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segunda-feira, fevereiro 20, 2017

Palestra sobre a vida de Pe. Frederick William Faber: próximo domingo, 26 de fevereiro, após a Missa.

Padre Faber foi o fundador e superior do Oratório de São Filipe Neri em Londres. Sua história se confunde com a de grandes católicos convertidos da Igreja Anglicana para a Igreja Católica na esteira do Movimento de Oxford. Tal movimento teve enorme repercussão na Inglaterra no século XIX. A grande figura do movimento foi o beato Newman, de quem Padre Faber era um admirador. 


A palestra sobre a vida de Padre Faber acontecerá dia 26/02, após a Missa, que será celebrada na Capela Nossa Senhora do Líbano (Floresta), em Belo Horizonte, MG, às 8h00. A palestra começa em torno das 9h50.

Todos estão convidados.

quarta-feira, fevereiro 27, 2013

Dependência de Maria

Pe. Frederick William Faber 

Nota: Pe. Faber deixou, com sua morte, uma quantidade enorme de notas manuscritas de diversas ordens. Umas faziam parte de trabalhos mais extensos que não puderam ser completados, outras eram pequenos artigos não revisados. Algumas outras parecem ser anotações para algum sermão ou conferência. Dois anos depois de sua morte, elas foram organizadas e selecionadas para serem publicadas em livro e formam dois volumes de cerca de 400 páginas cada um. Aqui eu traduzo uma dessas notas, sobre o assunto favorito desse grande padre oratoriano: Maria. Ela data da Quaresma de 1856. Mesmo as notas incompletas desse grande devoto de Maria valem mais que muitos livros modernos sobre a Mãe de Deus.


I. Nosso Senhor é nosso exemplo e nosso Redentor.
1. Daí a necessidade de estudar os quatro Evangelhos como nossa regra de vida.
2. Nessas coisas que parecem as menos adequadas à Sua Divindade, Ele parece ser o maior de nossos exemplos.
3. E essas coisas estão principalmente sob os títulos de humilhação e submissão.
4. Exemplos: Os quarenta dias no deserto; Sua permanência no templo aos doze anos de idade. Seleciono esses exemplos como os que, na superfície, são os menos imitáveis.
5. Mas acima de tudo, a maior parte daqueles trinta e três anos dados a Maria, trinta do total de trinta e três, e muito dos outros três. 
II. Sua dependência de Maria.
1. Ele esperou seu consentimento para Sua Encarnação, e determinou o momento por causa dela.
2. Sua infância com o uso da razão, ainda assim dependendo dela.
3. Ele parece ter deixado os negócios de Seu Pai ao retornar do templo para Nazaré.
4. Por dezoito anos, Ele foi simplesmente sujeito a ela.
5. A tradição de que Ele pediu-lhe permissão para iniciar Seu Ministério, e novamente para enfrentar a Sua Paixão.
6. A seu pedido, Ele antecipou Seu tempo de obrar milagres.
7. Ele perpetuou essa dependência na Igreja ao transferi-la a nós por meio de São João.
III. Nossa dependência de Maria.
1. Sua posição em relação a nós é assim simplesmente a que era em relação a Ele.
2. Toda verdadeira devoção a ela não é nada senão dependência dela.
3. Essa dependência é baseada na;
a) Crença em seu poder;
b) Confiança em seu amor.
4. Todas as coisas boas que falham, falham porque não possuem nelas o suficiente de Maria.
5. Devemos colocar as coisas em suas mãos, e nos voltar a ela pelos resultados.
6. Ela deve estar incrustrada em nossas vidas, como estava no ministério da Igreja.
7. Santidade é impossível para nós sem Maria – pois, Deus criou um sistema consistente, e ela é parte dele, por vontade d’Ele.
Ah, se nós nos lançássemos mais do que fazemos sobre Maria, com todo o peso de nosso amor, com todo o peso de nossas necessidades! Ela está amando cada um de nós neste exato momento, com um amor insuperável. Nenhum amigo, nenhum parente, nenhum santo, nenhum anjo foi para nós o que ela tem sido. É maravilhoso o que ela nos tem feito sem nenhum pedido nosso. Mais maravilhoso ainda é o que ela tem feito com o pouco que lhe pedimos. Mas o mais maravilhoso de tudo é o que ela pode fazer e fará, se pedirmos mais, acreditarmos mais, confiarmos mais. Ah, nós que chamamos a terra de nosso desterro, e o céu, nossa casa, e Maria o Rainha do Céu, como então não percebermos que não pode haver celestial predisposição que não esteja repleta de lealdade à grande Rainha?

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

Seis vantagens da aplicação das nossas indulgências às almas do Purgatório.

Nota: o blog já está em preparação para a Quaresma de 2013 e oferece aos leitores este extraordinário texto de Pe. Faber sobre as almas do Purgatório. Quaresma é tempo de pensarmos em nossos pecados e nos Novíssimos.

Tudo por Jesus, Pe. W.F. Faber,
trad. portuguesa,
H. Garnier, Livreiro-Editor, s.d.
 
Há pessoas que aplicam às almas do purgatório todas as indulgências que lucram; outras pelo contrário, guardam-nas todas para si mesmas, e ninguém tem o direito, certamente, de condenar este modo de proceder. Pois quem ousaria contestar a quem quer que fosse uma liberdade que a Igreja lhe concede? Graças a Deus, não tenho semelhante pretensão. Sem embargo, vou expor livremente o meu modo de sentir a este respeito. Contudo, cingir-me-ei estritamente ao que dizem sobre esta matéria os teólogos e os autores espirituais.

A graça é um benefício tão grande, que devemos procurar aumentá-la por todos os meios possíveis; e não há caminho mais curto para chegar a este fim, que converter a satisfação em mérito: é o que faremos ganhando indulgências para as almas do purgatório. Esta devoção acumular-nos-á grandes tesouros espirituais, e ao mesmo tempo que será agradável a Deus tiraremos dela uma imensa utilidade para nós mesmos. Examinemos alguns dos frutos que produz esta devoção, o que nos tornará mais generosos para essas filhas de Deus, essas esposas do Espirito Santo, que nós favoreceremos com nossas orações e boas obras, sem receio de que o fruto destas seja perdido para nós. Realmente, tira-se um grande proveito não reservando nenhuma parte das próprias obras de satisfação, das indulgências que se ganham, mas oferecendo-as por inteiro pelas santas esposas do nosso amadíssimo Redentor, que gemem entre os mais cruéis sofrimentos.

terça-feira, dezembro 04, 2012

Purgatório: Segunda visão - Parte IV


Pe. Faber

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PENA DOS SENTIDOS

Santa Catarina compara a alma que sofre a pena dos sentidos com o ouro no crisol. “Vede o ouro; quanto mais ele derrete, melhor fica, e ele é derretido até que todas as impurezas sejam aniquiladas. Esse é o efeito do fogo nas coisas materiais. Mas a alma não pode se aniquilar em Deus, mas pode se aniquilar em si mesma; e quanto mais é purificada, mais se aniquila em si mesma, até que finalmente ela descanse em Deus, completamente pura. Quando o ouro, segundo a expressão dos ourives, é purificado a vinte e quatro quilates, não mais se reduz, qualquer que seja o fogo que lhe seja aplicado, porque, na realidade, nada é consumido senão as imperfeições. O fogo divino age da mesma forma na alma. Deus a mantém no fogo até cada imperfeição ser consumida, e até que Ele a reduza a uma pureza de vinte e quatro quilates; cada um, contudo, segundo seu próprio grau. Quando a alma é purificada, descansa completamente em Deus, sem reter nada em si mesma. Deus é a sua vida. E quando Ele traz a Si a alma assim purificada, ela se torna impassível, pois nada mais há a ser purificado; e se ela fosse mantida purificada desta forma no fogo, ele não a causaria dor; não, pois seria o fogo do Amor Divino, a própria vida eterna, no qual a alma já não poderia experimentar mais contradições.”

