17/08/2008

Assumpta est Maria in coelum

Enciclopédia Católica


A festa da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria em 15 de agosto, também chamada nos livros litúrgicos antigos Pausatio, Nativitas (para o céu), Mors, Depositio, Dormitio S. Marie.

Essa festa tem um duplo objetivo: (1) a alegre partida de Maria dessa vida; (2) a assunção de seu corpo ao céu. É a principal festa da Bem-aventurada Virgem.

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O fato da Assunção

A respeito do dia, ano e forma da morte de Nossa Senhora, nada de certo é conhecido. A referência literária mais antiga da Assunção é encontrada em um trabalho em grego: De Obitu S. Dominae. A fé católica, contudo, tem sempre extraído nosso conhecimento desse mistério da Tradição Apostólica. Epiphanius (403 d.C.) reconhece nada saber sobre o fato (Haer., lxxix, 11). As datas indicadas para a Assunção variam de 3 a 15 anos depois da Ascensão de Cristo. Duas cidades alegam ter sido o lugar da partida de Nossa Senhora: Jerusalém e Éfeso. O consenso parece indicar Jerusalém, onde seu túmulo é exposto; mas alguns argumentam em favor de Éfeso. Os primeiros seis séculos não conheceram seu túmulo em Jerusalém.

A crença na assunção corporal de Maria é baseada no tratado apócrifo De Obitu S. Dominae, que leva o nome de São João como autor, mas que pertence ao quarto ou quinto século. Essa crença é também encontrada no livro De Transitu Virginis, falsamente atribuído a São Melito de Sardis, e numa carta espúria atribuída a São Dionísio, o Areopagita. Se consultamos os escritos genuíno do Oriente, a Assunção é mencionada nos sermões de Santo André de Creta, São João Damasceno, São Modesto de Jerusalém e outros. No Ocidente, São Gregório de Tours (De gloria mart. , 1, iv) a menciona pela primeira vez. Os sermões de São Jerônimo e Santo Agostinho para essa festa, contudo, são espúrios. São João Damasceno (P;G., I, 96) assim formula a tradição da Igreja de Jerusalém:

São Juvenal, Bispo de Jerusalém, no Concílio da Calcedônia (451), fez conhecer ao Imperador Marciano e Pulcheria, que desejava possuir o corpo da Mãe de Deus, que Maria morreu em presença de todos os Apóstolos, mas que seu túmulo, quando aberto, por solicitação de São Tomás, estava vazio; de onde os Apóstolos concluíram que seu corpo foi levado para o céu”.

Hoje, a crença na assunção corporal de Maria é universal no Oriente e no Ocidente; segundo Bento XIV (De Festir B.V.M., I, viii, 18) essa é uma opinião provável, e que sua negação seria impiedosa e blasfema.


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A festa da Assunção

A respeito da origem da festa, não temos também certeza. É mais provável que a festa se originou do aniversário da consagração de alguma igreja do que o aniversário de morte de Nossa Senhora. Que a festa tenha se originado no tempo do Concílio de Éfeso, ou que São Damásio a introduziu em Roma, são apenas hipóteses.

Segundo Santo Teodósio (529 d.C.) a festa era celebrada na Palestina antes do ano 500, provavelmente em agosto (Baeumer, Brevier, 185). No Egito e Arábia, contudo, ela acontecia em janeiro, e como os monges da Gália adotaram muitos costumes dos monges do Egito (Baeumer, Brevier, 163), encontramos essa festa na Gália no século VI, em janeiro [mediante mense undecimo (Greg. Turon., De gloria mart., I, ix)]. A Liturgia Gaulesa comemora a data em 18 de janeiro, sob o título: Depositio, Assumptio, ou Festivitas S. Mariae (cf. a nota de Mabillon sobre a Liturgia Gaulesa, P. L., LXXII, 180). Esse costume foi mantido na Igreja gaulesa até a introdução do Rito Romano. Na Igreja grega, assim parece, alguns mantiveram a festa em janeiro, como os monges do Egito; outros em agosto, como aqueles da Palestina; assim o Imperador Maurice (602 d.C.), se a descrição do Liber Pontificalis (II, 508) estiver correta, determinou a data da festa em 15 de agosto para o Império Grego.

Em Roma (Batiffol, Brev. Rom., 134) a mais antiga e única festa de Nossa Senhora ocorria em 1 de janeiro, na oitava do nascimento de Cristo. Ela era celebrada a princípio na igreja Santa Maria Maggiore e mais tarde na igreja de Santa Maria dos Mártires. As outras festas são de origem bizantina. Duchesne considera (Orígenes du culte chr., 262) que antes do século VII nenhuma festa existia em Roma, e que conseqüentemente a festa da Assunção, encontrada nos sacramentais de Gelásio e Gregório, é uma adição espúria feita no século VII ou VIII. Porbst, contudo (Sacramentarien, 264 ss.), apresenta argumentos para provar que a Missa da Virgem Maria, celebrada em 15 de agosto segundo o Gelasianum, é genuína, pois ela não menciona a assunção corporal de Maria; que, conseqüentemente, a festa era celebrada na igreja de Santa Maria Maggiore em Roma pelo menos no século VI. Ele prova, além disso, que a Missa do Sacramentário Gregoriano é de origem gaulesa (pois a crença da assunção corporal de Maria, sob a influência de escritos apócrifos, é mais antiga na Gália do que em Roma), e que ela suplanta a antiga Missa gelasiana. Ao tempo de Sérgio I (700) essa festa era uma das principais festividades em Roma; a procissão começava na igreja de Santo Adriano. Era sempre uma festa dupla de primeira classe[1] e um dia santo.

A oitava foi adicionada em 847 por Leão IV; na Alemanha essa oitava não era observada em diversas dioceses até o tempo da Reforma. A Igreja de Milão não a aceita até hoje (Ordo Ambros., 1906) A oitava é privilegiada em dioceses das províncias de Siena, Fermo, MIchoacan, etc.

Na Igreja Grega a festa continua até dia 23 de agosto, inclusive, e em alguns monastérios de Monte Athos ela se alongava até dia 29 de agosto (Menaea Graeca, Venice, 1880), pelo menos formalmente. Nas dioceses da Bavária um décimo terceiro dia da Assunção era celebrado durante a Idade Média, em 13 de setembro, com o Ofício da Assunção (duplo); hoje, somente a Diocese de Augsburg retém esse antigo costume.

Algumas das dioceses bávaras e aquelas de Brandenburgo, Mainz, Frankfurt etc., mantinha a festa da “Segunda Assunção” em 23 de setembro, ou o “Quadragésimo dia da Assunção” (duplo) na crença, segundo as revelações de Santa Isabel de Schönau (1165 d.C.) e São Bertrand, O.C. (1170 d.C.), de que a B.V. Maria foi levado aos céus no quadragésimo dia depois de sua morte (Grotefend, Calendaria 2, 136). Os seguidores de Santa Brigita da Suécia mantinha a festa da “Glorificação de Maria” (dupla) em 30 de agosto, depois que a santa disse (Revel., VI, 1) que Maria foi levada ao paraíso quinze dias depois de sua morte (Colvenerius, Cal. Mar., 30 agosto). Na América Central uma festa especial de Coroação de Maria no céu (dupla, primeira classe) é celebrada em 18 de agosto. A cidade de Gerace na Calábria mantém três dias sucessivos com o rito duplo de primeira classe, comemorando: 15 de agosto, a morte de Maria; 16 de agosto, sua Coroação.

Em Piazza, na Sicília, há uma comemoração da Assunção de Maria (dupla de segunda classe) em 20 de fevereiro, o aniversário de terremoto de 1743. Uma festa similar (dupla de primeira classe com oitava) é mantida em Martano, Diocese de Otranto, em Apulia, no dia 19 de novembro.

[Nota: Com a promulgação da Bula Munificentissimus Deus, em 1 de novembro de 1950, o Papa Pio XII declara infalivelmente que a Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria é dogma da Fé Católica.]


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Sobre esse texto

APA citation. Holweck, F. (1907).
A Festa da Assunção. In The Catholic Encyclopedia. New York: Robert Appleton Company. Retrieved August 17, 2008

MLA citation. Holweck, Frederick. "
A Festa da Assunção." The Catholic Encyclopedia. Vol. 2. New York: Robert Appleton Company, 1907. 17 Aug. 2008 .

Aprovação eclesial. Nihil Obstat. 1907. Remy Lafort, S.T.D., Censor. Imprimatur. +John M. Farley, Archbishop of New York.

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[1] Diz-se que um dia é de festa de dupla obrigação quando se deve assistir a missa e não trabalhar. Quando à dignidade uma festa pode ser de primeira e de segunda classe. As festas de primeira classe comemoram os principais mistérios de nossa religião ou a morte de um santo. (N. do T.)

12/08/2008

Nelson Rodrigues é mais católico que a CNBB – Parte II

Nota prévia – Desnecessária qualquer nota prévia. A situação fala por si mesmo. E Nelson fala (escreve) muito bem. Que São José proteja a Igreja de seu Filho adotivo. Ah, sim! O título da crônica de que extraio os trechos abaixo: Quem extravasa ódio?

Em que consiste o Paredão de Manchete? É uma enquête. A revista escolhe uma vítima e chama uma série de personalidades. Faz-se o julgamento ou, melhor do que isso, a execução. As perguntas devem ser mortíferas como balas.

Quando o Zevi fez o convite, a minha modéstia estrebuchou. Aleguei que o Paredão exige os méritos especialíssimos que me faltam. Quem se lembraria de fuzilar um homem secundário como eu? (...)

(...)

(...) Propus ao Zevi: – “Arranja outro nome.” Ele insistiu, quase zangado: – “É você, só serve você.” Tenho comigo a velha pusilanimidade, sim, o velho medo de contrariar os amigos. Disse: – “Vá lá, vá lá.”

(...)

(...) Finalmente, veio trazer as perguntas um rapaz, Buarque de Holanda, talento das novas gerações. Eu tinha que ler e gravar as respostas na hora. (...)

(...)

O momento mais lacinante do Paredão ocorre com a pergunta do jovem ator Paulo José. Excelente menino. Mas diz o seguinte: – “As posições de D. Hélder, autenticamente cristãs, estão apoiadas no pensamento da Igreja de hoje.” E continua: – “Estabelecendo confronto, pergunto: – qual é o outro pensamento da Igreja? Existe outra coisa que mereça ser lida ou vivida?”

Como posso descrever o meu escândalo profundo? Considero invencível um rapaz que chega à boca de cena e anuncia, de fronte alta: – “A Igreja começa e acaba em D. Hélder.” Não lhe apareceu um parente, um contraparente que cochichasse: – “Além de D. Hélder, há pra mais de dois mil anos.” Simplesmente, ele enxota os vinte séculos como quem afasta, com o lado do pé, uma barata seca. Rapaz fortemente atualizado, jamais desconfiou de que tivesse existido, alhures, um Cristo.

Ver também: Nelson Rodrigues “entrevista” D. Hélder Câmara, Nelson Rodrigues “entrevista” D. Hélder Câmara – Parte II, Nelson Rodrigues é mais católico que a CNBB

10/08/2008

Nelson Rodrigues é mais católico que a CNBB

Nota prévia - Num dos meus comentários sobre o folheto das missas dominicais, comentei sobre o que dizia o padre Nilo Luza (redator do folheto) sobre o milagre da multiplicação dos pães. O padre fazia, usando o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, apologia do “fome zero”. O padre esquecia da dimensão eucarística do pão, de sua função de alimento da alma.

