terça-feira, julho 10, 2018

O martírio cristão dos primeiros séculos descrito pelo Pe. Antonio Gallonio

O Pe. Antonio Gallonio, do Oratório de São Felipe Neri escreveu, em 1591, o Tratado dos Instrumentos de Martírio: e diversos modos de suplício empregados pelos Pagãos Contra os Cristãos.

Eis um trecho da introdução à edição francesa, escrito por Claude Louis-Combet.

"O Tratado dos Instrumentos de Martírio, obra do oratoriano Antonio Gallonio, foi publicado em italiano em 1591, e imediatamente traduzido para o latim pelo próprio autor. A primeira edição francesa data de 1659. Este livro, muito popular, foi muitas vezes reeditado no curso dos séculos XVII e XVIII. Usamos aqui a tradução francesa modernizada publicada em 1904. A obra não foi reeditada na França depois desta data.

"Este Tratado que se apoia nos Atos de Martírio e sobre o testemunho de escritores contemporâneos às perseguições, se apresenta como um repertório exaustivo, minuciosamente documentado, dos diferentes modos de tortura aplicados aos cristãos dos primeiros séculos. Toda a arte do autor se concentra sobre os aparelhos e os procedimentos usados nos suplícios. Sem exageros, o horror nasce da objetividade imperturbável com que as coisas são descritas. O texto tem a frieza de uma enciclopédia e toda a aparência de um relatório de testemunhas. Fica-se sabendo, dessa forma, quais foram os refinamentos tecnológicos inventados pelos torturadores, desde a cruz, que foi o instrumento de sacrifício de Jesus até o touro de bronze e à série de grelhas e cavaletes. Tudo o que se pode saber sobre o evisceramento, a degola, as marcas de ferro, a extração da língua ou dos seios é aqui apresentado para a instrução dos fiéis sem comentários edificantes nem voos líricos. As gravuras de Tempesta, de soberbo talhe barroco, ilustram o Tratado de Gallonio que elas conduzem em seu rastro estético."

São 46 as gravuras de Tempesta. A seguir, vocês podem ver a primeira delas.

Planejo traduzir este Tratado, pouco a pouco, aqui no blog. Se encontrar editor interessado, quem sabe não teremos sua edição em português?


Legenda da fig. I

A. Mártires suspensos por um pé
B. Suspensos pelos dois pés
C. Elevados sobre a cruz, com a cabeça para cima
D. Pregados à cruz, com a cabeça para baixo
E. Pedurados pelos dois braços, com pesadíssimos objetos atados em seus pés
F. Mulheres cristãs peduradas pelo cabelo
G. Mártires pedurados por um braço, com enormes pesos atados em seus pés

segunda-feira, junho 25, 2018

Sidney Silveira em BH para lançamento da Cosmogonia da Desordem!

O prof. Sidney Silveira estará em Belo Horizonte no próximo domingo, 1 de julho de 2018, para a palestra de lançamento de seu livro A Cosmogonia da Desordem. A palestra será no salão paroquial da Basílica de Nossa Senhora de Lourdes, na rua da Bahia 1596, às 11 horas. Será cobrada uma entrada simbólica de R$5,00. Os interessados poderão adquirir o livro no evento, ao preço ainda promocional. 

Todos estão convidados! Espero vocês lá!



sexta-feira, junho 15, 2018

O que é a santidade?

OBS: Este texto foi publicado na revista Verbum, Ano I, no. 1, em julho de 2016.

Os santos são chamados também de justos e perfeitos nas Sagradas Escrituras e nas obras dos teólogos. Um terrível preceito nos é dado pelo próprio Nosso Senhor Jesus Cristo: “Estote ergo vos perfecti, sicut et Pater vester caelestis perfectus est” (Mt 5, 48). A tradução mais recomendável seria: “Sede pois perfeitos, como também vosso Pai celestial é perfeito”. Muitas são as traduções que no lugar de perfeitos usam o termo “santos”. Do ponto de vista conceitual o termo é correto. Ninguém negará que santidade envolve perfeição. O que nos faz tremer é que Nosso Senhor quer que sejamos perfeitos como o Pai celeste. Essa tremenda responsabilidade nos faz exclamar com Bernanos: “Mas qual é o peso de nossas chances, para nós que aceitamos, de uma vez por todas, a assustadora presença do divino em cada instante de nossas pobres vidas?”