A ALEGRIA NO PURGATÓRIO
  
Tal é o primeiro objeto que surge ante os olhos da alma: um sofrimento extremo. Agora, examinemos outro objeto: a extrema alegria. Como a alma ama Deus com a mais pura afeição, e sabe que seus sofrimentos são a Vontade de Deus para operar sua purificação, ela se conforma perfeitamente ao divino decreto. Durante sua estada no purgatório, ela nada vê senão o que agrada a Deus; ela não pensa outra coisa senão na Sua Vontade; nada lhe é mais claro que a conveniência de sua purificação, a fim de se apresentar bela e radiosa diante de tão suprema Majestade. Assim fala Santa Catarina: “Se uma alma, a ser ainda purificada, fosse apresentada à visão de Deus, ela se consideraria gravemente ferida, e seus sofrimentos seriam piores que os de dez purgatórios; pois ela seria inteiramente incapaz de suportar aquela excessiva Bondade e aquela suprema Justiça.” Por isso é que a alma sofredora está inteiramente resignada à Vontade de seu Criador. Ama suas próprias dores, e nelas se regozija, porque elas são a única Vontade de Deus. Assim, no meio de ardente calor, ela desfruta de um contentamento tão completo que excede ao entendimento da inteligência humana. “Não acredito,” diz Santa Catarina, “que seja possível encontrar um contentamento comparável ao das almas no Purgatório, a menos que seja o contentamento dos santos no Paraíso. Esse contentamento cresce diariamente por meio do influxo de Deus nessas almas, e esse influxo cresce na proporção em que os obstáculos vão se desvanecendo. De fato, com relação à vontade, dificilmente podemos dizer que as penas sejam realmente penas, tal é o contentamento com que as almas descansam na Vontade de Deus, à qual estão unidas pelo mais puro amor.”

Em outro lugar, Santa Catarina diz que esse inexplicável júbilo da alma enquanto submetida ao Purgatório se origina da força e pureza de seu amor a Deus. “Esse amor dá à alma um contentamento que não pode ser expresso. Mas esse contentamento não alivia nem uma pequena parte do sofrimento; não, é a demora que o amor experimenta antes de tomar posse do objeto amado que causa o sofrimento; e o sofrimento é maior na proporção da perfeição do amor que Deus tornou a alma capaz de Lhe devotar. Assim, as almas no Purgatório têm, ao mesmo tempo, o maior contentamento e o maior sofrimento; e um não obstrui o outro.” Quanto às orações, esmolas e Missas, Santa Catarina afirma que as almas experimentam com elas grande consolação; mas que, nessas e em outras coisas, a principal solicitude das almas é que tudo se deve “pesar na justa balança da Vontade Divina, deixando Deus seguir Seu próprio curso em tudo, satisfazendo a Si mesmo e à Sua Justiça, como Lhe aprouver.”

FALSA CONFIANÇA

A Santa conclui seu Tratado lançando seu olhar ao seu próximo e a si mesma. Ao próximo, ela diz: “Ah! se eu pudesse elevar minha voz tão alto para assustar todos os homens sobre a terra e dizer-lhes: Ó homens miseráveis! Por que se deixaram cegar por este mundo de modo a não fazer nenhuma provisão para aquelas imperiosas necessidades que encontrarão no momento da morte? Vós, todos vós, esperais encontrar abrigo sob a esperança da misericórdia de Deus. Mas não vedes que a própria bondade de Deus testemunhará contra vós por terdes se rebelado contra a Vontade de Senhor tão bom? Não descanseis numa falsa confiança, dizendo: Quanto chegar a hora de minha morte, farei uma boa confissão, e então, eu ganharei a indulgência plenária, e assim, naquele último momento, eu serei limpo de todos os meus pecados, e então serei salvo. Confissão e contrição (perfeita) são necessárias para uma indulgência plenária; e (essa) contrição é coisa tão difícil de conseguir que se soubésseis da dificuldade, tremeríeis de tanto temor, não ousando crer que tal graça vos possa jamais ser concedida, em vez de a esperardes com uma confiança temerária, como agora fazeis.”

Quando se examinava a si própria com a luz da iluminação sobrenatural, ela via que Deus a escolhera para ser na Igreja a expressão e a imagem viva do Purgatório. Ela diz: “Essa forma de purificação, que observo nas almas no Purgatório, eu a percebo agora em minha própria alma. Vejo que minha alma habita em seu corpo num purgatório inteiramente conforme ao verdadeiro Purgatório, com a diferença de que meu corpo pode suportar sem morrer. Não obstante, os sofrimentos estão pouco a pouco aumentando, até que alcancem um ponto em que meu corpo realmente morrerá.”

A doutora do Purgatório

Sua morte foi verdadeiramente maravilhosa, e tem sido sempre considerada um martírio do Amor Divino. A missão da santa, como a grande Doutora do Purgatório, foi tão verdadeiramente apreciada, desde o princípio, que na sua antiga vida, a vita antica, que foi examinada por teólogos em 1670 e aprovada no processo de sua Canonização, processo este composto por Marabotto, seu confessor, e Vernazza, seu filho espiritual, está dito: “Verdadeiramente, parece que Deus escolheu Sua criatura como um espelho e um exemplo das dores da outra vida, que as almas sofrem no Purgatório. É como se Ele a tivesse colocado num alto muro a dividir esta da outra vida; de modo que ao ver qual sofrimento nos espera na vida além tumulo, ela pudesse manifestar-nos, ainda nesta vida, o que devemos esperar quando cruzarmos a fronteira.” Este é um simples resumo de seu maravilhoso e superlativamente belo Tratado, que colocou Santa Catarina dentre os teólogos da Igreja.

A mesma visão do Purgatório de Santa Catarina é exposta brevemente, embora de modo tocante, por Dante, naquela bela cena em que ele e Virgílio vagueiam pelos arredores do Purgatório. O poeta se torna subitamente fascinado pela luz brilhante de um Anjo que desliza pelo mar, empurrando um barco repleto de novas almas para o Purgatório; e ele descreve o barco deslizando na direção das margens tão suavemente que não produz nenhuma onda na água, enquanto as almas que deixaram a vida, a terra, e o julgamento há poucos minutos, penosa e, ao mesmo tempo, alegremente cantam o salmo In exitu Israel de Egypto. Foi, certamente, uma bela concepção de Dante; e como ele era tanto teólogo quanto poeta, julguei oportuno mencioná-la aqui como prova da visão que tinham os intelectuais no tempo de Dante.

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terça-feira, agosto 14, 2012

Purgatório: Segunda visão - Parte III (O ensinamento de Santa Catarina de Genova - I)


Pe. Faber

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Não antes que a alma, sem culpa de pecado mortal, mas ainda com o débito para com Deus da pena temporal, seja libertada deste mundo e julgada, ela pode perceber que está confirmada na graça e na caridade. É então incapaz de pecar e também acumular méritos; e está destinada, por um eterno e imutável decreto, a entrar um dia como rainha no reino dos Bem-Aventurados, a ver, amar e desfrutar de Deus, a Fonte perpétua de toda a felicidade.

