07/07/2007

Opondo-se à heresia austríaca

Christopher Ferrara


Nota do tradutor – Este artigo foi publicado na revista The Angelus Magazine, em janeiro de 2005, sob o título Oposing the Austrian Heresy. Esta tradução foi feita com a autorização da revista.



Tenho o privilégio de prefaciar o artigo do Dr. Peter Chojnowski “A Corporação Cristã: a verdadeira Escola de Salamanca”,[1] que expõe primorosamente como o ensinamento de Santo Tomás de Aquino, dos santos Bernadino de Siena e Antonino de Florença e da Escolástica Tardia espanhola sobre preços e salários justos foram distorcidos pelos proponentes da Escola Austríaca de Economia.

O artigo do Dr. Chojnowski é um importante primeiro passo na elaboração de uma resposta católica tradicional às ambições crescentes da escola Austríaca, cujos dois maiores ‘santos’, os já falecidos pensadores judeus Ludwig von Mises e Murray Rothbard, escreveram as obras fundamentais do movimento austríaco: o volumoso “Ação Humana” (1949) de Mises e o igualmente volumoso “Homem, Economia e Estado” (1962) de Rothbard. Esses dois livros compreendem o Velho e o Novo “Testamento” do que vem a ser hoje o culto de um radical laissez faire econômico, que, lamentavelmente, atrai um crescente número de católicos.

UM CULTO DO LAISSEZ FAIRE

Não uso levemente a expressão “ambições crescentes” ou a palavra “culto”. O Mises Institute, fundado para pregar ao mundo o evangelho da “liberdade” econômica e social, festeja o sucesso do movimento em termos quase messiânicos. O Instituto – dirigido por um católico, Lew Rockwell – recentemente declarou:

“Temos sido marcantemente eficazes em construir um movimento global pela liberdade e para sua fundamentação intelectual. Atualmente, austríacos e libertários formam um movimento mundial coeso, unido por princípios, publicando como nunca antes, e ensinando a todos, por todos os meios disponíveis. Por essa razão, a Escola Austríaca tem sido considerada o movimento intelectual mais coerente e ativo desde o Marxismo.”[2]

O tributo do Mises Institute a Rothbard, no décimo aniversário de sua morte, tem o sabor de uma idolatria:

“E então, ao querido Murray, nosso amigo e mentor, o vice-presidente do Mises Institute, o scholar que nos guiou e o cavalheiro que nos mostrou como encontrar contentamento no confronto com o inimigo e na propagação da verdade, os funcionários e acadêmicos do Instituto oferecem este tributo, acompanhados dos milhões que têm se alimentado de suas idéias. Que suas obras estejam sempre disponíveis a todos aqueles que se disponham a aprender sobre a liberdade e fazer sua parte na luta pela própria pedra fundamental da civilização. Que seu legado permaneça para sempre [!] e que todos nós nos tornemos guerreiros pela causa da liberdade.”[3]

Céus e terra passarão, mas as palavras de Rothbard não passarão.

QUE TIPO DE TOMISTA É ESTE?

Rothbard privou da amizade de muitos católicos ao longo da vida, mas evidentemente não foi convertido por nenhum. Ele se considerava um “neo-tomista” por causa de sua noção particular e secularizada de “direitos naturais”, que não incluía nenhuma origem divina. Rothbard (e outros austríacos) tentaram impingir essa versão de direitos naturais como algo sancionado pelos escolásticos espanhóis, mas é claro que nenhum filósofo escolástico alguma vez afirmou que poderia haver direitos naturais sem um divino Juiz para dar a estes a força de lei natural, que é a participação inata do homem na lei eterna. Não pode haver direitos sem um juiz, nem lei sem um provedor da mesma. E se não há um Criador divino que dota o homem de uma determinada natureza, que sentido há em se falar de “natureza” humana e de direitos “naturais”? O “ensinamento” de Rothbard atribuindo a Santo Tomás e a Suarez a afirmação da “absoluta independência da lei natural de questões sobre a existência de Deus ...”[4] não é apenas vulgar; é claramente contraditório.[5]

A teoria do direito natural de Rothbard estava limitada à (inexistente) “propriedade” do próprio corpo e a propriedade privada relacionada à apropriação primeira de recursos ainda não apropriados.[6] Como esses eram os dois direitos naturais que Rothbard reconhecia como universalmente válidos, ele (como o utilitário ortodoxo Mises) limitava o poder do governo somente à proteção desses direitos. Assim, ele definia “liberdade” como “a ausência de invasão, por outro homem, da pessoa ou propriedade de um indivíduo”[7]

Baseado nesse conceito de direitos naturais e liberdade, cuja diferença do ensinamento católico não necessita demonstração, o “querido Murray” advogava não somente o direito legal ao aborto, mas também o direito de se vender o próprio filho (i.e., de vender a propriedade dos direitos paternos), ou, se se prefere, de deixar que uma criança morra de fome. Este “direito”, escreveu Rothbard, “nos permite resolver questões incômodas do tipo: deve o pai deixar um bebê deficiente morrer (e.g., não o alimentando)? A resposta é, claro, sim ...”[8] Rothbard estava certo, no entanto, de que “numa sociedade libertária, a existência de um mercado livre de bebês trará tal ‘negligência’ a um mínimo.”[9] Essas idéias do “querido Murray” são anunciadas em sua “Ethics of Liberty”, que o Sr. Rockwell promove como parte “do núcleo”, e um dos dez mais importantes volumes, da literatura austríaca.[10]

LIBERTANDO OS PREÇOS E SALÁRIOS DAS RÉDEAS DA MORALIDADE

O trabalho do Dr. Chojnowski, demonstrando que os austríacos não apresentaram com precisão o ensinamento escolástico sobre preço e salário justos, é muito mais do que simplesmente um trabalho estritamente acadêmico. Como ele próprio observa, Mises (e, mais ainda, Rothbard) advoga uma ordem social que nega a cristandade e todo ensinamento moral, econômico e social da Igreja Católica e também torna “inoperante” toda a tradição clássica moral e filosófica.

Dr. Chojnowski está aqui se referindo a uma verdade fundamental da existência humana, afirmada pelo homem ocidental desde o tempo dos filósofos pagãos até os grandes papas anti-liberais do século XIX e início do século XX: i.e., que o homem tende, pela sua própria natureza, a viver em sociedade sob um governante comum e sob um conjunto de leis, e que esse arranjo, chamado Estado, é necessário não somente para a manutenção da paz, mas também para se atingir a virtude, que significa “se tornar tão igual a Deus quanto é possível ao homem”[11] Como declarou o Papa Leão XIII em Libertas, sua monumental encíclica sobre a natureza da liberdade humana:

“Era isso o que vira claramente a filosofia antiga, aquela principalmente cuja doutrina era que ninguém é livre como o sábio, e que reservava, como é sabido, o nome de sábio àquele que se tivesse acostumado a viver constantemente segundo a natureza, isto é, na honestidade e na virtude.”[12]

O sistema misesiano-rothbardiano, indo além até dos revolucionários franceses e da Declaração dos Direitos do Homem, rejeita completamente o conceito de Estado. Como diz Rothbard em Ética para a Liberdade:

“O grande fracasso da teoria do direito natural – de Platão e Aristóteles, passando pelos tomistas, chegando a Leo Strauss e seus seguidores em nossos dias – é ser profundamente estatista ao invés de individualista.”

Ou seja, a tradição ocidental está inteiramente errada e o “querido Murray” está certo. Na esteira de Rothbard, muitos (senão a maioria) dos austríacos contemporâneos não limitariam o poder do Estado a uma mera prevenção da violência e do roubo (a la Mises), mas aboliriam o Estado completamente a favor de uma Utopia de uma comunidade “anarco-capitalista”, na qual a ordem social é mantida inteiramente por companhias de seguro[13] e outras agências privadas contratadas. Como o estudioso libertário Ralph Raico explica:

“Os economistas austríacos contemporâneos, seguindo os passos de Mises, têm, em sua maioria, adotado uma forma mais radical de liberalismo. Pelo menos um deles, Murray Rothbard ... foi ainda mais longe em seu anti-estatismo. É, em grande medida, devido à ‘pregação e ensinamento’ de Rothbard ... que o austrianismo está associado, na mente de muitos, com a defesa do livre mercado e a propriedade privada a ponto da própria abolição do estado, e assim do total triunfo da sociedade civil ...”[14]

Assim, marxistas e austríacos prevêem um definhamento do Estado, apesar de chegarem à terra dos seus sonhos por caminhos opostos: um por meio da abolição da propriedade privada, o outro pela exaltação da mesma como summum bonnum da política (mesmo se, como concede Rothbard, a “ética pessoal” possa ter um objetivo mais alto em vista) .

Sob este ponto de vista, as tentativas dos austríacos de caracterizar os escolásticos como proto-austríacos, um empreendimento iniciado por Rothbard, é altamente significativo. O objetivo aqui é nos convencer de que é perfeitamente católico acreditar que “o preço do mercado é o preço justo” sem maior inquietação moral, e que isso é verdade sempre e em todo o lugar, tanto com relação a salários quanto em relação aos bens. Aceitar esse dictum é, claro, rejeitar o magistério de sete papas consecutivos, tanto pré como pós-conciliares, que afirmaram o oposto com relação ao salário justo: Leão XIII, São Pio X, Pio XI, Pio XII, João XXIII, Paulo VI e João Paulo II insistiram exatamente que “o salário de mercado” e o salário justo não eram moralmente equivalentes, uma vez que o empregador é obrigado moralmente a pagar, toda vez que as condições assim o permitirem, um salário que seja suficiente para o sustento do empregado e de sua família, independente do que supostamente dita “o mercado”. Como diz o Papa Leão na encíclica Rerum Novarum [Em: “Documentos da Igreja: documentos de Leão XIII”, editora Paulus, § 61, p.449]:

“Façam, pois, o patrão e o operário todas as convenções que lhes aprouver, cheguem inclusive a acordar na cifra do salário: acima da sua livre vontade está uma lei de justiça natural, mais elevada e mais antiga, a saber, que o salário não deve ser insuficiente para assegurar a subsistência do operário sóbrio e honrado. Mas se, constrangido pela necessidade ou forçado pelo receio de um mal maior, aceita condições duras que por outro não lhe seria permitido recusar porque lhe são impostas pelo patrão, é claro que sofre uma violência contra a qual a justiça protesta”.