E contudo, a presença de santos, justos e perfeitos em toda a história do Povo de Deus, tanto na Velha Aliança quanto na Nova Aliança é, talvez, o maior milagre de Deus. Isto porque sabemos que não somos capazes de santidade por nós mesmos; seu peso seria insuportável para nossos fracos ombros. Todavia o desfile dos santos continua até hoje. Chesterton tem um modo saboroso de descrever esse desfile: “Um santo é um remédio porque é um antidoto. Na verdade, esta é a razão pela qual o santo é, não raro, um mártir; ele é confundido com um veneno, por ser um antidoto. Ele será encontrado geralmente restaurando a sanidade no mundo pelo exagero daquilo que o mundo negligencia, o que não é absolutamente o mesmo elemento em todas as épocas. Todavia, cada geração busca seu santo por instinto; e ele não é o que o povo quer, mas, ao contrário, o que o povo precisa. Este é o significado das palavras dirigidas aos primeiros santos, “Tu és o sal da terra”. Cristo não disse aos apóstolos que eles eram simplesmente pessoas excelentes, ou as únicas pessoas excelentes, mas que eram pessoas excepcionais; pessoas permanentemente incongruentes e incompatíveis; e o texto sobre o sal da terra é realmente agudo, sagaz e picante como o gosto de sal. Porque são pessoas excepcionais é que eles não devem perder sua excepcional qualidade; “Se o sal perde seu sabor, com que ele será salgado?” é uma questão muito mais penetrante do que qualquer mero lamento.”

O desfile dos santos que receberam a honra dos altares nos oferece todo tipo de homem e todo tipo de mulher; prostitutas, reis, rainhas, mendigos, eremitas, nobres, soldados, virgens, sábios, ignorantes, homens de saúde perfeita e longevos, homens frágeis e de vida curta, viúvas, escravos, escritores e analfabetos. E o mais curioso – e para nós o mais precioso – é que a santidade não dependeu no mais mínimo detalhe da condição temporal e vital de nenhum deles. Eles seriam santos em qualquer posição; São Luis seria santo como rei que foi, mas também como mendigo, se ele o fosse. Santa Maria do Egito seria santa se fosse uma rainha, e não uma prostituta convertida por Nossa Senhora. Como dizia Chesterton, a diversidade dos santos é maior que a dos criminosos. A santidade nos oferece o espetáculo da diversidade de caráter e comportamento como nenhum outro fenômeno humano. Podemos afirmar que só na santidade se encontra a verdadeira liberdade humana; é nela que podemos ver a fertilidade da unicidade de Deus na ordem da natureza. É como se na diversidade da santidade pudéssemos perscrutar a inconcebível fertilidade do Deus Uno.

O maior exemplo de santidade vem diretamente da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade e é a luz maior que nos ilumina. Mas Ele está, embora tenha sido feito homem, ainda muito próximo de Deus, sendo o Próprio Deus. Ainda mantém aquela unicidade indecifrável, que esconde toda a diversidade. Daí a importância dos santos, da mais admirável diversidade, da mais impressionante humanidade. Os santos da Igreja são a continuação do trabalho de Nosso Senhor em Seu incessante chamamento a nós, miseráveis pecadores, a uma vida de perfeição. É como se seu exemplo tivesse de ser rebaixado para nos sentirmos chamados. Os santos provam que simples homens podem se aproximar do exemplo de Deus.

