terça-feira, novembro 27, 2018

Espiritismo: blog entrevista Chesterton


Nota: O senhor Gilbert Keith Chesterton está muito ocupado no momento e não pode conceder uma entrevista ao blog pessoalmente. Vali-me da prestimosa ajuda da senhora Francis, esposa do eminente escritor inglês, que passou-lhe as perguntas. Ele telegrafou diretamente ao responsável pelo blog com suas respostas luminosas. Agradeço de público o auxílio da senhora Francis pela já conhecida atenção com todos que, por um motivo ou outro, procuram orientações do gênio inglês. Lembro-me com carinho e saudade dos deliciosos chás por ela preparados em outras oportunidades em que me encontrei com o casal em sua residência. Vamos à entrevista.

Blog do Angueth – Penso que para começar, devo perguntar-lhe se o senhor considera o espiritismo uma farsa, uma fraude.

Chesterton – Não, em absoluto. Minha posição é de uma forte objeção ao espiritismo, não porque ele seja fraudulento, mas porque ele é genuíno.

Blog do Angueth Senhor Chesterton, não sei se o senhor sabe, mas o espiritismo é muito popular no Brasil. Aqui a situação é, talvez, um pouco diferente, pois há um sincretismo do espiritismo, digamos, inglês, com os cultos africanos. Um famoso escritor brasileiro, Lima Barreto, muito ligado, por sua origem, aos extratos mais pobres da sociedade, fez, recentemente uma observação, sobre a qual gostaria de colher suas observações. Diz nosso escritor: “O padre, para o grosso do povo, não se comunica no mal com a divindade; mas o médium, o feiticeiro, o macumbeiro, se não a recebem em seus transes, recebem, entretanto, almas e espíritos que, por já não serem mais da terra, estão mais perto de Deus e participam um pouco da sua eterna e imensa sabedoria.”

Chesterton – A marca especial do mundo moderno não é que ele seja cético, mas que ele é dogmático sem saber. Ele diz, escarnecendo dos antigos devotos, que eles acreditavam sem saber porque acreditavam. Mas os modernos acreditam sem saber no que acreditam – e sem nem mesmo saber que eles realmente acreditam. Eles sempre têm um dogma inconsciente; e um dogma inconsciente é a definição de um preconceito. Os espíritas agem segundo um dogma, que não podem declarar dogmaticamente e, portanto, somente o assumem dogmaticamente. O que o espírita assume é praticamente o seguinte: não somente a existência de espíritos, mas a inexistência de espíritos maus. Em termos populares, os espíritas são otimistas em relação ao mundo espiritual. A objeção real ao espiritismo é quase idêntica à sua afirmação. A objeção é que ele coloca um homem sobre o controle de forças espirituais, ou que ele o coloca em contato com o desconhecido. Ele supõe a rendição espiritual do médium, o que é dúbio, mesmo que a influência seja boa, e chocante, se ela for má. Ora, não é certamente auto-evidente, por tudo que sabemos, que ela não possa ser má.

Blog do Angueth – Sabemos que na Inglaterra o grande apóstolo do espiritismo é Sir Arthur Conan Doyle, o grande criador de Sherlock Holmes. Sua influência é extraordinária na popularização do espiritismo. Sabemos também que ele faz uma distinção entre um espiritismo superior, o que ele professa, e um inferior, aquele dos fenômenos materiais mais grosseiros que acontecem em sessões espíritas: mesas e objetos se movendo. Sendo o senhor um grande admirador de histórias de detetives, tendo mesmo escrito as extraordinárias aventuras do Pe. Brown, o que o senhor tem a dizer-nos sobre Sir Doyle.

