Terça-feira, Fevereiro 09, 2010

Catolicismo e Liberalismo

 

A tentativa de união conceitual e prática de liberalismo e catolicismo foi chamada por D. Marcel Lefebvre de “a grande traição”. Em sua obra “Do Liberalismo à Apostasia”, D. Lefebvre cita com insistência um livro de Pe. A. Roussel intitulado “Libéralisme et Catholicisme”. Este pequeno livro foi publicado em 1926, tendo recebido o Nihil Obstat em 12 de agosto e o IMPRIMATUR em 28 de agosto de 1926.

O Pe. Roussel era Doutor em Filosofia e professor do Seminário Maior de Rennes, França. O livro nasceu de uma série de conferências proferidas pelo padre na Semaine Catholique em fevereiro de 1926.

Sobre a origem do Liberalismo, já no início do livro, Pe. Roussel não nos deixa dúvida ao afirmar:

“O termo ‘Liberalismo’ é assaz recente. Parece ter vindo de Mme. Stael, mas a coisa em si, ao contrário, é tão velha quanto as montanhas. O pai do Liberalismo é naturalmente aquele que primeiro se revoltou, o próprio Satã.

“Recusando orgulhosamente a graça sobrenatural e necessária de forma a não mais depender de seu Criador e Benfeitor, alegando consegui-la por seu próprio esforço, e complacentemente considerando a excelência de sua própria natureza esplêndida, ele lançou, das alturas do céu, o primeiro grito de rebelião, non serviam, não obedecerei.”

Mais adiante, Pe. Roussel faz uma tabela que ajuda o leitor a entender qual a diferença conceitual que separa o liberal do católico.

Para o liberal

Para o católico

1. Razão, fonte e medida de tudo

2. Raciocínio individual e autônomo

3. Autonomia da vontade

4. Ateísmo e panteísmo

5. O homem é auto-suficiente

6. Liberdade, um fim em si mesmo

7. Liberdade, essencialmente independente

8. Independência exigida pela dignidade

9. Homem, essencialmente bom

10. Independência e fatalidade do progresso

11. Igualdade

12. Individualismo anárquico

13. Licença para fazer o que se quiser

14. Soberania do número, ou povo

15. Maçonaria, etc.

1. Razão submetida ao seu objeto: natural e sobrenatural

2. Raciocínio a partir de anos de tradição

3. Dependência da lei, respeito ao bem comum

4. Um Deus, distinto do mundo

5. Apenas Deus é o Ser necessário

6. Somente um meio para obter o bem final

7. Ela depende da autoridade, lei e ordem

8. Submetida à lei, fonte da perfeição

9. Corrompido pelos pecados pessoais e Original

10. Pressupõe ordem na direção dos bens necessários

11. Hierarquia e organização

12. Laços sociais necessários

13. Liberdade regulada: para fazer o que é bom

14. Soberania de Deus e dos seus delegados

15. Igreja Católica, etc.

Se o liberal e o católico são assim tão diferentes, como então reconhecer que exista um ser humano que possa ser chamado de “católico liberal”? Que poço de contradições conterá tal pessoa? No entanto, Pe. Roussel não só afirma que existe tal pessoa, como descreve um esboço do que seja um “católico liberal” em ação. A única concessão que ele faz a tão contraditório ser é sempre colocar seu nome entre aspas.

Vale a pena acompanhar a descrição de Pe. Roussel. Ela nos dá um triste retrato do comportamento de muitos padres, bispos e cardeais destes tempos pós-conciliares. Ela nos ajuda a entender os caminhos trilhados por estes homens que, falando em nome da Igreja, pregam uma doutrina essencialmente anti-católica, cuja origem se encontra exatamente no principal inimigo de Deus. Traduzo agora um trecho do livro do Pe. Roussel intitulado “O católico liberal em sua prática geral”.

“Em princípio, o ‘católico liberal’ não gosta de falar de princípios. Ele se atém ao campo dos fatos, pois aí ele pode mais facilmente usar seus talentos. Mas já aqui somos obrigados a crer que a mediocridade de seu discernimento da verdade naturalmente o levará a uma mediocridade na ação (a menos que a real teoria de justificativa de sua atitude seja simplesmente seu medo de agir e lutar).

“De toda a forma, sabemos que qualquer ação ou vigoroso combate humano necessariamente pressupõe a percepção de um bem a ser obtido ou conservado. Esta é a única razão para o esforço; caso contrário, reagiríamos apenas um pouco, ou nem mesmo o faríamos. O mundo moderno chama isso de ‘lei da motivação’. É preciso amar profundamente para estar fortemente motivado; mas só se ama na medida em que se compreende a importância ou valor de um determinado bem. Não é então difícil de entender que haverá apenas uma fria indiferença, ou pelo menos, uma convicção muito fraca a respeito da verdade. Isto, por sua vez, produz uma pusilanimidade e uma covardia na ação. Este é freqüentemente o caso do ‘católico liberal’. Adicionemos a isto que o fato de seu exagerado desejo de conciliação, além de sua fé enfraquecida, o faz correr o risco de se meter em transações ambíguas e firmar lamentáveis compromissos. Isto tem como conseqüências recuos vergonhosos, capitulações e uma irreparável traição. As últimas poucas décadas testemunhou tudo isso. Mesmo assim, o ‘católico liberal’ não acredita em nada disso. Ele continua, ao contrário, expressando seu orgulho em sua solicitude para o que chama de ‘um desejo de paz’, ‘conduta prudente’, ‘atitude caridosa’, ‘sentido de realidade’, ‘política de resultados’. Observemos isso mais cuidadosamente.

Desejo de paz – O ‘católico liberal’ deseja a paz a qualquer custo. Contudo, esse custo é freqüentemente muito alto, pois ele acaba sendo, na concepção do ‘católico liberla’, o custo da verdade, dos direitos de Deus e da Igreja. Certamente todo católico deve trabalhar para a paz, isto é, para a tranqüilidade da ordem em todos os domínios. ‘Bem-aventurados os pacíficos ...’ Mas, como explica o Cardeal Pie, a paz é somente possível na verdade, pois a ordem é somente possível se as coisas estiverem dispostas de acordo com as exigências de suas relações mútuas. A paz entre os homens é portanto obtida quando suas atividades são ordenadas de acordo com a virtude. Em particular, as virtudes da justiça e caridade asseguram um respeito a todas as leis e poderes legítimos.[1] Ora, a paz entre a Igreja e o mundo é impossível aqui embaixo: ‘Meu filho, quando entrares no serviço de Deus ... prepara a tua alma para a tentação’ (Eclo 2:1), ‘Todos os que querem viver piamente em Jesus Cristo, padecerão perseguição’ (II Tim 3:12).

“Nosso Senhor claramente previu isso quando disse: ‘vocês serão odiados por causa de meu nome.’ Este é, de fato, o privilégio do católico, que sempre e em todo lugar atrai um ódio violento e é acusado de hipocrisia pelo próprio mundo que ele condena. A Igreja militante continuará a declarar guerra enquanto houver almas a salvar. Como resultado, o pacífico é sempre chamado a estar preparado para a guerra contra os destruidores da ordem na batalha contra a concupiscência, o mundo e o demônio. É por causa do amor à ordem e à paz que o pacífico ataca a ignorância, o erro e as paixões, a fim de salvar almas. O ‘católico liberal’ ao contrário não entende as verdadeiras condições para a paz, [2] que é a permanência na ordem, pois a desordem invade sua mente, desordem que está presente até mesmo em seu nome. É a concordância de vontades o que ele deseja acima até, e apesar da, divergência e oposição de mentes. A única coisa que ele obtém é uma tolerância superficial e provisória em que o católico tem tudo a perder e nada a ganhar. Ele não obtém nem a verdadeira paz nem a estima de seus adversários. Repetidamente você o vê estendendo a mão com uma irritante insistência, oferecimento que estamos dispostos a recusar com desprezo! Não, o ‘católico liberal’ não é um pacífico, mas sim um pacifista. Ele tem duas características principais: uma aversão pelos seus irmãos católicos e um perfeito entendimento com o inimigo.