É obvio que o pão sempre tem uma dimensão material, de matar a fome do corpo, apesar de não ser essa a dimensão a ser explorada numa homilia sobre a multiplicação dos pães. Mesmo assim, falar do “fome zero” quando se quer falar da dimensão material do pão é de uma impropriedade extraordinária.

Para falar da miséria, da fome e do pão, convoco um autor (e uma crônica). Não, não é Santo Atanásio, não é Santo Agostinho, não é nem mesmo Santo Tomás de Aquino. Esqueçam Chesterton e Belloc. Esqueçam papas e cardeais. Convoco Nelson Rodrigues, o reacionário. Sua crônica?
Marxismo e asma. Que São José proteja a Igreja de Cristo que hoje se encontra invadida por apóstatas.


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Já lhes falei do meu amigo marxista. Sempre o encontro com a bombinha da asma. Ele próprio declara, com tenebroso humor, que se não fosse a bombinha estaria morto e enterrado desde a Primeira Batalha do Marne. Dizem seus amigos que seu marxismo e todo o seu horror à ordem capitalista são de fundo asmático.

Anteontem procurou-me, irritadíssimo. Chama-me para um canto: – “Preciso falar contigo.” Arquejava, e teve que usar a bomba. Fez tanto “suspense” que pergunto, interessado: – “Mas o que é que há?” Olhou para os lados e então, ainda ofegante, disse: – “Aquele teu artigo está de um reacionarismo!” – pausa, e repetiu, de olho rútilo e lábio trêmulo: – “De um reacionarismo, rapaz!”

Até hoje não sei se a sua irritação era mesmo irritação ou deslumbramento. Ainda perguntei: – “Meu artigo?” Ah, sou um autor sujeito a lapsos fatais. Quantas vezes me esqueço do que escrevi há meia hora? Foi ele quem me alumiou a memória: – “O artigo da fome!” Era verdade. Eu escrevera recentemente artigo sobre a fome de 1917, 18 e 19.

É de caso pensado que ponho as datas. E, com efeito, a fome muda o seu comportamento de época para época. Nos anos citados ela não tinha o apelo, o patético, a promoção dos nossos dias. Bem me lembro dos meus seis, sete anos. De vez em quando vinha gente bater na nossa porta: – “Um pedaço de pão! Um pedaço de pão!” Eis a palavra e a imagem: – pão. Há uns quarenta anos não vejo ninguém pedir pão a ninguém.

Outro dia ocorreu um episódio que me parece singularmente ilustrativo. Uma santa senhora deu pão a um mendigo. O sujeito apanhou o pão e o olhou, esbugalhado, como se não entendesse a esmola. E súbito deu-lhe uma ira, um ódio. Agrediu a senhora, deu-lhe uma surra de pão. A vítima pôs a boca no mundo. Com um rapa fulminante o mendigo a derrubou: e, por cima da senhora, queria enfiar-lhe o pão pela goela abaixo.

Assim se comporta a fome da nossa época. Vive do ódio. Outrora, não. Na Confissão que provocou o divertido horror do marxista asmático eu escrevia, justamente, sobre os famintos da minha infância. Ah, naquele tempo tínhamos por aqui uma fome sem raiva, sem agressividade, dócil, mansa e como que consentida.

Um dia houve um enterro em Aldeia Campista. Salvo engano, o morto era “Seu” Ferreira, português rico, dono de um armazém. Quatro cavalos de crepe e penacho puxavam o carro fúnebre. Na hora certa o enterro vai partir. E então acontece o seguinte: o cocheiro desmaia, simplesmente desmaia (caiu-lhe a cartola).

Corre-corre no portão. Dois ou três agarram o homem; dão-lhe tapinhas na cara. Finalmente, abre os olhos; arquejante, geme: – “Quero comer, quero comer.” E fazia o apelo por entre lágrimas. Foi carregado para o interior da casa enlutada. Lá dentro alguém improvisa um prato fundo de feijão com arroz. O cocheiro começa a comer. Súbito pára e, de boca cheia, pergunta: – “Tem uma pimentinha?”

Aquele homem não comia há dois dias. E não faltou à funerária. Lá estava, de cartola, fazendo o enterro de luxo. E, não fosse derrubado pela inanição, chegaria ao cemitério. Eis o que eu queria dizer: era uma fome sem Ministério do Trabalho, sem greve, sem reivindicações salariais. Ainda garoto, tivemos uma cozinheira que tinha um filho por ano, matematicamente. Chamava-se Hortência. Era uma fecundidade radiante. Dizia, na cozinha, esplêndida de vaidade: – “Tenho os meus filhos em pé.”

E assim chegou aos nove, dez, onze filhos. A fome levou nove. Exatamente nove filhos. Os mais resistentes morriam aos cinco, seis anos. Pois a mãe os enterrava sem pena, nem ressentimentos. Ter os filhos e perdê-los era a sua rotina. Ela própria não odiava a fome, e repito: não havia desespero, nem tristeza, na sua fome.

Muitos anos depois, vou a Caxias e a encontro lá. Já se tinham incorporado à vida brasileira os direitos trabalhistas. Falava-se, na época, que o novo salário-mínimo seria de seis mil cruzeiros antigos. A minha ex-cozinheira, já alquebrada, já avó, ralhava com o genro: – “Sei contos é demais. Onde já se viu? Seis contos é abuso.”

Claro que o marxista queria que eu apresentasse uma cozinheira retórica como “La Passionaria”. E, como não a descrevi derrubando bastilhas e decapitando marias antonietas, o leninista me chamava de reacionário[1]. Curioso é que ele escreve bem. Se deixasse de fazer concessões às esquerdas, seria capaz de obra-prima. Também a asma o prejudica literariamente.

O Brasil de minha infância não tinha assalto por isso mesmo: porque a fome não assaltava e digo mais, a fome ainda não assaltava. O assaltante não quer comer. Mata e fere para ter o supérfluo. Dirá alguém que estou falsificando a verdade. Mas insisto em que só a fome literária do Zola arromba padarias, e só ela pendura o padeiro num pedaço de pau.[2]

Hoje há uma fúria. Quantos vivem da fome? Por exemplo: D. Hélder. Sempre teve gênio promocional e nunca foi um obscuro. Mas faltava ao D. Hélder anterior o dramatismo, a potência, a fama do D. Hélder da fome. A fome tem-no feito. Podíamos apresentar a fome como a autora de D. Hélder. Ele precisava ter, por fundo, a mortalidade infantil. Mas coisa curiosa! Os grandes indignados da fome não são as suas vítimas, mas os que não a tem. Sim, são os bem alimentados que vociferam e dão patadas.

Ainda ontem, uma grã-fina batia o telefone para mim. Reclamava de uma Confissão que tratava, justamente, da fome da Índia. E a excelente senhora agrediu-me como se eu fosse o culpado, da fome do Nordeste, da Índia, Paquistão, Biafra, e de todos as misérias passadas, presentes, e futuras.

Perguntou-me: – “Você acha que a Índia gosta de passar fome? Acha que a Índia gosta de ver as cinzas do próprio cadáver no rio? Sua literatura sobre a fome é desumana.” Eu poderia responder-lhe: – “Meu anjo, por que é que você não asfalta uma favela com seu colar de quinhentos milhões antigos?” Mas sou um tímido e um delicado. E conversei longamente no telefone.

Disse-lhe eu o óbvio total: – a fome é o mais antigo hábito dos hábitos humanos. Ora, um hábito não dói, não faz sofrer. Por exemplo: a Índia. Há seis mil anos que o cadáver é atirado no rio. E o cadáver já não se espanta mais. Lá, milhões de sujeitos não moram. E bebem, a mãos ambas, a água da sarjeta. Do outro lado da linha, a grã-fina esperneava: – “Isso é blague. Não brinque com coisas sérias.” Por fim, como ela tomava a verdade por piada, disse-lhe: – “As vítimas da fome sofrem menos. Quem se descabela, e soluça, e quer chupar a carótida das classes dominantes, são a senhora, D. Hélder e o Dr. Alceu.”[3] Ao ouvir falar no Tristão, pulou: – “Você quer negar a bondade do Alceu?” Com a humildade de um torpe que fala de um santo, desejei que o Mestre tivesse milhares de boas ações, inclusive do Banco do Brasil, da Vale do Rio Doce, Petrobrás e outras. A grã-fina perdeu a paciência. Bateu o telefone.

[1] Nelson vê aqui o óbvio ululante, como ele mesmo gostava de dizer: o marxismo é filho dileto da Revolução Francesa, aquele episódio que, assim se diz, criou o mundo moderno. E a Igreja pós-conciliar optou pela Revolução Francesa, como nos diz candidamente João Paulo II: "Nos documentos do Concílio Vaticano II pode-se encontrar uma sugestiva síntese da relação entre o cristianismo e o iluminismo" (João Paulo II, Memória e Identidade, Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2005, pg 126). (Nota do blogueiro)

[2] Quem quiser saber quais são as raízes da violência no Brasil, o texto fundamental, para mim, é o de Olavo de Carvalho: Bandidos e letrados. Olavo e Nelson diagnosticam certeiramente o problema. (Nota do blogueiro)

[3] E a CNBB. (Nota do blogueiro)

03/08/2008

Lições das Missas dominicais pós-Vaticano II – Parte VIII

Avertántur retrórsum et erubéscant: qui cógitant mihi mala.”

Volto a comentar, com muita tristeza, as imposturas do Semanário Litúrgico-Catequético, de 03/08/2008, sobre “O projeto ‘fome zero’”. Desta vez é o Pe. Nilo Luza que nos oferece o espetáculo nojento da subserviência da Igreja ao partido mais corrupto que já assumiu o governo do Brasil.

Esse padre nos diz que o projeto “fome zero” é na verdade um projeto de Jesus. Ele comenta o milagre da multiplicação dos pães como sendo o fundamento do projeto. Vale para o Pe. Nilo Luza o versículo do Salmo 69, do Introitus da Missa Tridentina do XII Domingo Depois de Pentecostes, reproduzido acima: Voltem para trás e fiquem envergonhados os que me querem mal.

Vamos a alguns trechos. Que Deus nos ajude a ler tantas heresias. “A proposta do evangelho de hoje é ‘fome zero’ para a humanidade. Jesus, quando viu a multidão faminta, convocou seu grupo e mandou-o dar um jeito. Seu gesto mostra que a Igreja não pode se isentar do problema.” Assim como Lenine tinha um grupo, Mao tinha um grupo, Fidel tinha um grupo, Jesus tinha também o seu grupo. E vejam que ele mandou o grupo resolver o problema: de alimentar 5000 pessoas com cinco pães e dois peixes. Notem, ainda mais, que, segundo esse padre, é uma das funções da Igreja a alimentação dos povos. Não, ele não está dizendo que a Igreja tem, diretamente, de alimentar os povos. Ele candidamente diz: “Claro que ela não tem condições de alimentar todos os famintos, mas pode ser solidária com eles, fazendo parcerias com outros segmentos da sociedade.” Viram só? A Igreja agora é uma ONG em parceria com a ONU, com o PT, com o PC do B etc.

Mas o que dizer do “grupo de Jesus”? Ele resolveu o problema? Ele multiplicou os pães? Claro que não! Quem o fez foi Jesus, o Cristo. Que importância teve o “grupo de Jesus” nesse caso? Claro que nenhuma. O centro de toda a história do milagre é que Jesus pode multiplicar os pães e entregá-los a nós. Não o grupo. Mas isso o padre não fala. Ele procura torcer a história ao máximo, mesmo que tenha de assassinar a lógica.

