Thomas Sowell
A nova trindade santa dos intelectuais de esquerda é raça, classe e gênero. Definir qualquer desses termos não é fácil, exceto para os esquerdistas que, muito raramente, se preocupam com isso.
O mais antigo, e talvez ainda o mais importante, desses conceitos é o de classe. Na visão da esquerda, nascemos, vivemos e morremos numa determinada classe – a menos, claro, que entreguemos o poder à esquerda para mudar tudo isso.
As mais recentes estatísticas usadas para apoiar a visão de uma América (e outros países ocidentais) dividida em classes mostram que a maioria das pessoas, numa determinada faixa da distribuição de renda, são filhos de outras pessoas nascidas na mesma faixa da distribuição.
Entre os homens nascidos em famílias nos últimos 25% da distribuição de renda, apenas 32% conseguem ascender à metade superior da distribuição. Entre os homens nascidos em famílias nos primeiros 25%, apenas 34% descem para a metade inferior.
O quanto isso é surpreendente?
Mais especificamente, isso mostra que o indivíduo fica preso à pobreza ou pode passar a vida dependendo de seus pais? Isso mostra que a ‘sociedade’ nega ‘acesso’ aos pobres?
Será que isso poderia indicar que o tipo de valores e de comportamento que levam uma família a ter sucesso ou a fracassar são passados para seus filhos e os levam, também, a ter sucesso ou a fracassar? Em caso afirmativo, o quanto políticas governamentais – de esquerda ou conservadoras – podem mudar, fundamentalmente, a situação?
Uma estória recente que tenta mostrar que a mobilidade social ascendente é um ‘mito’ na América nota, en passant, que muitos imigrantes recentes e seus filhos tiveram ‘uma mobilidade ascendente extraordinária’.
Se essa sociedade estratificada em classes nega ‘acesso’ à ascendência social àqueles na base da pirâmide, por que os imigrantes podem chegar aqui na base e subir ao topo?
Uma razão óbvia é que muitos imigrantes pobres chegam com valores e ambições muito diferentes daqueles dos pobres americanos, nascidos em nosso estado de bem-estar social e imbuídos de noções vindas de atitudes de dependência e ressentimento em relação ao sucesso dos outros.
A razão fundamental de muitos não ascenderem não é que as barreiras de classe os impedem, mas que eles não desenvolvem as habilidades, valores e atitudes que são a causa da ascensão social.
Um estado de bem-estar social significa que eles não têm de – e o multiculturalismo de esquerda afirma que eles não precisam de – mudar seus valores, pois, uma cultura é tão boa quanto outra qualquer. Em outras palavras, a esquerda não é parte da solução, mas do problema.
O racismo supostamente coloca barreiras insuperáveis no caminho dos não brancos, então, por que se matar tentando? Essa é outra mensagem fatal, especialmente para os jovens.
Mas, se imigrantes da Coréia e da Índia, se os refugiados vietnamitas e outros podem vir para cá e subirem a escada, apesar de não serem brancos, por que americanos na base da pirâmide – brancos ou negros – estão fadados a lá permanecerem?
As mesmas atitudes contra-produtivas e autodestrutivas em relação à educação, ao trabalho e à civilidade existentes em muitos guetos americanos podem, também, ser encontrados nas comunidades britânicas das classes inferiores. Quem duvidar deve ler o livro do Dr. Theodore Dalrymple, ‘Life at the Bottom (Vida da Classe Inferior)’, sobre as comunidades de brancos pobres nas quais ele trabalhou.
Essas comunidades caóticas e violentas na Inglaterra não têm a desculpa do racismo e o legado da escravidão. O que elas têm em comum com as comunidades similares nos EUA é a semelhante confiança no estado de bem-estar social e um conjunto similar de intelectuais dando desculpas para seu comportamento e denunciando qualquer um que deseje delas uma mudança de comportamento.
O recente conjunto de estatísticas estimulou ainda mais os intelectuais a culparem a ‘sociedade’ pelo fracasso, na ascensão, de muitas pessoas na base da pirâmide social. Realisticamente, se quase um terço dos nascidos em famílias no quartil inferior de renda conseguem chegar ao topo, esse não é um dado ruim.
Se mais estava sendo conseguido no passado, isso não significa, necessariamente, que a ‘sociedade’ os estão impedindo mais, atualmente. Isso pode muito bem ser devido ao estado de bem-estar social e à ideologia esquerdista que fazem menos necessário a eles uma mudança de seus próprios comportamentos.
Publicado por Townhall
14/03/2006
A Esquerda e o Conceito de Classe
10/03/2006
Teoria Materialista da História[1]
G. K. Chesterton
A teoria materialista da história – que afirma que toda a política e a ética são expressões da economia – é uma falácia, de fato, muito simples. Ela consiste, simplesmente, em confundir as necessárias condições de vida com as normais preocupações da vida, que são coisas muito diferentes. É como dizer que porque o homem pode andar somente sobre duas pernas, então, ele só pode caminhar se for para comprar meias e sapatos. O homem não pode viver sem os amparos da comida e da bebida, que os suporta sobre duas pernas; mas, sugerir que esses têm sido os motivos para todos os seus movimentos na história é como dizer que o objetivo de todas as suas marchas militares ou peregrinações religiosas deve ter sido a Perna Dourada da Senhora Kilmansegg ou a perfeita e ideal perna do Senhor Willoughby Patterne. Mas, são esses movimentos que constituem a história da espécie humana e sem eles não haveria praticamente história. Vacas podem ser puramente econômicas, no sentido de que não podemos ver que elas façam muito mais do que pastar e procurar o melhor lugar para isso; e essa é a razão pela qual a história das vacas em doze volumes não seria uma leitura estimulante. Ovelhas e cabras podem ser economistas em suas ações externas, pelo menos; mas, essa é a razão das ovelhas dificilmente serem heróis de guerras épicas e impérios, importantes suficientes para merecerem uma narração detalhada; e mesmo o mais ativo quadrúpede não inspirou um livro para crianças intitulado Os Feitos Maravilhosos das Cabras Galantes.
Mas, com relação a serem econômicos os movimentos que fazem a historia do homem, podemos dizer que a história somente começa quando os motivos das ovelhas e das cabras deixam a cena. Será difícil afirmar que os Cruzados saíram de suas casas em direção a uma horrível selvageria da mesma forma que as vacas tendem a ir das selvas para pastagens mais confortáveis. É difícil afirmar que os exploradores do Ártico foram em direção ao norte imbuídos dos mesmos motivos materiais que fizeram as andorinhas ir para o sul. E se deixarmos, de fora da história humana, coisas tais como todas as guerras religiosas e todas a aventuras exploratórias audaciosas, ela não só deixará de ser humana, mas deixará de ser história. O esboço da história é feito dessas curvas e ângulos decisivos, determinados pela vontade do homem. A história econômica não seria sequer história
Mas há uma falácia mais profunda além deste fato óbvio; os homens não precisam viver por comida meramente porque eles não podem viver sem comida. A verdade é que a coisa mais presente na mente do homem não é a engrenagem econômica necessária a sua existência, mas a própria existência; o mundo que ele vê quando acorda toda manhã e a natureza de sua posição geral nesse mundo. Há algo que está mais próximo dele que a sobrevivência e esse algo é a vida. Pois, tão logo ele se lembre qual trabalho produz exatamente seu salário e qual salário produz exatamente sua refeição, ele reflete dez vezes que hoje é um dia lindo, ou que este é um mundo estranho, ou se pergunta se a vida vale a pena ser vivida, ou se seu casamento é um fracasso, ou se ele está satisfeito ou confuso com seus filhos, ou se lembra de sua própria juventude, ou ele, de alguma forma, vagamente revê o destino misterioso do homem.
Isso é verdade para a maioria dos homens, mesmo para os escravos assalariados de nosso mórbido industrialismo moderno, que pelo seu caráter hediondo e sua desumanidade tem, realmente, posto a questão econômica em primeiro plano. É muito mais verdade para os numerosos camponeses, caçadores e pescadores que constituem a massa real da humanidade. Mesmo aqueles áridos pedantes, que pensam que a ética depende da economia, devem admitir que a economia depende da existência. E nossos devaneios e dúvidas cotidianos são sobre a existência; não sobre como podemos viver, mas sobre porque vivemos. E a prova disso é simples; tão simples quanto o suicídio. Vire o universo de cabeça para baixo em sua mente e você virará todos os economistas de cabeça para baixo. Suponha que um homem deseje morrer e que o professor de economia se torne um tédio com sua elaborada explicação de como ele deve viver. E todas as iniciativas e decisões que fazem do nosso passado humano uma história têm esse caráter de desviar o curso direto da pura economia. Tal como o economista deve ser desculpado por calcular o salário de um suicida, ele deve também ser desculpado por prover uma pensão de aposentadoria para um mártir. Tal como ele não precisa se preocupar com a pensão de um mártir, ele não deve se preocupar com a família de um monge. O plano do economista é modificado por insignificantes e variados detalhes como no caso de um homem ser um soldado e morrer pelo seu próprio país, de um homem ser um camponês e amar especialmente sua terra, de um homem ser mais ou menos influenciado por qualquer religião que proíba ou permita isso ou aquilo. Mas tudo isso se resume não a um cálculo econômico sobre despesas, mas a uma elementar consideração sobre a vida. Tudo isso se resume ao que o homem fundamentalmente sente, quando ele contempla, dessas janelas estranhas que ele chama os olhos, essa estranha visão que ele chama o mundo.
[1] Excerto do capítulo VII (‘The War of the Gods and Demons’ – A Guerra dos Deuses e Demônios) do livro ‘The Everlasting Man’ (O Homem Eterno). Quem se interessar pode ‘baixar’ uma cópia grátis desse livro, em inglês, do sítio The On-Line Books. Até onde eu sei, há uma tradução desse livro para o português, pela Editora Quadrante, que está fora de catálogo no momento. Eu não a conheço. (N. do T.)
A teoria materialista da história – que afirma que toda a política e a ética são expressões da economia – é uma falácia, de fato, muito simples. Ela consiste, simplesmente, em confundir as necessárias condições de vida com as normais preocupações da vida, que são coisas muito diferentes. É como dizer que porque o homem pode andar somente sobre duas pernas, então, ele só pode caminhar se for para comprar meias e sapatos. O homem não pode viver sem os amparos da comida e da bebida, que os suporta sobre duas pernas; mas, sugerir que esses têm sido os motivos para todos os seus movimentos na história é como dizer que o objetivo de todas as suas marchas militares ou peregrinações religiosas deve ter sido a Perna Dourada da Senhora Kilmansegg ou a perfeita e ideal perna do Senhor Willoughby Patterne. Mas, são esses movimentos que constituem a história da espécie humana e sem eles não haveria praticamente história. Vacas podem ser puramente econômicas, no sentido de que não podemos ver que elas façam muito mais do que pastar e procurar o melhor lugar para isso; e essa é a razão pela qual a história das vacas em doze volumes não seria uma leitura estimulante. Ovelhas e cabras podem ser economistas em suas ações externas, pelo menos; mas, essa é a razão das ovelhas dificilmente serem heróis de guerras épicas e impérios, importantes suficientes para merecerem uma narração detalhada; e mesmo o mais ativo quadrúpede não inspirou um livro para crianças intitulado Os Feitos Maravilhosos das Cabras Galantes.
Mas, com relação a serem econômicos os movimentos que fazem a historia do homem, podemos dizer que a história somente começa quando os motivos das ovelhas e das cabras deixam a cena. Será difícil afirmar que os Cruzados saíram de suas casas em direção a uma horrível selvageria da mesma forma que as vacas tendem a ir das selvas para pastagens mais confortáveis. É difícil afirmar que os exploradores do Ártico foram em direção ao norte imbuídos dos mesmos motivos materiais que fizeram as andorinhas ir para o sul. E se deixarmos, de fora da história humana, coisas tais como todas as guerras religiosas e todas a aventuras exploratórias audaciosas, ela não só deixará de ser humana, mas deixará de ser história. O esboço da história é feito dessas curvas e ângulos decisivos, determinados pela vontade do homem. A história econômica não seria sequer história
Mas há uma falácia mais profunda além deste fato óbvio; os homens não precisam viver por comida meramente porque eles não podem viver sem comida. A verdade é que a coisa mais presente na mente do homem não é a engrenagem econômica necessária a sua existência, mas a própria existência; o mundo que ele vê quando acorda toda manhã e a natureza de sua posição geral nesse mundo. Há algo que está mais próximo dele que a sobrevivência e esse algo é a vida. Pois, tão logo ele se lembre qual trabalho produz exatamente seu salário e qual salário produz exatamente sua refeição, ele reflete dez vezes que hoje é um dia lindo, ou que este é um mundo estranho, ou se pergunta se a vida vale a pena ser vivida, ou se seu casamento é um fracasso, ou se ele está satisfeito ou confuso com seus filhos, ou se lembra de sua própria juventude, ou ele, de alguma forma, vagamente revê o destino misterioso do homem.
Isso é verdade para a maioria dos homens, mesmo para os escravos assalariados de nosso mórbido industrialismo moderno, que pelo seu caráter hediondo e sua desumanidade tem, realmente, posto a questão econômica em primeiro plano. É muito mais verdade para os numerosos camponeses, caçadores e pescadores que constituem a massa real da humanidade. Mesmo aqueles áridos pedantes, que pensam que a ética depende da economia, devem admitir que a economia depende da existência. E nossos devaneios e dúvidas cotidianos são sobre a existência; não sobre como podemos viver, mas sobre porque vivemos. E a prova disso é simples; tão simples quanto o suicídio. Vire o universo de cabeça para baixo em sua mente e você virará todos os economistas de cabeça para baixo. Suponha que um homem deseje morrer e que o professor de economia se torne um tédio com sua elaborada explicação de como ele deve viver. E todas as iniciativas e decisões que fazem do nosso passado humano uma história têm esse caráter de desviar o curso direto da pura economia. Tal como o economista deve ser desculpado por calcular o salário de um suicida, ele deve também ser desculpado por prover uma pensão de aposentadoria para um mártir. Tal como ele não precisa se preocupar com a pensão de um mártir, ele não deve se preocupar com a família de um monge. O plano do economista é modificado por insignificantes e variados detalhes como no caso de um homem ser um soldado e morrer pelo seu próprio país, de um homem ser um camponês e amar especialmente sua terra, de um homem ser mais ou menos influenciado por qualquer religião que proíba ou permita isso ou aquilo. Mas tudo isso se resume não a um cálculo econômico sobre despesas, mas a uma elementar consideração sobre a vida. Tudo isso se resume ao que o homem fundamentalmente sente, quando ele contempla, dessas janelas estranhas que ele chama os olhos, essa estranha visão que ele chama o mundo.
[1] Excerto do capítulo VII (‘The War of the Gods and Demons’ – A Guerra dos Deuses e Demônios) do livro ‘The Everlasting Man’ (O Homem Eterno). Quem se interessar pode ‘baixar’ uma cópia grátis desse livro, em inglês, do sítio The On-Line Books. Até onde eu sei, há uma tradução desse livro para o português, pela Editora Quadrante, que está fora de catálogo no momento. Eu não a conheço. (N. do T.)
23/02/2006
Quem é esse sujeito, e porque nunca ouvi falar dele?
Quem estiver curioso é só clicar aqui. Divirtam-se!
22/02/2006
As Besteiras de Holywood e seu Comunismo Chique
Quem quiser exorcizar as besteiras de Holywood e desmascarar seu comunismo chique tem poucas chances no Brasil.
Sugiro abaixo alguns links que podem ajudar a quem se interessar.
http://www.midiasemmascara.org/artigo.php?sid=4600
http://www.olavodecarvalho.org/semana/051212dc.htm
http://www.olavodecarvalho.org/semana/060206dc.htm
Sugiro abaixo alguns links que podem ajudar a quem se interessar.
http://www.midiasemmascara.org/artigo.php?sid=4600
http://www.olavodecarvalho.org/semana/051212dc.htm
http://www.olavodecarvalho.org/semana/060206dc.htm
17/02/2006
Como e Porque Estudar
Hoje em dia, está na moda dizer que devemos ser autodidatas. Há mesmo aqueles que afirmam que isso é o que as escolas deveriam ensinar. Lendo esses chavões modernos, chegamos a pensar que só os ‘sábios’ contemporâneos, com todas as ferramentas da moderna pedagogia, podem nos aconselhar, quando o assunto é o estudo e o aprendizado.
Se alguém quiser desfrutar de uma tradição de aconselhamento de como e porque estudar que remonta à Idade Média, convém começar com o ‘Opúsculo sobre o Modo de Aprender e de Meditar’ de Hugo de São Vitor (1096-1141), continuar com o ‘Sobre o Modo de Estudar (De Modo Studendi)’ de Santo Tomás de Aquino (1125-1274) e chegar ao nosso tempo com ‘Le Vie Intellectuelle’, escrito em 1934, por A.D. Sertillanges, um beneditino francês. Existe uma edição em inglês dessa obra, publicada pela CUA (Catholic University of America) Press, como o título ‘The Intellectual Life: Its Spirit, Conditions, Methods’.
O filósofo brasileiro Olavo de Carvalho tem se ocupado, freqüentemente, deste tema em seus artigos semanais em jornais brasileiros e em palestras em vários fóruns. Alguns deles são de aconselhamento, como este . Outros, são de análise da conjuntura atual, mas que inclui uma boa dose de conselhos sobre como estudar, como este. Alguns deles são longas digressões sobre a educação em geral, como este.
Voltando ao beneditino francês, seu livro é, de fato, um tesouro. Para dar uma pálida idéia do seu conteúdo, traduzo alguns trechos de seu prefácio, escrito pelo jesuíta James V. Schall, para a edição de 1998. A propósito, Padre Schall também escreveu um livro de conselhos sobre como estudar. Não o conheço, mas quem se interessar pode adquiri-lo aqui.
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Os prazeres e as dores do pensar
Uma vocação não é realizada por leituras vagas e escritos esparsos.
-- A.D. Sertillanges, Introdução à Edição de 1934
Muitos de nós, mais velhos, desejaríamos que, quando mais jovens, alguém nos tivesse falado sobre certas coisas, ou sobre certos livros que, freqüentemente, quando os analisamos em retrospectiva, teriam nos ajudado, tremendamente, no projeto de nossas vidas e, em particular, nos teriam ajudado a conhecer as coisas verdadeiras. Alguns desses livros são orientados ao que é verdadeiro, à realidade, ao que é, mas alguns deles são mais direcionados à questão do “como começar a conhecer?” (...)
Sertillanges oferece muito mais do que um bom começo. Ele, explicitamente, diz como começar, como ler e escrever, como disciplinar nosso tempo, de fato, como disciplinar nossa alma. Ele também se ocupa com a vida do espírito na qual a verdadeira vida intelectual existe. Talvez, já tenhamos ouvido de Aristóteles que somos animais racionais, que a vida contemplativa é algo a que devemos aspirar. Mas, praticamente ninguém nos diz o que isso significa, se isso é algo que está disponível a nós sob alguma condição que não nos é fácil compreender. Mas, mesmo que nós, vagamente, saibamos que a vida intelectual é uma vida elevada, sabemos muito pouco sobre o que tal vida nos poderia exigir. Estamos, também, conscientes que a sabedoria vem muito mais tarde na vida do que, inicialmente, suspeitávamos,. Mesmo assim, suspeitamos que haveria caminhos que nos ajudassem, se pelo menos nós os conhecêssemos. (...)
Este breve prefácio é, simplesmente, uma explicação da razão pela qual esse livro maravilhoso e útil deve estar, sempre, disponível e ser, permanentemente, consultado por jovens estudantes de graduação, de pós-graduação, pelo pessoal mais velho e, enfim, por todos. Toda vez que usei esse livro em sala de aula, usualmente quando lecionava um curso sobre Santo Tomás de Aquino, tive alunos de graduação que, posteriormente, me disseram lembrar do livro porque ele os ensinou muito sobre como continuar pondo em prática a curiosidade intelectual, de uma maneira efetiva, não meramente enquanto estudavam, mas ao longo de suas vidas.
À primeira vista, como já insinuei, esse é um livro incomum. Depois, ele se torna um livro tremendamente exigente. Sertillanges, meticulosamente, nos diz como tomar notas, como começar a escrever e a publicar, como organizar nossas anotações e com isso, nosso pensamento. Assim, usei a palavra incomum porque nós não usamos mais, como fez Sertillanges, canetas e máquinas de datilografia, mas computadores sofisticados e processos de impressão que o teriam impressionado. Mas, lembre-se que Tomás de Aquino, sobre quem Sertillanges escreveu tão bem e de cuja inspiração deriva este livro, teve, talvez, somente vinte e cinco anos de atividade produtiva no século XIII. Ele não teve nenhuma das facilidades que mesmo Sertillanges teve nos anos 20 do século XX. Mesmo assim, Aquino produziu uma quantidade, estonteante, de material brilhante e profundo.
