segunda-feira, novembro 11, 2019

Fake News católica I

Embalado pelos termos modernos para antigas realidades humanas, pelas atuais "altas discussões" parlamentares, pelos novos "intelectuais" ao estilo de Frota, Caetano Veloso e Anita, resolvi coletar algumas "fake news" católicas dos tempos modernos. Vamos à primeira, porque mais grave, na visão deste que vos fala.

Em 1969, foi promulgada uma nova forma de adorar a Deus na sua forma mais completa e sagrada; a missa católica. Na verdade, a Missa tem quatro fins: adoração, ação de graças, reparação e petição.  Embalado pela Constituição Sacrosanctum Concilium, um dos documentos do Concílio Vaticano II, o Papa Paulo VI aprova a Missa Nova, o Novus Ordo Missae. A Missa anterior não teve a sua celebração proibida oficialmente. Não há documento papal de proibição. Contudo, na prática essa era a ideia reinante em todo o mundo. Todos os padres que a celebrassem seriam punidos. A impressão geral era a de que a Missa Antiga estava proibida Urbi et Orbe. 

Essa fake news se propagou rapidamente. Tanto é assim que Jean Guitton, amigo pessoal de Paulo VI, preocupado com a derrocada da fé na França, pergunta ao Papa, em 1971, se não havia possibilidade de uma liberação experimental da Missa Antiga na França. Guitton trabalha com a perspectiva de Missa Antiga ter sido, de fato, proibida. A resposta de Paulo VI é muito clara: “Se fosse acolhida essa exceção, o Concílio inteiro arriscaria de vacilar. E consequentemente a autoridade apostólica do Concílio”. Adicionou ainda que conceder uma autorização de celebração da Missa Antiga seria"condenar o concílio". Note que aqui estamos nadando em águas "fake news". 

Outra iniciativa para obter uma permissão de celebrar a Missa Antiga foi feita na Inglaterra. Essa história é muito interessante porque o Papa Paulo VI concedeu essa permissão. Ou seja, todos aqui estavam trabalhando no princípio que a Missa de Sempre estava proibida. A história parece um conto de detetive, pois envolveu Agatha Christie. O documento elaborado e assinado por 77 intelectuais ingleses, dentre os quais a famosa dama das histórias de detetive, envolveu pessoas católicas e não católicas, inclusive hereges com o bispo da Igreja Anglicana de Exeter. O fundamento do pedido era que a Civilização Ocidental foi construída em torno da Missa Antiga que, na visão dos intelectuais ingleses, constituía a manifestação da palavra humana "em sua forma mais grandiosa". O Indulto Inglês saiu por um detalhe dos mais insignificantes. O Papa Paulo VI não se tocou pelas belas palavras do manifesto, não se tocou pela centralidade da Missa Antiga na Civilização Ocidental, não se tocou sequer pela pletora de intelectuais que subscreveram o documento. O Papa só concedeu o indulto porque era fã de Agatha Christie. Os movimentos da graça de Deus são mesmo misteriosos. 

Alguns católicos, poucos, sabiam que a Missa Antiga não tinha sido proibida, mas a mentira, nome antigo de fake news, se espalhou pelo mundo e ninguém a contestava. A exposição à luz do dia da mentira veio com o Motu Proprio Summorum Pontificum, de Bento XVI, que afirma categoricamente que a Missa Antiga nunca foi proibida. Vivemos 38 anos sob a égide da mais deletéria fake news católica. Quantas almas se perderam nesse período ninguém saberá. 

segunda-feira, outubro 28, 2019

Papa Francisco e a Nova Religião II


A nova religião que nasceu com o Concílio Vaticano II e agora é apresentada explicitamente pelo Papa Francisco (ver post do blog) tem origem muito antiga e apareceu, ao longo da história, em vários movimentos heréticos. A nova religião, e com ela todos os heresiarcas de todos os tempos, procura e tenta implantar uma nova cosmovisão, diferente da cosmovisão católica. Para isso, há que se modificar, suplantar, substituir três aspectos da cosmovisão católica, a saber: a cosmogonia católica, a criação da Terra e de tudo que está sobre ela, a criação do homem e sua relação com Deus. 