Mas, perguntarão os leitores, o padre não fez nenhuma alusão ao significado eucarístico do pão, ao significado de uma outra alimentação, a da alma? Não disse ele nada em relação a: “Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus?” Não. Padre Nilo Luza foi absolutamente silencioso ao significado maior do pão. Ou seja, foi incapaz de chegar ao inteligível a partir das coisas sensíveis. Esse padre deve ter faltado às aulas sobre Santo Tomás quando estava no seminário, se é que se ensina Santo Tomás nos seminários hoje em dia.

Enquanto escrevo, noto uma observação em letras pequenas ao pé da última página de O Domingo: “Texto litúrgico publicado com a autorização da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).” Pergunto-me: devo ficar aliviado? Devo considerar que os outros textos, os não-litúrgicos, como os que tenho comentado aqui, não são do conhecimento da CNBB? Será que eles não têm o Nihil Obstat? Queira Deus que isso aconteça. Queira Deus que a apostasia não tenha chegado tão alto.

Para quem queira ler algo muitíssimo mais elevado sobre a multiplicação dos pães, sugiro Santo Agostinho e Orígenes.

Para ver outros comentários, clique: Parte I, Parte II, Parte III, Parte IV, Parte V, Parte VI, Parte VII

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30/07/2008

Capítulo 4 - O ataque albigense: Parte IV

Hilaire Belloc

A luta começa

Quando a luta começou, ficou claro que ela teria de ser algo como uma conquista do sul – ou melhor, do sudeste da França, entre o Ródano e as montanhas, com Toulouse como sua capital – pelos barões do norte.

Ainda assim a cruzada hesitava. A virada do século passara antes que Raimundo, conde de Toulouse (Raimundo VI), temendo a ameaça do norte, prometesse mudar e retirar a proteção ao movimento subversivo. Ele prometeu ainda exilar os líderes da agora vigorosa e organizada anti-igreja herética. Mas não foi sincero. Suas simpatias pendiam para sua gente do sul, para a massa de homens lutadores, seus apoiadores, para os pequenos senhores do Langue d’Oc, que estavam encharcados das novas doutrinas. São Domingos, vindo da Espanha, se tornou, pela força de seu caráter e a firmeza de suas intenções, a alma da reação que se aproximava. Em 1207 o papa pediu ao rei da França, como soberano e senhor de Toulouse, o uso da força. Quase todas as cidades do sudeste estavam já afetadas. Muitas estavam completamente controladas pelos hereges, e quando o legado papal, Castelnou, foi assassinado – presumivelmente com a cumplicidade do conde de Toulouse – a demanda por uma cruzada foi repetida e enfatizada. Pouco depois do assassinato a luta começou.

O homem que sobressai como o maior líder da campanha foi um sujeito não muito importante, senhor muito pobre de um lugar pequeno, mas fortificado, chamado Monfort, distante um dia de marcha de Paris, na direção da Normandia.

Você pode ver ainda as ruínas do lugar, num campo densamente arborizado. Elas ficam ao norte da principal estrada de Paris a Chartres: sobre uma pequena e isolada colina. Dessa pequena, isolada e fortificada colina veio o nome “colina forte” ou “mont fort”, e Simon teve seu nome associado a essa ancestral propriedade.

Raimundo de Toulouse ficou perplexo quando a luta começou. O rei da França estava se tornando mais poderoso do que sempre tinha sido. Ele confiscara recentemente as propriedades de todos os Plantagenetas no norte da França. João, o plantageneta rei da Inglaterra, falava francês, como toda a classe dominante inglesa daquele tempo, e era também, sob o rei da França, Lorde da Normandia, do Maine e de Anjou, e por herança de sua mãe – de metade da região do sul do Loire: Aquitane. Toda a parte norte dessa vasta possessão, de Channel até as montanhas centrais passou ao rei da França quando os nobres ligados ao João da Inglaterra acusou-o de confisco. Raimundo de Toulouse temia o mesmo destino. Mas ele ainda se mostrava indiferente. Apesar de ele marchar com os cruzados contras algumas de suas próprias cidades em rebelião contra a Igreja, ele intimamente desejava a derrota dos nortistas. Ele tinha sido excomungado uma vez. Foi excomungado de novo em Avignon em 1209, o primeiro ano da grande luta.

A luta foi muito violenta. Houve brutal carnificina e grandes saques de cidades e já surgia a coisa que o papa mais temia: o perigo de um motivo financeiro para amargurar a já terrível situação. Os lordes do norte demandariam naturalmente que as terras dos heréticos fossem divididas entre eles. Houve ainda um esforço de reconciliação, mas Raimundo de Toulouse, provavelmente desesperado com a perspectiva de ser deixado sozinho, preparava para resistir. Em 1207, ele foi declarado fora da Igreja, e como John, suas propriedades foram confiscadas de acordo com a Lei Feudal.

28/07/2008

Nota sobre uma nota a respeito da santidade

Leio na recém lançada Dicta&Contradicta uma edição das últimas três aulas de Bruno Tolentino, poeta falecido em 2007. Bem no início, encontro o seguinte. “Como complemento, há também umas palavras de Giussani, que dizia simplesmente: ‘Os homens levam a sério o trabalho, o amor, a família, os filhos, vai ver até a santidade. Levam mil coisas a sério, mas não parecem ter tempo livre para levar a sério a vida.’ Levar a sério a vida é uma coisa muito curiosa: significa que você não pode jogar fora um só segundo dela, pois é um tesouro que lhe foi dado, que lhe é dado e que volta a lhe ser dado todo santo dia.” Continuando, Tolentino diz: “Estas duas coisas completam-se: a visita da santidade e a pergunta ‘mas será que levo a vida a sério?’ Foi em torno delas que se criou toda uma coisa extraordinária, que foi a cultura Ocidental. Construímos toda a assim chamada civilização em torno deste problema do ser.”

Há aqui uma nota do editor que diz: “Classicamente, entende-se a santidade como a plenitude do ser, do ser-homem.”

A cultura Ocidental foi criada pela cristandade católica. A Igreja foi a mãe da civilização Ocidental, que vem descendo uma ladeira desde o nominalismo de Occam e da Reforma. A civilização em que vivemos ainda conserva alguns valores daquela civilização, mas apenas de uma forma degradada. Chesterton dizia que, na modernidade, as virtudes cristãs enlouqueceram. Cito aqui apenas duas obras que podem nos convencer disso: Religion and the Rise of Western Culture, de Chistopher Dawson e Dois Amores, Duas Cidades, de Gustavo Corção. A cultura Ocidental foi, portanto, criada pela Teologia e não por uma ontologia.

A nota do editor é intrigante: a santidade é a plenitude do ser, do ser-homem. Que significa isso? Talvez que o santo seja um homem pleno, o que é verdade. Mas, santidade tem muito mais a ver com Deus do que com o homem. De qualquer forma, de santidade entende a Igreja, pois só existe santo na Igreja Católica. Então, recorro à Enciclopédia Católica e procuro a palavra santidade. O que ela diz? Vejamos (traduzo livremente do inglês partes do texto da enciclopédia. Quem quiser ler o original clique aqui.)


Sanctitas na Vulgata do Novo Testamento é tradução de duas palavras distintas, hagiosine (1 Tess., III:13) e hosiotes (Luc., 1:75; Ef., 4:24) Essas duas palavras gregas expressam respectivamente as duas idéias conotadas por santidade: aquela referente a separação, como em hagios, que vem de hagos, que denota ‘qualquer coisa sagrada, venerável’ (do latim sacer); e aquela referente a sancionado (sancitus), aquele que é hosios recebeu o selo de Deus.

“Santidade, diz o Doutor Angélico, é o termo usado para tudo o que é dedicado ao serviço Divino, seja pessoa ou coisa. O santo deve ser puro e separado do mundo, pois a mente tem de ser retirada da contemplação das coisas inferiores para que ela possa considerar a verdade suprema, e isso deve ser feito com firmeza e estabilidade. Santo Tomás define santidade como aquela virtude pela qual o homem aplica sua mente e todos os seus atos em direção de Deus; ele coloca a santidade entre as virtudes morais infusas, na qual fazemos todas as coisas subservientes a Deus. (...) Assim, santidade é o resultado da santificação, aquele ato divino pelo qual Deus livremente nos justifica, e pelo qual Ele nos adota; por nossa santidade resultante, tanto nos atos quanto nos hábitos, nós os consideramos o Começo e o Fim para o qual tendemos. Portanto, na ordem moral, a santidade é uma asserção dos supremos direitos de Deus; sua manifestação é a obediência aos Mandamentos.”

Por essa definição de santidade, dizer que ela apenas nos visita seria impróprio, apesar de poético. Sendo virtude, nós a alcançamos por meio nossos próprios esforços, de nossa vontade firme e estável. Sendo virtude infusa, nós precisamos da graça de Deus para que nos tornemos santos. Nesse aspecto o poeta tem certa razão. Precisamos que algo nos visite: a graça de Deus, que sopra onde quer. Mas a visita tem de ser querida, almejada, solicitada, desejada em seu mais alto grau.

Para terminar, é preciso sempre lembrar que a santidade não é escolha, é obrigação: “Sede perfeitos, como meu Pai é perfeito”. E a perfeição é a santidade suprema.

25/07/2008

A Teologia da Deformação e "Didaqué: Instrução dos Doze Apóstolos"

A coleção Patrística da Editora Paulus é extraordinária. As traduções dos documentos e Padres antigos são primorosas. São já quase trinta livros, se não me engano, traduzidos e que valem cada centavo de seu preço.

Dito isso, a nota negativa vai para a introdução (às vezes) e as notas explicativas (quase sempre) que os editores adicionam às obras. Aí se encontra todo o modo de pensar modernista que invadiu a Igreja depois do Concílio Vaticano II. É muito triste ler textos tão importantes para a nossa fé, tingidos de comentários tão demoníacos. É a Teologia da Libertação tentando reinterpretar toda a Tradição da Igreja.

Para se ter uma primeira idéia do que estou falando, reproduzo abaixo um texto da Apresentação, texto comum a todos os livros da coleção.

Na tentativa de eliminar as ambigüidades em torno da expressão [Padre da Igreja], os estudiosos convencionaram em receber como ‘Padre da Igreja’ quem tivesse estas qualificações: ortodoxia de doutrina, santidade de vida, aprovação eclesiástica e antiguidade. Mas, os próprios conceitos de ortodoxia, santidade e antiguidade são ambíguos.” [Negritos são meus.]

Vocês entenderam, não é? Pelo que é dito acima, a Igreja não sabe bem o que é santidade, ortodoxia e antiguidade. Veja se isso não beira a heresia. Quem não sabe o significado desses termos é a Igreja do Vaticano II. A Igreja de sempre, nunca teve dúvidas de que Santo Tomás de Aquino é santo. De que o Catecismo Romano do Concílio de Trento é ortodoxo e que São Paulo viveu na antiguidade. Ora bolas!

Para dar exemplos das notas explicativas que causam tanto desprazer ao leitor, separei algumas dessas notas no texto “Didaqué: Instrução dos Doze Apóstolos” que pode ser considerado o primeiro Catecismo católico. Supõe-se que esse documento tenha sido escrito ainda no primeiro século da era cristã e, portanto, enquanto ainda viviam os apóstolos. O autor é desconhecido. O texto é muito interessante e a simplicidade de sua redação não trai a profundidade de sua doutrina. É um pequeno texto que vale a pena ser lido.

Escolhi três notas específicas que dão o sabor modernista de todos os comentários.

No que se segue, o texto do Didaqué aparece em negrito, o texto dos comentários dos editores aparece na fonte normal e os meus comentários aparecem em itálico.

