24/10/2005

O Grande Frasista G. K. Chesterton

Verdades Eternas


Os sovinas acordam cedo; os ladrões, pelo que sei, acordam na noite anterior.

Defender quaisquer das virtudes cardeais tem, hoje em dia, toda a excitação de um vício.

Uma coisa morta pode seguir a correnteza, mas somente uma coisa viva pode contrariá-la.

As falácias não se tornam menos falácias porque se tornaram modas.

Imparcialidade é um nome pomposo para indiferença, que é um nome elegante para ignorância.

Uma inconveniência é apenas uma aventura erroneamente considerada; uma aventura é uma inconveniência corretamente considerada.

O que amargura o mundo não é excesso de crítica, mas a ausência de autocrítica.

Um homem são é aquele que tem a tragédia em seu coração e a comédia em sua cabeça.

Entre os ricos você nunca encontrará um homem verdadeiramente generoso, nem por acaso. Eles podem doar seu dinheiro, mas nunca se doam; eles são egoístas, enigmáticos, secos como ossos velhos. Para ser inteligente o suficiente para conseguir todo aquele dinheiro, você deve ser estúpido o suficiente para desejá-lo.

Força moderada é usada na violência, força suprema é usada na levitação.

A simplificação de qualquer coisa é sempre sensacional.

Protestos sempre voltam como um eco dos confins do mundo; mas o silêncio nos revigora.

Costumes são, geralmente, generosos. Hábitos, são quase sempre, egoístas.

Acredito que o que realmente acontece na história é o seguinte: o homem idoso está sempre errado; e os jovens estão sempre errados sobre o que está errado. A forma prática que isso toma é a seguinte: enquanto o homem idoso se apega a algum costume estúpido, o homem jovem sempre o ataca, com alguma teoria que se mostra igualmente estúpida.

O centro de toda a existência do homem é um sonho. Morte, doença, insanidade, são, meramente, acidentes materiais, como uma dor de dente ou uma torção no tornozelo. Que essas forças brutais sempre sitiam e, freqüentemente, capturam a cidadela, não prova que elas são a cidadela.

O otimista é uma pessoa em permanente rebelião que, geralmente, vive e morre num esforço desesperado e suicida para persuadir as pessoas do quando elas são boas.

Ter o direito de fazer uma coisa não é, em absoluto, estar certo em fazê-la.

Todos os exageros estão certos, se eles exageram as coisas certas.

A comédia do homem sobrevive à sua tragédia.

Ultimamente não temos tido boas óperas cômicas, pois, o mundo real tem sido mais cômico que qualquer ópera imaginável.

Quando homens instruídos começam a usar a razão, então, geralmente, descubro que eles não a têm.

O homem livre é dono de si próprio. Ele pode se prejudicar comendo ou bebendo; ele pode se arruinar com o jogo. Se ele assim se comporta, ele é um grande idiota, e pode ser uma alma condenada; se não for esse o caso, ele é tão livre quanto um cachorro.

O esteta nunca faz nada além do que lhe é mandado fazer.

O esteta aspira à harmonia, não à beleza. Se seu cabelo não combina com o purpúreo por do sol, contra o qual ele se posta, ele rapidamente tinge seu cabelo com uma sombra de púrpura. Se sua esposa não combina com o papel de parede, ele se divorcia.

O reformador está sempre certo sobre o que está errado. Ele, geralmente, está errado sobre o que está certo.

A razão é sempre uma espécie de força bruta; aqueles que apelam mais para a cabeça do que para o coração, mesmo que pálido e educado, são, necessariamente, homens violentos. Falamos de ‘tocar’ o coração do homem, mas não podemos fazer nada com a sua cabeça, exceto golpeá-la.

O homem é sempre algo pior e algo melhor que um animal; e meros argumentos sobre a perfeição animal nunca o tocam. Assim, no sexo nenhum animal é cortes ou obsceno. E assim, nenhum animal inventou algo tão ruim quanto a embriaguez – ou tão boa quanto a bebida.

Quando entramos numa família, pelo ato de nascermos, entramos realmente num mundo que é incalculável, num mundo que tem suas próprias e estranhas leis, num mundo que poderia passar sem nós, num mundo que não criamos. Em outras palavras, quando entramos numa família, entramos num conto de fadas.

Uma coisa pode ser muito triste para ser crível ou muito má para ser crível ou muito boa para ser crível; mas ela não pode ser tão absurda para ser crível, neste planeta de sapos e elefantes, de crocodilos e peixes-espada.



Conselhos gratuitos


Não se deleite consigo mesmo. Deleite-se com a dança, com peças teatrais, com passeios de automóveis, com champagne e com ostras; deleite-se com jazz, com cocktails e com boates, se você não se diverte com nada melhor; deleite-se com a bigamia, com o roubo ou com outro crime qualquer; mas nunca se deleite consigo próprio.

Não olhe para os rostos nos jornais e revistas ilustrados. Olhe para os rostos na rua.

Quando for fazer um agrado a um amigo ou a uma criança, dê-lhes o que eles gostam, nunca o que seja bom para eles.

Concordo com o realista irlandês que diz que prefere a profecia depois do acontecido.


O culto ao progresso


O progresso é um comparativo para o qual ainda não temos o superlativo.

O progresso deve significar que estamos sempre mudando o mundo para adequá-lo à nossa visão, ao invés de sempre mudarmos a nossa visão.

Minha atitude perante o progresso passou do antagonismo ao tédio. Parei, há muito tempo, de discutir com as pessoas que preferem quinta-feira à quarta-feira porque é quinta-feira.

Os homens inventam novos ideais porque não ousam tentar os velhos ideais. Eles olham à frente com entusiasmo, porque eles temem olhar para trás.

Tradição significa votar na mais obscura das classes, nossos ancestrais. É a democracia dos mortos. A tradição recusa a se submeter àquela arrogante oligarquia que, por acaso, se encontra por perto.

O mundo moderno é um punhado de carros de corrida, todos obrigados a uma parada, presos num engarrafamento de trânsito.

Confortos raros aos nossos ancestrais são, agora, multiplicados nas fábricas e vendidos indiscriminadamente; e realmente, ninguém atualmente, que não se importe em passar sem ar, espaço, quietude, decência e boas maneiras, precisa se privar de nada que se queira; ou, pelo menos, de uma imitação barata do que se queira.

Uma história de detetive, geralmente, descreve seis homens discutindo sobre como aquele homem morreu. Uma história filosófica moderna, geralmente, descreve seis homens mortos discutindo como algum homem pode estar vivo.

Nenhuma das máquinas modernas, nenhuma das parafernálias modernas ... têm algum poder sobre alguém, exceto sobre aqueles que optaram por usá-las.

Toda a maldição do último século foi o que se pode chamar de a Oscilação do Pêndulo; isto é, a idéia de que o Homem deve ir, alternativamente, de um extremo ao outro. Isso é vergonhoso e chocante; é a negação de toda a dignidade da espécie humana. Quando o Homem está vivo ele permanece parado. É somente quando morre que ele oscila.

Este é o tempo no qual minorias ínfimas e teóricas podem conquistar maiorias inconscientes e não-teóricas.



Guerra e Política


[O marxismo], numa geração, irá para o limbo da maioria das heresias, mas enquanto isso, ele envenenará a Revolução Russa.

A guerra não é o melhor caminho para resolver as diferenças; é o único caminho para evitar que as diferenças sejam resolvidas em seu nome.

Há um corolário da concepção ‘ser muito orgulhoso para lutar’. Os humildes têm de empreender a maior parte da luta.

A única guerra defensável é a guerra de defesa.

O verdadeiro soldado luta não porque ele odeia o que está a sua frente, mas porque ele ama o que está atrás.

Como as revoluções envelhecem, e pior, se tornam respeitáveis!



Governo e Política


Uma vez que se abole Deus, o governo se torna Deus.

A América é o único país jamais fundando sobre um credo.

A Declaração de Independência baseia, dogmaticamente, todos os direitos no fato de que Deus criou todos os homens iguais; e está certa; pois, se eles não fossem criados iguais, eles, certamente, teriam evoluído desigualmente. Não há fundamento para a democracia, exceto no dogma da origem divina do homem.

A democracia inconsciente na América é uma coisa muito boa. É uma suposição verdadeira, profunda e instintiva na igualdade dos cidadãos que, mesmo o voto e as eleições, não destruíram.

Quando você desobedece as grandes leis, você não alcança a liberdade; você não promove nem mesmo a anarquia. Você promove as pequenas leis.

Se você tentar, atualmente, uma discussão real com um jornal de posição política oposta à sua, você não terá nenhuma resposta, exceto jargão ou silêncio.

É um crítico superficial aquele que não enxerga um eterno rebelde no coração de um conservador.

Você nunca terá uma revolução para estabelecer uma democracia. Você deve ter uma democracia para ter uma revolução.

Quando um político está na oposição ele é um expert nos meios para determinados fins; quando é situação, ele é um expert nos obstáculos.

Formei uma clara concepção de patriotismo. Geralmente, o tenho encontrado alçado ao primeiro plano por algum sujeito que tem algo a esconder no segundo plano. Tenho visto uma grande quantidade de patriotismo; e o tenho descoberto como o último refúgio dos patifes.

Não pode haver uma nação de milionários, e nunca houve uma nação de camaradas utópicos; mas pode haver muitas nações de camponeses toleravelmente felizes.

Todo governo é uma horrível necessidade.

É difícil tornar um governo representativo quando ele é, ao mesmo tempo, remoto.

É um bom sinal para uma nação quando as coisas estão sendo feitas imperfeitamente. Isso mostra que todo o povo as está fazendo. E é um mau sinal quando as coisas estão sendo feitas muito bem, pois, isso mostra que somente uns poucos experts e excêntricos as estão fazendo e que a nação está sendo um mero espectador.

Todo o mundo moderno se dividiu em conservadores e progressistas. O negócio dos progressistas é continuar cometendo erros. O negócio dos conservadores é prevenir que os erros sejam corrigidos.


Sociedade e cultura

Nunca pude ver nada de errado no sensacionalismo; e estou certo de que nossa sociedade sofre mais pela confidencialidade do que por quaisquer revelações extravagantes.

De tudo o que ouvimos da atividade e da pressa americanas, é realmente estranho que os americanos parecem gostar de se demorarem em grandes palavras.

É verdade que sou da velha guarda; muito do que amo foi destruído ou exilado.

Penso que o mais estranho sobre os povos avançados é que, ao mesmo tempo em que eles estão sempre conversando sobre as coisas como sendo problemas, eles, dificilmente, têm qualquer noção do que seja um problema real.

Super-civilização e barbárie estão a menos de uma polegada de distância. E uma marca de ambos é o poder do curandeiro.

Por especialistas em pobreza eu não quero dizer sociólogos, mas homens pobres.

Uma cidade moderna é feia não porque ela é uma cidade, mas porque ela não é suficientemente uma cidade, porque é uma selva, porque é confusa e anárquica, surgindo com a energia egoística e materialista.

Auto-negação é o teste e a definição do auto-governo.



Amor, casamento e os sexos


Amor significa amar o inamável, ou não é uma virtude, em absoluto.

As mulheres são as únicas realistas; todo seu objetivo na vida é opor seu realismo ao extravagante, excessivo e, ocasionalmente, embriagado idealismo dos homens.

O grande prazer do casamento é que ele é uma crise permanente.

O bom trabalho de um homem é conseqüência do que ele faz, o da mulher, do que ela é.

As mulheres têm uma sede de ordem e beleza como algo físico; há um estranho poder feminino de odiar a feiúra e o desperdício, enquanto que o homem bom somente odeia os pecados e as virtudes dos homens maus.

O casamento é um duelo mortal que nenhum homem honrado deve rejeitar.

Os primeiros dois fatos que um menino ou menina saudável sentem sobre o sexo são: primeiro que é bonito e depois que é perigoso.