“Atitude caridosa – Caridade! Caridade! Esta é a desculpa que o ‘católico liberal’ tenta apresentar. A verdadeira caridade é amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo por amor a Deus. Esses dois amores não são separáveis. Amamos a Deus e ao próximo como Deus deseja, isto é, visando a um fim e de uma forma que Ele quer, i.e., por e em Jesus Cristo e a Igreja. A verdadeira caridade sabe que o primeiro bem é a verdade; propagar isto é pois a primeira obrigação. Porque amamos fervorosamente, odiamos vigorosamente; juramos nosso inexplicável ódio ao mal, ao erro e ao pecado, e procuramos destruir cada obstáculo que se opõe à missão apostólica da Igreja. Comentando sobre a passagem de São Paulo, facientes veritatem in caritate, praticando a verdade na caridade, Cardeal Pie escreve: ‘A caridade implica antes de tudo, o amor a Deus e à verdade. Ela não hesita em puxar a espada por uma causa divina, sabendo que somente com golpes duros e incisões salutares pode se vencer ou converter o inimigo.’ Será que o ‘católico liberal’ ama a Deus sobre todas as coisas quando desconsidera Suas verdades e ridiculariza Suas leis imprescritíveis? Amará ele seu próximo quando não o auxilia a se libertar dos erros e o ajuda através de verdades sobrenaturais? É possível amar o doente ignorando sua doença ao invés de curá-la? As almas são amadas quando mesmo as verdades elementares, que são necessárias para a salvação, são recusadas a elas para não lhes causar ansiedade? Não, a caridade do ‘católico liberal’ é mal orientada, quando e se não completamente deformada. Ele é mais um pregador hipócrita da caridade do que verdadeiramente caridoso, pois é todo doce com o incrédulo, mas amargo como fel com o católico. Seu coração está voltado para a ‘esquerda’, como suas idéias. Ele não tem nada para dar aos verdadeiros católicos senão amargura e violência. ‘Seu ardor é amargo, suas discussões ríspidas, sua caridade agressiva’ (Dom Sarda).[3]

“Conduta prudente – Pelo menos, o ‘católico liberal’ é ‘prudente’! Ele na pratica assume a definição que criou: não é ela a virtude par excellence do ‘justo meio’ e aquela que regula todas as outras virtudes? Com uma modéstia que lhe causa satisfação, repete sem cessar que ele não compromete o bom objetivando idioticamente o perfeito. Em vez disso, ele sabiamente se contenta como o ‘possível’. Mas isso o faz mais justo? A prudência é definida como: recta ratio agibilium, que pode ser traduzida como a ‘arte de obter êxito,’ isto é, a habilidade de atingir o objetivo. A prudência nunca perde sua perspectiva que é o fim último do homem e do universo. Portanto, ela analisa todos os meios que auxiliarão na sua obtenção. Ela procura o maior bem possível numa dada circunstância, e, entretanto, considera isso apenas como um degrau para o fim último, e não como um fim em si mesmo. Ela cuida do doente de uma maneira útil, nunca todavia cedendo ao mal, a menos que seja obrigada a tolerá-lo por enquanto, aguardando um momento favorável para triunfar ainda mais completamente. A prudência certamente se dobra às circunstâncias, mas sempre para obter um bem maior. Ela trabalha incansavelmente em sua direção, intensificando todo bem possível. Ela nunca se senta resignada em ser conquistada, mas sempre acaba sendo o conquistador. Ela procura o sucesso, nunca desdenhando da força, mas controlando-a e usando-a para obter o fim em vista. A prudência do ‘católico liberal’, por outro lado, é sempre vulgar porque é míope, nunca vendo muito alto ou muito longe. Falta-lhe sabedoria que é o ‘conhecimento das mais altas causas’. Ele é débil e hesitante pois não há convicção na fé. Toda a confiança é colocada nas modestas e limitadas condições humanas, e nenhuma em Deus e Sua graça. Esta não é senão a prudência do mundo ou a ‘prudência carnal’. Ela não deseja nenhum tipo de batalha; ela desdenha a força em vez de colocá-la a serviço da verdade. Esse tipo de prudência somente sabe como capitular. Fundamentalmente, ela não é senão medo e mesmo covardia.

“Sentido de realidade – O ‘católico liberal’ crê e mesmo proclama que é dotado de um ‘senso de realidade’, na falta de um ‘senso católico’. Ele não se interessa por teoria, mas se considera prático. Alega conhecer seu tempo, suas aspirações e necessidades. Para ele, a verdade deve ser apresentada numa forma inteiramente diferente às pessoas agora amadurecidamente impregnadas de liberdade. Ele pressiona a Igreja a levar em conta o progresso e Se colocar à sua disposição. Contudo, este infeliz indivíduo não tem o senso da realidade especulativa, nem natural nem sobrenatural, dado seu amor incrivelmente fraco pela verdade. Tampouco tem ele o senso da realidade prática, pois, surpreendentemente, falta-lhe psicologia. Ele pensa que conhece as aspirações de seu tempo, mas na realidade é totalmente ignorante das profundas aspirações de todos os tempos; por exemplo, a da inteligência por verdades universais e a da vontade pelo bem soberano. Ele não entende a invencível atração que a verdade exerce sobre toda e qualquer alma. Tendo uma excessiva confiança nos meios humanos, ele se esquece de se socorrer Naquele que fez o céu e a terra. Ele despreza a graça onipotente de Jesus Cristo, e tem em particular uma fé muito superficial na profunda afinidade entre a alma sacerdotal e a alma batizada. Por isso, seus sermões, se ele é padre, são ineficazes e enfadonhos, pois coloca ênfase na eloqüência e persuasão, em vez de na virtus Christi. Em vez de falar com autoridade de representante de Deus e embaixador de Cristo, ele se faz pequeno, humilde e suplicante. Conseqüentemente, obtém somente o sucesso humano e às vezes até mesmo indiferença e desprezo. Falta-lhe também psicologia frente a um adversário obstinado. Ele pensa que com a capitulação freqüente ante ao adversário, ele receberá em troca mais, mas de fato, ele perde terreno a cada dia. Isto é o que ele chama de o ‘possível’, de ‘mal menor’. Mesmo assim, quando ele faz dessa atitude um sistema, o ‘mal menor’ se torna o maior de todos os males, e o ‘possível’ se encolhe sem cessar, pois quanto mais ele recua, mais o adversário avança e conquista o seu terreno. Essa é a história da resistência do ‘católico liberal’ nos últimos 50 anos. Assim, hoje chegamos a aceitar e respeitar a lei do secularismo! Este é o resultado de tal política e é enormemente triste!

“Assim, esse dissimulado ‘justo meio’ se move sem cessar, sempre na direção do mal maior. É surpreendente ver como o ‘católico liberal’ se colocou entre a Igreja e a Revolução. Ele continuamente se aproxima do lado da revolução e se distancia cada vez mais da Igreja. Realmente, nesse sentido ele avança continuamente na direção da conformidade com o povo. Assim, o ‘católico liberal’, cuja intenção era a de conciliar a Igreja com a Revolução, tornou realmente possível a vitória da Revolução. Ele não ganhou nada da esquerda, perdeu muito da direita, não conseguiu nenhuma conversão, facilitou muito perversão e causou até mesmo uma multidão de apostasias. Ele nos acusa de colocar a Igreja em perigo, e ainda assim é Ela sozinha que se defende perante um mundo hostil, simplesmente anunciando o que Ela acredita e deseja. Ao contrário então, nós o acusamos de trair a Igreja. Ele coloca a fé em perigo ao destruir a resistência católica ou, por covardia, ao fazer um pacto com o próprio adversário.

“Ao ‘católico liberal’ não falta inteligência. Ele tem uma eloqüência, um talento e um conhecimento mais perfeitos que qualquer um. É contudo sua posição que é imbecillus, segundo o significado latino. Em lugar de construir sobre a pedra, fundatus supra firmam petram, ele constrói sobre a areia movediça da liberdade em que ele é engolido. Sua posição é totalmente contraditória, pois ele deplora os próprios efeitos das causas que ama, e deseja combater a impiedade, a imoralidade e a heresia sem perceber que seu próprio liberalismo o conduz para essas conclusões.”

