sábado, maio 29, 2010
Objeções à Caridade
sexta-feira, março 19, 2010
O Estado Servil
Hilaire Belloc
TRADUÇÃO: Guilherme Ferreira Araújo.
Nota do blogueiro: Começamos o projeto de tradução d’O Estado Servil, de Hilaire Belloc. Que Nossa Senhora nos ilumine e seu casto esposo, São José, nos proteja.
“...Se não restaurarmos a Instituição da Propriedade, não poderemos escapar de restaurar a Instituição da Escravidão; não há terceira via.”
Sumário
INTRODUÇÃO
O TEMA DESTE LIVRO: — Ele foi escrito para sustentar a tese de que a sociedade industrial tal como a conhecemos tenderá ao restabelecimento da escravidão — As seções nas quais o livro será dividido.
SEÇÃO I
DEFINIÇÕES: — O que é a riqueza e por que ela é necessária ao homem — Como é produzida — O significado das palavras Capital, Proletariado, Propriedade, Meios de Produção — A definição de Estado Capitalista — A definição de ESTADO SERVIL — O que ele é e o que não é — O restabelecimento do status em lugar do contrato — A servidão não é uma questão de grau, mas de estado. — Resumo dessas definições.
SEÇÃO II
NOSSA CIVILICAÇÃO FOI ORIGINALMENTE SERVIL: — a instituição servil na antiguidade pagã — Sua característica fundamental — Uma sociedade pagã a tomou por certa — A instituição é desarranjada pelo advento da Igreja de Cristo.
SEÇÃO III
COMO A INSTITUIÇÃO SERVIL FOI DISSOLVIDA DURANTE UM CERTO TEMPO: — O efeito subconsciente da Fé nessa questão — Os principais elementos da economia da sociedade pagã — A Vila — A transformação do escravo agrícola no servo cristão — Próximo ao camponês cristão — A construção correspondente do ESTADO DISTRIBUTIVO por toda a Cristandade — Ela está quase completa no fim da Idade Média — “Não foram as máquinas que tiraram nossa liberdade, mas a perda do intelecto livre”.
SEÇÃO IV
COMO O ESTADO DISTRIBUTIVO DEFINHOU: — Esse malogro tem origem na Inglaterra — A história do declínio desde a propriedade Distributiva até o Capitalismo — A revolução econômica do século XVI — O confisco das terras monásticas — O que poderia ter acontecido se o Estado as tivesse retido — O fato é que aquelas terras foram capturadas por uma oligarquia — A Inglaterra era capitalista antes do advento da revolução industrial — Portanto, a indústria moderna, proveniente da Inglaterra, cresceu num molde capitalista.
SEÇÃO V
O ESTADO CAPITALISTA TORNA-SE INSTÁVEL À PROPORÇÃO QUE SE APERFEIÇOA: — Ele pode, por sua natureza, ser não mais que uma fase transitória entre uma primitiva ou tardia situação estável da sociedade — As duas forças externas que o tornam instável — (a) O conflito entre suas realidades sociais e suas bases morais e legais — (b) A insegurança e a insuficiência as quais ele condena os cidadãos livres — Os poucos proprietários podem conceder ou reter os meios de sustento dos não-proprietários — O capitalismo é tão instável que ele ousa não proceder à sua própria conclusão lógica, mas tende a restringir a competição aos proprietários e a insegurança e a insuficiência aos não-proprietários.
SEÇÃO VI
AS SOLUÇÕES ESTÁVEIS PARA ESSA INSTABILIDADE: — Os três arranjos sociais estáveis que sozinhos podem ocupar o lugar do instável Capitalismo — A solução Distributiva, a solução Coletivista, a solução Servil — Restam apenas a solução Distributiva e a Coletivista.
SEÇÃO VII
O SOCIALISMO É A SOLUÇÃO APARENTE MAIS FÁCIL PARA O PROBLEMA CAPITALISTA: — Um contraste entre o reformador que promove a Distribuição e o reformador que promove o Socialismo (ou Coletivismo) — As dificuldades encontradas pelo primeiro tipo — Ele está trabalhando contra a natureza — O segundo está trabalhando no “sentido dos veios” — O coletivismo é um desenvolvimento natural do capitalismo — Ele atrai tanto o capitalista quanto o proletário — Todavia, veremos que o empreendimento coletivista está fadado ao fracasso e a produzir algo muito diferente de seu objeto — a saber, o Estado Servil.
SEÇÃO VIII
TANTO OS REFORMADORES QUANTO OS REFORMADOS ESTÃO PROMOVENDO O ESTADO SERVIL: — Há dois tipos de reformadores trabalhando junto à linha de menor resistência — Estes são o Socialista e o Homem Prático — Porém, há dois tipos de Socialista: o Humanista e o Estatístico — O Humanista gostaria tanto de confiscar dos proprietários quanto de instituir segurança e suficiência para os não-proprietários — É-lhe permitido fazer a segunda coisa por via do estabelecimento de condições servis — Ele está proibido de fazer a primeira — O Estatístico fica satisfeito desde que ele possa conduzir e organizar os pobres — Ambos são canalizados em direção ao Estado Servil e ambos são distanciados de seu Estado Coletivista ideal — Nesse ínterim, a grande massa – o proletariado – sobre a qual os reformadores estão trabalhando, ainda que retendo o instinto da posse, perdeu qualquer experiência dele e está muito mais sujeita à lei privada do que à dos tribunais — Foi exatamente isso o que aconteceu no passado, durante a mudança oposta da Escravidão para a Liberdade — A lei privada tornou-se mais forte que a pública no início da Idade Média — Os proprietários saudaram as mudanças que os mantiveram em posse da propriedade e ainda ampliaram a segurança de seus rendimentos — Hoje os não-proprietários darão as boas-vindas ao que quer que os conserve como uma classe assalariada, mas aumente seus salários e sua segurança sem insistir na expropriação dos proprietários.
Um apêndice que demonstra que é vã a proposta Coletivista de resgatar o Capitalista em lugar de expropriá-lo.
SEÇÃO IX
O ESTADO SERVIL COMEÇOU: — A manifestação do Estado Servil na lei ou em propostas de lei consistirá em dois tipos — (a) Leis ou propostas de lei que obriguem o proletariado a trabalhar — (b) Operações financeiras que firmem o domínio dos capitalistas sobre a sociedade de forma mais intensa — No que diz respeito a (a), nós encontramos isso JÁ em atividade em medidas tais como a Lei de Seguro e em propostas tais como a Arbitragem Compulsória, o reforço das barganhas dos Sindicatos e a construção de “Colônias de Trabalho”, etc., para os “que não conseguem trabalho” — No que diz respeito ao segundo tipo, nós vemos que os assim chamados experimentos “Municipal” ou “Socialista” para a obtenção dos meios de produção JÁ ampliaram e continuam ampliando a dependência da sociedade em relação ao Capitalista.
CONCLUSÃO
__________________________________________________________________________________________
INTRODUÇÃO
O TEMA DESTE LIVRO
ESTE LIVRO FOI ESCRITO PARA SUSTENTAR e provar a seguinte verdade: —
Que nossa sociedade moderna e livre, na qual os meios de produção são detidos por poucos que estão necessariamente em equilíbrio instável, tende a alcançar uma condição de equilíbrio estável POR MEIO DO ESTABELECIMENTO DO TRABALHO COMPULSÓRIO LEGALMENTE OBRIGATÓRIO SOBRE AQUELES QUE NÃO DETÊM OS MEIOS DE PRODUÇÃO, PARA A VANTAGEM DAQUELES QUE OS POSSUEM. Com este princípio de coerção aplicado contra os não-proprietários deve também advir uma diferença em seu status; e aos olhos da sociedade e de suas leis positivas os homens serão divididos em dois grupos: o primeiro, política e economicamente livre, dotado dos meios de produção e firmado nesse domínio com segurança; o segundo, econômica e politicamente dependente, mas inicialmente firmado, por sua própria falta de liberdade, em algumas coisas necessárias para a vida e em um mínimo de bem-estar abaixo do qual ele não deve cair.
A sociedade que tivesse alcançado tal condição seria libertada de suas atuais tensões internas e teria tomado uma forma estável: quer dizer, capaz de ser indefinidamente prolongada sem mudança. Nela seriam resolvidos os vários fatores de instabilidade que perturbam aquela forma de sociedade chamada Capitalista, e os homens estariam satisfeitos em aceitar – e a continuar em – tal arranjo.
A tal sociedade estável darei, por razões que serão descritas na próxima seção, o título de O ESTADO SERVIL.
Não vou me comprometer a julgar se essa vindoura organização da nossa sociedade moderna é boa ou má. Preocuparei-me apenas em mostrar a tendência necessária em direção a ela que existe há tempo e as recentes disposições sociais que mostram que ela já teve início efetivamente.
Essa nova condição será aceitável para aqueles que desejam conscientemente ou por insinuação o restabelecimento entre nós de uma diferença de status entre proprietário e não-proprietário: ela será desagradável para aqueles que julgam tal distinção com má vontade ou com receio.
Meu trabalho não será penetrar na discussão entre esses dois tipos de pensadores modernos, mas mostrar para cada e para ambos que aquilo que um favorece e de que o outro foge está sobre eles.
Eu provarei minha tese especialmente a partir do caso da sociedade industrial da Grã Bretanha, incluindo aquela pequena, estranha e excepcional região da Irlanda, que sofre ou desfruta das condições industriais de hoje.
Eu dividirei o assunto da seguinte maneira: —
(1) Formularei certas definições.
(2) Em seguida, descreverei a instituição da escravidão e o ESTADO SERVIL do qual ela é a base, como no caso do mundo antigo.
(3) Esboçarei muito rapidamente o processo por meio do qual aquela antiga instituição da escravidão foi lentamente dissolvida durante os séculos cristãos, e por meio do qual o sistema medieval resultante, baseado na propriedade grandemente dividida nos meios de produção, foi
(4) destruído em certas áreas da Europa no momento em que atingiu um acabamento, e colocou no lugar dele, na prática ainda que não em legítima teoria, uma sociedade baseada no CAPITALISMO.
(5) Em seguida, mostrarei como o Capitalismo era instável por natureza, porque suas realidades sociais estavam em conflito com todos os sistemas legais possíveis ou existentes, e porque seus efeitos – ao negar a suficiência e a segurança – eram intoleráveis para os homens; como, então, sendo instável, ele consequentemente introduziu um problema que demandava uma solução: isto é, o estabelecimento de alguma forma estável de sociedade cuja lei e prática social deveriam estar em harmonia, e cujos resultados econômicos, por proporcionarem suficiência e segurança, deveriam ser toleráveis para a natureza humana.