Como diriam os austríacos, os escolásticos espanhóis compartilhavam [com os austríacos] a teoria de que os valores dos preços e salários surgem da soma total de avaliações subjetivas de utilidade das partes interessadas em fazer negócio (i.e., o que cada parte pensa que vale, para ela, o bem ou serviço a ser adquirido, em termos de suas necessidades e desejos pessoais), e não de fatores objetivos tais como; custo e lucro razoável, o que é necessário para manter certo padrão de vida, ou o valor intrínseco de um bem. Como mostra o Dr. Chojnowski, contudo, os próprios escritos austríacos admitem (ou pelo menos, revelam involuntariamente) que os escolásticos não ensinaram esse ponto de vista absolutista. Ao contrário, como o renomado economista e católico tradicional, Heinrich Pesch, S.J., observa no quinto volume de seu tratado enciclopédico sobre Economia, Lehrbuch der Nationalokonomie, o ensinamento escolástico sobre o preço justo envolve “uma combinação de fatores ‘objetivos’ e ‘subjetivos’, na medida em que eles exercem uma influência decisiva na formação dos preços.” Esses fatores incluem não somente utilidade subjetiva, mas também “a capacidade qualitativa dos bens em satisfazerem os desejos humanos”, e, muito desastroso para a alegação austríaca, “a estimativa geral [objetiva] e o valor oficialmente determinado do preço” de acordo com a prática legal comum, nos tempos medievais, de tetos de preços fixados pelo príncipe, especialmente para os bens necessários à vida. [15] De fato, mesmo na questão dos salários, os escolásticos espanhóis estavam, em geral, de acordo como o magistério papal posterior de que no mercado de trabalho “a compulsão era possível devido à desvantagem em poder de barganha entre empregado e empregador” e que “o conluio advindo de acordos no mercado de trabalho pode exigir um observador imparcial externo para estabelecer o salário justo, propriamente mantido por instrumento legal”[16] – não exatamente música para os ouvidos austríacos.

Por que a insistência austríaca sobre a teoria da utilidade subjetiva exclusiva e o resultante “acordo livre” como o único critério para preços e salários justos? Por que os austríacos defendem seriamente Scrooge [referência ao personagem sovina de A Christimas Carol de Charles Dickens][17] e a prática do aumento absurdo de preços durante situações de emergências, [18] quando a voz da consciência em todos os homens razoáveis grita “ultrajante” e “injusto”? A resposta é que se não há padrão objetivo no preço ou salário justo, e se eles são – em cada caso, sempre e em todo o lugar – simplesmente o preço do mercado, então o mercado se torna totalmente “auto-regulatório” e assim imune à correção moral de seus abusos pela Igreja ou pela autoridade pública. Se o preço justo é nada mais que o preço do mercado, então, muito convenientemente, o mercado nunca falha em atingir a justiça assim definida. Isso significa que a maravilhosa capacidade “auto-regulatória” do mercado pode então ser citada a favor de uma sociedade integralmente de livre-mercado, baseada no “princípio do mercado”, no qual a ação humana em geral é livre de toda norma “externa” imposta por lei, exceto aquelas que governam a troca econômica: i.e., a ausência de violência e roubo. Como argumenta Rothbard, numa passagem carregada de eloqüente terminologia:

“Toda vez que uma troca unitária livre e pacífica ocorre, o princípio do mercado foi posto em operação; toda vez que um homem força uma troca pela ameaça de violência, o princípio hegemônico foi posto em operação.Todas as interações sociais são uma mistura desses dois elementos primários. Quanto mais prevalece o princípio do mercado na sociedade, maior serão a liberdade e a prosperidade da sociedade. Quanto mais abundante for o princípio hegemônico, maior a extensão da escravidão e da pobreza ...”[19]

A HERESIA AUSTRÍACA

O esforço para “batizar” o que tem sido corretamente chamado (num sentido geral, não-canônico) “a heresia austríaca” somente nos levaria a uma forma “purificada” da mesma ordem social condenada por todos os papas de Pio VI a Pio XII. Na concepção dos fieis católicos, contudo, Murray Rothbard não tinha a menor idéia do que “liberdade” significa e não era nenhuma autoridade para ensinar ao mundo a respeito da verdadeira natureza da liberdade social. A verdade integral sobre a liberdade social é encontrada somente no ensinamento do Magisterium, que num único parágrafo contém mais sabedoria do que em todo o inflado corpus de economia política austríaca. Como ensinou o papa Leão, na encíclica Libertas Paestantissimum:[20]

“Por onde se vê que é absolutamente na lei eterna de Deus que é mister buscar a regra e a lei da liberdade, não somente para os indivíduos, mas também para as sociedades humanas.[ §11]
“Portanto, na ordem social, a liberdade digna desse nome não consiste em fazer tudo o que nos apraz. Isso geraria confusão e desordem, uma perturbação que conduziria à opressão. A liberdade consiste em que, com o auxílio das leis civis, possamos mais facilmente viver segundo as prescrições da lei eterna.[ §12]
“O que acaba de ser dito da liberdade dos indivíduos, é fácil aplicá-lo aos homens que a sociedade civil une entre si; o que a razão e a lei natural fazem para os indivíduos, a lei humana, promulgada para o bem comum dos cidadãos, o realiza para os homens que vivem em sociedade”[ §19]

Leão XIII descreve aqui, com maravilhosa precisão, o único conceito de liberdade social a que os católicos devem aderir. Não nos enganemos com o argumento de certos católicos austríacos de que o conceito de liberdade social da Igreja está, hoje, desatualizado e que devemos nos conformar aos “fatos”. Falando exatamente desse tipo de católico liberal, Pio XI declarou:[21]

“Quantos, com efeito, admitem a doutrina católica sobre a autoridade civil e o dever de lhe obedecer, sobre o direito de propriedade, os diretos e deveres dos operários da agricultura e da indústria, as relações dos Estados, as relações entre operários e patrões, entre os poderes religioso e civil, ..., os direitos de Cristo, Criador, Redentor e Senhor, sobre todos os homens e sobre todos os povos? E estes mesmos, nos seus discursos, nos seus escritos e na prática de sua vida, procedem exatamente como se os ensinamentos e as ordens promulgadas em tantas ocasiões pelos soberanos pontífices especialmente por Leão XIII, Pio X e Bento XV, tivessem perdido o seu primitivo valor ou não devessem ser tomados em consideração.”

Finalmente, podemos responder a esses modernistas sociais, que sugerem um compromisso do ideal católico, citando contra este a própria exortação de Rothbard sobre nunca abandonar o “idealismo radical”:[22]

“O economista F.A. Hayek, apoiador do mercado livre mas, em nenhum sentido, um extremista, escreveu eloqüentemente sobre a importância vital, para o sucesso da liberdade, em se considerar a ideologia pura e ‘extrema’, em suspenso, como um credo a ser sempre lembrado. Hayek escreveu que uma das grandes atrações do socialismo foi a contínua lembrança de seu objetivo ‘ideal’, um ideal que permeou, deu forma e guiou as ações de todos os que lutaram para alcançá-lo ... Hayek está aqui enfatizando uma verdade importante e uma importante razão para reafirmar o objetivo último: o entusiasmo e a vibração que um consistente sistema lógico pode inspirar.”

Os católicos podem certamente subscrever o sentimento de Rothbard em “manter” seu próprio “credo a ser sempre lembrado” em se tratando da verdadeira liberdade. O credo da liberdade a ser encontrado na doutrina que foi confiada aos católicos, não o foi por pensadores liberais judeus, mas pela Igreja que Deus Encarnado fundou para fazer discípulos em todas as nações. Devemos agradecer ao Dr. Chojnowski por se opor àqueles, incluindo católicos mal orientados, que estariam defendendo outro ideal para a sociedade humana.


O sr. Ferrara é presidente e principal conselheiro da Associação Americana de Advogados Católicos, uma organização dedicada a defender os direitos civis de católicos. O próximo livro do Sr. Ferrrara, Liberty, the God that Failed: The Chrch´s Answer to Social and Economic Liberalism, será publicado em Junho.


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[1] A ser traduzido proximamente por este blog. (N. do T.)
[2] “Mises Institute Supporters Summit: Radical Scholarship, http://www.mises.org/upcomingstory.asp?control=68 .”
[3] “The Unstoppable Rothbard,” 7 de janeiro de 2007.
[4] Rothbard, The Ethics of Liberty (Bew York, New York University Press, 2002), p. 4.
[5] Como observa Pe. Copleston, Suarez certamente ensinou que “Deus é, de fato, o autor da lei natural; pois Ele é o Criador e Ele deseja que os homens observem os ditados da justa razão.” History of Political Philosophy, Vol. III, p. 385. Sem a vontade divina, a lei natural e os direitos naturais não podem existir, pois o que obrigaria o homem a observar os “direitos naturais” dos outros se não há Deus para impor essa obrigação? Os escolásticos tardios meramente enfatizaram a bondade intrínseca da lei natural contra o nominalismo de Guilherme de Occam, que afirmava que a validade da lei natural dependia somente da vontade arbitrária de Deus, que podia, se assim desejasse, tornar o assassinato um direito natural.
[6] Ethics of Liberty, p. 43.
[7] Ibid., p. 42.
[8] Ibid.
[9] Ibid.
[10] Ver ("Ten Must Haves") http:// www.mises.org/store/category.asp7Customer ID= 848567 &ACBSessionID= euoZXmrhabgTmkMTw5DX&SID=2&Category JD=10; ("The Core") http://www.mises.org/ Study Guide Display.asp?SubjID=116. Como todos os liberais doutrinários, Rothbard admitia que o aborto e o assassinato de filhos por privação de comida eram comportamentos errados moralmente de acordo com a “ética pessoal”, mas ele insistia que o Estado não tinha o direito de proibir tal conduta.
[11] Copleston, A History of Philosophy, Vol.1, p.218 (a respeito da definição de Platão sobre a busca da virtude).
[12] Libertas Praestantissimum, §6. [Uso aqui o trecho correspondente da versão em português da referida encíclica. Em: “Documentos da Igreja: documentos de Leão XIII”, editora Paulus, § 13, p.316]
[13] Ver, e.g. Hans Hermann Hoppe, Democracy: The God that Failed (New Brunswick, NJ: Transaction Publishers, 2004), p.247: "Existe um acordo amplo entre os liberal-libertários tais como Molinari, Rothbard… tanto quanto entre muitos comentaristas do assunto, que defesa é uma forma de seguro e que o gasto com defesa representa um tipo de prêmio de seguro … muito provavelmente os candidatos a oferecerem serviços de proteção e defesa [em lugar do governo] são as companhias de seguros. "
[14] Ralph Raico, "The Austrian School and Classical Liberalism," em: mises.org/etexts/aus-trian liberalism.asp.
[15] Heinrich Pesch on Solidarist Economics, Excerpts from the Lehrbuch der Nationalokonomie (Oxford: University Press of America, 1998), p.218.
[16] Ibid., p.475
[17] Michael Levin, "In Defense of Scrooge," Dec. 18, 2000, at http://www.mises.org/ fullstory.aspx?control=573.
[18] John R. Lott, Jr., "Especially During Disasters," http://www.lewrockwell.com/lott /Iott29.html. Lott não é, aparentemente, um austríaco formal, mas seus argumentos, publicados no principal website austro-libertário, são típicos dessa escola.
[19] Murray Rothbard, Power and Market, Online Edition, p. 1363.
[20] [20] Libertas Praestantissimum, [Em: “Documentos da Igreja: documentos de Leão XIII”, editora Paulus].
[21] Ubi Arcano Dei, §51[Em: “Documentos da Igreja: documentos de Pio XI”, editora Paulus].
[22] "The Case for Radical Idealism," lewrockwell.com, Jan. 3, 2005.

