Reinaldo Azevedo
Temas tratados neste texto:
- O que fazia Marisa Letícia no encontro de dois chefes de Estado?
- A República laica de uma certa Vera Machado
- Reçiprossidádi: “Çi o papa num çi ajoêlia pra mim, eu num çi ajoêlio pra êle”
- Quem vai à TV defender o aborto num plebiscito?
- Temporão acha que pode dar bronca no papa
- O médico Temporão praticaria um aborto?
- De onde vêm os números de Temporão?
- A intolerância dos tolerantes
- Quem tem medo da excomunhão?
A palavra “detestável” não define a contento o comportamento do governo Lula, até agora, durante a permanência do papa Bento 16 no Brasil. A ela, outras devem ser agregadas. Tem sido um espetáculo de vulgaridade, de grosseria, de burrice. No que respeita às relações internacionais, destaque-se a insólita presença de cidadã Marisa Letícia da Silva no encontro privado do chefe de estado Luiz Inácio Lula da Silva com o chefe de estado Bento 16. O que ela fazia lá? Tinha a dizer o quê? Qual a justificativa? O núncio apostólico, gentil, observou que era uma ocorrência inédita no mundo. O representante do Vaticano afirmou que o papa, claro, aprovou o fato, o que estaria a indicar o apreço do presidente Lula pela família. Mas se trata, é óbvio, de uma resposta bem-educada. Dona Marisa foi eleita por Lula, mas não pelos brasileiros. Participar das cerimônias oficiais, fora da reunião de trabalho, é até uma obrigação. Mas isso foi o de menos.
Se o papa leu os jornais ou recebeu um clipping preparado por sua assessoria, teve a chance de saber que o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, considerou “descabido” o apoio dado por Sua Santidade aos bispos mexicanos que querem excomungar os políticos que apóiam o aborto naquele país. Notem bem: Temporão, ministro da Saúde do Brasil, acha que pode opinar sobre o que Igreja de Roma tem a dizer aos bispos do México. O governo Lula perdeu completamente o limite, o juízo, a razão, o simancol, o senso de ridículo. A pergunta tem de ser feita: quem ele pensa que é? Se estivesse se referindo apenas ao Brasil, com o papa em solo pátrio, já seria uma grosseria inaceitável. Temporão foi mais longe: “Você não pode apenas prescrever dogmas e preceitos de determinada religião para um conjunto da sociedade. Me parece descabido". Quem está prescrevendo o quê para quem, meu senhor?
O chefe da Igreja Católica fala aos católicos. O estado faça o que acha que deve se tiver condições política para tanto. Mas já volto a este ponto. Quero me referir antes à terceira bobagem em tão pouco tempo. Ao falar à imprensa sobre o encontro privado de Lula-Marisa com o papa — pô, a porta-voz deveria ter sido a primeira-companheira —, Vera Machado, embaixadora do Brasil no Vaticano, disse que Lula reafirmou que o estado é laico no Brasil. Deus do Céu! Lula é agora o usurpador dos proclamadores da República. Voltamos a 1889. Não sabia que o Brasil está prestes a se tornar uma teocracia, o que justificaria a afirmação da condição laica do estado. Nem a Turquia, sob permanente ameaça de se transformar numa ditadura islâmica, precisa chegar a tanto.
Ah, é que Lulinha, vocês sabem, acredita na "reçiprossidade". Lembram-se quando passamos a dar aos americanos o tratamento que os americanos davam a qualquer estrangeiro quando entrava em seu país por causa das leis antiterror? Como o papa, na quarta, reafirmou que a Igreja é contrária ao aborto logo na chegada — o que ele fala em qualquer país do mundo —, o Apedeuta se sentiu agravado. “Çi o papa mi provoca, intão eu provoco o papa”. É isso aí, sabichão. Lula também não fez a genuflexão que muitos chefes de Estado fazem mundo afora diante do Sumo Pontífice — FHC fez diante de João Paulo 2º, por exemplo. Ah, não: ou o papa se ajoelha aos pés de Lula, ou ele não se ajoelha aos pés do papa. Numa cerimônia de lava-pés, o Babalorixá enfiaria o pezão na cara do primeiro que lhe aparecesse à frente. Imaginem esse homem lavando os pés dos humildes...
É claro que tudo isso é vergonhoso, vexaminoso para nós, e expõe o grau de primitivismo político em que estamos nos atolando. O setor da imprensa que faz o papel de porta-voz do governo nem mesmo se ocupa de indagar de onde vêm os números que o governo põe na praça sobre os abortos clandestinos. Seriam mais de 1 milhão por ano. Como são coletados esses dados? O serviço público de saúde teria 220 mil intervenções por ano decorrentes de abortos feitos em condições precárias. De onde vêm essas notificações? Há distinção entre espontâneos e provocados? O sistema público de saúde tem condições de absorver essa demanda de 1 milhão? Quanto custaria? Mais: uma vez legalizada a prática, não é razoável pensar que cresceria o número de solicitações? Todos os médicos que trabalham na rede oficial de saúde aceitariam fazer a intervenção? Eles poderiam alegar a exceção ética, religiosa ou de consciência?
Temporão diz ainda que o aborto só não é legalizado porque não é o homem que engravida. Notável juízo! É ele nada menos do que o maior defensor de que se faça um plebiscito no país para decidir a questão. Os homens vão votar, ou a sua participação nessa escolha já estaria marcada pela ilegitimidade? Temporão lê este blog. Se quiser, pode me enviar as respostas. Eu as publicarei aqui. Reitero o que já disse: que se faça o plebiscito, ora essa. Se o governo acha isso tão necessário, que tenha a coragem de assumir a proposta. Uma vez definido — só não vale manipular a pergunta —, a campanha terá início. Se a causa é tão justa e popular, estou ansioso para ver a cara dos seus defensores na televisão. Temporão vai falar? Lula vai falar? Até agora, eles não disseram o que pensam. No programa Roda Viva, perguntei se Temporão era contra ou a favor. Ele não me disse. Eu iria lhe fazer outra pergunta, mas não houve tempo: já que ele é médico, faria um aborto ou deixa a tarefa para seus colegas? Essa resposta ele também pode me enviar se quiser.
A quem fala o papa
O argumento mais vulgar a favor da mudança da lei sustenta que ela facultará o que chamam de “direito”, mas não obrigará ninguém a nada. É verdade. Ora, adiante com a luta, rapazes. A Igreja Católica é contra. Por que vocês precisam do aval do Vaticano para uma prática contrária a um fundamento da instituição? Não terão. Uma campanha poderá mudar a opinião de mais de dois terços dos brasileiros? Tentem a sorte. Se esse é o argumento central no que concerne à liberdade de escolha, permitam que a Igreja também faça a sua. Afinal, como disse aquela embaixadora, Igreja e estado, no Brasil, são independentes.
Notei também o escândalo de certos setores com a aprovação de Bento 16 à excomunhão no México. O deputado José Genoino (PT-SP) — aquele que já tentou fazer guerrilha no Brasil e que presidia o PT no tempo dos “recursos não-contabilizados” de Delúbio (irmão do outro cujo assessor usa a cueca como casa de câmbio) — é autor de um projeto que dá à mulher o direito de decidir se aborta ou não. Olhem que coisa: Genoino não é católico, mas considera essa posição de Bento 16 “intolerante”. E reflete, com a mesma fineza teórica de sempre: “Defendo o estado laico. A Igreja tem de ser tolerante com os que têm opinião divergente de seus preceitos". Perfeitamente, deputado. Porque o estado é laico, independente da Igreja, ela aceita nos seus quadros apenas os que estão de acordo com seus princípios.
Excomunhão
Ninguém é obrigado a ser católico, é? Se estivéssemos, por exemplo, na Arábia Saudita, seria chato não querer ser islâmico. Mais do que chato: seria perigoso. Se alguém tivesse tal intenção, teria de ficar bem quietinho. Ou, no mínimo, iria levar umas varadas da polícia religiosa, que pode atacar qualquer mulher desacompanhada ou cujos trajes não sejam considerados adequados — ainda que na companhia do seu “dono”.
Ninguém nasce católico também. A pessoa se torna católica pelo batismo. Tem, ao longo da vida, a chance de reafirmar ou não a sua fé. Pode deixar o rebanho da Igreja. Para permanecer nele, há alguns preceitos fundamentais a seguir. Ora, se o catolicismo está, como querem, em declínio; se seus fundamentos morais são considerados incompatíveis com a vida moderna; se alguém pretende fazer proselitismo do que, para a Igreja, é abominável, que a deixe então — ou que seja deixado por ela. Quando o papa acena com a excomunhão para os que fazem a defesa do aborto, lembra que o católico tem um conjunto de princípios.
Trata-se por acaso, deputado Genoino, de tolher a cidadania ou os direitos de alguém? Qual é o prejuízo objetivo do “cidadão”? Fiquem tranqüilos: a excomunhão não é pior do que a perda da vergonha na cara ou a exposição da moralidade no estágio da cueca — especialmente para quem demonstra sinais explícitos de inconformidade com os “preceitos”.
Onde estão os intolerantes?
A presença suave, mas muito firme, de Bento 16 no Brasil está evidenciando onde estão, de fato, os intolerantes. O papa reafirmou todos os princípios da Igreja, inclusive no seu encontro com jovens no Pacaembu — sim, disse quais são as interdições que constituem a moralidade católica —, sem deixar de lado (veja mensagem nesta página) o aspecto acolhedor da Igreja Católica, que também abraça os pecadores. Para um católico, o arrependimento não é uma pena, mas uma forma de liberdade. Porque há a chance do perdão — e convém, claro, que o cristão não se transforme num pecador contumaz, que faz do perdão uma graça viciosa.
Intolerantes são aqueles que querem proibir o chefe da Igreja Católica de dirigir a sua palavra de fé aos... católicos! Intolerantes são aqueles que pretendem que o líder de uma religião troque seus princípios pelo tubo de ensaio de um cientista ou pela moral da conveniência de certa política. O governo que tenha a coragem de fazer o que achar melhor. Os católicos dirão o que pensam. Acho que isso, ao menos, eles podem, não? Nem que seja por enquanto
12/05/2007
Reçiprossidádi: “Çi o papa num çi ajoêlia pra mim, eu num çi ajoêlio pra ele”
01/05/2007
Ratzinger defende Bento XVI
Nota: Entro atrasadíssimo na discussão do suposto elogio a Marx, feito por Bento XVI. Primeiro, porque muita gente muito mais competente que eu já opinou sobre o assunto. Segundo, porque quase tudo já foi dito. Contudo, ninguém deixou o Cardeal Ratzinger falar a favor do papa, pelo menos que eu tenha visto. É o que eu pretendo fazer agora: deixar um defender o outro.
Ratizinger, de quebra, faz uma firme crítica à teologia da libertação. Aquela professada por D. Pedro Casaldaliga, a quem o Prof. Aquino dura e corretamente criticou, recentemente.
O excerto abaixo foi extraído do livro do Cardeal Ratzinger intitulado “Introdução ao Cristianismo”, escrito na década de 1960 e reeditado já em 2000. Tenho uma edição das Edições Loyola que contém um prefácio especial do cardeal para recolocar a obra no contexto do século XXI. É deste prefácio que extraio o trecho abaixo. Os negritos são meus.
Durante mais de uma década, a teologia da libertação parecia indicar a nova direção na qual a fé haveria de tornar-se novamente formadora do mundo porque se unia de uma nova maneira com as descobertas e injunções do momento histórico. Não se pode negar que havia na América Latina em grau assustador problemas como a opressão, dominação injusta, concentração de propriedade e poder nas mãos de poucos e exploração dos pobres, nem havia como negar a necessidade de ação. E como se tratasse de países com maioria católica não podia haver dúvidas de que a Igreja tinha responsabilidades a cumprir e que a fé precisava comprovar a sua eficácia como elemento de justiça. Mas de que maneira? Pareceu então ser Marx o grande guia. Cabia agora a ele o papel que, no século XIII, tinha sido de Aristóteles; a sua filosofia pré-cristã (e portanto “pagã”) precisou ser batizada para que a fé e a razão pudessem encontrar a sua relação correta. Mas quem aceita Marx (em qualquer uma das variantes neomarxistas) como o representante de uma razão universal não adota simplesmente uma filosofia, uma visão da origem e do sentido da existência, assume sobretudo uma prática. Porque essa “filosofia” é essencialmente uma “práxis” que cria verdade, em vez de pressupô-la. Quem faz de Marx o filósofo da teologia aceita a primazia dos elementos político e econômico que passam a ser as verdadeiras forças da salvação (e quando mal empregados, as forças da desgraça): nessa perspectiva, a salvação do ser humano é realizada pela política e pela economia que determinam a face do futuro. A supremacia da práxis e da política significa sobretudo que Deus não é visto como “prático”. A “realidade” a ser considerada era somente a realidade material dos dados históricos que precisava ser compreendida e refundida com os recursos adequados, entre os quais era indispensável também a violência. Nessa perspectiva, falar de Deus não fazia parte nem da prática nem da realidade. Era um discurso que devia ser adiado, pelo menos, até que o mais importante estivesse realizado. O que ficou foi a figura de Jesus, só que este já não era visto com o Cristo e sim como a personificação dos sofredores e oprimidos e com a voz deles que clama por mudança, pela grande modificação. O que havia de novo em tudo isso era o programa de mudar o mundo que, em Marx, não é concebido apenas como ateísta, mas também como anti-religioso, e que agora era recheado de paixão religiosa e assentado em bases religiosas: numa nova leitura da Bíblia (sobretudo do Antigo Testamento) e numa liturgia que era celebrada como antecipação simbólica da revolução e com preparação para ela.
É preciso admiti-lo: com essa síntese estranha, o cristianismo voltara a se mostrar à opinião pública mundial com uma mensagem que “marcou época”. Não surpreende que os países socialistas recebessem o movimento com simpatia. O que causa maior estranheza é que a teologia da libertação tenha-se transformado na coqueluche da opinião pública mesmo nos países “capitalistas”, a ponto de qualquer objeção ser encarada como um verdadeiro atentado contra o humanitarismo e a humanidade, naturalmente com a ressalva de que ninguém queria ver aplicadas as instruções práticas em sua própria esfera, em que se imaginava já ter atingido uma ordem social justa. É inegável que nas diversas teologias de libertação havia também um grande número de percepções dignas de consideração. Mas todos esses projetos tiveram que renunciar à sua imagem de síntese histórica entre o cristianismo e o mundo no momento em que desmoronou a fé na política como força salvítica. É verdade que o ser humano é um “ser político”, como disse Aristóteles, só que ele não pode ser reduzido à política e à economia. Vejo o problema verdadeiro e mais profundo das teologias da libertação na ausência de fato da idéia de Deus, o que acabou afetando naturalmente de modo decisivo também a figura de Cristo (fato ao qual já aludimos anteriormente). Não que se tenha negado a existência de Deus – de modo algum. Ele apenas era dispensável na “realidade” que exigia toda a atenção. Carecia de função.
Ratizinger, de quebra, faz uma firme crítica à teologia da libertação. Aquela professada por D. Pedro Casaldaliga, a quem o Prof. Aquino dura e corretamente criticou, recentemente.
O excerto abaixo foi extraído do livro do Cardeal Ratzinger intitulado “Introdução ao Cristianismo”, escrito na década de 1960 e reeditado já em 2000. Tenho uma edição das Edições Loyola que contém um prefácio especial do cardeal para recolocar a obra no contexto do século XXI. É deste prefácio que extraio o trecho abaixo. Os negritos são meus.
Durante mais de uma década, a teologia da libertação parecia indicar a nova direção na qual a fé haveria de tornar-se novamente formadora do mundo porque se unia de uma nova maneira com as descobertas e injunções do momento histórico. Não se pode negar que havia na América Latina em grau assustador problemas como a opressão, dominação injusta, concentração de propriedade e poder nas mãos de poucos e exploração dos pobres, nem havia como negar a necessidade de ação. E como se tratasse de países com maioria católica não podia haver dúvidas de que a Igreja tinha responsabilidades a cumprir e que a fé precisava comprovar a sua eficácia como elemento de justiça. Mas de que maneira? Pareceu então ser Marx o grande guia. Cabia agora a ele o papel que, no século XIII, tinha sido de Aristóteles; a sua filosofia pré-cristã (e portanto “pagã”) precisou ser batizada para que a fé e a razão pudessem encontrar a sua relação correta. Mas quem aceita Marx (em qualquer uma das variantes neomarxistas) como o representante de uma razão universal não adota simplesmente uma filosofia, uma visão da origem e do sentido da existência, assume sobretudo uma prática. Porque essa “filosofia” é essencialmente uma “práxis” que cria verdade, em vez de pressupô-la. Quem faz de Marx o filósofo da teologia aceita a primazia dos elementos político e econômico que passam a ser as verdadeiras forças da salvação (e quando mal empregados, as forças da desgraça): nessa perspectiva, a salvação do ser humano é realizada pela política e pela economia que determinam a face do futuro. A supremacia da práxis e da política significa sobretudo que Deus não é visto como “prático”. A “realidade” a ser considerada era somente a realidade material dos dados históricos que precisava ser compreendida e refundida com os recursos adequados, entre os quais era indispensável também a violência. Nessa perspectiva, falar de Deus não fazia parte nem da prática nem da realidade. Era um discurso que devia ser adiado, pelo menos, até que o mais importante estivesse realizado. O que ficou foi a figura de Jesus, só que este já não era visto com o Cristo e sim como a personificação dos sofredores e oprimidos e com a voz deles que clama por mudança, pela grande modificação. O que havia de novo em tudo isso era o programa de mudar o mundo que, em Marx, não é concebido apenas como ateísta, mas também como anti-religioso, e que agora era recheado de paixão religiosa e assentado em bases religiosas: numa nova leitura da Bíblia (sobretudo do Antigo Testamento) e numa liturgia que era celebrada como antecipação simbólica da revolução e com preparação para ela.
É preciso admiti-lo: com essa síntese estranha, o cristianismo voltara a se mostrar à opinião pública mundial com uma mensagem que “marcou época”. Não surpreende que os países socialistas recebessem o movimento com simpatia. O que causa maior estranheza é que a teologia da libertação tenha-se transformado na coqueluche da opinião pública mesmo nos países “capitalistas”, a ponto de qualquer objeção ser encarada como um verdadeiro atentado contra o humanitarismo e a humanidade, naturalmente com a ressalva de que ninguém queria ver aplicadas as instruções práticas em sua própria esfera, em que se imaginava já ter atingido uma ordem social justa. É inegável que nas diversas teologias de libertação havia também um grande número de percepções dignas de consideração. Mas todos esses projetos tiveram que renunciar à sua imagem de síntese histórica entre o cristianismo e o mundo no momento em que desmoronou a fé na política como força salvítica. É verdade que o ser humano é um “ser político”, como disse Aristóteles, só que ele não pode ser reduzido à política e à economia. Vejo o problema verdadeiro e mais profundo das teologias da libertação na ausência de fato da idéia de Deus, o que acabou afetando naturalmente de modo decisivo também a figura de Cristo (fato ao qual já aludimos anteriormente). Não que se tenha negado a existência de Deus – de modo algum. Ele apenas era dispensável na “realidade” que exigia toda a atenção. Carecia de função.
22/04/2007
Traduções para o MSM: Atualização (Sowell)
Quem quiser se desintoxicar das besteiras que a mídia brasileira fala sobre aquecimento global, trombeteando o que a ONU e os globalista arrotam, leiam os 4 artigos abaixo e, sobretudo, passe-os aos seus filhos, como antídoto da doutrinação das escolas e universidades do país.
Atmosfera quente – Parte I
Atmosfera quente – Parte II
Atmosfera quente – Final
A fraude do aquecimento global
Se alguém disser que sabe Economia mas não concordar com o que Sowell fala nesses 3 artigos é um mentiroso deslavado. O que ele sabe é embromação marxista. Esses artigos valem por muitas aulas de Economia, em muita universidade famosa.
Política não tem preço – Parte I
Política não tem preço – Parte II
Política não tem preço – Final
Atmosfera quente – Parte I
Atmosfera quente – Parte II
Atmosfera quente – Final
A fraude do aquecimento global
Se alguém disser que sabe Economia mas não concordar com o que Sowell fala nesses 3 artigos é um mentiroso deslavado. O que ele sabe é embromação marxista. Esses artigos valem por muitas aulas de Economia, em muita universidade famosa.
Política não tem preço – Parte I
Política não tem preço – Parte II
Política não tem preço – Final
05/04/2007
Ateus solitários da Aldeia Global - Final
Michael Novak
Segunda: O Peso do Pecado. Levou alguns anos até que eu entendesse que, tal como algumas pessoas não têm ouvido para música, outras (como descreveu Friederick Hayek) “não têm ouvido para Deus”. Outros ainda dizem que não têm “necessidade” de Deus. Eles não sentem nenhum vazio interior em que Deus pudesse se encaixar. Parece-me, ademais, uma das bênçãos do ateísmo que ele anule qualquer sentimento de Julgamento, qualquer impressão de que os atos de alguém possam ofender um Amigo, qualquer consciência do pecado. O “pecado” parece, de fato, um restolho de uma época, há muito, passada. Beati voi! Eu gostaria de exclamar aos ateus: sorte sua!
“No coração do cristianismo está o pecado”, disse, certa vez, um grande cristão. Alguns têm a consciência de fazer coisas que não deviam e de deixar de fazer outras que deviam. Somos conscientes do pecado contra nossa própria consciência – fazendo deliberadamente o que sabemos ser errado, por fraqueza ou por um forte desejo que esteja ainda fora do controle. Posteriormente, às vezes, sentimos remorsos de tanto que nos dói o que fizemos – e mesmo assim, o que foi feito, está feito e nada que fizermos pode apagar nosso erro. E, às vezes, nosso erro é vergonhosamente grave.
