17/10/2026

São Paulo, terna e patife

Em 1978, eu era um jovem estudante universitário que, pelos padrões acadêmicos, se destacava entre os demais. Era esquerdista de coração embora tímido politicamente. Seguia a cartilha esquerdista, sem afiliações partidárias. 

Naquele ano, Caetano Veloso lançou uma canção sobre São Paulo; Sampa. A letra vai abaixo.

Alguma coisa acontece no meu coração

Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João

É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi

Da dura poesia concreta de tuas esquinas

Da deselegância discreta de tuas meninas


Ainda não havia para mim Rita Lee

A tua mais completa tradução

Alguma coisa acontece no meu coração

Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João


Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto

Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto

É que Narciso acha feio o que não é espelho

E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho

Nada do que não era antes quando não somos mutantes


E foste um difícil começo

Afasta o que não conheço

E quem vem de outro sonho feliz de cidade

Aprende depressa a chamar-te de realidade

Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso


Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas

Da força da grana que ergue e destrói coisas belas

Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas

Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços

Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva


Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba

Mais possível novo quilombo de Zumbi

E os novos baianos passeiam na tua garoa

E novos baianos te podem curtir numa boa


Uma música ambígua e terna sobre São Paulo, sem dúvida!

Em 1978, estávamos vivendo a ascensão do movimento operário, comandado por Lula, "nosso" herói. Depois veríamos a formação do PT. Tudo exalava esquerdismo e esse miasma entrava em minhas narinas e em meu coração.

Ah, meu Deus, mas porque estou falando tudo isso? É porque me deparei recentemente com um texto sobre São Paulo, de uma perspectiva muito diferente e muito atual. Um texto arrasador de Evandro Pontes. 

Lula não é um produto do Nordeste. Lula é um produto de São Paulo. Essa São Paulo cuja direita sempre foi, no máximo, um PSDB e hoje repousa no colo de Tarcísio. A Meca do liberalismo, do Iguatemi, da Vila Madalena e desse ar esnobe de uma direita liberal ateia que faz macumba escondida nos terreiros clandestinos nas imediações do Jardim Europa. Uma cidade que se orgulha do prefeito liberal Faria Lima, que deu lugar a Ademar de Barros, Jânio Quadros e Paulo Maluf (nessa sequência) e depois se abriu para o PSDB de Covas, Serra e Alckmin. A SP de Kassab, o general do Centrão do tipo mais calhorda que há. A cidade que carrega nas costas o pior tipo de petismo: aquele petismo pedante da USP e da PUC de Perdizes, bairro de palmeirenses que hoje tem tudo, menos o Mundial.

SP é a locomotiva do Brasil e exporta para o resto do país esse seu jeito de ser patife, liberal, pseudodespretensioso e cheio de marra. Diz que trabalha, mas só oferece juros e especulação. Não tem uma indústria que preste de absolutamente nada. Tornou-se a “Londres brasileira”: não produz nada e suga tudo em juros, serviços bancários que não agregam valor algum a ninguém e servem para criar máquinas de gerar merda, como o caso do Banco Master. É a terra que dá a todos oportunidade para fazerem merdas que seus estados de origem se negam a fazê-lo.

Vorcaro, mineiro, veio pra SP montar seu esquema no Master. Lula, pernambucano, veio pra SP montar sua revolução. FHC e Tarcísio, cariocas, vieram pra SP fazer a revolução liberal. Pablo Marçal, goiano, veio pra SP montar seu esquema. Ninguém fica em seu estado de origem porque, por incrível que possa parecer, há um resquício de decência no interior do Brasil, em Pernambuco, Goiás, Minas, Rio e assim por diante, que não permite que essas pessoas emporcalhem seus estados de origem. É SP que irá abrir-lhes os braços. E é em SP que “as coisas acontecem”.

A terna São Paulo de Caetano Veloso, em que "novos baianos te podem curtir numa boa", é na verdade a locomotiva patife do Brasil!

07/10/2026

Rei David e o Dr. Feynman

Não me parece que este universo fantástico e maravilhoso, esta tremenda gama de tempo e espaço e diferentes tipos de animais, e todos os diferentes planetas, e todos esses átomos com todos os seus movimentos, e assim por diante, toda essa coisa complicada possa meramente ser um palco para que Deus possa assistir seres humanos lutarem pelo bem e pelo mal — que é a visão que a religião tem. O palco é grande demais para o drama.