Volto a lembrar que o livro de Pe. Roussel foi escrito em 1926 e é uma extraordinária descrição do “católico liberal”. Felizmente, Pe. Roussel não viveu para ver sua Igreja invadida por liberais que, hoje, constituem uma maioria.


[1] Estas virtudes sociais podem, contudo, existir e ser entendidas fora do coração da verdadeira religião. Somente o catolicismo, que é a ordem integral e mesmo a força de Deus, pode, por sua própria natureza, levar essas virtudes à sua perfeição em relação a este mundo.

[2] Liberalismo, especificamente condenado pelo Papa Leão XIII, é esse sistemático ato de concessão e a paixão pela paz a qualquer custo (Rev. Pe. De La Taille, En face Du Pouvoir, p. 118)

[3] Aqui Pe. Roussel se refere ao livro de D. Félix Sarda y Salvany, El liberalismo es pecado. (N. do T.)

Quarta-feira, Fevereiro 03, 2010

Ensaio fotográfico sobre Chesterton – de sua biografia escrita por Maisie Ward



Auto-caricatura

Ano de sua conversão oficial ao catolicismo


Ditando para sua secretária







Um ano antes de sua morte

Sexta-feira, Janeiro 29, 2010

Expondo as Perigosas Premissas dos Economistas Liberais

Brian McCall -- Colunista do Remnant, Oklahoma, EUA [*]

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Notas do blogueiro:

1) Este blog recebe seu primeiro colaborador. Guilherme Ferreira Araujo, amigo e irmão em Cristo, traduz este importante artigo. Agradeço-lhe a colaboração, e espero contar com ela mais vezes.

2) O assunto do artigo é muito importante: a concepção católica da economia. Ele já apareceu no blog muitas vezes. Convido os leitores que ainda não leram verificar a seguinte seqüência de posts: Corporação Cristã: a verdadeira Escola de Salamanca - Parte I, Corporação Cristã: a verdadeira Escola de Salamanca - Parte II, Corporação Cristã: a verdadeira Escola de Salamanca - Parte III, Corporação Cristã: a verdadeira Escola de Salamanca - Parte IV, Corporação Cristã: a verdadeira Escola de Salamanca - Parte V, Corporação Cristã: a verdadeira Escola de Salamanca - Parte VI, Corporação Cristã: a verdadeira Escola de Salamanca - Parte VII, Corporação Cristã: a verdadeira Escola de Salamanca - Final e Opondo-se à heresia austríaca. Verifiquem também Economia e catolicismo e Juros: Böhm-Bawerk, Ludwig von Mises e Santa Catarina de Sena.

3) Tom Woods, economista dito liberal, cujas idéias são comentadas neste artigo, é na verdade economista austríaco. Ele é autor de um livro de defesa da Igreja, recentemente traduzido pela Editora Quadrante, de título “Como a Igreja Católica Construiu o Ocidente”. O livro é razoável nos capítulos não-econômicos. Quanto chega na economia, Woods defende a heresia austríaca e suas idéias são lamentáveis.

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A hipótese central subjacente a todo o pensamento econômico liberal (em contraste com pensamento econômico católico) é a ganância. Ora, economistas liberais nem sempre usam essa palavra; eles podem chamá-la “razão de lucro”, “interesse próprio” ou “maximização da riqueza”, mas todos esses termos se resumem à mesma coisa.

Os economistas liberais mais inteligentes ocultam esse princípio declarando que ele é válido apenas no interior da “estrutura” econômica. Uma vez que a riqueza é gerada a moralidade pode ter algo a dizer sobre o que alguém fará com ela; mas, dentro da análise do processo de produção, a maximização do lucro é o critério supremo para a avaliação das escolhas econômicas: a alternativa que produz mais riqueza é a chave para a escolha da ação humana (até mesmo se alguém reconhecer que a moralidade pode impor demandas a um uso ulterior dessa riqueza). Todas as outras considerações no fim retificam esse único critério.

Responsabilidade social, práticas de caridade, preocupação com a segurança de trabalhadores e outros valores podem ser levados em conta pelos economistas liberais, mas somente depois de obtido máximo lucro ou a maximização da riqueza. Uma decisão de doar computadores para uma escola é justificada pelo conselho diretor de uma empresa apenas na medida em que o empreendimento espera receber em algum momento uma quantidade maior de riqueza do que aquela empregada na doação por meio de publicidade ou da boa vontade do cliente. É por isso que os participantes de um sistema controlado e regulamentado pelo pensamento econômico liberal podem ser pessoas decentes, mas sua filosofia impede a “intrusão” de tal moralidade nas decisões de um negócio, no qual a geração do lucro é o maior bem a ser procurado.

Isso isenta os economistas liberais das exigências de justiça e equidade da Lei Moral (Divina e Natural). Além disso, alguns economistas liberais abrem exceções a algumas ofensas odiosas à Lei Natural tal como a fraude e a violência. Não obstante, o homem está sujeito inteiramente à Lei Divina e Natural. Nós não somos livres para escolher quais normas observar e quais deixar fora de nosso “framework” artificial.

Ora, alguém que tenha uma noção do seja que o catolicismo provavelmente sabe que essa filosofia é defeituosa. Para ver exatamente por que ela é defeituosa, nós exploraremos a Doutrina da Economia Católica.

Como ensina Santo Tomás de Aquino, fiando-se em Aristóteles: O homem age em conformidade com os fins. Nós escolhemos ações que, à luz de todos os fatos relevantes, parecem atingir um fim particular. Alguns fins são incompletos; eles não aperfeiçoam todos os aspectos da natureza humana. Alguns fins são mais completos; eles abarcam mais aspectos da natureza humana. O último ou mais completo fim do homem é a salvação eterna; a visão beatífica. Ao atingir esse fim a natureza do homem chega à perfeição. Abaixo desse fim perfeito há outros fins necessários que devem ser perseguidos a fim de que tornem alcançável o fim perfeito. O fim natural mais elevado é o viver uma vida virtuosa numa sociedade pacífica. Abaixo desse fim natural perfeito, a criação de uma riqueza temporal suficiente é um dos fins imperfeitos encerrados naquele fim natural perfeito.

A fim de que possa vir a conhecer, amar e servir a Deus, e viver bem com a sua vizinhança neste mundo de modo a atingir seu fim último – felicidade no paraíso – o homem deve satisfazer as necessidades físicas de sua natureza corporal. A satisfação das necessidades temporais humanas fornecidas pela riqueza é, portanto, um dos fins em direção ao qual a natureza humana, e consequentemente a lei natural, o dirige.

No entanto, nós não podemos perder de vista o fato de que esse fim é apenas intermediário, imperfeito. A riqueza ou lucro não é um fim último em si mesmo; é um meio para se alcançar outros fins e deve ser moralmente avaliado como tal. Ele deve limitar-se, portanto, ao âmbito que se sujeita aos fins últimos naturais e sobrenaturais do homem.

Aqui nós vemos que o erro fatal do economista liberal é que ele faz de um fim imperfeito o critério perfeito da decisão, dentro de uma estrutura que ele usa arbitrariamente para separar a atividade econômica do mesmo grau de escrutínio moral que governa outra atividade humana.

O efeito disso é que a obtenção de riqueza torna-se infinita. Quando um fim imperfeito é tratado como perfeito, então é corrompido, e a orientação própria do homem em direção ao seu verdadeiro fim é obscurecida. É por isso que é exigido do homem pôr limites no aumento da riqueza como um critério de tomada de uma decisão no campo econômico, do mesmo modo que ele deve pôr justo limite em seu apetite concupiscente.