Foi sobre essa experiência virtualmente universal que Jesus, como João Batista antes dele, inicialmente falou a seus ouvintes. “Arrependam-se! Façam penitência. Decidam não mais pecar” (Mesmo que a probabilidade de voltar a pecar seja alta; tal como um homem manco que apesar de ter sido curado, sabe que, a qualquer momento, seu joelho pode falhar novamente.)
Cristianismo nada tem a ver com arrogância moral. Ele tem a ver com realismo moral e humildade moral. Onde quer que você veja pessoas cheias de si condenando os outros e inconscientes de seus próprios pecados, você não está na presença de um cristão alerta, mas de um pedante enganador. Foi, na realidade, uma grande revolução na história humana quando o Deus cristão e judeu revelou-Se como alguém que enxerga diretamente o que vai pelas consciências e não é ludibriado por atos externos. (Os filósofos pagãos na Grécia e Roma podem ou não ter levado os deuses a sério, mas eles não tinham vergonha de mostrar pietas em ritos religiosos, sem nenhuma preocupação com a consciência.) O respeito bíblico pela consciência dignifica e honra grandemente os atos interiores de reflexão, comprometimento e escolha. Ele desviou um forte raio de atenção do ato externo para o ato interior de consciência. Ele dignificou enormemente a veracidade e a humildade. Finalmente, a obrigação interior de consciência para com o Criador se tornou o fundamento da liberdade religiosa – que nenhum outro poder se atreva a interferir com essa obrigação primeira para com Deus, que é antecedente à sociedade civil, ao estado, à família, e a qualquer outra instituição. (Ver “Estatuto da Liberdade Religiosa”, 1785, de Jefferson.)
Terceira: O Fio Dourado e Brilhante da História Humana. Na libertação dos judeus do Império Seleucido (celebrada no Hanukkah), do Egito (celebrada na Páscoa) e da Babilônia (celebrada na poesia dos profetas de Israel), a liberdade é o tema principal do Velho Testamento. Cada história nesse Testamento tem como seu eixo a arena da vontade humana e as decisões aí tomadas (ocultas ou externas). Assim, para a religião bíblica, liberdade é o fio dourado da história humana. Essa concepção de liberdade é realizada internamente no recesso da alma e também, institucionalmente, em todas as sociedades e políticas.
Nenhuma outra religião, exceto o cristianismo e o judaísmo, coloca a liberdade de consciência tão perto do centro da vida religiosa. Por exemplo, o Islam tende a pensar Deus em termos de vontade divina, muito longe da natureza e da lógica. Independentemente da razão, tudo que Allah deseja, se realiza. O judaísmo e o cristianismo tendem a pensar Deus como Logos, luz, fonte de toda lei e da inteligibilidade de todas as coisas. Essa diferença na concepção fundamental de Deus altera, também, a concepção fundamental de cada religião com relação ao ser humano: compreensão ou submissão.
Quarta: O Razão do Cosmos é Amizade. Se alguma vez lhe ocorreu perguntar, mesmo que você seja ateu, por que Deus criou este vasto, silencioso, virtualmente infinito cosmos, você deve ter descoberto que a melhor resposta é, numa única palavra, “amizade”. De acordo com as Escrituras, inteligentemente lidas, o Criador fez o homem um pouco inferior aos anjos e um pouco mais complexo que os outros animais. Ele fez os seres humanos suficientemente conscientes e racionais para que eles pudessem se maravilhar com o que Ele tinha criado e agradecê-Lo. E, ainda mais importante, Ele criou os seres humanos para oferecê-los, em sua liberdade, Sua amizade e companhia. Se não há liberdade, não há amizade.
Amizade não é a única forma bíblica de pensar sobre a relação entre Deus e o homem; também é uma boa forma imaginar o futuro de nossa nação e do mundo para o qual devemos trabalhar. Dessa visão, o judaísmo e o cristianismo oferece ao mundo uma forma de medir o progresso ou o declínio. William Penn chamou sua capital de “Philadelphia” e fez da liberdade de religião seu princípio fundamental. Mesmo os ateus da Revolução Francesa nomearam seus princípios “Liberdade, Fraternidade, Igualdade” – cada um deles é um termo que deriva não dos gregos ou romanos, mas da religião bíblica. Uma civilização mundial constituída sobre a mútua amizade é um poderoso imã, e uma medida realista. Amizade não requer uniformidade. Ao contrário, sua demanda fundamental é o respeito mútuo, desejando o bem do outro como outro. Ela faz nascer um desejo de conversar – de uma forma razoável, sobre as diferenças de ponto de vista, de expectativas – e um senso de responsabilidade prática.
ALGUMAS DIFERENÇAS ENTRE O CRISTIANISMO E O ATEÍSMO
Reconheço que o horizonte cristão esboçado acima, em rápidas pinceladas, pode parecer absurdo para ateus como Dawkins, Dennett e Harris. Eles podem procurar, em vão, por evidências empíricas, do tipo que eles são capazes de reconhecer como evidências, de que esse esboço de Deus e do homem possa ter, minimamente, um contato com a realidade que eles conhecem. Por outro lado, não é difícil para um cristão bem intencionado se colocar no lugar de um ateu e ver o mundo como os ateus o vêem. Os quatro princípios do paradigma esboçados acima – amizade, liberdade, o perdão dos pecados e a aceitação da absurdidade – não excluem o ponto de vista ateu. De fato, aprende-se muito sobre cada princípio com os escritos de ateus, incluindo Sartre, Camus, Silone, Moravia, Dewey, Sêneca, Aristóteles e milhares de outros. O cristianismo parece ser mais capaz de compreender e simpatizar com os ateus do que estes com o cristianismo. Senão por outras razões, os três livros aqui resenhados mostram o quanto é difícil para os ateus contemporâneos (da escola científica) mostrar alguma simpatia pelo modo cristão de ver a realidade. Como um pouco acima de dois bilhões de pessoas são, atualmente, cristãs – aproximadamente uma a cada três pessoas – a inabilidade dos ateus contemporâneos de compreender os sentimentos de tantos companheiros – da breve viagem de uma única vida humana – parece ser uma grave deficiência humana.
Repetindo, não é difícil para um cristão sério “vestir” o ponto de vista, os métodos e as disciplinas da biologia evolucionária. Milhares de alunos universitários fazem isso a cada ano. Tem-se apenas que limitar a atenção e a compreensão ao que essa disciplina conta como evidência e rigor metodológico. Tem-se que conhecer seus conceitos e axiomas importantes. Tem-se que se limitar ao ponto de vista e às questões formuladas (não adianta formular questões que vão além do estrito limite imposto pela própria disciplina.) Se você dá conta de viver dentro desses limites, tanto melhor.
A arte de fazer isso não é diferente de aprender a pensar como um grego antigo, ou para os católicos, de aprender ver as coisas como um batista, um luterano e um presbiteriano, ou para este último se colocar, provisoriamente, no lugar de um católico. A forma estranha de Dawkins, Dennett e Harris de entender a vida humana é algo que um crente sensível deve necessariamente aprender, cedo ou tarde. Não se pode imaginar que se passe por um curso em Harvard, que se lecione em Stanford ou outra universidade, sem aprender como pensar, falar e trabalhar dentro do horizonte, pontos de vista, método e disciplinas de um ateu.
Tampouco essa arte é somente o produto de nossa era moderna e pluralística. O jovem Tomas de Aquino, com seus vinte anos, foi um dos primeiros homens no Ocidente a ter em suas mãos uma tradução autêntica de diversos livros de Aristóteles, cujas versões originais gregas estavam perdidas havia milhares de anos. Como seus comentários linha-a-linha de alguns desses livros mostram, Aquino dominou completamente o ponto de vista muito diferente do seu. Não muitos anos depois, ele teve de fazer o mesmo ao ler al-Farabi, Avicena, Averroes e outros grandes filósofos árabes.
E assim, quando um leitor cristão se defronta com o argumento do prof. Dawkins de que Deus não existe, porque todas as coisas mais inteligentes vem somente ao final do processo evolucionário, não no princípio, o primeiro reflexo do cristão é cair na gargalhada – mas como um estudante atento, ele também está obrigado a observar que, sim, do ponto de vista da biologia evolucionária, deve ser assim. O argumento pode não ser intelectualmente ou filosoficamente satisfatório; quando suas implicações práticas são comparadas com aquelas do ponto de vista cristão, a biologia evolucionária pode não ser atrativa como uma forma de vida. Se se quer ser um biólogo evolucionário, no entanto, deve-se aprender a se confinar dentro das disciplinas que o campo impõe.
Do ponto de vista do catolicismo romano pelo menos, não há dificuldade em aceitar todos os descobrimentos da biologia evolucionária e, ao mesmo tempo, não aceitar a biologia evolucionária senão como uma ciência empírica – ou seja, não como uma filosofia da existência, uma metafísica, uma completa visão da vida humana. É mais fácil para o cristianismo absorver muitas, muitas descobertas do mundo contemporâneo – da ciência à tecnologia, política, economia e arte – do que para aqueles cujo ponto de vista está confinado à era contemporânea absorver o cristianismo. Essa é apenas uma das razões pelas quais podemos esperar que o último sobreviverá à primeira.
É obvio que pelo menos Dawkins é muito consciente das limitações convencionais do ateísmo científico. Ele escreve que “uma resposta quase-mística à natureza e ao universo é comum entre os cientistas e racionalistas. Isso não tem conexão com uma crença sobrenatural.” Umas poucas páginas de seu livro, em quase todas as seções, são escritas para mostrar como o ponto de vista ateu pode satisfazer o que até agora tem sido considerado aspiração religiosa. O ateísmo tem, também, diz ele, suas consolações, suas fontes de inspiração, sua consciência da beleza, seu senso de espanto. Para tais satisfações, não há necessidade de se voltar para a religião. Dawkins faz um bom trabalho em restaurar, para a vida do ateísmo científico, a resposta subjetiva, emocional, de espanto para com a beleza. Para Dawkins, o ateísmo científico é humanístico, um passo significativo para além do positivismo lógico estéril de duas ou três gerações passadas.
... OU TUDO É PERMITIDO
Mas o ateísmo tem uma limitação mais grave, uma limitação que se revela nas ações de seus proponentes. Uma de minhas partes favoritas do livro de Sam Harris é sua tentativa de minimizar os horrores dos regimes autodeclarados ateus na história moderna: o fascismo na Itália, o nazismo na Alemanha e o comunismo na União Soviética. Nunca na história tantos cristãos foram mortos, torturados, levados a morte por marchas forçadas e presos em campos de concentração. Uma proporção ainda maior de judeus sofreu mais sob os mesmos regimes, particularmente o nazista, do que em qualquer outro tempo na história. A desculpa que Harris apresenta é muito fajuta. Primeiro ele dirige a atenção do caráter declarado do regime, para as personalidades de Hitler, Mussolini e Stalin: “Ao mesmo tempo em que é verdade que tais homens são às vezes inimigos da religião organizada, eles nunca são especialmente racionais. De fato, seus pronunciamentos públicos são freqüentemente psicóticos ... O problema com tais tiranos não é que eles rejeitem o dogma da religião, mas que eles abraçam outros mitos mortais.”
Em outras palavras, ateus psicóticos não são, na realidade, ateus. Será que Harris aceitaria uma alegação dos cristãos de que os maus cristãos não são, na realidade, cristãos? O problema real não é que aqueles tiranos rejeitam o “dogma” da religião, mas que eles se lambuzam com a carnificina permitida pelo relativismo radical de todas as coisas. E eles são confortados pela “lei natural” que absorvem do darwinismo old-fashioned: que o mais forte deve sobreviver e o mais fraco perecer.
Nossos autores podem rejeitar o argumento de que o ateísmo está associado ao relativismo. No entanto, o argumento mais comum contra se confiar no ateísmo é de Dostoevsky: “Se não há Deus, tudo é permitido.” Não haverá nenhum Juiz das ações e das consciências; ao final, é cada um por si. Certamente, alguns ateus “de um caráter particular” e detentores de distinções acadêmicas, que foram criados com hábitos inculcados por culturas religiosas do passado, podem se dar ao luxo de viver, por duas ou três gerações, de maneira indistinguível da dos modestos cristãos e judeus. Esses indivíduos continuam honestos, compassivos, comprometidos com a igualdade de todos e firmes crentes no “progresso” e “irmandade”, tempos depois de terem repudiado a justificativa original para tal lista de virtudes. Mas, cedo ou tarde, uma geração pode aparecer que leve a sério a metafísica do ateísmo. Isso foi o destino de uma nação altamente culta da Europa de nosso tempo.
Lembremos do pronunciamento de despedida de George Washington:
"Permitamo-nos com cautela supor que a moralidade possa ser mantida sem a religião. Qualquer que seja a importância que se dê à influência da educação refinada nas mentes individuais, tanto a razão quanto a experiência nos proíbem de esperar que a moralidade nacional possa prevalecer, com a exclusão do princípio religioso."
Se a moralidade fosse deixada sob a responsabilidade da razão apenas, nunca chegaríamos a acordos, pois os filósofos veementemente – e interminavelmente – discordam uns dos outros e a grande maioria deles hesitaria na ausência de sinais morais claros. Ademais, em momentos de tensão, grandes intelectuais do nível de um Heidegger e vários precursores do pós-modernismo (notavelmente o desconstrucionista Paul de Man) demonstraram uma vergonhosa adaptação aos imperativos do nazismo ou do comunismo.
Dawkins tenta se desviar dessa falha na visão neo-darwinista do acaso e da seleção natural cega, enumerando quatro razões para o altruísmo, fundadas na biologia evolucionária:
"Primeira, há o caso especial de parentesco genético. Segunda, há a reciprocidade: o pagamento de favores recebidos, e os favores feitos em “antecipação” de pagamento ... Terceira, o benefício darwniano de adquirir uma reputação de generosidade e gentileza. E quarta, há o benefício particular adicional da generosidade pública como uma forma autêntica de propaganda."
A essas razões baseadas na natureza do egoísmo, os judeus e cristãos poderiam adicionar três ou quatro. Primeira, não amar o próximo é desapontar o Criador que deseja que sejamos Seus amigos. Segunda, seria uma falha em nossa imitação do Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos determinou que O seguíssemos. Terceira, a experiência confirma que o amor aos outros está de acordo com nossa natureza comunal, começando na família, mas irradiando através da política e da economia. (Adam Smith referia-se a essa lei superior como “simpatia”.) Quarta, não há dúvida de que todo mandamento cristão tem um fundamento na natureza, mas tende a tencionar a natureza ao seu limite. A fé cristã não rejeita, mas se fundamenta na natureza, adiciona coisas a ela, a leva a uma perfeição mais rica.
Finalmente, nossos três autores não demonstram capacidade de reflexão cuidadosa sobre o que os judeus e cristãos realmente têm a dizer sobre Deus. A própria concepção atéia deles a respeito de Deus é uma caricatura, um busto horroroso que qualquer um sentirá o dever de rejeitar. Dawkins ridiculariza um Deus onisciente que também seja livre. Se um Deus onisciente sabe agora de Suas ações no futuro, como isso deixa espaço para que Ele mude de idéia – e como isso O faz onipotente? Não está Ele preso num torno? Mas, claro, isso é o mesmo que imaginar Deus vivendo no tempo, tal com Dawkins vive no tempo. É não conseguir perceber a diferença entre um ponto de vista desde a eternidade, fora do tempo, e um ponto de vista desde dentro do tempo. Isso é também uma incapacidade de perceber a liberdade que a Causa Primeira, fora do tempo (simultânea a todo instante de tempo) pode permitir, dentro do tempo, aos papéis das causas segundas, das contingências e dos particulares.
A vontade de Deus não é anterior às decisões humanas. É simultânea a elas e, assim, permite que elas aconteçam. Quando os católicos celebram o sacrifício da Missa, por exemplo, imaginamos que nosso momento de participação nessa Missa – como em cada outro momento de nossas vidas – é, aos olhos de Deus, simultâneo com a sangrenta morte de Seu Filho no Calvário. Aos nossos olhos, parece uma “encenação”, mas aos olhos de Deus ambos os momentos são um único. Sem dúvida, para alguns isso é excessivamente místico, e sua filosofia subjacente excessivamente sofisticada, especialmente para aqueles de gostos literais e puramente empíricos. Nossos três autores, de qualquer forma, apresentam uma idéia muito primitiva de Deus. Se nós tivéssemos tal visão, seríamos também, quase certamente, ateus.
O mundo interior de alerta e autoquestionamento das pessoas religiosas parece ser um território inexplorado por nossos autores. Em torno deles estão milhões de pessoas que despendem muitos momentos a cada dia (e horas a cada semana) em comunhão com Deus. Apesar disso, dessa parte interior e silenciosa dessas vidas – e por que esse silêncio interior toca aqueles que o considera verdadeiro, e parece mais real do que qualquer coisa em suas vidas – nossos escritores parecem inconscientes. Certamente, se nossos amigos ateus fossem reconsiderar seus métodos, e aprofundar sua compreensão de termos como “experiência” e “empírico”, eles poderiam chegar próximo a se colocarem no lugar de seus muitos companheiros religiosos, que consideram o teísmo mais satisfatório intelectualmente – menos autocontraditório, menos alienante de sua própria natureza – do que o ateísmo.
A única forma de os seres humanos chegarem a compreender uns aos outros é pelo aprendizado de se colocar no lugar do outro. Se essa máxima de Habermas é verdadeira, podíamos desejar que nossos três autores tivessem feito mais para diminuir o grande fosso que separa o crente do incréu no nosso tempo presente. Mesmo assim, devemos ser gratos que nossos autores tenham aberto uma janela na alma dos ateus, de tal forma que podemos, o resto de nós, entender melhor o que é o mundo do ponto de vista deles – e mesmo nos ver, por breves momentos, como eles nos vêem.
Ver também "Ateus solitários da Aldeia Global" - Parte I, Parte II, Parte III e Parte IV
Segunda: O Peso do Pecado. Levou alguns anos até que eu entendesse que, tal como algumas pessoas não têm ouvido para música, outras (como descreveu Friederick Hayek) “não têm ouvido para Deus”. Outros ainda dizem que não têm “necessidade” de Deus. Eles não sentem nenhum vazio interior em que Deus pudesse se encaixar. Parece-me, ademais, uma das bênçãos do ateísmo que ele anule qualquer sentimento de Julgamento, qualquer impressão de que os atos de alguém possam ofender um Amigo, qualquer consciência do pecado. O “pecado” parece, de fato, um restolho de uma época, há muito, passada. Beati voi! Eu gostaria de exclamar aos ateus: sorte sua!
“No coração do cristianismo está o pecado”, disse, certa vez, um grande cristão. Alguns têm a consciência de fazer coisas que não deviam e de deixar de fazer outras que deviam. Somos conscientes do pecado contra nossa própria consciência – fazendo deliberadamente o que sabemos ser errado, por fraqueza ou por um forte desejo que esteja ainda fora do controle. Posteriormente, às vezes, sentimos remorsos de tanto que nos dói o que fizemos – e mesmo assim, o que foi feito, está feito e nada que fizermos pode apagar nosso erro. E, às vezes, nosso erro é vergonhosamente grave.
Foi sobre essa experiência virtualmente universal que Jesus, como João Batista antes dele, inicialmente falou a seus ouvintes. “Arrependam-se! Façam penitência. Decidam não mais pecar” (Mesmo que a probabilidade de voltar a pecar seja alta; tal como um homem manco que apesar de ter sido curado, sabe que, a qualquer momento, seu joelho pode falhar novamente.)
Cristianismo nada tem a ver com arrogância moral. Ele tem a ver com realismo moral e humildade moral. Onde quer que você veja pessoas cheias de si condenando os outros e inconscientes de seus próprios pecados, você não está na presença de um cristão alerta, mas de um pedante enganador. Foi, na realidade, uma grande revolução na história humana quando o Deus cristão e judeu revelou-Se como alguém que enxerga diretamente o que vai pelas consciências e não é ludibriado por atos externos. (Os filósofos pagãos na Grécia e Roma podem ou não ter levado os deuses a sério, mas eles não tinham vergonha de mostrar pietas em ritos religiosos, sem nenhuma preocupação com a consciência.) O respeito bíblico pela consciência dignifica e honra grandemente os atos interiores de reflexão, comprometimento e escolha. Ele desviou um forte raio de atenção do ato externo para o ato interior de consciência. Ele dignificou enormemente a veracidade e a humildade. Finalmente, a obrigação interior de consciência para com o Criador se tornou o fundamento da liberdade religiosa – que nenhum outro poder se atreva a interferir com essa obrigação primeira para com Deus, que é antecedente à sociedade civil, ao estado, à família, e a qualquer outra instituição. (Ver “Estatuto da Liberdade Religiosa”, 1785, de Jefferson.)
Terceira: O Fio Dourado e Brilhante da História Humana. Na libertação dos judeus do Império Seleucido (celebrada no Hanukkah), do Egito (celebrada na Páscoa) e da Babilônia (celebrada na poesia dos profetas de Israel), a liberdade é o tema principal do Velho Testamento. Cada história nesse Testamento tem como seu eixo a arena da vontade humana e as decisões aí tomadas (ocultas ou externas). Assim, para a religião bíblica, liberdade é o fio dourado da história humana. Essa concepção de liberdade é realizada internamente no recesso da alma e também, institucionalmente, em todas as sociedades e políticas.
Nenhuma outra religião, exceto o cristianismo e o judaísmo, coloca a liberdade de consciência tão perto do centro da vida religiosa. Por exemplo, o Islam tende a pensar Deus em termos de vontade divina, muito longe da natureza e da lógica. Independentemente da razão, tudo que Allah deseja, se realiza. O judaísmo e o cristianismo tendem a pensar Deus como Logos, luz, fonte de toda lei e da inteligibilidade de todas as coisas. Essa diferença na concepção fundamental de Deus altera, também, a concepção fundamental de cada religião com relação ao ser humano: compreensão ou submissão.