Neste instante, todos os pecados da vida passada são apresentados à alma, sejam mortais ou veniais, mesmo que tenham sido remidos durante a vida por contrição e pelo Sacramento da Penitência. Mas depois dessa visão transitória e instantânea, a alma não mais se lembra deles. As palavras da Santa são: “A causa do Purgatório, que essas almas têm em si mesmas, elas veem uma vez por todas na passagem desta vida para outra, e em nenhum outro momento.” A razão dessa exibição dos pecados, ela nos ensina, é possibilitar à alma, naquele momento, por um ato – não mais realmente meritório, mas ainda assim um ato real da vontade – detestar todos os seus pecados uma vez mais, e especialmente aqueles pecados veniais pelos quais ela não teve nenhuma contrição durante a vida, ou por causa de fraqueza de coração, ou por causa de uma morte súbita. Isto porque é estritamente verdade que nenhum pecado é perdoado sem um ato formal de detestação dele.

Depois dessa visão momentânea dos pecados e de sua destestação, a alma percebe em si mesma suas (dos pecados) más consequências e “legados malignos”, que formam o que os santos chamam de “impedimentos para a visão de Deus”. “A ferrugem do pecado”, ela diz, “é o impedimento, e o fogo passa a consumir a ferrugem; e como uma coisa que está coberta não consegue corresponder à reverberação dos raios do sol, assim se a cobertura é consumida, a coisa é finalmente exposta ao sol.” É assim que o Purgatório esgota, na alma, o débito (reatus) do pecado venial, e também o débito da pena temporal pelos pecados mortais já remidos. Esta última afirmação, meus leitores perceberão, não está, como alguns pensaram, em desacordo com o ensinamento de Suarez e outros escolásticos, que mantêm que não há mancha deixada na alma pelo pecado que exija uma ação de limpeza daquele fogo. A santa fala em todo o tratado como se o Purgatório fosse não tanto um lugar de limpeza de manchas, mas de pagamento de débitos.

DESEJO DE PURIFICAÇÃO

Tão logo a alma se percebe aceita por Deus e constituída em herdeira do Paraíso, mas incapaz, por causa desse impedimento, de tomar imediata possessão de sua herança, ele desenvolve um intenso desejo de se livrar desse impedimento, dessa dupla obrigação de culpa e pena. Mas sabendo que apenas o Purgatório pode consumir essas obrigações, e que é exatamente com esse objetivo que Deus condena a alma a esse fogo, ela deseja suportar essa pena. “A alma separada do corpo (estas são as próprias palavras da santa), não encontrando em si mesma toda a pureza necessária, e vendo em si esse impedimento que não pode ser tirado exceto pelo Purgatório, imediatamente nele se joga com uma vontade firme. Ora, se a alma não considerasse o Purgatório uma instância apropriada para a remoção desse impedimento, surgiria imediatamente em seu interior um inferno muito pior que o Purgatório, visto que ela perceberia que esse impedimento não a permitiria aproximar-se de Deus, que é seu fim último. Por conseguinte, se a alma pudesse encontrar outro purgatório mais cruel, em que ela pudesse se livrar mais rapidamente desse impedimento, ela velozmente nele se precipitaria, por causa da impetuosidade do seu amor por Deus.”

Mas isso não é tudo. No capítulo seguinte a santa continua a ensinar que se a alma, trabalhando sob esse impedimento, fosse livre para escolher entre acender imediatamente da situação em que se encontra para o Paraíso, e descer para sofrer no Purgatório, ela escolheria sofrer, embora os sofrimentos sejam quase tão terríveis quanto aqueles do Inferno. Estas são suas palavras: “Acerca da enorme importância do Purgatório nenhuma língua pode dizer, nenhuma mente conceber. Pelo que vi, suas penas são quase como se fossem as do Inferno; e, mesmo assim, vejo também que a alma que percebe em si o mais tênue defeito ou partícula de imperfeição preferiria se lançar em milhares de infernos a se encontrar na presença de Divina Majestade com esse defeito à mostra; e portanto, percebendo que o Purgatório está ordenado a tirar essas imperfeições, ela de imediato se lança nele e parece, pelo que vejo de sua compostura, considerar que tal lugar é de grande misericórdia, pois permite que ela se livre desse impedimento.”

PENA DE DANO

Quando a alma justa chega ao Purgatório, perdendo de vista tudo o mais, vê diante dela apenas duas coisas: o extremo sofrimento e a extrema alegria. Uma dor tremenda é causada pelo conhecimento de que Deus a ama como um amor infinito, que Ele é o Principal Bem, que Ele considera a alma como Sua filha, e que Ele a predestinou a desfrutar d’Ele para sempre em companhia dos Bem-Aventurados; e, assim, a alma O ama com uma caridade pura e perfeita. Ao mesmo tempo, ela percebe que não pode vê-Lo ou desfrutá-Lo ainda, embora anseie isso tão intensamente; e sua aflição aumenta ainda mais com a incerteza de quando terminará seu exílio, longe de seu Senhor e do Paraíso. Essa é a pena de dano do Purgatório, da qual a santa diz que é “uma pena tão extrema que nenhuma língua pode descrevê-la, nenhuma inteligência conceber a menor porção dela. Embora Deus em Sua bondade me mostrasse uma pequena centelha dela, não consigo expressá-la com minha língua de modo algum.”

Ela compara a pena de dano ao anseio por um pedaço de pão. “Se em todo o mundo houvesse apenas um pedaço de pão que fosse capaz de satisfazer a fome de todas as criaturas, quem ficaria saciado apenas por contemplá-lo, quais seriam os sentimentos de um homem que possuísse, por natureza, o instinto de comer, quando saudável; quais, repito, seriam seus sentimentos se não fosse nem capaz de comer, nem estivesse doente ou a beira da morte? Sua fome seria sempre crescente e, sabendo que nada havia exceto aquele pedaço para satisfazê-lo e ainda assim não sendo capaz de consegui-lo, ele permaneceria em insuportável tortura.” Essa semelhança, contudo, nos mostra tão somente uma sombra do que a alma realmente sofre. Ela é continuamente arrastada por um imperceptível e violento amor por Deus, único que pode satisfazê-la. Essa violência cresce incessantemente enquanto a alma faminta fica privada de seu Divino Objeto, pelo qual ela se mostra indescritivelmente voraz; e sua tortura continuaria assim também aumentando, não fosse mitigada pela esperança – ou antes, pela certeza de que está cada vez mais perto da eterna felicidade. Nas palavras do profeta, o sofredor sabe que “verá o fruto do que sua alma trabalhou e ficará satisfeito.” (Is. 53:13).

sábado, junho 30, 2012

Purgatório: Segunda visão - Parte II



Pe. Faber

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Perfeito amor a Jesus e Maria

Oh! quão solene e avassalador é o pensamento daquela região sagrada, daquele reino de dor. Não há choro, não há murmúrio; tudo é silente, silente como Jesus ante seus inimigos. Nunca saberemos o quanto amamos realmente Maria até que a olhemos daquelas profundezas, daquele vale repleto do temível e misterioso fogo. Ó bela região da Igreja de Deus! Ó amada hoste do rebanho de Maria! Que incrível cena é apresentada a nossos olhos quando contemplamos aquele consagrado império de impecabilidade, e mesmo assim do mais agudo sofrimento. Há a beleza daquelas almas imaculadas, e ademais há o encanto e a reverência de sua paciência, a majestade de seus dons, a dignidade de seus solenes e castos sofrimentos, a eloquência de seu silêncio; o luar do trono de Maria iluminando aquela região de dor e indizível expectativa; os anjos de asas prateadas viajando através das profundezas daquele reino misterioso; e acima de tudo, aquela invisível Face de Jesus, que é tão bem lembrada que parece quase visível! Que pureza imaculada de louvor existe aqui nessa liturgia de sagrada dor! Ó mundo, ó fatigado, ó clamoroso, ó mundo pecador! Quem não fugiria, se pudesse, como uma pomba libertada do cativeiro, dessa fadiga perigosa e peregrinação arriscada, e voaria alegremente para o lugar mais humilde daquela região tão pura, tão segura, tão santa de sofrimento e amor sem mácula?