5Dê a quem pede a você e não peça para devolver, pois o Pai quer que os seus bens sejam dados a todos. Feliz aquele que dá conforme o mandamento, porque será considerado inocente. Ai de quem recebe: se recebe por estar necessitado, será considerado inocente; mas se recebe sem ter necessidade, deverá prestar contas do motivo e da finalidade pelos quais recebeu. Será posto na prisão e interrogado sobre o que fez; e daí não sairá até que tenha devolvido o último centavo. 6 A esse respeito, também foi dito: Que a sua esmola fique suando nas mãos, até que você saiba para quem a está dando. (1:5-6)

Sobre o versículo 6: Não basta ajudar materialmente o necessitado para desencargo de consciência. É preciso entrar em comunhão, participando de toda a situação do pobre, porque nem sempre a ajuda material é o aspecto mais importante. O grande desafio é acabar com a pobreza, e não simplesmente conservar os pobres como ocasião de fazer caridade.

Primeiramente, observemos a sabedoria do Didaqué. O texto anuncia o preceito: dar a quem te pede sem pedir de volta. Depois o texto admoesta quem pede, para que se peça quando se precisa: “ai de quem recebe ...”. E finalmente, anuncia a responsabilidade de quem dá: “que sua esmola fique suando em suas mãos” antes de dá-la a qualquer um. Ou seja, tanto quem dá, quando quem recebe, tem responsabilidades no ato. Quem recebe, tem de ser necessitado e quem dá tem de se certificar de que está dando a que necessita.

Agora, vamos aos lamentáveis comentários da edição da Paulus. O que salta aos olhos no comentário é: “o grande desafio é acabar com a pobreza”. Ora, desde que o mundo é mundo apenas um tipo de indivíduo prometeu acabar com a pobreza. Foi o comunista que, em nome do extermínio da pobreza, exterminou muito mais de 100 milhões de pessoas. Lembremos aqui as palavras do próprio Cristo: “Pobres sempre os terei entre vós, porém a Mim nem sempre tereis”(Jo. 12:1-9).

11Quanto a vocês, servos, sejam submissos aos seus senhores, com respeito e reverência, como à imagem de Deus. (4:11)

O versículo 11 mostra que as comunidades nascentes ainda não tinham consciência de que o Evangelho exige transformações estruturais para acabar com a desigualdade e a exploração.

Percebam a malícia desse comentário. O que o comentador quer dizer é que o autor do Didaqué era um ingênuo. Ele não sabia que devemos mudar as estruturas sociais e políticas, desrespeitando quem quer que seja para isso. Ele não sabia também que o Evangelho demanda tal coisa. Ora, o comentador não leu, ou não entendeu, São Paulo, que disse: “Servos, obedecei aos vossos senhores temporais, com temor e tremor, de coração sincero, como se fosse a Cristo; não servindo só quando sois vistos, como para agradar aos homens, mas fazei-o como servidores de Cristo”(Ef. 6:5)

O Catecismo Romano (mandado publicar pelo Concílio de Trento) determina, quando fala sobre o quarto mandamento da lei de Deus, que: “Devemos, no entanto, honrar não só aqueles que nos deram a vida, mas também os que merecem o nome de pais, como são os Bispos, sacerdotes, reis, príncipes, magistrados, tutores, curadores, mestres, educadores, anciãos e outras pessoas de igual condição”.(III V 13)

Qual é o limite dessa obediência? Bem, o limite está nas Escrituras: “É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens”(At. 5:29). Assim, se qualquer um dos que merecem nossa obediência nos ordenar coisas contrárias à lei de Deus, devemos desobedecer.

Para o comentador revolucionário, o autor desconhecido do Didaqué, São Paulo e os Bispos do Concílio de Trento eram todos uns ingênuos. O esperto mesmo é o comentador modernista e malicioso da edição da Paulus.

1Reúnam-se no dia do Senhor para partir o pão e agradecer, depois de ter confessado os pecados, para que o sacrifício de vocês seja puro. 2Aquele que está de briga com seu companheiro não poderá juntar-se a vocês antes de se ter reconciliado, para que o sacrifício que vocês oferecem não seja profanado. (14:1-2)

A Eucaristia é a celebração da fraternidade. Para que ela não seja profanada no seu significado profundo, exige-se reconciliação, não só no momento do culto, mas na vida concreta.

O comentador, depois de se mostrar comunista e modernista, agora se revela blasfemador. Afirmar que a Eucaristia é a celebração da fraternidade é blasfêmia! Vejamos o que o Catecismo Romano nos diz da Eucaristia. “Entre todos os Sagrados Mistérios que Nosso Senhor e Salvador nos confiou, como meios infalíveis para conferir a divina graça, não há nenhum que possa comparar-se como o Santíssimo Sacramento da Eucaristia. (...) Além disso, essas palavras [da consagração do vinho] exprimem certos efeitos admiráveis do Sangue derramado na Paixão de Nosso Senhor, efeitos que estão na mais íntima relação com este Sacramento. O primeiro é o acesso à eterna partilha, cujo direito nos advém da ‘nova e eterna aliança’. O segundo é o acesso à justiça pelo ‘Mistério da fé’; porquanto Deus nos propôs Jesus como vítima propiciatória, mediante a fé em Seu Sangue, para que ele mesmo seja justo e justifique a quem acredita em Jesus Cristo. O terceiro é a remissão dos pecados.”

O Catecismo Romano, que o comentador parece não conhecer, devota 40 páginas ao Sacramento da Eucaristia. E o nosso comentador diz simplesmente que é a “celebração da fraternidade”. Ora essa! Isso é ou não é blasfêmia? Celebração de fraternidade é quando eu convido amigos para saborear comigo um churrasco em minha casa! Tenha mais respeito com o sacrifício de cruz que o Filho de Deus sofreu por nós!!

O que eu posso dizer como conclusão é: leiam a coleção Patrística da Editora Paulus, mas não leiam nem a Introdução a cada uma das obras, nem as notas explicativas

13/07/2008

Lições das Missas dominicais pós-Vaticano II – Parte VII

Exáudi, Deus, oratiónem meam, et ne despéxeris deprecatiónem meam: inténde nihi et exáudi me.”

O sr. Carlos Francisco Segnorelli, presidente do CNL, nos brinda com um texto, n’O Domigo – Semanário Litúrgico-Catequético, de 15/06/2008, sobre “O papel dos cristãos na construção da nova sociedade”.

O slogan preferido dos marxistas modernos é “um novo mundo é possível”, ou “um outro mundo é possível”. É dentro dessa perspectiva que se encaixa essa tal nova sociedade cristã. Já se disse que um slogan pode fazer um povo parar de pensar por décadas.

Vamos ao texto. Citando o fatídico Documento de Aparecida, o sr. Signorelli nos diz: “Frente a esta forma de globalização, sentimos um forte chamado para promover uma globalização diferente, que seja marcada pela solidariedade, pela justiça e pelo respeito aos direitos humanos, fazendo da América Latina e do Caribe não somente um continente da esperança, mas também um continente do amor.”

Conhecendo outros textos do sr. Signorelli, a expressão “esta forma de globalização” é sinônimo de capitalismo e a “globalização diferente” é o socialismo. Mas não percamos tempo com isso, pois não há solução para o caso do sr. Signorelli.

Bem, agora o sr. Signorelli cita nosso Senhor Jesus Cristo: “Meu reino não é deste mundo”. E dá sua interpretação para o ensinamento de Jesus: “Essa afirmação de Jesus quer dizer simplesmente que os valores do seu reino não são os valores norteadores das práticas dos poderosos que dominam os reinos deste mundo”. Viram só? O sr. Signorelli não acredita em outro mundo. Ele acredita neste, modificado. Ele acha que o reino dos céus é só uma questão de valores. Se mudarmos os valores, já estamos noutro mundo, aqui mesmo. Para esse tipo de gente, que ainda insistem em se considerar católicos, o reino de Deus é imanente.

Ele diz mais. Diz que existem por aí cristãos que ficam “presos a atitudes contínuas relacionadas a uma religiosidade sem efeitos práticos, recitando sentenças e chavões e rezando orações desligadas da vida, sem que o esforço por justiça, amor, solidariedade e partilha esteja em seu horizonte. Em outras palavras, as práticas desses cristãos nada mais constroem do que vazios de sentido e buscas de salvação eterna”. Viram só? Se você é desses que ficam rezando o terço, rezando as lindas ladainhas católicas, pedindo perdão de seus pecados, saiba que você está por fora. O negócio é seu esforço por justiça, solidariedade e partilha. Isso tudo sem a ajuda de Deus, mas com a contribuição de Marx, Mao, Stalin, Fidel etc. Se você está buscando a salvação eterna, você está “preso a atitudes contínuas relacionadas a uma religiosidade sem efeitos práticos”. Efeitos práticos têm o marxismo.

Alguém já disse que quando você se afasta de Deus, sua inteligência diminui. Claro, pois a razão humana é um instrumento de aproximação de Deus. O sr. Signorelli é um exemplo vivo disso, pois, logo após ele nos dizer que a busca da salvação eterna é uma bobagem, ele fecha a frase assim: “a única coisa que devemos buscar é o reino, porque tudo o mais nos vem por acréscimo”. Ou seja, para ele o reino e a salvação eterna são duas coisas completamente diferente. E nós compreendemos que assim seja, pois o reino do sr. Signorelli é aqui neste mundo, não num outro mundo.

Querem ver a última prova da imanência do reino do sr. Signorelli? A frase de fechamento do lamentável artigo é: “Façamos da nossa vida uma revelação clara de nossa fé em Jesus Cristo, não nos fechando em nosso ‘mundinho’ de crenças solitárias, mas – como diz o Documento de Aparecida – abrindo-nos ao mundo da política, da economia, da família, dos meios de comunicação social, da educação ... Ou seja, àquele onde vivemos”.

Vamos resumir. O sr. Signorelli nos exorta a “buscar o reino”, como única coisa a ser feita. Depois fecha o artigo com outra exortação, que por suposto, deve conter a busca do reino. Ou seja, “que nos abramos para o mundo da política, da economia, da família, dos meios de comunicação social, da educação ... Ou seja, àquele onde vivemos.” Bingo! O reino do sr. Signorelli é este em que vivemos. Santa imanência!

Domingo passado, o padre Bortolini começou uma série de 35 artigos sobre São Paulo, em referência ao Ano Paulino. Acompanharemos nos próximos comentários suas observações. Vamos ver o que os modernistas têm a dizer de São Paulo.

Para ver outros comentários, clique: Parte I, Parte II, Parte III, Parte IV, Parte V, Parte VI

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07/07/2008

Gustavo Corção e Bento XVI

Há trinta anos, ontem, morria Gustavo Corção. Não sei se alguém mais se lembrou da data. Não sei nem quantos brasileiros conhecem a obra de Corção. Mas, para quem não conhece, e mesmo para quem conhece, vale a pena ler o texto de D. Lourenço Fleishman, no site Permanência (aqui).

Só vim conhecer a obra de Corção há poucos anos. Quando ele morreu, eu cursava engenharia e era, como todos os alunos da universidade (de então e de agora), esquerdista. Achava lindo ser esquerdista. Se o tivesse lido na época teria odiado o velho mestre.

E o que o papa tem a ver com tudo isso? Bem, por uma dessas coincidências, o prof. Orlando Fedeli escreve hoje no site Montfort um artigo dando conta de que as fontes murmurantes de Roma anunciam coisas muito importantes para a Igreja. Coisas que talvez alegrassem Gustavo Corção e que serão postas em andamento, proximamente, pelo papa Bento XVI.