- Genius: The Life and Science of Richard Feynman (1992)

Richard Feynmam foi um dos maiores físicos do sec. XX. Sua mente era brilhante e ele foi um grande professor de física. Escreveu uma obra em três volumes, Lectures on Physics, que é um clássico. Tenho os três volumes em minha biblioteca. Li atentamente o volume II, sobre eletricidade e magnetismo. Dei aulas baseado nele. 

Dito isso, no trecho que aparece acima, Dr. Feynmam se mete numa seara para a qual ele não está preparado. Seu ateísmo é patente, mas ele fala demais. Ateu quando fala demais é sempre uma lástima. 

Do seu conhecimento de física, ele nos descreve, em poucas palavras, o universo e toda a sua complexidade. Se fosse só isso, tudo bem. Não precisa ser físico para saber que o universo é complicado. Aí, surge o deus de Feynmam, assistindo o homem lutar "pelo bem e pelo mal". E ele diz que essa é a visão que a religião tem. Que religião, cara pálida?

Isso me lembrou a resposta de Jesus aos fariseus: "Qual é mais fácil: dizer ao paralítico 'Os teus pecados te são perdoados', ou dizer 'Levanta-te, toma o teu leito e anda'?" Nosso Senhor nos ensina aqui que o pecado é mais importante que a paralisia e que Ele tem comando sobre os dois.

E aí vem o Dr. Feynmam e nos diz: "O palco é grande demais para o drama." Eu diria que o drama é muito maior que o palco.

Quer saber, Dr. Feynmam qual é nosso drama? Nosso drama é o Pecado Original, cuja importância para Deus e para nós é muito maior que o Universo criado. É disso que se trata nossa Religião. O mesmo Deus que criou o Universo físico, que o senhor parece crer que conhece tão bem, criou as leis morais para que lutemos contra o mal e a favor do bem. 

O Salmo 148 já nos ensina isso. O salmista responde ao Dr. Feynmam há mais de 3.000 anos.

Salmo 148

v,5. Porque ele falou e tudo foi feito, mandou e tudo foi criado. (criação do Universo, com toda a complexidade que abisma Dr. Feynman)

v.6. Estabeleceu tudo eternamente e por todos os séculos; impôs preceitos que hão de subsistir para sempre. (que são preceitos senão as leis morais?).

O mesmo Deus que criou o Universo, como toda a sua complexidade, criou as leis morais, para que o homem se comporte bem e se eleve até Ele, o Criador. O palco, o drama e os atores são perfeitamente compatíveis com o que Deus quer de nós.

Tenho dito, Dr. Feynmam!

28/09/2026

A arte de ler ou não ler. O aristocrata alemão e o gênio inglês.

A arte de não ler é muito importante. Consiste em não se interessar por aquilo que esteja ocupando a atenção do grande público num dado momento. Quando algum panfleto político ou eclesiástico, ou um romance, ou um poema está causando grande alvoroço, deve-se lembrar que quem escreve para tolos sempre encontra um grande público. A condição prévia para ler bons livros é não ler os maus, pois a vida é curta.  Arthur Schopenhauer, 1851

Todo homem deveria ter lido boa literatura o bastante para saber quando está lendo má literatura, e continuar a lê-la. Deveria ter tido aquilo que corretamente se chama uma educação liberal, para conhecer os propósitos mais elevados a que a linguagem humana já foi posta. Mas o objetivo de uma educação liberal é torná-lo liberal, e não apenas torná-lo exigente. Ele deveria ser capaz de reconhecer as ideias que foram esclarecidas e codificadas pelas palavras dos grandes homens quando aparecem, de modo mais fragmentário, nas palavras dos homens comuns. Mas, se perdeu todo o interesse pelas palavras dos homens comuns, teria sido muito melhor não ter sido educado. Seria como dizer que aprendeu a valsar com tanto esmero que já não sabe andar, ou que foi tão perfeitamente treinado para cantar que já não sabe falar. O fruto mais alto do interesse pela literatura é um interesse mais fino pela vida; e a má literatura, tanto quanto a boa, pode lançar luz sobre a vida, se aprendemos a distinguir a luz das trevas. E há muitíssimas outras razões para ler livros além do fato de serem bons livros. É bom suportar os tolos com alegria; e ainda melhor divertir-se com os tolos às gargalhadas. Chesterton, 1920

Eis aí duas opiniões, duas visões, duas metafísicas, dois mundos. Dois humores; o primeiro do sarcasmo; o segundo da alegria. Schopenhauer é pessimista: a vida é curta, não podemos desperdiçá-la com lixo.