Quarta: O Razão do Cosmos é Amizade. Se alguma vez lhe ocorreu perguntar, mesmo que você seja ateu, por que Deus criou este vasto, silencioso, virtualmente infinito cosmos, você deve ter descoberto que a melhor resposta é, numa única palavra, “amizade”. De acordo com as Escrituras, inteligentemente lidas, o Criador fez o homem um pouco inferior aos anjos e um pouco mais complexo que os outros animais. Ele fez os seres humanos suficientemente conscientes e racionais para que eles pudessem se maravilhar com o que Ele tinha criado e agradecê-Lo. E, ainda mais importante, Ele criou os seres humanos para oferecê-los, em sua liberdade, Sua amizade e companhia. Se não há liberdade, não há amizade.
Amizade não é a única forma bíblica de pensar sobre a relação entre Deus e o homem; também é uma boa forma imaginar o futuro de nossa nação e do mundo para o qual devemos trabalhar. Dessa visão, o judaísmo e o cristianismo oferece ao mundo uma forma de medir o progresso ou o declínio. William Penn chamou sua capital de “Philadelphia” e fez da liberdade de religião seu princípio fundamental. Mesmo os ateus da Revolução Francesa nomearam seus princípios “Liberdade, Fraternidade, Igualdade” – cada um deles é um termo que deriva não dos gregos ou romanos, mas da religião bíblica. Uma civilização mundial constituída sobre a mútua amizade é um poderoso imã, e uma medida realista. Amizade não requer uniformidade. Ao contrário, sua demanda fundamental é o respeito mútuo, desejando o bem do outro como outro. Ela faz nascer um desejo de conversar – de uma forma razoável, sobre as diferenças de ponto de vista, de expectativas – e um senso de responsabilidade prática.
ALGUMAS DIFERENÇAS ENTRE O CRISTIANISMO E O ATEÍSMO
Reconheço que o horizonte cristão esboçado acima, em rápidas pinceladas, pode parecer absurdo para ateus como Dawkins, Dennett e Harris. Eles podem procurar, em vão, por evidências empíricas, do tipo que eles são capazes de reconhecer como evidências, de que esse esboço de Deus e do homem possa ter, minimamente, um contato com a realidade que eles conhecem. Por outro lado, não é difícil para um cristão bem intencionado se colocar no lugar de um ateu e ver o mundo como os ateus o vêem. Os quatro princípios do paradigma esboçados acima – amizade, liberdade, o perdão dos pecados e a aceitação da absurdidade – não excluem o ponto de vista ateu. De fato, aprende-se muito sobre cada princípio com os escritos de ateus, incluindo Sartre, Camus, Silone, Moravia, Dewey, Sêneca, Aristóteles e milhares de outros. O cristianismo parece ser mais capaz de compreender e simpatizar com os ateus do que estes com o cristianismo. Senão por outras razões, os três livros aqui resenhados mostram o quanto é difícil para os ateus contemporâneos (da escola científica) mostrar alguma simpatia pelo modo cristão de ver a realidade. Como um pouco acima de dois bilhões de pessoas são, atualmente, cristãs – aproximadamente uma a cada três pessoas – a inabilidade dos ateus contemporâneos de compreender os sentimentos de tantos companheiros – da breve viagem de uma única vida humana – parece ser uma grave deficiência humana.
Repetindo, não é difícil para um cristão sério “vestir” o ponto de vista, os métodos e as disciplinas da biologia evolucionária. Milhares de alunos universitários fazem isso a cada ano. Tem-se apenas que limitar a atenção e a compreensão ao que essa disciplina conta como evidência e rigor metodológico. Tem-se que conhecer seus conceitos e axiomas importantes. Tem-se que se limitar ao ponto de vista e às questões formuladas (não adianta formular questões que vão além do estrito limite imposto pela própria disciplina.) Se você dá conta de viver dentro desses limites, tanto melhor.
A arte de fazer isso não é diferente de aprender a pensar como um grego antigo, ou para os católicos, de aprender ver as coisas como um batista, um luterano e um presbiteriano, ou para este último se colocar, provisoriamente, no lugar de um católico. A forma estranha de Dawkins, Dennett e Harris de entender a vida humana é algo que um crente sensível deve necessariamente aprender, cedo ou tarde. Não se pode imaginar que se passe por um curso em Harvard, que se lecione em Stanford ou outra universidade, sem aprender como pensar, falar e trabalhar dentro do horizonte, pontos de vista, método e disciplinas de um ateu.
Tampouco essa arte é somente o produto de nossa era moderna e pluralística. O jovem Tomas de Aquino, com seus vinte anos, foi um dos primeiros homens no Ocidente a ter em suas mãos uma tradução autêntica de diversos livros de Aristóteles, cujas versões originais gregas estavam perdidas havia milhares de anos. Como seus comentários linha-a-linha de alguns desses livros mostram, Aquino dominou completamente o ponto de vista muito diferente do seu. Não muitos anos depois, ele teve de fazer o mesmo ao ler al-Farabi, Avicena, Averroes e outros grandes filósofos árabes.
E assim, quando um leitor cristão se defronta com o argumento do prof. Dawkins de que Deus não existe, porque todas as coisas mais inteligentes vem somente ao final do processo evolucionário, não no princípio, o primeiro reflexo do cristão é cair na gargalhada – mas como um estudante atento, ele também está obrigado a observar que, sim, do ponto de vista da biologia evolucionária, deve ser assim. O argumento pode não ser intelectualmente ou filosoficamente satisfatório; quando suas implicações práticas são comparadas com aquelas do ponto de vista cristão, a biologia evolucionária pode não ser atrativa como uma forma de vida. Se se quer ser um biólogo evolucionário, no entanto, deve-se aprender a se confinar dentro das disciplinas que o campo impõe.
Do ponto de vista do catolicismo romano pelo menos, não há dificuldade em aceitar todos os descobrimentos da biologia evolucionária e, ao mesmo tempo, não aceitar a biologia evolucionária senão como uma ciência empírica – ou seja, não como uma filosofia da existência, uma metafísica, uma completa visão da vida humana. É mais fácil para o cristianismo absorver muitas, muitas descobertas do mundo contemporâneo – da ciência à tecnologia, política, economia e arte – do que para aqueles cujo ponto de vista está confinado à era contemporânea absorver o cristianismo. Essa é apenas uma das razões pelas quais podemos esperar que o último sobreviverá à primeira.
É obvio que pelo menos Dawkins é muito consciente das limitações convencionais do ateísmo científico. Ele escreve que “uma resposta quase-mística à natureza e ao universo é comum entre os cientistas e racionalistas. Isso não tem conexão com uma crença sobrenatural.” Umas poucas páginas de seu livro, em quase todas as seções, são escritas para mostrar como o ponto de vista ateu pode satisfazer o que até agora tem sido considerado aspiração religiosa. O ateísmo tem, também, diz ele, suas consolações, suas fontes de inspiração, sua consciência da beleza, seu senso de espanto. Para tais satisfações, não há necessidade de se voltar para a religião. Dawkins faz um bom trabalho em restaurar, para a vida do ateísmo científico, a resposta subjetiva, emocional, de espanto para com a beleza. Para Dawkins, o ateísmo científico é humanístico, um passo significativo para além do positivismo lógico estéril de duas ou três gerações passadas.
... OU TUDO É PERMITIDO
Mas o ateísmo tem uma limitação mais grave, uma limitação que se revela nas ações de seus proponentes. Uma de minhas partes favoritas do livro de Sam Harris é sua tentativa de minimizar os horrores dos regimes autodeclarados ateus na história moderna: o fascismo na Itália, o nazismo na Alemanha e o comunismo na União Soviética. Nunca na história tantos cristãos foram mortos, torturados, levados a morte por marchas forçadas e presos em campos de concentração. Uma proporção ainda maior de judeus sofreu mais sob os mesmos regimes, particularmente o nazista, do que em qualquer outro tempo na história. A desculpa que Harris apresenta é muito fajuta. Primeiro ele dirige a atenção do caráter declarado do regime, para as personalidades de Hitler, Mussolini e Stalin: “Ao mesmo tempo em que é verdade que tais homens são às vezes inimigos da religião organizada, eles nunca são especialmente racionais. De fato, seus pronunciamentos públicos são freqüentemente psicóticos ... O problema com tais tiranos não é que eles rejeitem o dogma da religião, mas que eles abraçam outros mitos mortais.”
Em outras palavras, ateus psicóticos não são, na realidade, ateus. Será que Harris aceitaria uma alegação dos cristãos de que os maus cristãos não são, na realidade, cristãos? O problema real não é que aqueles tiranos rejeitam o “dogma” da religião, mas que eles se lambuzam com a carnificina permitida pelo relativismo radical de todas as coisas. E eles são confortados pela “lei natural” que absorvem do darwinismo old-fashioned: que o mais forte deve sobreviver e o mais fraco perecer.
Nossos autores podem rejeitar o argumento de que o ateísmo está associado ao relativismo. No entanto, o argumento mais comum contra se confiar no ateísmo é de Dostoevsky: “Se não há Deus, tudo é permitido.” Não haverá nenhum Juiz das ações e das consciências; ao final, é cada um por si. Certamente, alguns ateus “de um caráter particular” e detentores de distinções acadêmicas, que foram criados com hábitos inculcados por culturas religiosas do passado, podem se dar ao luxo de viver, por duas ou três gerações, de maneira indistinguível da dos modestos cristãos e judeus. Esses indivíduos continuam honestos, compassivos, comprometidos com a igualdade de todos e firmes crentes no “progresso” e “irmandade”, tempos depois de terem repudiado a justificativa original para tal lista de virtudes. Mas, cedo ou tarde, uma geração pode aparecer que leve a sério a metafísica do ateísmo. Isso foi o destino de uma nação altamente culta da Europa de nosso tempo.
Lembremos do pronunciamento de despedida de George Washington:
"Permitamo-nos com cautela supor que a moralidade possa ser mantida sem a religião. Qualquer que seja a importância que se dê à influência da educação refinada nas mentes individuais, tanto a razão quanto a experiência nos proíbem de esperar que a moralidade nacional possa prevalecer, com a exclusão do princípio religioso."
Se a moralidade fosse deixada sob a responsabilidade da razão apenas, nunca chegaríamos a acordos, pois os filósofos veementemente – e interminavelmente – discordam uns dos outros e a grande maioria deles hesitaria na ausência de sinais morais claros. Ademais, em momentos de tensão, grandes intelectuais do nível de um Heidegger e vários precursores do pós-modernismo (notavelmente o desconstrucionista Paul de Man) demonstraram uma vergonhosa adaptação aos imperativos do nazismo ou do comunismo.
Dawkins tenta se desviar dessa falha na visão neo-darwinista do acaso e da seleção natural cega, enumerando quatro razões para o altruísmo, fundadas na biologia evolucionária:
"Primeira, há o caso especial de parentesco genético. Segunda, há a reciprocidade: o pagamento de favores recebidos, e os favores feitos em “antecipação” de pagamento ... Terceira, o benefício darwniano de adquirir uma reputação de generosidade e gentileza. E quarta, há o benefício particular adicional da generosidade pública como uma forma autêntica de propaganda."
A essas razões baseadas na natureza do egoísmo, os judeus e cristãos poderiam adicionar três ou quatro. Primeira, não amar o próximo é desapontar o Criador que deseja que sejamos Seus amigos. Segunda, seria uma falha em nossa imitação do Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos determinou que O seguíssemos. Terceira, a experiência confirma que o amor aos outros está de acordo com nossa natureza comunal, começando na família, mas irradiando através da política e da economia. (Adam Smith referia-se a essa lei superior como “simpatia”.) Quarta, não há dúvida de que todo mandamento cristão tem um fundamento na natureza, mas tende a tencionar a natureza ao seu limite. A fé cristã não rejeita, mas se fundamenta na natureza, adiciona coisas a ela, a leva a uma perfeição mais rica.
Finalmente, nossos três autores não demonstram capacidade de reflexão cuidadosa sobre o que os judeus e cristãos realmente têm a dizer sobre Deus. A própria concepção atéia deles a respeito de Deus é uma caricatura, um busto horroroso que qualquer um sentirá o dever de rejeitar. Dawkins ridiculariza um Deus onisciente que também seja livre. Se um Deus onisciente sabe agora de Suas ações no futuro, como isso deixa espaço para que Ele mude de idéia – e como isso O faz onipotente? Não está Ele preso num torno? Mas, claro, isso é o mesmo que imaginar Deus vivendo no tempo, tal com Dawkins vive no tempo. É não conseguir perceber a diferença entre um ponto de vista desde a eternidade, fora do tempo, e um ponto de vista desde dentro do tempo. Isso é também uma incapacidade de perceber a liberdade que a Causa Primeira, fora do tempo (simultânea a todo instante de tempo) pode permitir, dentro do tempo, aos papéis das causas segundas, das contingências e dos particulares.
A vontade de Deus não é anterior às decisões humanas. É simultânea a elas e, assim, permite que elas aconteçam. Quando os católicos celebram o sacrifício da Missa, por exemplo, imaginamos que nosso momento de participação nessa Missa – como em cada outro momento de nossas vidas – é, aos olhos de Deus, simultâneo com a sangrenta morte de Seu Filho no Calvário. Aos nossos olhos, parece uma “encenação”, mas aos olhos de Deus ambos os momentos são um único. Sem dúvida, para alguns isso é excessivamente místico, e sua filosofia subjacente excessivamente sofisticada, especialmente para aqueles de gostos literais e puramente empíricos. Nossos três autores, de qualquer forma, apresentam uma idéia muito primitiva de Deus. Se nós tivéssemos tal visão, seríamos também, quase certamente, ateus.
O mundo interior de alerta e autoquestionamento das pessoas religiosas parece ser um território inexplorado por nossos autores. Em torno deles estão milhões de pessoas que despendem muitos momentos a cada dia (e horas a cada semana) em comunhão com Deus. Apesar disso, dessa parte interior e silenciosa dessas vidas – e por que esse silêncio interior toca aqueles que o considera verdadeiro, e parece mais real do que qualquer coisa em suas vidas – nossos escritores parecem inconscientes. Certamente, se nossos amigos ateus fossem reconsiderar seus métodos, e aprofundar sua compreensão de termos como “experiência” e “empírico”, eles poderiam chegar próximo a se colocarem no lugar de seus muitos companheiros religiosos, que consideram o teísmo mais satisfatório intelectualmente – menos autocontraditório, menos alienante de sua própria natureza – do que o ateísmo.
A única forma de os seres humanos chegarem a compreender uns aos outros é pelo aprendizado de se colocar no lugar do outro. Se essa máxima de Habermas é verdadeira, podíamos desejar que nossos três autores tivessem feito mais para diminuir o grande fosso que separa o crente do incréu no nosso tempo presente. Mesmo assim, devemos ser gratos que nossos autores tenham aberto uma janela na alma dos ateus, de tal forma que podemos, o resto de nós, entender melhor o que é o mundo do ponto de vista deles – e mesmo nos ver, por breves momentos, como eles nos vêem.
Ver também "Ateus solitários da Aldeia Global" - Parte I, Parte II, Parte III e Parte IV
01/04/2007
Por que sou católico
G. K. Chesterton
Notas do tradutor:
1. Tenho sempre me defrontado com esta pergunta, feita por alguém: “Por que você é católico?” Como somos obrigados a dar satisfação sobre a fé que nos anima (os cristãos devem estar ‘‘sempre prontos a satisfazer a quem quer que lhes peça razões da esperança que os anima’’(1 Ped 3,15)), tenho sempre algumas respostas-padrão. Resolvi, contudo, traduzir este soberbo texto de Chesterton sobre suas razões para ter sido católico, que tomo como orientação para minhas próprias respostas.
2. Quem conseguir ler em inglês, não perca tempo com minha tradução. Em muitos sentidos, é impossível traduzir Chesterton. Ele é um mestre com as palavras e este pobre tradutor não dá contra disso em nosso idioma. O link para o artigo em inglês se encontra ao final da tradução.
3. É interessante ler este artigo em conjunto com outro: Por que acredito no cristianismo, já traduzido neste blog.
4. Claro, temos um Chesterton brasileiro. Ele se chama Gustavo Corção. Não deixe de lê-lo, sobretudo, Três alqueires e uma vaca, onde Corção fala de Chesterton.
A dificuldade em explicar “Por que eu sou Católico” é que há dez mil razões para isso, todas se resumindo a uma única: o catolicismo é verdadeiro. Eu poderia preencher todo o meu espaço com sentenças separadas, todas começando com as palavras, “É a única coisa que ...” Como, por exemplo, (1) É a única coisa que previne um pecado de se tornar um segredo. (2) É a única coisa em que o superior não pode ser superior; no sentido da arrogância e do desdém. (3) É a única coisa que liberta o homem da escravidão degradante de ser sempre criança. (4) É a única coisa que fala como se fosse a verdade; como se fosse um mensageiro real se recusando a alterar a verdadeira mensagem. (5) É o único tipo de cristianismo que realmente contém todo tipo de homem; mesmo o respeitável. (6) É a única grande tentativa de mudar o mundo desde dentro; usando a vontade e não as leis; etc.
Ou posso tratar o assunto de forma pessoal e descrever minha própria conversão; acontece que tenho uma forte impressão de que esse método faz a coisa parecer muito menor do que realmente é. Homens muito melhores, em muito maior número, se converteram a religiões muito piores. Preferiria tentar dizer, aqui, coisas a respeito da Igreja Católica que não se podem dizer mesmo sobre suas mais respeitáveis rivais. Em resumo, diria apenas que a Igreja Católica é católica. Preferiria tentar sugerir que ela não é somente maior que eu, mas maior que qualquer coisa no mundo; que ela é realmente maior que o mundo. Mas, como neste pequeno espaço, disponho apenas de uma pequena seção, abordarei sua função como guardiã da verdade.
Outro dia, um conhecido escritor, muito bem informado em outros assuntos, disse que a Igreja Católica é uma eterna inimiga das novas idéias. Provavelmente não ocorreu a ele que sua própria observação não é exatamente uma nova idéia. É uma daquelas noções que os católicos têm de refutar continuamente, porque é uma idéia muito antiga. Na realidade, aqueles que reclamam que o catolicismo não diz nada novo, raramente pensam que seja necessário dizer alguma coisa nova sobre o catolicismo. De fato, o estudo real da História mostrará que isso é curiosamente contrário aos fatos. Na medida em que as idéias são realmente idéias, e na medida em que tais idéias são novas, os católicos têm sofrido continuamente por apoiarem-nas quando elas são realmente novas; quando elas eram muito novas para encontrar alguém que as apoiasse. O católico foi não só o pioneiro na área, mas o único; e até hoje não houve ninguém que compreendesse o que se tinha descoberto lá.
Assim, por exemplo, quase duzentos anos antes da Declaração de Independência e da Revolução Francesa, numa era devotada ao orgulho e ao louvor aos príncipes, o Cardeal Bellarmine e Suarez, o Espanhol, formularam lucidamente toda a teoria da democracia real. Mas naquela era do Direito Divino, eles somente produziram a impressão de serem jesuítas sofisticados e sanguinários, se insinuando com adagas para assassinarem os reis. Então, novamente, os casuístas das escolas católicas disseram tudo o que pode ser dito e que constam de nossas peças e romances atuais, duzentos anos antes de eles serem escritos. Eles disseram que há sim problemas de conduta moral, mas eles tiveram a infelicidade de dizê-lo muito cedo, cedo de dois séculos. Num tempo de extraordinário fanatismo e de uma vituperação livre e fácil, eles foram simplesmente chamados de mentirosos e trapaceiros por terem sido psicólogos antes da psicologia se tornar moda. Seria fácil dar inúmeros outros exemplos, e citar o caso de idéias que são ainda muito novas para serem compreendidas. Há passagens da Encíclica do Papa Leão sobre o trabalho [conhecida como Rerum Novarum, publicada em 1891] que somente agora estão começando a ser usadas como sugestões para movimentos sociais muito mais novos do que o socialismo. E quando o Sr. Belloc escreveu a respeito do Estado Servil, ele estava apresentando uma teoria econômica tão original que quase ninguém ainda percebeu do que se trata. E então, quando os católicos apresentam objeções, seu protesto será facilmente explicado pelo conhecido fato de que católicos nunca se preocupam com idéias novas.
Contudo, o homem que fez essa observação sobre os católicos quis dizer algo; e é justo fazê-lo compreender muito mais claramente o que ele próprio disse. O que ele quis dizer é que, no mundo moderno, a Igreja Católica é, de fato, uma inimiga de muitas modas influentes; muitas delas ainda se dizem novas, apesar de algumas delas começarem a se tornar um pouco decadentes. Em outras palavras, na medida em que diz que a Igreja freqüentemente ataca o que o mundo, em cada era, apóia, ele está perfeitamente certo. A Igreja sempre se coloca contra a moda passageira do mundo; e ela tem experiência suficiente para saber quão rapidamente as modas passam. Mas para entender exatamente o que está envolvido, é necessário tomarmos um ponto de vista mais amplo e considerar a natureza última das idéias em questão, considerar, por assim dizer, a idéia da idéia.
Nove dentre dez do que chamamos novas idéias são simplesmente erros antigos. A Igreja Católica tem como uma de suas principais funções prevenir que os indivíduos comentam esses velhos erros; de cometê-los repetidamente, como eles fariam se deixados livres. A verdade sobre a atitude católica frente à heresia, ou como alguns diriam, frente à liberdade, pode ser mais bem expressa utilizando-se a metáfora de um mapa. A Igreja Católica possui uma espécie de mapa da mente que parece um labirinto, mas que é, de fato, um guia para o labirinto. Ele foi compilado a partir de um conhecimento que, mesmo se considerado humano, não tem nenhum paralelo humano.
Não há nenhum outro caso de uma instituição inteligente e contínua que tenha pensado sobre o pensamento por dois mil anos. Sua experiência cobre naturalmente quase todas as experiências; e especialmente quase todos os erros. O resultado é um mapa no qual todas as ruas sem saída e as estradas ruins estão claramente marcadas, todos os caminhos que se mostraram sem valor pela melhor de todas as evidências: a evidência daqueles que os percorreram.
