quinta-feira, abril 23, 2009

Lições das Missas dominicais pós-Vaticano II – Adendo III

Em meus comentários sobre a Missa de Paulo VI, tenho evitado comentários litúrgicos, pois os considero muito mais complexos. Comento apenas as opiniões de padres da Igreja que demonstram a ignorância – na melhor das hipóteses – ou a malícia desses indivíduos que um dia receberam o Sacramento da Ordem. O catolicismo sabido e professado por todos os católicos de 50 anos atrás é desconhecido até pelos padres atuais. A situação é gravíssima, pois os católicos nominais de hoje estão professando uma religião diferente, muito parecida com algumas correntes do protestantismo, protestantismo que só pode ser definido como algo em oposição à Igreja, ou seja, algo que não é, ao invés de algo que é.

Não desejo começar uma série de comentários litúrgicos. Quem se interessar por esse tipo de assunto pode consultar muito boas fontes. Livros como Iota Unum e The Eternal Sacrifice: The Liturgy since Vatican II são exemplos de tais fontes. Há muitas outras boas fontes para esse assunto na Internet. Os sítios católicos que recomendo estão aí do lado esquerdo.

O que gostaria de mostrar neste post é como clérigos, agindo dentro da própria Igreja, fazem tão mal a ela e a seus fiéis. Fazem consciente ou inconscientemente? Isso eu não sei. Ninguém sabe. Por isso não podemos julgar as consciência, apenas os atos. Só Deus nos julgará integralmente.

Dirão os leitores que isso não é novidade, que sempre foi assim e que a Igreja sempre terá inimigos internos e externos. Concordo. Mas uma coisa é você ler sobre a heresia ariana, ou sobre os albigenses, outra coisa é vivenciar uma situação em que várias heresias antigas reaparecem como se fossem fenômenos novos, com toda a vitalidade de um recém nascido.

Se alguém quiser ter uma idéia das mudanças litúrgicas introduzidas pelo Concílio Vaticano II de uma forma concentrada, sem ter de ler todas as quase 800 páginas do Iota Unum, sem ter de se confundir com aspectos litúrgicos e teológicos complicados de um relatório Ottaviani, sem ter de ler livros tais como Do Liberalismo à Apostasia, basta que se compare a “Oração Universal”, do missal de Paulo VI, com “A Oração dos Fiéis”, do missal de São Pio V, que se reza na Sexta-Feira Santa.

Vamos comparar algumas partes das duas orações. Compararei apenas as partes cujas diferenças realcem pontos discordantes importantes. São meus os negritos. Meus eventuais comentários aparecem em itálico. A numeração das parte segue o Missal de Paulo VI.

1ª. parte

Missal de Paulo VI – Oremos, irmãos e irmãs caríssimos, pela santa Igreja de Deus: que o Senhor nosso Deus lhe dê a paz e a unidade, que ele (sic!) a proteja por toda a terra e nos conceda uma vida calma e tranqüila, para sua própria glória.

Missal de São Pio V – Oremos, irmãos caríssimos, pela santa Igreja de Deus, para que Deus, Nosso Senhor, se digne dar-lhe a paz, conservá-la em união e defendê-la por toda a terra, sujeitando-lhe os principados e potestades deste mundo, e nos conceda uma vida calma e tranqüila, para glorificarmos a Deus, Pai onipotente.

É muito significativo que a oração moderna não peça a Deus que sujeite à Igreja os principados e potestades deste mundo. Paulo nos diz (Ef. 6,12): “porque não temos de lutar contra a carne e o sangue, mas contra os principados e as potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra os espíritos malignos espalhados pelo ar.” O que significa isso? Significa que “não temos de lutar contra seres compostos de carne e sangue, mas contra os espíritos maus que são os dominadores deste mundo, isto é, do mundo perverso, imerso nas trevas do erro e do pecado” [Novo Testamento, Edições Paulinas, 1969, com comentários do Pontifício Instituto Bíblico de Roma]. A frase retirada é, portanto, muitíssimo importante, para quem acredita que os principados e potestades dominam o mundo. Peço permissão para citar um trecho de um post anterior, que vem bem a propósito de nosso assunto: “Um dos fatos mais incontestáveis do período pós-Vaticano II foi a reinterpretação que se deu da figura de Satanás, ou mesmo a pura descrença em relação ao maligno. O Pe. Grabriele Amorth, exorcista de Roma, responsável por mais de 20.000 exorcismos, em seu livro ‘Um Exorcista Conta-nos’, diz: ‘Erram completamente aqueles teólogos modernos que identificam Satanás com a idéia abstrata do mal: isto é heresia autêntica, ou seja, está em aberta oposição à Bíblia, à patrística, ao magistério da Igreja’. Diz ainda mais à frente, no mesmo capítulo: ‘Já os mais antigos Padres da Igreja, como por exemplo, Justino e Irineu expõem com clareza o pensamento cristão sobre o demônio e sobre o poder de expulsar, sendo seguidos por outros padres, entre os quais Tertuliano e Orígenes. Basta citar estes quatro autores para envergonhar tantos teólogos modernos que praticamente não acreditam nos demônios ou não falam absolutamente nada sobre eles.’ ” Aí está. A retirada da frase vale pela afirmação da descrença no maligno.