(6) Mostrarei, em seguida, as três únicas soluções possíveis: —
(a) Coletivismo, ou o depositar os meios de produção nas mãos dos administradores políticos da comunidade.
(b) Propriedade, ou o restabelecimento do Estado Distributivo, no qual a massa de cidadãos deveria possuir individualmente os meios de produção.
(c) Escravidão ou o Estado Servil, no qual aqueles que não possuem os meios de produção serão legalmente forçados a trabalhar para aqueles que os possuem, e receberão em troca a segurança do sustento.
Ora, vendo o desgosto que os resíduos de nossa longa tradição cristã semeou em nós por advogarem diretamente a favor da terceira solução e por apoiarem audaciosamente o restabelecimento da escravidão, as duas primeiras, exclusivamente, estão expostas aos reformadores: (1) a reação em direção a uma condição da propriedade bem-dividida ou do Estado Distributivo; (2) uma tentativa de alcançar o Estado Coletivista ideal.
Pode ser facilmente demonstrado que a segunda solução interessa mais natural e facilmente a uma sociedade já capitalista, por causa da dificuldade que tal sociedade tem em descobrir a energia, a vontade e a visão requeridas para a primeira solução.
(7) Procederei, em seguida, a mostrar como a busca por esse Estado Coletivista ideal, que é nascido do capitalismo, leva os homens que atuam numa sociedade capitalista não em direção ao Estado Coletivista nem a nada parecido com ele, mas em direção àquela terceira coisa totalmente diferente — o Estado Servil.
(8) Reconhecendo que um argumento teórico desse tipo, apesar de intelectualmente convincente, não é suficiente para o estabelecimento da minha tese, eu concluirei dando exemplos da legislação inglesa moderna, os quais provam que o Estado Servil está de fato sobre nós.
Tal é o esquema que eu projeto para este livro.
quinta-feira, março 11, 2010
Da Usura
Hilaire Belloc
TRADUÇÃO: NINA BANDEIRA
Notas do blogueiro:
1. Por meio do amigo Carlos Nougué este blog recebe um texto importante de Belloc, numa bela tradução de Nina Bandeira. À Nina e ao Nougué meus mais efusivos agradecimentos. Em tempos em que os católicos nos dividimos entre a Teologia da Libertação e o liberalismo, já não sabemos mais como analisar temas econômicos do ponto de vista católico. Há mesmo quem negue, como vimos no caso de Tom Woods, que a Igreja deva opinar em assuntos econômicos para deixá-los para os entendidos. Já Leão XIII, na Rerum Novarum, nos advertia de que a soberania política, a liberdade humana, a constituição cristã dos Estados e assuntos econômicos são temas que ele julgava dever da Igreja comentar, opinar e interpretar segundo a Tradição e as Escrituras. Belloc, neste ensaio, nos ensina como refletir sobre um assunto econômico de um ponto de vista diferente do comunismo e do liberalismo, considerando a economia uma parte da moral.
2. Anuncio aos leitores do blog que estaremos (eu e Guilherme Ferreira Araujo) traduzindo, nos próximos meses, o Estado Servil, de Hilaire Belloc. Este é um livro em que Belloc trata exclusivamente de economia sob o ponto de vista católico. É um sonho antigo que agora se torna realidade pelas mãos amigas do Guilherme. Estarei postando os primeiros textos desta obra muito proximamente.
______________________________________________________________________________
Usura não significa juros altos, e sim qualquer cobrança de juros, mesmo baixos, sobre um empréstimo improdutivo. Não é apenas imoral (tendo sido, em decorrência disso, condenada por todos os códigos morais – pagãos, muçulmanos ou católicos), mas também, em última análise, destrutiva da sociedade. Somente tornou-se prática usual do nosso comércio após o colapso europeu que se seguiu à Reforma Protestante. A Usura destruirá nossa sociedade, mas não há como escapar-lhe nesse meio-tempo. Aproximamo-nos do final de sua ação maléfica, não devido à conscientização sobre seus males, mas sim por ela beirar o esgotamento de seus recursos. Os empréstimos da Grande Guerra, usurários em sua quase totalidade, aceleraram intensamente esse processo.
O mundo moderno se organiza segundo o princípio de que o dinheiro, por sua própria natureza, gera dinheiro. Uma soma em dinheiro emprestada, segundo nosso sistema atual, tem o direito intrínseco à cobrança de juros. Trata-se de um falso princípio, tanto em termos econômicos quanto morais. Após arruinar Roma, vem-nos conduzindo ao nosso fim.
Suponhamos que um homem o procure e diga: "Há um terreno junto ao meu, excelente para construção. Se eu construir ali uma boa casa, conseguirei alugá-la com lucro líquido de 100 libras esterlinas ao ano, já considerado o pagamento de todas as taxas, impostos e reparos. Só que não disponho de capital para construir a casa. O terreno custará 50 libras e a casa, 950. O senhor me emprestará mil libras, de forma que eu compre o terreno, construa a casa e desfrute dessa pequena renda?" Sua provável resposta seria: "E o que receberei em troca? Certo, o senhor ficará com suas 100 libras ao ano. Mas só as conseguirá graças ao meu auxílio, o que me confere o direito à participação nos lucros. Havemos de dividi-los meio a meio. O senhor retira sua parte de 50 libras ao ano pelo conhecimento da oportunidade e por seu trabalho e me repassa as outras 50. Elas representam 5% do meu investimento, e ficarei satisfeito."
Essa resposta, considerando-se a propriedade como direito moral, constitui oferta perfeitamente lícita. Ao aceitá-la, o indivíduo que solicitou o empréstimo nada tem a reclamar. Por muito tempo (teoricamente, para sempre) seria possível continuar retirando cinco por cento do valor emprestado sem qualquer peso na consciência.
Agora, suponhamos que esse homem o procure e diga: "Conheço o caso de um senhor de meia idade subitamente acometido por terrível doença. Um tratamento médico que custa mil libras esterlinas salvará sua vida, mas ele nunca mais poderá exercer qualquer trabalho. Ele recebe uma pensão de 100 libras ao ano, que garantirá sua subsistência após a operação e o tratamento subsequente. O senhor emprestará as mil libras? Elas serão devolvidas na ocasião de sua morte, por conta de um seguro de vida no valor de mil libras." Sua resposta: "Emprestarei as mil libras para salvar sua vida, mas exijo metade da pensão anual, ou seja, 50 libras ao ano, por cada ano que ele ainda venha a viver; e ele terá de sobreviver como puder com as 50 libras restantes da pensão." Caso ainda lhe restasse alguma sensibilidade, essa proposta o faria sentir-se um patife, e caso contrário – tendo-se tornado um, de fato, pela ação do que foi chamado pelo poeta de "longas jornadas de endurecimento e decadência da alma" – ainda assim seria uma atitude abjeta, embora não lhe causasse a menor inquietude.
Parece, portanto, que certas condições permitem, de forma legítima e moral, emprestar mil libras com cinco por cento de juros mantendo perfeita paz com a própria consciência, e outras não.
Vejamos agora a questão sob outra perspectiva.
Quando a cidade norte-americana de Boston foi fundada, há trezentos anos, um homem de Londres que se propôs a para lá emigrar deixou uma quantidade de ouro no valor de mil libras esterlinas aos cuidados de um ourives londrino permitindo que fizesse uso do dinheiro até que ele ou seus herdeiros o reclamassem, mas com a condição de que cinco por cento do capital deveria render juros compostos até a retirada. O emigrante não retornou. Com o avanço do século XVII, o empreendimento se desenvolveu, assim como muitos outros, em uma espécie de banco. No início do século XVIII, já era um banco em plena forma, e seu sucessor atual faz parte de um dos maiores sistemas bancários de nossos tempos. O depósito original "rendeu frutos", como se costuma dizer, com a dívida se acumulando sem ninguém para reivindicá-la.
Por fim, neste ano de 1931, eis que surge um herdeiro capaz de comprovar seu direito. A soma de capital alcançada pelo modesto investimento de mil libras a cinco por cento deve ser paga a ele por ordem judicial. Consegue imaginar o montante alcançado? – Mais do que o dobro da receita anual dos Estados Unidos na atualidade.
Tomemos um exemplo menos extravagante e talvez mais convincente. Supondo que um homem tenha emprestado dez mil libras esterlinas em regime de hipoteca, com juros de seis por cento, sobre a propriedade de um senhor inglês no início da Guerra da Independência dos Estados Unidos, em 1776: tal propriedade renderia 600 libras por ano ao credor. A dívida não foi cobrada. O constrangido senhor teve permissão para adicionar ao valor principal os pagamentos anuais devidos, de forma que o total fosse acrescido da taxa de juros compostos de seis por cento.
Não se trata de uma suposição de todo impossível. Imagina o que o credor da hipoteca poderia exigir da propriedade nos dias de hoje? Quase cinco milhões de libras ao ano!
Nenhum desses exemplos poderia ocorrer na prática, uma vez que a lei proíbe acumulação tão prolongada. Mas o próprio fato de que a lei viu-se obrigada a aplicar tal proibição comprova haver algo de errado com a noção atual, aplicada de forma generalizada, de que o dinheiro "faz jus" a determinada taxa de juros, tendo a ela direito moral, independentemente da forma como o capital seja empregado.
Pois o que há de comum a todos esses exemplos é o fato evidente de que os juros sobre um empréstimo podem constituir, sob certas circunstâncias de tempo ou extensão, uma exigência de tributação impossível. Podem representar em determinado contexto um tributo moralmente indevido, que não traduz produção extra de riquezas gerada pelo investimento original. Sob certas condições, os valores exigidos não equivalem mais o fruto do investimento original, não correspondendo, portanto, à remuneração de parte dos lucros, mas sim a um pagamento a ser feito, se possível, a partir de quaisquer outros bens que o devedor possa obter. E esse tributo, além de certo ponto, torna-se mesmo impagável, devido à inexistência na sociedade dos meios suficientes para tanto.
Que circunstâncias são essas? Que condições distinguem a exigência de juros moralmente legítima da ilegítima?
A distinção se dá entre a cobrança moral de parte dos frutos de um empréstimo produtivo e a exigência imoral de (1) juros sobre um empréstimo improdutivo ou (2) juros superiores ao incremento anual em riquezas efetivas geradas por um empréstimo produtivo. Tal exigência "esgota" – "consome" – "exaure" as riquezas do devedor, sendo por isso denominada "Usura". Uma derivação imprecisa em termos filológicos, mas correta sob o ponto de vista moral, conecta o termo latino "usura" à idéia de destruir, "exaurir", e não à idéia original do termo "usus," "uso".
