Thomas Sowell
A natureza e o homem – negro ou branco -- têm feito da África o mais trágico dos continentes.
O grande historiador francês Fernand Braudel disse que “Para entender a África negra, a geografia é mais importante que a história.” Muito da história da África foi moldada por sua geografia.
Quase toda grande cidade do mundo nasceu às margens de rios navegáveis – e tais cursos d’água são mais escassos na África do que em qualquer outro continente. Um porta-aviões pode ancorar no rio Hudson no coração de Manhattan, mas não há um só rio onde isso é possível em todo o vasto continente africano, que é maior que a Europa ou a América do Norte.
Mesmo navios menores só podem navegar pequenas distâncias na maioria dos rios africanos, por causa das cascatas e cachoeiras. A maior parte do continente está a mais de 300 metros acima do nível do mar e mais da metade da África está a mais de 600 metros. Isso significa que seus rios e cursos d’água têm de despencar dessas alturas nos seus caminhos para o mar.
O transporte fluvial foi crucial nos milhares de anos antes dos trens e automóveis. Foi crucial para o desenvolvimento da economia e crucial para o desenvolvimento de uma cultura que mantivesse contato com um número suficiente de outras culturas, amplamente espalhadas ao redor do globo, para fazer uso dos avanços do resto do mundo. Mas, muitas sociedades africanas ficaram isoladas pela escassez continental de rios e ancoradouros.
Regiões isoladas, invariavelmente, se atrasam em comparação com regiões em contato com um universo cultural mais amplo. Um dos muitos sinais do isolamento e da fragmentação cultural da maior parte da África sub-saariana é que o número de línguas africanas chega a um terço do número de línguas existentes em todo o mundo, enquanto que a população africana é aproximadamente 10% da população mundial.
Sociedades pequenas e tribais são uma outra conseqüência do isolamento geográfico – sendo outra, a vulnerabilidade de tais sociedades à conquista externa.
Se a diversidade cultural fosse tudo o que afirmam os multiculturalistas, a África seria um paraíso na terra. Muito freqüentemente e em muitos lugares, ela tem sido um inferno.
Muitos tinham a esperança de grandes feitos na África quando as novas nações africanas independentes começaram a emergir do controle colonial nos anos 1960, sempre governadas por líderes educados na Europa e nos EUA.
Infelizmente, o que esses novos líderes trouxeram de volta para a África não foram as coisas que fizeram a prosperidade e o poder do Ocidente, mas as teorias não testadas dos ideólogos e intelectuais ocidentais dos quais foram alunos. A tais líderes africanos, na sua maioria, faltavam o senso comum das massas africanas e a experiência econômica e tecnológica do Ocidente.
O resultado foi que os líderes africanos, cheios de confiança pela sua educação e pela adulação da intelligentsia ocidental, fizeram de seus povos ratos de laboratórios para imaturas teorias que não contribuíram, em nada, para o crescimento do Ocidente e, sim, para muito de sua degeneração social.
A empobrecida África tinha uma capacidade muito menor para suportar esses desastres econômicos e sociais que os países afluentes do ocidente. No entanto, os líderes africanos não foram julgados pelo Ocidente pelos seus resultados, mas por suas retóricas e visões que tinham ressonância com a retórica e a visão da intelligentsia ocidental.
Assim, Julius Nyerere se tornou, virtualmente, um santo na mídia ocidental, enquanto ele levava o povo da Tanzânia, cada vez mais profundamente, para a pobreza e a tirania. E ele não foi o único.
Contrariamente, quando Felix Nouphouet-Boigny fez da Costa do Marfim um oásis de avanço econômico e paz social, ele, ou foi ignorado, ou desdenhado. Ele foi um dos poucos líderes africanos com uma preciosa experiência em negócios e uma compreensão de Economia. Seus sucessores arruinaram o país.