Esta noite rezarei pela alma de Gustavo Corção, pedindo a Deus que sua obra não desapareça da memória dos brasileiros, que seus livros (todos eles) sejam reeditados e que seus ensinamentos voltem a aproximar da Igreja de Cristo todos os seus leitores.

22/06/2008

Nelson Rodrigues “entrevista” D. Hélder Câmara – Parte II

Eis a paisagem obrigatória: – um terreno baldio que tenha, no alto, uma lua de sangue e, por fundo, a gargalhada dos sátiros e duendes. Além de mim e d. Hélder, a única presença consentida é a de uma cabra vadia. O arcebispo foi pontualíssimo. Chega exatamente quando o sinal dava as doze badaladas. Alhures, uma coruja pia. D. Hélder pergunta: – “E o pessoal? Não vem ninguém?”.

Explico-lhe que o charme das entrevistas imaginárias é o pudor, o sigilo, o mistério. É preciso que ninguém as veja e ninguém as ouça, a não ser a cabra. D. Hélder vira-se: – “Em que jornal trabalha a cabra?” Respondo-lhe que a cabra tem vários defeitos, menos o de ser jornalista. Esclareço ainda: – “A única função da cabra é paisagística”. A frustração do sacerdote foi total. Fechou a questão: – “Só falo para jornal, rádio, televisão.” Pergunto: – “É sua última palavra?”. Era.

E já que não havia outro remédio, tratei de convocar uma imprensa também imaginária para ao local. Instantaneamente, apareceram lá o caminhão da Globo e os locutores-volantes, o Washington Rodrigues, o Pallut, o Paradelas, fotógrafos, correspondentes estrangeiros, a BBC de Londres etc. etc. Essa platéia espectral foi um afrodisíaco para o bom padre. O Justino Martins surgiu e prometeu uma capa de Manchete. O Cláudio Mello e Souza daria uma capa de Fatos & Fotos. Mas d. Hélder parecia ainda insatisfeito: – “E a Life não mandou ninguém?”. Tive que providenciar um enviado imaginário da Life.


Todos presentes, comecei – “D. Hélder, a diretora de um colégio religioso de São Paulo disse o seguinte: – que ser prostituta é uma profissão como outra qualquer. O senhor concorda?”. D. Hélder não respondeu logo. Semicerrou os olhos, juntou as mãos, como se rezasse. Os faunos e as ninfas, que costumam infestar os terrenos baldios, vieram espiar. Suspense aterrador. E, súbito, o arcebispo pula: – “Não! Não!”

Flashes assustam os grilos e os sapos do terreno baldio. Todos sentiram que d. Hélder ia fulminar a iniqüidade. De braços abertos, vai falando: – “Nunca, jamais! Ser prostituta não é uma profissão como outra qualquer. Absolutamente. É uma profissão que exige prendas raras. Raras”.

Instalou-se ali no mato, o caos profundo. A imprensa imaginária já não sabia se d. Hélder estava contra ou a favor. Os taquígrafos não perdem um suspiro do orador. Mas didático, d. Hélder está falando: – “Qualquer uma poder ser datilógrafa, não é exato? Mas uma messalina tem que possuir dons outros, atrativos especiais. Uma gaga não pode ser messalina. Uma bruxa de disco infantil não pode fazer prostituição. Tanto a gaga como o bucho morreriam de fome. Portanto, é injusto falar em ‘uma profissão como outra qualquer’. Ou estou enganado?”. O orador é aplaudido como um tenor no dó de peito.

O representante imaginário da Life faz a sua pergunta: – “É verdade que o senhor brigou com os 2 mil anos da Igreja?”. D. Hélder não ouviu direito. O outro repete: – “É verdade que o senhor brigou com o passado da Igreja?”. A resposta foi de uma rara felicidade: – “Meu amigo, que tem passado é a adúltera recuperada”. Neste momento, uma admiradora de J. G. de Araújo Jorge aparece com um livro: – “O senhor quer escrever isso no meu álbum?”. D. Hélder arranca da batina uma caneta e põe lá: – “Quem tem passado é a adúltera recuperada”. Na sua vaidade autoral, o arcebispo pergunta: – “Gostou?”. E a moça: – “Lindinho”.

Agora era a vez da estagiária do Jornal do Brasil. Eis a pergunta: – “O que é que o senhor acha do amor?”. D. Hélder fez um risonho escândalo. Diz: – “Oh, oh!”. E responde com outra pergunta: – “Que idade você tem?”. Resposta: – “Dezenove”. D. Hélder ralhou, alegremente: – “E como é que você, aos dezenove anos, fale em amor? O que é o amor? Isso não existe, nunca existiu. O amor é a doença do sexo”. Estaca ao som da própria frase. Diz: – “Acho que fui feliz”. E repete: – “O amor é a doença do sexo”. Estimulado pela frase, foi adiante: – “O amor tem que ser exterminado. Nunca a morbidez é do sexo, sempre do amor. O sexo é de uma pureza, de uma inocência, de uma saúde totais. Vejam a lição dos vira-latas e dos gatos vadios. Olhem a praça da República. Não se conhece um Werther entre os gatos do Campo de Santana. Jamais um vira-lata matou, ou se matou, ou deu manchete na Luta ou no Dia. Precisamos matar o amor” .

Era o fim. A aragem fina desfez a imprensa imaginária. O Justino Martins tornou-se diáfano, o Cláudio Mello e Souza, incorpóreo, a estagiária, alada. Paletós, camisas, gravatas e sapatos, tudo se volatilizou. E, por muito tempo, o terreno baldio ficou ressoante da sábia frase: – “O amor é a doença do sexo”.

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Ver também, Nelson Rodrigues “entrevista” D. Hélder Câmara.

17/06/2008

Lições das Missas dominicais pós-Vaticano II – Parte VI

Dóminus illuminátio mea et salus mea, quem timébo?”

Pe. Benedito Ferraro, cujos comentários têm sido aqui considerados, nos deu uma folga. Desde o folheto de Corpus Christi, seus comentários não aparecem n’O Domigo – Semanário Litúrgico-Catequético.

Minhas observações se referem ao que considero ser a parte catequética do folheto, ou seja, aos comentários que aparecem na última página. Para quem não conhece o folheto, há duas espécies de comentários. Um, que é uma espécie de homilia, que procura integrar as leituras da missa numa visão de conjunto. Outro, que tenta incutir em nossas mentes todas as iniqüidades do submarxismo eclesiástico, filho do Concílio Vaticano II. Este é o texto que resume a “lição das missas dominicais”, que aqui comentamos.

Desde o folheto de Corpus Christi, até o domingo passado, a senhora Cecília Domezi nos tem brindado com seus comentários sobre “A mulher na Igreja”. O assunto é importante e eu fiquei na expectativa de, finalmente, ler algo interessante nas páginas finais do folheto dominical. Afinal, foi a Igreja Católica a primeira instituição que valorizou e respeitou a mulher enquanto ser humano. A mulher conheceu a verdadeira liberdade na Idade Média, não nos anos 1960. É só ler Régine Pernoud (por exemplo, A mulher sem alma) para saber disso.

Há tantas santas para serem lembradas: Joana D’arc, Teresa d’Ávila, Teresinha de Lisieux etc. Mas note que nunca a Igreja afirmou a igualdade entre homem e mulher. Aliás, a Igreja nunca defendeu a igualdade entre os homens. Somos todos diferentes. Somente o olhar misericordioso do Pai pode nos acolher a todos igualmente.

Assim, a afirmação da senhora Domezi de que “pelo batismo, somos membros da Igreja na igualdade e por inteiro” é falsa. Pelo batismo pertencemos à Igreja, mas não somos iguais. Um padre é um membro diferente da Igreja. Cada um de nós é diferente dos outros, sejamos homens ou mulheres. A Igreja não aceita a ordenação de mulheres e isso é uma diferenciação bastante fundamental. Aliás, a senhora Domezi cita um trecho do tal Documento de Aparecida em que se tem a impressão que os bispos da CNBB estão a defender, com palavras equívocas, a ordenação de mulheres, quando diz: “É urgente que todas as mulheres possam participar plenamente da vida eclesial, familiar, cultural, social e econômica, criando espaços e estruturas que favoreçam maior inclusão” [negrito meu]. Está-se aqui clamando por maior inclusão das mulheres na estrutura da Igreja, coisa assaz esquisita!

A senhora Domezi, como não poderia deixar de ser, nos lembra quem, no fundo, é culpado por todas as mazelas do mundo: “Em nosso continente, o capitalismo de dependência alarga e aprofunda as chagas das discriminações e exclusões.” Seja lá o que for o tal “capitalismo de dependência” é ele o culpado.

É oportuno lembrar à senhora Domezi a posição da Igreja sobre o tema igualdade e comunismo. Vamos citar as manifestações de um único papa (Leão XIII) sobre o assunto (tirados de um documento do site Montfort, A Igreja contra a igualdade, o socialismo e o comunismo):

"Porque enquanto os socialistas, apresentando o direito de propriedade como invenção humana contrária a igualdade natural entre os homens; enquanto, proclamando a comunidade de bens, declaram que não pode tratar-se com paciência a pobreza e que impunemente se pode violar a propriedade e os direitos dos ricos, a Igreja reconhece muito mais sabia e utilmente que a desigualdade existe entre os homens, naturalmente dessemelhantes pelas forças do corpo e do espírito, e que essa desigualdade existe até na posse dos bens. 29. Ordena, ademais, que o direito de propriedade e de domínio, procedente da própria natureza, se mantenha intacto e inviolado nas mãos de quem o possui, porque sabe que o roubo e a rapina foram condenados pela lei natural de Deus" (Quod Apostolici Muneris, - Encíclica contra as seitas socialistas, no. 28/29).

"Entretanto, embora os socialistas, abusando do próprio Evangelho para enganar mais facilmente os incautos, costumem torcer seu ditame, contudo, há tão grande diferença entre seus perversos dogmas e a puríssima doutrina de Cristo, que não poderia ser maior" (Quod Apostolici Muneris, 14).

"25. Daquela heresia (protestantismo) nasceu no século passado o filosofismo, o chamado direito novo, a soberania popular, e recentemente uma licença, incipiente e ignara, que muitos qualificam apenas de liberdade; tudo isso trouxe essas pragas que não longe exercem seus estragos, que se chamam comunismo, socialismo e nihilismo, tremendos monstros da sociedade civil" (Diuturnum, Encíclica sobre a origem do poder- n° 25).

"A Igreja, pregando aos homens que eles são todos filhos do mesmo Pai celeste, reconhece como uma condição providencial da sociedade humana a distinção das classes; por esta razão Ela ensina que apenas o respeito recíproco dos direitos e deveres, e a caridade mútua darão o segredo do justo equilíbrio, do bem estar honesto, da verdadeira paz e prosperidade dos povos. (...) Mais uma vez Nós o declaramos: o remédio para esses males [da sociedade] não será jamais a igualdade subversiva das ordens sociais ( Alocução de 24/01/1903 ao Patriarcado e à Nobreza Romana).

" Importa, por conseqüência que nada lhe seja à democracia cristã mais sagrado do que a justiça que prescreve a manutenção integral do direito de propriedade e de posse; que defenda a distinção de classes que sem contradição são próprias de um Estado bem constituído". ( Leão XIII, Graves de Communi Re n° 4).

"A sociedade humana, tal qual Deus a estabeleceu, é formada de elementos desiguais, como desiguais são os membros do corpo humano; torná-los todos iguais é impossível: resultaria disso a própria destruição da sociedade humana."

"A igualdade dos diversos membros sociais consiste somente no fato de todos os homens terem a sua origem em Deus Criador; foram resgatados por Jesus Cristo e devem, segundo a regra exata dos seus méritos, serem julgados por Deus e por Ele recompensados ou punidos."