Tenho poucas dúvidas de que quando São Jorge matou o dragão ele estava com um medo terrível da princesa.



Religião e Fé

Um dos principais usos da religião é que ela nos lembra nossa origem na escuridão, o simples fato de que fomos criados.

A Bíblia nos diz para amar nosso próximo e também para amar nosso inimigo; provavelmente porque eles são a mesma pessoa.

Se não houvesse Deus, não haveria nenhum ateu.

Há aqueles que odeiam o Cristianismo e chama esse ódio um completo amor pelas outras religiões.

O ideal Cristão não foi tentado e considerado imperfeito; ele foi considerado difícil e não foi tentado.

Os mistérios de Deus são mais satisfatórios que as soluções humanas.

Tem sido afirmado, muito acertadamente, que a religião é a coisa que faz o homem ordinário se sentir extraordinário; é uma verdade igualmente importante que a religião é a coisa que faz o homem extraordinário se sentir ordinário.

Teologia é somente o pensamento aplicado à religião.

A verdade é, claramente, que a rigidez dos Dez Mandamentos é uma evidência, não da obscuridade e estreiteza da religião, mas, ao contrário, da sua liberalidade e humanidade. É mais econômico afirmar as coisas proibidas do que as permitidas: precisamente porque muitas coisas são permitidas e apenas poucas proibidas.

Estes são tempos em que se espera do Cristão que ele admire todo credo, exceto o seu próprio.

O Puritanismo foi uma honrada disposição mental, uma nobre voga. Em outras palavras, foi um admirável erro.




Natal

Quando um homem considera o dia de Natal uma mera desculpa para se encharcar de comida e bebida, isso seria falso mas, haveria um fato verdadeiro escondido em algum lugar. Mas quando Bernard Shaw diz que o dia de Natal é somente uma conspiração estritamente comercial de avicultores e comerciantes de vinho, então ele diz algo chocante e magnificentemente estúpido. Ele poderia também ter dito que os dois sexos foram inventados por joalheiros interessados na venda de anéis.

Quem pensa que o Menino Jesus nasceu em dezembro entende por isso exatamente o que nós entendemos; que Cristo não é meramente um sol de verão para o próspero, mas um fogo invernal para o infeliz.

Quanto mais nos orgulhamos de que a história de Belém é simples o bastante para ser compreendida pelos pastores, e quase pelas ovelhas, tanto mais nos deixamos levar, através de obscurecidos e belos afrescos e procissões imaginárias, pelo mistério e majestade dos Três Reis Magos.

A grande maioria das pessoas continuará a observar formas que não podem explicar; elas continuarão, no dia de Natal, a trocar presentes de Natal e a aspirarem a benção de Natal; elas continuarão a fazê-lo; e algum dia, repentinamente, elas acordarão e descobrirão o por quê.



Moralidade e Verdade


Os homens não discordam muito nas coisas que eles consideram más; eles discordam, enormemente, sobre que males eles considerarão desculpáveis.

Não é que não temos patifes suficientes para amaldiçoar; é que não temos homens bons suficientes para amaldiçoá-los.

Há motivos para dizer a verdade; há motivos para evitar a calúnia; mas não há defesa possível para o homem que calunia e não diz a verdade.

A verdade integral é, geralmente, a aliada da virtude; a meia verdade é sempre aliada de algum vício.

A verdade é sagrada; e se você diz a verdade muito freqüentemente, ninguém acreditará.

A civilização tem corrido à frente da alma do homem, e está produzindo mais rápido do que ele pensa e possa agradecer.

Não é intolerância ter certeza de se estar certo; mas é intolerância ser incapaz de imaginar como pudemos ter errado.

Haveria muito menos desgraça se as pessoas não idealizassem o pecado e se posassem como pecadores.

Todos os homens têm sede de dizer a verdade mais do que bestas cansadas são sedentas por água; mas eles naturalmente se negam a confessá-los quando outras pessoas, que cometeram os mesmos crimes, se sentam por perto e se riem deles.

Idolatria é cometida, não somente pela instituição de falsos deuses, mas também, pela instituição de falsos demônios; fazendo os homens temerem a guerra e o álcool, ou a lei econômica, quando eles devem temer a corrupção espiritual e a covardia.

Eu digo que o homem deve estar certo de sua moralidade pela simples razão de que ele tem de sofrer por ela.

Para o homem humilde, e para o homem humilde somente, o sol é realmente o sol; para o homem humilde, e para o homem humilde somente, o mar é somente o mar.

Grandes verdades podem, somente, ser esquecidas, mas nunca podem ser falsificadas.

A voz de rebeldes e profetas especiais, recomendando descontentamento, deve, como eu disse, se fazer ouvir de quando em vez, repentinamente, como um anúncio. Mas as vozes dos santos e sábios, recomendando contentamento, devem soar incessantemente, como o mar.

Toda a ciência, mesmo a divina ciência, é uma sublime história de detetive. Mas ela não é para detectar porque o homem está morto; mas o obscuro segredo do porquê ele está vivo.

A maior parte da liberdade moderna tem sua raiz no medo. Não é que somos tão corajosos para nos submeter às leis; é que, ao contrário, somos muito tímidos para nos submeter às responsabilidades.

Se quisermos dar aos pobres entretenimento, devemos nos preparar para dá-los luxo. Se não os fizermos suficientemente ricos para serem limpos, então, devemos fazer o que fazíamos com os santos. Devemos reverenciá-los por estarem sujos.

O mundo será, muito proximamente, dividido, a menos que me engane, entre aqueles que continuarão explicando nosso sucesso, e aqueles, algo mais inteligentes, que estão tentando explicar nosso fracasso.

O que chamamos emancipação é, sempre e por necessidade, simplesmente, a livre escolha da alma entre um conjunto de limitações em detrimento de outro.

Há alguns desejos que não são desejáveis.

Na luta pela existência, a esperança começa a alvorecer somente para aqueles que permanecerem por dez minutos depois que tudo tenha se tornado desesperado.

A indulgência e tolerância modernas beneficiam os ricos; e não beneficiam mais ninguém.

O principal negócio terreno do ser humano é construir seu lar e seus arredores, tão simbólico e significativo para sua imaginação quanto ele seja capaz.



Teoria Econômica e Distributismo


O Grande Negócio e o Estado Socialista são muito parecidos, especialmente o Grande Negócio.

Nenhuma sociedade pode sobreviver da falácia socialista de que existe um número absolutamente ilimitado de autoridades inspiradas e uma quantidade absolutamente ilimitada de dinheiro para pagá-las.

Um cidadão dificilmente distingue entre um imposto e uma multa, exceto pelo fato de que a multa é, geralmente, muito menor.

Muito capitalismo não significa muitos capitalistas, mas muito poucos capitalistas.

O preço é uma coisa maluca e incalculável, enquanto o Valor é uma coisa intrínseca e indestrutível.

Os empresários, especialmente os grandes empresários, estão agora organizados como um exército. É, como alguns diriam, um militarismo suave sem derramamento de sangue; como eu digo, um militarismo sem as virtudes militares.

Todos, excetos os duros de coração, devem estar consternados com o patético dilema do homem rico, que tem de manter o homem pobre gordo o suficiente para conseguir trabalhar e magro o suficiente para ter de trabalhar.

Do ponto de vista de qualquer pessoa sã, o problema atual da concentração capitalista não é somente uma questão de lei, mas de lei criminal, para não falar de demência criminal.

Porque a garota deve ter cabelos longos, ela deve os ter limpos; porque ela os deve ter limpos, ela não deve ter uma casa suja; por que ela não deve ter uma casa suja, ela deve ter uma mãe livre e sem trabalho; por sua mãe não trabalhar, ela não deve ter um locador usurário; porque o locador não deve ser usurário, deve haver uma redistribuição de propriedade; porque deve haver uma redistribuição de propriedade, deve haver uma revolução.
Há apenas uma coisa em nosso meio, atenuada e ameaçada, mas detentora de um certo poder, como um fantasma da Idade Média: os Sindicatos.

[O capitalismo é] aquele sistema comercial em que a oferta imediatamente responde pela demanda e em que todo mundo parece estar completamente insatisfeito e incapaz de conseguir aquilo que deseja.

Nossa sociedade é tão anormal que o homem normal nunca sonha em ter a ocupação normal de cuidar se sua própria propriedade. Quando ele escolhe um negócio, ele escolhe um, entre milhares de negócios, que envolve cuidar da propriedade dos outros.

O argumento real contra a aristocracia é que ela sempre significa o governo do ignorante. Pois, a mais perigosa forma de ignorância é a ignorância do trabalho.

Fazer o locatário e o locador a mesma pessoa tem certas vantagens, tal como o locatário não pagar o aluguel e o locador não trabalhar muito.

Você não pode ter uma fazenda familiar sem ter família.

Eu daria à mulher não mais direitos, mas mais privilégios. Ao invés de mandá-la procurar aquela liberdade que, notoriamente, prevalece em bancos e fábricas, eu, especialmente, projetaria uma casa em que ela pudesse ser livre.



Arte e Literatura


Arte, como a moralidade, consiste em traçar uma linha em algum lugar.

A decadência da sociedade é louvada pelos artistas assim como a decadência de um defunto é louvada pelos vermes.

O temperamento artístico é uma doença que aflige os amadores.

Os selvagens e os artistas são igual e estranhamente levados a criarem algo mais feio que eles mesmos. Mas, os artistas acham a tarefa mais difícil.

A decoração do mundo não é trabalho da natureza, mas um trabalho de arte, assim, ele envolve um artista.

Por uma curiosa confusão, muitos críticos modernos passaram da proposição de que uma obra-prima pode ser impopular para a outra proposição de que, a menos que seja impopular, ela não é uma obra-prima.

E em todo o mundo, a velha literatura, a literatura popular, permanece a mesma. Ela consiste de muita tristeza digna e de muito divertimento indigno. Suas tristes lendas são de corações partidos; suas lendas alegres são de cabeças partidas.

As palavras de uma boa prosa significam o que elas dizem. As palavras de uma boa poesia significam o que elas não dizem.



Palavras Passadas e Dilemas Atuais


Pais ausentes
O que é chamado matriarcado é, simplesmente, anarquia moral, na qual as mães ficam sozinhas porque todos os pais são fugitivos ou irresponsáveis.

Volta à natureza
Propriamente falando, é claro, não existe tal coisa como uma volta à natureza, porque não uma tal coisa como uma saída dela. A frase lembra um cavalheiro, levemente embriagado, que se levanta na sua própria sala de jantar e declara, firmemente, que está indo para casa.

Preconceito
O preconceito é uma incapacidade de conceber, seriamente, uma alternativa a uma proposição.

Pena Capital
De minha parte, não haveria nenhuma execução, exceto pela plebe; ou, pelo menos, pelo povo agindo muito excepcionalmente. Eu proibiria a pena capital, exceto em casos de confisco. Assim, haveria alguma chance de uns poucos de nossos reais opressores serem enforcados.

Distribuição de Preservativos
Nossos mestres materialistas podem, e provavelmente irão, colocar o Controle de Natalidade em um programa prático imediato, enquanto todos nós estamos discutindo o terrível perigo de alguém colocá-lo numa distante Utopia.

O Sistema Educacional
O propósito da Educação Compulsória é o de negar às pessoas comuns seu senso comum.

Apesar das autoridades acadêmicas se orgulharem de conduzir tudo por meio da Avaliação, elas raramente cedem ao que as pessoas religiosas descrevem como Auto-Avaliação. A conseqüência disso é que o Estado moderno tem educado seus cidadãos numa série de modas transitórias.



Uma Sociedade Litigante
A posição que agora nos encontramos é esta: começando pelo Estado, tentamos remediar os fracassos de todas as famílias, de todas as creches, de todas as escolas, de todas as oficinas, de todas as instituições secundárias que tiveram, no passado, alguma autoridade própria. Tudo é, ao fim, levado aos Tribunais. Nós estamos tentando parar o vazamento que acontece do outro lado.