A Usura, portanto, é a cobrança de juros sobre um empréstimo improdutivo ou de juros superiores ao incremento real gerado por um empréstimo produtivo. É a exigência de algo ao qual o credor não tem direito, como se eu dissesse: "Pague-me dez sacas de trigo ao ano pelo aluguel destes campos", após os campos terem sido tragados pelo mar ou terem passado a produzir anualmente muito menos do que as dez sacas de trigo.
Devo, com relutância, introduzir aqui um significado coloquial do termo "Usura" que confunde o raciocínio. As pessoas falam de "juros usurários" referindo-se a juros muito elevados. A forma como surgiu essa confusão é elementar. Juros muito elevados são geralmente superiores à riqueza real produzida até mesmo por um empréstimo produtivo, e cobrá-los significa, de fato, cobrar mais do que a produção do empréstimo original; mas não há nada na taxa de juros per se que a torne usurária. É possível cobrar juros de cem por cento sobre um empréstimo e estar em pleno exercício de seus direitos morais.
Por exemplo, uma pequena área de mineração que produzia 15 kg de ouro por ano tem a súbita oportunidade de produzir 200 vezes essa quantidade – 3.000 kg – com a obtenção do capital equivalente a apenas 30 kg para desenvolvimento. O credor desse novo capital não tem a obrigação moral de ceder ao devedor, como presente, os lucros imensamente maiores. É legítimo que reivindique sua parte; ele poderia muito bem exigir metade da nova produção, ou seja, 1.500 kg ao ano, 500 por cento sobre o empréstimo, pois esses juros altos corresponderiam apenas à metade da nova riqueza produzida. A demanda desses 500 por cento não representaria cobrança de tributo sobre riqueza inexistente, nem sobre riqueza que não foi criada pelo capital investido.
Portanto, a rigor a Usura nada tem a ver com o valor dos juros cobrados, mas sim com o fato de haver ou não um incremento produzido pelo capital investido que seja pelo menos igual ao tributo exigido.
Caso seja necessário avalizar uma posição moral tão evidente, esse aval pode ser encontrado em todos os principais sistemas morais sancionados pelas filosofias religiosas e sociais permanentes adotadas pela humanidade. Aristóteles1 a proíbe, assim como São Tomás de Aquino. O sistema ético muçulmano a condena [e, na prática, faz uma condenação ininteligível, ao proibir muitos empréstimos que seriam úteis]2. Temos, em particular, a brilhante decisão do Quarto Concílio de Latrão [1215].
Tudo certo até este ponto. Vejamos agora o desenvolvimento muito interessante que se deu nos tempos modernos, desde o rompimento de nosso sistema moral e religioso comum europeu, com a Reforma Protestante. Após esse desastre, a Usura passou a ser gradualmente admitida. Tornou-se prática comum sancionada pela legislação, com pagamento imposto pela magistratura civil. Na Inglaterra, foi sob o reinado de Cecil, no ano de 1571, que os juros, embora limitados a dez por cento, tornaram-se legais, independentemente da utilização do empréstimo. O ano de nascimento do que se pode chamar "Usura Indiscriminada" foi 1609, quando, sob o Calvinismo, o Banco de Amsterdã iniciou sua próspera carreira em estimular a capacidade dos afortunados e arruinar os desafortunados. De forma geral, os governos que se desligaram da unidade representada pela Cristandade introduziram, um após o outro, a Usura legalizada, obtendo vantagem sobre as nações conservadoras que se empenhavam em manter o antigo código moral. Às novas ideias morais, ou melhor, imorais assim introduzidas, devemos o rápido desenvolvimento do sistema bancário nas nações "reformadas", bem como o controle financeiro que adquiriram e mantiveram por três séculos. Por fim, todos se adequaram ao novo sistema, e hoje a Usura atua lado a lado com o lucro legítimo e, confundida com ele, universalizou-se no que já foi a civilização Cristã. É ponto pacífico que todo empréstimo deve produzir juros, sem questionamento quanto ao seu caráter produtivo ou improdutivo. Todo o aspecto financeiro de nossa civilização ainda se baseia nesse falso conceito. [ênfase acrescentada]
Seria possível escrever um ensaio muito interessante sobre os mais recentes frutos de tal concepção em nossos tempos. Se porventura viesse a ser escrito, um bom título seria "O fim do reinado da Usura". Afinal, vem-se tornando muito claro que o vício inerente ao sistema responsável, tempos atrás, pela derrocada da estrutura social do Império Romano começa a fazer ruir também nossas transações financeiras internacionais. Contudo, com a seguinte diferença: eles foram arruinados pela Usura particular e nós, pela pública.
Mas essas são digressões; voltemos ao assunto. Sendo a Usura uma demanda por dinheiro inexistente (um tributo cobrado não sobre a produção de capital, mas sobre uma margem superior a tal produção, ou mesmo sem que haja produção alguma) e, uma vez admitida em caráter universal, constituindo, de início, um mecanismo para a total concentração das riquezas nas mãos dos credores e, por fim, para a redução do restante da comunidade à servidão econômica; sendo a Usura, em última análise, um sistema fadado a ruir sob seu próprio peso – quando a demanda gerada for superior a toda a capacidade produtiva – surge o questionamento: por que vem sendo praticada com sucesso há tanto tempo? Por que parece estar nas origens de um progresso produtivo tão vasto em todo o mundo?
Ninguém poderá negar seu uso bem-sucedido ao longo de tantas gerações, desde seu sólido estabelecimento como prática generalizada durante o século XVII. Nem seria possível negar que vem acompanhando (e acredito ter, em ampla medida, causado) a grande expansão moderna da produção. E surge aqui uma daquelas aparentes contradições entre uma verdade matemática direta e os resultados de sua negação na prática, tão comuns na vida real. Convencida por tais aparências (pois tratam-se apenas de aparências, e enganadoras), a maioria dos homens abandona a reflexão abstrata e se satisfaz com o resultado prático. É por conta disso que, mesmo após tanto tempo, a simples menção da palavra “Usura” e o debate de sua ética traz em si a impressão de algo ridículo.
Há não muito tempo, qualquer pessoa diria que a atitude adotada aqui significaria escrever o próprio atestado de loucura. As conclusões de qualquer raciocínio lógico sobre o assunto simplesmente não eram levadas em conta, mas sim repelidas como noções imperfeitas, características de épocas primitivas e acríticas, quando o homem ainda não dominava a economia ou qualquer outra ciência.
O número crescente, embora ainda restrito, de homens instruídos que passam a suspeitar de tal desprezo pelo passado imemorial e pelas tradições morais da Cristandade retira dessas objeções parte do peso que tinham na geração anterior; ainda assim, elas exercem peso esmagador sobre a maioria. Diante da afirmação de que "a Usura é errada" ou mesmo de que "a Usura é perigosa", ou apenas de que "a Usura, a longo prazo, entrará em colapso", a grande maioria, ainda hoje, se recusará a discutir o assunto. A maioria dos desatentos e todos os tolos o incluirão entre os defensores da teoria de que a Terra é plana.
O erro é deles, e não nosso; ainda assim, o erro deles, como afirmei, possui sólido embasamento prático, pois a Usura tem funcionado. A produtividade aumentou consideravelmente desde seu estabelecimento. Os três últimos séculos foram de imensa expansão, liderada precisamente pelos primeiros a abolir a moral Cristã.
Como explicar esse fato? A explicação consiste em três reflexões: primeiro, quando a Usura é permitida e aplicada em caráter universal, torna-se simples parte de uma atividade geral de acumulação de capital para fins de investimento. Na época em que a Usura era ilegal e passível de punição, esse tipo de acumulação não era possível. Por acaso, era também uma época em que a produção de riqueza em escala crescente não representava a finalidade última da existência humana. De qualquer modo, sob o ponto de vista exclusivamente econômico, o fim dos questionamentos sobre a forma como o capital seria usado e o estabelecimento da regra de que todo o capital faz jus ao recebimento de juros, independentemente de como seja investido, logicamente criaram a tendência de acúmulo mais rápido e, incidentalmente, a avidez dos homens pela busca de oportunidades para fazer empréstimos, tanto produtivos quanto improdutivos.
Ao mesmo tempo, embora as causas fossem outras, veio o aumento do poder do homem sobre a natureza, com uma curva de crescimento cada vez mais acentuada e talvez ainda em progressão – embora haja sinais de fadiga e interferência de causas externas ao campo da economia nesse processo, a despeito da rápida escalada do conhecimento científico e da sua aplicação econômica. Esse aumento em nosso poder sobre a natureza é o segundo fator de mascaramento da falsa ação da Usura por tanto tempo. O mal econômico da Usura estimulou e acompanhou a grande vantagem econômica da acumulação para Produção, e a oportunidade para esse uso legítimo do dinheiro originou-se de um afluxo de descobertas geográficas e de novas conquistas das Ciências da Natureza. O terceiro motivo pelo qual a Usura ainda não concretizou seu total efeito nefasto é que, há tempos, tal efeito vem sendo detido automaticamente por repetidos colapsos que anularam as reivindicações usurárias. O capital de empréstimos improdutivos deixou de receber seus tributos, que tiveram de ser cancelados. Verdade seja dita, a Usura sobre esse tipo de capital é geralmente a última a ser cancelada 3; ainda assim, tal cancelamento se dá de forma contínua, promovendo a restrição intermitente dos tributos imerecidos e impedindo que o verdadeiro caráter de tais tributos se mostre em sua máxima potência.
O século XIX, especificamente, e ainda mais o início do século XX, estão repletos de exemplos desses colapsos – um sem-número deles. Uma soma em dinheiro é investida em determinada empresa. A empresa não atende às expectativas. Embora o dinheiro não produza mais juros legítimos, são emitidos debêntures, com garantia de juros estritamente usurários. Esses juros são pagos por algum tempo, até que, por fim, chega-se a um ponto em que nem mesmo os juros da debênture podem ser pagos. Todo o negócio se desfaz e o tributo usurário não pode mais ser exigido. É possível ver esse processo em funcionamento hoje em muitos setores da indústria têxtil. A fábrica está em dificuldade; o banco concede um empréstimo com a atribuição de juros, embora não haja superávit de riqueza em relação ao custo da produção. Os juros são pagos a partir de fontes externas; mas o processo não pode continuar eternamente e, em dado momento, o banco tem de cancelar o empréstimo como dívida incobrável. Como o banco continua a extrair recursos de outros investimentos bem-sucedidos e lucrativos, prossegue próspero a gerar dinheiro, sua receita aumenta, e a parte perdida por conta do colapso da Usura é ocultada no esquema produtivo geral. Não se faz distinção entre o caráter usurário de determinados recebimentos e o caráter legítimo da maioria. Mas, quando uma sociedade exibe sinais de decadência econômica, a verdadeira natureza da Usura, submersa e oculta nos tempos de prosperidade, fatalmente emerge acima da superfície.