Chesterton exerce a gratidão: a vida é um presente e até os tolos fazem parte do espetáculo. Divirtamo-nos com eles ao invés de suportá-los. O gorducho Chesterton é leve porque se apoia numa sã visão de mundo. 

Schopenhauer é um aristocrata, Chesterton um homem do povo; não à toa, ele é chamado o apóstolo do senso comum. 


 

26/09/2026

Um padre velhinho e suas tentações

Certa vez fui com um amigo conversar com um padre velhinho, na esperança de convencê-lo a celebrar a Missa Tridentina para um grupo de fiéis em nossa cidade. Ele estava estabelecido em uma paróquia modernista, mas esperávamos que, tendo sido formado nos anos pré-CVII, ele pudesse ser movido a retornar à Missa de Sempre.

Conversamos muito tempo. Ele nos contou de sua formação no seminário, do uso do latim disseminado em todas as matérias estudadas. Contou que até aquele momento ele lembrava do Código Canônico de 1917, em latim, de cor. 

Ao final da conversa, para responder nossa insistente pergunta sobre a celebração da Missa Tridentina, ele entrou num modo reflexivo e disse algo sábio e comovente: na juventude a grande tentação de um padre são os pecados contra a pureza, na velhice lutamos contra as tentações da desobediência. Muitos clérigos jovens, que estão no comando, querem nos impor muitas coisas... 

Senti uma profunda tristeza nesse padre velhinho. E, claro, ele não aceitou celebrar a Missa Tridentina, por obediência, mesmo à luz do Moto Proprio de Bento XVI.

23/09/2026

Realidade e confusão

O problema do ser humano comum é achar que está entendendo alguma coisa. Ele se coloca num verdadeiro risco se tomar decisões precipitadas levando em conta esse suposto entendimento. 

A realidade é complexa e muito difícil de discernir. Há até quem duvide dessa realidade, como nos tenta fazer crer a Física moderna. No meio da confusão é muito fácil encontrar sabichões para nos orientar.

A virtude cardinal da prudência, nos lembra o prof. Sidney Silveira, nos serve para evitar que tomemos decisões precipitadas quando estamos confusos. Lembro-me desse conselho do professor nos tempos negros da pandemia. Ele me serviu muito bem.

Nós católicos sabemos muito bem disso, porque o Criador da Realidade nos deixou a Sua Revelação e Sua Igreja para nos orientar. Os sacramentos da Igreja nos unem a Ele da forma mais perfeita, proporcional a esse mundo em que vivemos e à natureza humana que temos.

Fiquemos pois satisfeitos e devotados aos pequenos pacotinhos de realidade que conseguimos entender: nossos miseráveis deveres de estados, que teimam em requisitar nossa atenção, de forma repetida, durante todos os dias de nossas vidas. Não será essa a cruz que devemos tomar para, como Ele próprio disse, segui-Lo em Seu caminho?


20/09/2026

Tesla e Sagan: ciência como apostolado.

"Para mim, o universo é simplesmente uma grande máquina que nunca teve origem e nunca terá fim. O ser humano não é exceção à ordem natural. O homem, assim como o universo, é uma máquina. Nada entra em nossas mentes ou determina nossas ações que não seja, direta ou indiretamente, uma resposta a estímulos que incidem sobre nossos órgãos dos sentidos vindos de fora."

Nikola Tesla, A Machine to End War (1935)

"Onde estamos? Quem somos nós? De onde viemos? Descobrimos que vivemos num planeta insignificante de uma estrela monótona perdida entre dois braços em espiral na periferia de uma galáxia que é membro de um aglomerado esparso de galáxias, escondidas em algum canto esquecido de um universo em que há muito mais galáxias do que pessoas."