A busca da riqueza

O desejo pela riqueza, assim como o desejo por outras coisas, não é mal em si mesmo, mas deve ser refreado. A geração da riqueza, de acordo com o pensamento econômico Católico, deve ser refreada assim como os desejos de concupiscência devem estar sujeitos à razão. Henrique de Hesse explica isso da seguinte maneira: “Quem quer que tenha o suficiente para essas coisas (para sustentar alguém, para realizar atos de piedade, para manter provisão razoável para futuras emergências, ou para manter a prole), mas ainda trabalha incessantemente para acumular riquezas ou um status social mais elevado, ou de tal modo que mais ele viva sem precisar trabalhar, ou de tal modo que seus filhos sejam ricos e poderosos – tudo isso é impulsionado por condenável avareza, prazer físico e orgulho.” [1]

Ter o suficiente para tudo isso e ainda desejar mais excede as fronteiras da prudência. Então, refreios no desejo pela riqueza não são excessivos, mas antes muito prudentes. Há um limite mais externo para a ganância. São Bernardo concorda com a seguinte conclusão: “Por elas mesmas, no que tange ao bem-estar espiritual, elas [as riquezas] não são nem boas nem más, antes o uso delas é bom, o abuso, ruim; o desejo veemente por elas é pior; a ganância por ganhar ainda mais é vergonhosa.” [2] O uso adequado da riqueza é virtuoso; seu abuso – a avidez por ganhar – é um vício.

Não obstante, a filosofia da economia liberal afirma que toda escolha que aumente a rede de riqueza é boa; o princípio não admite nenhum limite. A razão do lucro, na filosofia do economista liberal, não pode admitir o limite defendido pela filosofia da economia católica. O lucro é sempre bom e mais lucro é sempre algo melhor – novamente, dentro da estrutura que os economistas liberais usam para dispensar a economia de escrutínio moral, enquanto declaram que fora dessa estrutura os capitalistas podem ser pessoais morais e generosas no que tange à decisão de como eles usarão sua riqueza.

Santo Tomás usa uma imagem da natureza para demonstrar como ser propriamente cuidadoso com os bens temporais significa manter tal desejo em seu limite próprio – um tempo adequado. “A formiga é cuidadosa num tempo adequado, e é isso que é proposto para o nosso exemplo. A previsão justa do futuro pertence à prudência. Mas seria um cuidado ou previsão desordenada do futuro se um homem se pusesse a buscar coisas temporais, às quais os termos ‘passado’ e ‘futuro’ se aplicam, como fins, ou se ele passasse a buscá-los excedendo as necessidades da vida presente, ou se ele passasse a monopolizar o tempo por preocupação.” [3] Nós podemos buscar lucros, mas fazê-lo em excesso é um vício, tanto como ser irresponsável em relação a eles (monopolizar o tempo por preocupação).

Comedimento moral VS. Interferência do governo

Antes de prosseguir nesse argumento eu devo dar uma pausa para esclarecer que o reconhecer um comedimento moral sobre a razão do lucro não é análogo ao asseverar que o governo deve impor esse comedimento em todas as circunstâncias. A questão de qual seja o equilíbrio apropriado na lei pública da Igreja, governo local, governo nacional e refreamento pessoal dirigido por um confessor é uma questão que trata dos meios apropriados. Este é em si um tópico vasto; por séculos e à luz de diferentes circunstâncias o equilíbrio entre o foro íntimo (confissão) e os vários foros externos (cortes civis e eclesiásticas) tem permanecido e continuará.

Não obstante, proponentes do Liberalismo Econômico frequentemente procuram pôr em desordem a questão tentando desviar do assunto deste tópico. Eles confundem o argumento de que a moralidade requer esse refreio com a defesa de um estado policial totalitário. Ao fazer isso, os economistas liberais evitam ter de argumentar contra a questão real: o princípio do lucro não pode ser o único critério de avaliação da justiça e da moralidade das escolhas econômicas.

Ao retornar ao refreio necessário, lembre-se dos outros fins da existência humana. Quais são esses fins? Eles não são senão os fins naturais e sobrenaturais do homem. Então, por exemplo, viver de forma justa ou devolver aos outros seus direitos é um fim da natureza social do homem. A Justiça é uma das virtudes cardeais que o homem deve esforçar-se por obter de modo a aperfeiçoar sua trajetória em direção ao fim perfeito. Portanto, é ilícito obter lucro através do uso de meios que violam a justiça comutativa (que inclui mais que a fraude). O pensamento econômico liberal rejeita esse refreio. Isso para não dizer nada da lei divina à luz da qual as ações humanas devem ser julgadas.

O economista liberal católico Tom Woods argumentou que “a economia é a ciência cujo propósito é empregar a razão humana para descobrir como os fins humanos podem ser alcançados. O que deveriam ser esses meios é assunto para ser decidido pela Teologia e pela Filosofia Moral.” [4] Tudo quanto nos leve ao fim escolhido da forma mais eficiente será a escolha econômica correta. Não obstante, a moral católica não permite ambivalência em relação aos meios. Mesmo que os fins de alguém sejam bons (enquanto estabelecidos pela Teologia e pela Filosofia Moral, como diria Tom), os meios escolhidos também devem ser moralmente justos. Deste modo, afirmar que a economia é meramente a ciência dos “meios” é um argumento imperfeito. A escolha dos meios não é moralmente neutra. Os meios têm implicações morais.

Um típico argumento de economista liberal é que um salário baixo (que esteja abaixo do valor intrínseco do trabalho desempenhado para aquele salário) é aceitável se o livre-mercado produzir tal ordenado (devido a um grande número de trabalhadores desempregados, por exemplo). [5] Argumenta-se que até mesmo o trabalhador que recebe um salário injusto estará em melhor situação no final das contas porque o lucro obtido pelo empregador aumenta a riqueza geral para a sociedade, ou para expor isso da forma favorita dos economistas liberais, uma maré crescente levanta todos os barcos. Admitindo por um momento que essa assertiva seja de fato verdadeira (apesar de ela ser contra-intuitiva), [o fato é que] o pensamento econômico católico proíbe o pagar um salário injusto como sendo um meio para esse fim. Mesmo que mais riqueza seja gerada para a economia ou mais pessoas tenham empregos, se esse fim é alcançado através da violação da justiça, ele não pode justificar um meio injusto. Um trabalhador tem recebido um valor menor do que o do trabalhado realizado. A sociedade pode ser mais próspera, mas o fim do homem chamado justiça foi violado pelo uso de meio injusto. Conforme foi mostrado, a economia é “livre de valores” [6] simplesmente porque ela recusa considerar os valores morais que refreiam o uso de meios injustos.

Ora, o motivo pelo qual economistas liberais não conseguem perceber o erro de os fins justificarem os meios é o afirmar que as atividades econômicas são amorais – não têm implicações morais. Tom Woods, por exemplo, afirma que “absolutamente nada no campo da lei econômica derivada da praxeologia envolve reivindicações normativas” e “é absolutamente irracional argumentar que... a lei econômica deveria ser subordinada à lei moral.” Tom declara isso baseado numa compreensão da Economia como um mero estudo da ação humana para descobrir leis ou operações naturais independentes. [7] Visto que essas leis fazem parte da “natureza” elas não são morais ou imorais; elas apenas existem. Ele compara as leis econômicas até mesmo com a lei da gravidade. [8] O erro decisivo nesse raciocínio é que todas as ações humanas envolvem escolha. As ações humanas não são como a gravidade, que é pré-determinada e opera de forma independente. Escolhas sempre têm implicações morais; ou elas são moralmente lícitas ou são escolhas ilícitas. Tom está certo: a economia envolve o estudo das ações humanas. Não obstante, ao contrário do estudo da gravidade, que existe naturalmente, todos os atos humanos são produtos de uma escolha e têm implicações morais, assim como refreios naturais e divinos.

Consideremos um dos exemplos favoritos de Wood de uma “lei econômica” semelhante, para ele, à gravidade: a lei da oferta e da procura. [9] Quando a oferta diminui ou a demanda aumenta os preços aumentam. Ele afirma que isso pode ser observado empiricamente e, portanto, o movimento do aumento dos preços em decorrência da queda da oferta ou do aumento da demanda é moralmente neutro; isso acontece como resultado da força de uma “lei econômica natural”. Essa asserção é falsa. Os preços não são forças autônomas independentes da escolha humana. Os preços aumentam porque as pessoas escolhem aumentá-los.