Nesse mapa da mente, os erros são marcados como exceções. A maior parte dele consiste de playgrounds e alegres campos de caça, onde a mente pode ter tanta liberdade quanto queira; sem se esquecer de inúmeros campos de batalha intelectual em que a batalha está eternamente aberta e indefinida. Mas o mapa definitivamente se responsabiliza por fazer certas estradas se dirigirem ao nada ou à destruição, a um muro ou ao precipício. Assim, ele evita que os homens percam repetidamente seu tempo ou suas vidas em caminhos sabidamente fúteis ou desastrosos, e que podem atrair viajantes novamente no futuro. A Igreja se faz responsável por alertar seu povo contra eles; e disso a questão real depende. Ela dogmaticamente defende a humanidade de seus piores inimigos, daqueles grisalhos, horríveis e devoradores monstros dos velhos erros. Agora, todas essas falsas questões têm uma maneira de parecer novas em folha, especialmente para uma geração nova em folha. Suas primeiras afirmações soam inofensivas e plausíveis. Darei apenas dois exemplos. Soa inofensivo dizer, como muitos dos modernos dizem: “As ações só são erradas se são más para a sociedade.” Siga essa sugestão e, cedo ou tarde, você terá a desumanidade de uma colméia ou de uma cidade pagã, o estabelecimento da escravidão como o meio mais barato ou mais direto de produção, a tortura dos escravos pois, afinal, o indivíduo não é nada para o Estado, a declaração de que um homem inocente deve morrer pelo povo, como fizeram os assassinos de Cristo. Então, talvez, voltaremos às definições da Igreja Católica e descobriremos que a Igreja, ao mesmo tempo que diz que é nossa tarefa trabalhar para a sociedade, também diz outras coisas que proíbem a injustiça individual. Ou novamente, soa muito piedoso dizer, “Nosso conflito moral deve terminar com a vitória do espiritual sobre o material.” Siga essa sugestão e você terminará com a loucura dos maniqueus, dizendo que um suicídio é bom porque é um sacrifício, que a perversão sexual é boa porque não produz vida, que o demônio fez o sol e a lua porque eles são materiais. Então, você pode começar a adivinhar a razão de o cristianismo insistir que há espíritos maus e bons; e que a matéria também pode ser sagrada, como na Encarnação ou na Missa, no sacramento do casamento e na ressurreição da carne.
Não há nenhuma outra mente institucional no mundo que está pronta a evitar que as mentes errem. O policial chega tarde, quando ele tentar evitar que os homens cometam erros. O médico chega tarde, pois ele apenas chega para examinar o louco, não para aconselhar o homem são a como não enlouquecer. E todas as outras seitas e escolas são inadequadas a esse propósito. E isso não é porque elas possam não conter uma verdade, mas precisamente porque cada uma delas contém uma verdade; e estão contentes por conter uma verdade. Nenhuma delas pretende conter a verdade. A Igreja não está simplesmente armada contra as heresias do passado ou mesmo do presente, mas igualmente contra aquelas do futuro, que podem estar em exata oposição com as do presente. O catolicismo não é ritualismo; ele poderá estar lutando, no futuro, contra algum tipo de exagero ritualístico supersticioso e idólatra. O catolicismo não é ascetismo; ele, repetidamente no passado, reprimiu os exageros fanáticos e cruéis do ascetismo. O catolicismo não é mero misticismo; ele está agora mesmo defendendo a razão humana contra o mero misticismo dos pragmatistas. Assim, quando o mundo era puritano, no século XVII, a Igreja era acusada de exagerar a caridade a ponto da sofisticação, por fazer tudo fácil pela negligência confessional. Agora que o mundo não é puritano mas pagão, é a Igreja que está protestando contra a negligência da vestimenta e das maneiras pagãs. Ela está fazendo o que os puritanos desejariam fazer, quando isso fosse realmente desejável. Com toda a probabilidade, o melhor do protestantismo somente sobreviverá no catolicismo; e, nesse sentido, todos os católicos serão ainda puritanos quando todos os puritanos forem pagãos.
Assim, por exemplo, o catolicismo, num sentido pouco compreendido, fica fora de uma briga como aquela do darwinismo em Dayton. Ele fica fora porque permanece, em tudo, em torno dela, como uma casa que abarca duas peças de mobília que não combinam. Não é nada sectário dizer que ele está antes, depois e além de todas as coisas, em todas as direções. Ele é imparcial na briga entre fundamentalistas e a teoria da Origem das Espécies, porque ele se funda numa origem anterior àquela Origem; porque ele é mais fundamental que o Fundamentalismo. Ele sabe de onde veio a Bíblia. Ele também sabe aonde vão as teorias da Evolução. Ele sabe que houve muitos outros evangelhos além dos Quatro Evangelhos e que eles foram eliminados somente pela autoridade da Igreja Católica. Ele sabe que há muitas outras teorias da evolução além da de Darwin; e que a última será muito provavelmente eliminada pela ciência mais recente. Ele não aceita, convencionalmente, as conclusões da ciência, pela simples razão de que a ciência ainda não chegou a uma conclusão. Concluir é se calar; e o homem de ciência dificilmente se calará. Ele não acredita, convencionalmente, no que a Bíblia diz, pela simples razão de que a Bíblia não diz nada. Você não pode colocar um livro no banco das testemunhas e perguntar o que ele quer dizer. A própria controvérsia fundamentalista se destrói a si mesma. A Bíblia por si mesma não pode ser a base do acordo quando ela é a causa do desacordo; não pode ser a base comum dos cristãos quando alguns a tomam alegoricamente e outros literalmente. O católico se refere a algo que pode dizer alguma coisa, para a mente viva, consistente e contínua da qual tenho falado; a mais alta consciência do homem guiado por Deus.
Cresce a cada momento, para nós, a necessidade moral por tal mente imortal. Devemos ter alguma coisa que suportará os quatro cantos do mundo, enquanto fazemos nossos experimentos sociais ou construímos nossas Utopias. Por exemplo, devemos ter um acordo final, pelo menos em nome do truísmo da irmandade dos homens, que resista a alguma reação da brutalidade humana. Nada é mais provável, no momento presente, que a corrupção do governo representativo solte os ricos de todas as amarras e que eles pisoteiem todas as tradições com o mero orgulho pagão. Devemos ter todos os truísmos, em todos os lugares, reconhecidos como verdadeiros. Devemos evitar a mera reação e a temerosa repetição de velhos erros. Devemos fazer o mundo intelectual seguro para a democracia. Mas na condição da moderna anarquia mental, nem um nem outro ideal está seguro. Tal como os protestantes recorreram à Bíblia contra os padres e não perceberam que a Bíblia também podia ser questionada, assim também os republicanos recorreram ao povo contra os reis e não perceberam que o povo também podia ser desafiado. Não há fim para a dissolução das idéias, para a destruição de todos os testes da verdade, situação tornada possível desde que os homens abandonaram a tentativa de manter uma Verdade central e civilizada, de conter todas as verdades e identificar e refutar todos os erros. Desde então, cada grupo tem tomado uma verdade por vez e gastado tempo em torná-la uma mentira. Não temos tido nada, exceto movimentos; ou em outras palavras, monomanias. Mas a Igreja não é um movimento e sim um lugar de encontro, um lugar de encontro para todas as verdades do mundo.
Disponível em inglês em Why I am a Catholic
Notas do tradutor:
1. Tenho sempre me defrontado com esta pergunta, feita por alguém: “Por que você é católico?” Como somos obrigados a dar satisfação sobre a fé que nos anima (os cristãos devem estar ‘‘sempre prontos a satisfazer a quem quer que lhes peça razões da esperança que os anima’’(1 Ped 3,15)), tenho sempre algumas respostas-padrão. Resolvi, contudo, traduzir este soberbo texto de Chesterton sobre suas razões para ter sido católico, que tomo como orientação para minhas próprias respostas.
2. Quem conseguir ler em inglês, não perca tempo com minha tradução. Em muitos sentidos, é impossível traduzir Chesterton. Ele é um mestre com as palavras e este pobre tradutor não dá contra disso em nosso idioma. O link para o artigo em inglês se encontra ao final da tradução.
3. É interessante ler este artigo em conjunto com outro: Por que acredito no cristianismo, já traduzido neste blog.
4. Claro, temos um Chesterton brasileiro. Ele se chama Gustavo Corção. Não deixe de lê-lo, sobretudo, Três alqueires e uma vaca, onde Corção fala de Chesterton.
A dificuldade em explicar “Por que eu sou Católico” é que há dez mil razões para isso, todas se resumindo a uma única: o catolicismo é verdadeiro. Eu poderia preencher todo o meu espaço com sentenças separadas, todas começando com as palavras, “É a única coisa que ...” Como, por exemplo, (1) É a única coisa que previne um pecado de se tornar um segredo. (2) É a única coisa em que o superior não pode ser superior; no sentido da arrogância e do desdém. (3) É a única coisa que liberta o homem da escravidão degradante de ser sempre criança. (4) É a única coisa que fala como se fosse a verdade; como se fosse um mensageiro real se recusando a alterar a verdadeira mensagem. (5) É o único tipo de cristianismo que realmente contém todo tipo de homem; mesmo o respeitável. (6) É a única grande tentativa de mudar o mundo desde dentro; usando a vontade e não as leis; etc.
Ou posso tratar o assunto de forma pessoal e descrever minha própria conversão; acontece que tenho uma forte impressão de que esse método faz a coisa parecer muito menor do que realmente é. Homens muito melhores, em muito maior número, se converteram a religiões muito piores. Preferiria tentar dizer, aqui, coisas a respeito da Igreja Católica que não se podem dizer mesmo sobre suas mais respeitáveis rivais. Em resumo, diria apenas que a Igreja Católica é católica. Preferiria tentar sugerir que ela não é somente maior que eu, mas maior que qualquer coisa no mundo; que ela é realmente maior que o mundo. Mas, como neste pequeno espaço, disponho apenas de uma pequena seção, abordarei sua função como guardiã da verdade.
Outro dia, um conhecido escritor, muito bem informado em outros assuntos, disse que a Igreja Católica é uma eterna inimiga das novas idéias. Provavelmente não ocorreu a ele que sua própria observação não é exatamente uma nova idéia. É uma daquelas noções que os católicos têm de refutar continuamente, porque é uma idéia muito antiga. Na realidade, aqueles que reclamam que o catolicismo não diz nada novo, raramente pensam que seja necessário dizer alguma coisa nova sobre o catolicismo. De fato, o estudo real da História mostrará que isso é curiosamente contrário aos fatos. Na medida em que as idéias são realmente idéias, e na medida em que tais idéias são novas, os católicos têm sofrido continuamente por apoiarem-nas quando elas são realmente novas; quando elas eram muito novas para encontrar alguém que as apoiasse. O católico foi não só o pioneiro na área, mas o único; e até hoje não houve ninguém que compreendesse o que se tinha descoberto lá.
Assim, por exemplo, quase duzentos anos antes da Declaração de Independência e da Revolução Francesa, numa era devotada ao orgulho e ao louvor aos príncipes, o Cardeal Bellarmine e Suarez, o Espanhol, formularam lucidamente toda a teoria da democracia real. Mas naquela era do Direito Divino, eles somente produziram a impressão de serem jesuítas sofisticados e sanguinários, se insinuando com adagas para assassinarem os reis. Então, novamente, os casuístas das escolas católicas disseram tudo o que pode ser dito e que constam de nossas peças e romances atuais, duzentos anos antes de eles serem escritos. Eles disseram que há sim problemas de conduta moral, mas eles tiveram a infelicidade de dizê-lo muito cedo, cedo de dois séculos. Num tempo de extraordinário fanatismo e de uma vituperação livre e fácil, eles foram simplesmente chamados de mentirosos e trapaceiros por terem sido psicólogos antes da psicologia se tornar moda. Seria fácil dar inúmeros outros exemplos, e citar o caso de idéias que são ainda muito novas para serem compreendidas. Há passagens da Encíclica do Papa Leão sobre o trabalho [conhecida como Rerum Novarum, publicada em 1891] que somente agora estão começando a ser usadas como sugestões para movimentos sociais muito mais novos do que o socialismo. E quando o Sr. Belloc escreveu a respeito do Estado Servil, ele estava apresentando uma teoria econômica tão original que quase ninguém ainda percebeu do que se trata. E então, quando os católicos apresentam objeções, seu protesto será facilmente explicado pelo conhecido fato de que católicos nunca se preocupam com idéias novas.
Contudo, o homem que fez essa observação sobre os católicos quis dizer algo; e é justo fazê-lo compreender muito mais claramente o que ele próprio disse. O que ele quis dizer é que, no mundo moderno, a Igreja Católica é, de fato, uma inimiga de muitas modas influentes; muitas delas ainda se dizem novas, apesar de algumas delas começarem a se tornar um pouco decadentes. Em outras palavras, na medida em que diz que a Igreja freqüentemente ataca o que o mundo, em cada era, apóia, ele está perfeitamente certo. A Igreja sempre se coloca contra a moda passageira do mundo; e ela tem experiência suficiente para saber quão rapidamente as modas passam. Mas para entender exatamente o que está envolvido, é necessário tomarmos um ponto de vista mais amplo e considerar a natureza última das idéias em questão, considerar, por assim dizer, a idéia da idéia.
Nove dentre dez do que chamamos novas idéias são simplesmente erros antigos. A Igreja Católica tem como uma de suas principais funções prevenir que os indivíduos comentam esses velhos erros; de cometê-los repetidamente, como eles fariam se deixados livres. A verdade sobre a atitude católica frente à heresia, ou como alguns diriam, frente à liberdade, pode ser mais bem expressa utilizando-se a metáfora de um mapa. A Igreja Católica possui uma espécie de mapa da mente que parece um labirinto, mas que é, de fato, um guia para o labirinto. Ele foi compilado a partir de um conhecimento que, mesmo se considerado humano, não tem nenhum paralelo humano.
Não há nenhum outro caso de uma instituição inteligente e contínua que tenha pensado sobre o pensamento por dois mil anos. Sua experiência cobre naturalmente quase todas as experiências; e especialmente quase todos os erros. O resultado é um mapa no qual todas as ruas sem saída e as estradas ruins estão claramente marcadas, todos os caminhos que se mostraram sem valor pela melhor de todas as evidências: a evidência daqueles que os percorreram.
Nesse mapa da mente, os erros são marcados como exceções. A maior parte dele consiste de playgrounds e alegres campos de caça, onde a mente pode ter tanta liberdade quanto queira; sem se esquecer de inúmeros campos de batalha intelectual em que a batalha está eternamente aberta e indefinida. Mas o mapa definitivamente se responsabiliza por fazer certas estradas se dirigirem ao nada ou à destruição, a um muro ou ao precipício. Assim, ele evita que os homens percam repetidamente seu tempo ou suas vidas em caminhos sabidamente fúteis ou desastrosos, e que podem atrair viajantes novamente no futuro. A Igreja se faz responsável por alertar seu povo contra eles; e disso a questão real depende. Ela dogmaticamente defende a humanidade de seus piores inimigos, daqueles grisalhos, horríveis e devoradores monstros dos velhos erros. Agora, todas essas falsas questões têm uma maneira de parecer novas em folha, especialmente para uma geração nova em folha. Suas primeiras afirmações soam inofensivas e plausíveis. Darei apenas dois exemplos. Soa inofensivo dizer, como muitos dos modernos dizem: “As ações só são erradas se são más para a sociedade.” Siga essa sugestão e, cedo ou tarde, você terá a desumanidade de uma colméia ou de uma cidade pagã, o estabelecimento da escravidão como o meio mais barato ou mais direto de produção, a tortura dos escravos pois, afinal, o indivíduo não é nada para o Estado, a declaração de que um homem inocente deve morrer pelo povo, como fizeram os assassinos de Cristo. Então, talvez, voltaremos às definições da Igreja Católica e descobriremos que a Igreja, ao mesmo tempo que diz que é nossa tarefa trabalhar para a sociedade, também diz outras coisas que proíbem a injustiça individual. Ou novamente, soa muito piedoso dizer, “Nosso conflito moral deve terminar com a vitória do espiritual sobre o material.” Siga essa sugestão e você terminará com a loucura dos maniqueus, dizendo que um suicídio é bom porque é um sacrifício, que a perversão sexual é boa porque não produz vida, que o demônio fez o sol e a lua porque eles são materiais. Então, você pode começar a adivinhar a razão de o cristianismo insistir que há espíritos maus e bons; e que a matéria também pode ser sagrada, como na Encarnação ou na Missa, no sacramento do casamento e na ressurreição da carne.
Não há nenhuma outra mente institucional no mundo que está pronta a evitar que as mentes errem. O policial chega tarde, quando ele tentar evitar que os homens cometam erros. O médico chega tarde, pois ele apenas chega para examinar o louco, não para aconselhar o homem são a como não enlouquecer. E todas as outras seitas e escolas são inadequadas a esse propósito. E isso não é porque elas possam não conter uma verdade, mas precisamente porque cada uma delas contém uma verdade; e estão contentes por conter uma verdade. Nenhuma delas pretende conter a verdade. A Igreja não está simplesmente armada contra as heresias do passado ou mesmo do presente, mas igualmente contra aquelas do futuro, que podem estar em exata oposição com as do presente. O catolicismo não é ritualismo; ele poderá estar lutando, no futuro, contra algum tipo de exagero ritualístico supersticioso e idólatra. O catolicismo não é ascetismo; ele, repetidamente no passado, reprimiu os exageros fanáticos e cruéis do ascetismo. O catolicismo não é mero misticismo; ele está agora mesmo defendendo a razão humana contra o mero misticismo dos pragmatistas. Assim, quando o mundo era puritano, no século XVII, a Igreja era acusada de exagerar a caridade a ponto da sofisticação, por fazer tudo fácil pela negligência confessional. Agora que o mundo não é puritano mas pagão, é a Igreja que está protestando contra a negligência da vestimenta e das maneiras pagãs. Ela está fazendo o que os puritanos desejariam fazer, quando isso fosse realmente desejável. Com toda a probabilidade, o melhor do protestantismo somente sobreviverá no catolicismo; e, nesse sentido, todos os católicos serão ainda puritanos quando todos os puritanos forem pagãos.
Assim, por exemplo, o catolicismo, num sentido pouco compreendido, fica fora de uma briga como aquela do darwinismo em Dayton. Ele fica fora porque permanece, em tudo, em torno dela, como uma casa que abarca duas peças de mobília que não combinam. Não é nada sectário dizer que ele está antes, depois e além de todas as coisas, em todas as direções. Ele é imparcial na briga entre fundamentalistas e a teoria da Origem das Espécies, porque ele se funda numa origem anterior àquela Origem; porque ele é mais fundamental que o Fundamentalismo. Ele sabe de onde veio a Bíblia. Ele também sabe aonde vão as teorias da Evolução. Ele sabe que houve muitos outros evangelhos além dos Quatro Evangelhos e que eles foram eliminados somente pela autoridade da Igreja Católica. Ele sabe que há muitas outras teorias da evolução além da de Darwin; e que a última será muito provavelmente eliminada pela ciência mais recente. Ele não aceita, convencionalmente, as conclusões da ciência, pela simples razão de que a ciência ainda não chegou a uma conclusão. Concluir é se calar; e o homem de ciência dificilmente se calará. Ele não acredita, convencionalmente, no que a Bíblia diz, pela simples razão de que a Bíblia não diz nada. Você não pode colocar um livro no banco das testemunhas e perguntar o que ele quer dizer. A própria controvérsia fundamentalista se destrói a si mesma. A Bíblia por si mesma não pode ser a base do acordo quando ela é a causa do desacordo; não pode ser a base comum dos cristãos quando alguns a tomam alegoricamente e outros literalmente. O católico se refere a algo que pode dizer alguma coisa, para a mente viva, consistente e contínua da qual tenho falado; a mais alta consciência do homem guiado por Deus.
Cresce a cada momento, para nós, a necessidade moral por tal mente imortal. Devemos ter alguma coisa que suportará os quatro cantos do mundo, enquanto fazemos nossos experimentos sociais ou construímos nossas Utopias. Por exemplo, devemos ter um acordo final, pelo menos em nome do truísmo da irmandade dos homens, que resista a alguma reação da brutalidade humana. Nada é mais provável, no momento presente, que a corrupção do governo representativo solte os ricos de todas as amarras e que eles pisoteiem todas as tradições com o mero orgulho pagão. Devemos ter todos os truísmos, em todos os lugares, reconhecidos como verdadeiros. Devemos evitar a mera reação e a temerosa repetição de velhos erros. Devemos fazer o mundo intelectual seguro para a democracia. Mas na condição da moderna anarquia mental, nem um nem outro ideal está seguro. Tal como os protestantes recorreram à Bíblia contra os padres e não perceberam que a Bíblia também podia ser questionada, assim também os republicanos recorreram ao povo contra os reis e não perceberam que o povo também podia ser desafiado. Não há fim para a dissolução das idéias, para a destruição de todos os testes da verdade, situação tornada possível desde que os homens abandonaram a tentativa de manter uma Verdade central e civilizada, de conter todas as verdades e identificar e refutar todos os erros. Desde então, cada grupo tem tomado uma verdade por vez e gastado tempo em torná-la uma mentira. Não temos tido nada, exceto movimentos; ou em outras palavras, monomanias. Mas a Igreja não é um movimento e sim um lugar de encontro, um lugar de encontro para todas as verdades do mundo.
Disponível em inglês em Why I am a Catholic
31/03/2007
Ateus solitários da Aldeia Global – Parte IV
Michael Novak
O CRISTIANISMO REAL
Numa estalagem, na pequena vila de Bressanone (Brixten) no norte da Itália, há um afresco pintado muitos séculos atrás, cujo principal sujeito é um elefante, por um pintor que, obviamente, nunca tinha visto um elefante. Ele, claramente, estava tentando representar na parede o que alguém tinha tentado lhe contar sobre elefantes. Ele pintou um cavalo grande e pesado, com umas orelhas incomumente desajeitadas, e um nariz consideravelmente maior do que o de um cavalo comum – mas ainda assim um cavalo com um nariz grande.