Quaisquer que sejam os danos que o colonialismo europeu promoveu na África durante seu, relativamente, breve reino, eles foram, provavelmente, menores do que os danos posteriores perpetrados pelos bem-intencionados e pretensos salvadores ocidentais da África. Os africanos não precisam ser tratados como mascotes, mas como pessoas, cujos esforços, habilidades e iniciativas próprios necessitam ser liberados das tiranias de seus líderes e do paternalismo de presunçosos ocidentais.
13/07/2005
Notas
1) Para ler mais sobre a África e a história de seus vários países, ver Conquest e Cultures: An International
History, Thomas Sowell, Basic Books, New York, 1998
2) Este artigo foi originalmente publicado em
http://www.townhall.com/columnists/thomassowell/archive.shtml.
14/08/2005
13/08/2005
O Espírito dos Tempos II
Nossa geração tem sido forçada a perceber quão frágeis e inconsistentes são as barreiras que separam a civilização das forças destrutivas. Temos aprendido que o barbarismo não é um mito pitoresco ou uma tênue memória de um passado distante da história humana, mas uma hedionda realidade subjacente que pode emergir com força avassaladora tão logo a autoridade moral de uma civilização perde o controle.
Religion and the Rise of Western Culture, Christopher Dawson, Image Books, New York, 1991.
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Essa vertigem permanente da razão, mergulhando-a em seu abismo interior, tece uma seqüência infinita de variações sobre a morte de Deus e, correspondentemente, sobre a morte do homem, como reconheceu Nietzsche passando do “insensato” da Gaia Ciência ao “último homem” do Zaratustra. A sombra dessa morte anunciada planou sobre um século inteiro de guerras mundiais, de execuções em massa e de apocalipse nuclear, balizada pelas figuras obscuras da barbárie: Dachau, Gulag ou Hiroshima.
(...) Que deus é esse que assim que o cortejo se põe em marcha não matem a promessa feita a Israel: “Invoca-me no dia da desgraça; eu te libertarei, tu me glorificas”? (Salmos, 50, 15)
Ou então, se nos afastamos de Deus esquecendo a Arca da Aliança que talvez comprometesse apenas os homens, que homem é esse, então só no mundo, que precipitou no cadinho da história as piores alianças da barbárie para aniquilar outros homens em nome da razão racial ou social?
A barbárie interior, Jean-François Mattéi, Editora Unesp, 1999
Religion and the Rise of Western Culture, Christopher Dawson, Image Books, New York, 1991.
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Essa vertigem permanente da razão, mergulhando-a em seu abismo interior, tece uma seqüência infinita de variações sobre a morte de Deus e, correspondentemente, sobre a morte do homem, como reconheceu Nietzsche passando do “insensato” da Gaia Ciência ao “último homem” do Zaratustra. A sombra dessa morte anunciada planou sobre um século inteiro de guerras mundiais, de execuções em massa e de apocalipse nuclear, balizada pelas figuras obscuras da barbárie: Dachau, Gulag ou Hiroshima.
(...) Que deus é esse que assim que o cortejo se põe em marcha não matem a promessa feita a Israel: “Invoca-me no dia da desgraça; eu te libertarei, tu me glorificas”? (Salmos, 50, 15)
Ou então, se nos afastamos de Deus esquecendo a Arca da Aliança que talvez comprometesse apenas os homens, que homem é esse, então só no mundo, que precipitou no cadinho da história as piores alianças da barbárie para aniquilar outros homens em nome da razão racial ou social?
A barbárie interior, Jean-François Mattéi, Editora Unesp, 1999
Budismo e Cristianismo
Nota - É impressionante perceber a profundidade de um texto de jornal da década de 20 do século passado na Inglaterra. Se compararmos com os jornais de hoje no Brasil, podemos perceber que nossa pobreza intelectual é desoladora. Pretendo postar mais textos de Chesterton, publicados em jornais ingleses do início do século XX.