Psicanálise
Psicanálise é uma ciência conduzida por lunáticos para lunáticos. Eles estão, geralmente, preocupados em provar que as pessoas são irresponsáveis; e eles, certamente, tiveram sucesso em provar que algumas pessoas são.

Direitos Reprodutivos
Deixemos todos os bebes nascerem. Então, afoguemos aqueles de quem não gostarmos.

Separação Igreja-Estado
Liberdade religiosa deve significar que todos são livres para discutir sobre religião. Na prática ela significa que a quase ninguém é permitido mencionar o assunto.



Fonte: http://www.chesterton.org

21/09/2005

Um Furacão em Três Atos



Nota: Seguem três artigos sobre furacões nos EUA. Sowell e Rothbard discutem a questão da participação do governo nas emergências nacionais. Sowell discute também a decadência moral dos americanos e a consequente avalanche de saques, estupros e assassinatos em New Orleans. Vale a pena meditar sobre o assunto, ainda mais, na medida em que ele é tratado de maneira tão leviana pela mídia no Brasil.


Reconstruindo New Orleans – e os EUA

Thomas Sowell

A devastação física causada pelo furação Katrina revelou, dolorosamente, a devastação moral de nosso tempo que levou aos saques generalizados em New Orleans, aos assaltos nos abrigos, aos estupros de garotas e aos tiros nos helicópteros de salvamento.

Quarenta anos atrás, houve um grande blackout em New York e em cidades do nordeste americano. Os cidadãos comuns foram para as interseções das ruas para controlar o tráfego. Todos se ajudaram mutuamente. Depois do blackout, a experiência deixou em todos sentimentos muito positivos em relação a seus semelhantes.

Anos mais tarde, outro blackout em New York levou a uma situação muito pior. E o que aconteceu agora em New Orleans foi ainda pior. Existiria uma tendência em tudo isso?

Medo, dor, desespero seriam justificáveis em pessoas cujas vidas fossem devastadas por eventos além de seu controle. Pesar pode ser compreensível naqueles que foram instados a evacuar a área e escolheram ficar. Ainda assim, a palavra que se houve daqueles que permaneceram é “raiva”.

Isso pode ser uma pista, não só para a ruptura da decência em New Orleans, mas para uma ampla degenerescência na sociedade americana, em décadas recentes. Por que as pessoas estão com raiva? E de quem?

Aparentemente, estão com raiva das autoridades governamentais, por não terem sido resgatadas mais cedo, ou melhor cuidadas, ou pela ruptura da lei e da ordem.

Não há dúvida de que, depois que a situação emergencial passar, surgirão muitas coisas que poderiam ter sido mais bem feitas. Mas, quem pode olhar para trás, honestamente, para sua própria vida, sem perceber muitas coisas que poderiam ter sido tratadas de forma mais conveniente? Apenas pensar sobre todos os erros que você cometeu na vida pode ser uma experiência de humildade, se não de humilhação.

Afinal, o governo é apenas um conjunto de seres humanos – políticos, juízes, burocratas etc. Talvez, a razão pela qual ficamos tão freqüentemente desapontados é que esse grupo de pessoas tem feito promessas demais, se aproveitando de nossa excessiva credulidade.

O governo não pode resolver todos os nossos problemas, mesmo em tempos normais, muito menos durante catástrofes da natureza que lembram ao homem o quão pequeno ele é, a despeito de todo o seu eloqüente discurso.

A função mais elementar do governo, a manutenção da lei e da ordem, se rompe quando enchentes e blackouts paralisam o sistema.

Durante os bons ou os maus tempos, a polícia não consegue policiar todo mundo. Ela pode, no máximo, controlar um pequeno segmento social. A vasta maioria das pessoas tem de controlar a si mesmas.

E é aí que entram as grandes tradições morais da sociedade – aquelas tradições morais que é tão elegante escarnecer, tão moderninho violar e que nossas próprias escolas ensinam os jovens a subestimar, dizendo que eles têm de desenvolver seus próprios padrões, ao invés de seguirem o que aqueles velhos bobões, como seus pais, lhes dizem.

Agora podemos ver o quanto custa esses padrões “criados sob medida” na crueldade e na anarquia de New Orleans.

Num mundo em que as pessoas exibem sua “independência”, seu “direito” de desprezar a autoridade moral e, algumas vezes, também a autoridade legal, a tragédia de New Orleans nos lembra o quanto somos, cada um de nós, dependentes, em nossas vidas, de milhões de outras pessoas que sequer vemos.

Milhares de pessoas de New Orleans serão salvas porque milhões de outras pessoas, delas desconhecidas, sentem-se obrigadas moralmente a virem em seu socorro, de todas as partes do país. As coisas que os “inteligentes” e os “sofisticados” escarnecem, são, em última análise, tudo que se interpõe entre nós e a completa devastação.

Qualquer um de nós poderia ter estado em New Orleans. E do que dependeríamos para salvar-nos? Ética situacional? Filosofia pós-moderna? A imprensa? Os advogados? A retórica da intelligentsia?

Não, nós dependeríamos das coisas que vão salvar os sobreviventes do furação Katrina, as mesmas coisas que os “inteligentes” vivem difamando.

New Orleans pode ser reconstruída e os diques podem ser reerguidos. Mas, podem os diques morais ser reerguidos, não só em New Orleans, mas em todo o país?

Publicado por Townhall.com




Fema versus Wal-Mart


Thomas Sowell

Quaisquer que sejam as conclusões das investigações posteriores sobre os erros da FEMA (Agência Federal de Gerenciamento de Emergências) em New Orleans, é improvável que mostrem que as estridentes acusações de racismo sejam algo mais que retórica política irresponsável.

A FEMA fracassou em outras emergências, onde a maioria das vítimas era de cor branca e em outros governos. Como muitos órgãos burocráticos governamentais, a FEMA é a ruína para a política de igualdade de oportunidades.

Muitos dos que pensam que o governo é a reposta para nossos problemas não se preocupam em verificar as evidências. Mas pode ser ilustrativo comparar como a iniciativa privada respondeu ao furacão Katrina e como responderam os governos local, estadual e nacional.

Bem antes do Katrina atingir New Orleans, quando ele era apenas uma depressão tropical na costa da Flórida, o Wal-Mart estava enviando geradores elétricos, garrafas de água e outros suprimentos emergenciais para seus centros de distribuição na costa do Golfo.

E o Wal-Mart não era o único. A Federal Express distribuiu 100 toneladas de suprimentos nas áreas atingidas antes da chegada do Katrina. A State Farm Insurance enviou algo em torno de dois mil agentes especiais para acelerar as solicitações de cobertura de seguros. Outras empresas se lançaram na tentativa de fazer chegar seus produtos e serviços na área atingida.

Enquanto isso, leis impedem que o Governo Federal aja sem a permissão das autoridades estaduais ou locais. Infelizmente, o prefeito de New Orleans e a governadora de Louisiana são de um partido diferente do Presidente Bush, o que pode ter alguma relação com a relutância inicial de tê-lo permitido prestar ajuda e ficar com o crédito político.

Ao final, não houve crédito político para ninguém. Houve apenas acusações mútuas.

A política é apenas uma das inúmeras razões porque os governos não são os melhores gerenciadores da maioria das emergências. E os EUA não são os únicos nesse aspecto.

Há alguns anos atrás, mais de cem marinheiros russos pagaram com suas vidas pela relutância governamental em aceitar uma oferta do governo americano de envio de navios para salvar a tripulação de um submarino russo que estava preso no fundo do mar. Como o mundo veria a situação de marinheiros russos sendo salvos pela Marinha Americana, quando poderiam ter sido salvos pela sua própria Marinha?

A indignação popular na Rússia depois do episódio fez com que o governo russo, mais recentemente, permitisse que especialistas da Marinha Britânica executasse o resgate de marinheiros russos presos num submarino submerso.

Excessos burocráticos podem atrasar ajudas emergenciais. Não é incomum, quando há escassez extrema de alimentos, que a comida enviada por outros países apodreça nos armazéns portuários, enquanto as pessoas morrem de fome no interior, pois a comida não é transportada a tempo.

Em 2001, refugiados da guerra do Afeganistão estavam morrendo de fome, enquanto trabalhadores das agências de ajuda humanitária estavam preenchendo relatórios antes de distribuírem os alimentos. Durante o tsunami no sudoeste da Ásia este ano, os suprimentos de comida, remédio e outros bens necessários vindos do exterior se amontoavam nos aeroportos.

Isso não é verdade em todos os casos. Nada é verdade em todos os casos. Valorizamos altamente aqueles que fazem o máximo para ajudar os outros, em parte porque nem todos agem assim.

Este seria, indiscutivelmente, um mundo melhor se todos nós amássemos nosso próximo como a nós mesmos e agíssemos de acordo com esse preceito.

Mas no mundo real em que vivemos, a questão é qual o conjunto de incentivos tem conseguido fazer melhor o trabalho – e, especialmente, fazer o trabalho mais prontamente quando o tempo pode ser a diferença entre a vida e a morte.

O país não aumenta em nem um centavo os recursos disponíveis, quando esses recursos são canalizados através do governo. Os recursos são, apenas, manejados menos eficientemente por governos e distribuídos de uma forma indiscriminada, que encoraja o povo a continuar vivendo em conhecidos caminhos de previsíveis desastres.

Publicado por Townhall.com



Governo e Furação: Uma combinação mortal

Murray N. Rothbard



Desastres naturais, como furacões, tornados e erupções vulcânicas, ocorrem de tempos em tempos e muitas vítimas desses desastres têm a infeliz tendência de procurar a quem culpar. Ou melhor, procurar quem pagará pela ajuda recebida e pela sua reabilitação. É quando o Papai Governo (um coadjuvante do infeliz pagador de impostos) é chamado, em alto e bom som, para abrir seus bolsos. O último incidente aconteceu depois da devastação do Furacão Hugo, quando muitos habitantes da Carolina do Sul redirecionaram sua ira, do impiedoso furacão, para o governo e sua agência FEMA (Agência Federal de Gerenciamento de Emergências), por não terem enviado mais ajuda, mais rapidamente.

Mas, por que os cidadãos pagadores de impostos A e B devem ser forçados a pagarem por desastres naturais que atingem o cidadão C? Por que o cidadão C e suas companhias privadas de seguros não pagam a conta? Qual é o princípio ético que fundamenta a insistência de que os habitantes da Carolina do Sul, sejam segurados ou não segurados, pobres ou ricos, devem ser subsidiados às expensas de todos nós, pobres ou ricos, que não vivemos na costa atlântica sul, um lugar notório por enfrentar furacões outonais? Realmente, o espirituoso ator que, regularmente, personifica o Presidente Bush no programa televiso Saturday Night Live estava, talvez, mais correto do que ele pensava, quando pontificou: “Furacão Hugo – não tenho culpa.” Mas nesse caso, claro, o governo federal deveria sair do negócio da ajuda emergencial e a FEMA deveria ser abolida imediatamente.

No entanto, mesmo que o governo federal não seja tão culpado assim, outras forças governamentais jogaram no time de Hugo e aumentaram a devastação que ele infligiu. Considere o ponto de vista do governo local. Quando o furacão Hugo chegou, o governo impôs uma evacuação compulsória em muitas áreas costeiras da Carolina do Sul. Então, quase uma semana depois de Hugo ter atingido a região, a prefeita de uma das cidades mais atingidas, Isle of Palms perto de Charleston, proibiu os residentes a retornarem a suas casas para tentar avaliar e reparar os danos.