Há muitos anos, o Sr. Orage, escrevendo em seu jornal, The New Age, traçou a esse respeito um dos muitos quadros ilustrativos e vívidos da questão, com o talento para a exposição que o tornou famoso. Ele partiu do exemplo de um oásis de palmeiras no deserto com um suprimento de água alcançado por meios bastante primitivos. Eis que surge um financiador disposto a emprestar dinheiro para o desenvolvimento. O capital é empregado de forma produtiva; poços artesianos são perfurados; o suprimento de água aumenta em grande escala; instaura-se maior organização do cultivo de palmeiras; a produção do oásis cresce com rapidez de um ano para outro; a demanda legítima de lucros pelo financiador faz parte do total de riqueza extra anual, cuja existência se deve ao seu empreendimento. Todos participam da prosperidade geral.
Então, seja devido a desgaste, guerra, epidemia, variações no mercado externo ou alguma calamidade climática, as coisas começam a dar errado. A riqueza produzida anualmente pelo oásis decai. Contudo, ainda é preciso pagar os juros sobre o dinheiro emprestado. À medida que aumenta o constrangimento dos agricultores, eles contraem empréstimos para pagar os juros até um ponto de "sobreposição" em que, paradoxalmente, o banqueiro parece cada vez mais próspero, embora a comunidade que o sustenta o seja cada vez menos. Mas, pela simples aritmética, o processo precisa ter um fim. Chegará o momento em que o agricultor não mais conseguirá obter dinheiro para pagar os juros, que há muito deixaram de ser moralmente devidos. A mera coerção, sob um sistema policial todo-poderoso, já lhe arrancou até os últimos centavos. A "sobreposição" entre prosperidade real e aparente – apenas financeira ou burocrática – deixa de existir; e a riqueza temporária desfrutada pelo credor chega ao fim, tal como ocorrera com a prosperidade real do devedor.
Em outras palavras, a grande prosperidade bancária em determinado período pode ser, e geralmente é, prova da prosperidade geral naquele período; mas não necessariamente, e nem sempre é assim. Uma não é o complemento inevitável da outra.
A essas conclusões gerais, há outra objeção que será feita prontamente por qualquer pessoa com razoável conhecimento histórico:
"O senhor afirma" [diz o objetor] "que em outros tempos, quando a Fé tinha alcance universal – época que talvez o senhor considere mais sadia, embora houvesse certamente muito menos riqueza e fosse preciso lidar com uma população, além de mais simples, muito menor – a Usura era proibida. Isso é verdade. Porém, o senhor erra ao argumentar que existe uma diferença essencial entre aquela época e a nossa, mais exatamente em relação ao passado recente, que o senhor denomina “o reino da Usura”, com a prevalência de uma ética diferenciada em cada um desses períodos. O senhor confunde o que é proibido com o que não é feito. É verdade que o código moral da Cristandade em tempos Católicos proibia a Usura e a punia; até mesmo na época das Cartas Provinciais de Pascal, os homens sentiam indignação moral para com a Usura e, até o final do século XVIII, a punição continuava a ser exercida nos tribunais e a vigorar nos códigos legais onde quer que a Igreja detivesse poder. Mas, a bem da verdade, a Usura sempre existiu, pois sempre deverá existir. É impossível traçar uma linha divisória entre os empréstimos produtivos e os improdutivos. O dinheiro emprestado a um doente pode criar as condições para que ele volte a ser produtivo, sendo considerado, portanto, um empréstimo indiretamente produtivo, apesar da intenção originalmente improdutiva. O valor de um empréstimo contraído por um perdulário para seus prazeres pode, no evento de sua morte antes que tivesse tempo de gastá-lo, ser transferido a um herdeiro econômico, que irá investi-lo de forma produtiva. Tais considerações sempre exerceram forte influência sobre a mente humana. Por isso encontramos a Usura amplamente disseminada, mesmo em épocas e sociedades que a condenavam sob o ponto de vista moral.
"Além do mais, mesmo naqueles casos onde é possível [o que certamente não é a regra] traçar uma linha exata entre os empréstimos produtivos e os improdutivos, há inúmeras formas de se burlar a proibição de cobrar juros sobre um empréstimo improdutivo, evadindo-se ao dever de descobrir se o empréstimo é produtivo ou não. Por exemplo, os governos Católicos, tanto quanto os Protestantes, emitiam os que os franceses denominaram “Rentes” – compromissos governamentais de pagamento de renda anual. Henrique IV da França, após sua conversão, era especialmente ativo nesse tipo de empréstimo. Filipe II da Espanha, o grande defensor do Catolicismo, afundou-se até o pescoço em constrangimento por tomar empréstimos a juros altos – ironicamente, das mesmas pessoas que vinham destruindo sua renda. Um governo preparando-se para ir à guerra – ou seja, prestes a gastar dinheiro em uma atividade normalmente improdutiva – implorava aos financiadores que comprassem direitos anuais sobre sua receita; e não existe qualquer diferença entre isso e a prática moderna de emissão de títulos da dívida pública. Havia ainda o óbvio método de assinar uma nota promissória em troca de dinheiro e receber uma soma menor do que a mencionada. Thomas Cromwell, de piedosa memória, foi adepto incondicional dessa prática, em uma época na qual toda a moralidade Católica em relação à Usura ainda era incontestável. Muito antes, em plena Idade Média, os príncipes tomavam empréstimos constantes para suas guerras – principalmente do recém-surgido sistema bancário italiano; e ainda antes, quando a Usura era privilégio excepcional, mas concedido legalmente aos judeus, e fonte de imensa renda para os príncipes Cristãos sob os quais viviam, a prática era admitida abertamente. Assim, a Usura sempre ocorreu na sociedade humana. E sempre ocorrerá; toda discussão sobre o assunto é meramente acadêmica e fútil."
A isso, respondo que o raciocínio lógico sobre assuntos práticos jamais é fútil. Se eu afirmar que o consumo excessivo de álcool faz mal à constituição física do ser humano, especialmente após certa idade, não é resposta satisfatória apresentar-me exemplos de alcoólatras que viveram até os noventa anos. O efeito danoso do excesso de álcool é algo demonstrável e, para qualquer pessoa de mente honesta, inquestionável. É uma simples questão de submeter à razão a experimentação e a experiência. Nos casos em que a experiência parece contradizer conclusões verdadeiras, o que de fato contradiz tais conclusões são outras forças, que não esvaziam seu caráter de verdade. [ênfase acrescentada]
O mesmo se dá com a verdade sobre a Usura. Seus efeitos empobrecedores, enquanto mascarados ou contrabalançados pela atuação de forças mais potentes, são negligenciados. No entanto, continuam a existir e estão sempre em atividade. Há grande utilidade prática em saber da existência de uma verdade, mesmo que oculta. Esse conhecimento é algo a ser mantido como um trunfo para permitir a ação quando chegar o momento crítico de sua aplicação.
Em seguida, é preciso apontar que existe toda a diferença do mundo entre um sistema que admite um princípio imoral e outro que nega tal princípio, embora a imoralidade seja praticada. Estão presentes na sociedade, e provavelmente sempre estarão inúmeros casos de adultério, assassinato, fraude e tudo o mais; contudo, existe enorme diferença entre a sociedade onde os direitos à propriedade são admitidos, o casamento é sagrado e tirar uma vida humana é abominável, e outra onde as relações sexuais são promíscuas, o Comunismo prevalece ou o assassinato para fins de vingança particular ou por mero impulso constitui passatempo aceitável. Assassinar um desafeto, fugir com a esposa do vizinho e até mesmo bater a carteira de alguém ainda estão entre as anomalias da nossa sociedade: anomalias que nós, pessoas antiquadas, atribuímos à Queda do Homem, mas cuja ocorrência nem o mais entusiástico pelagiano poderá negar. Existe toda a diferença do mundo entre uma sociedade onde esses lapsos continuam a existir, ou mesmo são tolerados, e outra onde são considerados positivos. [ênfase acrescentada]
O homem se sustenta sobre duas pernas, mas pode apoiar-se em uma ou em outra. Assim (para utilizar um exemplo que desenvolvo em outro ensaio), a sociedade, no que se refere à lei, precisa insistir tanto na justiça quanto na ordem; e, sem dúvida, em qualquer sociedade civilizada a justiça tende a ser sacrificada em benefício da ordem. Mas existe toda a diferença do mundo entre o ambiente e o caráter de uma sociedade onde a injustiça é considerada mais abominável do que a desordem e outra onde a desordem é considerada mais abominável do que a injustiça. Duas partes de um elemento químico para quatro partes de outro resultarão em determinado produto. Alterando-se as proporções, surgirá um produto inteiramente diferente. Uma sociedade em que a Usura, embora praticada, é considerada imoral (não totalmente, admito, para benefício do desenvolvimento econômico) é muito diferente de outra onde é considerada moral. Uma sociedade onde o credor considera seu dever moral examinar o objetivo de um empréstimo antes de levar em conta seu lucro pessoal é diferente de outra onde não se espera que ele faça tal coisa. Um mundo onde os juros sobre empréstimos improdutivos são repudiados e o Usurário é um malfeitor constitui sociedade muito distinta de outra onde os homens deixaram de questionar se um empréstimo irá ou não gerar lucro; e, ademais, é diferente de outra como a nossa, onde juros sobre qualquer empréstimo são exigidos como uma espécie de direito moral sagrado, sem qualquer relação com a produtividade do empréstimo – ou a ausência dela.
Bem, como para todo mal deve haver um remédio, o que podemos dizer da Usura nos tempos atuais? Como insisto em esta discussão tem o caráter prático, e quanto à prática?
Suponhamos que nosso oponente tenha sido convencido; deixemo-no replicar: "Concordo que a Usura seja um mal. E mais, estou inclinado a concordar que, por fim, começamos a perceber seus efeitos nefastos em todo o mundo – principalmente pelo assustador exemplo dos empréstimos da Grande Guerra. Então, o que devemos fazer a respeito?"
A isso, respondo, por minha vez, que não se pode fazer nada de imediato. Não se pode eliminar uma parte essencial de qualquer estrutura social existente. Todo o mundo de hoje se assenta sobre a estrutura bancária, e todo o sistema de investimentos considera normalmente impossível qualquer consulta sobre o caráter produtivo ou improdutivo de um investimento.