Como ele o fez? É altamente duvidoso que ele tivesse escrito mais ou melhor se ele dispusesse do mais avançado computador. De fato, num certo sentido, isso poderia ter sido um obstáculo. Pois, Santo Tomás desenvolveu uma memória prodigiosa e uma fantástica capacidade de acesso a todo o conhecimento dos grandes escritores seus ancestrais, incluindo a Bíblia. Essa sabedoria foi adquirida às custas de livros e leitura, mesmo para Santo Tomás, mas ele sabia como fazer essas coisas. O que Sertillanges nos ensina é como, do nosso próprio jeito, imitar as lições que podemos encontrar no grande Dominicano medieval, sobre como desenvolver uma verdadeira vida intelectual, uma vida cheia de honestidade e oração, por meio de um trabalho diligente e, no final, uma vida com o deleite de conhecer.
Ao ler o livro de Sertillanges, não podemos evitar o sentimento de que ele está nos revelando alguns dos segredos da vasta produtividade e intuição de Santo Tomás. Há tantas horas num dia, numa semana, num mês. Sertillanges não nos pede para abrirmos mão de nossa vida cotidiana e nos devotarmos, completamente, à vida intelectual da maneira como Santo Tomás fez. Ao contrário, Sertillanges nos ensina, de uma forma prática, como podemos organizar nossas vidas a fim de adquirirmos uma base inicial sólida – com sorte, quando ainda somos jovens – e continuarmos a construir sobre essa firme fundação, pelo resto de nossos dias. Em resumo, Sertillanges nos ensina sobre hábitos, sobre disciplina, sobre, sim, produtividade e verdade. Ele pensa que podemos viver uma verdadeira vida intelectual se conseguirmos reservar uma ou duas horas diárias para uma busca séria das coisas superiores. Ele não sugere nada rígido ou inexeqüível. Além disso, quando falamos em termos de horas, tendemos a perder de vista ao que Sertillanges se refere.
Qualquer tipo de aprendizado, no início, exigirá um esforço penoso. Podemos chamá-lo de um tipo de trabalho. Precisamos chegar a ponto de nos deleitarmos pelo que estamos aprendendo, a ponto de ficarmos ansiosos para voltarmos para nossas considerações, ou escritos, ou reflexões sobre algum assunto. Qualquer coisa que existe é fascinante. Chesterton, cuja vida intelectual parece ter sido tão vibrante, certa vez observou que não há coisas desinteressantes, apenas pessoas desinteressadas. Grande parte desse desinteresse existe, precisamente, porque nunca aprendemos como ou porque enxergar o que está lá.
Sertillanges nos ensina a examinar nossas vidas. Ele não deixa de mencionar que nossas falhas morais, as sérias e as mais leves, podem, de fato, nos impedir de sermos livres o suficiente para enxergarmos o que não seja ‘nós mesmos’, para enxergarmos o que é. “Você deseja ter uma vida intelectual?” Sertillanges responde, em sua Introdução da edição de 1934. “Comece por criar dentro de si uma zona de silêncio.” Vivemos num mundo cercado por barulho, por um tipo de agitação que preenche nossos dias e noites. Temos tantas coisas para nos distrair, mesmo que, às vezes, pensamos que elas nos educam. Sertillanges tem certeza que temos tempo. Mas, ele, também, tem certeza que não notamos que temos tempo porque nossas vidas parecem ser ocupadas, saturadas. Encontramos tempo nos tornando, primeiramente, interessados, desejosos de saber. Sertillanges exige um exame de consciência tanto sobre nossos pecados, quanto sobre o uso do nosso tempo.
Uma vida intelectual, contemplativa, é, em si, cheia de atividade, mas atividade proposital, que quer saber e saber a verdade. O que, comumente, chamamos “intelectual” atualmente não é, provavelmente, o que Sertillanges tinha em mente quando ele falava de “vida intelectual”. Pode-se dizer que os intelectuais como classe, como Paul Johnson escreveu em seu livro “Os Intelectuais”, desenvolvem teorias e explicações, precisamente, como um produto de suas próprias desordens morais internas. Não devemos nunca esquecer que uma vida intelectual é uma vida perigosa. O maior de todos os pecados não se origina da carne mas do espírito, como dizia Agostinho. O mais brilhante dos anjos foi o anjo caído. Essas considerações sóbrias explicam porque gosto deste pequeno livro de Sertillanges. Ele não hesita em nos alertar sobre a relação íntima entre nosso conhecimento da verdade e o não direcionamento de nossa alma ao bem. A vida intelectual pode ser e, com freqüência, é uma vida perigosa. Mas, isso não é razão para negarmos sua glória. E Sertillanges é muito cuidadoso em nos direcionar para aquelas coisas que devem ser perseguidas porque elas nos explicam o que somos, nos explicam o mundo e Deus. (...)
Tendemos a pensar que a vida intelectual é alguma enorme intuição que vem a nós numa agradável manhã, enquanto nos barbeamos ou tomamos café. Sertillanges não nega que alguma intuição nos chega dessa forma. Mas, o curso normal das coisas exigirá, ao contrário, uma preocupação permanente em perseguir a verdade, em conhecer, em ser curioso sobre a realidade. (...)
Eu colocaria A Vida Intelectual sobre a escrivaninha de todo estudante sério e da maioria dos negligentes. De fato, Platão disse que nossas vidas não são “sérias” em comparação com a de Deus. Algo do relaxado lazer, daquela sensação de liberdade que vem com o conhecimento e com o desejo de conhecimento, é instilado em nossas almas por este livro. Sua mera presença em nossas escrivaninhas ou estantes é um estímulo constante, um lembrete visível de que a vida intelectual não é algo estranho, algo que não podemos, do nosso jeito, alcançar.
Se alguém quiser desfrutar de uma tradição de aconselhamento de como e porque estudar que remonta à Idade Média, convém começar com o ‘Opúsculo sobre o Modo de Aprender e de Meditar’ de Hugo de São Vitor (1096-1141), continuar com o ‘Sobre o Modo de Estudar (De Modo Studendi)’ de Santo Tomás de Aquino (1125-1274) e chegar ao nosso tempo com ‘Le Vie Intellectuelle’, escrito em 1934, por A.D. Sertillanges, um beneditino francês. Existe uma edição em inglês dessa obra, publicada pela CUA (Catholic University of America) Press, como o título ‘The Intellectual Life: Its Spirit, Conditions, Methods’.
O filósofo brasileiro Olavo de Carvalho tem se ocupado, freqüentemente, deste tema em seus artigos semanais em jornais brasileiros e em palestras em vários fóruns. Alguns deles são de aconselhamento, como este . Outros, são de análise da conjuntura atual, mas que inclui uma boa dose de conselhos sobre como estudar, como este. Alguns deles são longas digressões sobre a educação em geral, como este.
Voltando ao beneditino francês, seu livro é, de fato, um tesouro. Para dar uma pálida idéia do seu conteúdo, traduzo alguns trechos de seu prefácio, escrito pelo jesuíta James V. Schall, para a edição de 1998. A propósito, Padre Schall também escreveu um livro de conselhos sobre como estudar. Não o conheço, mas quem se interessar pode adquiri-lo aqui.
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Os prazeres e as dores do pensar
Uma vocação não é realizada por leituras vagas e escritos esparsos.
-- A.D. Sertillanges, Introdução à Edição de 1934
Muitos de nós, mais velhos, desejaríamos que, quando mais jovens, alguém nos tivesse falado sobre certas coisas, ou sobre certos livros que, freqüentemente, quando os analisamos em retrospectiva, teriam nos ajudado, tremendamente, no projeto de nossas vidas e, em particular, nos teriam ajudado a conhecer as coisas verdadeiras. Alguns desses livros são orientados ao que é verdadeiro, à realidade, ao que é, mas alguns deles são mais direcionados à questão do “como começar a conhecer?” (...)
Sertillanges oferece muito mais do que um bom começo. Ele, explicitamente, diz como começar, como ler e escrever, como disciplinar nosso tempo, de fato, como disciplinar nossa alma. Ele também se ocupa com a vida do espírito na qual a verdadeira vida intelectual existe. Talvez, já tenhamos ouvido de Aristóteles que somos animais racionais, que a vida contemplativa é algo a que devemos aspirar. Mas, praticamente ninguém nos diz o que isso significa, se isso é algo que está disponível a nós sob alguma condição que não nos é fácil compreender. Mas, mesmo que nós, vagamente, saibamos que a vida intelectual é uma vida elevada, sabemos muito pouco sobre o que tal vida nos poderia exigir. Estamos, também, conscientes que a sabedoria vem muito mais tarde na vida do que, inicialmente, suspeitávamos,. Mesmo assim, suspeitamos que haveria caminhos que nos ajudassem, se pelo menos nós os conhecêssemos. (...)
Este breve prefácio é, simplesmente, uma explicação da razão pela qual esse livro maravilhoso e útil deve estar, sempre, disponível e ser, permanentemente, consultado por jovens estudantes de graduação, de pós-graduação, pelo pessoal mais velho e, enfim, por todos. Toda vez que usei esse livro em sala de aula, usualmente quando lecionava um curso sobre Santo Tomás de Aquino, tive alunos de graduação que, posteriormente, me disseram lembrar do livro porque ele os ensinou muito sobre como continuar pondo em prática a curiosidade intelectual, de uma maneira efetiva, não meramente enquanto estudavam, mas ao longo de suas vidas.
À primeira vista, como já insinuei, esse é um livro incomum. Depois, ele se torna um livro tremendamente exigente. Sertillanges, meticulosamente, nos diz como tomar notas, como começar a escrever e a publicar, como organizar nossas anotações e com isso, nosso pensamento. Assim, usei a palavra incomum porque nós não usamos mais, como fez Sertillanges, canetas e máquinas de datilografia, mas computadores sofisticados e processos de impressão que o teriam impressionado. Mas, lembre-se que Tomás de Aquino, sobre quem Sertillanges escreveu tão bem e de cuja inspiração deriva este livro, teve, talvez, somente vinte e cinco anos de atividade produtiva no século XIII. Ele não teve nenhuma das facilidades que mesmo Sertillanges teve nos anos 20 do século XX. Mesmo assim, Aquino produziu uma quantidade, estonteante, de material brilhante e profundo.
Como ele o fez? É altamente duvidoso que ele tivesse escrito mais ou melhor se ele dispusesse do mais avançado computador. De fato, num certo sentido, isso poderia ter sido um obstáculo. Pois, Santo Tomás desenvolveu uma memória prodigiosa e uma fantástica capacidade de acesso a todo o conhecimento dos grandes escritores seus ancestrais, incluindo a Bíblia. Essa sabedoria foi adquirida às custas de livros e leitura, mesmo para Santo Tomás, mas ele sabia como fazer essas coisas. O que Sertillanges nos ensina é como, do nosso próprio jeito, imitar as lições que podemos encontrar no grande Dominicano medieval, sobre como desenvolver uma verdadeira vida intelectual, uma vida cheia de honestidade e oração, por meio de um trabalho diligente e, no final, uma vida com o deleite de conhecer.
Ao ler o livro de Sertillanges, não podemos evitar o sentimento de que ele está nos revelando alguns dos segredos da vasta produtividade e intuição de Santo Tomás. Há tantas horas num dia, numa semana, num mês. Sertillanges não nos pede para abrirmos mão de nossa vida cotidiana e nos devotarmos, completamente, à vida intelectual da maneira como Santo Tomás fez. Ao contrário, Sertillanges nos ensina, de uma forma prática, como podemos organizar nossas vidas a fim de adquirirmos uma base inicial sólida – com sorte, quando ainda somos jovens – e continuarmos a construir sobre essa firme fundação, pelo resto de nossos dias. Em resumo, Sertillanges nos ensina sobre hábitos, sobre disciplina, sobre, sim, produtividade e verdade. Ele pensa que podemos viver uma verdadeira vida intelectual se conseguirmos reservar uma ou duas horas diárias para uma busca séria das coisas superiores. Ele não sugere nada rígido ou inexeqüível. Além disso, quando falamos em termos de horas, tendemos a perder de vista ao que Sertillanges se refere.
Qualquer tipo de aprendizado, no início, exigirá um esforço penoso. Podemos chamá-lo de um tipo de trabalho. Precisamos chegar a ponto de nos deleitarmos pelo que estamos aprendendo, a ponto de ficarmos ansiosos para voltarmos para nossas considerações, ou escritos, ou reflexões sobre algum assunto. Qualquer coisa que existe é fascinante. Chesterton, cuja vida intelectual parece ter sido tão vibrante, certa vez observou que não há coisas desinteressantes, apenas pessoas desinteressadas. Grande parte desse desinteresse existe, precisamente, porque nunca aprendemos como ou porque enxergar o que está lá.
Sertillanges nos ensina a examinar nossas vidas. Ele não deixa de mencionar que nossas falhas morais, as sérias e as mais leves, podem, de fato, nos impedir de sermos livres o suficiente para enxergarmos o que não seja ‘nós mesmos’, para enxergarmos o que é. “Você deseja ter uma vida intelectual?” Sertillanges responde, em sua Introdução da edição de 1934. “Comece por criar dentro de si uma zona de silêncio.” Vivemos num mundo cercado por barulho, por um tipo de agitação que preenche nossos dias e noites. Temos tantas coisas para nos distrair, mesmo que, às vezes, pensamos que elas nos educam. Sertillanges tem certeza que temos tempo. Mas, ele, também, tem certeza que não notamos que temos tempo porque nossas vidas parecem ser ocupadas, saturadas. Encontramos tempo nos tornando, primeiramente, interessados, desejosos de saber. Sertillanges exige um exame de consciência tanto sobre nossos pecados, quanto sobre o uso do nosso tempo.
Uma vida intelectual, contemplativa, é, em si, cheia de atividade, mas atividade proposital, que quer saber e saber a verdade. O que, comumente, chamamos “intelectual” atualmente não é, provavelmente, o que Sertillanges tinha em mente quando ele falava de “vida intelectual”. Pode-se dizer que os intelectuais como classe, como Paul Johnson escreveu em seu livro “Os Intelectuais”, desenvolvem teorias e explicações, precisamente, como um produto de suas próprias desordens morais internas. Não devemos nunca esquecer que uma vida intelectual é uma vida perigosa. O maior de todos os pecados não se origina da carne mas do espírito, como dizia Agostinho. O mais brilhante dos anjos foi o anjo caído. Essas considerações sóbrias explicam porque gosto deste pequeno livro de Sertillanges. Ele não hesita em nos alertar sobre a relação íntima entre nosso conhecimento da verdade e o não direcionamento de nossa alma ao bem. A vida intelectual pode ser e, com freqüência, é uma vida perigosa. Mas, isso não é razão para negarmos sua glória. E Sertillanges é muito cuidadoso em nos direcionar para aquelas coisas que devem ser perseguidas porque elas nos explicam o que somos, nos explicam o mundo e Deus. (...)
Tendemos a pensar que a vida intelectual é alguma enorme intuição que vem a nós numa agradável manhã, enquanto nos barbeamos ou tomamos café. Sertillanges não nega que alguma intuição nos chega dessa forma. Mas, o curso normal das coisas exigirá, ao contrário, uma preocupação permanente em perseguir a verdade, em conhecer, em ser curioso sobre a realidade. (...)
Eu colocaria A Vida Intelectual sobre a escrivaninha de todo estudante sério e da maioria dos negligentes. De fato, Platão disse que nossas vidas não são “sérias” em comparação com a de Deus. Algo do relaxado lazer, daquela sensação de liberdade que vem com o conhecimento e com o desejo de conhecimento, é instilado em nossas almas por este livro. Sua mera presença em nossas escrivaninhas ou estantes é um estímulo constante, um lembrete visível de que a vida intelectual não é algo estranho, algo que não podemos, do nosso jeito, alcançar.
13/02/2006
PADRÃO DIGITAL OU ESTATAL?
por Rodrigo Constantino
A escolha do padrão digital para a televisão brasileira vem se arrastando faz tempo. A disputa se dá entre os modelos japonês, europeu e americano. Cada um conta com um número de defensores, todos apresentando seus argumentos. O ministro das Comunicações, Hélio Costa, admite o atraso na decisão. Mas o ponto é: por que a decisão deveria caber a alguns poucos políticos e burocratas poderosos?
Quando as importantes decisões partem de cima para baixo, como se uns poucos “sábios” fossem clarividentes e honestos o suficiente para realmente focarem no interesse dos consumidores, normalmente temos escolhas erradas. Afinal, ninguém melhor que o próprio consumidor sabe qual sua preferência. A beleza do funcionamento do livre mercado é justamente delegar a cada indivíduo o poder de escolha, fazendo com que o processo decisório, de baixo para cima, ofereça o resultado mais eficiente.
O debate atual nos remete ao caso da Betamax e VHS, durante a briga pelo padrão dominante de videocassete. O modelo da Sony, o Betamax, foi introduzido em 1975, e no começo da década de 80 era bastante popular. Entretanto, por volta de 1985, o mercado se voltou claramente para o modelo concorrente, o VHS desenvolvido pela JVC. Esta empresa optou por uma rota de “open sharing”, permitindo múltiplos concorrentes produzindo no mesmo padrão. Em 1988, a Sony finalmente reconheceu a sua derrota, e também começou a produzir no padrão vencedor. O “mercado”, ou seja, os consumidores escolheram qual o padrão iria predominar.
Esta lição deveria ser mais freqüentemente lembrada por aqui. Não é a cerveja mais apreciada por alguns políticos que o povo deverá tomar, mas a que cada um preferir, de acordo com a livre concorrência dos produtores. O mesmo vale para carros, geladeiras, computadores, celulares e sim, até padrão de TV digital. O caminho alternativo, de concentrar o poder de escolha nas mãos de poucos políticos poderosos, é o caminho seguro para maior corrupção e insatisfação popular. Acabamos com grupos de interesses disputando, pela via política, quem vence a batalha. Em vez da satisfação do consumidor ser a prioridade número um, convencer os poucos burocratas passa a ser o foco principal. O suborno, para capturar a burocracia poderosa, fica irresistível. E o padrão escolhido não guardará necessariamente correlação alguma com a preferência dos indivíduos.
Por fim, o alerta do austríaco Ludwig von Mises*: “Uma política de medidas restritivas favorece os produtores, enquanto uma política que não interfere no funcionamento do mercado favorece os consumidores”.
* Quem quiser conhecer mais sobre Mises acesse este sítio. (Nota do Blog)
Publicado em 10/02/2006 em Diegocasagrande.com.br
A escolha do padrão digital para a televisão brasileira vem se arrastando faz tempo. A disputa se dá entre os modelos japonês, europeu e americano. Cada um conta com um número de defensores, todos apresentando seus argumentos. O ministro das Comunicações, Hélio Costa, admite o atraso na decisão. Mas o ponto é: por que a decisão deveria caber a alguns poucos políticos e burocratas poderosos?
Quando as importantes decisões partem de cima para baixo, como se uns poucos “sábios” fossem clarividentes e honestos o suficiente para realmente focarem no interesse dos consumidores, normalmente temos escolhas erradas. Afinal, ninguém melhor que o próprio consumidor sabe qual sua preferência. A beleza do funcionamento do livre mercado é justamente delegar a cada indivíduo o poder de escolha, fazendo com que o processo decisório, de baixo para cima, ofereça o resultado mais eficiente.
O debate atual nos remete ao caso da Betamax e VHS, durante a briga pelo padrão dominante de videocassete. O modelo da Sony, o Betamax, foi introduzido em 1975, e no começo da década de 80 era bastante popular. Entretanto, por volta de 1985, o mercado se voltou claramente para o modelo concorrente, o VHS desenvolvido pela JVC. Esta empresa optou por uma rota de “open sharing”, permitindo múltiplos concorrentes produzindo no mesmo padrão. Em 1988, a Sony finalmente reconheceu a sua derrota, e também começou a produzir no padrão vencedor. O “mercado”, ou seja, os consumidores escolheram qual o padrão iria predominar.
Esta lição deveria ser mais freqüentemente lembrada por aqui. Não é a cerveja mais apreciada por alguns políticos que o povo deverá tomar, mas a que cada um preferir, de acordo com a livre concorrência dos produtores. O mesmo vale para carros, geladeiras, computadores, celulares e sim, até padrão de TV digital. O caminho alternativo, de concentrar o poder de escolha nas mãos de poucos políticos poderosos, é o caminho seguro para maior corrupção e insatisfação popular. Acabamos com grupos de interesses disputando, pela via política, quem vence a batalha. Em vez da satisfação do consumidor ser a prioridade número um, convencer os poucos burocratas passa a ser o foco principal. O suborno, para capturar a burocracia poderosa, fica irresistível. E o padrão escolhido não guardará necessariamente correlação alguma com a preferência dos indivíduos.
