domingo, março 18, 2007

Ateus solitários da Aldeia Global - Parte II

Michael Novak



CONSTRUINDO UMA CULTURA DA RAZÃO


Não tenho dúvidas de que os cristãos têm feito muitos males e escrito algumas páginas vergonhosas da história humana. Mesmo assim, num balanço justo do que o judaísmo e o cristianismo adicionaram às culturas pagãs da Grécia, de Roma, das nações Árabes pré-Maomé, da Alemanha, das tribos francas e célticas, dos Vikings e dos Anglo-saxões, é surpreendente que não se encontre um só agradecimento de Dawkins por inovações tais como: hospitais, orfanatos, escolas eclesiais dos primeiros séculos, universidade um pouco mais tarde, alguns dos mais belos trabalhos artísticos – na música, arquitetura, pintura e poesia – do patrimônio humano.

E por que ele omite o árduo trabalho de reflexão sobre conceitos tais como “pessoa”, “comunidade”, “civitas”, “consentimento”, “tirania” e “governo limitado” (“Daí a César o que é de César ,,,”) que tornaram possíveis grandes documentos como, por exemplo, a Magna Carta? Suas poucas páginas sobre a fundação e a manutenção de sua amada Oxford por seus primeiros patronos Católicos são de uma ingratidão escarnecedora. E se Oxford o desaponta, será que ele não é grato pela construção e implantação de virtualmente todas as famosas universidades da Europa (e das Américas)?

Dawkins nada escreve sobre as grandes comunidades religiosas fundadas com o expresso propósito de construir escolas para a educação livre dos pobres. Nada a respeito de milhares de vidas monásticas dedicadas ao delicado e exaustivo trabalho de cópia à mão dos grandes manuscritos do passado – freqüentemente com o generoso amor manifestado nas iluminuras – durante longos séculos em que as prensas ainda não existiam. Nada sobre a fundação da biblioteca do Vaticano e sua importância na gênesis de quase uma dúzia de ciências modernas. Nada sobre os homens cultos, padres e crentes, que contribuíram tanto para cruciais descobrimentos em ciência, medicina e tecnologia. Uma ou duas palavras de elogio sobre tais fatos teria feito a cansativa lista de acusações de Dawkins parecer menos injusta.

Não pretendo exagerar. Houve e há elementos tóxicos na religião que sempre demanda restrição do Logos ao qual o cristianismo, desde o início, associou a tradição bíblica: “No início era o Logos ...” (João, 1:1). Mesmo assim, qualquer análise justa do impacto do judaísmo e do cristianismo na história mundial tem uma enorme quantidade de coisas positivas para adicionar na contabilidade geral. Dentre os meus textos preferidos durante muitos anos, estão, por exemplo, certas passagens de Science and the Modern World e Adventures of Ideas, de Alfred North Whitehead. Nessas passagens, Whitehead enfatiza que as práticas da ciência moderna são inconcebíveis sem os milhares de anos da crença judaico-cristã de que o Criador de todas as coisas compreendia todas as coisas, em suas leis gerais e nas suas disposições particulares e contingentes. Essa convicção, escreve Whitehead, fez com que grandes e disciplinados esforços da razão fossem aplicados na hercúlea tarefa do entendimento de que todas as coisas parecem razoáveis. Se todas as coisas são inteligíveis ao seu Criador, elas devem ser inteligíveis àqueles feitos à Sua imagem, que, em imitação a Ele, dão continuidade à vocação humana de tentar entender tudo que Ele fez.

Ademais, o judaísmo e o cristianismo inculcaram em culturas inteiras hábitos morais e intelectuais específicos, articulando-os com os ensinamentos das antigas tradições clássicas, sem o que as ciências modernas não possuiriam os requisitos morais básicos – honestidade, trabalho duro, perseverança face às dificuldades, respeito pelas descobertas inspiradas e repentinos insights, uma determinação para testar qualquer hipótese razoável. O que seria da ciência moderna sem a crença na inteligibilidade de todas as coisas, mesmo os eventos únicos, não-repetíveis e contingentes, e sem os hábitos, pertencentes à quase todas as culturas, de honestidade, rigor intelectual e perseverante inquirição? Whitehead nos alerta a respeito dessa maravilhosa dívida muitas vezes, muito mais generosamente que Dawkins. Em Science and Modern World (1925), ele escreve: “Minha explicação é que a fé na possibilidade da ciência, nascida anteriormente ao desenvolvimento da teoria científica moderna, é uma derivação inconsciente da teologia medieval.”

O caminho da ciência moderna foi aplainado por profundas convicções de que todo mínimo elemento no mundo da experiência humana – do número de cabelos de nossa cabeça ao solitário lírio no prado – é completamente conhecido pelo seu Criador e, portanto, pertence ao campo da inteligibilidade, de conexões mútuas, e de lógicas múltiplas. Todos os estranhos e angulares níveis de realidade, são penetráveis pela mente humana, desde que sejam despendidos esforços árduos, disciplinados e cooperativos. Se os seres humanos são feitos à imagem de seu Criador, como os primeiros capítulos do livro de Gênesis insistem que são, certamente estão dentro de suas capacidades questionar, ganhar compreensão e avançar o entendimento das obras de Deus. Na grande imagem pintada por Miguelangelo no teto da Capela Sistina – o toque de dedos entre o Criador e Adão – a nuvem cor-de-malva por trás da cabeça do Criador é pintada na forma de um cérebro humano. Imago Dei, de fato.