Tratado sobre o Purgatório, de Santa Catarina de Genova

A publicação do tratado de Santa Catarina [Tratado sobre o Purgatório] é tão notável na história da doutrina e da devoção do Purgatório que pode ser útil uma breve descrição desse evento. O arcebispo de Paris, Mons. Hardouin Perefix, o mandou examinar pelos doutores da Sorbonne em 1666, e na sua aprovação, eles o descreveram como uma “rara efusão do Espírito de Deus sobre uma alma pura e amante, e um sinal maravilhoso de Sua solicitude para com Sua Igreja e Seu cuidado em iluminá-la e assistir-lhe segundo suas necessidades”; e a aprovação continua dizendo que os examinadores consideraram o Tratado como um socorro providencial para os católicos, justo quando as heresias de Lutero e Calvino, dentre outras heresias, começavam a atacar os mortos [pela proibição das orações e Missas para eles].

Em 1675, Martin d’Esparza, um jesuíta, apresentou sua censura [veredito] acerca do Tratado ao Cardeal Azolini, que era ponente [Postulador] na causa da beatificação da santa. Nesse documento ele diz que a doutrina do Tratado é “irrepreensível, muito salutar, e integralmente seráfica,” que ela foi “impressa em sua alma pelo Espírito Santo por meio de uma especial e secreta iluminação,” e essa doutrina, juntamente com aquela de seu Diálogo entre a Alma e o Corpo, é “a prova mais eficaz da santidade heroica da serva de Deus.” Maineri observou, na sua biografia da santa, como uma curiosa coincidência, que o nome de “Purgatório” foi dado oficialmente, e pela primeira vez, a esse estado intermediário, em 1254, por Inocêncio IV, que era da casa dos Fieschi, família de nossa santa.

Darei a seguir um resumo da doutrina de seu Tratado.

sexta-feira, maio 11, 2012

Purgatório: Segunda visão - O desejo das almas por purificação – Parte I



Pe. Faber

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A segunda visão do Purgatório não nega nenhuma das características da visão anterior, mas quase as coloca fora do campo de visão, por meio de outras considerações que ela torna mais proeminentes à nossa vista. A alma adentra o Purgatório com os olhos fascinados e com seu espírito docemente tranquilizado com a face de Jesus, seu primeiro vislumbre da Sagrada Humanidade, no Julgamento Particular que tem de sofrer. Esta visão a acompanha, e adorna os terrores díspares de sua prisão qual uma permanente chuva prateada de raios de lua que parece provir dos olhos amorosos de nosso Salvador. No mar de fogo, ela parece se agarrar fortemente a essa imagem. No momento em que, sob Seu olhar, ela percebe sua própria inadequação ao Céu, ela dirige seu voo voluntário ao Purgatório, como uma pomba ao seu próprio ninho nas sombras da floresta. Ela não necessita de anjos para levá-la até lá, pois quem a leva é seu próprio louvor à pureza de Deus.

É o que se encontra belamente descrito numa revelação de Santa Gertrude, relatada por Blosius. A santa viu em espírito a alma de uma religiosa que passou a vida no exercício das mais elevadas virtudes. Ela estava perante Nosso Senhor revestida de ornamentos de caridade, mas não ousava levantar os olhos para olhá-Lo. Conservava-os baixos como se envergonhasse por estar em Sua presença, e mostrava por alguns gestos seu desejo de estar longe d’Ele. Gertrude, surpresa com a cena, ousou perguntá-Lo: “Misericordioso Deus! Por que não recebes esta alma nos braços de Vossa infinita caridade? O que são os estranhos gestos de retraimento que percebo nela?” Então, Nosso Senhor estendeu amorosamente seu braço direito, como para aproximar d’Ele a alma; mas ela, com profunda humildade e grande modéstia, se afastou d’Ele. A santa, perdida em surpresa ainda maior, perguntou a razão de ela fugir das carícias de um Esposo tão digno de ser amado; e a religiosa respondeu: “Porque ainda não estou perfeitamente limpa dos rastros que meus pecados deixaram; e mesmo que Ele me concedesse, neste estado, passe livre para o Céu, eu não aceitaria; pois por mais resplandecente que eu pareça a seus olhos, sei que eu ainda não sou uma esposa digna para meu Senhor.”


A beleza das pobres almas

Neste momento, a alma tem um terno amor por Deus. Aos olhos dos que partilham desta visão, estas almas se revestem da maior beleza. Como não ser bela uma amada esposa de Deus? A alma está sendo punida, é verdade; mas está também em inquebrantável união com Deus. “Ela não tem a mínima lembrança”, afirma decididamente Santa Catarina de Genova, “a mínima lembrança de seus pecados passados, ou da terra.” Sua doce prisão, seu santo sepulcro, é o cumprimento da adorável vontade de seu Pai celestial, e lá ela passa o período de sua purificação com o mais perfeito contentamento e o mais inefável amor. Como não é perturbada por nenhuma visão de si mesma ou do pecado, assim também não é acometida por nenhuma gota de temor, ou por uma dúvida sequer de sua própria e imperturbável segurança. Ela é impecável; e houve um tempo na terra que este estado de impecabilidade pareceria conter em si todo o Céu. Ela não pode cometer sequer uma mínima imperfeição. Não pode sentir o menor movimento de impaciência. Não pode fazer nada que, no mais mínimo grau, seja desagradável a Deus. Ela ama Deus acima de qualquer coisa e O ama com o mais puro e desinteressado amor. É constantemente consolada pelos anjos, e não pode senão regozijar-se com a assegurada confiança em sua própria salvação. Pelo contrário, suas agonias mais amargas são acompanhadas por uma profunda e imperturbável paz, que a linguagem deste mundo não tem palavras para descrever.


O anseio por Deus das almas sofredoras


Há revelações que falam de algumas almas que estão no Purgatório, mas não sentem seu fogo. Languescem pacientemente longe de Deus, e isto lhes é castigo suficiente. Há também revelações que contam acerca de grande número de almas que não possuem uma prisão local, mas sofrem sua purificação no ar, ou ao lado de seus túmulos, ou perto de altares onde está o Santíssimo Sacramento, ou em cômodos daqueles que rezam por elas, ou contemplando cenas de vaidades e frivolidades por elas anteriormente vividas. Se o sofrimento silencioso suportado graciosa e docemente é uma coisa tão venerável na terra, o que não deve ser essa região da Igreja? Comparado com a terra, suas provações, dúvidas e riscos instigantes e depressivos, quão mais belo – quão mais desejável – não é aquele reino silente, calmo e paciente sobre o qual reina a Rainha Maria, que tem Miguel como perpétuo embaixador de sua misericórdia?