"Disso resulta que, segundo a ordem estabelecida por Deus, deve haver na sociedade príncipes e vassalos, patrões e proletários, ricos e pobres, sábios e ignorantes, nobres e plebeus, os quais todos, unidos por um laço comum de amor, se ajudam mutuamente para alcançarem o seu fim último no Céu e o seu bem-estar moral e material na terra." (extraída da Encíclica Quod Apostolici Muneris)

Assim, senhora Domezi, somos todos desiguais. As mulheres são desiguais entre si e diferentes dos homens. Há entre nós reis e vassalos, pobres e ricos, sábios e ignorantes. Só o olhar do Pai e nossa filiação divina (pelos méritos de nosso Senhor Jesus Cristo) nos tornam iguais, mas essa é uma igualdade transcendente, não imanente.

Para ver outros comentários, clique: Parte I, Parte II, Parte III, Parte IV, Parte V


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16/06/2008

Fla-flu religioso?

Este modesto blog, pelas informações recentes, está tendo leitores ilustres, que me honram muito. Acabo de saber de outro leitor ilustre. Um amigo me envia um e-mail contendo um texto do sr. Pedro Sette Câmara (KGB do esoterismo) em que há um pequeno comentário, com link para este blog. O comentário se refere ao que eu disse no post “René Guenón e monsenhor Lefebvre”.

Disse eu que: “Se há algum flanco da Igreja suscetível de um ataque cultural e religioso islâmico, este não é o flanco tradicionalista, representado por monsenhor Lefebvre.” Adicionei à afirmação alguma justificativa, que parece não ter sido suficiente. E isso tudo sugeriu ao sr. Pedro uma metáfora futebolística.

Essa metáfora tem uma conseqüência nefasta, que certamente não ocorreu ao sr. Pedro, que é o de menosprezar o interlocutor, que no caso específico, sou exatamente eu. A metáfora reduz o problema a uma mera escolha de lados, cuja racionalidade seria a mesma da escolha de um time de futebol. “Torço” por monsenhor Lefebvre como alguém torce pelo Flamengo.

Assim, deixando de lado essa infeliz metáfora, vou tentar ser mais claro do que fui no post anterior, para que os leitores deste blog possam entender minha posição.

O que eu disse, e continuo dizendo, é que os modernistas (uso aqui o conceito “modernismo” no sentido de S. Pio X), que foram os vencedores no Concílio Vaticano II, concílio que, nos quase 50 anos subseqüentes, tem sido um desastre de dimensões descomunais para a Igreja Católica, são muitíssimo mais suscetíveis a influências religiosas externas que o flanco tradicionalista. Isso não é uma opinião. É um fato. Foram eles que cederam às pressões dos protestantes (ver, por exemplo, Hans Kung: ´O Concílio Vaticano II introduziu o modelo protestante na Igreja Católica!). Foram eles que cederam às pressões dos comunistas, no acordo de Metz. Foram eles que aceitaram a influência de maçons de variados matizes. Ou seja, que eles são suscetíveis a tais pressões é um fato.

E por que acho eu que monsenhor Lefebvre e o grupo que se formou em torno dele são infinitamente menos suscetíveis a essas influências? Porque simplesmente, durante todo esse tempo, não houve indícios de isso ter ocorrido. Como diz d. Lourenço: “Quem seria capaz de mencionar um só sinal de influência?” Eles têm se mantido numa posição imutável de defesa da fé. Muitos acham que essa posição é intransigente. Mas é fato incontestável que eles têm se mantido nela. E isso é outro fato.

Minha opinião se fundamente nesses dois fatos.

14/06/2008

René Guénon e monsenhor Lefebvre

Olavo de Carvalho tem nos alertado sobre a dominação mundial vagarosa que o Islã promove, a começar pela dominação cultural e religiosa. O filósofo tem artigos que devem ser lidos e relidos, estudados enfim. São eles: O segredo da invasão islâmica, Ocidente islamizado e Alquimia da islamização.

Eu tenho, também vagarosamente, traduzido neste blog o livro de Hilaire Belloc “As grandes heresias”, que tem um capítulo, ainda não completamente traduzido, específico sobre o Islã: “A grande e duradoura heresia de Maomé” (Parte I, Parte II, Parte III , Parte IV e Parte V). Este texto, em conjunto com aqueles artigos de Olavo nos dão uma idéia do inimigo que a Civilização Ocidental terá, cedo ou tarde, de enfrentar novamente.

Recentemente, Olavo de Carvalho escreveu outro artigo sobre o Islã: Influências discretas. Há uma afirmação no final desse artigo que me causou certa surpresa. Ele diz: “Para fazer uma idéia da força da influência sutil de Guénon e Schuon, basta saber que este último interferiu diretamente na produção da crise entre monsenhor Lefèvre [acho que a grafia correta é Lefebvre] e o Vaticano, em 1976, e até hoje os historiadores católicos – sejam progressistas ou conservadores – nem se deram a mínima conta disso.” Achei excessiva essa afirmação. Contudo, como nada sabia que pudesse corroborar ou negar essa afirmação, fiquei aguardando algo mais concreto que pudesse me ajudar a entender o que queria Olavo de Carvalho dizer.

Ontem (13/06/2008), surge um texto de d. Lourenço Fleischman no site Permanência, que, considero, começa a esclarecer esse assunto. O filósofo comenta, em seu talk show de 09/06/2008, a respeito do que ele ouviu, certa vez, de Rama Coomaraswamy, um guenoniano: “Mons. Lefebvre é um idiota, mas trabalha para nós”. Comenta ainda: “Eu vou dizer: aqueles quatro padres que foram sagrados bispos pelo Mons. Lefebvre, foram alunos do professor Rama Coomaraswamy”.

Esses comentários suscitam, então, uma resposta de d. Lourenço, que é um dos dois padres brasileiros sagrados por monsenhor Lefebvre. Vale a pena ler o que d. Lourenço escreve.

A discussão está em andamento e já estamos sabendo, pelo menos, a respeito das fontes de Olavo de Carvalho, para o enigmático e, talvez, excessivo trecho do artigo citado acima.

Continuo achando a afirmação de Olavo de Carvalho, naquele artigo, excessiva. Se há algum flanco da Igreja suscetível de um ataque cultural e religioso islâmico, este não é o flanco tradicionalista, representado por monsenhor Lefebvre. É justamente o modernista, filho do Vaticano II, que é ecumênico e aberto a influências religiosas variadas. São os modernistas que se gabam por acolher outras vias de salvação da alma, além da Igreja Católica. São eles que gostam do tal “diálogo” inter-religioso. Não monsenhor Lefebvre, não os tradicionalistas, não a Fraternidade Sacerdotal São Pio X.

12/06/2008

Nelson Rodrigues “entrevista” D. Hélder Câmara

Outro dia, num e-mail pessoal, dizia a um amigo que lendo “O século do nada”, de Gustavo Corção, podíamos sentir toda a angústia que ia na alma do grande pensador católico produzida pelo desastre do catolicismo, com o triunfo do modernismo (no sentido dado ao termo por São Pio X), consolidado pelo Concílio Vaticano II.

Nelson Rodrigues, através de suas crônicas dos anos 1960, registrou o mesmo fenômeno, desde um outro ponto de vista, com um outro tipo de texto, mas sem deixar de demonstrar seu mais extraordinário espanto. Leiam abaixo, trechos tirados de suas crônicas em que ele entrevista imaginariamente D. Hélder Câmara, então expoente da “nova” Igreja.

Quem, como nós, já convive com a “nova” Igreja há quase 50 anos, sabemos que tudo que d. Hélder disse imaginariamente a Nelson Rodrigues, os bispos da CNBB puseram em prática neste nosso triste país.

Entrevista

“(...) Até que, um dia, na crônica, ocorreu-me a idéia das ‘entrevistas imaginárias’. Aí estava a única maneira de arrancar do entrevistado as verdades que ele não diria ao padre, ao psicanalista, nem ao médium, depois de morto.

“Fascinou-me a ‘entrevista imaginária’. Precisava, porém, arranjar-lhe uma paisagem. Não podia ser um gabinete, nem uma sala. Lembrei-me, então, do terreno baldio. Eu e o entrevistado e, no máximo, uma cabra vadia. Além do valor plástico da figura, a cabra não trai. Realmente, nunca se viu uma cabra sair por aí fazendo inconfidências. Restava o problema do horário. Podia ser meia-noite, hora convencional, mas altamente sugestiva. Nada do que se diz, ou faz, à meia-noite, é intranscendente. Boa hora para matar, para morrer ou, simplesmente, para dizer as verdades atrozes.

“(...) E súbito um nome ilumina minhas trevas interiores: -- ‘D. Hélder!’. De todos os vivos e mortos do Brasil, era ele o mais urgente, o mais premente. E, de mais a mais, uma batina é sempre paisagística

“Ontem, finalmente, houve, no terreno baldio, a ‘entrevista imaginária’. À meia-noite, em ponto, chegava d. Hélder. Lá estava também a cabra, comendo capim, ou, melhor dizendo, comendo a paisagem. À luz do archote, começamos a conversar. Primeira pergunta: -- ‘O senhor fuma, d. Hélder?’. Resposta: -- ‘A entrevista é imaginária?’ Acho graça: -- ‘Ou o senhor duvida?’. E d. Hélder: -- ‘Se é imaginária, fumo. Qual é o teu?’. Digo: -- ‘Caporal Amarelinho’. Cuspiu por cima do ombro: ‘Deus me livre. Mata-rato!’.

“Faço a pergunta: -- ‘Que notícias o senhor me dá da vida eterna?’. Riu: -- ‘Rapaz! Não sou leitor do Tico-Tico nem do Gibi. Está-me achando com cara de vida eterna?’. No meu espanto, indago: -- ‘E o senhor acredita em Deus? Pelo menos em Deus?’. O arcebispo abre os braços, num escândalo profundo: -- ‘Nem o Alceu acredita em Deus. Traz o Alceu para o terreno baldio e pergunta’.

“Ele continuava: -- ‘O Alceu acha graça na vida eterna. A vida eterna nunca encheu a barriga de ninguém’. D. Hélder falava e eu ia taquigrafando tudo. Aquele que estava diante de mim nada tinha a ver com o suave, o melífluo, o pastoral d. Hélder da vida real. E disse mais: -- ‘Vocês falam de santos, de anjos, de profetas, e outros bichos. Mas vem cá. E a fome do Nordeste: Vamos ao concreto. E a fome do Nordeste?’.

“Não me ocorreu nenhum outro comentário senão este: -- ‘A fome do Nordeste é a fome do Nordeste’. D. Hélder estende a mão: -- ‘Dá um dos teus mata-ratos’. Acendi-lhe o cigarro. ‘Diz cá uma coisa, meu bom Nelson. Você já viu um santo, uma santa? Por exemplo: -- Joana D’arc. Já viu a nossa querida Joana D’arc baixar no Nordeste e dar uma bolacha a uma criança? As crianças lá morrem como ratas. E o que é que esse tal de são Francisco de Assis fez pelo Nordeste? Conversa, conversa!’

“Lanço outra isca: -- ‘É verdade que o senhor vai para o Amazonas?’. Riu: -- ‘Onde fica esse troço? Ó rapaz! Ainda nunca desconfiaste que a fome do Nordeste é o meu ganha-pão? E o Amazonas é terra de jacaré. Tenho cara de jacaré?’. Concordo em que ele não tem nenhuma semelhança física com um jacaré. Indago: -- ‘E o comunismo?’.