Ora, pode ser verdade que desde a aurora da Era Liberal as pessoas passaram a aumentar os preços em tais contextos porque elas acreditam, erroneamente, que não têm escolha alguma: “Uma vez que os preços sempre aumentam com diminuição da oferta, eu tenho de elevar o meu preço.” Na Cristandade, entretanto, quando as pessoas não estavam embriagadas com a propaganda do Liberalismo Econômico, essa não era a reação usual. As causas, natureza e duração da falta de oferta, ou do aumento da demanda, tinham de ser consideradas diante de uma associação, ou de uma autoridade pública, ou um padre confessor que permitiria o mercador a elevar os preços. Então, preços podiam ser alterados, mas desde que houvesse uma razão moralmente lícita para fazê-lo, como um aumento sustentado no custo do transporte das mercadorias.

Além disso, diferentemente da Economia Liberal tal como defendida por Tom Woods, a Economia Católica afirma que não é moralmente permissível o aumento dos preços em decorrência da necessidade particular de um comprador de mercadorias e serviços. Santo Tomás ensina que é injusto da parte de um vendedor cobrar mais porque o comprador necessita particularmente de uma mercadoria. [10]

Para usar outro exemplo oferecido por Woods, [11] se uma crise como os ataques terroristas a Nova York ocorresse e as pessoas fossem destituídas de seus lares, seria justo elevar o custo de um quarto de hotel em 185% simplesmente porque mais pessoas querem quartos? Woods afirma que sim, alegando que permitir esse tipo de extorsão é bom porque permite que o meio pecuniário – o quarto – vá para a pessoa que mais o valorize. Na verdade, isso faz com que o quarto fique com os mais ricos, que podem ou não ser aqueles que dão mais valor ao quarto. Uma pessoa que possua meios modestos e que não tem nenhum outro lugar para encontrar abrigo para sua família pode dar maior valor ao quarto do que um milionário que apenas não quer passar uma noite com seus parentes. A diferença é que o homem de meios moderados tem menos riqueza para expressar o maior valor que dá ao quarto.

Tom tenta desviar do assunto nesse ponto, argumentando que o manter os preços dos quartos em níveis normais num período de crise provocará o desperdício de recursos limitados, com uma família utilizando dois quartos quando ela usaria apenas um se os preços fossem mais altos. [12] Antes de tudo, é precisamente o locatário mais rico, e não o chefe de família com baixo salário, que provavelmente receberá mais do que é devido, locando mais que um para o seu conforto, então o argumento falha por conta disso.

De qualquer modo, uma vez que esse efeito envolve a escolha humana, ele não é inevitável. O proprietário do hotel pode simplesmente determinar que numa emergência uma família com quatro membros poderá locar apenas um quarto de modo que outros que necessitem possam ocupar o segundo quarto. Não há necessidade de elevar o preço em 185% para alcançar o racionamento justo de recursos escassos. Não obstante, uma vez que Tom começou com a falsa premissa moral de que preços e outras decisões econômicas são independentes de uma escolha humana moral, ele argumenta falsamente que as escolhas econômicas deveriam cair onde elas puderem, assim como uma bola jogada só pode cair no chão devido à lei da gravidade.

Então, no final o obscurecimento da escolha humana moral envolvida em todas as atividades econômicas torna-se uma fachada através da qual a riqueza pode ser buscada sem quaisquer limites morais.

Conclusão

A Economia não é uma disciplina que lida com forças invariáveis independentes tal como a física. Ela é o estudo das ações humanas relativas aos meios para se criar bens temporais. Toda ação humana e todos os meios usados para alcançar fins devem ser orientados para, e limitados pelos, fins últimos do homem.

Essa simples verdade tem sido atacada por séculos pelos economistas liberais. É o momento de darmos à Verdade de Cristo, à lei moral natural, o seu lugar apropriado na economia. O único desejo do homem que pode ser moralmente ilimitado é o desejo por Deus. O desejo pela riqueza deve estar sujeito a limites justos, com Deus e Sua lei à vista a todo momento.

Notas:

[1] Henry of Hesse, De contractibus, em John Gerson, Opera omnia, 4 vols. (Cologne, 1483–4), 4, cap. 12, fol. 191ra.

[2] São Bernardo de Clairvaux, De consideratione, trans. George Lewis (Oxford, 1908), bk. 2, ch. 6, p. 47.

[3] Aquino, Summa Theologica II-II, 55, Art. 7 Respostas às Objeções 1 e 2.

[4] Tom Woods, The Church and the Market (Lexington Books 2005)¸ p. 31.

[5] Veja Tom Woods, The Church and the Market, p. 50 et. seq.

[6] Tom Woods, The Church and the Market, p. 31.

[7] Tom Woods, The Church and Market, p. 16.

[8] Tom Woods, The Church and the Market, p. 43.

[9] Veja, por exemplo, Tom Woods, The Church and the Market, Chapter 2.

[10] Summa Theologica II-II Q. 77, Art. 1.

[11] Tom Woods, The Church and the Market, p. 46-47.

[12] Id. p. 47.



[*] Tradução autorizada pelo The Remnant. Para ler o artigo em inglês, clique aqui. (N. do T.)

Terça-feira, Janeiro 26, 2010

Tesouro de Exemplos – mais três historinhas

Do livro Tesouro de Exemplos

VIVA CRISTO REI!

No México, não faz muitos anos, um presidente, chamado Calles, perseguiu com furor não só os padres, mas também todos os católicos militantes. Em setembro de 1927 os soldados de Calles prenderam três jovens: José Valência, Nicolau Navarro e Salvador Veigas, porque faziam propaganda em favor da religião.

Depois de maltratá-los brutalmente, conduziram-nos a 3 de janeiro de 1928, para longe da cidade, e ali os espancaram e feriram com cutelos.

Repreendeu-os José Valência, dizendo:

- Sois uns perversos, martirizando-nos ferozmente; Deus vos perdoe!

E dirigindo-se aos companheiros, recordou-lhes que eram católicos, que a verdadeira pátria era o céu, para onde logo partiriam. E todos os três gritaram: Viva Cristo Rei! Viva a Mãe de

Deus!

Furiosos, os cruéis soldados os espancaram de novo e cortaram-lhes a língua, dizendo:

- Vamos ver se agora falais e rezais!

Ao volver-se o mártir para seus companheiros para mostrar-lhes o céu, fuzilaram-no e em seguida cortaram-lhe a cabeça.

Os outros dois companheiros imitaram o heroísmo do primeiro. Em seguida aquela soldadesca tomou os cadáveres e, levando-os à cidade, deixou-os no meio da praça, como se tivesse realizado uma grande façanha.

Acudiu logo uma multidão imensa de curiosos. Chamaram também a mãe do jovem mártir José Valência. A heróica senhora, em vez de chorar, olhos fixos no céu exclamou:

- Senhor, bendigo-vos por terdes disposto que eu fosse a mãe de um mártir!

E julgando-se indigna de abraçar o corpo do filho, beijou-lhe os pés devotamente.

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CORTEM-LHE A CABEÇA

Conta-se que Teodorico, famoso príncipe ariano, tinha a seu serviço um católico, a quem estimava muito, a ponto de nomeá-lo seu ministro. Esse indivíduo, querendo merecer ainda mais as graças do príncipe, renunciou à religião católica abraçou a ariana, que era uma perigosa heresia.

Ao ter notícia dessa resolução do seu ministro, dirigindo se aos seus dois guardas, disse-lhes o príncipe:

- Cortem-lhe a cabeça!

Estranhando os guardas aquela ordem, acrescentou Teodorico:

- Cortem-lhe a cabeça porque, se este homem é infiel a Deus, não deixará de ser infiel a mim, que não passo de um puro homem.

E o ministro, que esperava grandes favores à custa de sua religião, foi imediatamente decapitado.

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EXPIAÇÃO

Um capelão francês visitava uma ambulância e aproximando-se dum soldado disse-lhe:

- Amigo, disseram-me que você está gravemente ferido e sofre muito.

- O sr. levante o cobertor que me cobre.

Horrorizado viu o capelão um peito robusto sem braços.

- Não se assuste - disse o soldado; levante agora a coberta dos pés.

Faltavam as pernas até os joelhos.

- Pobrezinho! - exclamou o sacerdote.