Há de se notar também a letra minúscula no ele, quando se refere a Deus. Isso não foi um erro de edição e é comum, pelo menos n’O Domingo, que uso como referência. Por fim, coisa de somenos importância é o tratamento politicamente correto, portanto deslavadamente comunista, da abertura da oração: “irmãos e irmãs”.

5ª. parte

Missal de Paulo VI – Oremos por nossos irmãos e irmãs que crêem em Cristo, para que o Senhor nosso Deus se digne reunir e conservar na unidade da sua Igreja todos os que vivem segundo a verdade. Deus eterno e todo-poderoso, que reunis o que está disperso e conservai o que está unido, velai sobre o rebanho do vosso Filho. Que a integridade da fé e os laços da caridade unam os que foram consagrados por um só batismo. Por Cristo, nosso Senhor.

Missal de São Pio V – Oremos também pelos hereges e cismáticos, para que Deus Nosso Senhor, os livre de todos os erros e se digne reconduzi-los à santa Madre Igreja Católica e Apostólica. Onipotente e eterno Deus, que salvais todos os homens e não quereis a perdição de ninguém, volvei os vossos olhos para as almas seduzidas pelos artifícios do demônio, para que, abandonando toda a maldade da heresia, se arrependam de seus erros e voltem à participação de vossa verdade. Por N.S.

Lendo a oração moderna, com sua linguagem melíflua, é impossível não lembrar do que Cristo nos ensinou: “Seja pois o vosso falar: Sim, sim, não, não, porque tudo que passa disso procede do maligno.” A oração moderna pede a unidade de “todos os que vivem segundo a verdade”. “E o que é a verdade”, perguntou Pilatos a Jesus. Lendo a oração antiga, vemos o que a Igreja sempre acreditou e pelo que ela sempre rezou: pela conversão dos hereges e cismáticos, nada mais, nada menos.

6ª. parte

Missal de Paulo VI – Oremos pelos judeus, aos quais o Senhor nosso Deus falou em primeiro lugar, a fim de que cresçam na fidelidade de sua aliança e no amor do seu nome. Deus eterno e todo-poderoso, que fizestes vossas promessas a Abraão e seus descendentes, escutai as preces de vossa Igreja. Que o povo da primitiva aliança mereça alcançar a plenitude da vossa redenção. Por Cristo, nosso Senhor.

Missal de São Pio V – Oremos também pelos obstinados judeus, para que Deus, Nosso Senhor, tire de seus corações o véu da cegueira, a fim de chegarem ao conhecimento de N.S. Jesus Cristo. Onipotente e eterno Deus, que em vossa misericórdia, não repelis nem mesmo a obstinação dos judeus, ouvi as preces que Vos fazemos pela cegueira deste povo, para que reconhecendo ele a Luz de vossa Verdade, que é o Cristo, seja livre de suas trevas. Pelo mesmo J.C.

O missal moderno reza para que os judeus sejam salvos, mesmo não aceitando Jesus, mesmo vivendo a antiga aliança. “Pois este é o cálice do meu sangue, do novo e eterno testamento – mistério de fé – que será derramado por vós e por muitos em remissão dos pecados.” A nova aliança é a aliança eterna. A antiga aliança termina aqui, no sangue de Jesus, que é o Agnus Dei. Ou se acredita nisso, ou não se é católico. Acreditar que a antiga aliança ainda tem a força da salvação é acreditar que a Paixão foi em vão, é pecado gravíssimo, é pura e perfeita heresia. O missal moderno cai em heresia? Quem sou eu para dizer! Isso é matéria seríssima e só deve ser tratada em alto nível. O que observo é que as palavras do missal dão a entender algo grave e só. Por outro lado, o missal antigo pede para que Deus tire dos corações do judeus a cegueira. Que cegueira? Aquela que os impediu, e ainda os impede, de ver em Jesus o Messias anunciado em todo o Velho Testamento. É uma oração de piedade e a única coisa que podemos fazer, pois queremos a salvação deles e de todos.