Como se atreveu a prefeita proibir as pessoas a retornarem à suas casas? Quando ela, finalmente, cedeu, seis dias depois, ainda impôs, na cidade, um toque de recolher a partir de 19h. A teoria por trás dessa afronta é que as autoridades locais estavam “temendo pela segurança dos cidadãos e preocupados com possíveis saques.” Mas os oprimidos residentes de Isle of Palms tiveram uma reação diferente. A maioria deles ficou irritada; um caso típico foi da senhora Pauline Bennett que lamentava que “se pudéssemos ter chegado mais cedo teríamos salvado mais coisas.”

Mas esse não foi, obviamente, o único caso de intervenção do “estado de bem-estar social”, tornando piores as coisas para as vítimas do Hugo. Como resultado da devastação, houve escassez de vários produtos na cidade de Charleston. Respondendo à repentina escassez, o mercado agiu rapidamente para equalizar a oferta e a demanda, por conseqüência, elevando os preços: estimulando o racionamento direto, voluntário e efetivo de bens, abruptamente, escassos. A prefeitura de Charleston, no entanto, rapidamente interveio para impedir a trapaça, o logro, por meio de aumentos abusivos de preço – aprovou, grotescamente, uma legislação de emergência, que tornava crime a prática de preços mais altos do que os existentes antes do furacão Hugo, punível com uma multa máxima de US$200 e um mês de cadeia.

O “estado de bem-estar social” de Charleston substituiu, insofismavelmente, os preços altos por uma aguda crise de escassez de produtos. Os recursos disponíveis foram alterados e mal alocados, longas filas se formaram, tal como na Europa Oriental e tudo isso para que o povo de Charleston pudesse ter a confortável sensação de que, se pudessem encontrar os bens escassos, eles pagariam os precinhos existentes antes da chegada do furacão.

Assim, as autoridades municipais colaboraram com o trabalho de Hugo, intensificando sua destruição, por meio da evacuação obrigatória e da proibição do retorno e agravando a escassez, pela imposição do controle de preços. Mas isso não foi tudo. Talvez, o pior “vendaval” para os residentes costeiros tenha sido a intervenção daqueles inimigos profissionais da humanidade – os ambientalistas.

No ano passado, reagindo às reclamações dos ambientalistas sobre o desenvolvimento de propriedades praianas e o perigo de “erosão das praias” (as praias têm “direitos” também?), o estado da Carolina do Sul aprovou uma lei que restringe severamente qualquer nova construção à beira da praia, ou a substituição de qualquer construção danificada. O furacão Hugo, aparentemente, ofereceu uma oportunidade, enviada pelos céus, para que o Conselho Costeiro da Carolina do Sul tornasse as praias, completamente, livres de seres humanos. O professor de Geologia Michael Katuna, um consultor do Conselho Costeiro, enxergou apenas justiça poética, arrogantemente declarando que “As casas não ficam bem nas praias, lugar onde a Mãe Natureza deseja trazer tempestades e furacões.” E se a Mãe Natureza desejasse que voássemos, ela nos teria dado asas?

Outros ambientalistas foram ainda mais longe, no louvor ao furacão Hugo. O professor Orrin H. Pilkey, geólogo em Duke, que é um dos principais teóricos do movimento “não-construa-na-praia,” criticou os desenvolvimentos imobiliários em Pawleys Island, a nordeste de Charleston, e sua reconstrução depois da destruição promovida pelo furacão Hazel em 1954. “A área é um exemplo de uma zona de alto risco que não deveria ter sido desenvolvida e, certamente, não deveria ter sido reconstruída depois da tempestade.” Pilkey agora chama Hugo de “um furacão muito oportuno”, que demonstra que as praias devem ser devolvidas à Natureza.

Gered Lennon, geólogo do Conselho Costeiro, expressou-se sucintamente: “Por mais desastre que o furacão tenha causado, ele pode ter tido um resultado saudável. Espera-se que ele restrinja alguns desenvolvimentos imobiliários imprudentes ao longo da costa.”

A atitude olímpica dos líderes ambientalistas contrastou, fortemente, com a visão dos residentes que tiveram suas propriedades destruídas. A senhora Bennett expressou o ponto de vista dos moradores de Isle of Palms. Determinada a reconstruir no mesmo lugar, ela observa: “Não temos escolha. Isso é tudo que temos. Temos de ficar aqui. Quem vai comprar nosso imóvel?” De certo, não a elite ambientalista da Carolina do Sul. Tom Browne, de Folly Beach, encontrou sua casa destruída pelo furacão Hugo. “Não sei se serei capaz de reconstruí-la ou mesmo se o Estado vai me permitir fazê-lo,” reclamava Browne. A lei, ele observa, está confiscando a propriedade sem indenização. “Isso há de ser inconstitucional.”

Precisamente. Pouco antes de Hugo chegar, David Lucas, um proprietário de Isle of Palms, ganhou uma ação de US$1,2 milhões contra o estado de Carolina do Sul. O tribunal decidiu que o estado não podia negá-lo o direito de construir em sua terra, sem a devida compensação. E os ambientalistas da Carolina do Sul não serão capazes de obrigar os pagadores de impostos a se responsabilizarem pelas enormes compensações financeiras advindas da proibição da reconstrução de todos os imóveis destruídos pelo furacão Hugo.

Skip Johnson, um ambientalista consultor da Carolina do Sul se preocupa: “será um pesadelo real.” As pessoas vão querer reconstruir e seguir com suas vidas. “O Conselho Costeiro e seu pessoal”, Johnson lamenta, “vão ter muito trabalho.” Esperemos que sim.



Artigo recentemente republicado em LewRockwell.com. Originalmente publicado na The Free Market, em dezembro de 1989.

11/09/2005

Cidadania Empresarial: Um Imposto Disfarçado

Richard Teather


Responsabilidade Social Corporativa é o novo campo que uniu uma variedade de grupos de ativistas, incluindo ambientalistas, defensores dos pobres, instituições de caridade para o Terceiro Mundo e sindicatos, num clamor coletivo para que os empresários apóiem sua agenda. Esses ativistas se encontram até, em raras oportunidades, entre proeminentes membros da comunidade empresarial.

Caridade realizada por empresários tem uma longa história, apesar de que, no caso de grandes corporações, com grande número de acionistas, essa atitude carregue o risco moral de executivos comprarem respeitabilidade social com o dinheiro alheio. Uma posição moral e socialmente superior seria os acionistas receberem seus dividendos e eles próprios apoiarem ações de caridade.

No entanto, Responsabilidade Social Corporativa é considerada mais do que isso: associada ao conceito de “Cidadania Empresarial”, ela requer que todo o conjunto de ações da companhia seja executado com um olho em seu impacto social; no ambiente, nos empregados e nas “comunidades” locais e globais.

“Cidadania Empresarial” é claramente um falso conceito; uma companhia é uma entidade legal, não uma pessoa, e não pode ter crenças e princípios morais que a faça um cidadão em qualquer aspecto significativo. Ao contrário, essas crenças e princípios residem nas pessoas reais; nos acionistas da companhia, nos empregados, nos clientes e, de maneira mais influente, nos dirigentes da empresa. Cidadania Empresarial, portanto, carrega os mesmos riscos morais que a caridade empresarial; ela é um processo através do qual os diretores da companhia impõem seus princípios morais aos outros.

Ironicamente, um novo argumento tem sido levantado em apoio à Responsabilidade Social Corporativa, que explica muito da sua aprovação pelo setor empresarial. Como as companhias competem por capital, por atrair e manter recursos humanos e por comercializar produtos, aqueles que são considerados apoiadores dos valores e objetivos dos investidores, trabalhadores e consumidores terão uma vantagem comercial.

Algo disso já tem sido visto (Ben & Jerry’s nos EUA e Body Shop, uma cadeia de cosmésticos que se anuncia como uma empresa com preocupações ambientais, na Inglaterra.), mas os proponentes da Responsabilidade Social Corporativa afirmam que a crescente consciência do público sobre as questões sociais e ambientais levará essa prática, ainda localizada, a se generalizar.

Como um bom liberal e defensor do auto-interesse esclarecido, posso apoiar a Responsabilidade Social Corporativa nesse sentido. Posso até aceitar que haja um papel para os grupos de pressão na promoção do esclarecimento (desde que os executivos não se esqueçam de verificar se a suposta demanda realmente exista).

Entretanto, os ativistas, apoiados por governos (particularmente na Europa), vão além disso. Se as companhias não parecem dispostas a agir da maneira considerada adequada, então serão forçadas a fazê-lo (o que um colega, Bill Maugham, costuma chamar da escola de governo “coopere ou então ...”).

A força pode vir da lei “dura” (legislação ou limitações regulamentares) ou da lei “flexível” (tal como códigos de conduta voluntários), mas mesmo esta é somente adotada sob a ameaça da legislação. O efeito é o mesmo; companhias são forçadas a executarem ações que elas não acreditam serem comercialmente justificáveis.

Os defensores da Responsabilidade Social Corporativa dizem freqüentemente que isso é meramente uma versão atual da oposição à escravidão ou à poluição dos rios, práticas supostamente adoradas pelo capitalismo do século XIX. Isso é incorreto, pois, tudo isso seria (ou foi) resolvido pelo auto-interesse esclarecido operando sob o domínio da lei, com a proteção para os direitos de propriedade (i.e. dentro do mercado livre propriamente definido).

Mesmo a escravidão foi denunciada por Adam Smith utilizando argumentos econômicos racionais e na Inglaterra ela foi declarada inválida no século XVIII por não obedecer às condições contratuais do direito consuetudinário.

A negação das liberdades fundamentais, ou a produção de danos incontestáveis, são, portanto, evitadas por regras aceitas há muito como sendo os fundamentos do livre mercado. (A questão particular de companhias operando em países sem um sistema legal ou de proteção dos direitos fundamentais de propriedade é um assunto diverso que pretendo abordar num artigo posterior.)


Ineficiência Econômica


O primeiro problema com a Responsabilidade Social Corporativa é que ela é economicamente ineficiente. Num mercado livre, as empresas maximizam seus lucros deslocando recursos de aplicações menos valorizadas para as mais valorizadas, provendo o que os consumidores desejam. Em contraste, se as ações são forçadas por regulamentação, então os governos exigem que recursos sejam gastos em serviços que o público não valoriza, ou que não valoriza tanto que voluntariamente pague seus custos totais.

Os recursos são, então, desviados para resultados de menor valor, levando a uma redução geral do bem-estar. Isso é feito em benefício de políticos, burocratas ou seus grupos de apoio.

Mas isso envolve mais do que Economia; há um princípio democrático fundamental em risco. O mercado é essencialmente uma democracia totalmente participativa, no verdadeiro sentido ateniense. Quase todos os cidadãos estão envolvidos no mercado e suas escolhas e preferências influenciam os produtos oferecidos. Se o público realmente deseja os supostos benefícios oferecidos pela agenda da Responsabilidade Social Corporativa, no sentido de estar preparado a pagar por ela, então o mercado irá, sem demora, provê-los.

Em contraste, governos atuais estão, nas melhores democracias representativas, abertos a influências indevidas de grupos de interesse cuja representatividade é pífia (Num recente artigo no Salisbury Review londrino, mostrei que, nas últimas eleições gerais na Inglaterra, os não votantes foram o maior grupo em quase 80% das regiões eleitorais).

A escolha é, portanto, entre uma perspectiva baseada no mercado, que oferece o que as pessoas desejam, e uma diretiva governamental sob a qual os valores de uma minoria são impostos ao público em geral. E pior ainda, muitas das questões que vem à tona no debate sobre a Responsabilidade Social Corporativa, particularmente as relativas ao ambientalismo, são aquelas nas quais uma influente e relativamente afluente classe média impõe o alto custo de sua agenda sobre os trabalhadores que não a desejam e não podem sustentá-la.


Imposto Stealth?