Meditando sobre a vida de Santa Catarina de Sena, nosso grande Gustavo Corção nos deixa valiosas observações sobre a santidade. Partindo do Introitus da Missa de Virgem não Mártir (Dilexisti) – dilexisti justitiam, et odisti iniquitatem – Corção nos diz: “o que nos ensinam os santos, com palavras e obras, é que não basta traçar na areia uma tênue linha que separe o bem do mal; e que é preciso, resolutamente, entre os céus e os infernos, erguer muralhas de ódio, e cavar abismos de amor”.

É preciso também explorar, com o grande católico brasileiro, a diferença entre o santo e o homem bom, naturalmente bom. Diz ele: “A diferença [entre os dois tipos de homens] é maior do que a semelhança. É enorme. Mesmo sem tentar a exploração mais profunda da misteriosa conversação entre uma alma e seu Criador, já poderemos apreciar, pelas manifestações exteriores e visíveis, pelas fisionomias, pelos gestos, a imensa distância que existe entre um quadro de virtudes naturais e a estrutura da alma dos perfeitos.”

E ele continua: “Nós que não somos santos, ai de nós, construímos e cultivamos nossas pequenas virtudes de um modo mesquinho, como o homem que, desejando agasalhar-se em pouco pano, encolhe-se nas dobras exíguas e trata de não fazer gestos muito amplos. (...) Tentando evitar os desequilíbrios mais fortes o que nos resta é sofrear cautelosamente os desejos. Foge-se assim às tentações abafando as aspirações. E vai-se pela vida afora, devagar, como o sujeito que anda às apalpadelas, no escuro, com medo das cadeiras.”

Eis então nosso caminho, de nós que mesquinhamente tentamos percorrer o caminho dos santos. Então “o homem honesto, simplesmente honesto, vai assim trilhando seu caminho, e conseguindo evitar os principais, ou mais visíveis pecados, sem ter nas costas a cruz do santo ódio. A menor detestação do mal equilibra-se com a menor dileção do bem.”

Mas isso não é santidade, pois nela, “ao contrário, o que logo se vê, com fulgurante evidência, é a dilatação da alma e o alargamento dos extremos. As virtudes, que no homem ainda sujeito às leis dos sentidos, ou mal libertado desse jugo, eram meras disposições facilmente abaláveis (faciles mobiles), e sem conexão orgânica, tornam-se, pela infusão da Caridade e pelo acréscimo dos dons, virtudes reais, forças verdadeiras, dificilmente abaláveis (difficiles mobiles) organicamente e harmoniosamente conexas. E, em lugar do tíbio e claudicante indivíduo que apenas consegue fazer algumas coisas boas, à custa de compromissos, demissões e pusilanimidades, vê-se então esta alma vivificada pela graça abrir as grandes asas das virtudes que nos pareciam opostas e paradoxais, erguer-se sem medo no largo voo dos albatrozes.”

Não é por outra razão que inumeráveis santos recomendavam a leitura da vida dos santos, seus irmãos. São Bernardo, São Felipe Neri, São Francisco de Sales, Santo Afonso Maria de Ligório e muito outros nunca se cansaram em recomendar a leitura da vida dos santos como algo absolutamente necessário a todo católico, leigo ou religioso. Com o exemplo dos santos, tão humanamente semelhantes a nós, aprendemos a via entre as disposições faciles mobiles e as difficiles mobiles.

Os leitores objetarão que o pobre escriba não definiu o que seja santidade, e estarão corretos. Santidade é mistério, e a mente católica, como nenhuma outra, sabe aceitar os mistérios divinos, não como enigmas a serem decifrados, mas como uma seta a ser seguida e uma dádiva a ser desfrutada.

quarta-feira, junho 13, 2018

Viva Santo Antônio!

Minha mãe me deu o nome de Antônio por uma promessa que fez ao santo, de quem era devota. Levava-me toda terça-feira em sua Igreja e me entregou ao grande santo. Agora, ele tem de carregar esse peso, coitado! Imagino que ele esteja ralhando com ela lá no Céu por essa carga em suas costas.
Mas eu peço: não desista de mim, Grande Santo Antônio!