Há casos especiais, de cunho particular, onde se pode fazer a distinção claramente, e nesses casos verifica-se a ação dos homens de bem (como no caso dos empréstimos a indivíduos do nosso círculo de conhecimentos), pois a consciência humana atua em todos os momentos, ainda que na sociedade mais corrupta e complexa. Mas, em noventa e nove por cento dos casos, é impossível fazer essa distinção. Um homem se sacrifica para economizar. Ele precisa aplicar suas economias em um sistema que considera normal a cobrança de juros sem qualquer análise, e onde todos os infinitos detalhes de um sistema mundial de produção, distribuição e intercâmbio se baseiam há tanto tempo na aceitação da Usura – bem como no cálculo muito mais amplo dos lucros legítimos – que, na prática, não é mais possível distingui-los, assim como seria impossível separar as cores no tonel de um tintureiro. Se eu me ausentar por seis meses e deixar dinheiro depositado no banco, dificilmente poderei perguntar o que o banco fará com ele; e, mesmo que o fizesse, eles não me poderiam dizer. Ninguém poderia afirmar qual a parte destinada a alimentar animais em uma fazenda de extração de peles no Canadá; quanto se destinaria a um jovem que vem fazendo grandes retiradas com suas ações e gastando tudo em uma vida desregrada; e quanto contribuiria para o desenvolvimento de uma mina produtiva nos Andes. Que homem, em sã consciência, hesitaria em depositar o resultado de sua abnegação cotidiana em um título de renda fixa, ou suas modestas mil libras esterlinas em um Empréstimo de Guerra – esse exemplo gritante de Usura? O sistema precisa prosseguir até seu colapso, e mesmo a palavra “colapso” é imprecisa. Se a história servir como guia, o termo certo será “decadência”. Um pensamento animador.
Fiz bem em chamar este livro de Ensaios de um Católico, em vez de Ensaios Católicos. Pois, caso se tornasse uma questão de disciplina Católica que os homens de hoje não se envolvessem nessa prática impura – o empréstimo improdutivo com cobrança de juros – tal disciplina já nasceria condenada. Não seria possível obedecer à ordem eclesiástica. Se, ao propor tal análise, eu envolvesse também meus companheiros Católicos nas conclusões peculiares alcançadas, causaria prejuízo não apenas ao senso comum de meus confrades, mas também ao seu senso de humor.
Todavia, como já previu um perfumista ao batizar sua fragrância, "Un jour viendra" – "Chegará um dia".
O Sr. Belloc encerrou com a mesma frase em grego, mas, como a maioria dos navegadores não tem instalados caracteres em grego antigo, excluí a última linha do ensaio para evitar que aparecessem caracteres sem sentido.
_________________________________________________________________________________________
1. Quando eu, ainda garoto em Oxford, começava a articular minhas ideias, um sábio professor nos assegurou em sua preleção que o texto de Aristóteles deve ter sido adulterado, pois ele jamais poderia ter dito algo tão tolo como chamar a usura de errada. Do que São Tomás de Aquino a chamou, aposto que ele nunca soube.
2. Descobri em Túnis, há três anos, que um plantador de oliveiras muçulmano com o propósito de contrair empréstimo para o desenvolvimento de sua propriedade não podia obter o dinheiro de outros muçulmanos, mas precisava pedi-lo aos europeus.
3. Vide os juros continuados ainda pagos sobre créditos bancários por nossas indústrias falidas. Outro excelente exemplo de cancelamento de juros usurários é a redução das dívidas da França e da Itália para com os Estados Unidos.
Extraído de ESSAYS OF A CATHOLIC, TAN Books, publicado originalmente em 1931.
sexta-feira, março 05, 2010
Ludwig von Mises contra Jesus Cristo, o Evangelho e a Igreja: (Carta aberta a Tom Woods)
TRADUÇÃO DE GUILHERME FERREIRA DE ARAÚJO
Christopher A. Ferrara[1]
Nota do blogueiro – Caros leitores, este texto destroi toda a estatura intelectual de von Mises. Mostra que ele é, como intelectual, um charlatão. Não porque ele fale mal de Nosso Senhor Jesus Cristo (disso ele já deve ter dado conta ao Altíssimo) e dos apóstolos, mas porque demonstra, na melhor das hipóteses, desconhecer toda a história do cristianismo e de como ele criou a Civilização Ocidental. Suas afirmações no livro Socialismo são grotescas. O texto mostra também a situação lamentável em que se encontra Tom Woods, autor de um livro recentemente publicado pela Quadrante. Mostra o que o liberalismo pode fazer com um ser humano. Veja também Expondo as Perigosas Premissas dos Economistas Liberais.
Caro Tom:
Quando nós escrevemos A Grande Fachada, em 2002, eu era um dos defensores mais ardentes do seu trabalho. Na verdade, via você como um importante elemento para o futuro do movimento “tradicionalista” nos Estados Unidos. Eu não previa sua dissidência pública da doutrina social da Igreja, em benefício da “Escola austríaca” de Economia – radicalmente laissez faire –, cujas pretensões vão muito além da economia até uma abrangente “filosofia da liberdade” que não pode ser ajustada ao ensinamento do Magistério a respeito dos deveres dos homens e das sociedades com respeito a Cristo e Sua Igreja, ou até mesmo aos deveres dos homens uns com os outros no nível da justiça natural. Também não previa que se tornaria um “professor residente” do Instituto Ludwig Von Mises, um grupo libertário radical dedicado ao pensamento de von Mises e seu discípulo “anarco-capitalista”, Murray Rothbard, ambos liberais agnósticos que rejeitaram completamente o papel da Igreja e do Evangelho na constituição da ordem social.
Sua dissidência da doutrina social produziu, da parte de respeitáveis comentadores católicos, uma multidão de artigos contra você, como os que podem ser encontrados aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui, sendo o último uma série recém publicada em cinco partes na revista Chronicles sob o título “É Tomas Woods um dissidente?”. Até o momento, pelas minhas contas, não menos de doze estudiosos católicos denunciaram sua dissidência do ensinamento do Magistério com relação a princípios básicos tais como salário justo, primazia moral do trabalho sobre o capital, pecado da usura e da extorsão pelos preços, imoralidade do dito “direito absoluto” à propriedade privada e a necessidade de um governo guiado pela lei divina e natural, para o governo dos homens decaídos. (Recentemente você até começou a promover a fantasia “anarco-capitalista” da abolição de todos os governos e da criação de uma “sociedade sem estado.”)
O ponto central de A Grande Fachada era que os católicos “tradicionalistas” não dissentem da doutrina Católica enquanto tal, mas antes apenas exercitam seu direito a prescindir de certas novidades litúrgicas e pastorais desconhecidas na Igreja antes da década de 1960 e nunca impostas aos fiéis como obrigações comprometedoras da nossa religião. Por exemplo, a proclamação histórica do papa Bento XVI de que a Missa tradicional em latim “nunca foi ab-rogada” e de que “em princípio foi sempre permitida” demonstrou a verdade da reivindicação básica do livro. Mas lá estava você, Tom, nos meses seguintes à publicação de nosso livro, declarando sua dissensão do ensinamento a respeito da fé e da moral claramente enunciado como obrigatório por numerosos papas que ensinaram sobre a justiça no mercado e a reta ordenação do Estado.
E visto que foi o livro mesmo do qual fomos co-autores, juntamente com o seu mandato no The Remnant e no periódico The Latin Mass, que lhe deram proeminência como um tradicionalista em primeiro lugar, você dificilmente poderia esperar que seus ex-colegas permanecessem em silêncio à medida que você continuava sua torrente de pronunciamentos contra o ensinamento papal, incluindo o comentário descarado de que a “tentativa dos papas de elevar princípios como os de ‘salário justo’ ao nível de doutrina obrigatória é algo completamente diferente, e na verdade está carregada de erros” – não uma afirmação esporádica, mas algo que você repetiu mais tarde em publicação, no seu muito criticado A Igreja e o Mercado (p. 79). Você não reconhece a completa audácia que há em um recém-convertido pretender dar conferências a católicos de berço a respeito dos “erros” dos ensinamentos da Igreja afirmados por papa após papa durante séculos?
Ora, uma coisa, Tom, é você expressar sua opinião – sua errante opinião – de que ao se pronunciarem em matéria de economia e justiça social os papas excederam o que você considera serem os limites de sua competência, ainda que os próprios papas, respondendo a dissidentes como você, tenham insistido em seu direito e dever de se pronunciar precisamente a respeito desses assuntos. Mas é algo completamente diferente alegar, como você o faz, que você está exercitando legítima liberdade na Igreja – não, você não está – e, muito pior, engajar-se numa campanha para persuadir católicos de que aquilo que seu instituto prega – uma forma de liberalismo social e econômico condenada por uma extensa linhagem de papas (cf. a encíclica Ubi Arcano Dei, de Pio XI, n.61) – é “perfeitamente compatível” com o Catolicismo Romano tradicional. Essa propaganda encontrou até mesmo o caminho na direção de um promissor – sob outros aspectos – novo periódico, “O Tradicionalista”, cujo número inaugural incluiu um anúncio de página inteira em homenagem a von Mises, cuja dogmática visão de mundo anti-cristã está evidente nas citações mostradas abaixo.
Num artigo que mencionava as circunstâncias de nossa discussão por causa de sua dissensão da doutrina social e de sua cooperação pós-Grande Fachada com o Southern Poverty Law Center e sua caça às bruxas aos católicos tradicionalistas (incluindo eu mesmo), eu aludi a algumas das opiniões ultrajantes de Rothbard, que defende não apenas o aborto legalizado, a prostituição, o uso de drogas, o suborno e a extorsão, mas também o direito legal de matar de fome crianças não desejadas, em favor do qual ele argumentou num livro que seu Instituto vende para o mundo como um “clássico da liberdade”. E você, Tom, escreveu em louvor ao mesmo livro sem mencionar suas afirmações morais depravadas, declarando apenas que “Rothbard descreve as implicações filosóficas da idéia de propriedade de si mesmo” – uma idéia que está em conflito com o próprio fato de ser o homem uma criatura de Deus. Você também nunca mencionou o repetido elogio de Rothbard ao que o conjunto do trabalho dele aclama como sendo “a subversão da Antiga Ordem... por meio de uma ação libertária em massa que estourou em grandes revoluções do Ocidente tais como a Americana e a Francesa, realizando as glórias da Revolução Industrial e os avanços da liberdade...”