A paisagem política tem se caracterizado recentemente por uma benéfica má vontade do eleitorado com relação a aumento de impostos. No entanto, os políticos obviamente ainda procuram aumentar seu poder e influência, o que demanda dinheiro. Assim, aumentos de impostos têm ocorrido através de métodos ocultos, seja na forma de novos impostos setoriais sobre a venda de produtos, seja com mudanças técnicas na lei fiscal.

O governo socialista de Blair, na Inglaterra, tem uma particular habilidade com tais métodos, e seus esforços têm sido chamados pela oposição conservadora como “impostos stealth” (supostamente similares ao bombardeiro stealth americano, eles não aparecem no “radar” do eleitorado).

O perigo é que a agenda da Responsabilidade Social Corporativa, caso se afaste do modelo do auto-interesse esclarecido e voluntário, torne-se outra forma de imposto.

Governos podem atingir seus objetivos (e satisfazer seus clientes) aumentando impostos e pagando pelas mudanças que eles desejem, ou alternativamente, eles podem atingir o mesmo resultado por meio de regulamentações. Se há resistência ao aumento de impostos, os políticos tendem a se voltarem para esse último procedimento.

Isso levanta uma discussão econômica adicional sobre os lugares corretos e mais eficientes sobre os quais essa carga cairá, mas isso terá que ser deixado para um outro artigo.


Conclusão


A economia, e a sociedade na qual ela opera, se defronta com uma escolha. Ela pode seguir o princípio do auto-interesse esclarecido dentro de um sistema legal, que melhor assegura os reais objetivos da população (i.e. aqueles que ela deseja a ponto de estar preparada para pagar por eles). Por outro lado, pode-se trilhar o caminho da regulamentação, pelo qual os políticos e os mais barulhentos grupos de interesse impõem seus pontos de vista aos outros.

Por mais instruídos e desinteressados que sejam esses grupos de interesses especiais, sei em qual sociedade eu preferiria viver.






Este artigo foi publicado na página do Ludwig von Mises Institute em 05/08/2003. Richard Teather é professor de Legislação Fiscal na Universidade Bournemouth, Inglaterra.

29/08/2005

Decálogo, Lenin - 1913

1.. Corrompa a juventude e dê-lhe liberdade sexual;

2.. Infiltre e depois controle todos os veículos de comunicação de massa;

3.. Divida a população em grupos antagônicos, incitando-os a discussões sobre assuntos sociais;

4.. Destrua a confiança do povo em seus líderes;

5.. Fale sempre sobre Democracia e em Estado de Direito, mas, tão logo haja oportunidade, assuma o Poder sem nenhum escrúpulo;

6.. Colabore para o esbanjamento do dinheiro público; coloque em descrédito a imagem do País, especialmente no exterior e provoque o pânico e o desassossego na população por meio da inflação;

7.. Promova greves, mesmo ilegais, nas indústrias vitais do País;

8.. Promova distúrbios e contribua para que as autoridades constituídas não as coíbam;

9.. Contribua para a derrocada dos valores morais, da honestidade e da crença nas promessas dos governantes. Nossos parlamentares infiltrados nos partidos democráticos devem acusar os não-comunistas, obrigando-os, sem pena de expô-los ao ridículo, a votar somente no que for de interesse da causa socialista;

10.. Procure catalogar todos aqueles que possuam armas de fogo, para que elas sejam confiscadas no momento oportuno, tornando impossível qualquer resistência à causa.

28/08/2005

Presunção Sociobiológica



Nota: Este artigo de Gene Callahan toca, en passant, numa questão muito polêmica, sobretudo nos EUA, que é a discussão criacionismo versus evolucionismo. Ao que parece, o Brasil está imune a essa discussão. Quando muito, algum sabichão daqui, emite uma opinião considerando o criacionismo um fanatismo religioso da direita americana. Para se ter uma idéia do estado da discussão, pode-se consultar o caso de um editor de uma revista de uma sociedade científica da área biológica que aceitou, para publicação, um artigo científico que defendia, de alguma forma, o criacionismo. O editor afirma que o artigo passou por todo o processo normal de avaliação pelos pares, antes de ser publicado. Seus críticos o acusam de favorecimento e sugerem que ele, sequer, poderia ter acolhido o artigo para revisão. A comunidade científica está se mobilizando para forçar o empregador do editor (ele tem um cargo de pesquisador no Museu de História Natural do Smithsonian Institute) a despedí-lo. Além disso, seus críticos não perdem oportunidade para difamá-lo, pessoal e profissionalmente. Curiosa e inesperada (será?) mistura de ciência, política e ideologia, não acham?


Gene Callahan


Na medida em que o paradigma darwiniano ganhou terreno nas ciências da vida no século seguinte à publicação da Origem das Espécies, alguns tópicos cruciais permaneceram além do seu campo explicativo. Um problema, especialmente, incômodo para os darwinianos foi a freqüência de aparecimento do comportamento, aparentemente, altruísta. Se, por exemplo, os golfinhos, freqüentemente, parecem salvar seres humanos que estão afogando, empurrando-os para a praia, então, de alguma forma, esse comportamento deve promover a própria sobrevivência dos golfinhos. É uma hipótese inconcebível dentro do darwinismo, que os golfinhos, simplesmente, tenham consideração para com o dilema humano.

O comportamento humano, em especial, é um enigma. Pessoas aderem a ordens religiosas celibatárias, fazem caridade, se tornam mártires, arriscam suas vidas em salvamentos ousados de pessoas desconhecidas, morrem por alguma revolução sangrenta. Como o postulado darwiniano fundamental, que todo fenômeno biológico pode ser explicado em termos de mutação e seleção natural, pode ser reconciliado com tais comportamentos?

A partir dos anos 1960, os darwinistas começaram a formular soluções para os problemas do altruísmo. O ponto de vista, geralmente, adotado tentava demonstrar que todo exemplo aparente de altruísmo ou era em proveito próprio, ou era, simplesmente, uma patologia. Por exemplo, alguém se sacrificar para defender seu país era interpretado como uma adaptação, que promovia a sobrevivência da sua própria prole ou de parentes próximos, resultando no aprimoramento de seus próprios genes, mesmo que não, de sua própria vida.

No entanto, há ainda muitos exemplos de comportamento humano que não pode ser, facilmente, atribuído a tais fatores. Um exemplo é o de Madre Teresa ajudando os pobre de Calcutá, que não são geneticamente próximos dela. Os darwinistas procuraram outras explicações. As sugestões incluem os benefícios, em termos de sobrevivência, do “altruísmo” recíproco (coce minhas costas que eu coço as suas), a possibilidade de aprimoramento do status sexual por meio de atos de bravura e sacrifício, e a manipulação do mecanismo genuinamente adaptativo de uma criatura por outra, a fim de melhorar as chances de sobrevivência dessa última. Exemplos do último caso incluem casos de pássaros canoros sendo “enganados” com a presença, em sua prole, de espécies de pássaros não canoros (Schloss, p. 245).

Surgiu, assim, um consenso sociobiológico segundo o qual é ilusão a noção de que uma pessoa aja moral ou altruisticamente. Os darwinistas, freqüentemente, acabam considerando a moral como sendo um truque aplicado sobre os seres humanos pela seleção natural. É uma forma de iludir os seres humanos, a fim de promover a sobrevivência de seus genes. Por exemplo, Edward Wilson, um dos fundadores da sociobiologia, diz que “a moral não tem nenhuma outra função demonstrável” além da de manter “o material genético humano intacto” (citado por Shloss, p. 246). Na mesma linha, Robert Wright argumenta, “O que for no interesse de seus genes parecerá ‘certo’ ... Orientação moral é um eufemismo” (citado por Schloss, p. 248).

A primeira coisa que gostaria de observar sobre o ponto de vista da sociobiologia é que se os sociobiologistas são sinceros em sua crença, então, eles são, por sua própria argumentação, inimigos da sobrevivência humana. Se a moral é, de fato, “uma ilusão coletiva da raça humana, criada e mantida pela seleção natural para promover a reprodução individual” (Ruse, citado por Schloss, p. 248), então, expor essa ilusão seria destrutivo para nossa espécie. Pela visão dos sociobiologistas, qualquer crença de que há princípios morais aos quais os seres humanos devem aderir pôde se tornar difundido porque isso conferia valor de sobrevivência aos genes de quem acreditasse naqueles princípios. Portanto, desacreditar tais crenças deve ameaçar a própria existência humana. Se os sociobiologistas consideram que eles descobriram um fato tão destrutivo, não deveriam, por humanidade, esconder essa descoberta, ao invés de, a todo o momento, divulgá-la?

Entretanto, não acho que os sociobiologistas estão, realmente, ameaçando a raça humana por difundirem suas idéias, pois, seu raciocínio é falho de formas ainda mais fundamentais, de maneira que, ao invés de exporem uma ilusão, ele estão, de fato, vertendo absurdos. Primeiramente, se a seleção natural exige, dos seres humanos, certos modos de comportamento, por que, trazer à tona tal assunto, envolveria qualquer forma de ilusão? Por que tais modos de comportamento não seriam automáticos? A idéia de que os seres humanos deveriam experimentar “uma ilusão coletiva” para se comportar de um modo geneticamente benéfico, implica que há alguma característica comum da humanidade, aquela que necessita da “ilusão moral”, que não promove a sobrevivência genética. Mas, pela teoria darwiniana, como tal característica comum pode ter sobrevivido?

No entanto, o argumento mais decisivo contra tal processo de teorização é sua natureza autocontraditória. Afinal, se as idéias morais são, simplesmente, “ilusão” em nós cultivada por nossos genes, então, também o são todas as nossas outras idéias – incluindo as idéias da sociobiologia!

Portanto, ao invés de divulgar suas teorias como algo “verdadeiro”, como o modo que as coisas realmente são quando enxergamos através de nossas tolas ilusões, os sociobiologistas teriam de admitir que suas próprias teorias são, simplesmente, um produto de seus genes. Longe de serem realidades “científicas” derivadas da observação de “evidências”, as teorias sociobiológicas devem ser algum tipo de “exibição”, muito parecida com o pavão abrindo sua cauda. As teorias sociobilógicas devem aumentar o sucesso reprodutivo dos sociobiologistas – talvez, seu “inflexível realismo” pegue bem nos coquetéis acadêmicos com seus pares mais jovens, ou algo parecido.

Michael Oakeshott chama idéias tais como a “explicação sociobiológica” da moralidade de “categoricamente absurda” (p. 38). Como ele observa:

“Quando um geneticista nos diz que ‘todo comportamento social e todos os eventos históricos são conseqüências inescapáveis da individualidade genética das pessoas envolvidas’ não temos dificuldade em reconhecer o efeito esclarecedor desse teorema nos escritos de Aristóteles, na queda de Constantinopla e na morte de Barbarossa; mas esse brilhante esclarecimento fica, talvez, algo ofuscado quando fica claro que o geneticista não tem nada mais revelador a dizer sobre sua ciência do que afirmar que ela é, também, feita por genes, e que o próprio teorema é o discurso de seus genes” (p. 15).


17 de janeiro de 2003


Referências


Oakeshott, M. (1975) On Human Conduct, Oxford, England: Oxford University Press.
Schloss, J.P. (1998) "Evolutionary Accounts of Altruism & the Problem of Goodness by Design," in Dembski, W.A. (ed.) Mere Creation: Science, Faith & Intelligent Design, InterVarsity Press: Downers Grove, Illinois, 236–261.

Gene Callahan é pesquisador associado do Ludwig von Mises Institute e colunista do LewRockwell.com.

24/08/2005

O que é Ciência

Nota: A Neurociência e a Sociobiologia são ciências recentes e estão na moda. Congressos, seminários, livros, artigos etc., sobre esses assuntos abundam. Em dois pequenos artigos (o segundo deles será postado mais tarde) Gene Callahan mostra quão frágeis são os pressupostos dessas ciências que mais sucesso fazem entre os integrantes da intelligentsia mundial.