29/06/2007

Capitalismo, Socialismo e a Doutrina Social da Igreja

Estarei traduzindo proximamente alguns artigos que tocam nestes assuntos. Deixo, por enquanto os links dos originais:

Opposing the Austrian Heresy, de Christopher Ferrara
Corporation Christendom: The True School of Salamanca, de Peter Chojnoswski
Economic Science an Catholic Social Teaching, de Thomas Storck


Faço isso por duas razões. Primeiramente, porque alguns artigos que estão aparecendo no MSM não tem me agradado, pelo tom e pelo superficialismo (Ver, por exemplo, A Cruz e a encruzilhada, de Carlos Reis, onde o autor equipara a encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, com o acordo de Metz entre o Vaticano e a URSS, feito por João XXIII.).

Em segundo lugar, pelas minhas próprias dúvidas sobre o Capitalismo em si. Por enquanto, vou deixar links de dois livros (em inglês) que tratam do assunto. O segundo link, se refere ao livro obra-prima de Hilaire Belloc, em que se pode reconhecer toda a influência da encíclica Rerum Novarum.

Distributism: A Catholic System of Economics, de David P. Goodman

The servile state, Hilaire Belloc


Divirtam-se.

10/06/2007

Ciência espúria e políticas públicas


Walter E. Williams



O público tem se tornado crescentemente consciente de que a ciência por trás do aquecimento global antropogênico é uma fraude. Mas talvez os americanos gostem de imposturas científicas como meio de atingir certos objetivos de política pública. Vejamos.

Muitos americanos consideram o ato de fumar irritante. Alguns acham o odor ofensivo, e outros têm alergia ou asma, que pode ser agravada pela presença de fumantes. Há poucas dúvidas de que a fumaça de cigarro causa, de fato, irritação nesses casos. Mas, se fosse só por essas situações especiais, será que os anti-tabagistas teriam tanto sucesso nos tribunais, como eles têm tido?

Uma situação de ameaça à saúde pública tinha de ser fabricada, e em 1993 a Agência de Proteção Ambiental (EPA) apareceu, para uma operação de resgate, com seu estudo falso a respeito da fumaça do cigarro (ETS) ser um carcinogênico classe A.

Por que o estudo é falso? A EPA alegou que 3000 americanos morrem anualmente como fumantes passivos, mas há um problema. Eles não conseguiram essa conclusão dentro do intervalo estatístico de confiança padrão de 95%. Eles abaixaram o intervalo de confiança do estudo para 90%. Isso teve o efeito de dobrar a margem de erro e dobrar a probabilidade de que a mera casualidade explicasse aquelas 3000 mortes.

O Serviço de Pesquisa do Congresso (CRS) disse: “De fato, é pouco usual retocar assim um estudo, abaixando o nível de confiança exigido e declarando que os resultados apóiam o efeito sugerido pela teoria.” O CRS estava sendo gentil. Esse jeito de fazer pesquisa expulsaria da universidade qualquer estudante de pós-graduação.

Em 1998, a Agência Internacional para a Pesquisa sobre Câncer da Organização Mundial de Saúde publicou o mais completo e bem formulado estudo sobre ETS. O projeto de pesquisa durou dez anos e foi realizado em dez países da Europa. O estudo, que não foi amplamente noticiado, concluiu que não existia nenhum risco estatisticamente relevante para não-fumantes que viviam ou trabalhavam com fumantes.

No final da década de 1990, num encontro em Washington, eu tive a oportunidade de estar na presença de uma autoridade do FDA [Food and Drug Administration]. Eu o perguntei se ele aprovaria que as indústrias farmacêuticas aplicassem as técnicas estatísticas da EPA em testes de suas drogas, no que diz respeito à sua efetividade e segurança. Ele respondeu que não. Eu pergunto aos meus compatriotas americanos não-fumantes: Você apoiaria o uso de ciência fraudulenta para eliminar o desconforto causado pela fumaça do cigarro de bares, restaurantes, ambientes de trabalho e hotéis?

Você responde, “OK, Williams, a ciência é falsa, mas como nós, não-fumantes, suportaremos o desconforto da fumaça do cigarro?” Minha resposta é que depende se você prefere soluções que respeitem a liberdade ou aquelas que são mais tirânicas.

A solução amiga da liberdade tem de considerar os direitos de propriedade, pelos quais o proprietário toma a decisão se ele permitirá fumantes ou não-fumantes, no recinto de sua propriedade. Se alguém é não-fumante, ele simplesmente não faz negócio com um bar ou restaurante onde é permitido fumar. Um fumante poderia exercer o mesmo direito se um bar ou restaurante não permite fumar. Os lugares públicos, como bibliotecas, aeroportos e prédios municipais, onde a propriedade não é bem definida, é um desafio.

A solução tirânica é aquela onde um grupo usa o sistema político para impor suas preferências aos outros. Você pode ser tentado a objetar a respeito do termo “tirânico”, mas suponha que você tenha um restaurante onde você não permitisse que fumantes e não-fumantes usassem o sistema político para criar uma lei que forçasse você a permitir o fumo. Estou certo de que você chamaria de tirânica essa solução.

O debate sobre a política pública a respeito do ato de fumar foi decidido por meio de uma ciência espúria. Minha perguntar é, será que desejamos que outras políticas públicas façam uso de ciência espúria para se implantarem, tais como as restrições ao crescimento econômico, em nome da luta contra o aquecimento global?




Publicado por Townhall.com

07/06/2007

Nossa Senhora de Fátima, o Terceiro Segredo e a apostasia do alto clero da Igreja

A propósito dos 90 anos da aparição de Nossa Senhora em Fátima, Portugal, textos interessantíssimos foram publicados nos sites Permanência (sobre as aparições de Nossa Senhora em Fátima para os meninos Francisco, Jacinta e Lúcia) e Montfort sobre o Terceiro Segredo de Fátima e a apostasia do alto clero da Igreja. Eis os links abaixo. Boa leitura.

Site Permanência

Quem se lembra de Fátima?

A Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima

A devoção reparadora dos cinco primeiros sábados

A vida mística de Francisco e Jacinta



Site Montfort

Eis o Terceiro Segredo de Fátima: O cardeal Pacelli o leu ... E contou algo

O Quarto Segredo de Fátima

Foi revelado o Terceiro Segredo de Fátima

Terceiro Segredo de Fátima: Teria Nossa Senhora condenado o Concílio Vaticano II e a Missa Nova?

02/06/2007

Economia e o ato de fumar


Walter E. Williams


O princípio mais fundamental da Economia é a lei da demanda, que postula que quanto mais alto o preço de um comportamento, menor o número de pessoas que o adota, enquanto que quanto menor seu preço, maior o número de pessoas que o adota. A lei da demanda funciona para qualquer comportamento, e vou aplicá-lo ao comportamento anti-fumo. Primeiramente, livremo-nos do argumento da saúde, porque ele não tem relevância ao princípio particular sob exame, que é como as pessoas respondem ao custo de alguma coisa.

O custo para os não-fumantes da imposição de sua vontade sobre os fumantes, digamos, num restaurante, bar ou avião, é zero, ou perto disso. Basta que eles consigam que o legislativo vote as leis restritivas. Quando o custo de alguma coisa é zero, há uma tendência das pessoas a consumirem excessivamente. Você diz, “Williams, no meu caderno, não há ar excessivamente livre de fumaça!” Eis um pequeno teste. Digamos que acabe a gasolina de seu carro numa nevasca. Você me acena pedindo socorro. Eu digo, “Terei prazer em lhe dar uma carona, mas estou fumando.” Será que você recusará a carona na tentativa de evitar a fumaça do cigarro? Você pode ser tentado a argumentar, “Isso é diferente”. Não é diferente em absoluto. O custo de um ambiente livre de fumaça não é o que você está disposto a pagar.

Digamos que você não permita que se fume em sua casa. Quanto eu o visito, ofereço a pagá-lo 100 dólares por cada cigarro que você me permita fumar. Instantaneamente, levanto a questão do custo de manutenção de seu ambiente livre de fumaça. Manter sua casa livre de fumaça custará 100 dólares. É claro que posso lhe oferecer um montante maior, e a teoria econômica prediz que, em algum patamar, você concluirá que seu ambiente 100 por cento livre de fumaça não valerá a pena

Ar 100 por cento livre de fumaça ou 100 por cento repleto de fumaça é provavelmente sub-ótimo. A preço zero, haverá excesso de fumaça ou muito pouca fumaça. O problema em nossa sociedade é que as leis criaram um ar com muito pouca fumaça. Em grande medida, isso é culpa dos fumantes, que não criaram um custo para o ar livre de fumaça.

Minha regra não é absoluta. Há circunstâncias em que suporto ambientes com ar livre de fumaça a custo zero, e há circunstância que não suporto. Tudo depende do custo para mim. Penso que outros fumantes devem adotar a mesma agenda. Digamos que lhe pedem para fazer algum trabalho voluntário. Você pode dizer, “Sim, se me permitirem fumar.” Essa estratégia pode também ser uma boa forma de se livrar de alguma coisa sem ter de dizer não. Apenas pergunte se será permitido fumar.

A lição econômica a ser extraída de tudo isso é que preços nulos levam a resultados sub-ótimos, e que isso não se aplica somente à questão do ato de fumar. O que você acha de preços zero no supermercado ou na boutique? Se isso ocorresse, como você acha que estariam as prateleiras das lojas quando você chegasse? Se você respondeu, “Sem nada, pois as pessoas teriam tirado delas uma quantidade excessiva de produtos”, você tirou nota 10.

Publicado por Townhall.com

27/05/2007

Jesus não era esquerdista

Começo, com este texto de Dennis Prager, um projeto de tradução mais permanente de, pelo menos, três autores colunistas do Townhall --

o judeu Dennis Prager,




o evangélico Mike S. Adams e








Esse projeto complementa minhas traduções regulares de Thomas Sowell (outro negro) para o Mídia Sem Máscara. Espero que eu possa manter a regularidade de pelo menos um artigo por semana. Divitam-se.


Dennis Prager


O candidato presidencial e ex-senador John Edwards disse a um entrevistador do site religioso beliefnet.com que Jesus “estaria desapontado” com a pequena quantidade de americanos que ajudam os destituídos que vivem entre nós. O sr. Edwards disse, que Ele “estaria horrorizado” com o nosso egoísmo.