Por fim, o alerta do austríaco Ludwig von Mises*: “Uma política de medidas restritivas favorece os produtores, enquanto uma política que não interfere no funcionamento do mercado favorece os consumidores”.
* Quem quiser conhecer mais sobre Mises acesse este sítio. (Nota do Blog)
Publicado em 10/02/2006 em Diegocasagrande.com.br
03/02/2006
Como Fazer Fama e Dinheiro como Cientista
Keith A. Crutcher.(Perspectives in Biol. and Med., 34:2 Winter 1991, 213-218)
(Nota do Tradutor) - Quem, ao ler o texto abaixo, imaginar seu autor, ou como um lunático, ou como um ressentido, estará errando por muito. Ele descreve, através de um texto irônico, um estado de coisas implantado na comunidade científica mundo afora.
Desde que aos departamentos acadêmicos das universidades só importa o número de publicações de um determinado professor-pesquisador, ser um pesquisador famoso é equivalente a operar o milagre da multiplicação das publicações. Isso e muito mais é analisado e ensinado no texto que se segue.
Tudo isso acontece em países desenvolvidos onde a sociedade costuma ser mais atenta a fatos dessa natureza. A situação no Brasil é um muito pior, pois, falta-nos a tradição de uma instituição acadêmica que mereça esse nome. Lembremos que nossa primeira universidade foi criada, em 1920, para dar um título ao Rei da Bélgica. Além disso, com uma sociedade com baixo nível educacional, onde nossos intelectuais(no sentido que Paul Johnson dá ao termo) só promovem o desaprendizado daquela camada que sabe ler, nossas universidades se sentem livres para fabricar reputações ao sabor das modas. Somos famosos porque nos achamos famosos. Daí o pacto da mediocridade: fingimos que somos famosos e vocês fingem que acreditam. Fingem e, claro, nos financiam.
___________________________________________________________________
Parece que muitos de nossos cientistas não recebem um treinamento básico de como ter sucesso em ciência – por exemplo, como obter financiamento, como granjear o reconhecimento dos pares, como construir uma bibliografia maior que qualquer particular publicação nela listada. Para corrigir essa deficiência, são apresentadas a seguir algumas orientações. É claro que sempre haverá uma ovelha negra que decide embarcar num caminho inteiramente original ou que escolhe renunciar às benesses de ser reconhecido como um cientista famoso, caso para o qual essas orientações não se aplicam. No entanto, atenção aos princípios enunciados abaixo deve ser suficiente para proporcionar uma sólida base sobre a qual aspirantes a cientistas possam construir suas carreiras.
1. Relaxe! Afinal, estamos, no momento, entre duas alterações de paradigmas
Muito do stress e da ansiedade que tradicionalmente são associados com a atividade científica foi aliviado pelo tremendo insight de Thomas Kuhn. Como a grande maioria dos cientistas está atualmente fazendo ciência “normal”, flutuando em águas teóricas, e avanços verdadeiros devem aguardar a próxima alteração de paradigma, muitos de nós podemos relaxar na medida em que percebemos que é improvável que nosso trabalho tenha uma influência duradoura. Há, é claro, aqueles que objetivam contribuir para, ou mesmo precipitar, uma alteração de paradigma, e é difícil que eles sejam dissuadidos de fazê-lo, mas o restante de nós deve reconhecer que o esclarecimento de um paradigma existente é necessário para a subseqüente revolução científica. Imagine como seria difícil a ciência se cada investigador fizesse alguma contribuição fundamental que envolvesse uma alteração de paradigma e nos forçasse a analisar as suposições básicas de nossa área de trabalho.
2. Torne-se Famoso
Uma vez que você tenha desenvolvido a atitude relaxada sobre a importância de seu próprio trabalho (item 1), torna-se muito mais fácil se dedicar a ser um cientista. Nesse particular, o ser famoso só perde em importância para o estar relaxado. Infelizmente, muitos cientistas subestimam a importância de ser famoso para ter sucesso em áreas como obter financiamento e conseguir viajar pelo mundo (item 5, abaixo). E ser famoso é realmente muito menos difícil que muitos imaginam. Há diversas opções. Uma das mais rápidas e garantidas é trabalhar com alguém que já é famoso. Isso garantirá uma certa quantidade de fama secundária que poderá servir de fundamento para o estabelecimento de sua própria fama. Outro método é organizar uma conferência sobre um tópico “quente” e convidar para participar as pessoas mais famosas da área, incluindo a pessoa famosa com quem você trabalha. Em seguida inclua-se na conferência. Essa técnica tem tido resultados maravilhosos para incontáveis dos, agora, famosos cientistas. Outra opção efetiva é publicar um artigo ou abstract (resumo) toda semana na sua área de escolha. (item 3). Esse método demanda mais esforço, mas com atenção ao próximo item, o trabalho pode ser minimizado e os resultados certamente farão de você um reconhecido expert em qualquer área particular.
3. Publique Sempre (Preferencialmente Abstracts)
É conhecimento geral de que os cientistas modernos não têm tempo de ler a rapidamente crescente literatura de suas áreas e, com o reconhecimento de que a maior parte da pesquisa não terá efeito duradouro (item 1), seria mesmo uma perda de tempo tentar realizar tal tarefa. Portanto, aproveite-se do fato de que a maioria de seus pares será influenciada por seu trabalho através de reconhecimento de nome. O mesmo princípio que as agências de propaganda usam, ou seja, exposição repetida, é também vital para o sucesso em ciência. Quanto mais seu nome for visto impresso, maior influência você terá e mais famoso você será (item 2). A escolha do meio de divulgação é crítica; você deve publicar, tanto quanto possível, em jornais e revistas populares, mas revistas científicas têm também seu lugar. Você deve manter uma média de um artigo ou abstract por semana e seu nome deve aparecer por último. Quanto mais co-autores você tiver, melhor, pois, todos sabem que o último autor é o verdadeiro, aquele que conta, e isso mostra que você já deve ser famoso por ter tantos cientistas trabalhando com você. Alguns argumentarão que cada publicação deve conter informação nova, mas essa visão não leva em conta as lições aprendidas na Avenida Madison. De fato, quanto mais você diz a mesma coisa, maiores suas chances de ser lembrado. Uma vez que o mesmo conjunto de dados tenha sido publicado muitas vezes, com não mais que variações mínimas, elas começarão a ter grande credibilidade nas mentes de seus colegas e na sua própria. Além disso, sua área particular de trabalho, mesmo que previamente tida como obscura e desinteressante, ganha importância crescente toda vez que ela aparece impressa.
O formato pode ter um papel vital no seu sucesso definitivo. As muitas vantagens derivadas da publicação de seu trabalho, na forma de abstract, por exemplo, são freqüentemente subestimadas. Primeiramente, as publicações lhe proporcionam oportunidades de viagem (item 5). Em segundo lugar, elas raramente passam pelo processo de revisão para publicação (e todos nós temos verdadeiras estórias de horror sobre revisões críticas recebidas, mesmo as relacionadas aos nossos melhores artigos). Em terceiro lugar, e o mais importante, as publicações proporcionam documentos que podem, ou ser citados no estabelecimento de precedência de uma observação se ela estiver correta ou for importante (ou ambas), ou podem ser facilmente deixadas de lado, se a observação se provar errada.
Em alguns casos, particularmente quando você já tiver alguma experiência, é possível publicar diversos abstracts ao mesmo tempo, cada um tratando de uma pequena variação sobre o mesmo tema. Algumas sociedades científicas permitem que você submeta apenas um abstract como primeiro autor, mas essa restrição pode facilmente ser superada. Muitos cientistas, por exemplo, já são cientes dos potenciais co-autores vindos de seus estudantes e associados, mas são freqüentemente subestimados os funcionários técnicos e administrativos, alguns dos quais ficariam satisfeitos de ver seus nomes impressos. Com um pouco de planejamento você pode ter diversos abstracts publicados simultaneamente, um com seu nome em primeiro lugar e o resto com seu nome listado por último. Conta a lenda, que um cientista foi capaz de preencher duas sessões inteiras de um encontro científico com abstracts apenas de seu laboratório.
4. Publique Somente o Que Não Possa Ser Refutado (pelo menos durante sua existência)
Muitos jovens cientistas, tristemente, interpretam erroneamente esse princípio como significando que os artigos a serem publicados devem ser trabalhados e concebidos cuidadosamente. Ao contrário, muito tempo e esforço podem ser economizados publicando-se resultados sem qualquer atenção à sua significância ou relevância. É provável que ninguém irá, afinal, ler o artigo (item 3), desta forma, não gaste seu precioso tempo analisando resultados. Ainda mais importante, desde que você restrinja sua discussão àquilo que você vê, com suficientes diferenças metodológicas de trabalhos prévios para que qualquer discrepância possa ser explicada se necessário, você nunca será flagrado em erro, particularmente se você se abstém de discutir a significância potencial dos resultados. A maneira mais simples de evitar qualquer embaraço é publicar técnicas novas e aprimoradas. A publicação de métodos novos raramente levará você a grandes discussões teóricas com seus colegas, mas ainda lhe permite vivas discussões sobre se o PH era ótimo. Ainda mais recomendável, desenvolva um reagente que seus colegas possam usar e, então, o distribua a eles, com a modesta solicitação de que você seja incluído como autor de qualquer artigo que mencione o reagente. Você se surpreenderá do quão rapidamente sua bibliografia crescerá, juntamente com sua fama. Se, por alguma razão, você se sintir obrigado a especular, por escrito, sobre seus resultados, limite sua especulação a idéias que não possam ser testada, pelo menos durante sua existência.
5. Apresente Seu Trabalho em Toda Oportunidade
Um dos muitos benefícios de ser um cientista é viajar. Quanto mais famoso você é, mais oportunidades você terá de viajar. Da mesma forma, quanto mais você é visto em público, mais famoso você será. Além disso, cada conferência proporciona a oportunidade de publicar pelo menos um abstract (item 3). Quando apresentar seu trabalho, use slides atrativos, que não estejam cheios de detalhes. Uma dica importante: deixe de fora qualquer informação estatística, especialmente na forma de gráficos, pois, isso freqüentemente tira a atenção do ponto principal do slide. Contrariamente à situação de seu trabalho escrito, sinta-se livre para especular durante sua apresentação. De fato, não se sinta limitado pelos resultados. Lembre-se que seu impacto será muito maior se você fizer afirmações e generalizações amplas e radicais, sem fundamentação no que você publicou no abstract. Se alguém lhe questionar seriamente alguma afirmação feita ou apresentar resultados contraditórios, você pode evitar qualquer embaraço alertando que ele ou ela não usou o PH ótimo.
As apresentações são necessárias, mas não suficientes, para a fama em ciência. Quando você for convidado a participar de um encontro científico, certifique-se de registrar quem o convidou, para que você seja capaz de convidar os mesmos indivíduos para a próxima conferência que você organize. Com o tempo, você descobrirá que existem suficientes pessoas para se convidarem mutuamente a diversas conferências ao ano e, se você for realmente famoso, poderá mesmo decidir estabelecer sua própria sociedade científica, consistindo de somente aqueles cientistas mais famosos (principalmente aqueles que você convidou para muitas conferências durante o ano).
6. Submeta uma Proposta de Financiamento Somente para o Trabalho que Você já Tenha Feito
Apesar disso ser uma coisa tão óbvia, há ainda cientistas, especialmente os principiantes, que solicitam financiamentos de experimentos que não estão ainda concluídos. Finalmente a maioria dos revisores de propostas de financiamento tem eliminado aqueles que continuamente propõem trabalhos inéditos, mas ainda há aqueles que têm dificuldade de entender que a aposta certa é no cavalo que já venceu. Naturalmente, você deve ser um pouco cuidadoso na publicação do trabalho proposto, de tal forma que ele não apareça impresso antes que sua proposta seja analisada (exceto, é claro, em forma de múltiplos abstracts). O cientista neófito pode se defrontar com o dilema de não ter sido capaz de realizar os experimentos antes de obter o suporte financeiro. A solução mais comum para isso é propor um trabalho similar ao que você já fez trabalhando com alguém famoso. Se essa opção não está disponível, então você será forçado a propor um trabalho que é original. Se for esse o caso, certifique-se de que a pesquisa é apenas uma pequena variação do trabalho já feito por alguém. Isso assegura aos revisores que seus experimentos particulares se encaixam no paradigma existente. Um bom exemplo seria encontrar o PH ótimo para a aplicação em um novo e aprimorado método.
7. Não Perca Tempo Dando Aulas
Lembre-se de que seu objetivo é fazer sucesso em ciência. Apesar de alguma experiência letiva ser benéfica, na medida em que o expõe aos estudantes que podem decidir trabalhar para você (e serem potenciais autores para muitos de seus abstracts), dar aulas consome muito tempo. Haverá alguma pressão de colegas e de seu chefe para que você contribua com o ensino, mas essa pressão pode ser aliviada de alguma forma, pela maneira com que você ensina. Por exemplo, sempre apresente seu material de forma a obscurecer qualquer relevância nos conteúdos que interessem aos estudantes. No ensino médico, isso tem se tornado prática comum. Outro meio efetivo é oferecer detalhes sobre métodos que você usa no laboratório, especialmente enfatizando a importância do PH ótimo. Usualmente os estudantes estão tão sobrecarregados pelo volume de informações, que eles terão dificuldade de formular perguntas inteligentes. A vantagem disso é óbvia. Com o tempo, menor carga de ensino será requerida de você e você terá mais tempo para escrever abstracts e ir a conferências.
8. Comercialize seu Produto
Fama é bom mas é muito melhor quando acompanhada de riqueza. O papel tradicional do cientista não tem sido tão lucrativo quanto outras carreiras. Isso está mudando. Uma das opções mais interessantes em ciência é identificar as potenciais aplicações comerciais de seu trabalho e comercializá-las. Numerosos cientistas estão descobrindo as vantagens financeiras de fundar suas próprias companhias, com capital inicial provenientes de fundos governamentais de pesquisa e desenvolvimento. A beleza desse sistema é que há muito pouco risco. Se a aplicação comercial não gerar lucro, você pode sempre submeter uma proposta para um outro fundo governamental de pesquisa e continuar a vida. De outro lado, se você for capaz de capitalizar seu próprio sucesso científico e fundar uma lucrativa companhia, você pode usar suas afiliações acadêmicas, suas posições em corpos editoriais de publicações e de conferências, para manter-se a par dos mais recentes desenvolvimentos na área de estudo que alimenta sua companhia. A vantagem competitiva que isso dá a você é óbvia.
Resumo
A aderência a esses princípios não garantirá o sucesso, mas o testemunho de muitos cientistas famosos confirma a hipótese de que essas orientações podem fazer crescer significativamente (p<0.03,"Wilcoxon unpaired X-test” realizado com PH 5.6) suas chances de atingir reconhecimento, adquirir riqueza e, com o tempo, ser conhecido como um cientista famoso. No mínimo, esses princípios evitarão que você esteja muito longe das fronteiras da ciência “normal” onde você poderia ser, para sempre, marcado como um causador de problemas ou um herético.
Poucos cientistas sabem a história ilustrativa do abstract (resumo). A palavra é uma contração de “Abe’s Tract” (Tratado de Abe), que foi um panfleto pouco conhecido que Lincoln fez circular quando ele, pela primeira vez, disputou um cargo político. Apesar do conteúdo do panfleto não ser conhecido, sua influência dificilmente pode ser subestimada, pois a carreira subseqüente de Lincoln é considerada inteiramente derivada desse pequeno tratado. Alguns dizem que muitas das idéias do tratado foram plagiadas de um trabalho não publicado de John Wilkes Booth, mas essa alegação nunca foi consubstanciada.
(Nota do Tradutor) - Quem, ao ler o texto abaixo, imaginar seu autor, ou como um lunático, ou como um ressentido, estará errando por muito. Ele descreve, através de um texto irônico, um estado de coisas implantado na comunidade científica mundo afora.
Desde que aos departamentos acadêmicos das universidades só importa o número de publicações de um determinado professor-pesquisador, ser um pesquisador famoso é equivalente a operar o milagre da multiplicação das publicações. Isso e muito mais é analisado e ensinado no texto que se segue.
Tudo isso acontece em países desenvolvidos onde a sociedade costuma ser mais atenta a fatos dessa natureza. A situação no Brasil é um muito pior, pois, falta-nos a tradição de uma instituição acadêmica que mereça esse nome. Lembremos que nossa primeira universidade foi criada, em 1920, para dar um título ao Rei da Bélgica. Além disso, com uma sociedade com baixo nível educacional, onde nossos intelectuais(no sentido que Paul Johnson dá ao termo) só promovem o desaprendizado daquela camada que sabe ler, nossas universidades se sentem livres para fabricar reputações ao sabor das modas. Somos famosos porque nos achamos famosos. Daí o pacto da mediocridade: fingimos que somos famosos e vocês fingem que acreditam. Fingem e, claro, nos financiam.
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Parece que muitos de nossos cientistas não recebem um treinamento básico de como ter sucesso em ciência – por exemplo, como obter financiamento, como granjear o reconhecimento dos pares, como construir uma bibliografia maior que qualquer particular publicação nela listada. Para corrigir essa deficiência, são apresentadas a seguir algumas orientações. É claro que sempre haverá uma ovelha negra que decide embarcar num caminho inteiramente original ou que escolhe renunciar às benesses de ser reconhecido como um cientista famoso, caso para o qual essas orientações não se aplicam. No entanto, atenção aos princípios enunciados abaixo deve ser suficiente para proporcionar uma sólida base sobre a qual aspirantes a cientistas possam construir suas carreiras.
1. Relaxe! Afinal, estamos, no momento, entre duas alterações de paradigmas
Muito do stress e da ansiedade que tradicionalmente são associados com a atividade científica foi aliviado pelo tremendo insight de Thomas Kuhn. Como a grande maioria dos cientistas está atualmente fazendo ciência “normal”, flutuando em águas teóricas, e avanços verdadeiros devem aguardar a próxima alteração de paradigma, muitos de nós podemos relaxar na medida em que percebemos que é improvável que nosso trabalho tenha uma influência duradoura. Há, é claro, aqueles que objetivam contribuir para, ou mesmo precipitar, uma alteração de paradigma, e é difícil que eles sejam dissuadidos de fazê-lo, mas o restante de nós deve reconhecer que o esclarecimento de um paradigma existente é necessário para a subseqüente revolução científica. Imagine como seria difícil a ciência se cada investigador fizesse alguma contribuição fundamental que envolvesse uma alteração de paradigma e nos forçasse a analisar as suposições básicas de nossa área de trabalho.
2. Torne-se Famoso
Uma vez que você tenha desenvolvido a atitude relaxada sobre a importância de seu próprio trabalho (item 1), torna-se muito mais fácil se dedicar a ser um cientista. Nesse particular, o ser famoso só perde em importância para o estar relaxado. Infelizmente, muitos cientistas subestimam a importância de ser famoso para ter sucesso em áreas como obter financiamento e conseguir viajar pelo mundo (item 5, abaixo). E ser famoso é realmente muito menos difícil que muitos imaginam. Há diversas opções. Uma das mais rápidas e garantidas é trabalhar com alguém que já é famoso. Isso garantirá uma certa quantidade de fama secundária que poderá servir de fundamento para o estabelecimento de sua própria fama. Outro método é organizar uma conferência sobre um tópico “quente” e convidar para participar as pessoas mais famosas da área, incluindo a pessoa famosa com quem você trabalha. Em seguida inclua-se na conferência. Essa técnica tem tido resultados maravilhosos para incontáveis dos, agora, famosos cientistas. Outra opção efetiva é publicar um artigo ou abstract (resumo) toda semana na sua área de escolha. (item 3). Esse método demanda mais esforço, mas com atenção ao próximo item, o trabalho pode ser minimizado e os resultados certamente farão de você um reconhecido expert em qualquer área particular.
3. Publique Sempre (Preferencialmente Abstracts)
É conhecimento geral de que os cientistas modernos não têm tempo de ler a rapidamente crescente literatura de suas áreas e, com o reconhecimento de que a maior parte da pesquisa não terá efeito duradouro (item 1), seria mesmo uma perda de tempo tentar realizar tal tarefa. Portanto, aproveite-se do fato de que a maioria de seus pares será influenciada por seu trabalho através de reconhecimento de nome. O mesmo princípio que as agências de propaganda usam, ou seja, exposição repetida, é também vital para o sucesso em ciência. Quanto mais seu nome for visto impresso, maior influência você terá e mais famoso você será (item 2). A escolha do meio de divulgação é crítica; você deve publicar, tanto quanto possível, em jornais e revistas populares, mas revistas científicas têm também seu lugar. Você deve manter uma média de um artigo ou abstract por semana e seu nome deve aparecer por último. Quanto mais co-autores você tiver, melhor, pois, todos sabem que o último autor é o verdadeiro, aquele que conta, e isso mostra que você já deve ser famoso por ter tantos cientistas trabalhando com você. Alguns argumentarão que cada publicação deve conter informação nova, mas essa visão não leva em conta as lições aprendidas na Avenida Madison. De fato, quanto mais você diz a mesma coisa, maiores suas chances de ser lembrado. Uma vez que o mesmo conjunto de dados tenha sido publicado muitas vezes, com não mais que variações mínimas, elas começarão a ter grande credibilidade nas mentes de seus colegas e na sua própria. Além disso, sua área particular de trabalho, mesmo que previamente tida como obscura e desinteressante, ganha importância crescente toda vez que ela aparece impressa.