Tivesse o professor Dawkins feito mesmo um semi-sério arremedo de justiça, eu teria dado muito mais atenção às suas críticas sobre os povos cristãos. Ainda assim, algumas de suas críticas de feitos e modos de pensar cristãos particulares têm sentido. O cristianismo não removeu dos seres humanos toda a capacidade de pecar e o fato de ser cristão não exime a pessoa de cometer atos horrorosos e pecaminosos dos quais a história está cheia de repugnantes exemplos. Pecado, irracionalidade, traição – aos judeus e cristãos nada humano é estranho.

Eu gostaria de poder afirmar que Daniel C. Dennett e Sam Harris são mais abertos e respeitosos que Dawkins; mas seus livros também são decepcionantes. A carta que Harris alega pretender endereçar à nação cristã é, de fato, totalmente desinteressada do cristianismo em qualquer nível, é enormemente ignorante e essencialmente representa sua própria declaração de amor a si mesmo, por causa de sua superioridade em relação aos cidadãos em cujo meio ele vive. O conceito de razão e de ciência de Dennett é tão estreito que ele parece preso a algo como os primórdios de A.J. Ayer. Esperemos que alguma alma corajosa e caridosa, um dia, pegue em sua mão e o leve para fora da caverna onde ele se encontra. Sua tese principal, de que a religião é um “fenômeno natural,” já era gagá no tempo em que Santo Agostinho estava discernindo as novidades que o cristianismo tinha introduzido na religião romana. Mas, claro, a idéia de Dennett de “natural” não é ampla o suficiente para compreender nem a fidelidade heróica de Natan Sharansky, nem o poder eterno e libertador dos pungentes Salmos do Rei David.

Levanto tudo isso em conta, me ocorre que a única forma de prosseguir é descrever, de um lado, a forma com que as mentes jovens e questionadoras são repelidas, nas universidade americanas, pelo ateísmo que é a lingua franca em quase todas as salas-de-aula e discussões acadêmicas, e, de outro lado, fazer uma breve confissão exatamente daquele cristianismo que Dennett, Harris e Dawkins consideram desagradável, mal, perigoso e odioso. Apesar do desrespeito deles, o cristianismo consegue ser, de alguma forma, altamente atrativo a aproximadamente um terço da humanidade (um pouco mais de dois bilhões de pessoas), e é, ainda hoje, a religião que mais cresce dentre todas as outras. É importante explicar a atração antes de discutir suas objeções específicas.



Ver Ateus solitário da Aldeia Global - Parte I

4 comentários:

Anônimo disse...

Professor,

O senhor já leu algo deste Whitehead citado no texto ?

Abçs, Alexandre

Antonio Emilio Angueth de Araujo disse...

Caro Alexandre,

Whitehead foi um grande matemático inglês que, dentre outras coisas, junto a Bertrand Russel, tentou formular uma fundamentação axiomática sobre a qual se poderia construir todo o edifício matemático conhecido.

Esse projeto foi implodido por Kurt Gödel, que provou que nenhum número finito de axiomas poderia servir de base segura para provar todos os resultados da matemática.

Um registro muito divertido, mas muito realista de toda essa história, é um livro intitulado "Tio Petros e a Conjectura de Goldbach" de Apostolos Dixiadis, da Editora 34.

Um abraço. Antônio Emílio.

Pedro disse...

"Na quinta página de seu livro, Dawkins descreve suas esperanças: “Se este livro atingir seu objetivo pretendido, os leitores religiosos que o abrirem serão ateus ao fecharem-no.” Surpreendeu-me que Dawkins seja capaz de tais proselitismos. Mais que tudo, o que me surpreendeu é que, apesar de os três autores escreverem como se a ciência fosse o princípio e o fim de todo discurso racional, seus três livros não são, de forma alguma, científicos. Ao contrário, eles são exemplos de dialética – argumentos a partir de um ponto de vista, ou horizonte, direcionados aos seres humanos que compartilham pontos de vista diferentes. "


"Maior ainda do que sua confiança cega em Voltaire, porém, era a fé que ele mostrava ter nos seus próprios poderes persuasivos. Seu artigo – advertia ele nas primeiras linhas – seria tão devastador, tão fulminante, que ninguém decidido a conservar sua devoção religiosa deveria lê-lo. O risco era grande demais, praticamente inevitável a rendição dos crentes ante as luzes de Constantino-Voltaire. Era tiro e queda: ler e perder a fé. "


Acho que há um grande defensor da razão científica que influenciou Rodrigo Constantino mais do que Karl Popper...

PS:Bertrand Russel, que dizia valorizar a coerência lógica, começou pedindo bombardeios à URSS e terminou comunista. Além disso, suas críticas fulminantes e irrespondíveis ao casamento, divórcio, sexo e toda a moral fundamentada na religião o tornaram famoso. Whitehead também tratou de outros temas além da Matemática Pura e da História da Ciência?

Antonio Emilio Angueth de Araujo disse...

Caro Pedro,

Não conheço nenhum escrito de Whitehead que não seja matemático, sobre história da ciência e um pouco de filosofia.

Quanto a Russel, a melhor caracterização dele que conheço é a de Paul Johnson, num capítulo de seu livro "The Intelectuals". Para mim, o que Johnson escreveu sobre ele é definitivo.

Um abraço. Antonio Emilio