primeira, é que ser cristão é “mais abrangente” que ser católico. A segunda, é que a catequese agora está aberta aos que “não conhecem ainda a fé cristã”. De que catequese está-se falando aqui, então? Notem a confusão extraordinária que pode habitar a cabeça de uma pessoa.
Recapitulando: (1) Jesus criou um direito quando mandou Seus discípulos catequizar até os confins da terra; (2) Este direito se aplica aos católicos, mas de forma mais abrangente aos cristãos; e (3) Por fim, é direito também dos que “ainda não conhecem a fé cristã”, que catequizarão, ou seja, instruirão sobre coisas que não sabemos.
O parágrafo final do artigo é mais elucidativo das verdadeiras idéias do Sr. Zamagna sobre catequese. Ele diz: “Todos os batizados têm esse dever. Mas é um serviço que se estende de modo particular aos que, na nova aliança, recebem o chamado para o ministério de pastores. Os cristãos e seus pastores ...” Não admira o uso dos termos “cristãos” e “pastores” aqui, no lugar de católicos e padres. O Sr. Zamagna é quase protestante, se não o for por inteiro. Ele termina o artigo dizendo que a catequese deve ser feita “evitando o escândalo das divisões, para que o mandato do Senhor seja realmente executado...” Ou seja, se não incluirmos na catequese católica os protestantes (eles são legião) não estaremos cumprindo o mandato do Senhor, aquele mandato que criou um direito, que depois se estendeu até aos que não professam a fé cristã.
Quem poderá dizer que isto não é fruto do Concílio Vaticano II? Leiam este diálogo assustador entre Paulo VI e padre Bouyer sobre a reforma litúrgica que estava então em andamento.
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