O formato pode ter um papel vital no seu sucesso definitivo. As muitas vantagens derivadas da publicação de seu trabalho, na forma de abstract, por exemplo, são freqüentemente subestimadas. Primeiramente, as publicações lhe proporcionam oportunidades de viagem (item 5). Em segundo lugar, elas raramente passam pelo processo de revisão para publicação (e todos nós temos verdadeiras estórias de horror sobre revisões críticas recebidas, mesmo as relacionadas aos nossos melhores artigos). Em terceiro lugar, e o mais importante, as publicações proporcionam documentos que podem, ou ser citados no estabelecimento de precedência de uma observação se ela estiver correta ou for importante (ou ambas), ou podem ser facilmente deixadas de lado, se a observação se provar errada.
Em alguns casos, particularmente quando você já tiver alguma experiência, é possível publicar diversos abstracts ao mesmo tempo, cada um tratando de uma pequena variação sobre o mesmo tema. Algumas sociedades científicas permitem que você submeta apenas um abstract como primeiro autor, mas essa restrição pode facilmente ser superada. Muitos cientistas, por exemplo, já são cientes dos potenciais co-autores vindos de seus estudantes e associados, mas são freqüentemente subestimados os funcionários técnicos e administrativos, alguns dos quais ficariam satisfeitos de ver seus nomes impressos. Com um pouco de planejamento você pode ter diversos abstracts publicados simultaneamente, um com seu nome em primeiro lugar e o resto com seu nome listado por último. Conta a lenda, que um cientista foi capaz de preencher duas sessões inteiras de um encontro científico com abstracts apenas de seu laboratório.
4. Publique Somente o Que Não Possa Ser Refutado (pelo menos durante sua existência)
Muitos jovens cientistas, tristemente, interpretam erroneamente esse princípio como significando que os artigos a serem publicados devem ser trabalhados e concebidos cuidadosamente. Ao contrário, muito tempo e esforço podem ser economizados publicando-se resultados sem qualquer atenção à sua significância ou relevância. É provável que ninguém irá, afinal, ler o artigo (item 3), desta forma, não gaste seu precioso tempo analisando resultados. Ainda mais importante, desde que você restrinja sua discussão àquilo que você vê, com suficientes diferenças metodológicas de trabalhos prévios para que qualquer discrepância possa ser explicada se necessário, você nunca será flagrado em erro, particularmente se você se abstém de discutir a significância potencial dos resultados. A maneira mais simples de evitar qualquer embaraço é publicar técnicas novas e aprimoradas. A publicação de métodos novos raramente levará você a grandes discussões teóricas com seus colegas, mas ainda lhe permite vivas discussões sobre se o PH era ótimo. Ainda mais recomendável, desenvolva um reagente que seus colegas possam usar e, então, o distribua a eles, com a modesta solicitação de que você seja incluído como autor de qualquer artigo que mencione o reagente. Você se surpreenderá do quão rapidamente sua bibliografia crescerá, juntamente com sua fama. Se, por alguma razão, você se sintir obrigado a especular, por escrito, sobre seus resultados, limite sua especulação a idéias que não possam ser testada, pelo menos durante sua existência.
5. Apresente Seu Trabalho em Toda Oportunidade
Um dos muitos benefícios de ser um cientista é viajar. Quanto mais famoso você é, mais oportunidades você terá de viajar. Da mesma forma, quanto mais você é visto em público, mais famoso você será. Além disso, cada conferência proporciona a oportunidade de publicar pelo menos um abstract (item 3). Quando apresentar seu trabalho, use slides atrativos, que não estejam cheios de detalhes. Uma dica importante: deixe de fora qualquer informação estatística, especialmente na forma de gráficos, pois, isso freqüentemente tira a atenção do ponto principal do slide. Contrariamente à situação de seu trabalho escrito, sinta-se livre para especular durante sua apresentação. De fato, não se sinta limitado pelos resultados. Lembre-se que seu impacto será muito maior se você fizer afirmações e generalizações amplas e radicais, sem fundamentação no que você publicou no abstract. Se alguém lhe questionar seriamente alguma afirmação feita ou apresentar resultados contraditórios, você pode evitar qualquer embaraço alertando que ele ou ela não usou o PH ótimo.
As apresentações são necessárias, mas não suficientes, para a fama em ciência. Quando você for convidado a participar de um encontro científico, certifique-se de registrar quem o convidou, para que você seja capaz de convidar os mesmos indivíduos para a próxima conferência que você organize. Com o tempo, você descobrirá que existem suficientes pessoas para se convidarem mutuamente a diversas conferências ao ano e, se você for realmente famoso, poderá mesmo decidir estabelecer sua própria sociedade científica, consistindo de somente aqueles cientistas mais famosos (principalmente aqueles que você convidou para muitas conferências durante o ano).
6. Submeta uma Proposta de Financiamento Somente para o Trabalho que Você já Tenha Feito
Apesar disso ser uma coisa tão óbvia, há ainda cientistas, especialmente os principiantes, que solicitam financiamentos de experimentos que não estão ainda concluídos. Finalmente a maioria dos revisores de propostas de financiamento tem eliminado aqueles que continuamente propõem trabalhos inéditos, mas ainda há aqueles que têm dificuldade de entender que a aposta certa é no cavalo que já venceu. Naturalmente, você deve ser um pouco cuidadoso na publicação do trabalho proposto, de tal forma que ele não apareça impresso antes que sua proposta seja analisada (exceto, é claro, em forma de múltiplos abstracts). O cientista neófito pode se defrontar com o dilema de não ter sido capaz de realizar os experimentos antes de obter o suporte financeiro. A solução mais comum para isso é propor um trabalho similar ao que você já fez trabalhando com alguém famoso. Se essa opção não está disponível, então você será forçado a propor um trabalho que é original. Se for esse o caso, certifique-se de que a pesquisa é apenas uma pequena variação do trabalho já feito por alguém. Isso assegura aos revisores que seus experimentos particulares se encaixam no paradigma existente. Um bom exemplo seria encontrar o PH ótimo para a aplicação em um novo e aprimorado método.
7. Não Perca Tempo Dando Aulas
Lembre-se de que seu objetivo é fazer sucesso em ciência. Apesar de alguma experiência letiva ser benéfica, na medida em que o expõe aos estudantes que podem decidir trabalhar para você (e serem potenciais autores para muitos de seus abstracts), dar aulas consome muito tempo. Haverá alguma pressão de colegas e de seu chefe para que você contribua com o ensino, mas essa pressão pode ser aliviada de alguma forma, pela maneira com que você ensina. Por exemplo, sempre apresente seu material de forma a obscurecer qualquer relevância nos conteúdos que interessem aos estudantes. No ensino médico, isso tem se tornado prática comum. Outro meio efetivo é oferecer detalhes sobre métodos que você usa no laboratório, especialmente enfatizando a importância do PH ótimo. Usualmente os estudantes estão tão sobrecarregados pelo volume de informações, que eles terão dificuldade de formular perguntas inteligentes. A vantagem disso é óbvia. Com o tempo, menor carga de ensino será requerida de você e você terá mais tempo para escrever abstracts e ir a conferências.
8. Comercialize seu Produto
Fama é bom mas é muito melhor quando acompanhada de riqueza. O papel tradicional do cientista não tem sido tão lucrativo quanto outras carreiras. Isso está mudando. Uma das opções mais interessantes em ciência é identificar as potenciais aplicações comerciais de seu trabalho e comercializá-las. Numerosos cientistas estão descobrindo as vantagens financeiras de fundar suas próprias companhias, com capital inicial provenientes de fundos governamentais de pesquisa e desenvolvimento. A beleza desse sistema é que há muito pouco risco. Se a aplicação comercial não gerar lucro, você pode sempre submeter uma proposta para um outro fundo governamental de pesquisa e continuar a vida. De outro lado, se você for capaz de capitalizar seu próprio sucesso científico e fundar uma lucrativa companhia, você pode usar suas afiliações acadêmicas, suas posições em corpos editoriais de publicações e de conferências, para manter-se a par dos mais recentes desenvolvimentos na área de estudo que alimenta sua companhia. A vantagem competitiva que isso dá a você é óbvia.
Resumo
A aderência a esses princípios não garantirá o sucesso, mas o testemunho de muitos cientistas famosos confirma a hipótese de que essas orientações podem fazer crescer significativamente (p<0.03,"Wilcoxon unpaired X-test” realizado com PH 5.6) suas chances de atingir reconhecimento, adquirir riqueza e, com o tempo, ser conhecido como um cientista famoso. No mínimo, esses princípios evitarão que você esteja muito longe das fronteiras da ciência “normal” onde você poderia ser, para sempre, marcado como um causador de problemas ou um herético.
Poucos cientistas sabem a história ilustrativa do abstract (resumo). A palavra é uma contração de “Abe’s Tract” (Tratado de Abe), que foi um panfleto pouco conhecido que Lincoln fez circular quando ele, pela primeira vez, disputou um cargo político. Apesar do conteúdo do panfleto não ser conhecido, sua influência dificilmente pode ser subestimada, pois a carreira subseqüente de Lincoln é considerada inteiramente derivada desse pequeno tratado. Alguns dizem que muitas das idéias do tratado foram plagiadas de um trabalho não publicado de John Wilkes Booth, mas essa alegação nunca foi consubstanciada.
A Visão dos Ungidos - alguns trechos
Notas:
1. Recentemente o prof. Olavo de Carvalho mencionou, aqui, vários livros e autores que têm sido, permanente e voluntariamente, ocultados dos brasileiros, por uma política editorial dominada, há décadas, pela militância esquerdista. Ele não mencionou Thomas Sowell, certamente, porque seu objetivo era citar apenas alguns exemplos da calamidade que a falta de certos livros pode causar a um povo deles privado. No entanto, estou certo de que o livro The Vision of the Anointed (A Visão dos Ungidos) está entre os que mais falta faz aos leitores deste nosso pobre país. Abaixo se encontram alguns trechos desse livro, escolhidas por John Hawkins (versão original) e publicadas em 2001. Pela amostra, pode-se ter uma vaga idéia da preciosidade da obra.
2. O livro de Sowell, apesar das diferenças de tom e de estratégia, é semelhante ao Imbecil Coletivo de Olavo de Carvalho. Os ungidos de Sowell nada mais são que os membros do Imbecil Coletivo desmascarados, implacavelmente, por Olavo. Ambos os autores mostram, de maneira insofismável, como se move essa casta arrogante e autoritária, que objetiva, muitas vezes com sucesso, isolar a Civilização Ocidental de toda a sua herança religiosa e filosófica construída ao longo de milênios. Com Sowell percebemos que o fenômeno é universal. Como Olavo já observou em outro local: “a esquerda é internacional, enquanto a direita é nacional”.
3. Adicionei os títulos dos capítulos referentes aos trechos selecionados. Abaixo de cada título, reproduzo a citação de abertura, que dá o tom do capítulo. Os números das páginas em que aparecem os trechos se referem à edição da Basic Books de 1995.
A melhores trechos de A Visão dos Ungidos de Thomas Sowell.
John Hawkins
*** Observe que Thomas Sowell usa o termo ungido para se referir aos esquerdistas, o termo incivilizado (bárbaro) ou trágico para os conservadores, e o termo visão representa sua (dos ungidos) filosofia. Assim, “a visão dos ungidos” é o modo esquerdista de ver o mundo. ***
Capítulo 1 – A unção lisonjeira
“Não massageies tua alma com essa unção lisonjeira” -- Hamlet
“Essa visão esquerdista permeia tão amplamente a mídia e a academia, e se imiscuiu tão profundamente na comunidade religiosa, que muitos chegam até a idade adulta sem perceber que há um outro modo de olhar para as coisas, ou que evidências podem ser relevantes para a verificação das suposições tão avassaladoras dos ‘bem-pensantes’. Muitos desses ‘bem-pensantes’ podem ser mais bem caracterizados como pessoas ‘articuladas’, como pessoas cuja agilidade verbal pode mascarar a lógica e a força das evidências. Esse pode ser um talento fatal, quando ele promove o crucial isolamento da realidade que está por trás de muitas catástrofes históricas.” – P. 6
Capítulo 2 – O padrão
“Eles foram trabalhar com insuperável eficiência. Pleno emprego, os melhores resultados e o bem-estar geral deve ter sido a conseqüência. Na verdade, ao contrário, encontramos miséria, vergonha e, no final de tudo, um rio de sangue. Mas isso foi mera coincidência.” -- Joseph A. Schumpeter
“Na medida que os programas de educação sexual se multiplicaram amplamente no sistema educacional americano, durante os anos 1970, a taxa de gravidez da faixa etária de 15 a 19 anos cresceu dos aproximadamente 68/mil em 1970 para 96/mil em 1980. Dentre as meninas solteiras na faixa de 15 a 17 anos, a taxa de nascimentos cresceu 29% entre 1970 e 1984, a despeito do enorme crescimento do número de abortos, que mais que dobrou no mesmo período. Entre as meninas menores de 15 anos, o número de abortos ultrapassou o número de nascimentos em 1974.” – P. 18
Capítulo 3 – O que falam os números
“Conhecíamos muitas coisas que dificilmente podíamos entender.” – Kenneth Fearing
“Implícita na equação estatística da desigualdade promovida pela discriminação racial está a suposição que desigualdades não existiriam na ausência de tratamento desigual. No entanto, estudos internacionais têm, repetidamente, demonstrado que desigualdades inter-grupos são freqüentes em todo o mundo, seja com respeito ao consumo de álcool, à taxas de fertilidade, ao desempenho educacional, ou a outras inumeráveis variáveis. Uma lista razoavelmente completa de tais desigualdades seria tão grande quanto um dicionário.” – P. 35
“Que sentido teria a classificação de um homem como deficiente porque ele está, hoje, numa cadeira de rodas, se ele estará andando em um mês e participando de corridas em um ano? Mesmo assim, os americanos são separados em ‘classes’ com base em sua localização transitória na faixa salarial. Se a maioria dos americanos não permanece na mesma faixa salarial ampla por nem uma década, as repetidas mudanças de ‘classe’ fazem com que ‘classe’ seja um conceito nebuloso.” – P. 48
“Num dado ano, o número de divórcios pode ser metade do número de casamentos, mas dizer isso é o mesmo que comparar maçãs com laranjas. Os casamentos considerados são somente aqueles que ocorrem num determinado ano, enquanto que os divórcios daquele ano são de casamentos que ocorreram num passado que pode se estender por décadas. Dizer que metade de todos os casamentos termina em divórcio, baseado em estatísticas, seria equivalente a dizer que metade da população morreu no ano passado, se o número de mortes tivesse sido metade do número de nascimentos.” – P. 59
Capítulo 4 – A irrelevância da evidência
“Os fatos são coisas teimosas; e quaisquer que sejam nossos desejos, nossas inclinações, ou exigências de nossas paixões, eles não podem alterar nem fatos nem evidências” – John Adams
“Apesar da proporção dos filhos que moram com ambos os pais tem diminuído nas últimas décadas, o censo de 1992 mostrou que mais de dois terços – 71%, de fato – de todas as pessoas com idade menor que 18 anos estavam ainda morando com ambos os pais. Menos de 1% estavam vivendo com não parentes.” – P. 61
“Voltando a cem anos atrás, quando apenas uma geração separava os negros da escravidão, descobrimos que os dados do censo mostravam que uma proporção levemente menor de negros contraiam matrimônio, quando comparados aos brancos.” – P. 81
“Em 1940, entre as mulheres negras chefes de família, 52% tinham 45 anos de idade ou mais. Além disso, somente 14% de todas as crianças negras tinham mães solteiras.” – P. 81
“Todos somos a favor de um salário digno; eles (os ungidos), simplesmente, definem esse conceito em termos bem diferentes. Todo mundo é ‘progressista’ em seu próprio conceito. O fato dos ungidos acreditarem que esse rótulo (de progressista) os diferencia das outras pessoas é um dos vários sintomas de seu narcisismo infantil.” – P. 95
Capítulo 5 – Ungido versus incivilizado
“Todo homem, onde for, está cercado por uma nuvem de convicções confortáveis, que se move com ele como moscas num dia de verão” – Bertrand Russell
“Uma das mais importantes questões sobre qualquer curso de ação proposto é se sabemos como empreendê-lo. A Política A pode ser melhor que a Política B, mas isso não tem importância se não sabemos implementar a Política A. Talvez teria sido melhor reabilitar criminosos, ao invés de puni-los, se soubéssemos como fazê-lo. Recompensar o mérito pode ser melhor que recompensar resultados, se soubéssemos como fazê-lo. Mas, uma das diferenças cruciais entre aqueles com a visão trágica e aqueles com a visão do ungido está no que eles, respectivamente, assumem que sabemos fazer. Aqueles com a visão do ungido são, raramente, dissuadidos por qualquer questão sobre se alguém tem o conhecimento necessário para fazer o que eles estão tentando fazer.” – P. 109
“Um resumo sucinto da visão trágica foi dado pelos historiadores Will e Ariel Durant:
‘De cada cem idéias novas, noventa e nove serão, provavelmente, piores que as respostas tradicionais que elas propõem substituir. Nenhum homem, mesmo brilhante e bem-informado, pode alcançar em uma única vida uma tal completude de entendimento para, seguramente, julgar e descartar os costumes e instituições de sua sociedade, pois estes constituem a sabedoria de gerações, depois de séculos de experiência no laboratório da história.’ ” – P. 112
“Na visão trágica, os sofrimentos pessoais e os males sociais são inerentes das inatas deficiências de todos os seres humanos, sejam essas deficiências de conhecimento, de sabedoria, de moralidade ou de coragem. Além disso, os recursos disponíveis são sempre inadequados para preencher todos os desejos existentes. Então, não há ‘soluções’ na visão trágica, mas escolhas que deixam muitos desejos irrealizados e muita infelicidade no mundo.” – P. 113
“Na sua pressa para serem mais sábios e mais nobres do que os outros, os ungidos confundem duas questões básicas. Eles parecem assumir (1) que eles têm mais conhecimento que a média dos incivilizados e (2) que essa é uma comparação relevante. A comparação real, no entanto, não é entre o conhecimento possuído pela média da elite educada versus a média do público em geral, e sim entre o conhecimento total gerado pelos processos sociais (competição no mercado, organização social, etc.), envolvendo milhões de pessoas, versus o conhecimento de segunda mão, sobre generalidades, possuídos por um pequeno grupo de elite.” – P. 114
“Para o ungido, as tradições são vistas como cadáveres do passado, relíquias de uma idade menos ilustrada, e não como a experiências destilada de milhões que enfrentaram vicissitudes semelhantes, anteriormente.” – P. 118
“A suposta irracionalidade do público é um padrão usado por muitos, senão a maioria, dos grandes ungidos em suas cruzadas no século XX – independente do assunto ou da área a que se refere a cruzada. Quer o assunto seja ‘superpopulação’, economia keynesiana, justiça criminal, ou a exaustão de recursos naturais, a suposição-chave tem sido que o público é tão irracional que a sabedoria superior do ungido deve se impor, a fim de evitar o desastre. Não é que o ungido tenha, simplesmente, um desdém pelo público em geral. Tal desdém é uma parte integral de sua visão, pois, a característica central dessa visão é obstruir a decisão dos outros.” – P. 123
“Apesar de Adam Smith considerar as intenções dos empresários como egoístas e anti-sociais, ele percebeu que as conseqüências sistemáticas da competição entre eles eram muito mais benéficas para a sociedade, que uma regulamentação governamental bem-intencionado.” – P. 126
“Em seu fanatismo por tipos particulares de decisão, aqueles com a visão do ungido, raramente, consideram a natureza do processo de tomada de decisão. Freqüentemente, o que eles propõem envolve decisões de terceiros, tomadas por pessoas que não têm nenhum custo por estarem erradas – certamente, um dos modos menos promissores de tomar decisões satisfatórias para aqueles que sofrerão as conseqüências.” – P. 129
“Aqueles com a visão dos ungidos, freqüentemente, advogam a solução de disputas internacionais por meio da ‘diplomacia’ e da ‘negociação’, ao invés da ‘força’ – como se a diplomacia e a negociação não fosse dependente de um conjunto de incentivos adicionais, dos quais uma concreta ameaça militar é crucial.” – P. 130-131
“Para aqueles com a visão dos ungidos, a questão é: o que removerá uma característica particular negativa de uma situação existente para criar uma solução? Aqueles com a visão trágica perguntam: o que deve ser sacrificado para se atingir esse aprimoramento particular?” – P. 135
Capítulo 6 – As cruzadas dos ungidos