- Não se compadeça de mim, padre; dê-me antes parabéns, porque antes da guerra eu reduzi ao mesmo estado uma imagem de Jesus Crucificado.

Foi assim: Ao chegarmos à encruzilhada do caminho, eu e meus companheiros encontramos um grande crucifixo e o enchemos de insultos e blasfêmias. Quis avantajar-me a eles em impiedade e com meu sabre cortei os braços e as pernas da imagem. Quando começaram a sibilar as primeiras balas é que compreendi a enormidade de meu crime. Lembrei-me de minha igreja, do vigário, de minha defunta mãe, de meu catecismo.

Pedi a Deus que me castigasse nesta vida. E Deus me ouviu como o sr. está vendo. Como tratei ao crucifixo' assim fui tratado. Quanto maiores forem os meus sofrimentos, tanto maior será o meu consolo; pois assim estou seguro de que Deus quer perdoar-me.

Quinta-feira, Janeiro 21, 2010

Lições das missas dominicais pós-Vaticano II– Parte XXVIII

Comento aqui o artigo do Sr. Domingos Zamagna intitulado “Catequese e Ecumenismo”, n’O DOMINGO de 27/09/2009.

Este artigo é muito explícito em pontos que foram apenas anunciados nos artigos anteriores. O que o Sr. Zamagna prega é má doutrina. Não é má doutrina segundo minha opinião, que, neste caso, merece tanta atenção quanto à do próprio articulista. É má doutrina segundo a verdadeira e tradicional Doutrina Católica.

Já no início do artigo, o Sr. Zamagna, citando um grande pensador do século XX, que ele não declina o nome, diz que esse século foi o século do ateísmo e do ecumenismo. Cita na maior inocência sem se dar conta de que este é causa daquele. O ecumenismo leva à apostasia e depois ao ateísmo. Se algum indivíduo minimamente inteligente acredita que em todas as religiões há meios de salvação, logo ele se desvincula da Igreja e procura algum culto que lhe seja menos exigente. De religião em religião, passando pelas religiões orientais, que não são outra coisa senão um materialismo disfarçado, ele chega facilmente ao cientificismo rasteiro, alardeado incessantemente pela mídia, e daí ao ateísmo. Isto é a conclusão lógica do ecumenismo. Ele começa negando que a Verdade esteja somente na Igreja Católica e acaba negando que exista Verdade. Este é o caminho da grande apostasia que existe hoje na Igreja.

Na sua inocência ou inconsciência, o Sr. Zamagna declara sua esperança de que o século XXI seja o século de um “reavivamento da fé e um incremento do movimento ecumênico”. Uma coisa não leva à outra, pois se estamos falando da Fé, aquela cujo depósito se encontra única e exclusivamente com a Igreja Católica, é claro que seu reavivamento significará um decremento do “movimento ecumênico”. Feliz expressão “movimento ecumênico”! Ela desnuda exatamente o que é o ecumenismo: um movimento. Como o foi, e ainda o é, o movimento comunista, o movimento fascista, o movimento ambientalista, etc. Colocamos assim o ecumenismo com seus irmãos siameses. São movimentos políticos, ao estilo de Judas Iscariotes. São heresias, no sentido em que elas são entendidas pela tradição católica.

Chama a atenção do leitor a seguinte frase do Sr. Zamagna: “a busca da unidade entre os cristãos, certamente um movimento moderno inspirado pelo Espírito Santo ...” Meu Deus! Esses pregadores pós CVII consideram que o primeiro papa foi João XXIII. Quando é que a Igreja desistiu de converter os hereges? Quando é que a Igreja deixou de rezar pela conversão dos hereges? Quando é que pregadores do talante de São Francisco de Sales deixaram de pregar aos protestantes com o intuito de sua conversão? O que é novo, e o que não é em absoluto inspirado pelo Espírito Santo, é a idéia herética de que a união dos cristãos seja feita, não a partir da conversão à Igreja Católica, mas a partir da conversão dos católicos a uma religião comum, que contenha elementos comuns aos dois (ou três, quatro, etc.) lados. Chesterton chamava esta religião de “Religião da Irmandade Universal”, cujo fundamento seria o que ele chama de “Fé Progressista”. E com quem irmanaríamos? Quem seriam nossos irmãos nesta ampla e progressista religião? Chesterton nos diz: “O deão da Catedral de São Paulo [da Igreja Anglicana] que se permite alegremente chamar a Igreja Católica de uma corporação traidora e sangrenta; o Sr. H.G. Wells que se permite comparar a Santíssima Trindade a uma dança indigna; o Bispo de Birmingham [bispo da Igreja Anglicana] que se permite comparar o Santíssimo Sacramento a uma bárbara festa de sangue.”

Diz ainda, perigosamente, o Sr. Zamagna: “A Igreja sempre nos ensinou que permanece nela a plenitude das verdades reveladas e dos meios de salvação instituídos por Jesus Cristo; mas essa convicção deve ser acolhida com humildade e no respeito às demais religiões ...” É-me impossível não lembrar novamente de Chesterton. Diz este escritor em sua obra-prima Ortodoxia: “O mundo moderno está repleto de antigas virtudes cristãs que enlouqueceram. Essas virtudes enlouqueceram porque ficaram isoladas umas das outras e vagueiam por aí sozinhas. (...) Acontece, porém, que a humildade está no lugar errado. A modéstia afastou-se do órgão da ambição e estabeleceu-se no órgão da convicção, onde nunca deveria estar. O homem podia duvidar de si, mas não duvidava da verdade. Agora se dá exatamente o contrário.” A convicção do Sr. Zamagna é humilde, pois ele relativiza a verdade, e sua ambição monstruosa: nada mais do que fundar a “Religião da Irmandade Universal”.

No final do artigo, o Sr. Zamagna declara sua concepção de catequese: “Daí a importância de, ao lado da exposição correta da fé cristã e católica, fazermos também verdadeira exposição sobre as outras religiões, sem caricaturas.” Note a expressão “fé cristã e católica”! Que significa isto? Há uma fé cristã e outra católica? Ora! se existe de início tal dúvida, como catequizar alguém? Além disso, o Sr. Zamagna está confundindo catecismo com estudo comparado de religiões.

Mas o articulista continua: “Essa mesma lealdade devemos esperar de quem não professa nenhuma crença ou segue uma religião diferente da nossa, o que não nos impede de valorizar os pontos de convergência doutrinária e ultrapassar as barreiras do preconceito para realizarmos a prática comum da justiça e do amor.” Este é um exemplo prático da humildade enlouquecida, da humildade localizada no “órgão da convicção”. A religião do Sr. Zamagna é aquela que é tão ampla que inclui, não só os inimigos declarados da Fé Católica, mas até os ateus. Inclui não só o deão da Catedral de São Paulo ou o Bispo de Birmingham, mas também H.G. Wells. Catequese para ele é a pregação do vale tudo doutrinário, do quem quiser pode entrar, do amor à criatura e não ao Criador.

1. Para fazer DOWNLOAD DO LIVRO com os primeiros 28 posts sobre a Missa de Paulo VI (e algumas coisas mais) clique aqui.

2. Para ver outros comentários sobre a Missa nova, clique: Parte XX, Parte XXI, Parte XXII, Parte XXIII, Parte XXIV, A dissolução da catequese: Romano Amério conta como foi, Parte XXV, Parte XXVI, Parte XXVII

Sábado, Janeiro 16, 2010

O QUE É “A COISA”?

 

Tenho traduzido um livro de Chesterton pouco conhecido do público brasileiro (“A Coisa”), público este que conhece muito pouco desse extraordinário escritor católico inglês. Em algum momento um leitor pediu que eu desse uma contextualização maior sobre o livro e sobre os ensaios nele contidos. Não tive tempo de fazer mais do que, em todo ensaio traduzido, adicionar a frase “Do livro ‘A Coisa’, publicado em 1929”. Pretendo agora dar um pouco mais de informação sobre o livro, traduzindo a introdução do mesmo e também um comentário de Dale Ahlquist, contido em seu interessante livro “G.K. Chesterton: The Apostle of Common Sense” [G.K. Chesterton: O Apóstolo do Senso Comum].