Gene Callahan

A razão pela qual nosso ego pensante, consciente e sensitivo não encontra lugar no modelo científico de nosso mundo pode ser descrita em sete palavras: ele é o próprio modelo do mundo. Sendo ele idêntico ao todo, não pode estar contido em uma de suas partes.
- Erwin Schrodinger, Físico


Numa entrevista na edição de outubro de Reason, o psicólogo Steven Pinkey defende o materialismo e “desbanca” a idéia da existência da alma humana, da seguinte forma: “A doutrina do espírito no interior da máquina significa que as pessoas são habitadas por uma alma imaterial que é o lócus de toda a vontade e determinação, não podendo ser reduzida a uma função cerebral. Mas a neurociência está mostrando que todos os aspectos da vida mental – cada emoção, cada padrão de pensamento, cada memória – está associada à atividade ou estrutura fisiológica do cérebro.”

A afirmação de Pinker merece uma análise porque, mesmo sendo uma tolice filosófica, é um tipo de tolice que encontramos freqüentemente hoje em dia. Além disso, ela não é uma mera confusão, mas um tipo agressivo de confusão com um objetivo claro: desacreditar a religião. Pinker está vendendo sua crença religiosa, o materialismo, pela apresentação de um argumento pseudo-filosófico sob o disfarce de objetividade científica. Para aqueles leitores religiosos, ou, mesmo para qualquer leitor que esteja, simplesmente, interessado em encontrar algum sentido filosófico ao discutir ciência, é útil perceber o equívoco em tais argumentos.

Para entender o vazio da argumentação de Pinker, será necessário retroceder e considerar por um instante o que é ciência.

A palavra “ciência” tem vários usos: podemos ter a “ciência da culinária”, “a ciência da crítica literária”, e mesmo “a simpática ciência das embalagens para presentes”. Mas aqui eu considerarei a ciência como o caráter ideal do que freqüentemente é chamado de ciência dura: física, química, bioquímica, astronomia, etc. Pelo que entendo, esse caráter é a tentativa de abstração dos dados experimentais na obtenção de uma relação mecânica universal entre as quantidades mensuráveis.

Dada a missão, não há nenhuma razão, a priori, para o estabelecimento de limites sobre o tipo de experiência da qual a ciência possa tentar abstrair um aspecto mecânico. As pessoas religiosas têm, algumas vezes, se equivocado neste aspecto, declarando certas experiências – a mente, o gen, os movimentos da Terra e do Sol, ou a existência da vida na Terra – como estando interditadas à investigação científica. (Este equívoco não tem nada a ver com a questão da moralidade de certos métodos, tais como a clonagem, ou mesmo se eles devem ser usados pelos cientistas em sua busca do conhecimento.) O medo de tais pessoas está baseado numa falsa idéia: a relação mecânica abstraída de uma experiência não reduz, de forma alguma, esta experiência àquela abstração. A abstração deriva da experiência e certamente não a gera.

Se a ciência é a procura por tais abstrações, é errado repreender o cientista por “transformar tudo numa relação mecânica”. Enquanto agindo como cientista, é exatamente isso que ele está fazendo. Mas o outro lado da moeda é que o cientista agindo assim incorre em erro, quando confunde o processo de abstração com a “verdade fundamental” ou com a “forma como as coisas realmente são”. Ciência é uma maneira particular de olhar a experiência, verdadeira tanto quanto possível, não podendo pretender ter nenhum caráter definitivo vis-à-vis outros meios de entendimento do mundo, tais como a história, a religião e a arte. Nada há de surpreendente no fato de que a ciência formule abstrações mecânicas a partir da experiência e esses outros meios não o façam, pois, ela procura por tais abstrações, ao contrário da história, da religião ou da arte.

Tendo atingido tal abstração, constitui erro grave considerá-la como a causa da experiência em questão. A Lei da Gravitação Universal de Newton não é a causa da atração entre objetos físicos; ela é a descrição de um aspecto mecânico dessa atração.

Com nossa definição em mente, podemos identificar a confusão na raiz do argumento de Pinker. É muito possível que, de qualquer atividade mental, os neurocientistas possam abstrair um aspecto mecânico e associá-lo a certos pensamentos, emoções, etc. Mas isso, de forma alguma, “reduz” a atividade mental a uma “função do cérebro”. Tudo o que isso demonstra é que o pensamento também tem um aspecto mecânico. Partir desse fato para a noção de que esses processos mecânicos “causam” nossos pensamentos é similar a afirmar que, já que podemos abstrair certos aspectos de qualquer cidade e chamar essa abstração de “mapa”, os mapas são a causa das cidades!

É absurda a idéia de que a experiência “contemplar um por do sol na Baia Galway ao lado de seu verdadeiro amor”, de alguma forma possa se reduzir a certas respostas fisiológicas a um particular comprimento de onda da luz e à proximidade de um representante do sexo oposto. Pode-se, eventualmente, abstrair tal descrição da experiência, mas a experiência é o que ela significa para a pessoa que a vivenciou. O mecânico e o quantitativo são somente aspectos de nossa experiência, e como nenhuma experiência é sempre meramente mecânica ou quantitativa, tal descrição não pode, de forma alguma, pretender ser completa.



Este artigo foi publicado na página do LewRockwell.com em 07/09/2002. Gene Callahan é pesquisador associado do Ludwig von Mises Institute e colunista do LewRockwell.com.

17/08/2005

A vida como fabricação de si mesma: técnica e desejos

Nota - Esta é uma das aulas de um curso oferecido pelo autor em 1933 na Universidade de Verão de Santander. A publicação é de 1939 e é um dos capítulos do livro Meditação sobre a técnica, trad. José Francisco P. de Almeida Oliveira, Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1991.


Ortega y Gasset

(...) Em suma, os homens são enormemente desiguais, contrariamente ao que afirmavam os igualitaristas dos dois últimos séculos e continuam afirmando os arcaicos do presente.

Sob essa perspectiva, a vida humana, a existência do homem, consiste formalmente, essencialmente, em um problema. Para os demais entes do universo, existir não é problema – porque existência deve significar efetividade, realização de uma essência --; por exemplo, que “o ser touro” se verifique, aconteça. Pois bem, o touro, se existe, existe já sendo touro. Em troca, para o homem, existir não é já existir, sem mais nem menos, como homem que é, mas é mera possibilidade disso e esforço até consegui-lo. Quem de vocês é efetivamente o que sente que teria de ser, que deveria ser, que aspira a ser? Diferentemente, pois, de todo o resto, o homem, ao existir, tem de resolver o problema prático de realizar o programa em que prontamente consiste. Donde se conclui, que nossa vida é pura tarefa e inexorável que-fazer. A vida de cada um de nós é algo que não é dado pronto, presenteado, mas algo que se tem de fazer. A vida dá muito que-fazer; entretanto, não é senão esse que-fazer que ela dá a cada um, e um que-fazer, repito, não é uma coisa, mas algo ativo, num sentido que transcende todos os demais. Porque, no caso dos outros seres, supõe-se que alguém ou algo que já é, atue; aqui, porém, trata-se precisamente de que, para ser, tem-se que atuar, que apenas se é essa atuação. O homem, queira ou não, tem de fazer-se a si mesmo, autofabricar-se. Esta última expressão não é de todo inoportuna. Ela sublinha que o homem, na raiz mesma de sua essência, se encontra, antes de mais nada, na situação do técnico. Para o homem, viver é – desde logo e antes de tudo – esforçar-se para que haja o que ainda não há; ou seja, ele, ele mesmo, aproveitando para isso o que há, em suma, para o homem, viver é produção. Com isso, quero dizer que a vida não é fundamentalmente como se acreditou durante tantos séculos, contemplação, pensamento, teoria. Não! A vida é produção, fabricação, e somente porque estas o exigem – portanto, depois e não antes --, é pensamento, teoria e ciência. Viver é descobrir os meios para realizar o programa que se é. O mundo, a circunstância, se apresenta desde logo como matéria-prima e como máquina possível. Posto, que, para existir, tem-se que estar no mundo, e isso não realiza por si e totalmente o ser do homem, impõe-lhe, ao contrário, dificuldades, o homem decide buscar em sim mesmo a máquina oculta que encerra, para servir a sim mesmo. A história do pensamento humano se reduz à série de observações que o homem tem feito para trazer à luz, para descobrir essa possibilidade de máquina que o mundo carrega latente em sua matéria. É por isso que o invento técnico é chamado também de descobrimento. E não é, com veremos, uma casualidade que a técnica por antonomásia, a plena maturidade da técnica, se tenha iniciado por volta de 1600; justamente quando, em seu pensamento teórico sobre o mundo, o homem passou a entendê-lo com uma máquina. A técnica moderna começa a ter unidade com Galileu, Descartes, Huygens; em suma, com os criados da interpretação mecânica do universo. Assim se acreditava que o mundo corporal era um ente amecânico, cujo ser último era constituído por poderes espirituais mais ou menos voluntariosos e incoercíveis. O mundo como puro mecanismo é, ao contrário, a máquina das máquinas.

É, portanto, um erro fundamental crer que o homem é tão somente um animal casualmente dotado de talento técnico ou, dito de outra forma, que, se acrescentássemos magicamente a um animal o dom técnico, teríamos simplesmente o homem. A verdade é o contrário; porque o homem, tendo uma tarefa muito diferente da do animal – uma tarefa extranatural --, não pode dedicar todas as suas energias, como aquele, para satisfazer suas necessidades elementares, mas tem de imediatamente poupá-las nesse sentido, para, com elas, poder entregar-se à improvável faina de realizar seu ser no mundo.

Eis aqui por que o homem começa quando começa a técnica. O espaço menor ou maior que esta abre para o homem na natureza é o alvéolo onde ele pode alojar seu excêntrico ser. Por isso, eu insistia, ontem, que o sentido e a causa da técnica estão fora dela; ou seja, no emprego que o homem dá às energia que lhe sobram, energias economizadas pela técnica. A missão inicial da técnica é esta: dar liberdade ao homem para ele poder entregar-se a si mesmo.

Os antigos dividiam a vida em duas zonas: uma, que chamavam de otium, o ócio, que não é a negação do fazer, mas é dedicar-se a ser o humano do homem, que eles interpretavam como autoridade, organização, trato social, ciências, artes. A outra zona, em que se dava pleno esforço para satisfazer as necessidades elementares, isto é, tudo o que tornava possível aquele otium, chamavam-na de nec-otium, assinalando muito bem o caráter negativo que tem para o homem.

Em vez de viver ao acaso e combater seu próprio esforço, o homem necessita atuar segundo um plano para obter segurança em seu choque com as exigências naturais e dominá-las com um máximo de rendimento. Este é seu fazer-técnico frente ao fazer-ao-bel-prazer do animal, ao fazer do pássaro do bom Deus, por exemplo.

Todas as atividades humanas que têm recebido ou merecem especialmente o nome de técnicas não são mais que especificações, concretizações desse caráter geral de autofrabricação próprio do nosso viver.

Se nossa existência não fosse, desde o princípio, a obrigação de construir com o material da natureza a pretensão extranatural que é o homem, nenhuma dessas técnicas existiria. O fato absoluto, o puro fenômeno do universo que é a técnica, só pode acontecer nessa estranha, patética, dramática combinação metafísica, na qual dois entes heterogêneos – o homem e o mundo – se vêem obrigados a unificar-se, de modo a que um deles, o homem, consiga inserir seu ser extramundano no outro, que é precisamente o mundo. Esse problema, quase de engenharia, é a existência humana.