“Se acautele contra pessoas moralistas quando se trata de grandes questões; ser moralista é mais fácil do que enfrentar fatos graves” – John Corry
“Não há soluções, apenas escolhas entre situações conflitantes.” – P. 142
“A vasta penumbra de incerteza que encobriu os julgamentos de responsabilidade civil no alvorecer da revolução judicial dos anos 1960 e 1970 -- julgamentos esses que descartaram leis e princípios seculares, deixando juízes e júris livres para ceder às suas próprias inclinações --, fez com que fosse prudente para os acusados, o fechamento de acordos fora dos tribunais, mesmo que eles não tivessem feito nada de errado. Dois casos tipificam a incerteza dos resultados das cortes. Referem-se a um operador de guindaste, que encostou o braço da máquina numa linha de transmissão de alta tensão, originando um processo contra o fabricante do equipamento por não alertar os operadores sobre esse perigo – tal argumento foi refutado, sem julgamento, num estado, com o fundamento de que o perigo é óbvio demais para exigir algum tipo de aviso, apesar de em outro estado, o fabricante ter sido condenado a pagar mais de US$12 milhões. Em outras palavras, não há mais lei no sentido real da expressão, mas, somente éditos imprevisíveis emanados dos tribunais.” – P. 170
“Quando os ungidos dizem que há uma crise, isso significa que algo deve ser feito – e deve ser feito, simplesmente, porque os ungidos desejam alguma ação. Crise se tornou um dos muitos substitutos para evidência ou lógica.” – P. 182
Capítulo 7 – O vocabulário dos ungidos
“Os homens têm uma incurável propensão em prejulgar todas as grandes questões que os interessam estampando seus preconceitos em sua linguagem” – James Fitzjames Stephen
“Muitas discussões de intelectuais sobre as decisões de empresários se processam como se empregadores, proprietários e outros agentes operando sob sistemática pressão do mercado fossem livres para tomar decisões caprichosas e arbitrárias, baseadas em preconceito e informações enganosas – como se eles fossem intelectuais sentados em torno de uma mesa num seminário – e depois deixassem de pagar pelos erros cometidos.” – P. 188
“Mas, para aqueles com a visão dos ungidos, dizer que um plano ou política particular é contrário à natureza humana como a conhecemos, significa apenas que a natureza humana deve ser mudada. Então, o vocabulário dos ungidos está repleto de termos como ‘sensibilização’, ‘esclarecimento’ ou ‘reeducação’ de outras pessoas.” – P. 190
Outra forma verbal de mascarar a interferência da elite na decisão das pessoas é usar a palavra ‘pedir’ – como em ‘Só estamos pedindo que todos arquem com sua devida parcela.’ Mas, o governo não pede, ele manda. A Receita Federal não pede ‘contribuição’. Ela toma.” – P. 197
“Muitas palavras e frases usadas na mídia e entre acadêmicos sugerem que as coisas, simplesmente, acontecem com as pessoas, ao invés de serem causadas por suas próprias escolhas e comportamento. Assim, afirma-se que há uma gravidez ‘epidêmica’ ou um uso ‘epidêmico’ de drogas entre os adolescentes, como se essas coisas fossem como uma gripe que as pessoas pegam somente por estarem no lugar errado, na hora errada.” – P. 198
“Uma personificação ampla da ‘sociedade’ é outra tática verbal que esconde questões de responsabilidade pessoal. Tal uso do termo ‘sociedade’ é uma versão mais sofisticada da noção de que ‘o demônio me obrigou a fazer isso.’ Tal como o todo o vocabulário dos ungidos, esse termo é usado como uma palavra mágica que faz a escolha, o comportamento e o desempenho se esvaecerem.” – P. 199
“A visão dos ungidos considera que males como a pobreza, o sexo irresponsável e o crime derivam, primariamente, da ‘sociedade,’ ao invés de derivar das escolhas pessoais e do comportamento. Acreditar em responsabilidade pessoal seria destruir todo o papel especial do ungido, cuja visão os escala para o papel de salvadores das pessoas que são tratadas de forma injusta pela ‘sociedade.’ ” – P. 203
“Dizer que ‘a riqueza na América é tão injustamente distribuída,’ como faz Ronald Dworkin, é grosseiramente enganador, pois, a maior parte da riqueza dos Estados Unidos não é, de forma alguma, distribuída. As pessoas criam, ganham, poupam e gastam a riqueza.” – P. 211
Capítulo 8 – Cortejando o desastre
“O sistema legal perdeu sua alma e se tornou uma selva” – Bertrand de Jouvenel
“Em resumo, conquanto salvar alguns indivíduos inocentes de uma injusta condenação é importante, a questão é se isso é mais importante que poupar outros indivíduos inocentes da violência e morte nas mãos de criminosos. Salvar um réu inocente por década vale o sacrifício de dez assassinatos de vítimas inocentes? Mil assassinatos? Quando reconhecemos que não há solução, mas apenas escolhas entre situações conflitantes, não podemos mais perseguir o ideal da justiça cósmica, mas devemos fazer nossas escolhas entre alternativas, realmente, disponíveis – e essas alternativas não incluem a garantia de que nenhum mal atingirá uma vítima inocente. A única maneira de nos assegurarmos de que nenhum inocente será jamais condenado erradamente é descartarmos o sistema judicial criminal e aceitarmos os horrores da anarquia.” – P. 225
“Aqueles que, hoje, advogam uma ‘moderação judicial’ definem essa expressão como sendo juízes interpretando leis, inclusive a Constituição, de acordo com o significado que as palavras dessas leis tinham quando foram escritas.” – P. 227
“Ativismo judicial é um mecanismo por meio do qual a visão esquerdista pode ser imposta sobre o público em geral que não a compartilha, sem ter de passar pelo crivo de autoridades eleitas que não ousariam apoiar muitas das características dessa visão.” – P. 235
Capítulo 9 – Realidade opcional
“... ideologia … é um instrumento de poder; um mecanismo de defesa contra a informação; um pretexto para desprezar os limites morais na consecução ou na aprovação do mal, com a consciência tranqüila; e finalmente, um modo de banir o critério da experiência, isto é, de eliminar completamente, ou postergar indefinidamente, o critério pragmático do sucesso e do fracasso.” – Jean-François Revel
“Como Hannah Arendt observou, transformar questões de fato em questões de intenção foi uma grande realização dos totalitários do século XX. É uma realização perigosa que sobreviveu ao colapso dos impérios facista e comunista e se transformou numa marca registrada da maior parte da intelligentsia ocidental.” – P. 244
“Se a verdade é maçante, a civilização é irritante. Os limites inerentes da vida civilizada são frustrantes de muitas formas. Mesmo assim aqueles com a visão dos ungidos, freqüentemente, vêem esses limites, somente, como imposições arbitrárias, coisas das quais eles – e nós todos – podemos ser liberados. A desintegração social que segue o advento de tais liberações, raramente, provoca qualquer reconsideração séria de todo o conjunto de suposições – a visão – que levou a tais desastres. Essa visão é muito bem isolada de realimentações.” – P. 247
“Uma alegação é sempre levantada contra a intelligentsia e outros membros dos ungidos, a de que falta senso comum a suas teorias e políticas. Mas a própria normalidade do senso comum o faz muito pouco atrativo para os ungidos. Como eles podem ser mais sábios e mais nobres do que todos, ao mesmo tempo em que concordam com todo mundo?” – P. 248
“A civilização já foi definida, muito apropriadamente, como ‘uma fina crosta sobre um vulcão’. Os ungidos estão, constantemente, pressionando essa crosta.” – P. 250
“Um fazendeiro californiano pode sempre mostrar à audiência televisiva a abundante safra que ele colheu com a ajuda do projeto de irrigação governamental. Mas ninguém pode filmar as safras que teriam sido colhidas em outros lugares, a um custo menor, se não houvesse subsídios governamentais que encorajassem o uso da água, obtida a um custo maior, no deserto da Califórnia, ao invés do uso da água de graça, obtida das nuvens, em algum outro lugar.” – P. 257
“Dentre os ungidos encontramos toda uma classe de supostos ‘bem-pensantes’, que pensam, surpreendentemente, pouco sobre os fundamentos e, incrivelmente, muito sobre expressão verbal. Por esse pequeno grupo de pessoas acreditar-se mais sábio e mais nobre que os mortais comuns, temos adotado políticas que impõem altos custos a milhões de outros seres humanos, não somente por meio de impostos, mas também em empregos perdidos, em desintegração social e na perda da segurança pessoal. Raramente, tão poucos custaram tanto a tanta gente.” – P. 260
1. Recentemente o prof. Olavo de Carvalho mencionou, aqui, vários livros e autores que têm sido, permanente e voluntariamente, ocultados dos brasileiros, por uma política editorial dominada, há décadas, pela militância esquerdista. Ele não mencionou Thomas Sowell, certamente, porque seu objetivo era citar apenas alguns exemplos da calamidade que a falta de certos livros pode causar a um povo deles privado. No entanto, estou certo de que o livro The Vision of the Anointed (A Visão dos Ungidos) está entre os que mais falta faz aos leitores deste nosso pobre país. Abaixo se encontram alguns trechos desse livro, escolhidas por John Hawkins (versão original) e publicadas em 2001. Pela amostra, pode-se ter uma vaga idéia da preciosidade da obra.
2. O livro de Sowell, apesar das diferenças de tom e de estratégia, é semelhante ao Imbecil Coletivo de Olavo de Carvalho. Os ungidos de Sowell nada mais são que os membros do Imbecil Coletivo desmascarados, implacavelmente, por Olavo. Ambos os autores mostram, de maneira insofismável, como se move essa casta arrogante e autoritária, que objetiva, muitas vezes com sucesso, isolar a Civilização Ocidental de toda a sua herança religiosa e filosófica construída ao longo de milênios. Com Sowell percebemos que o fenômeno é universal. Como Olavo já observou em outro local: “a esquerda é internacional, enquanto a direita é nacional”.
3. Adicionei os títulos dos capítulos referentes aos trechos selecionados. Abaixo de cada título, reproduzo a citação de abertura, que dá o tom do capítulo. Os números das páginas em que aparecem os trechos se referem à edição da Basic Books de 1995.
A melhores trechos de A Visão dos Ungidos de Thomas Sowell.
John Hawkins
*** Observe que Thomas Sowell usa o termo ungido para se referir aos esquerdistas, o termo incivilizado (bárbaro) ou trágico para os conservadores, e o termo visão representa sua (dos ungidos) filosofia. Assim, “a visão dos ungidos” é o modo esquerdista de ver o mundo. ***
Capítulo 1 – A unção lisonjeira
“Não massageies tua alma com essa unção lisonjeira” -- Hamlet
“Essa visão esquerdista permeia tão amplamente a mídia e a academia, e se imiscuiu tão profundamente na comunidade religiosa, que muitos chegam até a idade adulta sem perceber que há um outro modo de olhar para as coisas, ou que evidências podem ser relevantes para a verificação das suposições tão avassaladoras dos ‘bem-pensantes’. Muitos desses ‘bem-pensantes’ podem ser mais bem caracterizados como pessoas ‘articuladas’, como pessoas cuja agilidade verbal pode mascarar a lógica e a força das evidências. Esse pode ser um talento fatal, quando ele promove o crucial isolamento da realidade que está por trás de muitas catástrofes históricas.” – P. 6
Capítulo 2 – O padrão
“Eles foram trabalhar com insuperável eficiência. Pleno emprego, os melhores resultados e o bem-estar geral deve ter sido a conseqüência. Na verdade, ao contrário, encontramos miséria, vergonha e, no final de tudo, um rio de sangue. Mas isso foi mera coincidência.” -- Joseph A. Schumpeter
“Na medida que os programas de educação sexual se multiplicaram amplamente no sistema educacional americano, durante os anos 1970, a taxa de gravidez da faixa etária de 15 a 19 anos cresceu dos aproximadamente 68/mil em 1970 para 96/mil em 1980. Dentre as meninas solteiras na faixa de 15 a 17 anos, a taxa de nascimentos cresceu 29% entre 1970 e 1984, a despeito do enorme crescimento do número de abortos, que mais que dobrou no mesmo período. Entre as meninas menores de 15 anos, o número de abortos ultrapassou o número de nascimentos em 1974.” – P. 18
Capítulo 3 – O que falam os números
“Conhecíamos muitas coisas que dificilmente podíamos entender.” – Kenneth Fearing
“Implícita na equação estatística da desigualdade promovida pela discriminação racial está a suposição que desigualdades não existiriam na ausência de tratamento desigual. No entanto, estudos internacionais têm, repetidamente, demonstrado que desigualdades inter-grupos são freqüentes em todo o mundo, seja com respeito ao consumo de álcool, à taxas de fertilidade, ao desempenho educacional, ou a outras inumeráveis variáveis. Uma lista razoavelmente completa de tais desigualdades seria tão grande quanto um dicionário.” – P. 35
“Que sentido teria a classificação de um homem como deficiente porque ele está, hoje, numa cadeira de rodas, se ele estará andando em um mês e participando de corridas em um ano? Mesmo assim, os americanos são separados em ‘classes’ com base em sua localização transitória na faixa salarial. Se a maioria dos americanos não permanece na mesma faixa salarial ampla por nem uma década, as repetidas mudanças de ‘classe’ fazem com que ‘classe’ seja um conceito nebuloso.” – P. 48
“Num dado ano, o número de divórcios pode ser metade do número de casamentos, mas dizer isso é o mesmo que comparar maçãs com laranjas. Os casamentos considerados são somente aqueles que ocorrem num determinado ano, enquanto que os divórcios daquele ano são de casamentos que ocorreram num passado que pode se estender por décadas. Dizer que metade de todos os casamentos termina em divórcio, baseado em estatísticas, seria equivalente a dizer que metade da população morreu no ano passado, se o número de mortes tivesse sido metade do número de nascimentos.” – P. 59
Capítulo 4 – A irrelevância da evidência
“Os fatos são coisas teimosas; e quaisquer que sejam nossos desejos, nossas inclinações, ou exigências de nossas paixões, eles não podem alterar nem fatos nem evidências” – John Adams
“Apesar da proporção dos filhos que moram com ambos os pais tem diminuído nas últimas décadas, o censo de 1992 mostrou que mais de dois terços – 71%, de fato – de todas as pessoas com idade menor que 18 anos estavam ainda morando com ambos os pais. Menos de 1% estavam vivendo com não parentes.” – P. 61
“Voltando a cem anos atrás, quando apenas uma geração separava os negros da escravidão, descobrimos que os dados do censo mostravam que uma proporção levemente menor de negros contraiam matrimônio, quando comparados aos brancos.” – P. 81
“Em 1940, entre as mulheres negras chefes de família, 52% tinham 45 anos de idade ou mais. Além disso, somente 14% de todas as crianças negras tinham mães solteiras.” – P. 81
“Todos somos a favor de um salário digno; eles (os ungidos), simplesmente, definem esse conceito em termos bem diferentes. Todo mundo é ‘progressista’ em seu próprio conceito. O fato dos ungidos acreditarem que esse rótulo (de progressista) os diferencia das outras pessoas é um dos vários sintomas de seu narcisismo infantil.” – P. 95
Capítulo 5 – Ungido versus incivilizado
“Todo homem, onde for, está cercado por uma nuvem de convicções confortáveis, que se move com ele como moscas num dia de verão” – Bertrand Russell
“Uma das mais importantes questões sobre qualquer curso de ação proposto é se sabemos como empreendê-lo. A Política A pode ser melhor que a Política B, mas isso não tem importância se não sabemos implementar a Política A. Talvez teria sido melhor reabilitar criminosos, ao invés de puni-los, se soubéssemos como fazê-lo. Recompensar o mérito pode ser melhor que recompensar resultados, se soubéssemos como fazê-lo. Mas, uma das diferenças cruciais entre aqueles com a visão trágica e aqueles com a visão do ungido está no que eles, respectivamente, assumem que sabemos fazer. Aqueles com a visão do ungido são, raramente, dissuadidos por qualquer questão sobre se alguém tem o conhecimento necessário para fazer o que eles estão tentando fazer.” – P. 109
“Um resumo sucinto da visão trágica foi dado pelos historiadores Will e Ariel Durant:
‘De cada cem idéias novas, noventa e nove serão, provavelmente, piores que as respostas tradicionais que elas propõem substituir. Nenhum homem, mesmo brilhante e bem-informado, pode alcançar em uma única vida uma tal completude de entendimento para, seguramente, julgar e descartar os costumes e instituições de sua sociedade, pois estes constituem a sabedoria de gerações, depois de séculos de experiência no laboratório da história.’ ” – P. 112
“Na visão trágica, os sofrimentos pessoais e os males sociais são inerentes das inatas deficiências de todos os seres humanos, sejam essas deficiências de conhecimento, de sabedoria, de moralidade ou de coragem. Além disso, os recursos disponíveis são sempre inadequados para preencher todos os desejos existentes. Então, não há ‘soluções’ na visão trágica, mas escolhas que deixam muitos desejos irrealizados e muita infelicidade no mundo.” – P. 113
“Na sua pressa para serem mais sábios e mais nobres do que os outros, os ungidos confundem duas questões básicas. Eles parecem assumir (1) que eles têm mais conhecimento que a média dos incivilizados e (2) que essa é uma comparação relevante. A comparação real, no entanto, não é entre o conhecimento possuído pela média da elite educada versus a média do público em geral, e sim entre o conhecimento total gerado pelos processos sociais (competição no mercado, organização social, etc.), envolvendo milhões de pessoas, versus o conhecimento de segunda mão, sobre generalidades, possuídos por um pequeno grupo de elite.” – P. 114
“Para o ungido, as tradições são vistas como cadáveres do passado, relíquias de uma idade menos ilustrada, e não como a experiências destilada de milhões que enfrentaram vicissitudes semelhantes, anteriormente.” – P. 118
“A suposta irracionalidade do público é um padrão usado por muitos, senão a maioria, dos grandes ungidos em suas cruzadas no século XX – independente do assunto ou da área a que se refere a cruzada. Quer o assunto seja ‘superpopulação’, economia keynesiana, justiça criminal, ou a exaustão de recursos naturais, a suposição-chave tem sido que o público é tão irracional que a sabedoria superior do ungido deve se impor, a fim de evitar o desastre. Não é que o ungido tenha, simplesmente, um desdém pelo público em geral. Tal desdém é uma parte integral de sua visão, pois, a característica central dessa visão é obstruir a decisão dos outros.” – P. 123
“Apesar de Adam Smith considerar as intenções dos empresários como egoístas e anti-sociais, ele percebeu que as conseqüências sistemáticas da competição entre eles eram muito mais benéficas para a sociedade, que uma regulamentação governamental bem-intencionado.” – P. 126
“Em seu fanatismo por tipos particulares de decisão, aqueles com a visão do ungido, raramente, consideram a natureza do processo de tomada de decisão. Freqüentemente, o que eles propõem envolve decisões de terceiros, tomadas por pessoas que não têm nenhum custo por estarem erradas – certamente, um dos modos menos promissores de tomar decisões satisfatórias para aqueles que sofrerão as conseqüências.” – P. 129
“Aqueles com a visão dos ungidos, freqüentemente, advogam a solução de disputas internacionais por meio da ‘diplomacia’ e da ‘negociação’, ao invés da ‘força’ – como se a diplomacia e a negociação não fosse dependente de um conjunto de incentivos adicionais, dos quais uma concreta ameaça militar é crucial.” – P. 130-131
“Para aqueles com a visão dos ungidos, a questão é: o que removerá uma característica particular negativa de uma situação existente para criar uma solução? Aqueles com a visão trágica perguntam: o que deve ser sacrificado para se atingir esse aprimoramento particular?” – P. 135
Capítulo 6 – As cruzadas dos ungidos
“Se acautele contra pessoas moralistas quando se trata de grandes questões; ser moralista é mais fácil do que enfrentar fatos graves” – John Corry
“Não há soluções, apenas escolhas entre situações conflitantes.” – P. 142
“A vasta penumbra de incerteza que encobriu os julgamentos de responsabilidade civil no alvorecer da revolução judicial dos anos 1960 e 1970 -- julgamentos esses que descartaram leis e princípios seculares, deixando juízes e júris livres para ceder às suas próprias inclinações --, fez com que fosse prudente para os acusados, o fechamento de acordos fora dos tribunais, mesmo que eles não tivessem feito nada de errado. Dois casos tipificam a incerteza dos resultados das cortes. Referem-se a um operador de guindaste, que encostou o braço da máquina numa linha de transmissão de alta tensão, originando um processo contra o fabricante do equipamento por não alertar os operadores sobre esse perigo – tal argumento foi refutado, sem julgamento, num estado, com o fundamento de que o perigo é óbvio demais para exigir algum tipo de aviso, apesar de em outro estado, o fabricante ter sido condenado a pagar mais de US$12 milhões. Em outras palavras, não há mais lei no sentido real da expressão, mas, somente éditos imprevisíveis emanados dos tribunais.” – P. 170