A cosmovisão católica está assim baseada nos três primeiros capítulos do livro do Gênesis. Por isso, para modificar essa cosmovisão será preciso atacar, modificar, desmoralizar, a interpretação que a Igreja dá a esses três capítulos do primeiro livro da Bíblia. Aí se concentraram todos os nossos inimigos. Não à toa, a Pontifícia Comissão Bíblica, em 1909 sob o papado de São Pio X, emitiu um documento, ratificado e mandado publicar pelo Papa sobre a historicidade e literalidade desses capítulos ( abaixo um tradução livre do documento em italiano). 

A desmoralização da Queda veio de vários lados, da teoria do "bom selvagem" de Rousseau, do lado político-social, da psicanálise de Freud, do lado "científico", por exemplo. Nascemos bom, segundo Rousseau. Tudo que fazemos é originado em pulsões internas incontroláveis, das quais não temos culpa e que não podemos reprimir sob pena de tornarmo-nos neuróticos.

A desmoralização da criação do homem e dos animais vem da teoria de Darwin. Embora o Gênesis use o termo "segundo sua espécie" para criação dos animais e vegetais inúmeras vezes, nos dizem hoje que as espécies são criadas de maneira dinâmica, por processos que envolve o acaso e o tempo (muito tempo). O homem seria apenas o ápice desse processo cego que mistura tempo e acaso. Ou seja, o tempo e o acaso substitui Deus no processo de criação.

A desmoralização da cosmogonia bíblica vem da teoria do Big Bang, que é a mais moderna teoria da criação do Universo. Correlata a essa teoria está o conceito de expansão do Universo e os tais 15 bilhões de anos de existência do mesmo. Aqui Deus é substituído por uma misteriosa explosão ocorrida a bilhões de anos atrás que ninguém é capaz de descrever. 

Dois grandes cientistas evolucionistas resumem bem todo o programa da ciência moderna, não só da teoria da evolução. Copio um trecho de outro post Por que a academia adota a Evolução.

"A evolução não é adotada por ser um fato científico comprovado, 'Não porque ela seja provada por evidência logicamente coerente, mas porque a única alternativa a ela, a criação, é claramente inacreditável,' como afirma D.M.S. Watson, professor de Evolução na Universidade de Londres.

"Sir Arthur Keith, falecido antropologista físico e chefe do Departamento de Anatomia do Hospital de Londres diz: 'A Evolução é não provada e improvável, acreditamos nela porque a única alternativa é a criação, que é impensável.'"

Desacreditar os três primeiros capítulos da Gênesis é muito eficiente, se não houve a Queda, se o Universo foi criado por um processo de acaso e tempo (Big Bang é a mais moderna tentativa), e se as espécies evoluem, não há o menor sentido nos Evangelhos, não há o menor sentido na Cruz e na Igreja. Assim, podemos fazer o que quisermos, inclusive adorar todas as religiões.

Não é preciso dizer que todas as tentativas ditas científicas para desacreditar os três primeiros capítulos do Gênesis não são ciência, mas elucubrações; não há prova científica para nenhuma das tentativas de desmoralizar o Gênesis

Mas a Igreja, ao longo do tempo, começando no século XIX, passou a absorver pouco a pouco essas ideias malucas. Com medo de confrontar o mundo moderno, no que ele tinha de mais "sofisticado", que era a sua ciência, a Igreja, por meio de sua alta cúpula, sucumbiu e tentou logo modificar sua religião para uma que se adaptasse sem muitas arestas aos ditames científicos modernos.