Por essa razão, Tom, eu nunca vi você criticar o ataque de Rothbard ao “integrismo” católico – sim, ele usou exatamente aquela palavra, aquele perfeito insulto aos católicos romanos tradicionais em decorrência do qual você e eu escrevemos A Grande Fachada para atacar. Lembra-se? Naquele artigo em particular, Rothbard imperiosamente depreciou “o ódio da Igreja ao liberalismo em geral, do qual ela deriva seu ataque ao liberalismo econômico...” No mesmo artigo, seu mentor descreveu o marco que foi a encíclica social Quadragesimo anno, de Pio XI, como virulentamente anti-capitalista e, para dizer a verdade, pró-fascista. “Essa tendência fascista é revelada pelos rumos do catolicismo europeu no período entre guerras...” Seu mentor chamou o papa Pio XI de fascista, Tom. Mas então, você também amontoou críticas à Quadragesimo – baseando-se em seu estudo informal de economia, um campo no qual você não possui nenhum título ou outra credencial reconhecida. (Na verdade, antes de você ter-se incorporado ao Instituto você ensinou história numa faculdade pública.)
Aqui eu desejo chamar a atenção dos católicos para as concepções igualmente Cristofóbicas e anti-católicas de von Mises, recentemente expostas num debate online em angelqueen.org, num tópico chamado “Desmascarando a Escola Austríaca”. Essas idéias aparecem no livro Socialismo, de von Mises, o qual seu Instituto vende como uma “obra-prima” que apresenta “uma crítica de todo o aparato intelectual que acompanha o pensamento socialista, incluindo as doutrinas religiosas implícitas por trás do pensamento socialista ocidental...”
Nas treze citações abaixo, do capítulo 29 de Socialismo, von Mises ataca Cristo, os Evangelhos e a Igreja como sendo inimigos da liberdade e da sociedade e instigadores do socialismo e da escravidão, chama o Cristianismo de “religião do ódio”, e declara que a Igreja tem de se reformar cingindo-se ao liberalismo e ao capitalismo. Todas as citações aparecem online aqui, que é onde o católico que deu origem ao tópico em angelqueen.org (alguém com o pseudônimo de GordonG) as encontrou.
Tom, uma vez que você rejeitou todos os pedidos privados relativos à sua campanha para fazer avançar o libertarianismo radical dentro da Igreja e particularmente entre os tradicionalistas, nós que uma vez promovemos seu trabalho nos sentimos obrigados a protestar publicamente contra o que você está fazendo e a exigir que você se retifique pela confusão que está causando.
Porque você tem um dever perante Deus – como um membro da Igreja confirmado (se bem que um membro um tanto novo) – de denunciar e repudiar categoricamente as seguintes citações do livro de von Mises, e de romper seus laços com o Instituto que promove sua (e de Rothbard) ideologia da “liberdade” anti-católica, Cristofóbica e, de fato, imoral.
Ademais, é tempo de parar de fingir, como você tem feito por anos, que a controvérsia que suas próprias palavras e ações têm provocado entre os fiéis seja um debate sobre “economia” ou coisas particulares tais como a sabedoria das leis do salário mínimo. Você se associou a uma organização cujas visões a respeito do homem, da sociedade e da liberdade humana são inimigas da lei do Evangelho. Você deve escolher entre o Magistério e o Instituto Ludwig von Mises, e nenhuma quantidade de sofismas pode esconder a realidade daquela escolha.
Como seu ex-colaborador e colega, e como alguém que admira seus talentos e sabe o que eles poderiam trazer para uma defesa da doutrina social da Igreja em lugar de seus aparentes ataques incessantes contra ela, eu espero que você tome esta carta não como uma provocação, mas como um convite a reconsiderar o caminho que você escolheu, a dar a volta e a se reunir aos seus irmãos na fé.
Atenciosamente,
Christopher A. Ferrara
_____________________________________
LUDWIG VON MISES
CONTRA CRISTO, O EVANGELHO E A IGREJA
Do capítulo 29 de Socialismo (http://mises.org/books/socialism/part4_ch29.aspx )
1. A pregação de Jesus de um Reino vindouro destrói todos os laços sociais:
A expectativa da reorganização por parte do próprio Deus quando chegou o tempo, e a transferência exclusiva de toda ação e pensamento para o futuro reino de Deus tornou o ensinamento de Jesus Cristo completamente negativo. Ele rejeita tudo quanto existe, sem oferecer nada para repô-lo. Ele chega a dissolver todos os laços sociais existentes...
2. Jesus é como os bolcheviques:
...Seu zelo pela destruição dos laços sociais não conhece limites. A força motriz por trás da pureza e do poder de tal completa negação é uma inspiração extática e uma esperança entusiástica de um novo mundo. Daí seu ataque apaixonado a tudo quanto existe. Tudo pode ser destruído porque Deus, em Sua onipotência, vai reconstruir a futura ordem. É desnecessário examinar se alguma coisa pode ser reaproveitada na passagem da velha para a nova ordem, porque essa nova ordem erguer-se-á sem auxílio humano. Ela não demanda de seus partidários, portanto, nenhum sistema ético, nenhuma conduta particular em qualquer direção positiva. Fé, e apenas fé, esperança, expectativa – isso é tudo o que é necessário. Ele [o homem] não precisa contribuir em nada para a reconstrução do futuro, Deus Ele mesmo o sustentou. O mais claro paralelo moderno à atitude do cristianismo primitivo de completa negação é o bolchevismo. Os bolcheviques, igualmente, desejam destruir tudo quanto existe porque eles o consideram algo desesperadamente mau. Mas eles têm em mente planos – por mais indefinidos e contraditórios que eles possam ser – para uma futura ordem social. Eles exigem não apenas que seus seguidores devem destruir tudo quanto exista, mas também que eles adotem uma linha de conduta definida, que conduz em direção ao Reino futuro com o qual eles sonharam. O ensinamento de Jesus a esse respeito, por outro lado, é somente negação.
3. Jesus despreza os ricos, incitando o mundo à violência contra eles e suas propriedades; e Seu ensinamento espalhou “semente maligna”:
Naturalmente, uma coisa está clara e nenhuma interpretação habilidosa pode ocultar isso. As palavras de Jesus estão cheias de rancor contra os ricos, e os Apóstolos não são menos brandos a respeito disso. O Homem Rico é condenado porque ele é rico, o Mendigo é louvado porque ele é pobre. A única razão por que Jesus não declara guerra contra os ricos e não aconselha vingança contra eles é que Deus disse: “A vingança é minha”.
No Reino de Deus os pobres serão ricos, mas os ricos estarão envoltos em sofrimento. Revisores tardios tentaram abrandar as palavras de Cristo contra os ricos, das quais a versão mais completa e vigorosa é encontrada no Evangelho de Lucas, mas resta um bocado suficiente para apoiar aqueles que encorajam o mundo a sentir ódio, a se vingar a assassinar e a queimar os ricos. Até a época do Socialismo moderno nenhum movimento contra a propriedade privada que se originou no mundo cristão falhou em buscar autoridade em Cristo, nos Apóstolos, e nos Padres Cristãos, para não mencionar aqueles que, como Tolstoi, fizeram do ressentimento evangélico contra os ricos o próprio coração e alma de seu ensinamento.
Este é um caso no qual as palavras do Redentor espalharam semente maligna. Mais dano tem sido causado e mais sangue tem sido derramado por conta delas do que pela perseguição aos heréticos e queima das bruxas. Elas sempre tornaram a Igreja indefesa contra todos os movimentos que almejam destruir a sociedade humana...
4. A Igreja, e não o liberalismo Iluminista, abriu caminho para o Socialismo:
…Seria estúpido sustentar que o Iluminismo, ao arruinar gradativamente o sentimento religioso das massas, abriu caminho para o Socialismo. Ao contrário, foi a resistência que a Igreja ofereceu à disseminação das ideais liberais que preparou o solo para o rancor destrutivo do pensamento socialista moderno. A Igreja não apenas não fez nada para extinguir o fogo, mas ela até mesmo tocou fogo na brasa...
5. A doutrina cristã destrói a sociedade, proíbe a preocupação com o sustento e o trabalho, prega o ódio à família e até mesmo endossa a castração:
...É por isso que a doutrina cristã, uma vez separada do contexto no qual Cristo a pregou – expectativa do iminente Reino de Deus –, pode ser extremamente destrutiva. Nunca e em lugar algum um sistema de ética social que abraça a cooperação social poderá ser construído a partir de uma doutrina que proíbe qualquer preocupação com o sustento e o trabalho, enquanto expressa um feroz ressentimento em relação aos ricos, prega o ódio à família e defende a castração voluntária.
6 O Evangelho não desempenhou nenhum papel na construção da civilização ocidental:.
As façanhas culturais da Igreja durante seus séculos de desenvolvimento são [fruto] do trabalho da Igreja, e não do cristianismo. É uma questão aberta quanto desse trabalho se deve à civilização herdada do estado romano e quanto se deve ao conceito de amor cristão, completamente transformado sob a influência dos estóicos e de outros filósofos antigos. A ética social de Jesus não tem papel algum neste desenvolvimento cultural. A realização da Igreja, neste caso, foi torná-las inofensivas, mas sempre por um período limitado de tempo...
7. Porque ela se opõe ao liberalismo, a Igreja é uma inimiga da sociedade:
O destino da civilização está em jogo. Porque não é como se a resistência da Igreja às idéias liberais fosse inofensiva. A Igreja é um poder tão poderoso que sua aversão às forças que trazem a sociedade à existência seria suficiente para quebrar em pedaços toda a nossa cultura. Nas últimas décadas nós testemunhamos com horror sua terrível transformação em um inimigo da sociedade. Pois a Igreja, tanto a Católica quanto a Protestante, não é o menor dos fatores responsáveis pela prevalência de ideais destrutivos no mundo hoje...
8. O liberalismo é superior ao cristianismo e tem restaurado a humanidade por meio da destruição da Igreja, motivo pelo qual a Igreja o odeia:
Historicamente é fácil entender a aversão que a Igreja tem mostrado pela liberdade econômica e pelo liberalismo político sob qualquer forma. O liberalismo é a flor daquele iluminismo racional que desferiu o sopro da morte no regime da antiga Igreja e do qual brotou a crítica histórica moderna. Foi o liberalismo que solapou o poder das classes que por séculos estiveram intimamente ligadas à Igreja. Ele transformou o mundo mais que o cristianismo sempre o fez. Ele devolveu a humanidade ao mundo e à vida. Ele despertou as forças que sacudiram as fundações do tradicionalismo inerte sobre o qual Igreja cria estar repousada. A nova perspectiva provocou na Igreja um enorme mal-estar, e ela ainda não se ajustou até mesmo às camadas mais exteriores da época moderna.