O espírito desta visão é o amor, um desejo extremo de que Deus não seja ofendido, um anseio pelos interesses de Jesus. Seu tom é aquele que marca o primeiro voo voluntário da alma em direção àquela herança de sofrimento. Ela toma o partido de Deus contra si mesma, e o faz até o fim. Essa visão do Purgatório se funda na adoração da pureza e santidade de Deus. Olha para as coisas sob o ponto de vista de Deus e mescla seus interesses aos d’Ele. É esta a visão que podemos esperar de São Francisco de Sales e da amorosa Santa Catarina de Genova. E é o desamparo, e não a desventura, das almas detidas que move aqueles que partilham desta visão de compaixão e devoção; mas é a glória de Deus e os interesses de Jesus que, acima de tudo, os influenciam.

sexta-feira, abril 27, 2012

Purgatório: Primeira visão - Purgatório é similar ao Inferno


Pe. Faber

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A primeira visão é corporificada nos aterradores sermões dos quaresmali[1] italianos e naquelas pinturas populares que se vê em casas à beira das estradas, que tanto enfastiam os viajantes ingleses. Elas não cansam de representar o Purgatório como um inferno que não é eterno. Violência, confusão, gemidos e horrores pairam sobre suas descrições. Insistem, com justeza, na terrível pena dos sentidos, que misteriosamente acomete a alma. O fogo é o mesmo fogo do Inferno, criado com o único e expresso fim de torturar. Nosso fogo terreno assemelha-se, em comparação, a um fogo pintado. Além disso, há um horror especial e indefinível que recaí sobre a alma desencarnada ao se tornar presa dessa agonia material. O sentimento de aprisionamento, íntimo e intolerável, e a escuridão intensamente palpável são características adicionais ao horror da cena, que nos prepara para aquela vizinhança do Inferno, expressão usada por muitos santos para descrever o Purgatório. Os anjos aparecem como ativos executores da terrível justiça de Deus. Alguns afirmaram até que os demônios têm permissão de tocar e atormentar as esposas de Cristo naqueles fogos ardentes.

Então, a essas terríveis penas de sentido se ajunta a apavorante pena de dano. A beleza de Deus permanece o mesmo objeto imensamente desejável com sempre foi. Mas a alma muda. Tudo que na vida e no mundo dos sentidos entorpecia seus desejos de Deus não existe mais, de modo que ela O procura com uma impetuosidade que nenhuma imaginação pode em absoluto conceber. Seu excessivo e ardente amor torna-se a medida de sua dor intolerável. O que o amor pode fazer mesmo aqui na terra pode ser compreendido pelo exemplo de Pe. João Batista Sanchez, que dizia que seguramente morreria de miséria se ao acordar tivesse certeza de que não morreria naquele dia. A esses horrores podemos adicionar muitos mais, que representam o Purgatório como um inferno que apenas não dura para sempre.

O santo temor de ofender a Deus

O espírito dessa visão é um santo temor de ofender a Deus, um desejo por austeridades corporais, uma grande consideração para com as indulgências, um extremo horror do pecado e um tremor habitual ante a consideração do julgamento de Deus. Os que viveram sob penitências incomuns, e em Ordens religiosas severas, sempre foram impregnados dessa visão; e parece terem sido confirmados, nos mínimos detalhes, pelas conclusões dos teólogos escolásticos, como pode ser visto de imediato ao se consultar Berlarmino, que, em cada seção de seu tratado sobre o Purgatório, compara as revelações dos santos com as consequências da teologia. É notável também que quando o Beato Henrique de Suso, por meio de crescente familiaridade e amor a Deus, começou a considerar leves, comparativamente, as dores do Purgatório, Nosso Senhor o alertou que isso muito O desagradava. Pois, como considerar leve um castigo que Deus preparou para o pecado? Muitos teólogos dizem que não só a menor pena do Purgatório é maior do que a maior pena na terra, mas maior do que todas as penas terrenas juntas.

Esta é uma visão verdadeira do Purgatório, mas não uma visão completa. Mesmo assim, não é uma visão que possa ser considerada grosseira ou grotesca. É a visão de muitos santos e servos de Deus, e predomina nas celebrações do Dia de Finados em diversos países católicos.




[1] Pregadores da época da quaresma. (N. do T.)

sexta-feira, março 16, 2012

Purgatório: Devoção às Almas no Purgatório – Parte II

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Santa Teresa de Ávila

Quanto esta devoção é aceitável ao Deus Todo Poderoso, e o quando Ele consente em parecer, por assim dizer, impaciente pela libertação das almas, e ainda assim deixar a coisa ao sabor de nossa caridade, nos é ensinado pela incontestável autoridade de Santa Teresa. No seu livro, As Fundações, ela nos conta que de D. Bernardino di Mendoza lha deu uma casa, com jardim e vinha para servir de convento em Valhadolid. Dois meses depois disso, e antes de ocorre a fundação do convento, ele caiu subitamente doente e perdeu a fala, de modo que ele não pode se confessar, embora tenha dado muitos sinais de contrição. Ele “morreu,” diz Santa Teresa, “dentre em pouco, em lugar distante daquele que me encontrava. Disse-me o Senhor que a sua salvação estivera muito arriscada e que tinha usado de misericórdia com ele por causa do obséquio feito a Sua Mãe dando aquela casa para o mosteiro de Sua Ordem, mas que não sairia do Purgatório enquanto não se celebrasse a primeira Missa nesse convento. De tal maneira tinha presente as graves penas desta alma que, apesar do grande desejo que tinha de fundar em Toledo, deixei isso por então e dei-me toda a pressa que pude para ir fundar em Valhadolid conforme pudesse. Estando um dia em oração em Medina del Campo, disse-me o Senhor que me apressasse porque aquela alma estava padecendo muito. Meti mãos à obra e, embora sem grandes preparativos, entrei em Valhadolid no dia de São Lourenço.”

Ela então continua a relatar que, quando recebeu a Comunhão na primeira Missa celebrada na casa, a alma de seu benfeitor lhe apareceu com toda a glória, e depois entrou no Céu. Ela não esperava por isso, pois observa: “Embora tivesse havido alusão à primeira missa, eu fiquei pensando que seria aquela em que se pusesse o Santíssimo Sacramento.”

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

O martírio de Maria

Pe. Frederick William Faber

Nota: Assim começa o extraordinário livro de Pe. Faber sobre as dores de Maria. Junto com o Tratado, de São Luiz de Montfort, e de Glórias de Maria, de Santo Afonso, este livro completa uma extraordinária trilogia sobre a Virgem Santíssima que é imprescindível a todo católico. Este livro, pelo que sei, nunca foi traduzido para o português. Desnecessário dizer que está dentro dos planos deste modesto blogueiro a tradução deste livro tão importante. Por enquanto, leiamos o trecho abaixo e façamos dele nossa meditação de início de Quaresma. Meditemos sobre as dores de Nossa Senhora, à medida que a Paixão se aproxima e peçamos a Nosso Senhor que se digne a permitir a nossa participação, segundo a nossa fraqueza, em suas dores no Calvário, pela participação nas dores de sua Santa Mãe.