E, sem dúvida, ou pelo mesmo motivo, a técnica não é, a rigor, o primeiro fenômeno. Ela vai idealizar e executar a tarefa que é a vida; vai conseguir obter, numa ou noutra medida limitada, está claro, que o programa humano se realize. Mas, por si só ela não define o programa; quero dizer que à técnica não é preestabelecida a finalidade que ela deve alcançar. O programa de vida é pré-técnico. O técnico ou capacidade técnica do homem tem como encargo inventar os procedimentos mais simples e seguros para conseguir as necessidades do homem. Estas, porém, como vimos, são também uma invenção; são o que, em cada época, povo ou pessoa, o homem pretende ser; há, pois, uma primeira invenção pré-técnica, a invenção por excelência, que é o desejo original.

Não se creia que se trata de desejar tarefa tão fácil. Observem vocês a angústia específica que experimenta o novo rico. Tem nas mãos a possibilidade de obter a consecução de seus desejos, mas se percebe como quem não saber ter desejos. No fundo mais secreto de sim mesmo nota, que não deseja nada, que sozinho é incapaz de orientar seu apetite e decidir entre as inumeráveis coisas que o meio lhe oferece. Por isso busca um mediador que o oriente e o descobre nos desejos que predominam sobre os demais. Eis por que a primeira coisa que o novo rico compre é um automóvel, um piano e uma aparelhagem de som. Encarregou os outros de desejarem por ele. Como há o princípio do pensamento, que consiste na idéia que não é pensada originalmente por aquele que a pensa, mas é tão somente repetida por ele, cegamente, mecanicamente reiterada, há também um determinado desejo que é bem mais a ficção e o simples gesto de desejar.

Isso acontece, pois, mesmo na esfera do desejar referente ao que já existe por aí, às coisas que já temos em nosso horizonte antes de desejá-las. Imagine-se até que ponto será difícil o desejo propriamente criador, o que postula o inexistente, o que antecipa o que ainda é irreal. Definitivamente, os desejos referentes a coisas se movimentam sempre dentro do perfil do homem que desejamos ser. Este é, portanto, o desejo radical, fonte de todos os demais. E quando alguém é incapaz de desejar-se a si mesmo, porque não tem bem claro um si mesmo a realizar, é evidente que não tem senão pseudodesejos, espectros de apetites sem sinceridade nem vigor.

Talvez a doença básica de nosso tempo seja uma crise dos desejos e, por isso, toda a fabulosa potencialidade de nossa técnica parece não nos servir para nada. Hoje, a coisa começa a tornar-se patente, mas, já em 1921, me ocorria anunciar o grave fato: “A Europa padece de um extremo cansaço em sua faculdade de desejar”. (España invertebrada). E essa inibição do programa de vida trará consigo uma interrupção ou retrocesso da técnica, que acabará por não saber bem a quem ou a que servir. E esta é a incrível situação à qual chegamos e que confirma a interpretação aqui sustentada: a herança, quer dizer, o repertório com que o homem conta hoje para viver não é apenas incomparavelmente superior ao repertório de que jamais ele desfrutou (as forças criadas com a técnica equivalem a dois bilhões e meio de escravos, ou seja, dois para cada cidadão), mas nos dá a consciência clara de que tais forças são superabundantes e de que, sem dúvida, a irracionalidade é enorme; e acontece que o homem atual não sabe o que ser, falta-lhe imaginação para inventar o argumento de sua própria vida.

Por que? Ah! Isso não faz parte deste ensaio. Apenas nos questionaremos: o que é o homem, ou que tipo de homens são os especialistas do programa de vida? O poeta, o filósofo, o fundador de religião, o político, o descobridor de valores? Não o decidamos. Basta advertir que o técnico supõe todos eles e que isso explica uma diferença hierárquica que sempre existiu e contra a qual não adianta protestar.

Talvez tenha algo a ver com isso o estranhíssimo fato de que a técnica é quase sempre anônima, ou, pelo menos, que os seus criadores não gozem da fama nominativa que sempre acompanhou aqueles outros homens. Um dos inventos mais formidáveis dos últimos sessenta anos foi o motor a explosão. Pois bem, quantos de vocês, sem ser por seu ofício técnico, se lembram, nesse momento, da lista dos egrégios nomes de seus inventores?

Conclui-se daí, também, a enorme improbabilidade de que se venha a constituir uma “tecnocracia”. Por definição, o técnico não pode comandar, dirigir em última instância. Seu papel é magnífico, venerável, mas irremediavelmente de segundo plano.

Resumamos:A reforma da natureza ou técnica, como toda troca ou mutação, é um movimento com seus dois pólos, a quo e ad quem (de que e para que). O pólo a quo é a natureza como está aí. Para modificá-la tem-se que fixar o outro pólo ao qual a natureza deve se adequar. Este pólo ad quem é o programa de vida do homem. Como denominaríamos a plena consecução deste programa? Evidentemente, bem-estar do homem, felicidade. Eis que com isso, encerramos aqui as idas-e-vindas de todas as considerações tecidas anteriormente.

14/08/2005

A tragédia da África II

Thomas Sowell


A natureza e o homem – negro ou branco -- têm feito da África o mais trágico dos continentes.

O grande historiador francês Fernand Braudel disse que “Para entender a África negra, a geografia é mais importante que a história.” Muito da história da África foi moldada por sua geografia.

Quase toda grande cidade do mundo nasceu às margens de rios navegáveis – e tais cursos d’água são mais escassos na África do que em qualquer outro continente. Um porta-aviões pode ancorar no rio Hudson no coração de Manhattan, mas não há um só rio onde isso é possível em todo o vasto continente africano, que é maior que a Europa ou a América do Norte.

Mesmo navios menores só podem navegar pequenas distâncias na maioria dos rios africanos, por causa das cascatas e cachoeiras. A maior parte do continente está a mais de 300 metros acima do nível do mar e mais da metade da África está a mais de 600 metros. Isso significa que seus rios e cursos d’água têm de despencar dessas alturas nos seus caminhos para o mar.

O transporte fluvial foi crucial nos milhares de anos antes dos trens e automóveis. Foi crucial para o desenvolvimento da economia e crucial para o desenvolvimento de uma cultura que mantivesse contato com um número suficiente de outras culturas, amplamente espalhadas ao redor do globo, para fazer uso dos avanços do resto do mundo. Mas, muitas sociedades africanas ficaram isoladas pela escassez continental de rios e ancoradouros.

Regiões isoladas, invariavelmente, se atrasam em comparação com regiões em contato com um universo cultural mais amplo. Um dos muitos sinais do isolamento e da fragmentação cultural da maior parte da África sub-saariana é que o número de línguas africanas chega a um terço do número de línguas existentes em todo o mundo, enquanto que a população africana é aproximadamente 10% da população mundial.

Sociedades pequenas e tribais são uma outra conseqüência do isolamento geográfico – sendo outra, a vulnerabilidade de tais sociedades à conquista externa.

Se a diversidade cultural fosse tudo o que afirmam os multiculturalistas, a África seria um paraíso na terra. Muito freqüentemente e em muitos lugares, ela tem sido um inferno.

Muitos tinham a esperança de grandes feitos na África quando as novas nações africanas independentes começaram a emergir do controle colonial nos anos 1960, sempre governadas por líderes educados na Europa e nos EUA.

Infelizmente, o que esses novos líderes trouxeram de volta para a África não foram as coisas que fizeram a prosperidade e o poder do Ocidente, mas as teorias não testadas dos ideólogos e intelectuais ocidentais dos quais foram alunos. A tais líderes africanos, na sua maioria, faltavam o senso comum das massas africanas e a experiência econômica e tecnológica do Ocidente.

O resultado foi que os líderes africanos, cheios de confiança pela sua educação e pela adulação da intelligentsia ocidental, fizeram de seus povos ratos de laboratórios para imaturas teorias que não contribuíram, em nada, para o crescimento do Ocidente e, sim, para muito de sua degeneração social.

A empobrecida África tinha uma capacidade muito menor para suportar esses desastres econômicos e sociais que os países afluentes do ocidente. No entanto, os líderes africanos não foram julgados pelo Ocidente pelos seus resultados, mas por suas retóricas e visões que tinham ressonância com a retórica e a visão da intelligentsia ocidental.

Assim, Julius Nyerere se tornou, virtualmente, um santo na mídia ocidental, enquanto ele levava o povo da Tanzânia, cada vez mais profundamente, para a pobreza e a tirania. E ele não foi o único.

Contrariamente, quando Felix Nouphouet-Boigny fez da Costa do Marfim um oásis de avanço econômico e paz social, ele, ou foi ignorado, ou desdenhado. Ele foi um dos poucos líderes africanos com uma preciosa experiência em negócios e uma compreensão de Economia. Seus sucessores arruinaram o país.

Quaisquer que sejam os danos que o colonialismo europeu promoveu na África durante seu, relativamente, breve reino, eles foram, provavelmente, menores do que os danos posteriores perpetrados pelos bem-intencionados e pretensos salvadores ocidentais da África. Os africanos não precisam ser tratados como mascotes, mas como pessoas, cujos esforços, habilidades e iniciativas próprios necessitam ser liberados das tiranias de seus líderes e do paternalismo de presunçosos ocidentais.

13/07/2005


Notas
1) Para ler mais sobre a África e a história de seus vários países, ver
Conquest e Cultures: An International
History, Thomas Sowell, Basic Books, New York, 1998
2) Este artigo foi originalmente publicado em
http://www.townhall.com/columnists/thomassowell/archive.shtml.

13/08/2005

O Espírito dos Tempos II

Nossa geração tem sido forçada a perceber quão frágeis e inconsistentes são as barreiras que separam a civilização das forças destrutivas. Temos aprendido que o barbarismo não é um mito pitoresco ou uma tênue memória de um passado distante da história humana, mas uma hedionda realidade subjacente que pode emergir com força avassaladora tão logo a autoridade moral de uma civilização perde o controle.

Religion and the Rise of Western Culture, Christopher Dawson, Image Books, New York, 1991.

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Essa vertigem permanente da razão, mergulhando-a em seu abismo interior, tece uma seqüência infinita de variações sobre a morte de Deus e, correspondentemente, sobre a morte do homem, como reconheceu Nietzsche passando do “insensato” da Gaia Ciência ao “último homem” do Zaratustra. A sombra dessa morte anunciada planou sobre um século inteiro de guerras mundiais, de execuções em massa e de apocalipse nuclear, balizada pelas figuras obscuras da barbárie: Dachau, Gulag ou Hiroshima.

(...) Que deus é esse que assim que o cortejo se põe em marcha não matem a promessa feita a Israel: “Invoca-me no dia da desgraça; eu te libertarei, tu me glorificas”? (Salmos, 50, 15)
Ou então, se nos afastamos de Deus esquecendo a Arca da Aliança que talvez comprometesse apenas os homens, que homem é esse, então só no mundo, que precipitou no cadinho da história as piores alianças da barbárie para aniquilar outros homens em nome da razão racial ou social?

A barbárie interior, Jean-François Mattéi, Editora Unesp, 1999

Budismo e Cristianismo



Nota - É impressionante perceber a profundidade de um texto de jornal da década de 20 do século passado na Inglaterra. Se compararmos com os jornais de hoje no Brasil, podemos perceber que nossa pobreza intelectual é desoladora. Pretendo postar mais textos de Chesterton, publicados em jornais ingleses do início do século XX.


G.K. Chesterton

Publicado no Illustrated London News, 2 de março de 1929

Um distinto cavalheiro militar anunciou recentemente neste jornal que um budista chinês visitará proximamente a Inglaterra com a firme intenção de, finalmente, abolir a guerra. Ele, o cavalheiro militar, explicou que Budismo é uma palavra que significa Iluminação e que somente ela pode abolir a guerra. Isso parece, em si mesmo, um simples processo de razão e reforma. Mas, eu não seria movido a criticar uma intenção tão nobre, se o missivista não tivesse recorrido ao fatigante e velho truque de comparar a condição de iluminação do Budismo com a situação de ignorância dos Cristãos. É verdade que, como muitos homens na atual confusão mental, ele, desnecessariamente, se desnorteou usando a mesma palavra em dois sentidos e em ambos os lados, além de colocar o Cristianismo contra si próprio. Budismo é Cristianismo, o Budismo é melhor do que o Cristianismo e o Cristianismo nunca será ele mesmo até que ele seja a tal ponto iluminado de forma a se tornar diferente. Mas, essa mera logomaquia não altera o essencial da opinião que muitos de nós temos visto, de uma forma ou de outra, há muito tempo. A chave da situação é que o crítico militar diz que “os Cristãos fracassaram” em abolir a guerra e que isso é devido ao lamentável fato que eles não são iluminados, ou, em outras palavras, ao curioso fato de que os Cristãos não são Budistas.