G.K. Chesterton
Publicado no Illustrated London News, 2 de março de 1929
Um distinto cavalheiro militar anunciou recentemente neste jornal que um budista chinês visitará proximamente a Inglaterra com a firme intenção de, finalmente, abolir a guerra. Ele, o cavalheiro militar, explicou que Budismo é uma palavra que significa Iluminação e que somente ela pode abolir a guerra. Isso parece, em si mesmo, um simples processo de razão e reforma. Mas, eu não seria movido a criticar uma intenção tão nobre, se o missivista não tivesse recorrido ao fatigante e velho truque de comparar a condição de iluminação do Budismo com a situação de ignorância dos Cristãos. É verdade que, como muitos homens na atual confusão mental, ele, desnecessariamente, se desnorteou usando a mesma palavra em dois sentidos e em ambos os lados, além de colocar o Cristianismo contra si próprio. Budismo é Cristianismo, o Budismo é melhor do que o Cristianismo e o Cristianismo nunca será ele mesmo até que ele seja a tal ponto iluminado de forma a se tornar diferente. Mas, essa mera logomaquia não altera o essencial da opinião que muitos de nós temos visto, de uma forma ou de outra, há muito tempo. A chave da situação é que o crítico militar diz que “os Cristãos fracassaram” em abolir a guerra e que isso é devido ao lamentável fato que eles não são iluminados, ou, em outras palavras, ao curioso fato de que os Cristãos não são Budistas.
Para começar, um europeu normal não precisa nutrir nenhum sentimento negativo para com os asiáticos para sentir um moderado ressentimento ou mesmo revolta sobre esse tipo de coisa. Se o cavalheiro chinês está vindo com um infalível talismã para terminar toda a luta na Inglaterra, não deveria ser sugerido que ele ficasse onde está e acabasse com todas as lutas na China? Lutas e discórdias nunca foram hábitos apenas cristãos, nem as guerras totalmente desconhecidas fora da Cristandade. Pode ser que eremitas e homens santos, no ocidente e no oriente, tenham, individualmente, abandonado a guerra. Mas, não estamos falando sobre abandonar a guerra, mas sobre abolir a guerra. Em qual sentido os Cristãos fracassaram e os Budistas não? Em que aspecto o Budismo, que pode contemplar as lutas asiáticas por quatro mil anos, é mais eficiente do que o Cristianismo, que pode meramente olhar para dois mil. Eu não considero que isso desacredite nem o Budismo nem o Cristianismo. Mas, se barulhentos palestrantes e jornais, dez vezes por semana, nos contam que o Cristianismo fracassou por não ter sido capaz de acabar com a guerra, o que diríamos das chances do cavalheiro chinês fazer isso na Europa com uma nova religião, quando ele não conseguiu fazê-lo na Ásia com uma velha. De passagem, devo dizer que o apelo Cristão para a paz tem sido, freqüentemente, mais próximo da prática política do que a iluminação metafísica do Budismo. Sem fazer uma aposta muito alta nas chances de ambos, eu diria que seria algo remotamente mais provável um santo franciscano influenciar a política de um Ricardo Coração de Leão do que um monge budista (com sua mente embebida de Nirvana), parar uma marcha de um Genghis Khan. Mas, essa é uma conjectura menor e não tem importância. O mais importante é que, se o Cristianismo for acusado de fracasso por não ter abolido a guerra, o Budismo dificilmente poderá ser considerado uma garantia sólida de sucesso nesse mister. A verdade é, claramente, que toda essa conversa de abolir isso ou aquilo, dentre as muitas incompreensões e tentações da humanidade, mostra uma essencial ignorância sobre a natureza mesma da humanidade. Com isso não se deixa espaço para as centenas de inconsistências, dilemas, reparações desesperadas e ao devotamento imperfeito e parcial dos homens. Um homem pode ser, em todos os aspectos, um homem bom e um crente verdadeiro e, ainda assim, errar. De fato, o cavalheiro militar que escreveu a carta sobre o Budismo e a guerra, não precisa procurar muito por um tal exemplo. Por seus próprios padrões, ele é inconsistente em ser um soldado Cristão e ainda mais inconsistente em ser um soldado Budista.