“Quando os ungidos dizem que há uma crise, isso significa que algo deve ser feito – e deve ser feito, simplesmente, porque os ungidos desejam alguma ação. Crise se tornou um dos muitos substitutos para evidência ou lógica.” – P. 182
Capítulo 7 – O vocabulário dos ungidos
“Os homens têm uma incurável propensão em prejulgar todas as grandes questões que os interessam estampando seus preconceitos em sua linguagem” – James Fitzjames Stephen
“Muitas discussões de intelectuais sobre as decisões de empresários se processam como se empregadores, proprietários e outros agentes operando sob sistemática pressão do mercado fossem livres para tomar decisões caprichosas e arbitrárias, baseadas em preconceito e informações enganosas – como se eles fossem intelectuais sentados em torno de uma mesa num seminário – e depois deixassem de pagar pelos erros cometidos.” – P. 188
“Mas, para aqueles com a visão dos ungidos, dizer que um plano ou política particular é contrário à natureza humana como a conhecemos, significa apenas que a natureza humana deve ser mudada. Então, o vocabulário dos ungidos está repleto de termos como ‘sensibilização’, ‘esclarecimento’ ou ‘reeducação’ de outras pessoas.” – P. 190
Outra forma verbal de mascarar a interferência da elite na decisão das pessoas é usar a palavra ‘pedir’ – como em ‘Só estamos pedindo que todos arquem com sua devida parcela.’ Mas, o governo não pede, ele manda. A Receita Federal não pede ‘contribuição’. Ela toma.” – P. 197
“Muitas palavras e frases usadas na mídia e entre acadêmicos sugerem que as coisas, simplesmente, acontecem com as pessoas, ao invés de serem causadas por suas próprias escolhas e comportamento. Assim, afirma-se que há uma gravidez ‘epidêmica’ ou um uso ‘epidêmico’ de drogas entre os adolescentes, como se essas coisas fossem como uma gripe que as pessoas pegam somente por estarem no lugar errado, na hora errada.” – P. 198
“Uma personificação ampla da ‘sociedade’ é outra tática verbal que esconde questões de responsabilidade pessoal. Tal uso do termo ‘sociedade’ é uma versão mais sofisticada da noção de que ‘o demônio me obrigou a fazer isso.’ Tal como o todo o vocabulário dos ungidos, esse termo é usado como uma palavra mágica que faz a escolha, o comportamento e o desempenho se esvaecerem.” – P. 199
“A visão dos ungidos considera que males como a pobreza, o sexo irresponsável e o crime derivam, primariamente, da ‘sociedade,’ ao invés de derivar das escolhas pessoais e do comportamento. Acreditar em responsabilidade pessoal seria destruir todo o papel especial do ungido, cuja visão os escala para o papel de salvadores das pessoas que são tratadas de forma injusta pela ‘sociedade.’ ” – P. 203
“Dizer que ‘a riqueza na América é tão injustamente distribuída,’ como faz Ronald Dworkin, é grosseiramente enganador, pois, a maior parte da riqueza dos Estados Unidos não é, de forma alguma, distribuída. As pessoas criam, ganham, poupam e gastam a riqueza.” – P. 211
Capítulo 8 – Cortejando o desastre
“O sistema legal perdeu sua alma e se tornou uma selva” – Bertrand de Jouvenel
“Em resumo, conquanto salvar alguns indivíduos inocentes de uma injusta condenação é importante, a questão é se isso é mais importante que poupar outros indivíduos inocentes da violência e morte nas mãos de criminosos. Salvar um réu inocente por década vale o sacrifício de dez assassinatos de vítimas inocentes? Mil assassinatos? Quando reconhecemos que não há solução, mas apenas escolhas entre situações conflitantes, não podemos mais perseguir o ideal da justiça cósmica, mas devemos fazer nossas escolhas entre alternativas, realmente, disponíveis – e essas alternativas não incluem a garantia de que nenhum mal atingirá uma vítima inocente. A única maneira de nos assegurarmos de que nenhum inocente será jamais condenado erradamente é descartarmos o sistema judicial criminal e aceitarmos os horrores da anarquia.” – P. 225
“Aqueles que, hoje, advogam uma ‘moderação judicial’ definem essa expressão como sendo juízes interpretando leis, inclusive a Constituição, de acordo com o significado que as palavras dessas leis tinham quando foram escritas.” – P. 227
“Ativismo judicial é um mecanismo por meio do qual a visão esquerdista pode ser imposta sobre o público em geral que não a compartilha, sem ter de passar pelo crivo de autoridades eleitas que não ousariam apoiar muitas das características dessa visão.” – P. 235
Capítulo 9 – Realidade opcional
“... ideologia … é um instrumento de poder; um mecanismo de defesa contra a informação; um pretexto para desprezar os limites morais na consecução ou na aprovação do mal, com a consciência tranqüila; e finalmente, um modo de banir o critério da experiência, isto é, de eliminar completamente, ou postergar indefinidamente, o critério pragmático do sucesso e do fracasso.” – Jean-François Revel
“Como Hannah Arendt observou, transformar questões de fato em questões de intenção foi uma grande realização dos totalitários do século XX. É uma realização perigosa que sobreviveu ao colapso dos impérios facista e comunista e se transformou numa marca registrada da maior parte da intelligentsia ocidental.” – P. 244
“Se a verdade é maçante, a civilização é irritante. Os limites inerentes da vida civilizada são frustrantes de muitas formas. Mesmo assim aqueles com a visão dos ungidos, freqüentemente, vêem esses limites, somente, como imposições arbitrárias, coisas das quais eles – e nós todos – podemos ser liberados. A desintegração social que segue o advento de tais liberações, raramente, provoca qualquer reconsideração séria de todo o conjunto de suposições – a visão – que levou a tais desastres. Essa visão é muito bem isolada de realimentações.” – P. 247
“Uma alegação é sempre levantada contra a intelligentsia e outros membros dos ungidos, a de que falta senso comum a suas teorias e políticas. Mas a própria normalidade do senso comum o faz muito pouco atrativo para os ungidos. Como eles podem ser mais sábios e mais nobres do que todos, ao mesmo tempo em que concordam com todo mundo?” – P. 248
“A civilização já foi definida, muito apropriadamente, como ‘uma fina crosta sobre um vulcão’. Os ungidos estão, constantemente, pressionando essa crosta.” – P. 250
“Um fazendeiro californiano pode sempre mostrar à audiência televisiva a abundante safra que ele colheu com a ajuda do projeto de irrigação governamental. Mas ninguém pode filmar as safras que teriam sido colhidas em outros lugares, a um custo menor, se não houvesse subsídios governamentais que encorajassem o uso da água, obtida a um custo maior, no deserto da Califórnia, ao invés do uso da água de graça, obtida das nuvens, em algum outro lugar.” – P. 257
“Dentre os ungidos encontramos toda uma classe de supostos ‘bem-pensantes’, que pensam, surpreendentemente, pouco sobre os fundamentos e, incrivelmente, muito sobre expressão verbal. Por esse pequeno grupo de pessoas acreditar-se mais sábio e mais nobre que os mortais comuns, temos adotado políticas que impõem altos custos a milhões de outros seres humanos, não somente por meio de impostos, mas também em empregos perdidos, em desintegração social e na perda da segurança pessoal. Raramente, tão poucos custaram tanto a tanta gente.” – P. 260
Igualdade, Desigualdade e Destino
Thomas Sowell
Uma das confusões que contamina as discussões sobre igualdade e desigualdade é a confusão entre os caprichos do destino e os pecados do homem. Há muito dos dois, mas eles precisam ser distinguidos claramente um do outro.
O fato simples de que há grandes diferenças entre indivíduos em relação a salários e ocupações e que seus níveis de vida dependem disso, tem sido visto como “injusto”, especialmente quando o acidente do nascimento tem muito a ver com essas grandes diferenças econômicas e sociais.
A vida é injusta. Não há razão para negar isso. De fato, é difícil imaginar como a vida poderia ser justa, dados todos os inumeráveis fatores que influenciam o sucesso ou o fracasso individual – e a forma como esses fatores variam enormemente de uma pessoa para outra, de um grupo para outro e de uma nação para outra.
Quaisquer que sejam as potencialidades com que alguém entre no mundo, o desenvolvimento dessas potencialidades em habilidades específicas depende dos pais, escolas, pares e valores culturais que envolvem o indivíduo.
Os esquimós têm, certamente, toda a inteligência requerida para plantar abacaxis, mas eles, dificilmente, terão essa experiência. Nem os havaianos, provavelmente, saberão como caçar focas no Ártico.
Crianças que crescem em lares onde os esportes são discutidos constantemente, mas não as ciências, não terão, provavelmente, os mesmos objetivos e as mesmas carreiras que as crianças que crescem em lares onde o contrário é verdadeiro.
Nada disso é culpa de alguém, nem daquele bode expiatório universal, a “sociedade”. Esses são apenas os caprichos do destino.
Por milhares de anos, o Hemisfério Ocidental como um todo não teve a oportunidade de se desenvolver do mesmo modo que a Europa e a Ásia, porque os cavalos e bois permitiram aos europeus e aos asiáticos construírem sua agricultura e seu meio de transporte através dessas bestas de carga – nenhuma delas existia no Hemisfério Ocidental até que foram trazidas pelos invasores europeus.
Todo o modo de vida tinha de ser diferente nesta metade do planeta em relação ao que era na vasta massa de terra eurasiana. De quem era a culpa?
Alguns grupos étnicos têm uma idade média uma década maior do que a média de outros e mesmo países inteiros como a Alemanha e Itália têm idades médias que são duas décadas maiores que a média do Afeganistão ou Yemem.
Seria isso um campo de jogo plano*? Não! Há uma injusta vantagem para aqueles com mais experiência e com mais capacidade adquirida pela maior experiência.
Outras diferenças são devidas aos pecados dos homens – discriminação, conquista, escravidão e muito mais. Mesmo assim, quaisquer que sejam as fontes das diferenças entre os povos, elas são enormes, assim como suas conseqüências econômicas.
Nada disso é difícil de entender em si mesmo. Mas tudo fica confuso e deformado pela retórica e pelas visões e as cruzadas da intelligentsia e dos políticos.
Mesmo nossos tribunais estão prontos para considerar diferentes distribuições de grupos nas ocupações como evidência de que o empregador discriminou, uma vez que é, aparentemente, inoportuno considerar que os próprios grupos podem diferir, tanto de forma quantificável, como em idade, quanto de forma intangível, como em atitudes.
Esse dogma igualitário está tão profundamente enraizado que diferentes taxas de aprovação em testes de um grupo em relação ao outro são tomadas como evidências de que algo está errado com os testes. Taxas diferentes de promoção no trabalho ou na escola são consideradas como prova virtual de que o empregador ou a escola está fazendo algo errado.
O autor de sucesso Shelby Steele tem argumentado, persuasivamente, que os brancos temem ser considerados racistas e os negros temem ser considerados inferiores natos – e que, como resultado, ambos os grupos fazem coisas tolas e contra-produtivas, Tais atitudes se aplicam em questões além das raciais.
As leis e políticas de uma nação precisam servir a propósitos mais sérios do que permitir as pessoas fugirem de seus problemas psicológicos. Já é tempo de essas leis e políticas se basearem em realidades e serem avaliadas por suas conseqüências.
* Tradução literal da expressão “level playing field”, que significa um campo de jogo que não privilegia nenhum dos times. Um campo justo, onde cada adversário tem a mesma chance de ganhar. (N. do T.)
Publicado por Townhall
Uma das confusões que contamina as discussões sobre igualdade e desigualdade é a confusão entre os caprichos do destino e os pecados do homem. Há muito dos dois, mas eles precisam ser distinguidos claramente um do outro.
O fato simples de que há grandes diferenças entre indivíduos em relação a salários e ocupações e que seus níveis de vida dependem disso, tem sido visto como “injusto”, especialmente quando o acidente do nascimento tem muito a ver com essas grandes diferenças econômicas e sociais.
A vida é injusta. Não há razão para negar isso. De fato, é difícil imaginar como a vida poderia ser justa, dados todos os inumeráveis fatores que influenciam o sucesso ou o fracasso individual – e a forma como esses fatores variam enormemente de uma pessoa para outra, de um grupo para outro e de uma nação para outra.
Quaisquer que sejam as potencialidades com que alguém entre no mundo, o desenvolvimento dessas potencialidades em habilidades específicas depende dos pais, escolas, pares e valores culturais que envolvem o indivíduo.
Os esquimós têm, certamente, toda a inteligência requerida para plantar abacaxis, mas eles, dificilmente, terão essa experiência. Nem os havaianos, provavelmente, saberão como caçar focas no Ártico.
Crianças que crescem em lares onde os esportes são discutidos constantemente, mas não as ciências, não terão, provavelmente, os mesmos objetivos e as mesmas carreiras que as crianças que crescem em lares onde o contrário é verdadeiro.
Nada disso é culpa de alguém, nem daquele bode expiatório universal, a “sociedade”. Esses são apenas os caprichos do destino.
Por milhares de anos, o Hemisfério Ocidental como um todo não teve a oportunidade de se desenvolver do mesmo modo que a Europa e a Ásia, porque os cavalos e bois permitiram aos europeus e aos asiáticos construírem sua agricultura e seu meio de transporte através dessas bestas de carga – nenhuma delas existia no Hemisfério Ocidental até que foram trazidas pelos invasores europeus.
Todo o modo de vida tinha de ser diferente nesta metade do planeta em relação ao que era na vasta massa de terra eurasiana. De quem era a culpa?
Alguns grupos étnicos têm uma idade média uma década maior do que a média de outros e mesmo países inteiros como a Alemanha e Itália têm idades médias que são duas décadas maiores que a média do Afeganistão ou Yemem.
Seria isso um campo de jogo plano*? Não! Há uma injusta vantagem para aqueles com mais experiência e com mais capacidade adquirida pela maior experiência.
Outras diferenças são devidas aos pecados dos homens – discriminação, conquista, escravidão e muito mais. Mesmo assim, quaisquer que sejam as fontes das diferenças entre os povos, elas são enormes, assim como suas conseqüências econômicas.
Nada disso é difícil de entender em si mesmo. Mas tudo fica confuso e deformado pela retórica e pelas visões e as cruzadas da intelligentsia e dos políticos.
Mesmo nossos tribunais estão prontos para considerar diferentes distribuições de grupos nas ocupações como evidência de que o empregador discriminou, uma vez que é, aparentemente, inoportuno considerar que os próprios grupos podem diferir, tanto de forma quantificável, como em idade, quanto de forma intangível, como em atitudes.
Esse dogma igualitário está tão profundamente enraizado que diferentes taxas de aprovação em testes de um grupo em relação ao outro são tomadas como evidências de que algo está errado com os testes. Taxas diferentes de promoção no trabalho ou na escola são consideradas como prova virtual de que o empregador ou a escola está fazendo algo errado.
O autor de sucesso Shelby Steele tem argumentado, persuasivamente, que os brancos temem ser considerados racistas e os negros temem ser considerados inferiores natos – e que, como resultado, ambos os grupos fazem coisas tolas e contra-produtivas, Tais atitudes se aplicam em questões além das raciais.
As leis e políticas de uma nação precisam servir a propósitos mais sérios do que permitir as pessoas fugirem de seus problemas psicológicos. Já é tempo de essas leis e políticas se basearem em realidades e serem avaliadas por suas conseqüências.
* Tradução literal da expressão “level playing field”, que significa um campo de jogo que não privilegia nenhum dos times. Um campo justo, onde cada adversário tem a mesma chance de ganhar. (N. do T.)
Publicado por Townhall
O Dogma da Desigualdade
Thomas Sowell
Esta é mesmo a era dos dogmas, quando se trata de diferenças entre grupos. Alguns negam, cegamente, que diferenças de desempenho intergrupos são algo além de “estereótipos”, “percepções”, ou discriminação.
Do outro lado do espectro, o dogma é que diferenças mentais, especialmente – tanto entre indivíduos quanto entre grupos – são inatas, estão nos genes. As reações contra essa visão são tão fortes em alguns lugares que podem se tornar um caso de Justiça Federal aplicar testes de QI em crianças negras.
Essas visões opostas sobrevivem a séculos. No século XVIII, Adam Smith disse que as diferenças entre os portuários e os filósofos eram devidas à educação e sugeriu que havia menos diferença entre os homens que entre os cães.
Do outro lado, um estudioso islâmico do século X observou que os europeus ficavam mais brancos quanto mais ao norte se ia e, também, que “quanto mais ao norte eles viviam, mais estúpidos, grossos e brutos eles eram.” Mas, quais foram os fatos a partir do século X?
Desde a antiguidade, a Europa Mediterrânea – especialmente o extremo leste – foi muito mais avançada que o norte da Europa, em tecnologia, organização, alfabetização e todas as coisas que fazem uma sociedade mais avançada. O fato de que tudo isso mudou nos séculos posteriores não significa que esse estudioso do século X não estava correto, no que ele dizia, quando ele dizia. No mínimo, ele estava lá e nós não.
Infelizmente, os fatos têm tido um papel secundário na maior parte da discussão sobre as diferenças entre grupos, raças, nações e civilizações – tanto entre os que defendem a igualdade inata quanto entre os que defendem a desigualdade inata.
No início do século XX, muitos crentes na desigualdade inata apresentaram o que parecia ser um argumento logicamente sólido de que nosso QI nacional corria perigo de um declínio a longo prazo, uma vez que as pessoas com baixo QI, usualmente, tinham mais filhos que os de alto QI. Os movimentos pela eugenia e pelo controle de natalidade procuraram contrabalançar essa tendência propondo reduzir o número de crianças nascidas de pessoas com baixo QI.
A solidez lógica desse argumento se tornou sua maior vulnerabilidade quando confrontado com fatos reais. Uma ampla pesquisa conduzida pelo Professor James R. Flynn, um americano expatriado em Nova Zelândia, mostrou que, de fato, as nações têm aumentado substancialmente seus desempenhos em testes mentais ao longo dos anos.
Isso nunca deveria ter ocorrido se os testes de QI medissem habilidades inatas, predeterminadas pelos genes. Mesmo assim, o trabalho do Professor Flynn, amplamente reconhecido entre os estudiosos, revelou muitos países em que gerações inteiras respondiam maior número de questões certas nos testes de QI que seus pais e avós.
Pelo fato dos testes de QI terem, por definição, um escore médio de 100, os padrões mudam continuamente. Em outras palavras, se a pessoa média responde corretamente 42 questões num teste de QI, então 42 respostas corretas serão computadas como um QI de 100.
Uma geração mais tarde, se a pessoa média responde corretamente 53 questões no mesmo teste, então 53 respostas corretas serão definidas como um QI de 100. O que isso significa é que não havia nada para indicar como os resultados dos testes de QI estariam se aprimorando, até que o Professor Flynn voltou e consultou os resultados brutos dos escores e descobriu o quanto eles haviam aumentado ao longo de gerações.
Já é tempo de reconhecer os fatos como fatos, quaisquer que sejam nossas filosofias divergentes ou nossas esperanças. A preponderância da evidência é que os Europeus do norte não eram, nem de perto, tão avançados quanto os do sul no século X. Se existissem então testes de QI, os norte-europeus ficariam, indubitavelmente, num pobre segundo lugar.
Quando testes reais de QI foram desenvolvidos e aplicados no início do século XX nos EUA, os imigrantes do norte da Europa tiveram melhor desempenho que os do sul, cujos QI’s eram similares aos dos negros americanos. Não precisamos brigar com os resultados. Precisamos mudar a realidade que os testes medem.
Publicado por Townhall
Esta é mesmo a era dos dogmas, quando se trata de diferenças entre grupos. Alguns negam, cegamente, que diferenças de desempenho intergrupos são algo além de “estereótipos”, “percepções”, ou discriminação.
Do outro lado do espectro, o dogma é que diferenças mentais, especialmente – tanto entre indivíduos quanto entre grupos – são inatas, estão nos genes. As reações contra essa visão são tão fortes em alguns lugares que podem se tornar um caso de Justiça Federal aplicar testes de QI em crianças negras.
Essas visões opostas sobrevivem a séculos. No século XVIII, Adam Smith disse que as diferenças entre os portuários e os filósofos eram devidas à educação e sugeriu que havia menos diferença entre os homens que entre os cães.
Do outro lado, um estudioso islâmico do século X observou que os europeus ficavam mais brancos quanto mais ao norte se ia e, também, que “quanto mais ao norte eles viviam, mais estúpidos, grossos e brutos eles eram.” Mas, quais foram os fatos a partir do século X?