Na visão de John Edwards e outros cristãos esquerdistas, Jesus aumentaria os impostos, socializaria a medicina, seria pró-escolha e advogaria o casamento entre pessoas de mesmo sexo. Mas, acima de tudo, Jesus seria anti-guerra, se oporia às forças armadas e seria essencialmente um pacifista.

Isso é principalmente baseado em um de Seus mais famosos dizeres: “Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra.”

A falha de interpretação de tais afirmações como idéias políticas sobre como as nações devem se comportar é que Jesus estava falando sobre a vida individual – o micro – não sobre nações e o macro.[1]

Essa confusão entre a micro e a macro moralidade não aflige só a esquerda, ela também aflige a direita. Um exemplo é quando os conservadores religiosos igualam a blasfêmia privada com a pública. Apesar de que, idealmente, devemos evitar blasfemar tanto em privado quanto em público, não há comparação moral entre usar certas palavras em conversas particulares e usá-las em público. Acredita-se que se um conservador religioso ouvir um professor usar um termo inapropriado numa conversa com outra pessoa, ele não compararia tal fato com o uso da expressão numa aula do professor. O primeiro poderia ser um pecado pessoal, mas o segundo é um fato destrutivo para sociedade.

No entanto, é a esquerda que é mais inconsciente da distinção entre o micro e o macro. Sua compreensão de Jesus é um bom exemplo. A esquerda nos consideraria uma nação que poria em prática a admoestação de Jesus: : “Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra.”

Mas Jesus estava claramente se referindo às relações interpessoais. É de suma importância quando se está tentando entender qualquer trecho da Bíblia, ou de qualquer outro texto, ler uma passagem no contexto do material em torno. Como os comentários bíblicos freqüentemente advertem: “O contexto é tudo.”

Notando o que precede e o que segue aquele versículo, pode-se mostrar que ele trata de atitudes e comportamentos individuais em questões tais como a ira contra outro indivíduo, adultério, divórcio, juramento, doação aos pobres, oração, jejum, etc. Jesus estava falando sobre relações interpessoais e observava que nessas relações não é geralmente uma boa idéia retribuir a bofetada.

Agora, imagine o princípio aplicado às nações: Devíamos ter dito aos japoneses, depois do ataque a Pearl Harbor, “Agora que vocês nos atacaram a oeste, façam o favor de jogar suas bombas também a leste”?

A idéia de que um país deve oferecer a outra face a um agressor é simplesmente imoral, além de suicida. Tal pensamento torna Jesus e a Bíblia cristã idiotas.

Também mostra quão hipócrita são os ataques da esquerda aos conservadores religiosos por lerem a Bíblia literalmente. É a esquerda que usa um literalismo muito mais perigoso quando ela aplica as palavras de Jesus à política nacional. Aqueles religiosos de direita que acreditam que Deus criou o mundo em seis dias de 24 horas estão usando, acredito eu, um literalismo completamente desnecessário. Mas ele não é perigoso. O literalismo bíblico de esquerda, contudo, ao aplicar o “oferece-lhe também a outra” a milhões de nossos cidadãos, é fatalmente perigoso.

Além do literalismo, outra hipocrisia: os ataques da esquerda à direita religiosa por ameaçar substituir nossa democracia por uma teocracia que imporá o fundamentalismo cristão à toda a nação. Ainda assim, pessoas que odeiam os conservadores por usarem a Escritura não têm dificuldade com aqueles que citam as palavras de Jesus quando argumentam a favor de suas posições – mesmo quando as citam incorretamente.

Jesus não era esquerdista. Ele era, entre outras coisas, um judeu religioso que conhecia e acreditava na Bíblia Hebraica, que contem versículos tais como estes dos Salmos: “Aqueles que amam a Deus devem odiar o mal.” Não oferecer outra cidade para que os terroristas bombardeiem, isso é o que provavelmente Jesus acreditasse.




Publicado por Townhall.com

[1] Roger Scruton, comentando a mesma passagem em seu livro “The West and the Rest”, diz: “Pacifistas tomam essa observação como se não devêssemos nos defender, mas vencer a violência como fez Cristo, pelo exemplo. (...) Eu sou atacado e volto a outra face. Exemplifico a virtude cristã da mansidão. Mas se cuido de uma criança que é atacada, e viro a outra face dela, tomo parte na violência. (...) Você é obrigado a proteger aqueles cujos destinos estão em suas mãos. Um líder político que não vira sua própria face mas a nossa, convida o próximo ataque.”

12/05/2007

Reçiprossidádi: “Çi o papa num çi ajoêlia pra mim, eu num çi ajoêlio pra ele”

Reinaldo Azevedo

Temas tratados neste texto:

- O que fazia Marisa Letícia no encontro de dois chefes de Estado?
- A República laica de uma certa Vera Machado
- Reçiprossidádi: “Çi o papa num çi ajoêlia pra mim, eu num çi ajoêlio pra êle”
- Quem vai à TV defender o aborto num plebiscito?
- Temporão acha que pode dar bronca no papa
- O médico Temporão praticaria um aborto?

- De onde vêm os números de Temporão?
- A intolerância dos tolerantes
- Quem tem medo da excomunhão?

A palavra “detestável” não define a contento o comportamento do governo Lula, até agora, durante a permanência do papa Bento 16 no Brasil. A ela, outras devem ser agregadas. Tem sido um espetáculo de vulgaridade, de grosseria, de burrice. No que respeita às relações internacionais, destaque-se a insólita presença de cidadã Marisa Letícia da Silva no encontro privado do chefe de estado Luiz Inácio Lula da Silva com o chefe de estado Bento 16. O que ela fazia lá? Tinha a dizer o quê? Qual a justificativa? O núncio apostólico, gentil, observou que era uma ocorrência inédita no mundo. O representante do Vaticano afirmou que o papa, claro, aprovou o fato, o que estaria a indicar o apreço do presidente Lula pela família. Mas se trata, é óbvio, de uma resposta bem-educada. Dona Marisa foi eleita por Lula, mas não pelos brasileiros. Participar das cerimônias oficiais, fora da reunião de trabalho, é até uma obrigação. Mas isso foi o de menos.

Se o papa leu os jornais ou recebeu um clipping preparado por sua assessoria, teve a chance de saber que o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, considerou “descabido” o apoio dado por Sua Santidade aos bispos mexicanos que querem excomungar os políticos que apóiam o aborto naquele país. Notem bem: Temporão, ministro da Saúde do Brasil, acha que pode opinar sobre o que Igreja de Roma tem a dizer aos bispos do México. O governo Lula perdeu completamente o limite, o juízo, a razão, o simancol, o senso de ridículo. A pergunta tem de ser feita: quem ele pensa que é? Se estivesse se referindo apenas ao Brasil, com o papa em solo pátrio, já seria uma grosseria inaceitável. Temporão foi mais longe: “Você não pode apenas prescrever dogmas e preceitos de determinada religião para um conjunto da sociedade. Me parece descabido". Quem está prescrevendo o quê para quem, meu senhor?

O chefe da Igreja Católica fala aos católicos. O estado faça o que acha que deve se tiver condições política para tanto. Mas já volto a este ponto. Quero me referir antes à terceira bobagem em tão pouco tempo. Ao falar à imprensa sobre o encontro privado de Lula-Marisa com o papa — pô, a porta-voz deveria ter sido a primeira-companheira —, Vera Machado, embaixadora do Brasil no Vaticano, disse que Lula reafirmou que o estado é laico no Brasil. Deus do Céu! Lula é agora o usurpador dos proclamadores da República. Voltamos a 1889. Não sabia que o Brasil está prestes a se tornar uma teocracia, o que justificaria a afirmação da condição laica do estado. Nem a Turquia, sob permanente ameaça de se transformar numa ditadura islâmica, precisa chegar a tanto.

Ah, é que Lulinha, vocês sabem, acredita na "reçiprossidade". Lembram-se quando passamos a dar aos americanos o tratamento que os americanos davam a qualquer estrangeiro quando entrava em seu país por causa das leis antiterror? Como o papa, na quarta, reafirmou que a Igreja é contrária ao aborto logo na chegada — o que ele fala em qualquer país do mundo —, o Apedeuta se sentiu agravado. “Çi o papa mi provoca, intão eu provoco o papa”. É isso aí, sabichão. Lula também não fez a genuflexão que muitos chefes de Estado fazem mundo afora diante do Sumo Pontífice — FHC fez diante de João Paulo 2º, por exemplo. Ah, não: ou o papa se ajoelha aos pés de Lula, ou ele não se ajoelha aos pés do papa. Numa cerimônia de lava-pés, o Babalorixá enfiaria o pezão na cara do primeiro que lhe aparecesse à frente. Imaginem esse homem lavando os pés dos humildes...

É claro que tudo isso é vergonhoso, vexaminoso para nós, e expõe o grau de primitivismo político em que estamos nos atolando. O setor da imprensa que faz o papel de porta-voz do governo nem mesmo se ocupa de indagar de onde vêm os números que o governo põe na praça sobre os abortos clandestinos. Seriam mais de 1 milhão por ano. Como são coletados esses dados? O serviço público de saúde teria 220 mil intervenções por ano decorrentes de abortos feitos em condições precárias. De onde vêm essas notificações? Há distinção entre espontâneos e provocados? O sistema público de saúde tem condições de absorver essa demanda de 1 milhão? Quanto custaria? Mais: uma vez legalizada a prática, não é razoável pensar que cresceria o número de solicitações? Todos os médicos que trabalham na rede oficial de saúde aceitariam fazer a intervenção? Eles poderiam alegar a exceção ética, religiosa ou de consciência?

Temporão diz ainda que o aborto só não é legalizado porque não é o homem que engravida. Notável juízo! É ele nada menos do que o maior defensor de que se faça um plebiscito no país para decidir a questão. Os homens vão votar, ou a sua participação nessa escolha já estaria marcada pela ilegitimidade? Temporão lê este blog. Se quiser, pode me enviar as respostas. Eu as publicarei aqui. Reitero o que já disse: que se faça o plebiscito, ora essa. Se o governo acha isso tão necessário, que tenha a coragem de assumir a proposta. Uma vez definido — só não vale manipular a pergunta —, a campanha terá início. Se a causa é tão justa e popular, estou ansioso para ver a cara dos seus defensores na televisão. Temporão vai falar? Lula vai falar? Até agora, eles não disseram o que pensam. No programa Roda Viva, perguntei se Temporão era contra ou a favor. Ele não me disse. Eu iria lhe fazer outra pergunta, mas não houve tempo: já que ele é médico, faria um aborto ou deixa a tarefa para seus colegas? Essa resposta ele também pode me enviar se quiser.