9. O cristianismo se tornou uma religião do ódio, buscando destruir o “admirável novo mundo” do liberalismo:
De fato, os padres em países católicos borrifam água benta sobre estradas de ferro recentemente construídas e em dínamos de novas usinas, mas o cristão confesso ainda estremece intimamente diante dos trabalhos de uma civilização que sua fé não consegue compreender. A Igreja ressentiu-se fortemente da modernidade e do espírito moderno. Que surpresa, então, que ela tenha se aliado àqueles cujo ressentimento levou-os a desejar a dissolução deste admirável novo mundo, e que tenha explorado seu arsenal bem estocado como meio para denunciar o esforço terreno pelo trabalho e pela riqueza. A religião que chama a si mesma religião do amor tornou-se uma religião do ódio, em um mundo que parecia estar preparado para a felicidade. Quaisquer pretendentes a destruidores da ordem social moderna poderiam fiar-se no cristianismo como um líder.
10. Porque eles seguem o Evangelho e porque não foram “vacinados” com a filosofia liberal, sacerdotes e monges são inimigos da sociedade:
Sacerdotes e monges que praticaram a verdadeira caridade cristã, que ministraram e ensinaram em hospitais e em prisões e que sabiam tudo o que havia para saber a respeito da humanidade sofredora e pecadora – esses foram os primeiros a serem enganados pelo novo evangelho da destruição social. Apenas uma firme compreensão da filosofia liberal poderia tê-los vacinado contra o infeccioso ressentimento que se assolou entre os seus protegidos e que foi justificado pelos Evangelhos. Por assim dizer, eles se tornaram perigosos inimigos da sociedade. Do trabalho de caridade brotou o ódio à sociedade.
11. A Igreja e o papado buscam escravizar os homens destituindo-os da razão e da liberdade espiritual do capitalismo:
A Igreja sabe que ela não pode vencer, a menos que possa vedar a fonte da qual seu oponente continua extraindo inspiração. Desde que o racionalismo e a liberdade espiritual do indivíduo sejam mantidos na vida econômica, a Igreja jamais terá êxito em agrilhoar o pensamento e em tomar conta do intelecto na direção desejada. Para fazer isso, primeiro ela teria de obter a supremacia sobre toda atividade humana. Por conseguinte, ela não pode se contentar com o viver como uma Igreja livre em um estado livre [o próprio slogan de Cavour, o grande inimigo maçônico da Igreja e sagrado Pio IX – CAF]; ela deve procurar dominar aquele estado. Ambos o papado de Roma e as igrejas protestantes nacionais lutam pela soberania, já que ela as permitiria ordenar todas as coisas temporais de acordo com seus ideais. A Igreja não pode tolerar outro poder espiritual. Todo poder espiritual independente é uma ameaça a ela, uma ameaça que aumenta em força à medida que a racionalização da vida progride.
12. O cristianismo necessita do socialismo a fim de manter a teocracia contra a ameaça da “produção independente”:
Ora, a produção independente não tolera qualquer autoridade espiritual suprema. Em nosso tempo, o poder sobre a mente só pode ser obtido por meio do controle da produção. Todas as Igrejas já estão indistintamente atentas a isso há tempos, mas para elas isso se tornou claro pela primeira vez quando a idéia socialista, surgindo de uma fonte independente, fez-se sentir como uma força poderosa e rapidamente crescente. Então, tornou-se claro para as Igrejas que a teocracia só é possível numa comunidade socialista.
13. A Igreja deve se transformar cingindo-se antes ao capitalismo do que ao ensinamento papal tal como o de Pio XI:
Se a Igreja de Roma quiser encontrar uma solução para a crise para qual o nacionalismo a levou, então ela deve ser inteiramente transformada. Pode ser que essa transformação e essa reforma a levem à aceitação incondicional da indispensabilidade da propriedade privada dos meios de produção. Até o presente ela está longe disso, como testemunha a recente encíclica Quadragesimo anno.
_______________________________________________________________________
[1] Tradução autorizada pelo The Remnant. Para ler o artigo em inglês, clique aqui.
terça-feira, fevereiro 09, 2010
Catolicismo e Liberalismo
A tentativa de união conceitual e prática de liberalismo e catolicismo foi chamada por D. Marcel Lefebvre de “a grande traição”. Em sua obra “Do Liberalismo à Apostasia”, D. Lefebvre cita com insistência um livro de Pe. A. Roussel intitulado “Libéralisme et Catholicisme”. Este pequeno livro foi publicado em 1926, tendo recebido o Nihil Obstat em 12 de agosto e o IMPRIMATUR em 28 de agosto de 1926.
O Pe. Roussel era Doutor em Filosofia e professor do Seminário Maior de Rennes, França. O livro nasceu de uma série de conferências proferidas pelo padre na Semaine Catholique em fevereiro de 1926.
Sobre a origem do Liberalismo, já no início do livro, Pe. Roussel não nos deixa dúvida ao afirmar:
“O termo ‘Liberalismo’ é assaz recente. Parece ter vindo de Mme. Stael, mas a coisa em si, ao contrário, é tão velha quanto as montanhas. O pai do Liberalismo é naturalmente aquele que primeiro se revoltou, o próprio Satã.
“Recusando orgulhosamente a graça sobrenatural e necessária de forma a não mais depender de seu Criador e Benfeitor, alegando consegui-la por seu próprio esforço, e complacentemente considerando a excelência de sua própria natureza esplêndida, ele lançou, das alturas do céu, o primeiro grito de rebelião, non serviam, não obedecerei.”
Mais adiante, Pe. Roussel faz uma tabela que ajuda o leitor a entender qual a diferença conceitual que separa o liberal do católico.
| Para o liberal | Para o católico |
| 1. Razão, fonte e medida de tudo 2. Raciocínio individual e autônomo 3. Autonomia da vontade 4. Ateísmo e panteísmo 5. O homem é auto-suficiente 6. Liberdade, um fim em si mesmo 7. Liberdade, essencialmente independente 8. Independência exigida pela dignidade 9. Homem, essencialmente bom 10. Independência e fatalidade do progresso 11. Igualdade 12. Individualismo anárquico 13. Licença para fazer o que se quiser 14. Soberania do número, ou povo 15. Maçonaria, etc. | 1. Razão submetida ao seu objeto: natural e sobrenatural 2. Raciocínio a partir de anos de tradição 3. Dependência da lei, respeito ao bem comum 4. Um Deus, distinto do mundo 5. Apenas Deus é o Ser necessário 6. Somente um meio para obter o bem final 7. Ela depende da autoridade, lei e ordem 8. Submetida à lei, fonte da perfeição 9. Corrompido pelos pecados pessoais e Original 10. Pressupõe ordem na direção dos bens necessários 11. Hierarquia e organização 12. Laços sociais necessários 13. Liberdade regulada: para fazer o que é bom 14. Soberania de Deus e dos seus delegados 15. Igreja Católica, etc. |
Se o liberal e o católico são assim tão diferentes, como então reconhecer que exista um ser humano que possa ser chamado de “católico liberal”? Que poço de contradições conterá tal pessoa? No entanto, Pe. Roussel não só afirma que existe tal pessoa, como descreve um esboço do que seja um “católico liberal” em ação. A única concessão que ele faz a tão contraditório ser é sempre colocar seu nome entre aspas.
Vale a pena acompanhar a descrição de Pe. Roussel. Ela nos dá um triste retrato do comportamento de muitos padres, bispos e cardeais destes tempos pós-conciliares. Ela nos ajuda a entender os caminhos trilhados por estes homens que, falando em nome da Igreja, pregam uma doutrina essencialmente anti-católica, cuja origem se encontra exatamente no principal inimigo de Deus. Traduzo agora um trecho do livro do Pe. Roussel intitulado “O católico liberal em sua prática geral”.
“Em princípio, o ‘católico liberal’ não gosta de falar de princípios. Ele se atém ao campo dos fatos, pois aí ele pode mais facilmente usar seus talentos. Mas já aqui somos obrigados a crer que a mediocridade de seu discernimento da verdade naturalmente o levará a uma mediocridade na ação (a menos que a real teoria de justificativa de sua atitude seja simplesmente seu medo de agir e lutar).
“De toda a forma, sabemos que qualquer ação ou vigoroso combate humano necessariamente pressupõe a percepção de um bem a ser obtido ou conservado. Esta é a única razão para o esforço; caso contrário, reagiríamos apenas um pouco, ou nem mesmo o faríamos. O mundo moderno chama isso de ‘lei da motivação’. É preciso amar profundamente para estar fortemente motivado; mas só se ama na medida em que se compreende a importância ou valor de um determinado bem. Não é então difícil de entender que haverá apenas uma fria indiferença, ou pelo menos, uma convicção muito fraca a respeito da verdade. Isto, por sua vez, produz uma pusilanimidade e uma covardia na ação. Este é freqüentemente o caso do ‘católico liberal’. Adicionemos a isto que o fato de seu exagerado desejo de conciliação, além de sua fé enfraquecida, o faz correr o risco de se meter em transações ambíguas e firmar lamentáveis compromissos. Isto tem como conseqüências recuos vergonhosos, capitulações e uma irreparável traição. As últimas poucas décadas testemunhou tudo isso. Mesmo assim, o ‘católico liberal’ não acredita em nada disso. Ele continua, ao contrário, expressando seu orgulho em sua solicitude para o que chama de ‘um desejo de paz’, ‘conduta prudente’, ‘atitude caridosa’, ‘sentido de realidade’, ‘política de resultados’. Observemos isso mais cuidadosamente.
“Desejo de paz – O ‘católico liberal’ deseja a paz a qualquer custo. Contudo, esse custo é freqüentemente muito alto, pois ele acaba sendo, na concepção do ‘católico liberla’, o custo da verdade, dos direitos de Deus e da Igreja. Certamente todo católico deve trabalhar para a paz, isto é, para a tranqüilidade da ordem em todos os domínios. ‘Bem-aventurados os pacíficos ...’ Mas, como explica o Cardeal Pie, a paz é somente possível na verdade, pois a ordem é somente possível se as coisas estiverem dispostas de acordo com as exigências de suas relações mútuas. A paz entre os homens é portanto obtida quando suas atividades são ordenadas de acordo com a virtude. Em particular, as virtudes da justiça e caridade asseguram um respeito a todas as leis e poderes legítimos.[1] Ora, a paz entre a Igreja e o mundo é impossível aqui embaixo: ‘Meu filho, quando entrares no serviço de Deus ... prepara a tua alma para a tentação’ (Eclo 2:1), ‘Todos os que querem viver piamente em Jesus Cristo, padecerão perseguição’ (II Tim 3:12).