É usual rirmos do afresco e, similarmente, o leitor cristão rirá do afresco primitivo do cristianismo pintado por Dawkins, Dennett e Harris. Eles se enganam redondamente sobre a coisa real.
Não se experimenta, tampouco, a coisa real apenas pelo nascimento numa família cristã. Não é nem de longe suficiente tomar parte em rituais maçantes e freqüentar a “Escola Dominical” com uma mente desatenta ou não-questionadora. Como descreve o Cardeal Newman, com algum detalhe, em seu Grammar of Assent (Gramática do Assentimento), um largo e obscuro abismo separa o assentimento “nocional” do “real”. Para este, é necessário pensar sobre a própria fé, questioná-la de todos os ângulos, estudar suas dimensões, implicações e relações com outros modos de conhecer. É necessário “tomar posse da fé”. Não se pode simplesmente ser “jogado” nela por nascimento ou instrução prévia. Fé que não é nutrida de questionamentos e desafios é um pouco como grama em solo raso, que é verde pela manhã, murcha à tarde e morre ao anoitecer. Nossos autores, ao que parece, querem arrancar com o ancinho a grama de raiz curta.
Assim, parece útil – e necessário – esboçar algumas das facetas da fé cristã a que nossos três autores parecem desatentos. Todo cristão (e todo católico) tem, claro, opinião diferente sobre isso, mas de cara eu percebo quatro questões para as quais a fé cristã oferece reflexões interessantes.
Primeira: Uma Teologia do Absurdo. Comece com a cruz ensangüentada do Calvário. Nela morreu o Filho de Deus? A cruz, o próprio símbolo da contradição e do absurdo. Quando os cristãos falam do ato da Criação, não pensamos num artífice perfeccionista fazendo bonecas Lhadró, mas em Deus criando carne e sangue em todas as suas angularidades, deformações, imperfeições e limitações concretas. O mundo de Sua criação é cortado de absurdidades e contradições, espécies que desaparecem, e da fervilhante, exuberante e barulhenta confusão de contingências e acasos. Quando Ele singulariza um povo escolhido, Ele elege uma tribo de uma parte pobre, atrasada e primitiva do mundo (imensamente talentosa, para ser justo, mas sem prestígio, fama, poder ou influência na superfície das coisas). Seus escolhidos são recorrentemente subjugados por inimigos, escravizados e exilados por longos, longos anos. Então, quando o Criador envia Seu Filho para se tornar carne, o Filho também funda Sua nova comunidade entre, principalmente, os pobres, os não instruídos, os humildes, os esquecidos.
Mas então, depois de blasfêmia e mais blasfêmia, esse Filho de Deus é condenado à morte como um criminoso comum, e submetido a mais desgraçada forma de morte conhecida do homem daquele tempo: escárnio público, açoitamento até quase à morte e, então, crucificação num lugar onde o povo podia gritar insultos e até os abutres podiam vir bicar seus olhos.
Este Criador não é nenhuma Pollyanna. O que Ele faz é assegurar àqueles que sofrem e que se vergam sob o peso do Absurdo que, apesar de às vezes eles sentirem um medo congelante, eles não precisam, afinal, temer. Deus é um bom Deus, e tem Seus próprios propósitos e não se engana quem sempre acredita em Sua bondade. O Criador não nos criou para vivermos num mundo razoável de forma racional, calma e desapaixonada – como um banqueiro novaiorquino, depois de um esplêndido almoço em seu Club, se afunda em sua poltrona favorita na Biblioteca, onde um charuto perfumado ainda é permitido, e lê confortavelmente os jornais do dia. Ao contrário, há guerra, exílio, tortura, injustiça. A vida é para ser compreendida como um julgamento e um tempo de sofrimento. Um vale de lágrimas. Um vale de morte. Mesmo na riqueza, no luxo e na fartura, o câncer, o fracasso e a solidão radical atacam; e mesmo, ainda mais freqüentemente, o simples tédio nos espreita.
Nem de longe uma terra de alegria, nem de longe o mundo perfeito de Cândido. O ateísmo é, principalmente, para o homem confortável, que vive num mundo razoável. Para aqueles em agonia e desespero, o cristianismo parece servir muito melhor e a longo prazo, não porque ele ofereça “consolação”, mas precisamente porque ele não faz isso. Para os cristãos, a cruz é inescapável e devemos sempre estar preparados para carregá-la. Eu próprio presenciei três pessoas profundamente religiosas morrerem desconsoladas, desoladas, vazias de sentimento por Deus. Estar vazio de consolação não é, no entanto, estar vazio de fé. Fé é essencialmente um sereno ato de amor, mesmo na miséria: “Não seja, porém, a minha vontade a fazer-se, mas a tua.”
Como Stephen Jay Gould, nossos três autores pensam que estão destruindo o argumento do design inteligente, mostrando como são pobremente projetadas muitas partes da anatomia humana, quantas espécies pereceram desde o começo dos tempos (algo em torno de 99%), o quanto a casualidade e a falta de razão parecem imperar em muitos passos da seleção natural. Eles desejam mostrar que se há um Criador, ele é incompetente; ou, mais exatamente, que há excessivas evidências para a falta de design inteligente. Que tipo de artífice bêbado eles pensam ser Deus? Nosso Deus é o Deus do Absurdo, da noite, do sofrimento e da paz silenciosa.
Ver também "Ateus solitários da Aldeia Global" - Parte I, Parte II e Parte III
O CRISTIANISMO REAL
Numa estalagem, na pequena vila de Bressanone (Brixten) no norte da Itália, há um afresco pintado muitos séculos atrás, cujo principal sujeito é um elefante, por um pintor que, obviamente, nunca tinha visto um elefante. Ele, claramente, estava tentando representar na parede o que alguém tinha tentado lhe contar sobre elefantes. Ele pintou um cavalo grande e pesado, com umas orelhas incomumente desajeitadas, e um nariz consideravelmente maior do que o de um cavalo comum – mas ainda assim um cavalo com um nariz grande.
É usual rirmos do afresco e, similarmente, o leitor cristão rirá do afresco primitivo do cristianismo pintado por Dawkins, Dennett e Harris. Eles se enganam redondamente sobre a coisa real.
Não se experimenta, tampouco, a coisa real apenas pelo nascimento numa família cristã. Não é nem de longe suficiente tomar parte em rituais maçantes e freqüentar a “Escola Dominical” com uma mente desatenta ou não-questionadora. Como descreve o Cardeal Newman, com algum detalhe, em seu Grammar of Assent (Gramática do Assentimento), um largo e obscuro abismo separa o assentimento “nocional” do “real”. Para este, é necessário pensar sobre a própria fé, questioná-la de todos os ângulos, estudar suas dimensões, implicações e relações com outros modos de conhecer. É necessário “tomar posse da fé”. Não se pode simplesmente ser “jogado” nela por nascimento ou instrução prévia. Fé que não é nutrida de questionamentos e desafios é um pouco como grama em solo raso, que é verde pela manhã, murcha à tarde e morre ao anoitecer. Nossos autores, ao que parece, querem arrancar com o ancinho a grama de raiz curta.
Assim, parece útil – e necessário – esboçar algumas das facetas da fé cristã a que nossos três autores parecem desatentos. Todo cristão (e todo católico) tem, claro, opinião diferente sobre isso, mas de cara eu percebo quatro questões para as quais a fé cristã oferece reflexões interessantes.
Primeira: Uma Teologia do Absurdo. Comece com a cruz ensangüentada do Calvário. Nela morreu o Filho de Deus? A cruz, o próprio símbolo da contradição e do absurdo. Quando os cristãos falam do ato da Criação, não pensamos num artífice perfeccionista fazendo bonecas Lhadró, mas em Deus criando carne e sangue em todas as suas angularidades, deformações, imperfeições e limitações concretas. O mundo de Sua criação é cortado de absurdidades e contradições, espécies que desaparecem, e da fervilhante, exuberante e barulhenta confusão de contingências e acasos. Quando Ele singulariza um povo escolhido, Ele elege uma tribo de uma parte pobre, atrasada e primitiva do mundo (imensamente talentosa, para ser justo, mas sem prestígio, fama, poder ou influência na superfície das coisas). Seus escolhidos são recorrentemente subjugados por inimigos, escravizados e exilados por longos, longos anos. Então, quando o Criador envia Seu Filho para se tornar carne, o Filho também funda Sua nova comunidade entre, principalmente, os pobres, os não instruídos, os humildes, os esquecidos.
Mas então, depois de blasfêmia e mais blasfêmia, esse Filho de Deus é condenado à morte como um criminoso comum, e submetido a mais desgraçada forma de morte conhecida do homem daquele tempo: escárnio público, açoitamento até quase à morte e, então, crucificação num lugar onde o povo podia gritar insultos e até os abutres podiam vir bicar seus olhos.
Este Criador não é nenhuma Pollyanna. O que Ele faz é assegurar àqueles que sofrem e que se vergam sob o peso do Absurdo que, apesar de às vezes eles sentirem um medo congelante, eles não precisam, afinal, temer. Deus é um bom Deus, e tem Seus próprios propósitos e não se engana quem sempre acredita em Sua bondade. O Criador não nos criou para vivermos num mundo razoável de forma racional, calma e desapaixonada – como um banqueiro novaiorquino, depois de um esplêndido almoço em seu Club, se afunda em sua poltrona favorita na Biblioteca, onde um charuto perfumado ainda é permitido, e lê confortavelmente os jornais do dia. Ao contrário, há guerra, exílio, tortura, injustiça. A vida é para ser compreendida como um julgamento e um tempo de sofrimento. Um vale de lágrimas. Um vale de morte. Mesmo na riqueza, no luxo e na fartura, o câncer, o fracasso e a solidão radical atacam; e mesmo, ainda mais freqüentemente, o simples tédio nos espreita.
Nem de longe uma terra de alegria, nem de longe o mundo perfeito de Cândido. O ateísmo é, principalmente, para o homem confortável, que vive num mundo razoável. Para aqueles em agonia e desespero, o cristianismo parece servir muito melhor e a longo prazo, não porque ele ofereça “consolação”, mas precisamente porque ele não faz isso. Para os cristãos, a cruz é inescapável e devemos sempre estar preparados para carregá-la. Eu próprio presenciei três pessoas profundamente religiosas morrerem desconsoladas, desoladas, vazias de sentimento por Deus. Estar vazio de consolação não é, no entanto, estar vazio de fé. Fé é essencialmente um sereno ato de amor, mesmo na miséria: “Não seja, porém, a minha vontade a fazer-se, mas a tua.”
Como Stephen Jay Gould, nossos três autores pensam que estão destruindo o argumento do design inteligente, mostrando como são pobremente projetadas muitas partes da anatomia humana, quantas espécies pereceram desde o começo dos tempos (algo em torno de 99%), o quanto a casualidade e a falta de razão parecem imperar em muitos passos da seleção natural. Eles desejam mostrar que se há um Criador, ele é incompetente; ou, mais exatamente, que há excessivas evidências para a falta de design inteligente. Que tipo de artífice bêbado eles pensam ser Deus? Nosso Deus é o Deus do Absurdo, da noite, do sofrimento e da paz silenciosa.
Ver também "Ateus solitários da Aldeia Global" - Parte I, Parte II e Parte III
25/03/2007
Liberalismo e modernismo
Recentes artigos do filósofo Olavo de Carvalho (Por que não sou liberal e O patinho feio da política nacional) suscitaram uma discussão sobre o liberalismo e o conservadorismo.Quem acompanha essa discussão em outros países sabe que ela é antiga. Livros, muitos livros já foram escritos por conservadores sobre o conservadorismo e sobre o liberalismo. Dentre esses, destaco dois: The Conservative Mind: From Burke to Eliot, de Russel Kirk e The Meaning of Conservatism, de Roger Scruton. De Scruton temos um texto muito interessante: How to be a Non-Liberal, Anti-Socialist Conservative. Pretendo traduzir este artigo neste blog, assim que Deus me permitir.
Voltando ao nosso grande filósofo, Olavo de Carvalho, parece-me que sua crítica se aproxima sobremaneira da tradicional posição da Igreja católica sobre a questão. Essa posição foi manifesta por muitos papas, desde o século XVIII em diante. Duas encíclicas de Leão XIII são clássicas sobre o liberalismo: Immortale Dei e Libertas. Dom Marcel Lefebvre escreveu um livro sobre o liberalismo, recentemente liberado para download pela Editora Permanência, intitulado “Do liberalismo à Apostasia”.Os fenômenos do liberalismo e do modernismo estão intimamente relacionados. Sobre o modernismo, uma heresia que tem se mostrado de uma força descomunal contra o cristianismo, há uma carta encíclica de São Pio X, intitulada Pascedi Dominici Gregis, que é um documento extraordinário. Extraordinário pela força da análise e pela determinação papal de lutar contra esta heresia moderna, que o papa considera a síntese de todas as demais heresias. Sobre a Pascendi (que este ano ela faz cem anos -- todos esperamos um documento de Bento XVI sobre ela) há um livro admirável de Michael Davies intitulado Partisans of Error.
Ai estão alguns livros, artigos e documentos que, acho, ajudarão a quem quiser acompanhar a discussão levantada por Olavo sobre o liberalismo, tanto na versão política e filosófica, quanto na versão católica.
24/03/2007
Ateus solitários da Aldeia Global - Parte III
Michael Novak
COMO MINHA FILHA SE TORNOU AGNO-TEÍSTA
Alguns anos atrás, nossa filha nos revelou que ela se tornara “uma agno-teísta.” (Toda família católica bem ordenada deve ter uma.) Quando ela foi para Duke, ela pensava ser uma atéia. Ela certamente encontrou muito ateísmo na atmosfera de lá. Não que todo mundo fosse ateu; longe disso. Era somente que a suposição subjacente em praticamente todo o discurso público era que qualquer pessoa séria é um ateu. Os religiosos previdentes ficavam calados a respeito de suas crenças.
Mesmo assim, não levou muito tempo para que minha filha conseguisse enxergar através da afetação de ateísmo. Em primeiro lugar, a doutrina fundamental parecia ser a de que tudo que é, veio a ser por meio do acaso e da seleção natural. Em outras palavras, no fundo, tudo é irracional, incerto, sem propósito ou ininteligível. O que mais a aborrecia era a afetação de professores pretendendo que tudo fosse um absurdo, enquanto que em questões mais próximas, eles colocavam toda a sua confiança na ciência, na racionalidade e no cálculo matemático. Ela concluiu que os ateus não aceitam as implicações de seus próprios compromissos metafísicos. Enquanto negam o princípio da racionalidade nas coisas mais profundas, eles se apegam a todas as racionalidades nas coisas superficiais. Minha filha achou isso muito pouco convincente.
Ela decidiu que o ateísmo não pode ser verdadeiro, pois ele é autocontraditório. Ademais, essa autocontradição é obstinada e seu propósito latente é pateticamente aparente. Os ateus querem todo o conforto da racionalidade que emana do teísmo racional, mas sem a dívida pessoal a qualquer Criador, Governador ou Juiz. Essa é a razão de eles se permitirem ser racionalista só até a metade do caminho. A alternativa os torna nervosos.
Minha filha concluiu que era mais razoável acreditar que um Deus existia, que ele fez todas as coisas. Mas ela não podia imaginar que diferença isso faria para ela pessoalmente. Por que tal deus se preocuparia com ela, ou com alguém mais? Que diferença prática para o mundo faria tal deus? Além disso, ele não estava nem um pouco certa sobre como pensar em tal deus, se como imagem ou como conceito. Sobre tudo isso ela se considerou agnóstica. Essa é a razão pela qual ela se definia como uma “agno-teísta.”
Parecia estranho à minha filha que pudesse haver tanta razão no mundo, ao passo que não havia razão para o mundo, mesmo com suas manifestas irracionalidades. (Ela própria experimentou dolorosamente muitas tragédias irracionais entre suas amigas tão promissoras, inteligentes e talentosas que foram abatidas em sua juventude.) Nossa filha não é nenhuma Pollyanna. Ela sempre percebeu o lado obscuro e irracional da vida. O que a surpreende é o grau de racionalidade em tudo, não a presença de absurdidades. O que a surpreende em seus professores é a autocontradição na raiz de suas vidas.
Ver também "Ateus solitários da Aldeia Global" - Parte I e Parte II
COMO MINHA FILHA SE TORNOU AGNO-TEÍSTA
Alguns anos atrás, nossa filha nos revelou que ela se tornara “uma agno-teísta.” (Toda família católica bem ordenada deve ter uma.) Quando ela foi para Duke, ela pensava ser uma atéia. Ela certamente encontrou muito ateísmo na atmosfera de lá. Não que todo mundo fosse ateu; longe disso. Era somente que a suposição subjacente em praticamente todo o discurso público era que qualquer pessoa séria é um ateu. Os religiosos previdentes ficavam calados a respeito de suas crenças.
Mesmo assim, não levou muito tempo para que minha filha conseguisse enxergar através da afetação de ateísmo. Em primeiro lugar, a doutrina fundamental parecia ser a de que tudo que é, veio a ser por meio do acaso e da seleção natural. Em outras palavras, no fundo, tudo é irracional, incerto, sem propósito ou ininteligível. O que mais a aborrecia era a afetação de professores pretendendo que tudo fosse um absurdo, enquanto que em questões mais próximas, eles colocavam toda a sua confiança na ciência, na racionalidade e no cálculo matemático. Ela concluiu que os ateus não aceitam as implicações de seus próprios compromissos metafísicos. Enquanto negam o princípio da racionalidade nas coisas mais profundas, eles se apegam a todas as racionalidades nas coisas superficiais. Minha filha achou isso muito pouco convincente.
Ela decidiu que o ateísmo não pode ser verdadeiro, pois ele é autocontraditório. Ademais, essa autocontradição é obstinada e seu propósito latente é pateticamente aparente. Os ateus querem todo o conforto da racionalidade que emana do teísmo racional, mas sem a dívida pessoal a qualquer Criador, Governador ou Juiz. Essa é a razão de eles se permitirem ser racionalista só até a metade do caminho. A alternativa os torna nervosos.
Minha filha concluiu que era mais razoável acreditar que um Deus existia, que ele fez todas as coisas. Mas ela não podia imaginar que diferença isso faria para ela pessoalmente. Por que tal deus se preocuparia com ela, ou com alguém mais? Que diferença prática para o mundo faria tal deus? Além disso, ele não estava nem um pouco certa sobre como pensar em tal deus, se como imagem ou como conceito. Sobre tudo isso ela se considerou agnóstica. Essa é a razão pela qual ela se definia como uma “agno-teísta.”
Parecia estranho à minha filha que pudesse haver tanta razão no mundo, ao passo que não havia razão para o mundo, mesmo com suas manifestas irracionalidades. (Ela própria experimentou dolorosamente muitas tragédias irracionais entre suas amigas tão promissoras, inteligentes e talentosas que foram abatidas em sua juventude.) Nossa filha não é nenhuma Pollyanna. Ela sempre percebeu o lado obscuro e irracional da vida. O que a surpreende é o grau de racionalidade em tudo, não a presença de absurdidades. O que a surpreende em seus professores é a autocontradição na raiz de suas vidas.
Ver também "Ateus solitários da Aldeia Global" - Parte I e Parte II
18/03/2007
Ateus solitários da Aldeia Global - Parte II
Michael Novak
CONSTRUINDO UMA CULTURA DA RAZÃO
Não tenho dúvidas de que os cristãos têm feito muitos males e escrito algumas páginas vergonhosas da história humana. Mesmo assim, num balanço justo do que o judaísmo e o cristianismo adicionaram às culturas pagãs da Grécia, de Roma, das nações Árabes pré-Maomé, da Alemanha, das tribos francas e célticas, dos Vikings e dos Anglo-saxões, é surpreendente que não se encontre um só agradecimento de Dawkins por inovações tais como: hospitais, orfanatos, escolas eclesiais dos primeiros séculos, universidade um pouco mais tarde, alguns dos mais belos trabalhos artísticos – na música, arquitetura, pintura e poesia – do patrimônio humano.
E por que ele omite o árduo trabalho de reflexão sobre conceitos tais como “pessoa”, “comunidade”, “civitas”, “consentimento”, “tirania” e “governo limitado” (“Daí a César o que é de César ,,,”) que tornaram possíveis grandes documentos como, por exemplo, a Magna Carta? Suas poucas páginas sobre a fundação e a manutenção de sua amada Oxford por seus primeiros patronos Católicos são de uma ingratidão escarnecedora. E se Oxford o desaponta, será que ele não é grato pela construção e implantação de virtualmente todas as famosas universidades da Europa (e das Américas)?
Dawkins nada escreve sobre as grandes comunidades religiosas fundadas com o expresso propósito de construir escolas para a educação livre dos pobres. Nada a respeito de milhares de vidas monásticas dedicadas ao delicado e exaustivo trabalho de cópia à mão dos grandes manuscritos do passado – freqüentemente com o generoso amor manifestado nas iluminuras – durante longos séculos em que as prensas ainda não existiam. Nada sobre a fundação da biblioteca do Vaticano e sua importância na gênesis de quase uma dúzia de ciências modernas. Nada sobre os homens cultos, padres e crentes, que contribuíram tanto para cruciais descobrimentos em ciência, medicina e tecnologia. Uma ou duas palavras de elogio sobre tais fatos teria feito a cansativa lista de acusações de Dawkins parecer menos injusta.