Tomei esse texto de jornal diário porque, todos sabemos, a religião de nossos pais está sendo permanentemente apedrejada por tais textos. E mesmo independentemente de qualquer lealdade à minha fé, tenho lealdade suficiente a meus pais e à reputação e os feitos do homem Inglês e Europeu para sentir que é tempo para que tais insultos sejam tratados como eles merecem. Não é nenhuma desgraça para o Cristianismo, não é nenhuma desgraça para alguma grande religião, que seus conselhos de perfeição não tenham feito uma só pessoa perfeita. Se depois de séculos, uma disparidade é ainda encontrada entre seus ideais e seus seguidores, isso somente significa que essa religião ainda mantém vivo o ideal e que seus seguidores ainda precisam dele. Mas, isso não deve surpreender um filósofo em toda a sua sabedoria. De fato, seria muito mais razoável usar esse insulto contra o sem religião que o usa, do que contra o religioso, contra o qual ele é usado. É exatamente o pessoal que mais faz uso desse insulto, os secularistas e humanitários, que promete milênios de paz e prosperidade. São os novelistas e ensaístas da escola cética que anunciam, periodicamente, a Guerra que Acabará com a Guerra, ou o Estado Mundial que imporá a paz universal (1). O Cristianismo nunca prometeu que imporia a paz universal. Ele tinha um respeito excessivo à liberdade individual. Aos teóricos céticos é permitida a criação de uma Utopia atrás da outra, sem serem repreendidos quando elas são contrariadas pelos fatos, ou uma pela outra. O infeliz crente é considerado o único responsável, e tem de pagar, por quebrar uma promessa que nunca fez.
Sem dúvida, esse tipo de sarcasmo é tão injusto ao Budismo quanto ao Cristianismo. O ideal de Buda pode ainda ser o melhor para os homens, mesmo que milhões de homens continuem a preferir algo inferior. Se o ideal de Buda é melhor para os homens é uma questão muito mais ampla, que não pode ser, devidamente, desenvolvida aqui (2). De fato, há muita opinião divergente sobre o que era, realmente, o ideal de Buda, especialmente, entre os Budistas. Esse é, também, um insulto vulgarmente usado contra os seguidores de Cristo, que pode muito bem ser usado contra os seguidores de Buda. O misterioso cavalheiro chinês pode impor a todas as nações da terra a mesma definição de paz e, ainda, ter uma tarefa delicada quando tentar impor a todos os Teosofistas a mesma definição de Teosofia. Mas, pelo menos alguns dos discípulos do grande Gautama interpretam seu ideal, tanto quanto posso entender, como o da absoluta liberação de todo o desejo ou esforço, ou de tudo que os seres humanos chamam de esperança. Nesse sentido, a filosofia apenas significará o abandono das armas, porque significará o abandono de quase tudo. Ela não desencoraja a guerra mais do que o trabalho. Ela não desencoraja o trabalho mais do que o prazer. Ela diria ao guerreiro que o desapontamento o espera quando ele se tornar o conquistador e que não vale a pena vencer a sua guerra. Mas, também e presumivelmente, dirá ao amante que seu amor não vale a pena ser conquistado e que a rosa murchará tanto quanto o laurel. Ela dirá, provavelmente, ao poeta que seu poema não vale a pena ser escrito, que pode (em certos casos, cuja identificação é desnecessária) ser, de fato, o caso. Mas, ela, dificilmente, pode ser considerada uma filosofia inspiradora da criação de bons, mais do que da a criação de maus poemas. Pode ser que essas pessoas estejam enganadas sobre o que é ameaçado pelo Budismo. Pode ser, também, que essas pessoas estejam enganadas sobre o que é prometido pelo Cristianismo. Espero que essa tenha sido a última vez que ouvimos algo de pessoas confusas, descontentes e mundanas, que amaldiçoam a Igreja por não salvar o mundo que não quer ser salvo e que estão prontas a aceitar, contra ela, qualquer teoria – mesmo a louca teoria pela qual o mundo seria destruído.