A beleza de Jesus é inexaurível. Como a Visão de Deus no céu, ela é sempre diversa, embora sempre a mesma; sempre apreciada como um contentamento antigo e familiar, embora sempre surpreendente e estimulante por ser, na verdade, perpetuamente nova. Ele é sempre belo, belo em todo lugar, tanto na desfiguração da Paixão, quanto no esplendor da Ressurreição, tanto nos horrores da Flagelação, quanto nos indizíveis encantos de Belém. Mas acima de todas as coisas, Nosso Senhor é belo em Sua Mãe. Se O amamos, devemos amá-la. Devemos conhecê-la, para conhecê-Lo. Da mesma forma que não há verdadeira devoção à Sua Sagrada Humanidade, que não seja consciente de Sua Divindade, também não há amor adequado ao Filho que O separe de Sua Mãe, e a coloque de lado, como um mero instrumento, a quem Deus escolheu como se escolhesse uma coisa inanimada, sem consideração por sua santidade e idoneidade moral. Mas é nosso dever diário amar Jesus cada vez mais. Um ano acaba e outro começa; o antigo curso das festas se repete; as conhecidas divisões do ano cristão nos abarcam, deixam em nós a sua marca, e se sucedem. Múltiplos Natais, Semanas Santas, Pentecostes, e algo há em cada um deles que os fazem residir como datas em nossa mente! Passamos alguns deles sob certas circunstâncias, e outros, sob outras. Alguns, graças a Deus, se distinguem por excepcionais aberturas de coração em nossa vida interior, de tal forma a alterar ou intensificar nossa devoção e materialmente influenciar nossas secretas relações com Deus. As fundações de muitas construções, que não se levantaram sobre a terra senão depois de muito tempo, foram lançadas quase inconscientemente nesses períodos. Todavia, quaisquer que tenham sido as alterações que essas festas trouxeram, elas sempre nos encontraram ocupados com uma única e mesma tarefa: estávamos tentando amar Jesus cada vez mais. E por meio de todas essas mudanças, e em toda a perseverança de nossa tarefa única, a experiência infalível nos tem dito que nunca avançamos mais rapidamente no amor do Filho do que quando viajamos com sua Mãe, e que o que construímos mais solidamente em Jesus, foi construído com Maria. Não há tempo perdido em Sua busca, se recorremos de imediato a Maria; pois Ele está sempre lá, sempre em casa. A obscuridade de Seus mistérios torna-se luz quando os colocamos sob sua luz, que é Sua luz também. Ela é o caminho mais curto a Ele. Ela tem o “grandioso acesso” a Ele. Ela é Sua Ester, e rápidas e integrais são as resposta a petições que suas mãos apresentam.

segunda-feira, fevereiro 20, 2012

Purgatório: Devoção às Almas no Purgatório – Parte I

Pe. Frederick William Faber

Nota: Na mensagem de Natal do ano passado, traduzi um texto introdutório ao livro Purgatório, de Pe. Frederick William Faber, da Congregação do Oratório de Londres. Começo agora a traduzir o livro, pouco a pouco, e a publicá-lo no blog. Espero que surja alguma editora católica com interesse em publicá-lo. Se não surgir, continuo a tradução até o fim e depois coloco o pdf do livro para download. É um livro extraordinário desse ilustre desconhecido do público brasileiro. Mais um católico inglês do século XIX de quem, como Chesterton, quase nenhum brasileiro ouviu falar. A propósito, Chesterton conhecia as obras de Pe. Faber e as cita, em seus escritos, principalmente os maravilhosos hinos devocionais que o padre oratoriano compunha.

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Embora estejamos misericordiosamente isentos de descer ao Inferno para buscar e promover os interesses de Jesus, coisa muito diferente ocorre com o Purgatório.

Se o Céu e a terra estão repletos da glória de Deus, assim também se passa com aquele lugar muito melancólico e interessante, onde os prisioneiros da esperança são impedidos, pela amorosa justiça de seu Salvador, de desfrutarem da Visão Beatífica; e se podemos fomentar os interesses de Jesus na terra e no Céu, podemos quase ousar dizer que somos capazes de fazer ainda mais no Purgatório. E o que estou tentando mostrar neste tratado é como você pode auxiliar Deus pela oração e práticas de devoção, qualquer que seja sua ocupação e missão; e todas estas práticas se aplicam especialmente ao Purgatório. Pois apesar de alguns teólogos afirmarem que embora as Santas Almas não ofereçam nenhum obstáculo, o efeito da oração por elas não é infalível, não obstante ser muito mais certo do que o efeito da oração pela conversão dos pecadores ainda sobre a terra, que é tão frequentemente frustrado pela sua perversidade e más disposições. De qualquer forma, o que desejo mostrar é isto: que cada um de nós – sem aspirar nada acima de nossa graça, sem austeridades para as quais não temos coragem, sem dons sobrenaturais que não alegamos – podemos, por meio de um sentimento amoroso e práticas de saudável devoção católica, fazer grandes coisas, coisas tão grandes que parecem inacreditáveis, para a glória de Deus, pelos interesses de Jesus e pelo bem das almas. 

Rezar pelos pecadores ou pelas Santas Almas?

segunda-feira, dezembro 19, 2011

Mensagem de Natal: um pensamento acerca do Inferno

Pe. Frederick William Faber

 Este ano a mensagem de Natal do blog versa sobre o Inferno. O que tem a ver o Inferno com o menino-Deus que nasceu no estábulo em Belém? O blogueiro não está sendo muito lúgubre tentando manchar toda a alegria da estação com este pensamento tão antiquado? Veja que até, diria um hipotético leitor não muito conformado com este post, até um bispo da Igreja – este sim, um homem moderno – tem negado a existência de tal desprazeroso lugar. Bem, Jesus nasceu, Deus se encarnou, para nos salvar justamente do Inferno. Quem nega a existência do Inferno, nega – além das muitas afirmações de Jesus sobre tal lugar – a obra da Redenção. Se não há Inferno, não há justiça divina, não há Deus. O Inferno afirma a existência de Deus, de Seu Filho e da Redenção. Podemos dizer que como parte da Criação, o Inferno canta as glórias de Deus.

Pe. Faber, e com ele todos os santos e teólogos da Igreja, afirma, no texto que se segue, que o pensamento acerca da realidade do Inferno é uma das mais potentes armas contra os ataques do demônio que, segundo São Pedro, anda por aí a rugir. Não custa lembrar que Nosso Senhor é o nosso caminho para o Céu, ou seja, para um lugar que está infinitamente, na ordem da graça, longe do Inferno. Bem, a história de nossa Redenção começa exatamente num estábulo de Belém.

Que todos tenham um santo Natal, mais próximo de Jesus, mais longe do Inferno.



É incrível quão querida a glória de Deus se torna para aqueles que continuamente a procuram. A busca já lhes dá novos sentidos pelos quais podem encontrá-la, ao passo que o amor diariamente crescente aguça perpetuamente seu discernimento. “A terra está plena de Vossa glória”. Que alegria para um coração ardente de amor! Não basta que o Céu transborde e que a terra se encha com a bem-aventurada inundação de Sua glória. Nós de bom grado desejaríamos que não houvesse rincão na criação que não fosse repleto dela. Contudo, há um lugar onde esta glória parece frustrada, um lugar do qual não se eleva nenhuma planta da oração, nenhuma alegria da adoração, nenhum abençoado agradecimento, nenhuma aspiração do desejo. É a casa daqueles que foram julgados e foram condenados, e que por isso perderam Deus para sempre.