Para começar, um europeu normal não precisa nutrir nenhum sentimento negativo para com os asiáticos para sentir um moderado ressentimento ou mesmo revolta sobre esse tipo de coisa. Se o cavalheiro chinês está vindo com um infalível talismã para terminar toda a luta na Inglaterra, não deveria ser sugerido que ele ficasse onde está e acabasse com todas as lutas na China? Lutas e discórdias nunca foram hábitos apenas cristãos, nem as guerras totalmente desconhecidas fora da Cristandade. Pode ser que eremitas e homens santos, no ocidente e no oriente, tenham, individualmente, abandonado a guerra. Mas, não estamos falando sobre abandonar a guerra, mas sobre abolir a guerra. Em qual sentido os Cristãos fracassaram e os Budistas não? Em que aspecto o Budismo, que pode contemplar as lutas asiáticas por quatro mil anos, é mais eficiente do que o Cristianismo, que pode meramente olhar para dois mil. Eu não considero que isso desacredite nem o Budismo nem o Cristianismo. Mas, se barulhentos palestrantes e jornais, dez vezes por semana, nos contam que o Cristianismo fracassou por não ter sido capaz de acabar com a guerra, o que diríamos das chances do cavalheiro chinês fazer isso na Europa com uma nova religião, quando ele não conseguiu fazê-lo na Ásia com uma velha. De passagem, devo dizer que o apelo Cristão para a paz tem sido, freqüentemente, mais próximo da prática política do que a iluminação metafísica do Budismo. Sem fazer uma aposta muito alta nas chances de ambos, eu diria que seria algo remotamente mais provável um santo franciscano influenciar a política de um Ricardo Coração de Leão do que um monge budista (com sua mente embebida de Nirvana), parar uma marcha de um Genghis Khan. Mas, essa é uma conjectura menor e não tem importância. O mais importante é que, se o Cristianismo for acusado de fracasso por não ter abolido a guerra, o Budismo dificilmente poderá ser considerado uma garantia sólida de sucesso nesse mister. A verdade é, claramente, que toda essa conversa de abolir isso ou aquilo, dentre as muitas incompreensões e tentações da humanidade, mostra uma essencial ignorância sobre a natureza mesma da humanidade. Com isso não se deixa espaço para as centenas de inconsistências, dilemas, reparações desesperadas e ao devotamento imperfeito e parcial dos homens. Um homem pode ser, em todos os aspectos, um homem bom e um crente verdadeiro e, ainda assim, errar. De fato, o cavalheiro militar que escreveu a carta sobre o Budismo e a guerra, não precisa procurar muito por um tal exemplo. Por seus próprios padrões, ele é inconsistente em ser um soldado Cristão e ainda mais inconsistente em ser um soldado Budista.

Tomei esse texto de jornal diário porque, todos sabemos, a religião de nossos pais está sendo permanentemente apedrejada por tais textos. E mesmo independentemente de qualquer lealdade à minha fé, tenho lealdade suficiente a meus pais e à reputação e os feitos do homem Inglês e Europeu para sentir que é tempo para que tais insultos sejam tratados como eles merecem. Não é nenhuma desgraça para o Cristianismo, não é nenhuma desgraça para alguma grande religião, que seus conselhos de perfeição não tenham feito uma só pessoa perfeita. Se depois de séculos, uma disparidade é ainda encontrada entre seus ideais e seus seguidores, isso somente significa que essa religião ainda mantém vivo o ideal e que seus seguidores ainda precisam dele. Mas, isso não deve surpreender um filósofo em toda a sua sabedoria. De fato, seria muito mais razoável usar esse insulto contra o sem religião que o usa, do que contra o religioso, contra o qual ele é usado. É exatamente o pessoal que mais faz uso desse insulto, os secularistas e humanitários, que promete milênios de paz e prosperidade. São os novelistas e ensaístas da escola cética que anunciam, periodicamente, a Guerra que Acabará com a Guerra, ou o Estado Mundial que imporá a paz universal (1). O Cristianismo nunca prometeu que imporia a paz universal. Ele tinha um respeito excessivo à liberdade individual. Aos teóricos céticos é permitida a criação de uma Utopia atrás da outra, sem serem repreendidos quando elas são contrariadas pelos fatos, ou uma pela outra. O infeliz crente é considerado o único responsável, e tem de pagar, por quebrar uma promessa que nunca fez.

Sem dúvida, esse tipo de sarcasmo é tão injusto ao Budismo quanto ao Cristianismo. O ideal de Buda pode ainda ser o melhor para os homens, mesmo que milhões de homens continuem a preferir algo inferior. Se o ideal de Buda é melhor para os homens é uma questão muito mais ampla, que não pode ser, devidamente, desenvolvida aqui (2). De fato, há muita opinião divergente sobre o que era, realmente, o ideal de Buda, especialmente, entre os Budistas. Esse é, também, um insulto vulgarmente usado contra os seguidores de Cristo, que pode muito bem ser usado contra os seguidores de Buda. O misterioso cavalheiro chinês pode impor a todas as nações da terra a mesma definição de paz e, ainda, ter uma tarefa delicada quando tentar impor a todos os Teosofistas a mesma definição de Teosofia. Mas, pelo menos alguns dos discípulos do grande Gautama interpretam seu ideal, tanto quanto posso entender, como o da absoluta liberação de todo o desejo ou esforço, ou de tudo que os seres humanos chamam de esperança. Nesse sentido, a filosofia apenas significará o abandono das armas, porque significará o abandono de quase tudo. Ela não desencoraja a guerra mais do que o trabalho. Ela não desencoraja o trabalho mais do que o prazer. Ela diria ao guerreiro que o desapontamento o espera quando ele se tornar o conquistador e que não vale a pena vencer a sua guerra. Mas, também e presumivelmente, dirá ao amante que seu amor não vale a pena ser conquistado e que a rosa murchará tanto quanto o laurel. Ela dirá, provavelmente, ao poeta que seu poema não vale a pena ser escrito, que pode (em certos casos, cuja identificação é desnecessária) ser, de fato, o caso. Mas, ela, dificilmente, pode ser considerada uma filosofia inspiradora da criação de bons, mais do que da a criação de maus poemas. Pode ser que essas pessoas estejam enganadas sobre o que é ameaçado pelo Budismo. Pode ser, também, que essas pessoas estejam enganadas sobre o que é prometido pelo Cristianismo. Espero que essa tenha sido a última vez que ouvimos algo de pessoas confusas, descontentes e mundanas, que amaldiçoam a Igreja por não salvar o mundo que não quer ser salvo e que estão prontas a aceitar, contra ela, qualquer teoria – mesmo a louca teoria pela qual o mundo seria destruído.



1. Qualquer semelhança com a ONU terá sido mera profecia.

2. Para uma discussão mais profunda sobre o tema, ver o Capítulo VII de Ortodoxia, de G.K. Chesterton, Editora LTR, São Paulo, 2001.

12/08/2005

A tragédia da África

Thomas Sowell

As declarações oficiais das últimas reuniões do G8 na Escócia, assim como as demonstrações dissonantes que as envolveram, falam sobre salvar a África. Mas, se olharmos retrospectivamente para as décadas e gerações passadas, a África tem sido salva tantas vezes que nos faz pensar sobre a razão de ela ainda precisar de salvação.

Condições trágicas e desesperadas afligem milhões na África hoje e qualquer pessoa sensível gostaria de ajudar. Mas, os fracassos repetidos das tentativas anteriores devem nos fazer refletir sobre a maneira particular na qual a África deve ser ajudada.

O perdão de débitos externos está sempre no topo da agenda dos que estão à esquerda do espectro político. Num momento determinado, isso liberaria, é claro, dinheiro que os governos poderiam utilizar para o alívio do infortúnio que aflige os povos – supondo que é nisso que os governos pretendem aplicar os recursos. Mas, como pode alguém pensar que a promoção do endividamento irresponsável, através do perdão periódico aos débitos governamentais, irá ajudar os países africanos, a longo prazo?

Quanto aos povos da África, eles têm de sobreviver a curto prazo para chegar ao longo prazo. Assim, uma ajuda emergencial para condições emergenciais faz muito mais sentido do que programas de ajuda externa de longo prazo, programas estes que possuem um registro inequívoco de fracassos, não só na África como no mundo todo.

Há alguns anos atrás, um corajoso economista indiano alertou que, por mais útil que tenha sido, para a Índia, receber doações de alimentos do exterior em épocas de crise de fome, a política de longo prazo de doação de trigo àquele país, simplesmente, inibiu os agricultores indianos a cultivarem trigo e vendê-lo a um preço que cobrisse seus custos. Num determinado momento, a política de envio de trigo para a Índia chegou ao fim e hoje o país produz tanto trigo que é capaz de doar quantidades do cereal aos países africanos em ocasiões de crise.

A promoção de dependência e de endividamento irresponsável não é a maneira de ajudar os pobres nem internacionalmente, nem em casa. Tais políticas beneficiam as burocracias que administram as ajudas estrangeiras e possibilitam que presunçosos se passem por salvadores, mesmo quando eles fazem mais mal do que bem.

A África sub-saariana possui uma das mais trágicas situações geográficas do mundo. Os cursos fluviais navegáveis, que são cruciais ao desenvolvimento de nações e culturas, são muitíssimos limitados na maior parte da África.

Ideólogos adoram pensar que a pobreza da África é causada pela “exploração” dos países ocidentais. Mas, com poucas exceções notáveis, a África tem oferecido muito pouco a ser explorado. Mesmo no ápice do imperialismo europeu, havia muito menos investimento estrangeiro em todo o vasto continente africano do que num minúsculo país como a Bélgica.

Em tempos mais recentes, a tal “ajuda externa” tem deixado muitos monumentos à futilidade na África, de máquinas enferrujadas e ruínas de muitos projetos ao gado enviado da Europa que tombaram no calor africano.

Com todas as suas desvantagens, a África conseguia se alimentar e mesmo exportar produtos agrícolas para a Europa. Em algumas das partes mais geograficamente favorecidas da África sub-saariana, o ferro era fundido há milhares de anos.

Durante as duas primeiras décadas depois da independência das nações africanas nos anos 1960, uma nação sub-saariana que se ateve à sua prosperidade econômica e estabilidade política, em meio às catástrofes sociais e desastres econômicos de seus vizinhos, foi a Costa do Marfim, governada pelo presidente Felix Houphouet-Boigny.

Mesmo assim, nem a Costa do Marfim, nem seu líder atraíram tanta atenção, muito menos adulação, que Julius Nyerere na Tanzânia, que Kwame Nkrumah em Gana, ou que outros famosos líderes africanos que levaram seus países à ruína.

A Costa do Marfim, naquele tempo, confiava nos mercados, ao invés de confiar em políticas defendidas, e da retórica usada, pela intelligentsia. Quando a política mudou, aquele país se tornou apenas um outro item do menu africano.

Atualmente, a maioria no Ocidente continua a enxergar o continente africano como um escoadouro das visões e políticas da esquerda, que fracassaram no Ocidente e que tendem, com muito maior probabilidade, fracassar na África.

12/07/2005

Este artigo foi originalmente publicado em http://www.townhall.com/columnists/thomassowell/archive.shtml. Aguardem A tragédia da África II