Apenas como informação adicional, “A Coisa” é o primeiro livro de Chesterton publicado após sua conversão, que ocorreu em 1922. Chesterton era, de fato, um católico muito antes disso. Sua conversão demorou muito, pois ele esperou sua esposa, que era anglicana, para que ambos se convertessem simultaneamente. Que maior prova de amor um marido pode dar à sua esposa?

Sobre esta conversão Ahlquist diz na introdução de seu livro: “Em 1922, eles [seus críticos] ficaram ainda mais chocados, quando G.K. Chesterton se tornou membro da Igreja Católica Romana. Que um grande homem de letras abraçasse a antiga Igreja de Roma era algo como um escândalo no mundo literário e no meio intelectual. Eles pensaram que Chesterton tinha repentinamente se tornado mais limitado, quando de fato, se tornara universal. O que para eles era um completo quebra-cabeça era, para o próprio Chesterton, a peça final do quebra-cabeça, a completude de um completo pensador.”

Antes de passar aos uextos, listo abaixo, na ordem em que aparecem no livro, os 9 ensaios que traduzi até agora, de um total de 35.

A lógica e o tênis

Por que sou católico

A máscara do agnóstico

Um pensamento simples

A Revolta contra as Idéias

As superstições do protestante

Raízes da sanidade

Inge versus Barnes

O que pensamos a respeito

Pretendo traduzir todos os ensaios, se Deus quiser. Vamos aos textos.

Comentário de Dale Ahlquist – Capítulo 6

Em 1929, Chesterton publicou uma coleção de ensaios sobre o sugestivo título “A Coisa”. (Edições modernas do livro têm adicionado o subtítulo “Por que sou católico”, que é o título de um dos ensaios do livro.) O que é “A Coisa”? Não é apenas qualquer coisa. Não é apenas outra coisa. É A Coisa. É a Igreja Católica.

Nesse livro Chesterton compara “A Coisa” com todas as coisas: filosofias mundanas, negócios, nacionalismo, protestantismo, agnosticismo, arte, história, educação, e até mesmo esportes. A palavra “católico” significa “universal”, e nesse livro Chesterton mostra como A Coisa aplica-se a tudo o mais. Ele também mostra com A Coisa se opõe a tudo o mais. Os ataques contra a fé católica vêm de todos os lados. Chesterton nota que a “tolerância religiosa” parece significar que o cristão liberal e tolerante vê o bem em todas as religiões e nada, exceto o mal, na Igreja Católica. Ele não apenas defende a Igreja de uma grande variedade de ataques, ele mostra como ela é a solução correta para todos os dilemas do mundo. Em todos os casos, a posição católica é a do senso comum. “A Fé”, diz ele, “devolve ao homem seu corpo, sua alma, sua razão, sua vontade e sua própria vida.”

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INTRODUÇÃO

Do livro “A Coisa”, publicado em 1929.

Gilbert Keith Chesterton

Objetar-se-á naturalmente em relação à publicação destes ensaios dizendo que são de natureza efêmera e controvertida. Em outras palavras, o crítico normal os desprezará como excessivamente frívolos e desgostará deles por serem excessivamente sérios. A trégua de bom gosto assaz unilateral, envolvendo todas as questões religiosas, que prevaleceu até pouco tempo atrás, agora deu lugar a uma guerra assaz unilateral. Mas a trégua pode ainda ser invocada, como o terrorismo do gosto é invocado contra a minoria. Todos conhecemos o bom e velho coronel conservador que jura, com sua face vermelha, que não vai falar de política, mas aquela condenação ao inferno de todos aqueles malditos socialistas não é política. Todos temos um agradável sentimento pela querida e velha senhora, que vive em Bath ou Cheltenham, que não sonharia maldizer ninguém, mas que certamente pensa que todos os discordantes são excessivamente temerários ou que empregados irlandeses são realmente impossíveis. É no espírito dessas duas pessoas admiráveis que a controvérsia é agora conduzida na imprensa, em nome de uma Fé Progressiva ou de uma Religião da Irmandade Universal. Assim, contanto que o escritor empregue gestos de companheirismo e hospitalidade vastos e universais a todos os que estão prontos a abandonar suas crenças religiosas, lhe é permitido ser tão rude quanto ele queira a todos os que se aventuram a retê-las. O deão da Catedral de São Paulo se permite alegremente chamar a Igreja Católica de uma corporação traidora e sangrenta; o Sr. H.G. Wells se permite comparar a Santíssima Trindade a uma dança indigna; o Bispo de Birmingham[1] se permite comparar o Santíssimo Sacramento a uma bárbara festa de sangue. Considera-se que frases como estas não conseguem perturbar aquela paz e harmonia humanas que todos os humanitaristas desejam; não há nada NESSAS expressões que poderia interferir com a irmandade e a simpatia que une a sociedade. Podemos estar certos disto, pois temos a palavra dos próprios escritores de que seu objetivo é gerar uma atmosfera de liberalidade e amor. Se, portanto, qualquer interrupção infeliz estragar a harmonia da ocasião, se for realmente impossível que essas festividades fraternais transcorram sem algum tolo distúrbio, ou sem alguém fazer uma cena, é óbvio que a culpa deve recair sobre uns poucos indivíduos irritáveis e irritantes, que não aceitam essas descrições da Trindade, do Santíssimo Sacramento e da Igreja como expressões que tranqüilizem seus sentimentos ou satisfaçam suas idéias.

Está claro em todas essas afirmações que elas são aceitas por todas as pessoas inteligentes, exceto por aqueles que não as aceitam. Mas como eu mesmo, em minha experiência política, me aventurei a duvidar do direito do coronel conservador de amaldiçoar seus oponentes políticos e dizer que isso não é política, ou da senhora de amar a todos e odiar os irlandeses, tenho a mesma dificuldade em admitir o direito do cristão mais liberal e tolerante de ver o bem em todas as religiões e nada, exceto o mal, na minha. Mas sei que publicar réplicas para se contrapor a isso, particularmente réplicas diretas que já foram usadas em controvérsias reais, será considerado por muitos como uma provocação e uma impertinência.

Bem, devo confessar neste caso que sou tão antiquado a ponto de senti-lo como um ponto de honra. Penso que posso dizer que sou normalmente do tipo sociável, que se dá bem com seus semelhantes; nem sempre estou disposto a discutir ou disputar; e valorizo muito as relações geralmente alegres que mantenho com aqueles que de mim diferem por meros argumentos. Gosto muito da Inglaterra, mesmo como ela é, muito diferente do que foi ou poderá vir a ser; tenho vários gostos populares, das histórias de detetives à defesa dos bares; vi-me em muitas situações do lado da maioria, como por exemplo, na propaganda do patriotismo inglês durante a Grande Guerra. Posso até descobrir nessas simpatias um material suficiente para interesses populares; e, num sentido mais prático, nada me satisfaz mais do que escrever histórias de detetive, exceto lê-las. Mas se nesta excessivamente feliz e preguiçosa existência descubro que meus companheiros de religião estão sendo execrados com insultos por dizerem que sua religião é verdadeira, não seria correto que eu não me colocasse na posição de ser também insultado. Muitos deles tiveram uma vida muito dura e eu, uma vida muito fácil, para não considerar um privilégio ser objeto dos mesmos curiosos e controvertidos métodos. Se o deão da Catedral de São Paulo realmente acredita, como ele indubitavelmente diz, que os mais devotos e devotados líderes da Igreja Católica, quando aceitam (realista, e mesmo, relutantemente) o fato de um milagre moderno, eles fazem parte de uma “lucrativa impostura”, devo preferir acreditar que me acusa, juntamente com homens melhores que eu, de me tornar um impostor meramente por lucro imundo. Se a palavra “jesuíta” é usada como sinônimo da palavra “mentiroso”, devo preferir que a mesma simples tradução deva se aplicar à palavra “jornalista”, o que é muito mais freqüentemente verdade. Se o deão acusa os católicos, como católicos, de desejar que homens inocentes morram na prisão (como ele faz), devo preferir que ele me conte como responsável por alguma parte desse terrível e sanguinário melodrama; isso poderia, em qualquer caso, servir de material para uma história de detetive. Em resumo, é precisamente porque eu simpatizo e concordo com meus companheiros protestantes e agnósticos, em noventa e nove assuntos em cem, que sinto ser um ponto de honra não desprezar suas acusações nesses pontos, se eles realmente têm tais acusações a fazer. Sinto muito se este pequeno livro parece ser controvertido em assuntos sobre os quais todo mundo se permite ser controvertido, exceto nós mesmos. Mas temo que não haja solução para isso; e se asseguro ao leitor que tentei começar escrevendo-o com um inquebrantável espírito de caridade, é sempre possível que a caridade possa ser tão unilateral quanto a controvérsia. De qualquer maneira, o livro representa minha atitude em relação à controvérsia; e é quase impossível que tudo nele esteja errado, exceto o que esteja certo.