A quem fala o papa
O argumento mais vulgar a favor da mudança da lei sustenta que ela facultará o que chamam de “direito”, mas não obrigará ninguém a nada. É verdade. Ora, adiante com a luta, rapazes. A Igreja Católica é contra. Por que vocês precisam do aval do Vaticano para uma prática contrária a um fundamento da instituição? Não terão. Uma campanha poderá mudar a opinião de mais de dois terços dos brasileiros? Tentem a sorte. Se esse é o argumento central no que concerne à liberdade de escolha, permitam que a Igreja também faça a sua. Afinal, como disse aquela embaixadora, Igreja e estado, no Brasil, são independentes.

Notei também o escândalo de certos setores com a aprovação de Bento 16 à excomunhão no México. O deputado José Genoino (PT-SP) — aquele que já tentou fazer guerrilha no Brasil e que presidia o PT no tempo dos “recursos não-contabilizados” de Delúbio (irmão do outro cujo assessor usa a cueca como casa de câmbio) — é autor de um projeto que dá à mulher o direito de decidir se aborta ou não. Olhem que coisa: Genoino não é católico, mas considera essa posição de Bento 16 “intolerante”. E reflete, com a mesma fineza teórica de sempre: “Defendo o estado laico. A Igreja tem de ser tolerante com os que têm opinião divergente de seus preceitos". Perfeitamente, deputado. Porque o estado é laico, independente da Igreja, ela aceita nos seus quadros apenas os que estão de acordo com seus princípios.

Excomunhão
Ninguém é obrigado a ser católico, é? Se estivéssemos, por exemplo, na Arábia Saudita, seria chato não querer ser islâmico. Mais do que chato: seria perigoso. Se alguém tivesse tal intenção, teria de ficar bem quietinho. Ou, no mínimo, iria levar umas varadas da polícia religiosa, que pode atacar qualquer mulher desacompanhada ou cujos trajes não sejam considerados adequados — ainda que na companhia do seu “dono”.

Ninguém nasce católico também. A pessoa se torna católica pelo batismo. Tem, ao longo da vida, a chance de reafirmar ou não a sua fé. Pode deixar o rebanho da Igreja. Para permanecer nele, há alguns preceitos fundamentais a seguir. Ora, se o catolicismo está, como querem, em declínio; se seus fundamentos morais são considerados incompatíveis com a vida moderna; se alguém pretende fazer proselitismo do que, para a Igreja, é abominável, que a deixe então — ou que seja deixado por ela. Quando o papa acena com a excomunhão para os que fazem a defesa do aborto, lembra que o católico tem um conjunto de princípios.

Trata-se por acaso, deputado Genoino, de tolher a cidadania ou os direitos de alguém? Qual é o prejuízo objetivo do “cidadão”? Fiquem tranqüilos: a excomunhão não é pior do que a perda da vergonha na cara ou a exposição da moralidade no estágio da cueca — especialmente para quem demonstra sinais explícitos de inconformidade com os “preceitos”.

Onde estão os intolerantes?
A presença suave, mas muito firme, de Bento 16 no Brasil está evidenciando onde estão, de fato, os intolerantes. O papa reafirmou todos os princípios da Igreja, inclusive no seu encontro com jovens no Pacaembu — sim, disse quais são as interdições que constituem a moralidade católica —, sem deixar de lado (veja mensagem nesta página) o aspecto acolhedor da Igreja Católica, que também abraça os pecadores. Para um católico, o arrependimento não é uma pena, mas uma forma de liberdade. Porque há a chance do perdão — e convém, claro, que o cristão não se transforme num pecador contumaz, que faz do perdão uma graça viciosa.

Intolerantes são aqueles que querem proibir o chefe da Igreja Católica de dirigir a sua palavra de fé aos... católicos! Intolerantes são aqueles que pretendem que o líder de uma religião troque seus princípios pelo tubo de ensaio de um cientista ou pela moral da conveniência de certa política. O governo que tenha a coragem de fazer o que achar melhor. Os católicos dirão o que pensam. Acho que isso, ao menos, eles podem, não? Nem que seja por enquanto

01/05/2007

Ratzinger defende Bento XVI

Nota: Entro atrasadíssimo na discussão do suposto elogio a Marx, feito por Bento XVI. Primeiro, porque muita gente muito mais competente que eu já opinou sobre o assunto. Segundo, porque quase tudo já foi dito. Contudo, ninguém deixou o Cardeal Ratzinger falar a favor do papa, pelo menos que eu tenha visto. É o que eu pretendo fazer agora: deixar um defender o outro.

Ratizinger, de quebra, faz uma firme crítica à teologia da libertação. Aquela professada por D. Pedro Casaldaliga, a quem o Prof. Aquino dura e corretamente criticou, recentemente.

O excerto abaixo foi extraído do livro do Cardeal Ratzinger intitulado “Introdução ao Cristianismo”, escrito na década de 1960 e reeditado já em 2000. Tenho uma edição das Edições Loyola que contém um prefácio especial do cardeal para recolocar a obra no contexto do século XXI. É deste prefácio que extraio o trecho abaixo. Os negritos são meus.


Durante mais de uma década, a teologia da libertação parecia indicar a nova direção na qual a fé haveria de tornar-se novamente formadora do mundo porque se unia de uma nova maneira com as descobertas e injunções do momento histórico. Não se pode negar que havia na América Latina em grau assustador problemas como a opressão, dominação injusta, concentração de propriedade e poder nas mãos de poucos e exploração dos pobres, nem havia como negar a necessidade de ação. E como se tratasse de países com maioria católica não podia haver dúvidas de que a Igreja tinha responsabilidades a cumprir e que a fé precisava comprovar a sua eficácia como elemento de justiça. Mas de que maneira? Pareceu então ser Marx o grande guia. Cabia agora a ele o papel que, no século XIII, tinha sido de Aristóteles; a sua filosofia pré-cristã (e portanto “pagã”) precisou ser batizada para que a fé e a razão pudessem encontrar a sua relação correta. Mas quem aceita Marx (em qualquer uma das variantes neomarxistas) como o representante de uma razão universal não adota simplesmente uma filosofia, uma visão da origem e do sentido da existência, assume sobretudo uma prática. Porque essa “filosofia” é essencialmente uma “práxis” que cria verdade, em vez de pressupô-la. Quem faz de Marx o filósofo da teologia aceita a primazia dos elementos político e econômico que passam a ser as verdadeiras forças da salvação (e quando mal empregados, as forças da desgraça): nessa perspectiva, a salvação do ser humano é realizada pela política e pela economia que determinam a face do futuro. A supremacia da práxis e da política significa sobretudo que Deus não é visto como “prático”. A “realidade” a ser considerada era somente a realidade material dos dados históricos que precisava ser compreendida e refundida com os recursos adequados, entre os quais era indispensável também a violência. Nessa perspectiva, falar de Deus não fazia parte nem da prática nem da realidade. Era um discurso que devia ser adiado, pelo menos, até que o mais importante estivesse realizado. O que ficou foi a figura de Jesus, só que este já não era visto com o Cristo e sim como a personificação dos sofredores e oprimidos e com a voz deles que clama por mudança, pela grande modificação. O que havia de novo em tudo isso era o programa de mudar o mundo que, em Marx, não é concebido apenas como ateísta, mas também como anti-religioso, e que agora era recheado de paixão religiosa e assentado em bases religiosas: numa nova leitura da Bíblia (sobretudo do Antigo Testamento) e numa liturgia que era celebrada como antecipação simbólica da revolução e com preparação para ela.

É preciso admiti-lo: com essa síntese estranha, o cristianismo voltara a se mostrar à opinião pública mundial com uma mensagem que “marcou época”. Não surpreende que os países socialistas recebessem o movimento com simpatia. O que causa maior estranheza é que a teologia da libertação tenha-se transformado na coqueluche da opinião pública mesmo nos países “capitalistas”, a ponto de qualquer objeção ser encarada como um verdadeiro atentado contra o humanitarismo e a humanidade, naturalmente com a ressalva de que ninguém queria ver aplicadas as instruções práticas em sua própria esfera, em que se imaginava já ter atingido uma ordem social justa. É inegável que nas diversas teologias de libertação havia também um grande número de percepções dignas de consideração. Mas todos esses projetos tiveram que renunciar à sua imagem de síntese histórica entre o cristianismo e o mundo no momento em que desmoronou a fé na política como força salvítica. É verdade que o ser humano é um “ser político”, como disse Aristóteles, só que ele não pode ser reduzido à política e à economia. Vejo o problema verdadeiro e mais profundo das teologias da libertação na ausência de fato da idéia de Deus, o que acabou afetando naturalmente de modo decisivo também a figura de Cristo (fato ao qual já aludimos anteriormente). Não que se tenha negado a existência de Deus – de modo algum. Ele apenas era dispensável na “realidade” que exigia toda a atenção. Carecia de função.

22/04/2007

Traduções para o MSM: Atualização (Sowell)

Quem quiser se desintoxicar das besteiras que a mídia brasileira fala sobre aquecimento global, trombeteando o que a ONU e os globalista arrotam, leiam os 4 artigos abaixo e, sobretudo, passe-os aos seus filhos, como antídoto da doutrinação das escolas e universidades do país.

Atmosfera quente – Parte I

Atmosfera quente – Parte II

Atmosfera quente – Final

A fraude do aquecimento global


Se alguém disser que sabe Economia mas não concordar com o que Sowell fala nesses 3 artigos é um mentiroso deslavado. O que ele sabe é embromação marxista. Esses artigos valem por muitas aulas de Economia, em muita universidade famosa.


Política não tem preço – Parte I

Política não tem preço – Parte II

Política não tem preço – Final


05/04/2007

Ateus solitários da Aldeia Global - Final

Michael Novak


Segunda: O Peso do Pecado. Levou alguns anos até que eu entendesse que, tal como algumas pessoas não têm ouvido para música, outras (como descreveu Friederick Hayek) “não têm ouvido para Deus”. Outros ainda dizem que não têm “necessidade” de Deus. Eles não sentem nenhum vazio interior em que Deus pudesse se encaixar. Parece-me, ademais, uma das bênçãos do ateísmo que ele anule qualquer sentimento de Julgamento, qualquer impressão de que os atos de alguém possam ofender um Amigo, qualquer consciência do pecado. O “pecado” parece, de fato, um restolho de uma época, há muito, passada. Beati voi! Eu gostaria de exclamar aos ateus: sorte sua!

“No coração do cristianismo está o pecado”, disse, certa vez, um grande cristão. Alguns têm a consciência de fazer coisas que não deviam e de deixar de fazer outras que deviam. Somos conscientes do pecado contra nossa própria consciência – fazendo deliberadamente o que sabemos ser errado, por fraqueza ou por um forte desejo que esteja ainda fora do controle. Posteriormente, às vezes, sentimos remorsos de tanto que nos dói o que fizemos – e mesmo assim, o que foi feito, está feito e nada que fizermos pode apagar nosso erro. E, às vezes, nosso erro é vergonhosamente grave.