9ª. parte

Missal de Paulo VI – Oremos por todos os governantes: que o nosso Deus e Senhor, segundo sua vontade, lhes dirija o espírito e o coração para que todos possam gozar de verdadeira paz e liberdade. Deus eterno e todo-poderoso, que tendes na mão o coração do seres humanos e o direito dos povos, olhai com bondade aqueles que nos governam. Que por vossa graça se consolidem por toda a terra a segurança e a paz, a prosperidade das nações e a liberdade religiosa. Por Cristo, nosso Senhor.

Missal de São Pio V – Oremos por todos os governantes das nações, seus ministérios e domínios, a fim de que Deus e Senhor nosso lhes dirija as inteligência e os corações segundo a sua vontade para nossa perpétua paz. Onipotente e eterno Deus, em cujas mãos estão os poderes e os direitos de todos os povos: volvei vosso olhar de bondade para aqueles que nos governam, a fim de que, no mundo inteiro, permaneçam estáveis a integridade da religião e a segurança da pátria. Por N.S.

Aqui há coisas sutis e coisas escandalosas. Sutilmente a oração moderna pede a Deus prosperidade e liberdade. Isso é errado, claro. Primeiro porque não estamos aqui para ser prósperos. Estamos aqui tentando ser salvos. Depois, a oração por liberdade, o que significa? Se for liberdade de fazermos o que bem entendemos, a Igreja não pode orar por tal coisa. Se for a liberdade definida por Leão XIII na encíclica Libertas, aí sim. Infelizmente, suspeito que este não seja o caso da oração moderna, pois logo depois vem o escândalo, quando se reza pela liberdade religiosa. Se rezamos pela liberdade religiosa, estamos rezando para que Deus dê a todos a liberdade de escolher sua religião ao seu bel prazer. Isso significa que não acreditamos que só há salvação na Igreja Católica. Não há outra forma de entender isso.

Uma forma de não acreditar que a Igreja é o único caminho para a salvação de nossas almas é não acreditando em Jesus, como nosso Salvador. Jesus disse a Pedro: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus, e o que ligares na terra ficará ligado nos céus; e o que desligares na terra ficará desligado nos céus.” Se acredito que Jesus é Deus e nosso Salvador, então só mesmo a loucura pode fazer alguém acreditar que haja salvação fora da Igreja católica. Não podemos pedir a Deus a liberdade religiosa, justamente porque assim estaremos pedindo a Deus a perdição das almas. Não podemos obrigar ninguém a ser católico, mas não podemos incluir em nossos pedidos a Deus que alguém não seja católico.

Há muitas outras coisas a ser observadas nas duas orações, mas este post já está muito longo. De qualquer forma, acredito ter comentado os pontos mais importantes.

Que Deus nos ilumine a todos para que possamos melhor servir ao Seu Filho e a sua Igreja e, com isso, consigamos nossa própria salvação.

Para ver outros comentários sobre a Missa nova, clique: Parte I, Parte II, Parte III, Parte IV, Parte V, Parte VI, Parte VII, Parte VIII, Parte IX, Parte X, Parte XI, Parte XII, Parte XIII, Parte XIV, Parte XV, Parte XVI, Parte XVII

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4 comentários:

fausto disse...

Caro professor, salve Maria.

Achei simplesmente sensacional sua análise.

O que me deixa ainda mais escandalizado é que essas são as orações para serem rezadas pelos que estão em "plena comunhão".
E isso é lastimável.

Viva a Roma eterna!

fausto

Theophilus disse...

Angueth,
Se possível, poderia disponibilizar para seus leitores do blogue (entre os quais me incluo) uma tradução do livro de Michael Davis - ou uma versão em pdf?
Pax Christi

Antonio Emilio Angueth de Araujo disse...

Caro Theophilus,
Salve Maria!

Desconheço se há alguma versão em pdf do livro de Michael Davis. O livrinho (56 páginas) é publicado pela The Newmann Press e é protegido por copyright.

Certa vez, sugeri a D. Lourenço, da Editora Permanência, a tradução de livros de Michael Davis. Parece que ele não ficou muito animado.

Nada me agradaria mais que traduzir Michael Davis, principalmente "The Eternal Sacrifice" e "Liturgical Time Bombs in Vatican II". Quem sabe ainda aparece uma editora interessada?!

In Iesu et Maria.

Antônio Emílio Angueth de Araújo

Hamilton disse...

Angueth,
Se possível, poderia disponibilizar para seus leitores do blogue (entre os quais me incluo) uma tradução do livro Phantastes de George MacDonald - ou uma versão em pdf? Parece que foi um livro que muto influenciou C.S.Lewis
Pax Christi