São estas as raízes mais profundas da nova religião que desponta diretamente do Vaticano. Pois o paganismo da Pachamama não se atrita com a ciência moderna. Aliás, os cientistas modernos são capazes de participar de ritos pagãos com a consciência mais tranquila possível. 

O que eles não suportam é a Cruz de Nosso Senhor. Ah, isso não!


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PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA

SOBRE O CARÁTER HISTÓRICO
DOS PRIMEIROS TRÊS CAPÍTULOS DA GÊNESE

I. Os vários sistemas exegéticos que foram concebidos e apoiados por uma natureza científica aparente para excluir o sentido histórico literal dos três primeiros capítulos do livro de Gênesis, são solidamente fundados?

Resposta: Não.

II. Apesar do caráter e do gênero histórico do livro de Gênesis, o vínculo particular dos três primeiros capítulos entre eles e com os capítulos seguintes, o testemunho múltiplo das Escrituras, tanto do Antigo como do Novo Testamento, o pensamento quase unânime dos Padres da Igreja e a opinião tradicional, transmitida pelo povo de Israel e sempre mantida pela Igreja, podemos ensinar que esses três primeiros capítulos do Gênesis contêm não narrativas de eventos que realmente aconteceram, isto é, respondendo à realidade objetiva e à verdade histórica, mas contêm ou fábulas retiradas das mitologias e cosmogonias dos povos antigos e adaptadas pelo autor sagrado à doutrina monoteísta graças à eliminação de todos os erros politeístas, ou alegorias e símbolos, sem qualquer base na realidade objetiva.

Resposta: Não para ambas as partes.

III. Pode-se, em particular, questionar o sentido histórico literal daqueles capítulos nos quais é uma questão de fatos que tocam os fundamentos da religião cristã: tais são, entre outros, a criação de todas as coisas operadas por Deus no início de tempo; a criação particular do homem; a formação da primeira mulher do primeiro homem; a unidade da raça humana; a felicidade original dos progenitores no estado de justiça, integridade e imortalidade; a ordem dada por Deus ao homem para testar sua obediência; a transgressão da ordem divina por instigação do diabo sob a aparência de uma cobra; a perda dos ancestrais daquele estado primitivo de inocência; e a promessa de um futuro Redentor?

Resposta: Não.

IV. Na interpretação daqueles capítulos que os Padres e Doutores da Igreja interpretaram de maneira diferente, sem deixar nada certo e definido, a analogia da fé é permitida, sem prejuízo do julgamento da Igreja e de seguir e defender a opinião que cada um julga mais prudente?

Respostas: Sim.

V. Deve-se sempre e necessariamente tomar no sentido próprio todas as palavras e frases únicas encontradas nos capítulos acima mencionados, para que nunca seja permitido afastá-las, mesmo quando as mesmas expressões parecerem ser usadas no sentido manifestamente impróprio, metafórico ou antropomórfico quando a razão nos impede de apoiar o bom senso ou a necessidade obriga a abandoná-lo?

Resposta: Não.

VI. Dado o sentido literal e histórico, pode uma interpretação alegórica e profética ser usada de maneira inteligente e útil em algumas passagens desses capítulos, de acordo com o exemplo ilustre dos Santos Padres e da própria Igreja?

Resposta: Sim.

VII. Desde que escreveu o primeiro capítulo de Gênesis, o autor sagrado não tinha a intenção de ensinar cientificamente a constituição íntima das coisas visíveis e a ordem completa da criação, mas queria dar a seu povo um conto popular conforme a linguagem comum de seus contemporâneos, e adaptado aos sentimentos e habilidades dos homens, é necessário procurar escrupulosamente e sempre a propriedade da linguagem científica?

Resposta: Não.

VIII. Na denominação e distinção dos seis dias de que o Gênesis fala no primeiro capítulo, pode-se usar a palavra Yom (dia) tanto no sentido apropriado de um dia natural, quanto no impróprio de um certo espaço de tempo, e é legítimo para exegetas contestar esta questão livremente?