Chesterton – O sucesso literário merecido de Sir Arthur Conan Doyle o faz, de fato, o grande apóstolo do espiritismo. Explico minha discordância de suas ideias. Ele concorda com os protestos contra os truques grotescos e mesmo degradantes das sessões espíritas. Ele diz que mesas e cadeiras dançantes pertencem ao “plano inferior”; que este não é seu interesse principal; que ele deseja aproximar-se do espiritismo reverentemente, de considera-lo uma religião que pode nos fornecer respostas aos grandes mistérios da vida e da morte. Penso que essa distinção é muito valiosa quando completamente invertida. Uma cadeira ou mesa que voa parece-me uma coisa genuinamente interessante. Tomemos, por exemplo, qualquer mente racional de cem anos atrás, digamos aquela de Voltaire ou Gibbon, que teria considerado uma mesa voadora não tanto meramente sobrenatural, mas simplesmente impossível. Se é possível, algo sempre considerado uma lei da natureza é quebrado. O materialismo, com todas as suas leis mecânicas da natureza está acabado. Em resumo, uma mesa dançante não pode ser considerada um incidente comum; e se ela ocorre (como parece ocorrer), é um incidente muito importante. Sou completamente incapaz de ver que uma mesa dançante, ou uma religião numa mesa dançante, seja mais convincente do que uma religião de uma mesa mais repousante e possivelmente mais útil. As coisas que reverencio, no céu e na terra, são certas virtudes ou valores; e uma mesa não indica que ela possua essas virtudes simplesmente por levantar suas pernas. A isto o espírita responderá que ele não me pede para reverenciar a mesa, mas as revelações que vêm da mesa. E, ignorante como sou de tais revelações, sei o suficiente delas para não reverenciá-las, ou mesmo respeitá-las.

Blog do Angueth – Sei que há duas objeções que são colocadas às suas posições sobre o espiritismo. A primeira é que o senhor admitidamente nunca participou de uma sessão espírita e, portanto, não tem autoridade de emitir opiniões a respeito. Esta é, inclusive, a posição do próprio Sir Arthur Conan Doyle. A segunda objeção, derivada a primeira, é a de que o senhor ignora o valor da comunicação entre este mundo e o outro. Como o senhor responderia a essas duas objeções?

Chesterton – Quanto à primeira objeção, é verdade que nunca participei de uma sessão espírita, mas há muitas coisas que não presenciei, sobre as quais não tenho a mais mínima intenção de parar de falar. Recuso-me de parar de falar sobre o Cerco de Tróia. Recuso-me a ficar mudo em relação à Revolução Francesa. Não me silenciarei sobre o assassinato de Júlio César. Se ninguém tem o direito de julgar o espiritismo exceto um homem que já participou de uma sessão espírita, os resultados, logicamente falando, são muito sérios: quase pareceria que ninguém tivesse nenhum direito de julgar o cristianismo se não participasse se sua primeira reunião em Pentecostes. O que seria temerário. Considero-me capaz de formar minha opinião sobre o espiritismo sem ter visto espíritos, da mesma forma que formo minha opinião sobre a Guerra Japonesa sem tê-la visto, ou minha opinião sobre os milionários americanos sem (graças a Deus) ter visto um milionário americano. Bem-aventurados aqueles que não viram e acreditaram: uma passagem que alguns têm considerado uma profecia do moderno jornalismo. Respondo à segunda objeção, dizendo que eu não ignoro o valor da comunicação entre este mundo e o outro. Digo apenas que um princípio diferente liga a investigação nesse campo espiritual, em relação à investigação de qualquer outro campo. Se um homem põe uma isca no anzol para pegar um peixe, o peixe virá, mesmo se ele declara não acreditar em peixes. Se um homem faz uma arapuca para passarinhos, passarinhos serão pegos, mesmo se ele considera supersticioso acreditar em passarinhos. Mas um homem não pode colocar iscas para almas. Um homem não pode construir arapucas para capturar deuses. Todos a escolas de sábios sempre concordaram que essa última captura depende, de algum modo, da fé de quem captura. Então, a coisa se resume a isto: se você não tem fé nos espíritos, seu apelo é em vão; se você tem, você precisa disto? Se você não acredita, você não pode apelar. Se você acredita, você não apelará.