Não pretendo exagerar. Houve e há elementos tóxicos na religião que sempre demanda restrição do Logos ao qual o cristianismo, desde o início, associou a tradição bíblica: “No início era o Logos ...” (João, 1:1). Mesmo assim, qualquer análise justa do impacto do judaísmo e do cristianismo na história mundial tem uma enorme quantidade de coisas positivas para adicionar na contabilidade geral. Dentre os meus textos preferidos durante muitos anos, estão, por exemplo, certas passagens de Science and the Modern World e Adventures of Ideas, de Alfred North Whitehead. Nessas passagens, Whitehead enfatiza que as práticas da ciência moderna são inconcebíveis sem os milhares de anos da crença judaico-cristã de que o Criador de todas as coisas compreendia todas as coisas, em suas leis gerais e nas suas disposições particulares e contingentes. Essa convicção, escreve Whitehead, fez com que grandes e disciplinados esforços da razão fossem aplicados na hercúlea tarefa do entendimento de que todas as coisas parecem razoáveis. Se todas as coisas são inteligíveis ao seu Criador, elas devem ser inteligíveis àqueles feitos à Sua imagem, que, em imitação a Ele, dão continuidade à vocação humana de tentar entender tudo que Ele fez.
Ademais, o judaísmo e o cristianismo inculcaram em culturas inteiras hábitos morais e intelectuais específicos, articulando-os com os ensinamentos das antigas tradições clássicas, sem o que as ciências modernas não possuiriam os requisitos morais básicos – honestidade, trabalho duro, perseverança face às dificuldades, respeito pelas descobertas inspiradas e repentinos insights, uma determinação para testar qualquer hipótese razoável. O que seria da ciência moderna sem a crença na inteligibilidade de todas as coisas, mesmo os eventos únicos, não-repetíveis e contingentes, e sem os hábitos, pertencentes à quase todas as culturas, de honestidade, rigor intelectual e perseverante inquirição? Whitehead nos alerta a respeito dessa maravilhosa dívida muitas vezes, muito mais generosamente que Dawkins. Em Science and Modern World (1925), ele escreve: “Minha explicação é que a fé na possibilidade da ciência, nascida anteriormente ao desenvolvimento da teoria científica moderna, é uma derivação inconsciente da teologia medieval.”
O caminho da ciência moderna foi aplainado por profundas convicções de que todo mínimo elemento no mundo da experiência humana – do número de cabelos de nossa cabeça ao solitário lírio no prado – é completamente conhecido pelo seu Criador e, portanto, pertence ao campo da inteligibilidade, de conexões mútuas, e de lógicas múltiplas. Todos os estranhos e angulares níveis de realidade, são penetráveis pela mente humana, desde que sejam despendidos esforços árduos, disciplinados e cooperativos. Se os seres humanos são feitos à imagem de seu Criador, como os primeiros capítulos do livro de Gênesis insistem que são, certamente estão dentro de suas capacidades questionar, ganhar compreensão e avançar o entendimento das obras de Deus. Na grande imagem pintada por Miguelangelo no teto da Capela Sistina – o toque de dedos entre o Criador e Adão – a nuvem cor-de-malva por trás da cabeça do Criador é pintada na forma de um cérebro humano. Imago Dei, de fato.
Tivesse o professor Dawkins feito mesmo um semi-sério arremedo de justiça, eu teria dado muito mais atenção às suas críticas sobre os povos cristãos. Ainda assim, algumas de suas críticas de feitos e modos de pensar cristãos particulares têm sentido. O cristianismo não removeu dos seres humanos toda a capacidade de pecar e o fato de ser cristão não exime a pessoa de cometer atos horrorosos e pecaminosos dos quais a história está cheia de repugnantes exemplos. Pecado, irracionalidade, traição – aos judeus e cristãos nada humano é estranho.
Eu gostaria de poder afirmar que Daniel C. Dennett e Sam Harris são mais abertos e respeitosos que Dawkins; mas seus livros também são decepcionantes. A carta que Harris alega pretender endereçar à nação cristã é, de fato, totalmente desinteressada do cristianismo em qualquer nível, é enormemente ignorante e essencialmente representa sua própria declaração de amor a si mesmo, por causa de sua superioridade em relação aos cidadãos em cujo meio ele vive. O conceito de razão e de ciência de Dennett é tão estreito que ele parece preso a algo como os primórdios de A.J. Ayer. Esperemos que alguma alma corajosa e caridosa, um dia, pegue em sua mão e o leve para fora da caverna onde ele se encontra. Sua tese principal, de que a religião é um “fenômeno natural,” já era gagá no tempo em que Santo Agostinho estava discernindo as novidades que o cristianismo tinha introduzido na religião romana. Mas, claro, a idéia de Dennett de “natural” não é ampla o suficiente para compreender nem a fidelidade heróica de Natan Sharansky, nem o poder eterno e libertador dos pungentes Salmos do Rei David.
Levanto tudo isso em conta, me ocorre que a única forma de prosseguir é descrever, de um lado, a forma com que as mentes jovens e questionadoras são repelidas, nas universidade americanas, pelo ateísmo que é a lingua franca em quase todas as salas-de-aula e discussões acadêmicas, e, de outro lado, fazer uma breve confissão exatamente daquele cristianismo que Dennett, Harris e Dawkins consideram desagradável, mal, perigoso e odioso. Apesar do desrespeito deles, o cristianismo consegue ser, de alguma forma, altamente atrativo a aproximadamente um terço da humanidade (um pouco mais de dois bilhões de pessoas), e é, ainda hoje, a religião que mais cresce dentre todas as outras. É importante explicar a atração antes de discutir suas objeções específicas.
Ver Ateus solitário da Aldeia Global - Parte I
CONSTRUINDO UMA CULTURA DA RAZÃO
Não tenho dúvidas de que os cristãos têm feito muitos males e escrito algumas páginas vergonhosas da história humana. Mesmo assim, num balanço justo do que o judaísmo e o cristianismo adicionaram às culturas pagãs da Grécia, de Roma, das nações Árabes pré-Maomé, da Alemanha, das tribos francas e célticas, dos Vikings e dos Anglo-saxões, é surpreendente que não se encontre um só agradecimento de Dawkins por inovações tais como: hospitais, orfanatos, escolas eclesiais dos primeiros séculos, universidade um pouco mais tarde, alguns dos mais belos trabalhos artísticos – na música, arquitetura, pintura e poesia – do patrimônio humano.
E por que ele omite o árduo trabalho de reflexão sobre conceitos tais como “pessoa”, “comunidade”, “civitas”, “consentimento”, “tirania” e “governo limitado” (“Daí a César o que é de César ,,,”) que tornaram possíveis grandes documentos como, por exemplo, a Magna Carta? Suas poucas páginas sobre a fundação e a manutenção de sua amada Oxford por seus primeiros patronos Católicos são de uma ingratidão escarnecedora. E se Oxford o desaponta, será que ele não é grato pela construção e implantação de virtualmente todas as famosas universidades da Europa (e das Américas)?
Dawkins nada escreve sobre as grandes comunidades religiosas fundadas com o expresso propósito de construir escolas para a educação livre dos pobres. Nada a respeito de milhares de vidas monásticas dedicadas ao delicado e exaustivo trabalho de cópia à mão dos grandes manuscritos do passado – freqüentemente com o generoso amor manifestado nas iluminuras – durante longos séculos em que as prensas ainda não existiam. Nada sobre a fundação da biblioteca do Vaticano e sua importância na gênesis de quase uma dúzia de ciências modernas. Nada sobre os homens cultos, padres e crentes, que contribuíram tanto para cruciais descobrimentos em ciência, medicina e tecnologia. Uma ou duas palavras de elogio sobre tais fatos teria feito a cansativa lista de acusações de Dawkins parecer menos injusta.
Não pretendo exagerar. Houve e há elementos tóxicos na religião que sempre demanda restrição do Logos ao qual o cristianismo, desde o início, associou a tradição bíblica: “No início era o Logos ...” (João, 1:1). Mesmo assim, qualquer análise justa do impacto do judaísmo e do cristianismo na história mundial tem uma enorme quantidade de coisas positivas para adicionar na contabilidade geral. Dentre os meus textos preferidos durante muitos anos, estão, por exemplo, certas passagens de Science and the Modern World e Adventures of Ideas, de Alfred North Whitehead. Nessas passagens, Whitehead enfatiza que as práticas da ciência moderna são inconcebíveis sem os milhares de anos da crença judaico-cristã de que o Criador de todas as coisas compreendia todas as coisas, em suas leis gerais e nas suas disposições particulares e contingentes. Essa convicção, escreve Whitehead, fez com que grandes e disciplinados esforços da razão fossem aplicados na hercúlea tarefa do entendimento de que todas as coisas parecem razoáveis. Se todas as coisas são inteligíveis ao seu Criador, elas devem ser inteligíveis àqueles feitos à Sua imagem, que, em imitação a Ele, dão continuidade à vocação humana de tentar entender tudo que Ele fez.
Ademais, o judaísmo e o cristianismo inculcaram em culturas inteiras hábitos morais e intelectuais específicos, articulando-os com os ensinamentos das antigas tradições clássicas, sem o que as ciências modernas não possuiriam os requisitos morais básicos – honestidade, trabalho duro, perseverança face às dificuldades, respeito pelas descobertas inspiradas e repentinos insights, uma determinação para testar qualquer hipótese razoável. O que seria da ciência moderna sem a crença na inteligibilidade de todas as coisas, mesmo os eventos únicos, não-repetíveis e contingentes, e sem os hábitos, pertencentes à quase todas as culturas, de honestidade, rigor intelectual e perseverante inquirição? Whitehead nos alerta a respeito dessa maravilhosa dívida muitas vezes, muito mais generosamente que Dawkins. Em Science and Modern World (1925), ele escreve: “Minha explicação é que a fé na possibilidade da ciência, nascida anteriormente ao desenvolvimento da teoria científica moderna, é uma derivação inconsciente da teologia medieval.”
O caminho da ciência moderna foi aplainado por profundas convicções de que todo mínimo elemento no mundo da experiência humana – do número de cabelos de nossa cabeça ao solitário lírio no prado – é completamente conhecido pelo seu Criador e, portanto, pertence ao campo da inteligibilidade, de conexões mútuas, e de lógicas múltiplas. Todos os estranhos e angulares níveis de realidade, são penetráveis pela mente humana, desde que sejam despendidos esforços árduos, disciplinados e cooperativos. Se os seres humanos são feitos à imagem de seu Criador, como os primeiros capítulos do livro de Gênesis insistem que são, certamente estão dentro de suas capacidades questionar, ganhar compreensão e avançar o entendimento das obras de Deus. Na grande imagem pintada por Miguelangelo no teto da Capela Sistina – o toque de dedos entre o Criador e Adão – a nuvem cor-de-malva por trás da cabeça do Criador é pintada na forma de um cérebro humano. Imago Dei, de fato.
Tivesse o professor Dawkins feito mesmo um semi-sério arremedo de justiça, eu teria dado muito mais atenção às suas críticas sobre os povos cristãos. Ainda assim, algumas de suas críticas de feitos e modos de pensar cristãos particulares têm sentido. O cristianismo não removeu dos seres humanos toda a capacidade de pecar e o fato de ser cristão não exime a pessoa de cometer atos horrorosos e pecaminosos dos quais a história está cheia de repugnantes exemplos. Pecado, irracionalidade, traição – aos judeus e cristãos nada humano é estranho.
Eu gostaria de poder afirmar que Daniel C. Dennett e Sam Harris são mais abertos e respeitosos que Dawkins; mas seus livros também são decepcionantes. A carta que Harris alega pretender endereçar à nação cristã é, de fato, totalmente desinteressada do cristianismo em qualquer nível, é enormemente ignorante e essencialmente representa sua própria declaração de amor a si mesmo, por causa de sua superioridade em relação aos cidadãos em cujo meio ele vive. O conceito de razão e de ciência de Dennett é tão estreito que ele parece preso a algo como os primórdios de A.J. Ayer. Esperemos que alguma alma corajosa e caridosa, um dia, pegue em sua mão e o leve para fora da caverna onde ele se encontra. Sua tese principal, de que a religião é um “fenômeno natural,” já era gagá no tempo em que Santo Agostinho estava discernindo as novidades que o cristianismo tinha introduzido na religião romana. Mas, claro, a idéia de Dennett de “natural” não é ampla o suficiente para compreender nem a fidelidade heróica de Natan Sharansky, nem o poder eterno e libertador dos pungentes Salmos do Rei David.
Levanto tudo isso em conta, me ocorre que a única forma de prosseguir é descrever, de um lado, a forma com que as mentes jovens e questionadoras são repelidas, nas universidade americanas, pelo ateísmo que é a lingua franca em quase todas as salas-de-aula e discussões acadêmicas, e, de outro lado, fazer uma breve confissão exatamente daquele cristianismo que Dennett, Harris e Dawkins consideram desagradável, mal, perigoso e odioso. Apesar do desrespeito deles, o cristianismo consegue ser, de alguma forma, altamente atrativo a aproximadamente um terço da humanidade (um pouco mais de dois bilhões de pessoas), e é, ainda hoje, a religião que mais cresce dentre todas as outras. É importante explicar a atração antes de discutir suas objeções específicas.
Ver Ateus solitário da Aldeia Global - Parte I
17/03/2007
Ateus solitários da Aldeia Global – Parte I
Michael Novak
Nota Inicial - A revista National Review traz, em sua edição de 19 de março de 2007, uma extensa crítica do católico Michael Novak, sobre três livros de autores ateus. Tanto o crítico como os autores são muito conhecidos por suas respectivas obras. Apresento, a seguir, a primeira parte de minha tradução dessa crítica. As outras partes aparecerão, neste blog, na medida de minhas possibilidades.
A revista Time, uma sempre vigilante descobridora de tendências, celebrou recentemente uma onda de livros de autores ateus – dentre eles, os livros de Sam Harris, de Daniel C. Dennett e o de Richard Dawkins. Esses livros têm três propósitos: acelerar o desaparecimento da fé bíblica, especialmente nos EUA; fazer proselitismo a favor do ateísmo racional; e levantar a moral dos ateus, em parte por meio da divulgação de grupos de ajuda a eles dirigidos. O principal propósito é o primeiro: nas palavras de Harris, “demolir as pretensões intelectuais e morais do cristianismo”.

Mas todos os três livros também revelam um considerável desdém pelo judaísmo. Dawkins o chama de “um culto tribal a um Deus desagradável e feroz, morbidamente obcecado com restrições sexuais, com cheiro de carne queimada, exibindo sua própria superioridade sobre deuses rivais, e sua exclusividade para com sua escolhida tribo do deserto”. Ao Deus do Velho Testamento Dawkins se refere como um “delinqüente psicótico”.
E não é porque eles admirem o Islam; ao contrário, eles usam o Islam para destruir o cristianismo e o judaísmo. Harris diz aos cristãos: “Incréus como eu, estamos ao seu lado, chocados e sem fala, quando vemos hordas de mulssumanos salmodiando a morte de nações inteiras. Mas ficamos também sem fala ao seu lado – pela sua negação da realidade tangível, pelo sofrimento causado pelos seus mitos religiosos e por sua ligação a um Deus imaginário”. Na verdade, então, a principal intenção dos três autores é louvar a superioridade do ateísmo, pelo menos do ateísmo racional de professores como eles.

De fato, há muito que louvar no ateísmo. Com a evidência do admirável código moral descrito por Aristóteles em Ética a Nicômaco em suas mãos, Santo Tomás de Aquino escreveu que para ser bom em, pelo menos, um sentido importante, não é necessário compartilhar a fé bíblica. Aristóteles mostrou um caminho para o florescimento humano, tanto para a comunidade quanto para os indivíduos nobres. (Ser “bom” em outro importante sentido, “nascer de novo” ou “ser salvo”, requer um pouco mais do que Aristóteles poderia oferecer, ou mesmo imaginar.) Além disso, os ateus – ou, pelo menos, os pagãos fora da tradição bíblica – foram capazes de construir edificações magníficas, tais como o Parthenon, as pirâmides do Egito, os palácios da Babilônia; produzir grandes literaturas e iniciar diversas ciências, tais como Astronomia, Aritmética, Medicina e Agricultura. Finalmente, ateus – ou, pelo menos não crentes – sempre foram um estímulo para o entendimento da Bíblia, por levantarem questões, por duvidarem, por insultarem ou mesmo apresentarem respeitosos desafios intelectuais. Foi da classe intelectual pagã que muitos dos primeiros Padres da Igreja (Orígenes, Clemente de Alexandria, o próprio Santo Agostinho) foram trazidos à fé bíblica, e eles freqüentemente continuavam dialogando com seus parceiros incréus, o que muito os ajudaram no aprofundamento de sua fé.

Devo mencionar que meu próprio trabalho inicial foi centrado no diálogo entre crentes e incréus, o horizonte intelectual do Absurdo (como Camus, Sartre e tantos outros o chamavam) e da fé bíblica – em tais livros como Belief and Unbelief e The Experience of Nothingness, por exemplo. Por essa razão, eu queria realmente ter gostado desses novos livros sobre o ateísmo. Eu aprendi muito sobre ateus e crentes com Jürgen Habermas, possivelmente o ateu mais conhecido da Europa. Habermas escreve sobre os crentes com respeito e como parceiros num importante diálogo. Uma respeitosa consideração pela dignidade mútua é, sustenta Habermas, essencial para a prática da racionalidade entre os seres humanos. Recentemente, tive a honra de uma longa troca de idéias com um ateu americano muito inteligente, Heather Mac Donald, cuja condução foi muito prazerosa, pois o debate transcorreu com consideração mútua, paciência e sinceridade de ambos os lados.
Infelizmente, é extremamente difícil conseguir esse mesmo nível de diálogo com Harris, Dennett e Dawkins. Todos eles pensam que a religião é uma ameaça tão grande que não há muita disposição para se conversar. A bandeira de guerra que eles estendem ao vento é o “Ecrazez l’infâme!” de Voltaire. Ao mesmo tempo, todos os três pretendem nos convencer que os ateus “questionam tudo” e “submetem tudo a uma incansável, quase tediosa, autocrítica”. Contudo, nesses livros não há sequer uma sombra de evidência de que os autores tiveram, alguma vez, qualquer dúvida sobre a correção de seu próprio ateísmo. Autoquestionamento sobre suas próprias indiferenças acadêmicas aos seus temas; sobre as brutalidades horríveis cometidas em nome do “ateísmo científico” durante o século XX; sobre as incansáveis e mercuriais insatisfações nos movimentos ateus e seculares, durante os últimos cem anos; e sobre a fraqueza demográfica do ateísmo – todas essas questões estão notavelmente ausentes. Além do mais, apesar de um zeitgeist ateísta dominar os campi universitários americanos, ele não se mostrou persuasivo para um imenso número de estudantes, que tampa os narizes e apenas o suporta. Por que o ateísmo seduz tão poucos? Nossos autores nunca fazem essa pergunta.
Eu, particularmente, queria ter gostado do livro de Richard Dawkins. Tinha ouvido dizer que ele é muito culto e articulado e que ele escreve com a melodia e a espirituosidade de um elegante estilista literário. Seus fãs o apresentam como um modelo do homem razoável. Dawkins, também, apresenta expressamente a si mesmo e a outros ateus como “brilhantes”, distinguíveis pela “saúde” e “vigor” mental. Pobres crentes – ele abertamente lamenta – são, contrariamente, prisioneiros de uma ilusão, acomodados, mentalmente mortos. Ele não faz sequer um gesto no sentido querer aprender algo com eles.
Na realidade, os registros disponíveis sobre Dawkins apontam uma situação ainda pior. Ele apresentou, num canal de televisão inglês, um programa chamado “A raiz de todo o mal?”[1] Apesar de ter, agora, escrito que ele discorda do título que os produtores deram ao programa, ele o aceitou quando da exibição do mesmo. O que ele pede às pessoas religiosas é que: “Imagine, com John Lennon, um mundo sem religião”. Muito da violência e distorção na vida humana não desapareceriam, então? Bem, isso teria sido muito original, se essa visão já não fosse convencional na Inglaterra. Propagado tanto por pop stars e quanto por cientistas, essa visão é, segundo uma pesquisa recente, compartilhada por 70 por cento da população inglesa.
Por todo o Ocidente, parece que nem pop stars nem cientistas consideram, sequer por um momento, a experiência religiosa contemporânea à luz de seus mais heróicos praticantes. Por exemplo, nunca antes tantas pessoas que professam a fé bíblica foram jogadas em campos de concentração, torturadas e assassinadas, como têm acontecido, agora, sob regimes políticos autoproclamados ateus. Teria sido maravilhoso se qualquer um de nossos autores tivesse comparado sua visão da religião com a fé bíblica, conseguida a duras penas, do ex-ateu e cientista Anatoly Sharansky, que cumpriu pena de nove anos num gulag soviético por defender os direitos de cidadãos soviéticos de origem judaica. Sharansky escreveu o registro de seu sofrimento numa brilhante autobiografia, Fear No Evil. Penso nunca ter lido nada sobre um homem com maior coragem moral, determinado a viver como um homem livre, demonstrando corajosamente nada mais que repulsa moral aos agentes da KGB, sob cujo poder total ele tinha de viver. Sharansky viveu, corajosa e temerariamente, dia após dia, privado de alimentação suficiente, privado da visão do azul céu e do banho de sol. Ele foi punido de inumeráveis formas, sob um tipo de condicionamento skinneriano, projetado para “corrigir” seu comportamento e isso continuou ano após ano, na tentativa de esgotar suas resistências, evitando que ele recebesse os mais triviais agrados, atormentando sua alma pelo isolamento e pela falta de apoio humano.
Ironicamente, contudo, suas experiências na prisão levaram Sharansky a dimensões da razão que excedia em muito qualquer coisa que ele tinha encontrado em sua prática científica anterior. Para sobreviver, ele precisava de se abrir, muito mais do que a ciência o tinha ensinado, ao aprendizado. Ele era solicitado a assinar certas inverdades: “Quem saberá sobre isso depois? Que diferença isso fará? É uma coisa tão pequena e que trará coisas tão melhores para você e para todos nós que terá sido pelo bem comum.” Um dos colegas de Sharansky, uma alma nobre, se iludiu em pensar que seria melhor mentir sobre pequenas coisas se, ao final, ele pudesse ser libertado mais cedo e levar a mensagem sobre direitos humanos para fora do gulag. Sharansky observou outros homens tentando manter seus espíritos fortalecidos pela esperança – esperança por tratamento melhor, esperança por uma libertação mais rápida, que, então, repentinamente ficaram tão enfraquecidos por falsas esperanças que não conseguiam mais resistir à cumplicidade. Sharansky descobriu que ele precisava de uma fonte de discernimento mais profunda do que tudo o que ele tinha conhecido previamente.