Desde a antiguidade, a Europa Mediterrânea – especialmente o extremo leste – foi muito mais avançada que o norte da Europa, em tecnologia, organização, alfabetização e todas as coisas que fazem uma sociedade mais avançada. O fato de que tudo isso mudou nos séculos posteriores não significa que esse estudioso do século X não estava correto, no que ele dizia, quando ele dizia. No mínimo, ele estava lá e nós não.
Infelizmente, os fatos têm tido um papel secundário na maior parte da discussão sobre as diferenças entre grupos, raças, nações e civilizações – tanto entre os que defendem a igualdade inata quanto entre os que defendem a desigualdade inata.
No início do século XX, muitos crentes na desigualdade inata apresentaram o que parecia ser um argumento logicamente sólido de que nosso QI nacional corria perigo de um declínio a longo prazo, uma vez que as pessoas com baixo QI, usualmente, tinham mais filhos que os de alto QI. Os movimentos pela eugenia e pelo controle de natalidade procuraram contrabalançar essa tendência propondo reduzir o número de crianças nascidas de pessoas com baixo QI.
A solidez lógica desse argumento se tornou sua maior vulnerabilidade quando confrontado com fatos reais. Uma ampla pesquisa conduzida pelo Professor James R. Flynn, um americano expatriado em Nova Zelândia, mostrou que, de fato, as nações têm aumentado substancialmente seus desempenhos em testes mentais ao longo dos anos.
Isso nunca deveria ter ocorrido se os testes de QI medissem habilidades inatas, predeterminadas pelos genes. Mesmo assim, o trabalho do Professor Flynn, amplamente reconhecido entre os estudiosos, revelou muitos países em que gerações inteiras respondiam maior número de questões certas nos testes de QI que seus pais e avós.
Pelo fato dos testes de QI terem, por definição, um escore médio de 100, os padrões mudam continuamente. Em outras palavras, se a pessoa média responde corretamente 42 questões num teste de QI, então 42 respostas corretas serão computadas como um QI de 100.
Uma geração mais tarde, se a pessoa média responde corretamente 53 questões no mesmo teste, então 53 respostas corretas serão definidas como um QI de 100. O que isso significa é que não havia nada para indicar como os resultados dos testes de QI estariam se aprimorando, até que o Professor Flynn voltou e consultou os resultados brutos dos escores e descobriu o quanto eles haviam aumentado ao longo de gerações.
Já é tempo de reconhecer os fatos como fatos, quaisquer que sejam nossas filosofias divergentes ou nossas esperanças. A preponderância da evidência é que os Europeus do norte não eram, nem de perto, tão avançados quanto os do sul no século X. Se existissem então testes de QI, os norte-europeus ficariam, indubitavelmente, num pobre segundo lugar.
Quando testes reais de QI foram desenvolvidos e aplicados no início do século XX nos EUA, os imigrantes do norte da Europa tiveram melhor desempenho que os do sul, cujos QI’s eram similares aos dos negros americanos. Não precisamos brigar com os resultados. Precisamos mudar a realidade que os testes medem.
Publicado por Townhall
03/01/2006
O Dogma da Igualdade
Thomas Sowell
Alguns leitores reclamaram de uma afirmação desta coluna de que estudantes negros, usualmente, não se saem tão bem nos estudos quanto os estudantes de origem asiática. Esses leitores parecem pensar que essa é uma opinião pessoal – ou mesmo uma afirmação imoral.
Parece que nunca ocorreu a eles que esse é um fato verificável, demonstrado em inumeráveis estudos ao longo dos anos, por muitos estudiosos de várias raças. Como John Adams disse, há mais de dois séculos: “Os fatos são coisas teimosas e quaisquer que sejam os nossos desejos, as nossas inclinações ou os ditados de nossas paixões, eles não podem alterar os fatos e as evidências.”
Há mais coisas envolvidas do que uma confusão entre fatos e opiniões. O dogma reinante de nosso tempo é a igualdade – e qualquer coisa que parece ir contra ele, cria uma resposta automática, muito parecida com as repostas condicionadas do cão de Pavlov.
Quando discutimos igualdade, devemos, pelo menos, ser claros sobre o que queremos dizer: Igualdade de quê? Desempenho? Potencial? Tratamento? Humanidade? Freqüentemente, o fervor das palavras serve como substituto da clareza do significado.
É fato inegável que diferentes grupos exibem diferentes desempenhos num amplo espectro de atividades. Alguém seriamente acredita que os brancos jogam basquete tão bem quanto os negros? Alguém fica surpreso quando jovens americanos de origem asiática ganham prêmios científicos, ano após ano?
Podem-se encher páginas e páginas com exemplos de grupos particulares que excelem em atividades determinadas. Quanto se fala de desempenho, enormes disparidades são a regra e não a exceção. E desempenho é o que conta.
Os politicamente corretos podem tentar argumentar que esses são todos “estereótipos” ou “percepções”, mas dados reais mostram que as cervejas mais vendidas nos EUA são as criadas por indivíduos de ancestrais alemães. É a mesma história do outro lado do mundo, onde a famosa cerveja chinesa Tsingtao foi criada por alemães.
O que desagrada certas pessoas é a inferência de que diferenças de desempenho refletem diferenças inatas de potencial. Mas há enormes diferenças em tudo que transforma potencial em desempenho.
No século XIX, um oficial russo relatou que mesmo o mais pobre dos Judeus, na Rússia, conseguia ter livros em sua casa e que “toda a população judia estudava,” enquanto livros eram virtualmente desconhecidos pela maior parte da população não judia.
Quando o repórter da C-SPAN, Brian Lamb, recentemente, perguntou a autora Abigail Thernstrom porque os Judeus tinham escores tão altos em testes mentais, ela respondeu: “Eles têm se preparado para esses testes nos últimos mil anos.”
Um recente estudo das Nações Unidas mostra que as publicações per capita na Europa hoje são, pelo menos, dez vezes maiores que nos países árabes ou na África. Como potencial igual pode levar a igual desempenho quando há tão grandes disparidades em fatores intervenientes?
O fato de algumas sociedades educarem, por longo tempo, meninos e meninas, enquanto outras não se preocuparem em educar as meninas, significa que algumas sociedades jogam fora metade de seus talentos e habilidades inatos. Como poderiam seus desempenhos não ser diferentes?
Não são só alguns leitores, mas agências governamentais e as altas cortes do país que dogmatizam contra qualquer reconhecimento de diferenças no comportamento e no desempenho entre grupos. Diferenças estatísticas nos resultados são, automaticamente, suspeitas de discriminação, como se os próprios grupos não pudessem, de nenhuma forma, ser diferentes no comportamento ou no desempenho.
Qualquer escola que disciplina mais as meninas negras que as de origem asiática se arrisca a um processo, como se não pudesse haver diferenças de comportamento entre as próprias crianças. Empregadores podem ser processados por discriminação, mesmo se ninguém puder encontrar uma única pessoa discriminada, se os dados de suas contratações ou promoções mostrarem diferenças entre grupos étnicos ou entre homens e mulheres.
Os maiores perdedores com essas noções dogmáticas são as pessoas que precisam muito mudar seus comportamentos, mas de quem esse conhecimento crucial é sonegado por seus “líderes” ou “amigos”.
Publicado por Townhall
A Neurociência Refuta o Livre-Arbítrio?
Lucretius
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Essa é a maravilhosa tolice do mundo: quando as coisas não nos correm bem - muitas vezes por culpa de nossos próprios excessos - pomos a culpa de nossos desastres no sol, na lua e nas estrelas, como se fossemos celerados por necessidade, tolos por compulsão celeste, velhacos, ladrões e traidores pelo predomínio das esferas; bêbedos, mentirosos e adúlteros, pela obediência forçosa a influências planetárias, sendo toda nossa ruindade atribuída à influência divina...
William Shakespeare
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No trecho acima de Rei Lear encontramos uma descrição daqueles que, através da história humana, negam o livre-arbítrio e a responsabilidade pessoal, culpando de suas falhas as intervenções divinas e planetárias. Num recente artigo, Joshua Greene e Jonathan Cohen se somam aos crentes da “influência divina” [1]. Como esta é a era científica e nossos autores são neurocientistas de carteirinha, a influência divina se torna a influência da neurociência, o cérebro fazendo o papel das estrelas celestes.
O ímpeto divino de seu argumento é que não temos livre-arbítrio porque existe a neurociência, apesar de nossas leis ainda não levá-la em conta: “... o suporte intuitivo do sistema legal é, em última instância, fundamentado em uma noção excessivamente ambiciosa e libertária de livre-arbítrio que é questionada pelo determinismo e, de maneira mais marcante, pela nascente neurociência cognitiva ... O efeito líquido desse influxo de informação científica será a rejeição do livre-arbítrio como concebido ordinariamente, com importantes ramificações no Direito” [2].
Quais são essas ramificações? Para começar, o conceito de responsabilidade pessoal está obsoleto. Como todas as ações são determinadas pelo “estado preexistente do universo”, não temos escolha. Como eles explicam: “Dado um conjunto de condições prévias no universo e um conjunto de leis físicas que governam completamente a forma com que o universo evolui, há somente uma maneira para as coisas procederem.” Então, podemos, logicamente, referenciar, retroativamente, tudo ao Big Bang que pariu o universo. Se você me perguntar, por exemplo, porque eu comi pão ao invés de banana, hoje, no meu café da manhã, posso me referir à teoria do Big Bang sobre a ação humana.
Mas, se já existe o Big Bang, por que precisamos da neurociência para nos revelar nossa falta de livre-arbítrio? De acordo com Greene e Cohen, por séculos, os filósofos “científicos”, ou seja, os filósofos do seu campo determinista, têm argumentado contra o livre-arbítrio, mas pelo fato da mente ter sido, até então, uma caixa-preta, era fácil para o povo – iludido pela religião – para os humanistas “soft” e para outras almas lerdas, se agarrarem à ilusão do livre-arbítrio. Agora, que temos a neurociência, a mente não é mais uma caixa-preta – já é tempo para o resto de nós acordar de nosso sono dogmático e sentir o perfume do universo determinístico. Em resumo, enquanto o Big Bang nos dá a visão global, a neurociência nos fornece os detalhes que mostrarão com clareza abundante, mesmo ao público leigo, que somos afinal e literalmente, marionetes no universo determinístico.
Culpe o Cérebro
Greene e Cohen argumentam que nossos cérebros são responsáveis por todo o nosso comportamento. Nossos cérebros cometem crimes. “Nós” somos inocentes. Assim, em outras palavras, “demonstrar que há um fundamento cerebral para as transgressões dos adolescentes nos permite culpar seus cérebros, ao invés, deles próprios”. Felizmente, os garotos da vizinhança não leram o artigo, pois nele se encontra a defesa pelo estrago de sua propriedade: eu não fiz nada, foi meu cérebro!
Apesar de ser conhecido, mesmo antes de Platão, que o cérebro desempenha um papel fundamental no comportamento, esse argumento particular é, de fato, novo. Uma razão que impede que outros sejam intrépidos o suficiente para desenvolver ainda mais o argumento (apesar da eterna insistência a favor do determinismo) é que ele contém um erro categórico óbvio. Greene e Cohen comparam duas fontes de ação opostas – seu cérebro e você – como se elas fossem mutuamente exclusivas, como se, sem seu cérebro, você pudesse ser, ainda, um agente moral.
Como resultado desse erro, Greene e Cohen concluem, “a idéia de distinguir os culpados verdadeiros daqueles que são meras vítimas das circunstâncias neurológicas parecerá, a nosso ver, sem sentido”.
Mas o agente moral, no sentido legal, é o pacote completo – você, consistindo de seu cérebro e do resto. Dizer que somos vítimas de circunstâncias neurológicas é o mesmo que dizer que somos vítimas de nós mesmos. A suposição fundamental é a de que não temos controle sobre as “circunstâncias neurológicas” , tal como não temos controle sobre as “circunstâncias externas”. Mas essa suposição (suposição behaviorista em nova embalagem) contradiz, inteiramente, nosso conhecimento de que o cérebro é um sistema biológico auto-organizado e auto-regulado e não, meramente, uma etapa na transformação de algum estímulo externo numa saída comportamental. Não é necessário, entretanto, discutir o cérebro, em nenhum nível de detalhe, para refutar Greene e Cohen, pois, seus argumentos não são, absolutamente, baseados em algum conhecimento sobre o cérebro. A lógica primitiva ensina que, por exemplo, se eu roubo sua carteira, são as minhas mãos que devem ser cortadas.
Sr. Marionete
Para ser justo, Greene e Cohen perceberam que culpar o cérebro por tudo não é suficiente. Eles têm outra arma escondida contra o livre-arbítrio, um outro “experimento mental”. Pois, sua estratégia é gerar tantos argumentos contra o livre-arbítrio quantos eles puderem, na esperança de que alguns deles farão estragos suficientes, mesmo que esses argumentos se contradigam uns aos outros.
Em sua segunda tentativa, eles insistem em que imaginemos o caso de “Sr. Marionete”, um criminoso projetado por um grupo de cientistas, sob um rígido controle genético e ambiental. Durante o julgamento do Sr. Marionete, o cientista-chefe é chamado como testemunha de defesa. E aqui está a sua fala, de acordo com Greene e Cohen:
“Eu o projetei. Cuidadosamente selecionei cada gene em seu corpo e projetei cada evento significante em sua vida, de forma a torná-lo, exatamente, o que ele é hoje. Selecionei sua mãe, sabendo que ela o deixaria chorar por horas, antes de pegá-lo no colo. Selecionei, cuidadosamente, cada um dos parentes, professores, amigos, inimigos etc., e os disse, exatamente, o que dizer a ele e como tratá-lo. As coisas, de um modo geral, aconteceram como o planejado, mas não sempre. Por exemplo, as cartas iradas escritas ao seu falecido pai não estavam planejadas até que ele tivesse catorze anos, mas antes do seu décimo terceiro ano de vida, ele já tinha escrito quatro delas. Em retrospecto, penso que isso é devido a algumas poucas substituições que fiz em seu oitavo cromossomo.”
É claro que uma mudança num cromossomo não pode determinar o momento da formulação de uma carta malvada, pois o genoma não contém informação que especifique qualquer de nossas ações. A regulação ambiental é, também, impossível, exceto na ficção científica. Mas, plausibilidade ou conhecimento da biologia básica não podem ser esperados de nossos autores. Greene e Cohen acreditam que o Sr. Marionete não é responsável por suas ações, porque “forças além de seu controle desempenharam um papel dominante no cometimento de seus crimes, sendo difícil pensar que ele seja algo mais que um fantoche.”
Mas, mesmo assumindo, só para argumentar, que tal pessoa poderia ser assim projetada, devemos concluir que ele é, de fato, uma marionete do cientista-projetista, enquanto que nós não somos marionetes desse tipo. Nossos genes não são selecionados, nem nosso ambiente é projetado, por alguém.
Naturalmente, contudo, Greene e Cohen chegam a uma conclusão, completamente, diferente: “Qual é a diferença entre o Sr. Marionete e qualquer acusado de um crime? Afinal, temos poucas razões para duvidar que (i) o estado do universo 10.000 anos atrás, (ii) as leis físicas e (iii) os resultados dos eventos quânticos aleatórios são, juntos, suficientes para determinar tudo que acontece hoje, incluindo nossas próprias ações. Essas coisas estão, claramente, além de nosso controle. Então, qual é a real diferença entre nós e o Sr. Marionete? ... num sentido muito real, somos todos marionetes. Os efeitos combinados dos genes e do ambiente determinam todas as nossas ações. O Sr. Marionete é excepcional apenas na medida em que as intenções de outros seres humanos estão por trás de seus genes e de seu ambiente. Mas, isso não importa, uma vez que seus genes e seu ambiente são, intrinsecamente, comparáveis àqueles das pessoas comuns. Não somos mais livres que ele.”
Num aparente escorregão, eles reconhecem que os cientistas tiveram intenções, que eles deliberadamente agiram no projeto do Sr. Marionete. Suas ações, aparentemente, diferem das causas que não são ações humanas. Greene e Cohen nunca se preocuparam em perguntar se esses cientistas deviam ser punidos por projetarem, especificamente, alguém para cometer crimes, se eles são os responsáveis, afinal. Mas, se somos forçados a aceitar esse cenário, então, a responsabilidade pelos crimes parece ser dos cientistas – por projetarem marionetes criminosas.
De acordo com Greene e Cohen, no entanto, os genes e o ambiente do Sr. Marionete são “intrinsecamente comparáveis” àqueles das pessoas comuns, como se vivêssemos todos num ambiente projetado, no qual as pessoas, deliberadamente, abusassem de nós e nos mentisse; como se nossos genes, ao invés de serem resultados da seleção natural, fossem escolhidos por um time de cientistas do mal. Intrinsecamente comparáveis? Por isso eles, presumivelmente, querem dizer que o ambiente é ainda um ambiente terreno como o nosso, – a mesma casa com mobília, aparelho de TV e pais etc. – e os genes são, ainda, cadeias de DNA feitas de férteis nucleotides. Mas, claramente, essas características “intrínsecas” são irrelevantes no caso do Sr. Marionete. Seus genes e seu ambiente são, afinal, projetados para torná-lo um criminoso. Mas note, em particular, a ênfase peculiar de Greene e Cohen na combinação de genes e ambiente. A Biologia, é claro, nos diz que há fatores adicionais que não são nem genéticos nem ambientais, mas, podemos, seguramente, supor que esses autores, não possuindo nenhum interesse particular na ciência da Biologia, não estejam interessados nisso.
Sendo cientistas metafóricos, por “genes e ambiente” eles querem dizer tudo que nos faz o que somos, tudo que determina nossas ações. Nós estamos, agora, prontos para traduzir suas alegações para a linguagem comum: tudo que determina quem nós somos, determina quem nós somos; tudo que determina nossas ações, determina nossas ações. Certamente, não temos controle sobre tudo – Greene e Cohen, corretamente, assim supõem. E, seguramente, todos os possíveis fatores combinados determinam nossas ações. Mas, no processo de tirar essa brilhante conclusão eles se afundaram num caos mental e não perceberam a circularidade no processo. Somos compelidos, pelas leis da lógica, a concordar com eles: Sim, banana é banana.
Ilusão do livre-arbítrio
Tendo posto o livre-arbítrio em seu devido lugar, Greene e Cohen estão prontos para nos explicar o porquê de pensarmos que temos tal coisa. Se pensamos que temos alguma coisa que não existe, então, essa coisa deve ser uma ilusão. Assim, eles afirmam que nosso cérebro gera a ilusão de livre-arbítrio para que pensemos que estamos no controle dos processos.
Com toda a modéstia, nossos autores se comparam a Copérnico, Darwin e Freud em seus esforços em desbancar o narcisismo humano. Copérnico removeu a Terra do centro do universo. Darwin removeu os seres humanos do comando da Terra e Freud removeu a consciência como o único determinante do comportamento humano. Vem aí outro golpe baixo – mesmo aquele pequeno controle que você tem sobre suas ações é uma ilusão.
Parece-me, no entanto, que esse é um caso de sadomasoquismo. Greene e Cohen parecem auferir um autêntico prazer em atingir o narcisismo humano, representado pela psicologia popular do livre-arbítrio. Você acha que decidiu ler esse artigo porque o considerou interessante. Mas, não, você não tem a mínima idéia da razão e aquele pensamento que primeiro lhe assaltou foi, realmente, apenas alguma ilusão criada pelo seu cérebro para mascarar sua falta de idéia.
Quanto insulto a seu narcisismo você pode suportar? Essa é a questão, da qual sua humanidade científica depende. Somente cientistas durões, como Greene e Cohen, são corajosos o suficiente para enfrentar o determinismo de frente, sem ilusões. E se você não acha que é uma marionete, eles o esmurrarão com seus experimentos mentais e seus dados imaginários até que você, nocauteado, desistir de si mesmo. E assim o jogo continua. Apesar de eu não desejar negar a diversidade de prazeres sentidos por Greene e Cohen por se tornarem marionetes de uma ficção metafísica e porta-vozes de uma fanfarrice pseudocientífica, desejo, sim, examinar a evidência que eles apresentam para suas assertivas.
Essa evidência vem do trabalho de Daniel Wegner [3], um psicólogo de Harvard e um outro cientista metafórico. De acordo com Wegner, nossas ações não são causadas por nossa vontade. Para fundamentar essa afirmação ele cita a evidência de que a hipnose ou danos cerebrais pode prejudicar nossa noção de livre-arbítrio, de que várias manipulações experimentais podem criar em nós a ilusão de controle.
Nossa resposta imediata é: E daí? Não teremos livre-arbítrio se nossas cabeças forem cortadas. Não teremos livre-arbítrio se estivermos dormindo. Às vezes, erroneamente, pensamos que fizemos algo quando, de fato, não o fizemos. Disso, no entanto, não se pode concluir que o livre-arbítrio é uma ilusão.