1. Qualquer semelhança com a ONU terá sido mera profecia.
2. Para uma discussão mais profunda sobre o tema, ver o Capítulo VII de Ortodoxia, de G.K. Chesterton, Editora LTR, São Paulo, 2001.
12/08/2005
A tragédia da África
Thomas Sowell
As declarações oficiais das últimas reuniões do G8 na Escócia, assim como as demonstrações dissonantes que as envolveram, falam sobre salvar a África. Mas, se olharmos retrospectivamente para as décadas e gerações passadas, a África tem sido salva tantas vezes que nos faz pensar sobre a razão de ela ainda precisar de salvação.
Condições trágicas e desesperadas afligem milhões na África hoje e qualquer pessoa sensível gostaria de ajudar. Mas, os fracassos repetidos das tentativas anteriores devem nos fazer refletir sobre a maneira particular na qual a África deve ser ajudada.
O perdão de débitos externos está sempre no topo da agenda dos que estão à esquerda do espectro político. Num momento determinado, isso liberaria, é claro, dinheiro que os governos poderiam utilizar para o alívio do infortúnio que aflige os povos – supondo que é nisso que os governos pretendem aplicar os recursos. Mas, como pode alguém pensar que a promoção do endividamento irresponsável, através do perdão periódico aos débitos governamentais, irá ajudar os países africanos, a longo prazo?
Quanto aos povos da África, eles têm de sobreviver a curto prazo para chegar ao longo prazo. Assim, uma ajuda emergencial para condições emergenciais faz muito mais sentido do que programas de ajuda externa de longo prazo, programas estes que possuem um registro inequívoco de fracassos, não só na África como no mundo todo.
Há alguns anos atrás, um corajoso economista indiano alertou que, por mais útil que tenha sido, para a Índia, receber doações de alimentos do exterior em épocas de crise de fome, a política de longo prazo de doação de trigo àquele país, simplesmente, inibiu os agricultores indianos a cultivarem trigo e vendê-lo a um preço que cobrisse seus custos. Num determinado momento, a política de envio de trigo para a Índia chegou ao fim e hoje o país produz tanto trigo que é capaz de doar quantidades do cereal aos países africanos em ocasiões de crise.
A promoção de dependência e de endividamento irresponsável não é a maneira de ajudar os pobres nem internacionalmente, nem em casa. Tais políticas beneficiam as burocracias que administram as ajudas estrangeiras e possibilitam que presunçosos se passem por salvadores, mesmo quando eles fazem mais mal do que bem.
A África sub-saariana possui uma das mais trágicas situações geográficas do mundo. Os cursos fluviais navegáveis, que são cruciais ao desenvolvimento de nações e culturas, são muitíssimos limitados na maior parte da África.
Ideólogos adoram pensar que a pobreza da África é causada pela “exploração” dos países ocidentais. Mas, com poucas exceções notáveis, a África tem oferecido muito pouco a ser explorado. Mesmo no ápice do imperialismo europeu, havia muito menos investimento estrangeiro em todo o vasto continente africano do que num minúsculo país como a Bélgica.
Em tempos mais recentes, a tal “ajuda externa” tem deixado muitos monumentos à futilidade na África, de máquinas enferrujadas e ruínas de muitos projetos ao gado enviado da Europa que tombaram no calor africano.
Com todas as suas desvantagens, a África conseguia se alimentar e mesmo exportar produtos agrícolas para a Europa. Em algumas das partes mais geograficamente favorecidas da África sub-saariana, o ferro era fundido há milhares de anos.