Foi sobre essa experiência virtualmente universal que Jesus, como João Batista antes dele, inicialmente falou a seus ouvintes. “Arrependam-se! Façam penitência. Decidam não mais pecar” (Mesmo que a probabilidade de voltar a pecar seja alta; tal como um homem manco que apesar de ter sido curado, sabe que, a qualquer momento, seu joelho pode falhar novamente.)

Cristianismo nada tem a ver com arrogância moral. Ele tem a ver com realismo moral e humildade moral. Onde quer que você veja pessoas cheias de si condenando os outros e inconscientes de seus próprios pecados, você não está na presença de um cristão alerta, mas de um pedante enganador. Foi, na realidade, uma grande revolução na história humana quando o Deus cristão e judeu revelou-Se como alguém que enxerga diretamente o que vai pelas consciências e não é ludibriado por atos externos. (Os filósofos pagãos na Grécia e Roma podem ou não ter levado os deuses a sério, mas eles não tinham vergonha de mostrar pietas em ritos religiosos, sem nenhuma preocupação com a consciência.) O respeito bíblico pela consciência dignifica e honra grandemente os atos interiores de reflexão, comprometimento e escolha. Ele desviou um forte raio de atenção do ato externo para o ato interior de consciência. Ele dignificou enormemente a veracidade e a humildade. Finalmente, a obrigação interior de consciência para com o Criador se tornou o fundamento da liberdade religiosa – que nenhum outro poder se atreva a interferir com essa obrigação primeira para com Deus, que é antecedente à sociedade civil, ao estado, à família, e a qualquer outra instituição. (Ver “Estatuto da Liberdade Religiosa”, 1785, de Jefferson.)

Terceira: O Fio Dourado e Brilhante da História Humana. Na libertação dos judeus do Império Seleucido (celebrada no Hanukkah), do Egito (celebrada na Páscoa) e da Babilônia (celebrada na poesia dos profetas de Israel), a liberdade é o tema principal do Velho Testamento. Cada história nesse Testamento tem como seu eixo a arena da vontade humana e as decisões aí tomadas (ocultas ou externas). Assim, para a religião bíblica, liberdade é o fio dourado da história humana. Essa concepção de liberdade é realizada internamente no recesso da alma e também, institucionalmente, em todas as sociedades e políticas.

Nenhuma outra religião, exceto o cristianismo e o judaísmo, coloca a liberdade de consciência tão perto do centro da vida religiosa. Por exemplo, o Islam tende a pensar Deus em termos de vontade divina, muito longe da natureza e da lógica. Independentemente da razão, tudo que Allah deseja, se realiza. O judaísmo e o cristianismo tendem a pensar Deus como Logos, luz, fonte de toda lei e da inteligibilidade de todas as coisas. Essa diferença na concepção fundamental de Deus altera, também, a concepção fundamental de cada religião com relação ao ser humano: compreensão ou submissão.

Quarta: O Razão do Cosmos é Amizade. Se alguma vez lhe ocorreu perguntar, mesmo que você seja ateu, por que Deus criou este vasto, silencioso, virtualmente infinito cosmos, você deve ter descoberto que a melhor resposta é, numa única palavra, “amizade”. De acordo com as Escrituras, inteligentemente lidas, o Criador fez o homem um pouco inferior aos anjos e um pouco mais complexo que os outros animais. Ele fez os seres humanos suficientemente conscientes e racionais para que eles pudessem se maravilhar com o que Ele tinha criado e agradecê-Lo. E, ainda mais importante, Ele criou os seres humanos para oferecê-los, em sua liberdade, Sua amizade e companhia. Se não há liberdade, não há amizade.

Amizade não é a única forma bíblica de pensar sobre a relação entre Deus e o homem; também é uma boa forma imaginar o futuro de nossa nação e do mundo para o qual devemos trabalhar. Dessa visão, o judaísmo e o cristianismo oferece ao mundo uma forma de medir o progresso ou o declínio. William Penn chamou sua capital de “Philadelphia” e fez da liberdade de religião seu princípio fundamental. Mesmo os ateus da Revolução Francesa nomearam seus princípios “Liberdade, Fraternidade, Igualdade” – cada um deles é um termo que deriva não dos gregos ou romanos, mas da religião bíblica. Uma civilização mundial constituída sobre a mútua amizade é um poderoso imã, e uma medida realista. Amizade não requer uniformidade. Ao contrário, sua demanda fundamental é o respeito mútuo, desejando o bem do outro como outro. Ela faz nascer um desejo de conversar – de uma forma razoável, sobre as diferenças de ponto de vista, de expectativas – e um senso de responsabilidade prática.


ALGUMAS DIFERENÇAS ENTRE O CRISTIANISMO E O ATEÍSMO

Reconheço que o horizonte cristão esboçado acima, em rápidas pinceladas, pode parecer absurdo para ateus como Dawkins, Dennett e Harris. Eles podem procurar, em vão, por evidências empíricas, do tipo que eles são capazes de reconhecer como evidências, de que esse esboço de Deus e do homem possa ter, minimamente, um contato com a realidade que eles conhecem. Por outro lado, não é difícil para um cristão bem intencionado se colocar no lugar de um ateu e ver o mundo como os ateus o vêem. Os quatro princípios do paradigma esboçados acima – amizade, liberdade, o perdão dos pecados e a aceitação da absurdidade – não excluem o ponto de vista ateu. De fato, aprende-se muito sobre cada princípio com os escritos de ateus, incluindo Sartre, Camus, Silone, Moravia, Dewey, Sêneca, Aristóteles e milhares de outros. O cristianismo parece ser mais capaz de compreender e simpatizar com os ateus do que estes com o cristianismo. Senão por outras razões, os três livros aqui resenhados mostram o quanto é difícil para os ateus contemporâneos (da escola científica) mostrar alguma simpatia pelo modo cristão de ver a realidade. Como um pouco acima de dois bilhões de pessoas são, atualmente, cristãs – aproximadamente uma a cada três pessoas – a inabilidade dos ateus contemporâneos de compreender os sentimentos de tantos companheiros – da breve viagem de uma única vida humana – parece ser uma grave deficiência humana.

Repetindo, não é difícil para um cristão sério “vestir” o ponto de vista, os métodos e as disciplinas da biologia evolucionária. Milhares de alunos universitários fazem isso a cada ano. Tem-se apenas que limitar a atenção e a compreensão ao que essa disciplina conta como evidência e rigor metodológico. Tem-se que conhecer seus conceitos e axiomas importantes. Tem-se que se limitar ao ponto de vista e às questões formuladas (não adianta formular questões que vão além do estrito limite imposto pela própria disciplina.) Se você dá conta de viver dentro desses limites, tanto melhor.

A arte de fazer isso não é diferente de aprender a pensar como um grego antigo, ou para os católicos, de aprender ver as coisas como um batista, um luterano e um presbiteriano, ou para este último se colocar, provisoriamente, no lugar de um católico. A forma estranha de Dawkins, Dennett e Harris de entender a vida humana é algo que um crente sensível deve necessariamente aprender, cedo ou tarde. Não se pode imaginar que se passe por um curso em Harvard, que se lecione em Stanford ou outra universidade, sem aprender como pensar, falar e trabalhar dentro do horizonte, pontos de vista, método e disciplinas de um ateu.

Tampouco essa arte é somente o produto de nossa era moderna e pluralística. O jovem Tomas de Aquino, com seus vinte anos, foi um dos primeiros homens no Ocidente a ter em suas mãos uma tradução autêntica de diversos livros de Aristóteles, cujas versões originais gregas estavam perdidas havia milhares de anos. Como seus comentários linha-a-linha de alguns desses livros mostram, Aquino dominou completamente o ponto de vista muito diferente do seu. Não muitos anos depois, ele teve de fazer o mesmo ao ler al-Farabi, Avicena, Averroes e outros grandes filósofos árabes.

E assim, quando um leitor cristão se defronta com o argumento do prof. Dawkins de que Deus não existe, porque todas as coisas mais inteligentes vem somente ao final do processo evolucionário, não no princípio, o primeiro reflexo do cristão é cair na gargalhada – mas como um estudante atento, ele também está obrigado a observar que, sim, do ponto de vista da biologia evolucionária, deve ser assim. O argumento pode não ser intelectualmente ou filosoficamente satisfatório; quando suas implicações práticas são comparadas com aquelas do ponto de vista cristão, a biologia evolucionária pode não ser atrativa como uma forma de vida. Se se quer ser um biólogo evolucionário, no entanto, deve-se aprender a se confinar dentro das disciplinas que o campo impõe.

Do ponto de vista do catolicismo romano pelo menos, não há dificuldade em aceitar todos os descobrimentos da biologia evolucionária e, ao mesmo tempo, não aceitar a biologia evolucionária senão como uma ciência empírica – ou seja, não como uma filosofia da existência, uma metafísica, uma completa visão da vida humana. É mais fácil para o cristianismo absorver muitas, muitas descobertas do mundo contemporâneo – da ciência à tecnologia, política, economia e arte – do que para aqueles cujo ponto de vista está confinado à era contemporânea absorver o cristianismo. Essa é apenas uma das razões pelas quais podemos esperar que o último sobreviverá à primeira.

É obvio que pelo menos Dawkins é muito consciente das limitações convencionais do ateísmo científico. Ele escreve que “uma resposta quase-mística à natureza e ao universo é comum entre os cientistas e racionalistas. Isso não tem conexão com uma crença sobrenatural.” Umas poucas páginas de seu livro, em quase todas as seções, são escritas para mostrar como o ponto de vista ateu pode satisfazer o que até agora tem sido considerado aspiração religiosa. O ateísmo tem, também, diz ele, suas consolações, suas fontes de inspiração, sua consciência da beleza, seu senso de espanto. Para tais satisfações, não há necessidade de se voltar para a religião. Dawkins faz um bom trabalho em restaurar, para a vida do ateísmo científico, a resposta subjetiva, emocional, de espanto para com a beleza. Para Dawkins, o ateísmo científico é humanístico, um passo significativo para além do positivismo lógico estéril de duas ou três gerações passadas.


... OU TUDO É PERMITIDO

Mas o ateísmo tem uma limitação mais grave, uma limitação que se revela nas ações de seus proponentes. Uma de minhas partes favoritas do livro de Sam Harris é sua tentativa de minimizar os horrores dos regimes autodeclarados ateus na história moderna: o fascismo na Itália, o nazismo na Alemanha e o comunismo na União Soviética. Nunca na história tantos cristãos foram mortos, torturados, levados a morte por marchas forçadas e presos em campos de concentração. Uma proporção ainda maior de judeus sofreu mais sob os mesmos regimes, particularmente o nazista, do que em qualquer outro tempo na história. A desculpa que Harris apresenta é muito fajuta. Primeiro ele dirige a atenção do caráter declarado do regime, para as personalidades de Hitler, Mussolini e Stalin: “Ao mesmo tempo em que é verdade que tais homens são às vezes inimigos da religião organizada, eles nunca são especialmente racionais. De fato, seus pronunciamentos públicos são freqüentemente psicóticos ... O problema com tais tiranos não é que eles rejeitem o dogma da religião, mas que eles abraçam outros mitos mortais.”