“Nosso Senhor claramente previu isso quando disse: ‘vocês serão odiados por causa de meu nome.’ Este é, de fato, o privilégio do católico, que sempre e em todo lugar atrai um ódio violento e é acusado de hipocrisia pelo próprio mundo que ele condena. A Igreja militante continuará a declarar guerra enquanto houver almas a salvar. Como resultado, o pacífico é sempre chamado a estar preparado para a guerra contra os destruidores da ordem na batalha contra a concupiscência, o mundo e o demônio. É por causa do amor à ordem e à paz que o pacífico ataca a ignorância, o erro e as paixões, a fim de salvar almas. O ‘católico liberal’ ao contrário não entende as verdadeiras condições para a paz, [2] que é a permanência na ordem, pois a desordem invade sua mente, desordem que está presente até mesmo em seu nome. É a concordância de vontades o que ele deseja acima até, e apesar da, divergência e oposição de mentes. A única coisa que ele obtém é uma tolerância superficial e provisória em que o católico tem tudo a perder e nada a ganhar. Ele não obtém nem a verdadeira paz nem a estima de seus adversários. Repetidamente você o vê estendendo a mão com uma irritante insistência, oferecimento que estamos dispostos a recusar com desprezo! Não, o ‘católico liberal’ não é um pacífico, mas sim um pacifista. Ele tem duas características principais: uma aversão pelos seus irmãos católicos e um perfeito entendimento com o inimigo.
“Atitude caridosa – Caridade! Caridade! Esta é a desculpa que o ‘católico liberal’ tenta apresentar. A verdadeira caridade é amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo por amor a Deus. Esses dois amores não são separáveis. Amamos a Deus e ao próximo como Deus deseja, isto é, visando a um fim e de uma forma que Ele quer, i.e., por e em Jesus Cristo e a Igreja. A verdadeira caridade sabe que o primeiro bem é a verdade; propagar isto é pois a primeira obrigação. Porque amamos fervorosamente, odiamos vigorosamente; juramos nosso inexplicável ódio ao mal, ao erro e ao pecado, e procuramos destruir cada obstáculo que se opõe à missão apostólica da Igreja. Comentando sobre a passagem de São Paulo, facientes veritatem in caritate, praticando a verdade na caridade, Cardeal Pie escreve: ‘A caridade implica antes de tudo, o amor a Deus e à verdade. Ela não hesita em puxar a espada por uma causa divina, sabendo que somente com golpes duros e incisões salutares pode se vencer ou converter o inimigo.’ Será que o ‘católico liberal’ ama a Deus sobre todas as coisas quando desconsidera Suas verdades e ridiculariza Suas leis imprescritíveis? Amará ele seu próximo quando não o auxilia a se libertar dos erros e o ajuda através de verdades sobrenaturais? É possível amar o doente ignorando sua doença ao invés de curá-la? As almas são amadas quando mesmo as verdades elementares, que são necessárias para a salvação, são recusadas a elas para não lhes causar ansiedade? Não, a caridade do ‘católico liberal’ é mal orientada, quando e se não completamente deformada. Ele é mais um pregador hipócrita da caridade do que verdadeiramente caridoso, pois é todo doce com o incrédulo, mas amargo como fel com o católico. Seu coração está voltado para a ‘esquerda’, como suas idéias. Ele não tem nada para dar aos verdadeiros católicos senão amargura e violência. ‘Seu ardor é amargo, suas discussões ríspidas, sua caridade agressiva’ (Dom Sarda).[3]
“Conduta prudente – Pelo menos, o ‘católico liberal’ é ‘prudente’! Ele na pratica assume a definição que criou: não é ela a virtude par excellence do ‘justo meio’ e aquela que regula todas as outras virtudes? Com uma modéstia que lhe causa satisfação, repete sem cessar que ele não compromete o bom objetivando idioticamente o perfeito. Em vez disso, ele sabiamente se contenta como o ‘possível’. Mas isso o faz mais justo? A prudência é definida como: recta ratio agibilium, que pode ser traduzida como a ‘arte de obter êxito,’ isto é, a habilidade de atingir o objetivo. A prudência nunca perde sua perspectiva que é o fim último do homem e do universo. Portanto, ela analisa todos os meios que auxiliarão na sua obtenção. Ela procura o maior bem possível numa dada circunstância, e, entretanto, considera isso apenas como um degrau para o fim último, e não como um fim em si mesmo. Ela cuida do doente de uma maneira útil, nunca todavia cedendo ao mal, a menos que seja obrigada a tolerá-lo por enquanto, aguardando um momento favorável para triunfar ainda mais completamente. A prudência certamente se dobra às circunstâncias, mas sempre para obter um bem maior. Ela trabalha incansavelmente em sua direção, intensificando todo bem possível. Ela nunca se senta resignada em ser conquistada, mas sempre acaba sendo o conquistador. Ela procura o sucesso, nunca desdenhando da força, mas controlando-a e usando-a para obter o fim em vista. A prudência do ‘católico liberal’, por outro lado, é sempre vulgar porque é míope, nunca vendo muito alto ou muito longe. Falta-lhe sabedoria que é o ‘conhecimento das mais altas causas’. Ele é débil e hesitante pois não há convicção na fé. Toda a confiança é colocada nas modestas e limitadas condições humanas, e nenhuma em Deus e Sua graça. Esta não é senão a prudência do mundo ou a ‘prudência carnal’. Ela não deseja nenhum tipo de batalha; ela desdenha a força em vez de colocá-la a serviço da verdade. Esse tipo de prudência somente sabe como capitular. Fundamentalmente, ela não é senão medo e mesmo covardia.
“Sentido de realidade – O ‘católico liberal’ crê e mesmo proclama que é dotado de um ‘senso de realidade’, na falta de um ‘senso católico’. Ele não se interessa por teoria, mas se considera prático. Alega conhecer seu tempo, suas aspirações e necessidades. Para ele, a verdade deve ser apresentada numa forma inteiramente diferente às pessoas agora amadurecidamente impregnadas de liberdade. Ele pressiona a Igreja a levar em conta o progresso e Se colocar à sua disposição. Contudo, este infeliz indivíduo não tem o senso da realidade especulativa, nem natural nem sobrenatural, dado seu amor incrivelmente fraco pela verdade. Tampouco tem ele o senso da realidade prática, pois, surpreendentemente, falta-lhe psicologia. Ele pensa que conhece as aspirações de seu tempo, mas na realidade é totalmente ignorante das profundas aspirações de todos os tempos; por exemplo, a da inteligência por verdades universais e a da vontade pelo bem soberano. Ele não entende a invencível atração que a verdade exerce sobre toda e qualquer alma. Tendo uma excessiva confiança nos meios humanos, ele se esquece de se socorrer Naquele que fez o céu e a terra. Ele despreza a graça onipotente de Jesus Cristo, e tem em particular uma fé muito superficial na profunda afinidade entre a alma sacerdotal e a alma batizada. Por isso, seus sermões, se ele é padre, são ineficazes e enfadonhos, pois coloca ênfase na eloqüência e persuasão, em vez de na virtus Christi. Em vez de falar com autoridade de representante de Deus e embaixador de Cristo, ele se faz pequeno, humilde e suplicante. Conseqüentemente, obtém somente o sucesso humano e às vezes até mesmo indiferença e desprezo. Falta-lhe também psicologia frente a um adversário obstinado. Ele pensa que com a capitulação freqüente ante ao adversário, ele receberá em troca mais, mas de fato, ele perde terreno a cada dia. Isto é o que ele chama de o ‘possível’, de ‘mal menor’. Mesmo assim, quando ele faz dessa atitude um sistema, o ‘mal menor’ se torna o maior de todos os males, e o ‘possível’ se encolhe sem cessar, pois quanto mais ele recua, mais o adversário avança e conquista o seu terreno. Essa é a história da resistência do ‘católico liberal’ nos últimos 50 anos. Assim, hoje chegamos a aceitar e respeitar a lei do secularismo! Este é o resultado de tal política e é enormemente triste!
“Assim, esse dissimulado ‘justo meio’ se move sem cessar, sempre na direção do mal maior. É surpreendente ver como o ‘católico liberal’ se colocou entre a Igreja e a Revolução. Ele continuamente se aproxima do lado da revolução e se distancia cada vez mais da Igreja. Realmente, nesse sentido ele avança continuamente na direção da conformidade com o povo. Assim, o ‘católico liberal’, cuja intenção era a de conciliar a Igreja com a Revolução, tornou realmente possível a vitória da Revolução. Ele não ganhou nada da esquerda, perdeu muito da direita, não conseguiu nenhuma conversão, facilitou muito perversão e causou até mesmo uma multidão de apostasias. Ele nos acusa de colocar a Igreja em perigo, e ainda assim é Ela sozinha que se defende perante um mundo hostil, simplesmente anunciando o que Ela acredita e deseja. Ao contrário então, nós o acusamos de trair a Igreja. Ele coloca a fé em perigo ao destruir a resistência católica ou, por covardia, ao fazer um pacto com o próprio adversário.
“Ao ‘católico liberal’ não falta inteligência. Ele tem uma eloqüência, um talento e um conhecimento mais perfeitos que qualquer um. É contudo sua posição que é imbecillus, segundo o significado latino. Em lugar de construir sobre a pedra, fundatus supra firmam petram, ele constrói sobre a areia movediça da liberdade em que ele é engolido. Sua posição é totalmente contraditória, pois ele deplora os próprios efeitos das causas que ama, e deseja combater a impiedade, a imoralidade e a heresia sem perceber que seu próprio liberalismo o conduz para essas conclusões.”
Volto a lembrar que o livro de Pe. Roussel foi escrito em 1926 e é uma extraordinária descrição do “católico liberal”. Felizmente, Pe. Roussel não viveu para ver sua Igreja invadida por liberais que, hoje, constituem uma maioria.
[1] Estas virtudes sociais podem, contudo, existir e ser entendidas fora do coração da verdadeira religião. Somente o catolicismo, que é a ordem integral e mesmo a força de Deus, pode, por sua própria natureza, levar essas virtudes à sua perfeição em relação a este mundo.
[2] Liberalismo, especificamente condenado pelo Papa Leão XIII, é esse sistemático ato de concessão e a paixão pela paz a qualquer custo (Rev. Pe. De La Taille, En face Du Pouvoir, p. 118)
[3] Aqui Pe. Roussel se refere ao livro de D. Félix Sarda y Salvany, El liberalismo es pecado. (N. do T.)