Naqueles dias, o amor de sua amada e corajosa esposa, amigos e outros dissidentes, vinham visitá-lo em sua cela através de raras cartas e mensagens. Mas tais mensagens poderiam tê-lo enfraquecido e traído. Em seus tormentos d’alma, ele encontrou uma grande companhia no Rei David de muitos séculos atrás, quando uma edição, em hebreu, dos Salmos caiu em suas mãos. O realismo de David calou fundo em seu coração e fortificou enormemente suas defesas. Ele aprendeu a força de pertencer a uma comunidade – sua comunidade – em compartilhar rituais tradicionais, encontrando sustentação nos sofrimentos, lutas e sabedoria de seus ancestrais. Inconscientemente, um de seus colegas de cela (que poderia estar trabalhando para a KGB) deu a Sharansky outra lição sobre a “interconexão das almas”. Um dos maiores heróis científicos de Sharansky era Galileu. Ao dizer a Sharansky sobre como outros prisioneiros tinham feito “a vida mais fácil para todo mundo” por simplesmente assinarem inofensivos papéis a que ninguém, no mundo lá fora, teria acesso, seu colega de cela mencionou como, mesmo Galileu, tinha sido persuadido a assinar afirmações sobre seus próprios erros, somente para se livrar de toda aquela confusão. As palavras de seu colega de cela caíram como um raio na mente de Sharansky, causando a vívida consciência da interconexão de todas as almas através da história – aqueles que permanecem leais à verdade e aqueles que a traem. A traição de Galileu, ocorrida há quatrocentos anos atrás, estava agora sendo usada para seduzir Sharansky, da mesma forma que toda a rendição espiritual de outros indivíduos no gulag era usada para não deixá-lo esquecer de que a resistência era inútil a longo prazo. Naquele raio, Sharansky viu o poder da verdade interior ao longo dos séculos, aquele tipo de cinturão eletrônico de fidelidade que mantém unidas todas as regiões todo o tempo, em tantos quantos forem os corações que permanecem leais à verdade. Sharansky quis renascer como membro daquela comunidade e mudou seu nome para Natan, indicando a comunidade bíblica com a qual ele queria ser identificado a partir de então.
Sharansky se tornou, ainda no gulag, um judeu progressivamente mais praticante, forçando mesmo, numa cena cômica, seu supervisor a acender com ele o menorah. Sharansky escreve muito pouco sobre Deus diretamente, mas está acima de qualquer dúvida que ele tenha visto algo profundamente deficiente em seus hábitos mentais científicos anteriores. Ele também se envergonhou de sua posição anterior de agnosticismo e de seu desdém em relação à “religião organizada”. A comunidade que preservou os Salmos do Rei David por tantos séculos ofereceu à sua alma companhia e o “recarregou” para que ele resistisse, num momento crucial de seu longo confinamento.
Foi, então, um enorme desapontamento descobrir que Dennett, Harris e especialmente Dawkins não prestam a mínima atenção às experiências reais de conversão e às narrativas de fidelidade, que são tão comuns na “literatura de prisão” de nosso século. Ademais, nenhum deles põe suas fracas, confusas e insondadas idéias sobre Deus sob escrutínio. O hábito natural de suas mentes é antropomórfico. Eles tendem a pensar em Deus como se ele fosse um ser humano, submetido às limitações humanas. Eles são quase tão literais em suas leituras da Bíblia quanto aqueles personagens ignorantes da Geórgia rural de Flannery O’Connor. Eles se deleitam em descobrir contradições e impossibilidades em suas leituras literais, mas toda força do ridículo que eles querem mostrar depende do equívoco da leitura literal das passagens bíblicas mencionadas, que são ora alegóricas, ora metafóricas, ora poéticas, ora prenhe de múltiplos significados, para a nutrição de uma alma sob tensão. A Bíblia quase nunca pretende ser ciência ou mesmo história estritamente literal.
Nossos três autores se orgulham de como as ciências avançam ao longo do tempo e, também, em como o pensamento moral tem se tornado, de certa forma, mais profundo e mais exigente. Eles não dão nenhuma atenção às formas por meio das quais o entendimento religioso também cresce, se desenvolve e evolui. Eles parecem ignorar completamente o pequeno, mas brilhante, ensaio de John Henry Newman, Essay on the Development of Christian Doctrine. Eles parecem desconhecer que a fé bíblica tem estado, desde seu início, em constante – e mutuamente enriquecedor – diálogo com a inteligência cética e secular. Pode-se identificar o progresso do entendimento religioso nos próprios textos bíblicos, de uma era a outra, e os próprios autores da Escritura chamam nossa atenção quanto a isso.
Nossos três autores, ao que parece, se tornam um pouco cegos por sua própria repugnância à religião. Mesmo seus bons amigos, Dawkins escreve, lhe perguntam porque ele é tão “hostil” às pessoas religiosas. Por que você, eles dizem, uma pessoa tão inteligente, não apresenta, calma e serenamente, seus argumentos devastadores contra os crentes? A resposta de Dawkins a seus amigos é direta: “Sou hostil à religião fundamentalista porque ela debocha do empreendimento científico ... A religião fundamentalista tem, resolutamente, arruinado a educação científica de incontáveis inocentes, ansiosos e bem intencionados jovens. A religião não fundamentalista, que age com bom-senso, pode não estar fazendo isso. Mas está favorecendo o fundamentalismo por ensinar às crianças, desde a mais tenra idade, que a fé cega é uma virtude.” Dawkins recusa-se a ser parte da “conspiração” pública de respeito à religião, quando ela merece desdém.
Contudo, sua alegação sobre a fé “cega” parece um pouco estranha. Alguns de nós pensamos que a origem da religião está no impulso humano ilimitado de fazer perguntas – que é nossa experiência fundamental do infinito. Qualquer coisa finita que encontramos pode ser questionada, e parece, ao final, insatisfatória. Aquela experiência do infinito é a que impulsiona a mente e a alma e as fornece o primeiro antegozo do que está além do tempo e do espaço. “Nossos corações estão inquietos, Senhor”, lembrou Santo Agostinho, com muita ressonância em milhões e milhões de mentes através da história humana desde sempre. “Fé cega”? Os escritos dos pensadores medievais registram questão após questão, disputatio após disputatio, e os resultados reais na história dependiam da resolução de cada uma delas.[2] Muitas das questões surgiram dos advogados, filósofos e outros indivíduos nas universidades medievais que eram céticos e incréus; outras surgiram dos estudiosos árabes cujos trabalhos tinham chegado recentemente às universidades ocidentais; e ainda outras vinham de Maimônides e de acadêmicos judeus; e um grande número delas vinha dos grandes pensadores pagãos de cada um dos séculos anteriores. Questões têm sido o coração e a alma do judaísmo e do cristianismo por milênios.
Naturalmente, Dawkins pelo menos pensa que há algumas pessoas religiosas que podem ser convertidas ao ateísmo por meio de seus argumentos. Ele as descreve como pessoas de “mente aberta, cuja doutrinação infantil não foi tão insidiosa ou que não foi ‘engolida’ por ter encontrado uma robusta inteligência, ou por alguma outra razão.” Dawkins apresenta a tais crentes um ultimatum: ou se juntem a ele e “se livrem do vício da religião completamente”, ou permaneçam entre os tipos mais intolerantes que são incapazes de superar a “ilusão de deus”.
Na quinta página de seu livro, Dawkins descreve suas esperanças: “Se este livro atingir seu objetivo pretendido, os leitores religiosos que o abrirem serão ateus ao fecharem-no.” Surpreendeu-me que Dawkins seja capaz de tais proselitismos. Mais que tudo, o que me surpreendeu é que, apesar de os três autores escreverem como se a ciência fosse o princípio e o fim de todo discurso racional, seus três livros não são, de forma alguma, científicos. Ao contrário, eles são exemplos de dialética – argumentos a partir de um ponto de vista, ou horizonte, direcionados aos seres humanos que compartilham pontos de vista diferentes. Certamente, um das mais nobres tarefas da razão é entrar, respeitosamente, em discussão com os outros, cuja visão da realidade é dramaticamente diferente de sua própria, a fim de que ambas as partes possam aprender com a troca de idéias, e alcançar um respeito mútuo mais profundo. Nossos autores usam a dialética, não a ciência, mas de uma forma que dificilmente pode ser descrita como respeitosa para com aqueles com que eles pretendem discutir. Como diz Dawkins: “É claro que os crentes radicais são imunes aos argumentos, sua resistência cresceu por anos de doutrinação na infância ... Dentre os mais efetivos procedimentos imunológicos está a terrível advertência para se evitar até abrir um livro como este, que é, certamente, um trabalho de Satã.” Aqui, claro, Dawkins se cobre de lisonja. O demônio teria sido muito mais insidioso.
O que mais me surpreende no livro de Dawkins, contudo, é sua atitude defensiva. Ele descreve os ateus, particularmente nos EUA, como sofrendo de solidão, desrespeito público, isolamento espiritual e baixa auto-estima. Em uma passagem ele menciona uma carta a ele dirigida por uma jovem cristã, estudante de Medicina, que recentemente tinha se tornado atéia. Uma estudante de Medicina? Certamente, muitos médicos e estudantes de Medicina no seu entorno são ateus. No entanto, a estudante escreve: “Eu não quero compartilhar minha crença com outras pessoas que me são próximas porque temo a .. reação de desgosto. ... Apenas escrevo a você porque espero sua simpatia para com minha frustação.” Num apêndice, que Dawkins generosamente adiciona para tais almas desfavorecidas, ele apresenta uma lista de organizações em que ateus solitários podem encontrar companhia e consolo. Ele devota não poucas páginas para levantar a moral de sua comunidade – falando sobre o quão numerosos eles são, o quanto eles são inteligentes e o quanto seus antagonistas são fastidiosos, em comparação.
[1] Ver comentários de Roger Scruton sobre este programa em “Dawkins está errado”. (N. do T.)
[2] Sobre as discussões medievais e suas terríveis conseqüências atuais, ver “A dissolução do Ocidente: uma introdução”. (N. do T.)
Nota Inicial - A revista National Review traz, em sua edição de 19 de março de 2007, uma extensa crítica do católico Michael Novak, sobre três livros de autores ateus. Tanto o crítico como os autores são muito conhecidos por suas respectivas obras. Apresento, a seguir, a primeira parte de minha tradução dessa crítica. As outras partes aparecerão, neste blog, na medida de minhas possibilidades.
A revista Time, uma sempre vigilante descobridora de tendências, celebrou recentemente uma onda de livros de autores ateus – dentre eles, os livros de Sam Harris, de Daniel C. Dennett e o de Richard Dawkins. Esses livros têm três propósitos: acelerar o desaparecimento da fé bíblica, especialmente nos EUA; fazer proselitismo a favor do ateísmo racional; e levantar a moral dos ateus, em parte por meio da divulgação de grupos de ajuda a eles dirigidos. O principal propósito é o primeiro: nas palavras de Harris, “demolir as pretensões intelectuais e morais do cristianismo”.

Mas todos os três livros também revelam um considerável desdém pelo judaísmo. Dawkins o chama de “um culto tribal a um Deus desagradável e feroz, morbidamente obcecado com restrições sexuais, com cheiro de carne queimada, exibindo sua própria superioridade sobre deuses rivais, e sua exclusividade para com sua escolhida tribo do deserto”. Ao Deus do Velho Testamento Dawkins se refere como um “delinqüente psicótico”.
E não é porque eles admirem o Islam; ao contrário, eles usam o Islam para destruir o cristianismo e o judaísmo. Harris diz aos cristãos: “Incréus como eu, estamos ao seu lado, chocados e sem fala, quando vemos hordas de mulssumanos salmodiando a morte de nações inteiras. Mas ficamos também sem fala ao seu lado – pela sua negação da realidade tangível, pelo sofrimento causado pelos seus mitos religiosos e por sua ligação a um Deus imaginário”. Na verdade, então, a principal intenção dos três autores é louvar a superioridade do ateísmo, pelo menos do ateísmo racional de professores como eles.

De fato, há muito que louvar no ateísmo. Com a evidência do admirável código moral descrito por Aristóteles em Ética a Nicômaco em suas mãos, Santo Tomás de Aquino escreveu que para ser bom em, pelo menos, um sentido importante, não é necessário compartilhar a fé bíblica. Aristóteles mostrou um caminho para o florescimento humano, tanto para a comunidade quanto para os indivíduos nobres. (Ser “bom” em outro importante sentido, “nascer de novo” ou “ser salvo”, requer um pouco mais do que Aristóteles poderia oferecer, ou mesmo imaginar.) Além disso, os ateus – ou, pelo menos, os pagãos fora da tradição bíblica – foram capazes de construir edificações magníficas, tais como o Parthenon, as pirâmides do Egito, os palácios da Babilônia; produzir grandes literaturas e iniciar diversas ciências, tais como Astronomia, Aritmética, Medicina e Agricultura. Finalmente, ateus – ou, pelo menos não crentes – sempre foram um estímulo para o entendimento da Bíblia, por levantarem questões, por duvidarem, por insultarem ou mesmo apresentarem respeitosos desafios intelectuais. Foi da classe intelectual pagã que muitos dos primeiros Padres da Igreja (Orígenes, Clemente de Alexandria, o próprio Santo Agostinho) foram trazidos à fé bíblica, e eles freqüentemente continuavam dialogando com seus parceiros incréus, o que muito os ajudaram no aprofundamento de sua fé.

Devo mencionar que meu próprio trabalho inicial foi centrado no diálogo entre crentes e incréus, o horizonte intelectual do Absurdo (como Camus, Sartre e tantos outros o chamavam) e da fé bíblica – em tais livros como Belief and Unbelief e The Experience of Nothingness, por exemplo. Por essa razão, eu queria realmente ter gostado desses novos livros sobre o ateísmo. Eu aprendi muito sobre ateus e crentes com Jürgen Habermas, possivelmente o ateu mais conhecido da Europa. Habermas escreve sobre os crentes com respeito e como parceiros num importante diálogo. Uma respeitosa consideração pela dignidade mútua é, sustenta Habermas, essencial para a prática da racionalidade entre os seres humanos. Recentemente, tive a honra de uma longa troca de idéias com um ateu americano muito inteligente, Heather Mac Donald, cuja condução foi muito prazerosa, pois o debate transcorreu com consideração mútua, paciência e sinceridade de ambos os lados.
Infelizmente, é extremamente difícil conseguir esse mesmo nível de diálogo com Harris, Dennett e Dawkins. Todos eles pensam que a religião é uma ameaça tão grande que não há muita disposição para se conversar. A bandeira de guerra que eles estendem ao vento é o “Ecrazez l’infâme!” de Voltaire. Ao mesmo tempo, todos os três pretendem nos convencer que os ateus “questionam tudo” e “submetem tudo a uma incansável, quase tediosa, autocrítica”. Contudo, nesses livros não há sequer uma sombra de evidência de que os autores tiveram, alguma vez, qualquer dúvida sobre a correção de seu próprio ateísmo. Autoquestionamento sobre suas próprias indiferenças acadêmicas aos seus temas; sobre as brutalidades horríveis cometidas em nome do “ateísmo científico” durante o século XX; sobre as incansáveis e mercuriais insatisfações nos movimentos ateus e seculares, durante os últimos cem anos; e sobre a fraqueza demográfica do ateísmo – todas essas questões estão notavelmente ausentes. Além do mais, apesar de um zeitgeist ateísta dominar os campi universitários americanos, ele não se mostrou persuasivo para um imenso número de estudantes, que tampa os narizes e apenas o suporta. Por que o ateísmo seduz tão poucos? Nossos autores nunca fazem essa pergunta.
Eu, particularmente, queria ter gostado do livro de Richard Dawkins. Tinha ouvido dizer que ele é muito culto e articulado e que ele escreve com a melodia e a espirituosidade de um elegante estilista literário. Seus fãs o apresentam como um modelo do homem razoável. Dawkins, também, apresenta expressamente a si mesmo e a outros ateus como “brilhantes”, distinguíveis pela “saúde” e “vigor” mental. Pobres crentes – ele abertamente lamenta – são, contrariamente, prisioneiros de uma ilusão, acomodados, mentalmente mortos. Ele não faz sequer um gesto no sentido querer aprender algo com eles.
Na realidade, os registros disponíveis sobre Dawkins apontam uma situação ainda pior. Ele apresentou, num canal de televisão inglês, um programa chamado “A raiz de todo o mal?”[1] Apesar de ter, agora, escrito que ele discorda do título que os produtores deram ao programa, ele o aceitou quando da exibição do mesmo. O que ele pede às pessoas religiosas é que: “Imagine, com John Lennon, um mundo sem religião”. Muito da violência e distorção na vida humana não desapareceriam, então? Bem, isso teria sido muito original, se essa visão já não fosse convencional na Inglaterra. Propagado tanto por pop stars e quanto por cientistas, essa visão é, segundo uma pesquisa recente, compartilhada por 70 por cento da população inglesa.
Por todo o Ocidente, parece que nem pop stars nem cientistas consideram, sequer por um momento, a experiência religiosa contemporânea à luz de seus mais heróicos praticantes. Por exemplo, nunca antes tantas pessoas que professam a fé bíblica foram jogadas em campos de concentração, torturadas e assassinadas, como têm acontecido, agora, sob regimes políticos autoproclamados ateus. Teria sido maravilhoso se qualquer um de nossos autores tivesse comparado sua visão da religião com a fé bíblica, conseguida a duras penas, do ex-ateu e cientista Anatoly Sharansky, que cumpriu pena de nove anos num gulag soviético por defender os direitos de cidadãos soviéticos de origem judaica. Sharansky escreveu o registro de seu sofrimento numa brilhante autobiografia, Fear No Evil. Penso nunca ter lido nada sobre um homem com maior coragem moral, determinado a viver como um homem livre, demonstrando corajosamente nada mais que repulsa moral aos agentes da KGB, sob cujo poder total ele tinha de viver. Sharansky viveu, corajosa e temerariamente, dia após dia, privado de alimentação suficiente, privado da visão do azul céu e do banho de sol. Ele foi punido de inumeráveis formas, sob um tipo de condicionamento skinneriano, projetado para “corrigir” seu comportamento e isso continuou ano após ano, na tentativa de esgotar suas resistências, evitando que ele recebesse os mais triviais agrados, atormentando sua alma pelo isolamento e pela falta de apoio humano.
Ironicamente, contudo, suas experiências na prisão levaram Sharansky a dimensões da razão que excedia em muito qualquer coisa que ele tinha encontrado em sua prática científica anterior. Para sobreviver, ele precisava de se abrir, muito mais do que a ciência o tinha ensinado, ao aprendizado. Ele era solicitado a assinar certas inverdades: “Quem saberá sobre isso depois? Que diferença isso fará? É uma coisa tão pequena e que trará coisas tão melhores para você e para todos nós que terá sido pelo bem comum.” Um dos colegas de Sharansky, uma alma nobre, se iludiu em pensar que seria melhor mentir sobre pequenas coisas se, ao final, ele pudesse ser libertado mais cedo e levar a mensagem sobre direitos humanos para fora do gulag. Sharansky observou outros homens tentando manter seus espíritos fortalecidos pela esperança – esperança por tratamento melhor, esperança por uma libertação mais rápida, que, então, repentinamente ficaram tão enfraquecidos por falsas esperanças que não conseguiam mais resistir à cumplicidade. Sharansky descobriu que ele precisava de uma fonte de discernimento mais profunda do que tudo o que ele tinha conhecido previamente.
Naqueles dias, o amor de sua amada e corajosa esposa, amigos e outros dissidentes, vinham visitá-lo em sua cela através de raras cartas e mensagens. Mas tais mensagens poderiam tê-lo enfraquecido e traído. Em seus tormentos d’alma, ele encontrou uma grande companhia no Rei David de muitos séculos atrás, quando uma edição, em hebreu, dos Salmos caiu em suas mãos. O realismo de David calou fundo em seu coração e fortificou enormemente suas defesas. Ele aprendeu a força de pertencer a uma comunidade – sua comunidade – em compartilhar rituais tradicionais, encontrando sustentação nos sofrimentos, lutas e sabedoria de seus ancestrais. Inconscientemente, um de seus colegas de cela (que poderia estar trabalhando para a KGB) deu a Sharansky outra lição sobre a “interconexão das almas”. Um dos maiores heróis científicos de Sharansky era Galileu. Ao dizer a Sharansky sobre como outros prisioneiros tinham feito “a vida mais fácil para todo mundo” por simplesmente assinarem inofensivos papéis a que ninguém, no mundo lá fora, teria acesso, seu colega de cela mencionou como, mesmo Galileu, tinha sido persuadido a assinar afirmações sobre seus próprios erros, somente para se livrar de toda aquela confusão. As palavras de seu colega de cela caíram como um raio na mente de Sharansky, causando a vívida consciência da interconexão de todas as almas através da história – aqueles que permanecem leais à verdade e aqueles que a traem. A traição de Galileu, ocorrida há quatrocentos anos atrás, estava agora sendo usada para seduzir Sharansky, da mesma forma que toda a rendição espiritual de outros indivíduos no gulag era usada para não deixá-lo esquecer de que a resistência era inútil a longo prazo. Naquele raio, Sharansky viu o poder da verdade interior ao longo dos séculos, aquele tipo de cinturão eletrônico de fidelidade que mantém unidas todas as regiões todo o tempo, em tantos quantos forem os corações que permanecem leais à verdade. Sharansky quis renascer como membro daquela comunidade e mudou seu nome para Natan, indicando a comunidade bíblica com a qual ele queria ser identificado a partir de então.