Em outras palavras, ateus psicóticos não são, na realidade, ateus. Será que Harris aceitaria uma alegação dos cristãos de que os maus cristãos não são, na realidade, cristãos? O problema real não é que aqueles tiranos rejeitam o “dogma” da religião, mas que eles se lambuzam com a carnificina permitida pelo relativismo radical de todas as coisas. E eles são confortados pela “lei natural” que absorvem do darwinismo old-fashioned: que o mais forte deve sobreviver e o mais fraco perecer.

Nossos autores podem rejeitar o argumento de que o ateísmo está associado ao relativismo. No entanto, o argumento mais comum contra se confiar no ateísmo é de Dostoevsky: “Se não há Deus, tudo é permitido.” Não haverá nenhum Juiz das ações e das consciências; ao final, é cada um por si. Certamente, alguns ateus “de um caráter particular” e detentores de distinções acadêmicas, que foram criados com hábitos inculcados por culturas religiosas do passado, podem se dar ao luxo de viver, por duas ou três gerações, de maneira indistinguível da dos modestos cristãos e judeus. Esses indivíduos continuam honestos, compassivos, comprometidos com a igualdade de todos e firmes crentes no “progresso” e “irmandade”, tempos depois de terem repudiado a justificativa original para tal lista de virtudes. Mas, cedo ou tarde, uma geração pode aparecer que leve a sério a metafísica do ateísmo. Isso foi o destino de uma nação altamente culta da Europa de nosso tempo.

Lembremos do pronunciamento de despedida de George Washington:

"Permitamo-nos com cautela supor que a moralidade possa ser mantida sem a religião. Qualquer que seja a importância que se dê à influência da educação refinada nas mentes individuais, tanto a razão quanto a experiência nos proíbem de esperar que a moralidade nacional possa prevalecer, com a exclusão do princípio religioso."

Se a moralidade fosse deixada sob a responsabilidade da razão apenas, nunca chegaríamos a acordos, pois os filósofos veementemente – e interminavelmente – discordam uns dos outros e a grande maioria deles hesitaria na ausência de sinais morais claros. Ademais, em momentos de tensão, grandes intelectuais do nível de um Heidegger e vários precursores do pós-modernismo (notavelmente o desconstrucionista Paul de Man) demonstraram uma vergonhosa adaptação aos imperativos do nazismo ou do comunismo.

Dawkins tenta se desviar dessa falha na visão neo-darwinista do acaso e da seleção natural cega, enumerando quatro razões para o altruísmo, fundadas na biologia evolucionária:

"Primeira, há o caso especial de parentesco genético. Segunda, há a reciprocidade: o pagamento de favores recebidos, e os favores feitos em “antecipação” de pagamento ... Terceira, o benefício darwniano de adquirir uma reputação de generosidade e gentileza. E quarta, há o benefício particular adicional da generosidade pública como uma forma autêntica de propaganda."

A essas razões baseadas na natureza do egoísmo, os judeus e cristãos poderiam adicionar três ou quatro. Primeira, não amar o próximo é desapontar o Criador que deseja que sejamos Seus amigos. Segunda, seria uma falha em nossa imitação do Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos determinou que O seguíssemos. Terceira, a experiência confirma que o amor aos outros está de acordo com nossa natureza comunal, começando na família, mas irradiando através da política e da economia. (Adam Smith referia-se a essa lei superior como “simpatia”.) Quarta, não há dúvida de que todo mandamento cristão tem um fundamento na natureza, mas tende a tencionar a natureza ao seu limite. A fé cristã não rejeita, mas se fundamenta na natureza, adiciona coisas a ela, a leva a uma perfeição mais rica.

Finalmente, nossos três autores não demonstram capacidade de reflexão cuidadosa sobre o que os judeus e cristãos realmente têm a dizer sobre Deus. A própria concepção atéia deles a respeito de Deus é uma caricatura, um busto horroroso que qualquer um sentirá o dever de rejeitar. Dawkins ridiculariza um Deus onisciente que também seja livre. Se um Deus onisciente sabe agora de Suas ações no futuro, como isso deixa espaço para que Ele mude de idéia – e como isso O faz onipotente? Não está Ele preso num torno? Mas, claro, isso é o mesmo que imaginar Deus vivendo no tempo, tal com Dawkins vive no tempo. É não conseguir perceber a diferença entre um ponto de vista desde a eternidade, fora do tempo, e um ponto de vista desde dentro do tempo. Isso é também uma incapacidade de perceber a liberdade que a Causa Primeira, fora do tempo (simultânea a todo instante de tempo) pode permitir, dentro do tempo, aos papéis das causas segundas, das contingências e dos particulares.

A vontade de Deus não é anterior às decisões humanas. É simultânea a elas e, assim, permite que elas aconteçam. Quando os católicos celebram o sacrifício da Missa, por exemplo, imaginamos que nosso momento de participação nessa Missa – como em cada outro momento de nossas vidas – é, aos olhos de Deus, simultâneo com a sangrenta morte de Seu Filho no Calvário. Aos nossos olhos, parece uma “encenação”, mas aos olhos de Deus ambos os momentos são um único. Sem dúvida, para alguns isso é excessivamente místico, e sua filosofia subjacente excessivamente sofisticada, especialmente para aqueles de gostos literais e puramente empíricos. Nossos três autores, de qualquer forma, apresentam uma idéia muito primitiva de Deus. Se nós tivéssemos tal visão, seríamos também, quase certamente, ateus.

O mundo interior de alerta e autoquestionamento das pessoas religiosas parece ser um território inexplorado por nossos autores. Em torno deles estão milhões de pessoas que despendem muitos momentos a cada dia (e horas a cada semana) em comunhão com Deus. Apesar disso, dessa parte interior e silenciosa dessas vidas – e por que esse silêncio interior toca aqueles que o considera verdadeiro, e parece mais real do que qualquer coisa em suas vidas – nossos escritores parecem inconscientes. Certamente, se nossos amigos ateus fossem reconsiderar seus métodos, e aprofundar sua compreensão de termos como “experiência” e “empírico”, eles poderiam chegar próximo a se colocarem no lugar de seus muitos companheiros religiosos, que consideram o teísmo mais satisfatório intelectualmente – menos autocontraditório, menos alienante de sua própria natureza – do que o ateísmo.

A única forma de os seres humanos chegarem a compreender uns aos outros é pelo aprendizado de se colocar no lugar do outro. Se essa máxima de Habermas é verdadeira, podíamos desejar que nossos três autores tivessem feito mais para diminuir o grande fosso que separa o crente do incréu no nosso tempo presente. Mesmo assim, devemos ser gratos que nossos autores tenham aberto uma janela na alma dos ateus, de tal forma que podemos, o resto de nós, entender melhor o que é o mundo do ponto de vista deles – e mesmo nos ver, por breves momentos, como eles nos vêem.


Ver também "Ateus solitários da Aldeia Global" - Parte I, Parte II, Parte III e Parte IV

01/04/2007

Por que sou católico

G. K. Chesterton


Notas do tradutor:

1. Tenho sempre me defrontado com esta pergunta, feita por alguém: “Por que você é católico?” Como somos obrigados a dar satisfação sobre a fé que nos anima (os cristãos devem estar ‘‘sempre prontos a satisfazer a quem quer que lhes peça razões da esperança que os anima’’(1 Ped 3,15)), tenho sempre algumas respostas-padrão. Resolvi, contudo, traduzir este soberbo texto de Chesterton sobre suas razões para ter sido católico, que tomo como orientação para minhas próprias respostas.

2. Quem conseguir ler em inglês, não perca tempo com minha tradução. Em muitos sentidos, é impossível traduzir Chesterton. Ele é um mestre com as palavras e este pobre tradutor não dá contra disso em nosso idioma. O link para o artigo em inglês se encontra ao final da tradução.

3. É interessante ler este artigo em conjunto com outro: Por que acredito no cristianismo, já traduzido neste blog.

4. Claro, temos um Chesterton brasileiro. Ele se chama Gustavo Corção. Não deixe de lê-lo, sobretudo, Três alqueires e uma vaca, onde Corção fala de Chesterton.



A dificuldade em explicar “Por que eu sou Católico” é que há dez mil razões para isso, todas se resumindo a uma única: o catolicismo é verdadeiro. Eu poderia preencher todo o meu espaço com sentenças separadas, todas começando com as palavras, “É a única coisa que ...” Como, por exemplo, (1) É a única coisa que previne um pecado de se tornar um segredo. (2) É a única coisa em que o superior não pode ser superior; no sentido da arrogância e do desdém. (3) É a única coisa que liberta o homem da escravidão degradante de ser sempre criança. (4) É a única coisa que fala como se fosse a verdade; como se fosse um mensageiro real se recusando a alterar a verdadeira mensagem. (5) É o único tipo de cristianismo que realmente contém todo tipo de homem; mesmo o respeitável. (6) É a única grande tentativa de mudar o mundo desde dentro; usando a vontade e não as leis; etc.

Ou posso tratar o assunto de forma pessoal e descrever minha própria conversão; acontece que tenho uma forte impressão de que esse método faz a coisa parecer muito menor do que realmente é. Homens muito melhores, em muito maior número, se converteram a religiões muito piores. Preferiria tentar dizer, aqui, coisas a respeito da Igreja Católica que não se podem dizer mesmo sobre suas mais respeitáveis rivais. Em resumo, diria apenas que a Igreja Católica é católica. Preferiria tentar sugerir que ela não é somente maior que eu, mas maior que qualquer coisa no mundo; que ela é realmente maior que o mundo. Mas, como neste pequeno espaço, disponho apenas de uma pequena seção, abordarei sua função como guardiã da verdade.

Outro dia, um conhecido escritor, muito bem informado em outros assuntos, disse que a Igreja Católica é uma eterna inimiga das novas idéias. Provavelmente não ocorreu a ele que sua própria observação não é exatamente uma nova idéia. É uma daquelas noções que os católicos têm de refutar continuamente, porque é uma idéia muito antiga. Na realidade, aqueles que reclamam que o catolicismo não diz nada novo, raramente pensam que seja necessário dizer alguma coisa nova sobre o catolicismo. De fato, o estudo real da História mostrará que isso é curiosamente contrário aos fatos. Na medida em que as idéias são realmente idéias, e na medida em que tais idéias são novas, os católicos têm sofrido continuamente por apoiarem-nas quando elas são realmente novas; quando elas eram muito novas para encontrar alguém que as apoiasse. O católico foi não só o pioneiro na área, mas o único; e até hoje não houve ninguém que compreendesse o que se tinha descoberto lá.