Carl Sagan, Cosmos, 1980, p. 193

Eis aí dois cientistas famosos. Tesla é um mais superestimado cientista do século XX e sua fama parece só ter aumentado no século XXI. Não é a toa que a empresa daquele ser humano estranho se chame Tesla. Malucos de todos os matizes têm Tesla como o cara que descobriu uma série de coisas estranhas.

Carl Sagan foi o maior apóstolo do Big-Bang que já existiu. Uma observação: uma teoria científica não precisa de apóstolos, é ou não é verdadeira, ou é verdadeira dentro de certos limites. Mas o Big-Bang precisou de apóstolos e os tem até hoje. A série Cosmos na TV e o livro foi obra de um apóstolo, e um bem competente. Foram lançados nos anos 1980 e fizeram um sucesso enorme. A teoria do Big-Bang está hoje morta e quase enterrada!

As duas citações acima são de dois ateus de quatro costados. Ambas as citações não têm nada de científicas. São apenas regurgitações de homens descrentes que usam a ciência como arma, ou como racionalizações para seu próprio comportamento.

A citação de Tesla contêm uma contradição insanável, fácil de perceber: nada entra na mente de Tesla que não seja uma resposta a estímulos vindos de fora; portanto sua citação não é mais que uma resposta mecânica do organismo de Tesla a estímulos exteriores e, portanto, não tem significado algum, para além do mecanismo.

A citação de Sagan é conjunto de besteiras baseadas em conjecturas da cosmologia, que nem ciência é, a respeito de uma mistura de ontologia e metafísica barata para enganar trouxas. 

Apesar disso, os dois continuam a ocupar os altares da religião "ciência" nos dias que correm.

17/09/2026

Um Caminho de Esperança: primeiras e rápidas impressões.

Um novo documento foi publicado pelo Vaticano e foi elaborado por três discatérios: Doutrina da Fé, Para a Promoção da Unidade Cristã e Para o Diálogo Interreligioso. O documento tem o caráter de uma Nota e é intitulado Um Caminho de Esperança. É um documento comemorativo dos 50 anos da Declaração Nostra Aetate, que trata da relação da Igreja com as religiões não cristãs. Essa declaração foi proclamada por Paulo VI e é parte dos documentos oficiais do Concílio Vaticano II.

O Papa Leão XIV apenas autorizou a publicação da Nota, depois de uma audiência com os três discatérios, de 22 de junho de 2026. Essa nota tem uma autoridade mínima, segundo os próprios critérios do Vaticano II (Lumen Gentium 25).

A Nostra Aetate é o mais curto dos documentos conciliares, contudo um dos mais explosivos. A Nota é muito mais extensa, com aquela extensão gelatinosa, típica dos documentos papais pós-conciliares. Mas é mais clara em demolir conceitualmente o dogma: extra ecclesiam nula salus.Faz isso, curiosamente, mudando de assunto.

A finalidade da Igreja, no seu relacionamento com os que estão fora dela, foi sempre a conversão; os conversos haveriam de ser incorporados à Igreja, Corpo Místico de Jesus Cristo, pelo batismo. A Nota afirma a unicidade de Cristo, nunca a necessidade da Igreja. Os fins que ela atribui ao diálogo são: uma sociedade fraterna capaz de aceitar as diferenças e a coexistência pacífica; a justiça, a paz e a proteção da criação; a dignidade humana, a paz social e o cuidado da criação; a paz e a amizade como frutos maduros do encontro. Nenhum desses fins tem o caráter sobrenatural. "Conversão", "batismo" e "incorporação" não ocorrem no documento; "salvação" ocorre uma única vez, e dentro de uma negação. A missão evagelizadora da Igreja se resume agora a fins exclusivamente naturais.

A Nota comemora a Nostra Aetate e, ao comemorá-la, atualiza-a. A Declaração de 1965 reconhecia nas religiões não cristãs "um raio daquela Verdade que ilumina todos os homens" (NA 2) — fórmula que o tradicionalismo contestou, e com razões, mas que ao menos era teológica. A Nota não a retoma. Em seu lugar propõe uma agenda: mudanças geopolíticas e ecológicas, a aldeia global e a paz social. Uma pergunta comum mantém aberta a questão da verdade; uma agenda comum dispensa totalmente a discussão.

A Igreja, como o Brasil, não é para amadores. Que Nossa Senhora tenha piedade de nós!