Ali está a graça que não deu fruto, ou cujos frutos apodreceram na árvore. Ali estão os Sacramentos que foram em vão. Ali a Cruz fracassou e os propósitos amorosos de Deus sofreram uma resistência bem sucedida e foram completamente vencidos. Ainda assim, é de fé que Deus colhe imensa glória dessa inexprimível escuridão, pois a alma perdida é um louvor involuntário à justiça de Deus, tanto quanto a alma convertida é um louvor ao Seu amor. Tampouco os interesses de Jesus são inexistentes ali; pois as dores, tão indescritíveis como são – ah! o mais breve pensamento delas é intolerável – são menores do que o mérito do pecado, menores do que a justeza da medida de punição, e assim o são por causa d’Ele. O Precioso Sangue, em certo sentido, se faz presente até mesmo ali.

Tampouco aquele lugar horrível deixa de ter os mais abençoados resultados para a salvação de muitas almas, por meio do santo e salutar temor que alimenta nelas e da necessária correção das frouxas e distorcidas noções acerca de Deus por elas mantidas. Quando Nosso Senhor mostrou à Irmã Francisca do Santíssimo Sacramento, uma carmelita espanhola, a perda de uma alma, e diversas vezes numa visão a compeliu a positivamente considerar as diferentes torturas daquele lugar, Ele a repreendeu por chorar: “Francisca! Por que choras?” Ela caiu prostrada aos Seus sagrados pés e disse: “Senhor! Pela danação daquela alma, e o modo em que ela se perdeu.” Ele disse condescendente: “Filha! Ela escolheu se perder; Eu lhe proporcionei muitos auxílios da graça para ela se salvar, mas ela não aproveitou. Agrada-me vossa compaixão, mas prefiro que ames Minha justiça.” Outra vez, quando ela foi compelida a fixar seu olhar sobre aquelas dores, os Anjos lhe disseram: “Ó Francisca, esforce-se sempre pelo santo temor de Deus!” Quem pode duvidar que milhares e dezenas de milhares que estão, neste momento, desfrutando as delícias no Céu, lá não estariam se não houvesse o Inferno. Ele é, infelizmente, uma repreensão aos corações insensíveis dos homens, mas afinal, a Cruz de Cristo não tem tido melhor auxílio na terra que o insuportável fogo do Inferno.

Verdadeiramente é bom para nosso próprio bem que pensemos algumas vezes sobre aquele lugar horrível. Tal como a bela França se estende além do Canal,[1] tal como o sol brilha sobre brancos muros, frescas pontes, brilhantes jardins, palácios de muitos andares em sua belíssima capital, tal como milhares de homens e mulheres lá vivem vidas reais, cumprindo diferentes destinos, assim também há um lugar como o Inferno, todo cheio de vida neste exato momento, com numerosas almas sofrendo incontáveis agonias e inumeráveis gradações de desespero. Exceto a dos bem-aventurados no Céu, nenhuma vida é tão intensa e consciente quanto aquela de milhões de almas arruinadas. Não é impossível que rumemos para lá. Não é impossível que já tenhamos mandado alguém para lá. Quando andamos pelas ruas, vemos, não raro, aqueles que habitarão lá para sempre. Há alguns lá agora que não estavam lá uma hora atrás. Há alguns agora nos verdes campos, ou nas movimentadas cidades, em confortáveis camas, ou em ensolaradas praias, que na próxima hora, talvez, terão ido para lá. Esta é uma verdade extremamente real.

Mas, e se houver ainda mais verdades sobre isso? E se tiver havido um dia em que nós teríamos ido para lá se tivéssemos morrido? E se neste momento, lá estiverem meninos e meninas que pecaram muito menos que nós, ou ainda, que pecaram talvez uma só vez, enquanto nós temos pecado milhares de vezes? Ó, mas devemos nos humilhar ainda mais. Quanto tempo perseveraríamos no serviço de Deus se tivéssemos certeza que o Inferno não existia? Teríamos deixado nossos pecados, se não fosse pelo Inferno?[2]
 
Ó, que coisa boa é estar sobre esta boa terra, cercados por toda esta vida promissora, embora tenhamos realmente, por nossas próprias mãos e olhos, palavra, pensamento e diligente malícia, logrado o direito a esse infortúnio eterno. Ah! Tal como a névoa que surge do mar estéril – onde o milho não cresce e as videiras não dão frutos – que forma as nuvens que vão se desfazer em chuvas sobre vales e colinas, assim também daqueles amplos mares de fogo e maldição a Compaixão Divina surge como uma nuvem para derramar torrentes de graças sobre as almas dos homens que ainda vivem.

Que ninguém se afaste da visão do Inferno para que, pouco a pouco e por muito pouco, uma opinião positiva de si mesmo não cresça dentro de sua alma e o mande, por fim, para aquele sombrio exílio. Com efeito, é bom, muito bom, pensar sobre o Inferno, e nesta maravilha que é não estarmos lá neste exato momento. Não, não se assuste: o que você vê é, na verdade, a luz branca do sol que ilumina a terra. Nada tema: aquele som é o vento que agita os ramos das árvores. Seus olhos não o enganam: aqueles são os telhados das casas da cidade que estão dormindo envoltos na neblina, compondo um calmo cenário. Tudo está ainda bem. Estamos aqui e estamos livres; mas devíamos estar lá, e ser escravos!

Aqueles que servem a Jesus por amor não esquecem tais coisas. Não, eles delas se lembram tão mais frequentemente quanto mais O amam.


[1] Pe. Faber morava na Inglaterra. (N. do T.)
[2] Este é exatamente o fundamento da ação demoníaca para nos convencer da inexistência do Inferno. (N. do T.)

terça-feira, setembro 27, 2011

O amor à Sagrada Humanidade de Jesus segundo Padre Faber.

Nota do blog: Padre Faber continua a nos falar sobre os empecilhos à vida espiritual. Depois da devoção à Nossa Senhora, ele aborda o amor à Sagrada Humanidade de Jesus. Aqui fica claro, mais que em qualquer outro lugar, como nossa religião é diferente das demais, como a espiritualidade católica difere da espiritualidade oriental, tão em moda atualmente. Aqui também se pode perceber quão escandalosa pode se tornar para o mundo a cruz de Nosso Senhor.


Talvez a devoção à sagrada Humanidade de Jesus e aos seus mistérios seja defeituosa. É bem possível, e não é tão raro quanto deveria ser. Quem pode, porém, duvidar dessa devoção, que, embora nem sempre nos deixe nas mais altas regiões da contemplação, é todavia indispensável nas fases iniciais da vida espiritual? Deve impregnar todas as camadas da vida cristã. E ser cristão significa isso e não outra coisa. Cristo é o caminho do cristão, a verdade do cristão, a vida do cristão. Levar vida santa é ser esposa do Verbo incarnado, e, portanto, o amor do Verbo incarnado é o próprio coração da santidade. O amor da sagrada Humanidade é de três espécies: uma representa os afetos interiores para com nosso Senhor; outra, as provas de sinceridade e solidez desses afetos, e outra ainda, as operações que Jesus, Ele mesmo, suscita nas almas bem dispostas. São respectivamente, amor afetivo, efetivo e passivo.

O amor afetivo de nosso Senhor consiste num desejo intenso de sua glória, numa alegre complacência no triunfo dos seus interesses e num afetuoso e nobre pesar à vista do pecado. Leva-nos a derramar a alma em confidência junto d'Ele, a queixar-nos da nossa frieza e imperfeições, a expor-Lhe nossas penas, cansaços, desgostos e provações, abandonando-Lhe tudo numa indiferença tranquila e infantil.