Sharansky se tornou, ainda no gulag, um judeu progressivamente mais praticante, forçando mesmo, numa cena cômica, seu supervisor a acender com ele o menorah. Sharansky escreve muito pouco sobre Deus diretamente, mas está acima de qualquer dúvida que ele tenha visto algo profundamente deficiente em seus hábitos mentais científicos anteriores. Ele também se envergonhou de sua posição anterior de agnosticismo e de seu desdém em relação à “religião organizada”. A comunidade que preservou os Salmos do Rei David por tantos séculos ofereceu à sua alma companhia e o “recarregou” para que ele resistisse, num momento crucial de seu longo confinamento.
Foi, então, um enorme desapontamento descobrir que Dennett, Harris e especialmente Dawkins não prestam a mínima atenção às experiências reais de conversão e às narrativas de fidelidade, que são tão comuns na “literatura de prisão” de nosso século. Ademais, nenhum deles põe suas fracas, confusas e insondadas idéias sobre Deus sob escrutínio. O hábito natural de suas mentes é antropomórfico. Eles tendem a pensar em Deus como se ele fosse um ser humano, submetido às limitações humanas. Eles são quase tão literais em suas leituras da Bíblia quanto aqueles personagens ignorantes da Geórgia rural de Flannery O’Connor. Eles se deleitam em descobrir contradições e impossibilidades em suas leituras literais, mas toda força do ridículo que eles querem mostrar depende do equívoco da leitura literal das passagens bíblicas mencionadas, que são ora alegóricas, ora metafóricas, ora poéticas, ora prenhe de múltiplos significados, para a nutrição de uma alma sob tensão. A Bíblia quase nunca pretende ser ciência ou mesmo história estritamente literal.
Nossos três autores se orgulham de como as ciências avançam ao longo do tempo e, também, em como o pensamento moral tem se tornado, de certa forma, mais profundo e mais exigente. Eles não dão nenhuma atenção às formas por meio das quais o entendimento religioso também cresce, se desenvolve e evolui. Eles parecem ignorar completamente o pequeno, mas brilhante, ensaio de John Henry Newman, Essay on the Development of Christian Doctrine. Eles parecem desconhecer que a fé bíblica tem estado, desde seu início, em constante – e mutuamente enriquecedor – diálogo com a inteligência cética e secular. Pode-se identificar o progresso do entendimento religioso nos próprios textos bíblicos, de uma era a outra, e os próprios autores da Escritura chamam nossa atenção quanto a isso.
Nossos três autores, ao que parece, se tornam um pouco cegos por sua própria repugnância à religião. Mesmo seus bons amigos, Dawkins escreve, lhe perguntam porque ele é tão “hostil” às pessoas religiosas. Por que você, eles dizem, uma pessoa tão inteligente, não apresenta, calma e serenamente, seus argumentos devastadores contra os crentes? A resposta de Dawkins a seus amigos é direta: “Sou hostil à religião fundamentalista porque ela debocha do empreendimento científico ... A religião fundamentalista tem, resolutamente, arruinado a educação científica de incontáveis inocentes, ansiosos e bem intencionados jovens. A religião não fundamentalista, que age com bom-senso, pode não estar fazendo isso. Mas está favorecendo o fundamentalismo por ensinar às crianças, desde a mais tenra idade, que a fé cega é uma virtude.” Dawkins recusa-se a ser parte da “conspiração” pública de respeito à religião, quando ela merece desdém.
Contudo, sua alegação sobre a fé “cega” parece um pouco estranha. Alguns de nós pensamos que a origem da religião está no impulso humano ilimitado de fazer perguntas – que é nossa experiência fundamental do infinito. Qualquer coisa finita que encontramos pode ser questionada, e parece, ao final, insatisfatória. Aquela experiência do infinito é a que impulsiona a mente e a alma e as fornece o primeiro antegozo do que está além do tempo e do espaço. “Nossos corações estão inquietos, Senhor”, lembrou Santo Agostinho, com muita ressonância em milhões e milhões de mentes através da história humana desde sempre. “Fé cega”? Os escritos dos pensadores medievais registram questão após questão, disputatio após disputatio, e os resultados reais na história dependiam da resolução de cada uma delas.[2] Muitas das questões surgiram dos advogados, filósofos e outros indivíduos nas universidades medievais que eram céticos e incréus; outras surgiram dos estudiosos árabes cujos trabalhos tinham chegado recentemente às universidades ocidentais; e ainda outras vinham de Maimônides e de acadêmicos judeus; e um grande número delas vinha dos grandes pensadores pagãos de cada um dos séculos anteriores. Questões têm sido o coração e a alma do judaísmo e do cristianismo por milênios.
Naturalmente, Dawkins pelo menos pensa que há algumas pessoas religiosas que podem ser convertidas ao ateísmo por meio de seus argumentos. Ele as descreve como pessoas de “mente aberta, cuja doutrinação infantil não foi tão insidiosa ou que não foi ‘engolida’ por ter encontrado uma robusta inteligência, ou por alguma outra razão.” Dawkins apresenta a tais crentes um ultimatum: ou se juntem a ele e “se livrem do vício da religião completamente”, ou permaneçam entre os tipos mais intolerantes que são incapazes de superar a “ilusão de deus”.
Na quinta página de seu livro, Dawkins descreve suas esperanças: “Se este livro atingir seu objetivo pretendido, os leitores religiosos que o abrirem serão ateus ao fecharem-no.” Surpreendeu-me que Dawkins seja capaz de tais proselitismos. Mais que tudo, o que me surpreendeu é que, apesar de os três autores escreverem como se a ciência fosse o princípio e o fim de todo discurso racional, seus três livros não são, de forma alguma, científicos. Ao contrário, eles são exemplos de dialética – argumentos a partir de um ponto de vista, ou horizonte, direcionados aos seres humanos que compartilham pontos de vista diferentes. Certamente, um das mais nobres tarefas da razão é entrar, respeitosamente, em discussão com os outros, cuja visão da realidade é dramaticamente diferente de sua própria, a fim de que ambas as partes possam aprender com a troca de idéias, e alcançar um respeito mútuo mais profundo. Nossos autores usam a dialética, não a ciência, mas de uma forma que dificilmente pode ser descrita como respeitosa para com aqueles com que eles pretendem discutir. Como diz Dawkins: “É claro que os crentes radicais são imunes aos argumentos, sua resistência cresceu por anos de doutrinação na infância ... Dentre os mais efetivos procedimentos imunológicos está a terrível advertência para se evitar até abrir um livro como este, que é, certamente, um trabalho de Satã.” Aqui, claro, Dawkins se cobre de lisonja. O demônio teria sido muito mais insidioso.
O que mais me surpreende no livro de Dawkins, contudo, é sua atitude defensiva. Ele descreve os ateus, particularmente nos EUA, como sofrendo de solidão, desrespeito público, isolamento espiritual e baixa auto-estima. Em uma passagem ele menciona uma carta a ele dirigida por uma jovem cristã, estudante de Medicina, que recentemente tinha se tornado atéia. Uma estudante de Medicina? Certamente, muitos médicos e estudantes de Medicina no seu entorno são ateus. No entanto, a estudante escreve: “Eu não quero compartilhar minha crença com outras pessoas que me são próximas porque temo a .. reação de desgosto. ... Apenas escrevo a você porque espero sua simpatia para com minha frustação.” Num apêndice, que Dawkins generosamente adiciona para tais almas desfavorecidas, ele apresenta uma lista de organizações em que ateus solitários podem encontrar companhia e consolo. Ele devota não poucas páginas para levantar a moral de sua comunidade – falando sobre o quão numerosos eles são, o quanto eles são inteligentes e o quanto seus antagonistas são fastidiosos, em comparação.
[1] Ver comentários de Roger Scruton sobre este programa em “Dawkins está errado”. (N. do T.)
[2] Sobre as discussões medievais e suas terríveis conseqüências atuais, ver “A dissolução do Ocidente: uma introdução”. (N. do T.)
05/03/2007
Um pouco mais sobre a Teologia da Embromação – entra em cena São Francisco de Sales
Não faz muito tempo, escrevi um texto para o MSM intitulado “Antídotos contra a Teologia da Libertação” que constava de uma nota introdutória e de dois textos: um de Luis Pazos e outro de Russel Kirk. Ambos falam sobre o conceito de pobreza que aparece nas bem-aventuranças: “Bem-aventurados os pobres de espírito ...”. Ambos demonstram cabalmente a falácia da Teologia da Libertação.
O então Cardeal Ratzinger escreveu no prefácio da reedição de 2000 do seu “Introdução ao Cristianismo” que “Durante mais de uma década, a teologia da libertação parecia indicar a nova direção na qual a fé haveria de tornar-se novamente formadores do mundo porque se unia de uma nova maneira com as descobertas e injunções do momento histórico. (...) Parecia então ser Marx o grande guia. Cabia agora a ele o papel que, no século XIII, tinha sido de Aristóteles; a sua filosofia pré-cristã (e portanto ‘pagã’) precisou ser batizada para que a fé e a razão pudessem encontrar a sua relação correta. Mas quem aceita Marx (em qualquer uma das variantes neomarxistas) como o representante de uma razão universal não adota simplesmente uma filosofai, uma visão da origem e do sentido da existência, assume sobretudo uma prática [negrito meu]. (...) Quem faz de Marx o filósofo da teologia aceita a primazia dos elementos político e econômico que passam a ser as verdadeiras forças da salvação. (...) O que ficou foi a figura de Jesus, só que este já não era visto como o Cristo e sim como a personificação dos sofredores e oprimidos e como a voz deles que clama por mudança, pela grande modificação.”
Assim, Jesus veio salvar os pobres econômicos e os oprimidos sociais por meio de um marxismo pré-Marx. É portanto fundamental que os pobres de espírito sejam mesmo os pobres econômicos e assim essa distorção monstruosa começou a ser propagada pelos defensores da TL em todas as paróquias, em todos os textos por eles escritos e até em comentários de textos sagrados (Ver “Exegese de uma Exegese Bíblica”).
Ocorre que há uma tradição antiqüíssima de comentários de santos e filósofos cristãos sobre as bem-aventuranças e sobre o conceito de “pobres de espírito” não paira a menor dúvida. Vou apresentar a seguir o comentário de São Francisco de Sales (1567-1622) sobre esse assunto. É o capítulo XIV da parte III do livro “Filotéia: uma introdução à vida devota”.
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Capítulo XIV
O espírito de pobreza unido à posse de riquezas
Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. Malditos, pois, são os ricos de espírito, porque deles é a miséria do inferno. Rico de espírito é todo aquele que tem o espírito em suas riquezas ou a idéia das riquezas em seu espírito; pobre de espírito é todo aquele que nenhuma riqueza tem em seu espírito nem tem o seu espírito nas riquezas. Os alciões fabricam seus ninhos dum modo admirável; a sua forma é semelhante a uma maçã, apenas com uma pequena abertura em cima; colocam-nos à beira do mar e tão firmes e impenetráveis são que, subindo as vagas à praia, nenhuma gota d’água pode entrar, porque se conservam boiando e flutuando com as ondas; permanecem no meio do mar, sobre o mar e senhores do mar. Eis aí a imagem do teu coração, Filotéia, que deve estar sempre aberto para o céu e ser impenetrável ao amor dos bens deste mundo. Se és rica, conserva teu coração desapegado de tuas riquezas, elevando-te sempre acima delas, de sorte que, no meio das riquezas, estejas nas riquezas e sejas senhora das riquezas. Não, não permitas que esse espírito celeste se encha dos bens terrestres; mas esforça-te por estar superior a todos os seus atrativos e a te elevares sempre mais par ao céu.
Grande diferença há entre ter o veneno e ser envenenado. Quase todos os farmacêuticos possuem muitos venenos para diversos usos de seu ofício, mas não se pode dizer que estejam envenenados porque têm o veneno em suas farmácias. Assim também podes possuir riquezas sem que o seu veneno natural penetre até tua alma, contanto que as tenhas só em tua casa ou em tua bolsa, e não no coração. Ser rico de fato e pobre no afeto é a grande ventura dos cristãos, porque ao mesmo tempo têm as comodidades das riquezas para esta vida e os merecimentos da pobreza para a outra. Ah! Filotéia, ninguém confessa que é avarento, todos aborrecem esta vileza do coração. Escusam-se pelo número crescido de filhos, alegando regras de prudência, que exigem um fundo firme e suficiente. Nucas se têm bens demais e sempre se acham novas necessidades para ajuntar ainda mais. O mais avarento nunca crê em sua consciência que o é. A avareza é uma febre esquisita, que tanto mais se mostra imperceptível quanto mais violenta e ardente se torna. Moisés viu uma sarça ardendo em um fogo do céu, sem se consumir; o fogo da avareza, ao contrário, devora e consome o avarento, sem o queimar; ao menos, ele não lhe sente os ardores e a alteração violenta que lhe causa parece-lhe uma sede natural e suave.
Se desejas com ardor e inquietação e por muito tempo os bens que não possuis, crê-me que és avarenta, embora digas que o não queres possuir injustamente; do mesmo modo que um doente que deseja beber um pouco d’água com ardor, inquietação e por muito tempo, está mostrando com isso que tem febre, embora só queira beber água.
Não sei, Filotéia, se é um desejo justo o de adquirir justamente o que outros justamente possuem; parece-me que, agindo deste modo, procuramos a nossa comodidade à custa do incômodo de outrem. Quem possui um bem com pleno direito, não terá mais razão de o conservar justamente do que nós de o desejar justamente? Por que motivo, pois, estendemos nós o nosso desejo sobre a sua comodidade, para o privar dela? Mesmo que este desejo fosse justo, caridoso não seria de modo algum, nem nós quereríamos que outros o tivessem a nosso respeito. Este foi o pecado de Acab, que quis obter por meios justos a vinha de Nobot, o qual a queria conservar com maior direito. Este rei a desejou por muito tempo e com muito ardor e inquietação e com isso ofendeu a Deus.
Quando o próximo desejar desfazer-se de um bem, então é tempo, Filotéia, de começar a desejar obtê-lo; o seu desejo fará o teu justo e caridoso. Sim, nada tenho que dizer em contrário, se te esforças por aumentar os teus bens com uma tal caridade e justiça.
Se amas os bens que possuis, se eles ocupam teu pensamento com ansiedade, se teu espírito anda sempre aí de envolta, se teu coração se apega a eles, se sentes um medo muito vivo e inquieto de perdê-los, crê-me que ainda estás com febre e o fogo da avareza ainda não está extinto em ti; pois as pessoas que estão com febre bebem com uma certa avidez, pressa e sofreguidão a água que se lhes dá, o que não é natural nem ordinário nas pessoas sãs; e não é possível agradar-se muito de uma coisa sem se apegar a ele. Se na perda dum bem sentes o coração aflito e desolado, crê-me, Filotéia, patenteia tão claramente o apego que se tinha a uma coisa perdida, como entristecer-se pela perda.
Nunca fomentes um desejo completo e voluntário por uma coisa que não possuis; não pren das o coração em bem algum teu; não te entristeças nunca das perdas que sobrevierem; então, sim terás um motivo razoável de pensar quem, sendo rica, de fato és, entretanto, pobre de espírito e, por conseguinte, do número dos escolhidos, porque o reino dos céus te pertence.
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O então Cardeal Ratzinger escreveu no prefácio da reedição de 2000 do seu “Introdução ao Cristianismo” que “Durante mais de uma década, a teologia da libertação parecia indicar a nova direção na qual a fé haveria de tornar-se novamente formadores do mundo porque se unia de uma nova maneira com as descobertas e injunções do momento histórico. (...) Parecia então ser Marx o grande guia. Cabia agora a ele o papel que, no século XIII, tinha sido de Aristóteles; a sua filosofia pré-cristã (e portanto ‘pagã’) precisou ser batizada para que a fé e a razão pudessem encontrar a sua relação correta. Mas quem aceita Marx (em qualquer uma das variantes neomarxistas) como o representante de uma razão universal não adota simplesmente uma filosofai, uma visão da origem e do sentido da existência, assume sobretudo uma prática [negrito meu]. (...) Quem faz de Marx o filósofo da teologia aceita a primazia dos elementos político e econômico que passam a ser as verdadeiras forças da salvação. (...) O que ficou foi a figura de Jesus, só que este já não era visto como o Cristo e sim como a personificação dos sofredores e oprimidos e como a voz deles que clama por mudança, pela grande modificação.”
Assim, Jesus veio salvar os pobres econômicos e os oprimidos sociais por meio de um marxismo pré-Marx. É portanto fundamental que os pobres de espírito sejam mesmo os pobres econômicos e assim essa distorção monstruosa começou a ser propagada pelos defensores da TL em todas as paróquias, em todos os textos por eles escritos e até em comentários de textos sagrados (Ver “Exegese de uma Exegese Bíblica”).
Ocorre que há uma tradição antiqüíssima de comentários de santos e filósofos cristãos sobre as bem-aventuranças e sobre o conceito de “pobres de espírito” não paira a menor dúvida. Vou apresentar a seguir o comentário de São Francisco de Sales (1567-1622) sobre esse assunto. É o capítulo XIV da parte III do livro “Filotéia: uma introdução à vida devota”.
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Capítulo XIV
O espírito de pobreza unido à posse de riquezas
Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. Malditos, pois, são os ricos de espírito, porque deles é a miséria do inferno. Rico de espírito é todo aquele que tem o espírito em suas riquezas ou a idéia das riquezas em seu espírito; pobre de espírito é todo aquele que nenhuma riqueza tem em seu espírito nem tem o seu espírito nas riquezas. Os alciões fabricam seus ninhos dum modo admirável; a sua forma é semelhante a uma maçã, apenas com uma pequena abertura em cima; colocam-nos à beira do mar e tão firmes e impenetráveis são que, subindo as vagas à praia, nenhuma gota d’água pode entrar, porque se conservam boiando e flutuando com as ondas; permanecem no meio do mar, sobre o mar e senhores do mar. Eis aí a imagem do teu coração, Filotéia, que deve estar sempre aberto para o céu e ser impenetrável ao amor dos bens deste mundo. Se és rica, conserva teu coração desapegado de tuas riquezas, elevando-te sempre acima delas, de sorte que, no meio das riquezas, estejas nas riquezas e sejas senhora das riquezas. Não, não permitas que esse espírito celeste se encha dos bens terrestres; mas esforça-te por estar superior a todos os seus atrativos e a te elevares sempre mais par ao céu.
Grande diferença há entre ter o veneno e ser envenenado. Quase todos os farmacêuticos possuem muitos venenos para diversos usos de seu ofício, mas não se pode dizer que estejam envenenados porque têm o veneno em suas farmácias. Assim também podes possuir riquezas sem que o seu veneno natural penetre até tua alma, contanto que as tenhas só em tua casa ou em tua bolsa, e não no coração. Ser rico de fato e pobre no afeto é a grande ventura dos cristãos, porque ao mesmo tempo têm as comodidades das riquezas para esta vida e os merecimentos da pobreza para a outra. Ah! Filotéia, ninguém confessa que é avarento, todos aborrecem esta vileza do coração. Escusam-se pelo número crescido de filhos, alegando regras de prudência, que exigem um fundo firme e suficiente. Nucas se têm bens demais e sempre se acham novas necessidades para ajuntar ainda mais. O mais avarento nunca crê em sua consciência que o é. A avareza é uma febre esquisita, que tanto mais se mostra imperceptível quanto mais violenta e ardente se torna. Moisés viu uma sarça ardendo em um fogo do céu, sem se consumir; o fogo da avareza, ao contrário, devora e consome o avarento, sem o queimar; ao menos, ele não lhe sente os ardores e a alteração violenta que lhe causa parece-lhe uma sede natural e suave.
Se desejas com ardor e inquietação e por muito tempo os bens que não possuis, crê-me que és avarenta, embora digas que o não queres possuir injustamente; do mesmo modo que um doente que deseja beber um pouco d’água com ardor, inquietação e por muito tempo, está mostrando com isso que tem febre, embora só queira beber água.
Não sei, Filotéia, se é um desejo justo o de adquirir justamente o que outros justamente possuem; parece-me que, agindo deste modo, procuramos a nossa comodidade à custa do incômodo de outrem. Quem possui um bem com pleno direito, não terá mais razão de o conservar justamente do que nós de o desejar justamente? Por que motivo, pois, estendemos nós o nosso desejo sobre a sua comodidade, para o privar dela? Mesmo que este desejo fosse justo, caridoso não seria de modo algum, nem nós quereríamos que outros o tivessem a nosso respeito. Este foi o pecado de Acab, que quis obter por meios justos a vinha de Nobot, o qual a queria conservar com maior direito. Este rei a desejou por muito tempo e com muito ardor e inquietação e com isso ofendeu a Deus.
Quando o próximo desejar desfazer-se de um bem, então é tempo, Filotéia, de começar a desejar obtê-lo; o seu desejo fará o teu justo e caridoso. Sim, nada tenho que dizer em contrário, se te esforças por aumentar os teus bens com uma tal caridade e justiça.
Se amas os bens que possuis, se eles ocupam teu pensamento com ansiedade, se teu espírito anda sempre aí de envolta, se teu coração se apega a eles, se sentes um medo muito vivo e inquieto de perdê-los, crê-me que ainda estás com febre e o fogo da avareza ainda não está extinto em ti; pois as pessoas que estão com febre bebem com uma certa avidez, pressa e sofreguidão a água que se lhes dá, o que não é natural nem ordinário nas pessoas sãs; e não é possível agradar-se muito de uma coisa sem se apegar a ele. Se na perda dum bem sentes o coração aflito e desolado, crê-me, Filotéia, patenteia tão claramente o apego que se tinha a uma coisa perdida, como entristecer-se pela perda.
Nunca fomentes um desejo completo e voluntário por uma coisa que não possuis; não pren das o coração em bem algum teu; não te entristeças nunca das perdas que sobrevierem; então, sim terás um motivo razoável de pensar quem, sendo rica, de fato és, entretanto, pobre de espírito e, por conseguinte, do número dos escolhidos, porque o reino dos céus te pertence.
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