Obs: Para quem desejar ler outras entrevistas de Chesterton, favor acessar o marcador BLOG ENTREVISTA CHESTERTON

quinta-feira, novembro 22, 2018

O deslocamento da função magisterial depois do Concílio Vaticano II, por Romano Amerio - Parte VI

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VI – O novo “magistério” pastoral levou à dissolução da crença do povo cristão

28. É-nos possível, com trinta anos de distância,[1] verificar até que ponto o movimento triunfou, uma vez que o povo cristão de hoje crê nos artigos da fé segundo o modo disseminado por esses teólogos. Como isso foi também mencionado em meu último ensaio (Zibaldone), enumerei uma série de dogmas da fé que não são mais cridos pelo povo cristão, justamente porque são rejeitados pela teologia moderna, o que faz com que não se creia mais hoje nos dogmas de acordo com a fórmula de Nicéia. O que crê hoje o povo cristão a respeito do inferno? Crê o que os teólogos debatem no Avvenire[2] ou o que as imponentes emissões da Radio Maria[3] endossam calorosamente. Eles creem que o inferno não existe, ou que se existe, é uma forma de punição que se atenua com o tempo e que, talvez, mesmo Judas não esteja lá, pois no último momento de sua vida sua alma pôde se arrepender. Assim, o inferno está provavelmente vazio – mas São Gregório Magno, numa de suas homilias, dá por certo a danação de Herodes Agrippa (At. 12, 23). “Mas, no mesmo instante, o Anjo do Senhor o atingiu, pois que ele não rendeu glória a Deus e, comido pelos vermes, expirou.

29. O que creem hoje os cristãos sobre o Gênesis? Creem que é um relato simbólico; hoje, todos os cristãos estão de acordo sobre este ponto, destruindo assim um decreto da Pontifícia Comissão Bíblica de 1906, que confirma com autoridade o caráter histórico do relato sagrado do Pentateuco. O que pensam hoje os cristãos da Eucaristia? Que a Eucaristia não é a Presença Real e individual do Corpo de Jesus Cristo, mas a presença real do povo cristão, pois a nova teoria constrói o silogismo seguinte sobre essas semelhanças: no sacramento da Eucaristia o Senhor está presente, mas o Senhor que está presente é misticamente o povo cristão, então, o povo cristão está presente na Eucaristia; a opinião comum hoje admite que a Eucaristia é o sacramento da presença do Senhor, mas o Senhor que está presente é o próprio povo cristão.

30. O que creem hoje os cristãos sobre a predestinação? Aqui nos é necessário assinalar a deformação completa do conceito de predestinação, pois que os teólogos modernos que falam ainda a compreendem como uma previsão das coisas do homem, não como a determinação das coisas do homem por parte de Deus. Esta é uma grave falsificação, pois a predestinação se ocupa de nosso fim último e nosso fim último é a coisa mais importante que há. Se se falsifica o fim último do homem, que resta do homem?

31. Acabamos, então, de ver que a prática que se iniciou depois do Concílio se impôs, virando do avesso as opiniões gerais da cristandade. Depois de trinta anos, podemos apenas constatar o sucesso desta tendência. A fé católica despedaçou-se em mil opiniões sobre os Novissimi (as últimas coisas),[4] em mil opiniões sobre a virgindade de Maria, em mil opiniões sobre a Presença Real na Eucaristia, sobre os sacramentos, sobre a Igreja, sobre o primado de Pedro e mesmo, sobre a Trindade. Não há nenhum artigo do Credo, o Símbolo da fé que professamos a cada domingo na Missa, que não tenha sido despedaçado em uma miríade de opiniões professadas, apesar de e contra a firmeza absoluta dos seus artigos. Assim, o cristão perde a fé porque perde a unidade: não há fé se ela não é UNA. Essa dispersão de opiniões significa a dissolução da fé.




[1] Este ensaio de Romano Amerio foi escrito em 1996. (N. do T.)
[2] Jornal diário fundado em 1968 para difundir as ideias do modernista do Concílio Vaticano II. (N. do T.)
[3] Conjunto internacional de rádios católicas, fundado em 1982. Também modernista até a medula. (N. do T.)