[1] Bispo da Igreja Anglicana. (N. do T.)

Sábado, Janeiro 09, 2010

O profeta “frei” Betto: agora ele se mostra inimigo da Igreja

“Frei” Betto, chamado por Pe. Gelson de profeta (clique aqui e veja também os comentários), escreve um artigo no Estado de Minas de 07/01/2010, intitulado “Novo olhar sobre o universo”. Nele este “frei” ataca a Igreja Católica, enaltece Galileu e Copérnico e cita, como gran finale, o herético e impostor Teilhard de Chardin. Ele mostra de uma só tacada, que, não só não é católico, como é inimigo da Igreja.

Mostra também que “o modo de concebermos Deus” é comandado pela ciência. Aqui ele mostra que não entende nada sobre a ciência. O objeto da ciência não é Deus e sim um recorte muito limitado do que chamamos de natureza. Colocar-se à mercê da ciência para conceber Deus é de um primarismo mental colossal.

Assim, ele nos descreve como a cosmovisão de Ptolomeu “favoreceu a hegemonia espiritual, cultural e econômica da Igreja Católica, encarada pela fé como imagem da Jerusalém Celeste.” Ficamos a imaginar toda a expansão da Igreja na época pós-apostólica, naqueles trezentos anos terríveis sob a pata do Império Romano, com tanto sangue dos mártires escorrendo pelas ruas de Roma, os pregadores cristãos falando, não sobre Cristo, não sobre a Redenção, não sobre a Ressurreição, mas sobre Ptolomeu e seus ciclos e epiciclos. É só lermos na História Eclesiástica, de Eusébio de Cesaréia, a história do martírio de São Policarpo, bispo de Esmirna. Vejamos uma passagem dessa obra, quando narra o martírio do bispo.

“Logo em volta dele foram dispostos os materiais adequados para a fogueira. Como se preparavam para fixá-lo, pregando-o, disse: ‘Deixai-me assim, pois Aquele que me concedeu aguardar com firmeza o fogo, conceder-me-á ainda, sem a garantia de vossos pregos, ficar imóvel na fogueira.’ Por isso, não foi pregado, e sim amarrado.

“Amarrado, com as mãos às costas, parecia um cordeiro escolhido, tirado de grande rebanho, para se tornar um holocausto agradável a Deus onipotente. Então, disse: ‘Pai de teu filho bem-amado e bendito Jesus Cristo, por meio do qual adquirimos o conhecimento de Ti, Deus dos anjos, das potestades, e de toda a criação, da geração dos justos que vivem diante de Ti, eu Te bendigo porque me julgastes digno deste dia e desta hora; de participar do número dos mártires, do cálice de teu Cristo, para a ressurreição da vida eterna, do corpo e da alma, na incorruptibilidade do Espírito Santo. Seja recebido entre eles diante de Ti, hoje, num sacrifício gordo e aceitável, conforme preparaste e manifestaste previamente, e que consumaste, Deus sem mentira e verdadeiro. Por isso e por todas as coisas, eu Te louvo, Te bendigo, Te glorifico, pelo eterno e sumo sacerdote, Jesus Cristo, Teu Filho bem amado, por quem a Ti, com Ele, no Espírito Santo, glória seja dada agora e nos séculos futuros. Amém.’ ”

Isso tudo ocorreu com Policarpo quando ele já passava dos 80 anos. E veja que “frei” Betto nos quer fazer crer que o cristianismo se fortaleceu à sombra de ciclos e epiciclos, de um modelo de medição de posição de estrelas e planetas concebido por Ptolomeu. Nada a ver com Cristo e seus apóstolos e mártires. Nada a ver com o Espírito Santo iluminando os cristãos ao longo da história e fortalecendo sua Igreja. E notem só a malícia da expressão “hegemonia econômica da Igreja”.

Esse herege malicioso considera que a cosmovisão da Jerusalém Celeste foi criada por Ptolomeu. Será que ele já ouviu falar de Santo Agostinho e sua obra a Cidade de Deus?

Ele prossegue profetizando: “Com o advento da Idade Moderna, (...) o paradigma da fé deu lugar à razão, a religião à ciência.” Aqui se demonstra de forma cabal que esse “frei” não conhece também Santo Tomás. Mas não precisamos ir muito alto. Não precisamos escalar a montanha chamada Santo Tomás de Aquino. Precisamos apenas perguntar ao articulista do Estado de Minas, exatamente como esses paradigmas se sucederam. Como a razão sucedeu à fé e a religião, à ciência. Isso quer dizer que hoje o homem não deve ter fé, porque a razão já provou que é inválido tudo em que acredita aquele que tem fé? O homem religioso deve, agora, desistir de sua religião porque a ciência desacreditou completamente seus fundamentos? Diga-nos senhor “frei”, em que a mecânica quântica descredencia o Decálogo, ou a teoria da relatividade descredencia o dogma da Imaculada Conceição, ou a segunda lei da termodinâmica descredencia a presença de Nosso Senhor no Sacramento da Eucaristia, ou a genética descredencia o Pecado Original? Quanto à razão, em que ela fica diminuída num homem que crê nas aparições de Nossa Senhora ao longo da história, ou na ressurreição de Lázaro, ou não transformação de água em vinho nas bodas de Caná, ou nos cinco estigmas de São Padre Pio, ou nas visões de Santa Brígida da Suécia, para citar alguns exemplos?

Os que dão algum crédito a tais argumentos devem ler, no mínimo, o livro de David Berlinsk, The Devil's Delusion, que demonstra integralmente que a ciência não tem autoridade alguma em relação a nenhuma religião do mundo.

Existem coisas também hilariantes no artigo em tela. Exaltando a mecânica quântica, nosso “frei” solta esta: “No interior do átomo, a nossa lógica cartesiana não funciona, pois ali predomina o princípio da indeterminação, ou seja, não se pode prever com exatidão o movimento das partículas subatômicas.” Uai! como diríamos nós mineiros (eu e ele), dados e roletas têm também resultados unitários indeterminados. Será que eles também destroem a “lógica cartesiana”. Aliás, o quem vem a ser essa “lógica cartesiana”? Será que o articulista do jornal mineiro já ouviu falar de estatística? A confusão deste senhor é monu-mental!

Outra coisa hilariante é esta: “Nossa visão religiosa agora é pananteísta. O pananteísmo diz que Deus está em todas as coisas.” Notaram a palavrinha “agora”. Este senhor se considera fundador de uma nova religião. Só que se ele continuar assim vai acabar descobrindo o catolicismo qualquer hora destas! A presença de Deus em toda a criação é uma das muitas coisas em que os católicos sempre acreditaram. Para nós Deus está presente inclusive no Inferno, através de sua Justiça. Seria necessário apenas que esse senhor lesse a Questão 8 da Suma Teológica, de Santo Tomás de Aquino. Esta questão é sobre a existência de Deus nas coisas e está divida em 4 artigos: Deus está em todas as coisas?; Está Deus em toda parte?; Deus está em toda parte por sua essência, presença e poder?; Estar em toda parte é próprio de Deus? Não seria pedir muito que as pessoas estudassem um pouco antes de opinar.

Sejamos claros: “frei” Betto não conhece a Doutrina Católica e é um inimigo da Igreja. E ainda há padres que o consideram profeta!