Resposta: Sim.

Em 30 de junho de 1909, na audiência graciosamente concedida aos dois Reverendos Consultores de Secretariado, Sua Santidade [Papa Pio X] ratificou as respostas acima mencionadas e ordenou que fossem publicadas .

Roma, 30 de junho de 1909.


domingo, outubro 20, 2019

Papa Francisco e a Nova Religião

O Papa Franciso afirma a um jornalista que não acredita na divindade de Nosso Senhor. O jornalista publica e a resposta do Vaticano não desmente a afirmativa. Há dois anos, o mesmo jornalista publicou que o Papa Francisco não acredita no Inferno. O Vaticano reagiu de modo semelhante.

Imaginem uma situação hipotética de um filho que lê num jornal que seu pai teria assassinado quatro pessoas em um bar. O filho pergunta: "Pai, acabo de ler que o senhor assassinou quatro pessoas num bar". O pai responde ao filho: "Filho, o repórter distorce as coisas, esse pessoal sempre é assim." O filho certamente sairia atordoado com esse diálogo. "Meu pai matou ou não matou quatro pessoas num bar?", seria a reação mais saudável do pobre filho.

Penso que há muita coerência interna nas duas "não-crenças" do Papa Francisco. Coerência também com a religião do Concílio Vaticano II e com a Missa Nova.

Raciocinemos. Se Nosso Senhor não é Deus, sua morte não é Redentora. Além disso, a instituição da Missa, na quinta-feira Santa, é apenas uma festa de rememoração da morte de uma pessoa ilustre de quem os apóstolos gostavam muito. Depois de sua morte, eles, os apóstolos, resolveram se reunir e repetir os gestos desse grande homem (o tal Jesus de Nazaré) só para lembrar os bons tempos que eles passaram juntos; uma espécie de festa comemorativa, com comes e bebes. A Presença Real é uma crença sem sentido. A Missa Nova é uma festa, um memorial daquele evento, daquele grande homem, o tal Jesus de Nazaré. Assim, a comunhão na mão, de pé, é bastante razoável; as músicas populares na Missa coadunam bem com uma festa.

A inexistência do Inferno também é coerente, não havendo Redenção é uma baita sacanagem de Deus nos mandar para o Inferno. Que pai bondoso faria isso com os filhos? Assim, o Inferno não é mais mencionado nos sermões da Missa Nova.

Sim, caem por terra também os milagres daquele homem extraoridário, o tal de Jesus de Nazaré. É que os apóstolos, vocês sabem, gostavam muito dele e exageraram em situações puramente naturais. Por exemplo, Jesus não expulsou demônios dos possuídos. É que vocês, católicos tradicionais, não entendem metáforas. Jesus, com sua bondade, com seu carisma de homem generoso, apenas acolheu esses indivíduos, bateu um papinho com eles e eles saíram aliviados. Foi uma espécie de consulta psicanalítica avant la lettre. Isso tudo ouvimos nos sermões modernos.

Outra consequência disso é que os dogmas marianos são todos falsos, pura crendice popular. O dogma da Mãe de Deus, o da Virgindade Perpétua, o da Imaculada Conceição e do da Assunção. O quinto dogma, que todos esperavam ser proclamado no Concílio Vaticano II, o da Medianeira de Todas as Graças, não tem o menor sentido e nisso o CVII foi coerente. 

O Concílio Vaticano II e a Missa Nova já prepararam todo mundo para aceitar as "não-crenças" do Papa Francisco. Estamos surfando nas ondas da nova religião, sem precisar entrar nas complicações teológicas que só esse pessoal retrógrado, esses católicos tradicionais, teimam em trazer à tona. A face da nova religião é essa: sem Redenção, sem Presença Real, sem a Intercessão da Virgem Santíssima e, finalmente, sem Inferno. 

Carpe diem, quam minimum credula postero!