Assim, por exemplo, quase duzentos anos antes da Declaração de Independência e da Revolução Francesa, numa era devotada ao orgulho e ao louvor aos príncipes, o Cardeal Bellarmine e Suarez, o Espanhol, formularam lucidamente toda a teoria da democracia real. Mas naquela era do Direito Divino, eles somente produziram a impressão de serem jesuítas sofisticados e sanguinários, se insinuando com adagas para assassinarem os reis. Então, novamente, os casuístas das escolas católicas disseram tudo o que pode ser dito e que constam de nossas peças e romances atuais, duzentos anos antes de eles serem escritos. Eles disseram que há sim problemas de conduta moral, mas eles tiveram a infelicidade de dizê-lo muito cedo, cedo de dois séculos. Num tempo de extraordinário fanatismo e de uma vituperação livre e fácil, eles foram simplesmente chamados de mentirosos e trapaceiros por terem sido psicólogos antes da psicologia se tornar moda. Seria fácil dar inúmeros outros exemplos, e citar o caso de idéias que são ainda muito novas para serem compreendidas. Há passagens da Encíclica do Papa Leão sobre o trabalho [conhecida como Rerum Novarum, publicada em 1891] que somente agora estão começando a ser usadas como sugestões para movimentos sociais muito mais novos do que o socialismo. E quando o Sr. Belloc escreveu a respeito do Estado Servil, ele estava apresentando uma teoria econômica tão original que quase ninguém ainda percebeu do que se trata. E então, quando os católicos apresentam objeções, seu protesto será facilmente explicado pelo conhecido fato de que católicos nunca se preocupam com idéias novas.

Contudo, o homem que fez essa observação sobre os católicos quis dizer algo; e é justo fazê-lo compreender muito mais claramente o que ele próprio disse. O que ele quis dizer é que, no mundo moderno, a Igreja Católica é, de fato, uma inimiga de muitas modas influentes; muitas delas ainda se dizem novas, apesar de algumas delas começarem a se tornar um pouco decadentes. Em outras palavras, na medida em que diz que a Igreja freqüentemente ataca o que o mundo, em cada era, apóia, ele está perfeitamente certo. A Igreja sempre se coloca contra a moda passageira do mundo; e ela tem experiência suficiente para saber quão rapidamente as modas passam. Mas para entender exatamente o que está envolvido, é necessário tomarmos um ponto de vista mais amplo e considerar a natureza última das idéias em questão, considerar, por assim dizer, a idéia da idéia.

Nove dentre dez do que chamamos novas idéias são simplesmente erros antigos. A Igreja Católica tem como uma de suas principais funções prevenir que os indivíduos comentam esses velhos erros; de cometê-los repetidamente, como eles fariam se deixados livres. A verdade sobre a atitude católica frente à heresia, ou como alguns diriam, frente à liberdade, pode ser mais bem expressa utilizando-se a metáfora de um mapa. A Igreja Católica possui uma espécie de mapa da mente que parece um labirinto, mas que é, de fato, um guia para o labirinto. Ele foi compilado a partir de um conhecimento que, mesmo se considerado humano, não tem nenhum paralelo humano.

Não há nenhum outro caso de uma instituição inteligente e contínua que tenha pensado sobre o pensamento por dois mil anos. Sua experiência cobre naturalmente quase todas as experiências; e especialmente quase todos os erros. O resultado é um mapa no qual todas as ruas sem saída e as estradas ruins estão claramente marcadas, todos os caminhos que se mostraram sem valor pela melhor de todas as evidências: a evidência daqueles que os percorreram.

Nesse mapa da mente, os erros são marcados como exceções. A maior parte dele consiste de playgrounds e alegres campos de caça, onde a mente pode ter tanta liberdade quanto queira; sem se esquecer de inúmeros campos de batalha intelectual em que a batalha está eternamente aberta e indefinida. Mas o mapa definitivamente se responsabiliza por fazer certas estradas se dirigirem ao nada ou à destruição, a um muro ou ao precipício. Assim, ele evita que os homens percam repetidamente seu tempo ou suas vidas em caminhos sabidamente fúteis ou desastrosos, e que podem atrair viajantes novamente no futuro. A Igreja se faz responsável por alertar seu povo contra eles; e disso a questão real depende. Ela dogmaticamente defende a humanidade de seus piores inimigos, daqueles grisalhos, horríveis e devoradores monstros dos velhos erros. Agora, todas essas falsas questões têm uma maneira de parecer novas em folha, especialmente para uma geração nova em folha. Suas primeiras afirmações soam inofensivas e plausíveis. Darei apenas dois exemplos. Soa inofensivo dizer, como muitos dos modernos dizem: “As ações só são erradas se são más para a sociedade.” Siga essa sugestão e, cedo ou tarde, você terá a desumanidade de uma colméia ou de uma cidade pagã, o estabelecimento da escravidão como o meio mais barato ou mais direto de produção, a tortura dos escravos pois, afinal, o indivíduo não é nada para o Estado, a declaração de que um homem inocente deve morrer pelo povo, como fizeram os assassinos de Cristo. Então, talvez, voltaremos às definições da Igreja Católica e descobriremos que a Igreja, ao mesmo tempo que diz que é nossa tarefa trabalhar para a sociedade, também diz outras coisas que proíbem a injustiça individual. Ou novamente, soa muito piedoso dizer, “Nosso conflito moral deve terminar com a vitória do espiritual sobre o material.” Siga essa sugestão e você terminará com a loucura dos maniqueus, dizendo que um suicídio é bom porque é um sacrifício, que a perversão sexual é boa porque não produz vida, que o demônio fez o sol e a lua porque eles são materiais. Então, você pode começar a adivinhar a razão de o cristianismo insistir que há espíritos maus e bons; e que a matéria também pode ser sagrada, como na Encarnação ou na Missa, no sacramento do casamento e na ressurreição da carne.

Não há nenhuma outra mente institucional no mundo que está pronta a evitar que as mentes errem. O policial chega tarde, quando ele tentar evitar que os homens cometam erros. O médico chega tarde, pois ele apenas chega para examinar o louco, não para aconselhar o homem são a como não enlouquecer. E todas as outras seitas e escolas são inadequadas a esse propósito. E isso não é porque elas possam não conter uma verdade, mas precisamente porque cada uma delas contém uma verdade; e estão contentes por conter uma verdade. Nenhuma delas pretende conter a verdade. A Igreja não está simplesmente armada contra as heresias do passado ou mesmo do presente, mas igualmente contra aquelas do futuro, que podem estar em exata oposição com as do presente. O catolicismo não é ritualismo; ele poderá estar lutando, no futuro, contra algum tipo de exagero ritualístico supersticioso e idólatra. O catolicismo não é ascetismo; ele, repetidamente no passado, reprimiu os exageros fanáticos e cruéis do ascetismo. O catolicismo não é mero misticismo; ele está agora mesmo defendendo a razão humana contra o mero misticismo dos pragmatistas. Assim, quando o mundo era puritano, no século XVII, a Igreja era acusada de exagerar a caridade a ponto da sofisticação, por fazer tudo fácil pela negligência confessional. Agora que o mundo não é puritano mas pagão, é a Igreja que está protestando contra a negligência da vestimenta e das maneiras pagãs. Ela está fazendo o que os puritanos desejariam fazer, quando isso fosse realmente desejável. Com toda a probabilidade, o melhor do protestantismo somente sobreviverá no catolicismo; e, nesse sentido, todos os católicos serão ainda puritanos quando todos os puritanos forem pagãos.

Assim, por exemplo, o catolicismo, num sentido pouco compreendido, fica fora de uma briga como aquela do darwinismo em Dayton. Ele fica fora porque permanece, em tudo, em torno dela, como uma casa que abarca duas peças de mobília que não combinam. Não é nada sectário dizer que ele está antes, depois e além de todas as coisas, em todas as direções. Ele é imparcial na briga entre fundamentalistas e a teoria da Origem das Espécies, porque ele se funda numa origem anterior àquela Origem; porque ele é mais fundamental que o Fundamentalismo. Ele sabe de onde veio a Bíblia. Ele também sabe aonde vão as teorias da Evolução. Ele sabe que houve muitos outros evangelhos além dos Quatro Evangelhos e que eles foram eliminados somente pela autoridade da Igreja Católica. Ele sabe que há muitas outras teorias da evolução além da de Darwin; e que a última será muito provavelmente eliminada pela ciência mais recente. Ele não aceita, convencionalmente, as conclusões da ciência, pela simples razão de que a ciência ainda não chegou a uma conclusão. Concluir é se calar; e o homem de ciência dificilmente se calará. Ele não acredita, convencionalmente, no que a Bíblia diz, pela simples razão de que a Bíblia não diz nada. Você não pode colocar um livro no banco das testemunhas e perguntar o que ele quer dizer. A própria controvérsia fundamentalista se destrói a si mesma. A Bíblia por si mesma não pode ser a base do acordo quando ela é a causa do desacordo; não pode ser a base comum dos cristãos quando alguns a tomam alegoricamente e outros literalmente. O católico se refere a algo que pode dizer alguma coisa, para a mente viva, consistente e contínua da qual tenho falado; a mais alta consciência do homem guiado por Deus.

Cresce a cada momento, para nós, a necessidade moral por tal mente imortal. Devemos ter alguma coisa que suportará os quatro cantos do mundo, enquanto fazemos nossos experimentos sociais ou construímos nossas Utopias. Por exemplo, devemos ter um acordo final, pelo menos em nome do truísmo da irmandade dos homens, que resista a alguma reação da brutalidade humana. Nada é mais provável, no momento presente, que a corrupção do governo representativo solte os ricos de todas as amarras e que eles pisoteiem todas as tradições com o mero orgulho pagão. Devemos ter todos os truísmos, em todos os lugares, reconhecidos como verdadeiros. Devemos evitar a mera reação e a temerosa repetição de velhos erros. Devemos fazer o mundo intelectual seguro para a democracia. Mas na condição da moderna anarquia mental, nem um nem outro ideal está seguro. Tal como os protestantes recorreram à Bíblia contra os padres e não perceberam que a Bíblia também podia ser questionada, assim também os republicanos recorreram ao povo contra os reis e não perceberam que o povo também podia ser desafiado. Não há fim para a dissolução das idéias, para a destruição de todos os testes da verdade, situação tornada possível desde que os homens abandonaram a tentativa de manter uma Verdade central e civilizada, de conter todas as verdades e identificar e refutar todos os erros. Desde então, cada grupo tem tomado uma verdade por vez e gastado tempo em torná-la uma mentira. Não temos tido nada, exceto movimentos; ou em outras palavras, monomanias. Mas a Igreja não é um movimento e sim um lugar de encontro, um lugar de encontro para todas as verdades do mundo.


Disponível em inglês em Why I am a Catholic