O amor efetivo faz-nos ver a imagem viva de Jesus, representando em nossa própria vida os estados, mistério e virtudes da Sua. Trazemos exteriormente essa imagem pela contínua mortificação, diminuindo e apertando o conforto corporal, regulando os sentidos, derrubando as exigências extravagantes do mundo e da sociedade, pela ciosa moderação dos afetos e dos prazeres inocentes, e pela perpétua repressão de toda vaidade e arrogância. Nossa vida interior é conforme à de Jesus pela liberdade de espírito que significa o desapego das criaturas e a conformidade à sua vontade. Nossas ações exteriores trazem a estampa divina quando procedemos como se fôssemos membros seus, quando fazemos todas as ações em seu nome e segundo as suas inspirações.

Não devemos, de modo geral, contar com o amor passivo, nessa fase da vida espiritual; se trato dele aqui, é mais para aprendermos a anelar pelo dia em que venha a ser nosso. É sempre animador o pensamento de quão perto de Jesus somos capazes de chegar, mesmo antes de morrer, se assim aprouver a Deus. Sua primeira operação nesse estado sobrenatural é ferir-nos a alma de amor, para que percamos o gosto de tudo que não for Ele ou d'Ele. É como se nos fosse dada uma nova natureza, tão pouco em harmonia com o mundo desgraçado que nos cerca, que desfalecemos e definhamos como se estivéssemos fora do nosso elemento. Então Deus aprofunda e embebe-nos os pensamentos, afetos, palavras e obras com o Seu amor, até ficarmos incapazes de fazer outra coisa senão O procurar, qual Esposa dos Cânticos. Todo amor, exceto o Seu, é rejeitado; toda idéia, exceto a Sua, apaga-se-nos na imaginação; tudo, enfim, que não está em relação com Ele, cai-nos da lembrança, como se nunca fora, a tal ponto que Ele possui a nossa alma inteiramente e não somos nós que vivemos, mas Ele é que vive em nós. Então abrasa-nos como o fogo do Seu irresistível amor e faz-nos dar largas aos feitos de heróica caridade e união sobrenatural com Ele. Ao mesmo tempo, aviva-nos o sentimento da nossa própria vileza, do nosso nada, de tal maneira que estamos sempre a deplorar a insignificância do nosso serviço e a falta de energia dos nossos corações. Por último, Deus lança-nos num estado de sofrimento purificador; ajusta-nos aos ombros a cruz perene e nós, então, só procuramos sofrer mais, só evitamos sofrer menos. Assim, despe-nos de nós mesmos e torna-nos inteiramente Seus. Tudo isso, porém, ainda está muito longe. Fitai os olhos atentamente no alto; não sei, porém, se conseguireis sequer ver os topos das montanhas onde tudo isso se encontra. Coragem! Já é alguma coisa saber que existem tais alturas.

Inconcebíveis são as vantagens que tiramos desses exercícios de amor do Verbo incarnado. O coração desapega-se das criaturas; o amor próprio queima-se e extingue-se; as imperfeições desaparecem; a alma enche-se do espírito de Jesus e dá passos de gigante nas veredas da perfeição. Se a brisa não nos impele as velas, verifiquemos se nosso amor para com a adorável Pessoa e a sagrada Humanidade de nosso Senhor é o que deveria ser, o que Ele espera e pede de nós; se, ao menos, cultivamos visivelmente esse amor e se nos esforçamos diariamente por dilatá-lo.

terça-feira, agosto 02, 2011

Nunca é demais lembrar o que é ser católico! Pe. Faber nos ajuda.

"Convém acostumar-vos a considerar o Evangelho sob o seu verdadeiro ponto de vista e saber que a nossa religião é toda de sofrimento, de mortificação, de sacrifício, de amor consumidor, de zelo que se esquece a si mesmo, e de união que se crucifica. Numa palavra, é a religião da Cruz e do Crucificado. Compenetrai-vos bem dessa verdade, que tanto repugna à natureza, de que a abnegação lhe constitui a essência, e que a abnegação deve ser diária, não somente para que possamos ser perfeitos, mas ainda para que possamos ser discípulos de nosso amado Senhor."

quarta-feira, julho 06, 2011

Atenção: a devoção a Nossa Senhora não é opcional!

Nota do blog Isto é o que nos avisa Pe. Frederico Faber (oratoriano, originalmente anglicano, nasceu e viveu na Inglaterra de 1814 a 1863)num texto belíssimo e terrível. Ele o inicia dizendo: “Concluo que os nossos obstáculos (à vida espiritual) secretos se baseiam em cinco erros”. Um deles é o relacionado à devoção a Santíssima Virgem. Vejamos então o que nos ensina Pe. Faber no capítulo 5 do seu livro “Progresso na Vida Espiritual”, Editora Vozez, trad. Mariana Nabuco, 1954.

É bem possível que o empecilho (à vida espiritual) seja a falta de devoção a nossa Senhora. Sem esta devoção a vida interior é impossível, porque não é conforme a vontade de Deus. E esta reside sobretudo em nossa Senhora. 

Ela é a solidez da devoção, e não nos lembramos bastante disso. Os principiantes estão com freqüência tão ocupados com a parte metafísica da vida espiritual, que não dão a esta devoção a necessária importância. Mencionarei aqui alguns pontos que eles não parecem ter a peito. 

A devoção à Mãe de nosso Senhor não é um ornamento do sistema católico, uma beleza supérflua, nem mesmo um auxílio, dentre os muitos que podemos ou não empregar, mas é parte integral do cristianismo, e, sem ela, nossa religião não é, estritamente falando, cristã. Seria uma religião diferente da que Deus revelou. Nossa Senhora é uma lei distinta de Deus, um meio especial de graça, cuja importância ressalta do ódio instintivo que lhe tem a heresia. 

Maria é o pescoço do corpo místico unindo portanto todos os membros à Cabeça, e sendo o canal e o instrumento que dispensa todas as graças. A devoção a nossa Senhor é a verdadeira imitação de Jesus, porque, após a glória do Pai, foi a devoção mais ligada e mais cara ao sagrado Coração. É de uma solidez a toda prova, porque está perpetuamente ocupada como o ódio do pecado e a aquisição de virtudes substanciais. Descuidar-nos dela é desprezar a Deus, pois ela é a sua lei; é ferir a Jesus em sua Mãe. 

Deus mesmo a colocou na Igreja, como um poder distinto, e, portanto, o seu culto é eficaz, é fonte de milagres, é parte da nossa religião, que de modo algum podemos pôr de lado. A espiritualidade é necessariamente ortodoxa. Isto é evidente. Ora, a doutrina não seria ortodoxa, se preterisse o ofício e as prerrogativas da Mãe de Deus. Assim, também a espiritualidade não é ortodoxa, em se desviando ou separando duma devoção tão generosa quão justa. Com efeito, um erro de doutrina é duplamente perigoso quando se relaciona com a vida espiritual. Envenena a tudo, e não há prejuízo que não se possa prever para a infortunada alma que lhe é sujeita. 

Se, então, tendes os sintomas que indicam algo de errado, algo que vos retarda, verificai primeiro se vossa devoção a nossa Senhora é o que devia ser, em qualidade e grau, em fé e confiança, em amor e lealdade. A perfeição está sob a sua proteção particular, porque é uma das especiais prerrogativas de que goza como rainha dos santos.