Durante as duas primeiras décadas depois da independência das nações africanas nos anos 1960, uma nação sub-saariana que se ateve à sua prosperidade econômica e estabilidade política, em meio às catástrofes sociais e desastres econômicos de seus vizinhos, foi a Costa do Marfim, governada pelo presidente Felix Houphouet-Boigny.
Mesmo assim, nem a Costa do Marfim, nem seu líder atraíram tanta atenção, muito menos adulação, que Julius Nyerere na Tanzânia, que Kwame Nkrumah em Gana, ou que outros famosos líderes africanos que levaram seus países à ruína.
A Costa do Marfim, naquele tempo, confiava nos mercados, ao invés de confiar em políticas defendidas, e da retórica usada, pela intelligentsia. Quando a política mudou, aquele país se tornou apenas um outro item do menu africano.
Atualmente, a maioria no Ocidente continua a enxergar o continente africano como um escoadouro das visões e políticas da esquerda, que fracassaram no Ocidente e que tendem, com muito maior probabilidade, fracassar na África.
12/07/2005
Este artigo foi originalmente publicado em http://www.townhall.com/columnists/thomassowell/archive.shtml. Aguardem A tragédia da África II
As declarações oficiais das últimas reuniões do G8 na Escócia, assim como as demonstrações dissonantes que as envolveram, falam sobre salvar a África. Mas, se olharmos retrospectivamente para as décadas e gerações passadas, a África tem sido salva tantas vezes que nos faz pensar sobre a razão de ela ainda precisar de salvação.
Condições trágicas e desesperadas afligem milhões na África hoje e qualquer pessoa sensível gostaria de ajudar. Mas, os fracassos repetidos das tentativas anteriores devem nos fazer refletir sobre a maneira particular na qual a África deve ser ajudada.
O perdão de débitos externos está sempre no topo da agenda dos que estão à esquerda do espectro político. Num momento determinado, isso liberaria, é claro, dinheiro que os governos poderiam utilizar para o alívio do infortúnio que aflige os povos – supondo que é nisso que os governos pretendem aplicar os recursos. Mas, como pode alguém pensar que a promoção do endividamento irresponsável, através do perdão periódico aos débitos governamentais, irá ajudar os países africanos, a longo prazo?
Quanto aos povos da África, eles têm de sobreviver a curto prazo para chegar ao longo prazo. Assim, uma ajuda emergencial para condições emergenciais faz muito mais sentido do que programas de ajuda externa de longo prazo, programas estes que possuem um registro inequívoco de fracassos, não só na África como no mundo todo.
Há alguns anos atrás, um corajoso economista indiano alertou que, por mais útil que tenha sido, para a Índia, receber doações de alimentos do exterior em épocas de crise de fome, a política de longo prazo de doação de trigo àquele país, simplesmente, inibiu os agricultores indianos a cultivarem trigo e vendê-lo a um preço que cobrisse seus custos. Num determinado momento, a política de envio de trigo para a Índia chegou ao fim e hoje o país produz tanto trigo que é capaz de doar quantidades do cereal aos países africanos em ocasiões de crise.
A promoção de dependência e de endividamento irresponsável não é a maneira de ajudar os pobres nem internacionalmente, nem em casa. Tais políticas beneficiam as burocracias que administram as ajudas estrangeiras e possibilitam que presunçosos se passem por salvadores, mesmo quando eles fazem mais mal do que bem.
A África sub-saariana possui uma das mais trágicas situações geográficas do mundo. Os cursos fluviais navegáveis, que são cruciais ao desenvolvimento de nações e culturas, são muitíssimos limitados na maior parte da África.
Ideólogos adoram pensar que a pobreza da África é causada pela “exploração” dos países ocidentais. Mas, com poucas exceções notáveis, a África tem oferecido muito pouco a ser explorado. Mesmo no ápice do imperialismo europeu, havia muito menos investimento estrangeiro em todo o vasto continente africano do que num minúsculo país como a Bélgica.