“D. Hélder conta: -- ‘Quando estive nos Estados Unidos, bolei um cartaz assim: O arcebispo vermelho! Era eu o arcebispo vermelho, eu!’. Insinuei a dúvida: -- ‘Mas esse negócio de comunismo é meio perigoso’. Nova risada: -- ‘Perigosa é a direita. A direita é que não dá mais nada. O arcebispo vermelho fez um sucesso tremendo nos Estados Unidos.’.

“ Pede outro cigarro. Fez novas confidências: -- ‘Sou homem da minha época. Na Idade Média, eu era da vida eterna, do Sobrenatural. Fui um santo. É o que lhe digo: -- cada época tem seus padrões. Benjamim Costallat, no seu tempo, era o Proust. O charleston já foi a grande moda. Pelo amor de Deus, não me falem da vida eterna, que é mais antiga, mais obsoleta do que o primeiro espartilho de Sarah Bernhardt. Hoje, a moda não é mais Benjamim Costllat, nem o charleston. Entende? É Guevara. O santo é Guevara. E acompanho a moda’.

“Desfechei-lhe a pergunta final: -- ‘E a Presidência da República?’. D. Hélder respira fundo: -- ‘Depende. A fome do Nordeste é o barril de pólvora balcânico. Fome, mortalidade infantil, muita miséria e cada vez maior. Chegarei lá’. Era o fim da ‘entrevista imaginária’. Despedi-me assim: -- ‘Até logo, presidente’. Respondeu: -- ‘Obrigado, irmão’. E antes de partir fez a última declaração: -- ‘Olha, as donas de casas têm uma simpatia para curar dor de barriguinha em criança. Acredito mais na simpatia do que na ressurreição de Lázaro’. Disse isso e sumiu na treva.”

10/06/2008

Quem sou eu?

Acabo de receber o seguinte comentário: "Ontem (09/06/2008), em seu talk show, o Olavo disse que o sr. pertencia à Permanência, porque ele vira "um link para a Permanência" aqui (é um modo singular de descobrir se alguém é membro de uma associação, verificar os links...). Um ouvinte, no entanto, disse que o sr. era membro da Montfort de Belo Horizonte. Gostaria então de saber se o senhor é membro de alguma dessas Associações ou se ambos, o Olavo e seu ouvinte, estão enganados. Grato."

Vou desvendar aos leitores deste blog minha identidade, para quem a desconhece. Antes porém, quero dizer que fico lisonjeado por ter sido citado no talk show do professor Olavo.

Já comentei aqui neste blog que, para mim, os melhores sites católicos do Brasil são Permanência e Montfort. Eles estão marcados como links (Sites Católicos) aqui do lado direito. Eu sei muito bem que os dois grupos têm divergência de opiniões. Mas quem não as tem?

Recentemente, tive duas traduções minhas de Chesterton publicadas no site da Permanência, o que foi anotado no blog (abaixo) e muito me honrou. Há um manancial de textos preciosíssimos nesse site que recomendo a todos.

Toda vez que o prof. Orlando Fedeli vem a Belo Horizonte vou assistir às suas aulas, que são extraordinárias. Aprendo muitíssimo com ele e devo muito a ele. Sou leitor assíduo do site da Montfort e recomendo a todos sua leitura.

Há, em BH, um grupo a ele ligado, que me é muito simpático. Reúno com eles, com uma freqüência menor do que eu gostaria. Colaboro com eles no que me é possível. Rezo o terço com eles, quando Deus permite.

Quanto ao prof. Olavo, devo a ele o redirecionamento intelectual de minha vida. Suas obras tiraram de minha mente todas as idiotices e iniqüidades esquerdistas. Por isso, lhe sou eternamente grato. Li quase toda a sua obra e leio todos os seus artigos. Sou articulista do MSM, site fundado por ele, e que considero fundamental para os brasileiros.

Mas sou, como o prof. Olavo gosta de dizer de si mesmo, apenas um, não uma legião. Luto diariamente contra minha ignorância, que parece aumentar a cada dia. E, claro, sigo muitas de suas indicações de leitura para isso. Isso não quer dizer que concordo com tudo que ele diz, sobretudo sob o ponto de vista religioso. Como católico, sou obediente à Tradição da Igreja e, algumas vezes, sob o meu ponto de vista, as opiniões do prof. Olavo se chocam com essa Tradição.

Assim, não há nada especial a meu respeito a ser desvendado. Sou apenas um católico tentando esperançosamente seguir, sem o conseguir, o conselho de Cristo: “Sede perfeitos, como meu Pai é perfeito”.

07/06/2008

1 Tessalonicenses 5, 19-22

Agitar idéias – dizia o Padre Leonel Franca – é mais grave do que mobilizar exércitos. E continuava: “O soldado pode semear os horrores da força bruta, mas tem uma hora em que seu braço cansa e a espada torna à cinta ou se enferruja e se consome com o tempo. A idéia, uma vez desembainhada, é arma sempre ativa, que não volta ao estojo nem se embota com o tempo”.


Digo isso a respeito de recente artigo do prof. Olavo de Carvalho, intitulado Errando e Aprendendo. Neste artigo o filósofo parece interpretar a expressão “Experimentai de tudo e ficai com o que é bom” como uma sugestão, ou até um comando, para que experimentemos tudo na vida, e só depois disso, separemos o bem do mal.

Se eu o entendi bem, a interpretação do professor é muito grave. Vai contra a própria constituição da Igreja como Fidei Depositum. Chesterton fala, em Porque sou católico, da Igreja nos seguintes moldes:

Não há nenhum outro caso de uma instituição inteligente e contínua que tenha pensado sobre o pensamento por dois mil anos. Sua experiência cobre naturalmente quase todas as experiências; e especialmente quase todos os erros. O resultado é um mapa no qual todas as ruas sem saída e as estradas ruins estão claramente marcadas, todos os caminhos que se mostraram sem valor pela melhor de todas as evidências: a evidência daqueles que os percorreram.

Nesse mapa da mente, os erros são marcados como exceções. A maior parte dele consiste de playgrounds e alegres campos de caça, onde a mente pode ter tanta liberdade quanto queira; sem se esquecer de inúmeros campos de batalha intelectual em que a batalha está ternamente aberta e indefinida. Mas o mapa definitivamente se responsabiliza por fazer certas estradas se dirigirem ao nada ou à destruição, a um muro ou ao precipício. Assim, ele evita que os homens percam repetidamente seu tempo ou suas vidas em caminhos sabidamente fúteis ou desastrosos, e que podem atrair viajantes novamente no futuro. A Igreja se faz responsável por alertar seu povo contra eles; e disso a questão real depende. Ela dogmaticamente defende a humanidade de seus piores inimigos, daqueles grisalhos, horríveis e devoradores monstros dos velhos erros. Agora, todas essas falsas questões têm uma maneira de parecer novas em folha, especialmente para uma geração nova em folha.

A interpretação do professor parece também contrária à tradição da Igreja. Na Homilia 11 sobre a primeira Epístola aos Tessalonicenses, São João Crisóstomo discorre sobre a passagem que contém o versículo a que o prof. Olavo se refere. Ele nos diz:

Houve entre eles [tessalonicenses] muitos que profetizavam verdadeiramente, mas alguns profetizavam falsamente. Isso ele também diz na Epístola ao Coríntios, que por isso Ele deu o
discernimento dos espíritos (1 Cor. 5, 10). Pois o demônio, por meio de sua ação vil, interfere com o espírito [‘Não extingais o espírito’] para subverter tudo quanto pertence à Igreja. Como ambos o demônio e o Espírito profetizam com relação ao futuro, um dizendo mentira e o outro, verdade, não era possível provar qual estava errado (...) [e por isso] Ele deu também o discernimento dos espíritos. Ele [Paulo] diz isso aqui porque havia então muitos que profetizavam entre os tessalonicenses. Ou seja, não proíba as profecias porque há falsos
profetas, não despreze as profecias.

“Vês que isso é o que ele quer dizer pela expressão ‘Provai todas as coisas’? Porque ele dissera ‘Não desprezeis as profecias’, para que não se pensasse que ele tinha fraqueado o púlpito a todos, ele disse, ‘Provai todas as coisas’, isto é, se as profecias são realmente verdadeiras; e apegue-se àquelas que são boas. Abstenha de todo o mal; não deste ou daquele, mas de todo o mal.


Na mesma linha de São João Crisóstomo, o comentário do Pontifício Instituto Bíblico do Roma (Novo Testamento, Edições Paulinas, 1969) diz o seguinte, sobre 1 Tessalonicenses 5, 19-21:


Devem os cristãos nutrir grande estima pelos carismas, dons que o Espírito Santo concedia especialmente nos inícios do cristianismo (cf. 1Cor 13 e 14), particularmente pelo dom da profecia; devem, porém, ter o cuidado de saber avaliar, discernir e reter só as profecias verdadeiras (cf. 1Cor 14,20).


Ou seja, a Tradição da Igreja, restringe aquele “Provai tudo” ao dom das profecias, para que se pudessem distinguir as profecias falsas das verdadeiras. Essa interpretação faz sentido também se analisarmos todo o epistolário Paulino. O próprio prof. Olavo admite que “São Paulo, ao longo de suas cartas, enunciou muitas regras de conduta, mais pormenorizadas do que aquelas contidas nos Dez Mandamentos. Se você lê essas regras, já sabe portanto o que, segundo o ensinamento do Apóstolo, é bom e é mau.”


Eu diria que, o católico, sabe o que é bom e o que é mau, pelas Escrituras Sagradas, pela Tradição da Igreja, pelo Catecismo. Não temos de experimentar tudo para separar o bom do mau. Mas, repitamos as palavras de Chesterton: há, no campo delimitado pela Igreja, “playgrounds e alegres campos de caça, onde a mente pode ter tanta liberdade quanto queira; sem se esquecer de inúmeros campos de batalha intelectual em que a batalha está eternamente aberta e indefinida”.

O católico antes de ser experimentador é um obediente. Obediente à Igreja, obediente a Deus. Quase sempre não realizamos a perfeita obediência, mas isso é outra história. Cito, sobre esse assunto, um trecho de “Dois Amores, Duas Cidades”, de Gustavo Corção:


Desde o pseudo-Dionísio, até os mais modernos autores de teologia mística, o progresso na santificação é de certo modo simétrico ao progresso de emancipação. Nos primeiros passos, o homem movido pela solicitação da graça de Deus põe em jogo as virtudes, e caminha com o esforço que os obstáculos do caminho pedem. Essa primeira fase, chamada via purgativa, se caracteriza, segundo o ensino clássico, pelo modo das virtudes que tem semelhança com o modo humano de progredir. É a fase da arrancada, da partida, do arranco, na qual permanecem quase todas as vidas cristãs. A fase seguinte, dos perfeitos, se caracteriza pela maior plenitude da operação dos dons, que são como os ventos de Deus nas velas das alma. O homem mais perfeitamente espiritual é aquele que é levado pelo Espírito, como diz São Paulo, e não aquele que ainda luta e se debate nas purificações ascéticas. Daí o supremo valor da obediência nessa obra em que todas as iniciativas vêm de Deus, como também todas as energias para permitirem ao homem o take-off sobrenatural. E daí os aparente paradoxos com que se tenta definir a santidade. O servo de Deus é o mais livre dos homens. A alma santificada é a que realiza a mais perfeita virilidade na mais perfeita infância. O coração do santo é um fogo que vitaliza em vez de carbonizar, ou é un ouragan docile, como disse Maritain.

Sei que essa obediência à Escritura e à Igreja pode soar a muitos como perda de liberdade – apesar dos playgrounds e alegres campos de caça de que nos fala Chesterton. Como esse conceito de liberdade já foi muito aviltado, nos últimos 4 séculos, digo apenas que o conceito de liberdade dos católicos é aquele que é muito bem definido na magistral Encíclica Libertas, de Leão XIII.


03/06/2008

Site Permanência publica traduções deste blog

Este blog fica honrado pela publicação de duas de suas traduções no site Permanência. São artigos de Chesterton: Por que sou católico e Religião e sexo.

Há outros artigos de Chesterton publicados no site Permanência, muito bem traduzidos, que recomendo a todos.

18/05/2008

Diário de um Pároco de Aldeia, de Georges Bernanos

Seguem abaixo trechos do célebre livro de Bernanos. São meus trechos preferidos, dessa obra prima do grande católico francês. Tiro-os da 2ª edição da Paulus, 2000.


Os padres

Antigamente, por exemplo, a tradição prescrevia que um discurso episcopal nunca devia se encerrar sem uma prudente alusão – convicta, é claro, mas prudente – à perseguição próxima e ao sangue dos mártires. Hoje em dia, essas predições vão se tornando cada vez mais raras. Provavelmente, porque sua realização parece menos incerta.

... mas confesso que padre letrado sempre me causou horror.

O padre medíocre é feio.

Os pobres e os ricos

... são Paulo não se iludia. A abolição da escravatura não suprimiria a exploração do homem pelo homem. (...) Dizia apenas que o cristianismo havia trazido ao mundo uma verdade que nada poderia fazer cessar, porque se encontrava previamente no âmago das consciências e porque nela o homem se reconhece imediatamente: Deus salvou cada um de nós e cada um de nós vale o sangue de Deus.

A idéia deles é boba. Naturalmente, trata-se ainda de exterminar o pobre – o pobre é testemunha de Jesus Cristo, é herdeiro do povo judeu, ora! – mas ao invés de destruí-lo como gado, o matá-lo, imaginaram transformá-lo numa pessoa que vive de rendas, num aposentado.

Haverá sempre pobre entre vós, pela mesma razão porque haverá sempre ricos, isto é, homens ávidos e duros, que procuram menos as posses do que o poder. Homens como estes existem entre os pobres como entre os ricos, e o miserável que vai curar sua bebedeira à beira do rio talvez tenha os mesmos sonhos que César, adormecido sob suas cortinas de púrpura. Ricos ou pobres, olhai-vos de preferência na pobreza, como diante de um espelho, pois ele é a imagem de vossa decepção fundamental, ela traz para este mundo o lugar do paraíso perdido, ele é o vazio de vossos corações, de vossas mãos. Somente a coloquei tão alto, a coroei, a desposei, porque conheço vossa malícia. Se eu tivesse permitido que vós a considerásseis vossa inimiga, ou apenas como estrangeira, se eu vos tivesse deixado a esperança de expulsá-la um dia do mundo, teria com o mesmo ato condenado os fracos. (...) Pus meu sinal sobre a fronte deles ...

Um problema insolúvel: restabelecer os direitos do pobre, sem estabelecê-lo no poder. (...) Uns vivem da idiotice de outrem, de sua vaidade, de seus vícios. O pobre, por sua vez, vive de caridade. Que expressão sublime.

A divisão de ricos e pobres deve responder a uma grande lei universal. Um rico, aos olhos da Igreja, é protetor do pobre, seu irmão mais velho, ora! Veja que, com freqüência, ele é esse irmão mais velho a contragosto, pelo simples jogo das forças econômicas, como eles dizem. Um multimilionário que quebra, e lá se vão milhares de pessoas para o olho da rua. Podemos então imaginar o que acontece no mundo invisível quando tropeça um desses ricos de quem estou falando, um intendente das graças de Deus.

Nós, diante do Senhor

Mas qual é o peso de nossas chances, para nós que aceitamos, de uma vez por todas, a assustadora presença do divino em cada instante de nossas pobres vidas?

... a pureza não nos é prescrita como um castigo, ela é uma das condições misteriosas mais evidentes – a experiência o atesta – deste conhecimento sobrenatural de si mesmo, de si mesmo em Deus, que se chama fé. A impureza não destrói esse conhecimento, aniquila a necessidade dele.

E o imprevisível nunca é negligenciável. Estarei ali onde nosso Senhor quer que eu esteja? Pergunta que me faço vinte vezes por dia. Pois o mestre que servimos não somente julga as nossas vidas – ele compartilha delas, e as assume. Teríamos muito menos dificuldade para contentar um Deus geômetra e moralista.

Eis-me despojado, Senhor, como somente vós sabeis despojar, pois nada escapa à vossa temível solicitude, ao vosso temível amor.

Acredito nisso, senhora. Creio que se Deus nos desse idéia clara da solidariedade que nos une uns aos outros, no bem como no mal, de fato não poderíamos mais viver.

O que posso lhe afirmar, apesar de tudo, é que não há um reino dos vivos e um reino dos mortos, somente existe o reino de Deus, e todos, vivos ou mortos, estamos dentro dele.

O demônio

E o demônio da angústia é essencialmente, creio, um demônio impuro.

O demônio da luxúria é um demônio mudo.

Pois Satã é um amo muito rígido: ele não ordenaria, como o Outro, com sua simplicidade divina: “Imitem-me!” Ele não suporta que suas vítimas se assemelhem a ele, permite-lhes apenas uma caricatura grosseira, impotente, com a qual deve se deliciar, sem jamais se saciar, a feroz ironia do abismo.

Os pecados

O pecado contra a esperança! O mais mortal de todos e talvez o mais bem recebido, o mais acariciado. É necessário muito tempo para reconhecê-lo, e a tristeza que o anuncia, o precede, é tão doce! É o mais rico dos elixires do demônio, a sua ambrosia.

Confundir a luxúria própria do homem, e o desejo que aproxima os sexos, é o mesmo que dar o mesmo nome ao tumor e ao órgão que ele devora, e cujo aspecto às vezes suas deformidade reproduz de maneira assustadora. (...) Como não imaginam com mais freqüência que a máscara do prazer, despojada de toda hipocrisia, é justamente a máscara da angústia?

A alegria

Veja, vou lhe definir um povo cristão pelo seu contrário. O contrário de um povo cristão é um povo triste, um povo de velhos. (...) É do sentimento de sua própria impotência que a criança tira humildemente o princípio da sua alegria. (...) Se nos tivessem deixado fazer o que queríamos, a Igreja teria dado aos homens esta espécie de segurança soberana. (...) Fora da Igreja, um povo é sempre um povo de bastardos, um povo de crianças abandonadas. Evidentemente, resta-lhes ainda a esperança de se fazer reconhecer por satã. (...) Ora, a Igreja foi encarregada por Deus de manter no mundo o espírito da infância, a ingenuidade, este frescor. (...) A Igreja dispõe da alegria, de toda a alegria reservada a este nosso triste mundo.

A Virgem Maria

O olhar da Virgem é o único olhar verdadeiramente infantil, o único olhar de criança que jamais foi erguido sobre nossa vergonha e nossa infelicidade. Sim, meu filho, para bem rezar a ela, é preciso sentir sobre si esse olhar que não é inteiramente o olhar de indulgência – pois a indulgência não existe sem alguma experiência amarga – mas o da terna compaixão, da surpresa dolorosa, de não se sabe ainda qual sentimento, inconcebível, inexprimível, que a torna mais jovem do que o pecado, mais jovem do que a raça da qual provém, e que ela, apesar de mãe pela graça, mãe das graças, é a caçula do gênero humano.

A verdadeira humildade

Odiar a si mesmo é mais fácil do que se pensa. A graça está em se esquecer. Mas se todo orgulho estivesse morto em nós, a graça das graças seria amar-se humildemente a si mesmo, como qualquer um dos membros sofridos de Jesus Cristo.

Nossa condição de seres caídos

Acredito cada vez mais que aquilo que chamamos de tristeza, angústia, desespero, como que para nos persuadir que se trata de certos movimentos da alma, é a própria alma; que, desde a queda, a condição do homem é tal que nada poderá perceber, dentro como fora dele, a não ser sob a forma da angústia. (...) Se não fosse a vigilante piedade de Deus, me parece que na primeira tomada de consciência que tivesse de si mesmo, o homem se tornaria novamente pó.

Trabalhe, disse-me ele, faça pequenas tarefas, dia após dia. (...) É assim que o bom Deus espera nos ver, quando nos abandona às nossas próprias forças. As pequenas tarefas não parecem importantes, mas dão paz. São como as flores do campo, você sabe. Achamos que não têm perfume, mas, quando juntas, rescendem. A oração das pequenas coisas é inocente.

... a forma carnal da esperança, acho que é isso que chamam felicidade.

O inferno

Julgamos o inferno a partir das máximas deste mundo, e o inferno não é deste mundo. Ele não pertence a este mundo, nem tampouco ao mundo cristão. Um castigo eterno, uma expiação eterna – o milagre está em termos essa idéia aqui na terra, ao passo que, a falta, assim que parte de nós, basta um olhar, um sinal, um apelo mudo, para que o perdão mergulhe sobre ela, do alto dos céus, como uma águia. (...) O inferno, senhora, é não se amar mais. (...) Não amar mais, não compreender mais, e ainda assim viver, que prodigioso milagre! O erro comum a todos está em atribuir ainda a essas criaturas abandonadas alguma coisa de nós, de nossa perpétua mobilidade, enquanto que elas estão fora do tempo, fora do movimento, fixadas para sempre. (...) A infelicidade, a infelicidade terrível daquelas pedras em brasa que foram homens, é que elas nada mais têm a compartilhar.

Economia e política

Admiro os revolucionários que se dão a tanto trabalho para explodir muralhas com dinamite, enquanto o molho de chaves das pessoas bem-pensantes lhes teria permitido entrar tranqüilamente pela porta, se acordar ninguém.

... com aquela seriedade fúnebre, com aquele ar de segurança desconfiada que o privilégio do dinheiro dá aos mais ínfimos burgueses.

... o Estado começou a fazer das tripas coração. Cuida dos seus filhos, cura as suas feridas, lava a roupa, faz a sopa dos pobres, limpa a escarradeira dos caquéticos, mas olha para o relógio, imaginando se sobrará tempo para cuidar de seus próprios negócios.

Pegaria desde logo um daqueles “militantes”, aqueles mercadores de frases, artesãos de revoluções ...

Assim é que a famosa encíclica de Leão XIII, Rerum Novarum, vocês lêem tranqüilamente, com olhos indiferentes como um mandamento qualquer de quaresma. Na época, meu filho, achávamos que a terra tremia sob nossos pés. Que entusiasmo! Naquele tempo, eu era pároco de Norenfonte, em plena região mineira. Aquela idéia tão simples de que o trabalho não é mercadoria, submetida à lei da oferta e da procura, que não se pode especular sobre salários, sobre a vida dos homens, da mesma forma que sobre o trigo, o açúcar e o café, ela revolvia as consciências, você acredita?

Em suma, nosso Senhor conhecia muito bem o poder do dinheiro, abriu perto de si pequeno espaço para o capitalismo, deu-lhe a sua oportunidade, e até mesmo fez o primeiro depósito: acho isso prodigioso.

A mídia

O Verbo se fez carne, e os jornalistas daqueles tempos não souberam de nada!

A Idade Média

... a Idade Média compreendeu tudo.

Lutero

... foi naquele tempo que compreendi Lutero. (...) ... o velho Lutero acabou tendo que carregar feno para a manjedoura dos príncipes alemães, uma bela turma ... (...) Ainda que a princípio justa, pouco a pouco sua ira o havia envenenado: virou gordura ruim, eis tudo.