Em tempos mais recentes, a tal “ajuda externa” tem deixado muitos monumentos à futilidade na África, de máquinas enferrujadas e ruínas de muitos projetos ao gado enviado da Europa que tombaram no calor africano.
Com todas as suas desvantagens, a África conseguia se alimentar e mesmo exportar produtos agrícolas para a Europa. Em algumas das partes mais geograficamente favorecidas da África sub-saariana, o ferro era fundido há milhares de anos.
Durante as duas primeiras décadas depois da independência das nações africanas nos anos 1960, uma nação sub-saariana que se ateve à sua prosperidade econômica e estabilidade política, em meio às catástrofes sociais e desastres econômicos de seus vizinhos, foi a Costa do Marfim, governada pelo presidente Felix Houphouet-Boigny.
Mesmo assim, nem a Costa do Marfim, nem seu líder atraíram tanta atenção, muito menos adulação, que Julius Nyerere na Tanzânia, que Kwame Nkrumah em Gana, ou que outros famosos líderes africanos que levaram seus países à ruína.
A Costa do Marfim, naquele tempo, confiava nos mercados, ao invés de confiar em políticas defendidas, e da retórica usada, pela intelligentsia. Quando a política mudou, aquele país se tornou apenas um outro item do menu africano.
Atualmente, a maioria no Ocidente continua a enxergar o continente africano como um escoadouro das visões e políticas da esquerda, que fracassaram no Ocidente e que tendem, com muito maior probabilidade, fracassar na África.
12/07/2005
Este artigo foi originalmente publicado em http://www.townhall.com/columnists/thomassowell/archive.shtml. Aguardem A tragédia da África II
O Espírito dos Tempos
Nota - Este texto é o último parágrafo da Introdução do livro Heretics de G.K.Chesterton. A tradução foi feita por mim que, também, lhe dei um título.Suponha que uma grande comoção surja, numa rua, sobre alguma coisa, digamos um poste de iluminação a gás, que muitas pessoas influentes desejam derrubar. Um monge de batina cinza, que é o espírito da Idade Média, começa a fazer algumas considerações sobre o assunto, dizendo à maneira árida da Escolástica: “Consideremos primeiro, meus irmãos, o valor da Luz. Se a Luz for em si mesma boa –”. Nessa altura, ele é, compreensivelmente, derrubado. Todo mundo corre para o poste e o põe abaixo em dez minutos, cumprimentando-se mutuamente em sua praticalidade nada medieval. Mas, com o passar do tempo, as coisas não funcionam tão facilmente. Alguns derrubaram o poste porque queriam a luz elétrica; alguns outros, porque queriam o ferro do poste; alguns mais, porque queriam a escuridão, pois, seus objetivos eram maus. Alguns se interessavam pouco pelo poste, outros muito; alguns agiram porque queriam destruir os equipamentos municipais; alguns outros porque queriam destruir alguma coisa. E acontece uma guerra noturna, ninguém sabendo a quem atinge. Então, gradualmente, hoje, amanhã, ou depois de amanhã, forma-se a convicção de que o monge estava certo, afinal, e que tudo depende de qual é a filosofia da Luz. Mas, o que podíamos discutir sob o lâmpada a gás, agora temos de discutir no escuro.
11/08/2005
Para começar
Ter um espaço onde escrever urbi et orbi é não só pretensioso, como assustador. A tecnologia nos facilita a pretensão.
Mas, este será um blog despretensioso, onde vou procurar escrever pouco e deixar outros falarem por mim. Outros a quem admiro e respeito. Outros muito mais capazes que eu. Procurarei dar voz a quem mais me toca com suas idéias e incluirei, aqui e ali, alguns comentários meus.
Mas, este será um blog despretensioso, onde vou procurar escrever pouco e deixar outros falarem por mim. Outros a quem admiro e respeito. Outros muito mais capazes que eu. Procurarei dar voz a quem mais me toca com suas idéias e incluirei, aqui e ali, alguns comentários meus.
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