Sob hipnose, por exemplo, podemos sentir nosso braço se levantando, mesmo que não o desejemos. Da mesma forma, quando nosso córtex motor ou nosso músculo é estimulado, vários movimentos podem ser induzidos sem nosso controle. Para Wegner, entretanto, essa sensação de “olha, aconteceu!” é a descrição mais precisa do que realmente aconteceu, quando agimos. Nunca ocorreu a ele que não há nenhuma instância de vontade porque aquelas não são instâncias de ações voluntárias sob nosso controle.
Wegner prefere, muito mais, essa sensação de passividade, pois só assim nos sentimos como objetos inanimados. Quando meu braço faz algo incontrolável, ele está agindo como um “objeto científico”, como um tijolo. Nosso livre-arbítrio deve ser uma ilusão porque ele não se encaixa na compreensão científica do mundo, esposada por Wegner.
O filósofo Daniel Dennet acredita que, por conveniência, adotamos a “postura intencional” quando interpretamos o comportamento dos outros seres humanos. A posição de Wegner pode ser descrita como “postura passiva”. Ele prefere sentir-se como o sujeito hipnotizado, o paciente com o dano cerebral ou um zumbi, porque, de acordo com sua Weltanschauung científica, a postura passiva é um reflexo mais preciso da realidade. Mas, a questão permanece: quem está iludido, Wegner ou o homem comum das ruas?
Concordar com Wegner resulta em que nossa sensação de livre-arbítrio é uma ilusão. Greene e Cohen vão um passo mais longe e afirmam que nossa atribuição de livre-arbítrio aos outros é, também, uma ilusão. Eles citam um estudo de Heberlein et al., onde se apresenta o seguinte vídeo para sujeitos humanos: um grande triângulo caça um pequeno círculo na tela, trombando com ele. O pequeno círculo foge repetidamente, e um pequeno triângulo se move, repetidamente, entre o círculo e o grande triângulo. Quando pessoas normais assistem ao vídeo, eles vêem essas interações em termos sociais e intencionais. O grande triângulo tenta ferir o pequeno círculo e o pequeno triângulo tenta proteger o pequeno círculo. Contudo, um paciente com algum dano na amygdala, uma coleção de estruturas cerebrais em forma de amêndoa, não consegue atribuir intenções a essas figuras [4]. Conseqüentemente, para Greene e Cohen, como essa atribuição de livre-arbítrio é gerada por uma área cerebral, ela é, também, uma ilusão.
Os leitores de meu artigo anterior estão familiarizados com a inclinação de Greene e Cohen na direção da especulação evolutiva. Aqui eles atacam novamente. De acordo com sua nova historinha, partes do cérebro, no curso da evolução, se tornam módulos especializados da psicologia popular, isto é, atribuindo livre-arbítrio aos outros; outras partes se tornam módulos especializados da física popular, isto é, acreditando naqueles movimentos tipicamente encontrados nos desenhos de Disney. Sabemos que a física popular está errada, mas, de acordo com Greene e Cohene, a psicologia popular está igualmente errada. Por causa de nossa psicologia popular, encaramos outros objetos animados como causadores sem causa*. Mas, depois que aprendemos neurociência, “quando olhamos as pessoas como sistemas físicos, não podemos vê-las nem mais dignas de reprovação, nem mais dignas de elogio, do que um tijolo”.
Talvez possamos conjeturar, ao lado dos sistemas da física e da psicologia popular, sobre um terceiro sistema do masoquismo cientificista que, enganosamente, faz alguém acreditar que é um tijolo à mercê das forças da natureza, ao invés de um agente responsável por suas ações. A base neurológica para o terceiro sistema, a meu ver, está, ainda, para ser estabelecida.
Então, em resumo, nossos teóricos cabeças-de-tijolo culpam a psicologia popular por considerarmos os agentes morais como causadores sem causa. Como não somos causadores sem causa, não podemos ser agentes morais, e, assim, não podemos ser responsáveis por nossas ações.
Se sou causador sem causa, minhas ações são isoladas de todas as influências externas. Supunha que um homem seja condenado à prisão perpétua por matar um guarda, durante um assalto a banco. Tal punição não evitará que eu faça o mesmo. A prevenção é, realmente, impossível se sou um causador sem causa de minhas ações.
Não obstante, isso não pode, de forma alguma, ser uma suposição oculta de nossas leis, pois, não se explica, assim, a intencionalidade como o foco do sistema legal. De acordo com a psicologia popular que Greene e Cohen atacam incansavelmente, é caracteristicamente humano que, deliberadamente, escolhamos meios apropriados para alcançar os fins desejados. Essa capacidade nos torna agentes morais, alvos de elogios e críticas. Por exemplo, um ato não é reprovável, a menos que haja uma mente culpada (Reum non facit nisi mens rea).
Como Mises repetidamente alerta, o próprio conceito de ação humana, de meios e fins, pressupõe a categoria da causalidade. Responsabilidade não implica que somos motores imóveis no sentido aristotélico, que estejamos de fora da cadeia de causa e efeito, mas significa que, como agentes de ações intencionais, estamos numa peculiar posição em uma longa cadeia de causas que se alonga até o Big Bang. Somos agentes capazes de controlar nossas ações e não um sistema ato-reflexo que transforma estímulo em resposta.
A lei pune, então, crimes que são o resultado da deliberação e da vontade e é indulgente com os acidentes ou aqueles agentes incapazes de ações racionais (p.ex. crianças). Essa seletividade só pode estar baseada na idéia de prevenção. Pois, seria absurdo dizer a alguém para não matar se ele não fosse capaz de deixar de fazê-lo, tanto quanto seria absurdo dizer a alguém para parar seu próprio coração.
Por seu turno, a lei pune crimes que resultam de ações que podemos controlar e podemos, então, evitá-las no futuro. Se a lei se baseasse na suposição da existência de causadores sem causa, não teria sentido fazer distinções entre assassinato deliberado e morte acidental. Penas rígidas seriam aplicadas em todos os crimes. Está fora do escopo deste artigo, naturalmente, a discussão da história do Direito, apesar de ser necessário alertar que o conceito de responsabilidade pessoal em crimes violentos é, de fato, um desenvolvimento relativamente recente. Penas extensíveis a parentes e senhores do criminoso eram comuns em muitas sociedades primitivas. (Aos interessados, sugiro a leitura da obra-prima de Pallack e Maitland ou o livro de Zane sobre a história do Direito).
Lei e liberdade
O livre-arbítrio, no sentido aqui discutido, significa que os seres humanos controlam o que eles fazem. A neurociência não mudará esse fato. A ficção científica, do tipo que Greene e Cohen gostam, pode sempre imaginar o contrário. Nesse sentido, ela não pode ser distinguida de qualquer religião teleológica.
De fato, esse tipo de determinismo, que afirma que os seres humanos não escolhem, não agem, mas sempre são objetos de ações, tem reaparecido inúmeras vezes na história, sob vários disfarces. É um fato histórico que selvagens primitivos, fanáticos religiosos e crentes nas leis inexoráveis da história têm, sempre, advogado alguma versão dele. No desenvolvimento dos sistemas legais, o conceito de responsabilidade pessoal também evoluiu, parcialmente porque alguns seres humanos, depois de se libertarem das superstições e da “postura passiva”, começaram a entender a natureza de suas próprias ações e seus efeitos sobre o mundo. O individualismo ilustrado, devemos lembrar, foi um desenvolvimento tardio e ainda permanece impopular em muitas partes do mundo. A psicologia popular intuitiva da ação humana que possuímos é o produto de tal ilustração. Por outro lado, ao atacar o conceito de livre-arbítrio e da responsabilidade pessoal, Greene e Cohen, meramente, revivem o culto do pensamento irracional, que por muito tempo prevaleceu nas sociedades humanas. Não deve nos surpreender, contudo, em descobrirmos no seu artigo a seguinte sentença: “a racionalidade é apenas presumivelmente correlacionada com o que a maioria realmente se preocupa”. De fato, o que sobra da racionalidade quando você não é responsável por suas ações?
No lugar da razão, esses autores colocam o bem-estar agregado. A lei, reformada à luz do conhecimento neurocientífico, de acordo com os dois autores, tem o objetivo de promover o futuro bem-estar, ao invés de punir os responsáveis por seus crimes. Num artigo anterior, discuti a tentativa desses autores de abolirem as normas morais universais, usando dados de imagens cerebrais, em nome do bem-estar agregado. Devemos, pelo menos, aplaudir sua consistência. Certamente, uma norma moral como o Imperativo Categórico não teria nenhum sentido se não houvesse o livre-arbítrio. Por que dizer a alguém para não roubar se ele não é capaz de obedecer, se o culpado é seu cérebro?
Depois de tudo considerado, seus argumentos se resumem a: (1) criminosos não são responsáveis por seus crimes, pois, tudo que determina quem ele é, determina quem ele é; (2) ao invés de punir criminosos pelo que eles fizeram, a lei deve maximizar o bem-estar futuro.
Eticamente, parece ridículo argumentar contra o bem-estar total da humanidade, tal como logicamente é impossível refutar uma tautologia. A lição a ser aprendida aqui é que você deve sempre se acautelar quando alguém defende algo que não pode ser contraditado, pois há, freqüentemente, um plano oculto anexo ao pacote nada-pode-estar-errado, que se autodestruirá uma vez aberto. Como alertei no artigo anterior, o conceito de bem-estar agregado é vazio, criado por conveniência. Não podemos calcular o que é esse bem-estar, apesar de podermos indiretamente observar, pelo estudo da história, os efeitos de longo prazo de certas regras e práticas em grupos que as seguem.
Num sentido mais recente e concreto de bem-estar, nosso atual sistema legal parece ter sido um dos principais promotores de bem-estar humano, julgando-se pela extraordinária difusão de idéias relevantes no Ocidente, contra freqüentes e fortes resistências dos costumes e práticas locais.
Finalmente, ao longo de seu ensaio, Greene e Cohen enfatizam que o conceito “libertário” de livre-arbítrio que eles atacam não tem nenhuma conexão com a filosofia política. As leis protegem a liberdade e liberdade requer responsabilidade.
Seus argumentos a favor do determinismo são, ainda, outra tentativa de abolir as leis como regras abstratas que se aplicam a todos, indistintamente. Ao contrário, o Estado e seus “especialistas cientistas” decidirão se uma pessoa será ou não um mal para a sociedade, a fim de maximizar o bem-estar futuro em cada caso (isto é, fazer o que aqueles no poder desejam). A própria lei se torna sem sentido. E, ao invés de regra geral que protege a liberdade individual, nas mãos de Greene e Cohen, e em nome da neurociência, a lei será usada como um instrumento para a intervenção estatal e para julgamentos arbitrários, destruindo a liberdade.
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Lucretius é um neurobiologista e vive em Mariland, EUA.
1. Greene, J. & Cohen, J. "For the law, neuroscience changes nothing and everything." Philos Trans R Soc Lond B Biol Sci 359, 1775-85 (2004).
2. von Mises, L. Theory and History (Mises Institute, 1957).
3. Wegner, D. M., "Precis of the illusion of conscious will". Behav Brain Sci 27, 649-59; discussion 659-92 (2004).
4. Heberlein, A. S. & Adolphs, R., "Impaired spontaneous anthropomorphizing despite intact perception and social knowledge". Proc Natl Acad Sci U S A 101, 7487-91 (2004).
* Uncaused causers, no original. O sentido aqui é de quem é causa das coisas, mas não é efeito de nenhuma causa, de quem se determina a si mesmo, livremente. É o conceito ligado à expressão causa sui, no sentido escolástico. (N. do T.)
Publicado pelo Mises Institute.
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Essa é a maravilhosa tolice do mundo: quando as coisas não nos correm bem - muitas vezes por culpa de nossos próprios excessos - pomos a culpa de nossos desastres no sol, na lua e nas estrelas, como se fossemos celerados por necessidade, tolos por compulsão celeste, velhacos, ladrões e traidores pelo predomínio das esferas; bêbedos, mentirosos e adúlteros, pela obediência forçosa a influências planetárias, sendo toda nossa ruindade atribuída à influência divina...
William Shakespeare
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No trecho acima de Rei Lear encontramos uma descrição daqueles que, através da história humana, negam o livre-arbítrio e a responsabilidade pessoal, culpando de suas falhas as intervenções divinas e planetárias. Num recente artigo, Joshua Greene e Jonathan Cohen se somam aos crentes da “influência divina” [1]. Como esta é a era científica e nossos autores são neurocientistas de carteirinha, a influência divina se torna a influência da neurociência, o cérebro fazendo o papel das estrelas celestes.
O ímpeto divino de seu argumento é que não temos livre-arbítrio porque existe a neurociência, apesar de nossas leis ainda não levá-la em conta: “... o suporte intuitivo do sistema legal é, em última instância, fundamentado em uma noção excessivamente ambiciosa e libertária de livre-arbítrio que é questionada pelo determinismo e, de maneira mais marcante, pela nascente neurociência cognitiva ... O efeito líquido desse influxo de informação científica será a rejeição do livre-arbítrio como concebido ordinariamente, com importantes ramificações no Direito” [2].
Quais são essas ramificações? Para começar, o conceito de responsabilidade pessoal está obsoleto. Como todas as ações são determinadas pelo “estado preexistente do universo”, não temos escolha. Como eles explicam: “Dado um conjunto de condições prévias no universo e um conjunto de leis físicas que governam completamente a forma com que o universo evolui, há somente uma maneira para as coisas procederem.” Então, podemos, logicamente, referenciar, retroativamente, tudo ao Big Bang que pariu o universo. Se você me perguntar, por exemplo, porque eu comi pão ao invés de banana, hoje, no meu café da manhã, posso me referir à teoria do Big Bang sobre a ação humana.
Mas, se já existe o Big Bang, por que precisamos da neurociência para nos revelar nossa falta de livre-arbítrio? De acordo com Greene e Cohen, por séculos, os filósofos “científicos”, ou seja, os filósofos do seu campo determinista, têm argumentado contra o livre-arbítrio, mas pelo fato da mente ter sido, até então, uma caixa-preta, era fácil para o povo – iludido pela religião – para os humanistas “soft” e para outras almas lerdas, se agarrarem à ilusão do livre-arbítrio. Agora, que temos a neurociência, a mente não é mais uma caixa-preta – já é tempo para o resto de nós acordar de nosso sono dogmático e sentir o perfume do universo determinístico. Em resumo, enquanto o Big Bang nos dá a visão global, a neurociência nos fornece os detalhes que mostrarão com clareza abundante, mesmo ao público leigo, que somos afinal e literalmente, marionetes no universo determinístico.
Culpe o Cérebro
Greene e Cohen argumentam que nossos cérebros são responsáveis por todo o nosso comportamento. Nossos cérebros cometem crimes. “Nós” somos inocentes. Assim, em outras palavras, “demonstrar que há um fundamento cerebral para as transgressões dos adolescentes nos permite culpar seus cérebros, ao invés, deles próprios”. Felizmente, os garotos da vizinhança não leram o artigo, pois nele se encontra a defesa pelo estrago de sua propriedade: eu não fiz nada, foi meu cérebro!
Apesar de ser conhecido, mesmo antes de Platão, que o cérebro desempenha um papel fundamental no comportamento, esse argumento particular é, de fato, novo. Uma razão que impede que outros sejam intrépidos o suficiente para desenvolver ainda mais o argumento (apesar da eterna insistência a favor do determinismo) é que ele contém um erro categórico óbvio. Greene e Cohen comparam duas fontes de ação opostas – seu cérebro e você – como se elas fossem mutuamente exclusivas, como se, sem seu cérebro, você pudesse ser, ainda, um agente moral.
Como resultado desse erro, Greene e Cohen concluem, “a idéia de distinguir os culpados verdadeiros daqueles que são meras vítimas das circunstâncias neurológicas parecerá, a nosso ver, sem sentido”.
Mas o agente moral, no sentido legal, é o pacote completo – você, consistindo de seu cérebro e do resto. Dizer que somos vítimas de circunstâncias neurológicas é o mesmo que dizer que somos vítimas de nós mesmos. A suposição fundamental é a de que não temos controle sobre as “circunstâncias neurológicas” , tal como não temos controle sobre as “circunstâncias externas”. Mas essa suposição (suposição behaviorista em nova embalagem) contradiz, inteiramente, nosso conhecimento de que o cérebro é um sistema biológico auto-organizado e auto-regulado e não, meramente, uma etapa na transformação de algum estímulo externo numa saída comportamental. Não é necessário, entretanto, discutir o cérebro, em nenhum nível de detalhe, para refutar Greene e Cohen, pois, seus argumentos não são, absolutamente, baseados em algum conhecimento sobre o cérebro. A lógica primitiva ensina que, por exemplo, se eu roubo sua carteira, são as minhas mãos que devem ser cortadas.
Sr. Marionete
Para ser justo, Greene e Cohen perceberam que culpar o cérebro por tudo não é suficiente. Eles têm outra arma escondida contra o livre-arbítrio, um outro “experimento mental”. Pois, sua estratégia é gerar tantos argumentos contra o livre-arbítrio quantos eles puderem, na esperança de que alguns deles farão estragos suficientes, mesmo que esses argumentos se contradigam uns aos outros.
Em sua segunda tentativa, eles insistem em que imaginemos o caso de “Sr. Marionete”, um criminoso projetado por um grupo de cientistas, sob um rígido controle genético e ambiental. Durante o julgamento do Sr. Marionete, o cientista-chefe é chamado como testemunha de defesa. E aqui está a sua fala, de acordo com Greene e Cohen:
“Eu o projetei. Cuidadosamente selecionei cada gene em seu corpo e projetei cada evento significante em sua vida, de forma a torná-lo, exatamente, o que ele é hoje. Selecionei sua mãe, sabendo que ela o deixaria chorar por horas, antes de pegá-lo no colo. Selecionei, cuidadosamente, cada um dos parentes, professores, amigos, inimigos etc., e os disse, exatamente, o que dizer a ele e como tratá-lo. As coisas, de um modo geral, aconteceram como o planejado, mas não sempre. Por exemplo, as cartas iradas escritas ao seu falecido pai não estavam planejadas até que ele tivesse catorze anos, mas antes do seu décimo terceiro ano de vida, ele já tinha escrito quatro delas. Em retrospecto, penso que isso é devido a algumas poucas substituições que fiz em seu oitavo cromossomo.”
É claro que uma mudança num cromossomo não pode determinar o momento da formulação de uma carta malvada, pois o genoma não contém informação que especifique qualquer de nossas ações. A regulação ambiental é, também, impossível, exceto na ficção científica. Mas, plausibilidade ou conhecimento da biologia básica não podem ser esperados de nossos autores. Greene e Cohen acreditam que o Sr. Marionete não é responsável por suas ações, porque “forças além de seu controle desempenharam um papel dominante no cometimento de seus crimes, sendo difícil pensar que ele seja algo mais que um fantoche.”
Mas, mesmo assumindo, só para argumentar, que tal pessoa poderia ser assim projetada, devemos concluir que ele é, de fato, uma marionete do cientista-projetista, enquanto que nós não somos marionetes desse tipo. Nossos genes não são selecionados, nem nosso ambiente é projetado, por alguém.
Naturalmente, contudo, Greene e Cohen chegam a uma conclusão, completamente, diferente: “Qual é a diferença entre o Sr. Marionete e qualquer acusado de um crime? Afinal, temos poucas razões para duvidar que (i) o estado do universo 10.000 anos atrás, (ii) as leis físicas e (iii) os resultados dos eventos quânticos aleatórios são, juntos, suficientes para determinar tudo que acontece hoje, incluindo nossas próprias ações. Essas coisas estão, claramente, além de nosso controle. Então, qual é a real diferença entre nós e o Sr. Marionete? ... num sentido muito real, somos todos marionetes. Os efeitos combinados dos genes e do ambiente determinam todas as nossas ações. O Sr. Marionete é excepcional apenas na medida em que as intenções de outros seres humanos estão por trás de seus genes e de seu ambiente. Mas, isso não importa, uma vez que seus genes e seu ambiente são, intrinsecamente, comparáveis àqueles das pessoas comuns. Não somos mais livres que ele.”
Num aparente escorregão, eles reconhecem que os cientistas tiveram intenções, que eles deliberadamente agiram no projeto do Sr. Marionete. Suas ações, aparentemente, diferem das causas que não são ações humanas. Greene e Cohen nunca se preocuparam em perguntar se esses cientistas deviam ser punidos por projetarem, especificamente, alguém para cometer crimes, se eles são os responsáveis, afinal. Mas, se somos forçados a aceitar esse cenário, então, a responsabilidade pelos crimes parece ser dos cientistas – por projetarem marionetes criminosas.
De acordo com Greene e Cohen, no entanto, os genes e o ambiente do Sr. Marionete são “intrinsecamente comparáveis” àqueles das pessoas comuns, como se vivêssemos todos num ambiente projetado, no qual as pessoas, deliberadamente, abusassem de nós e nos mentisse; como se nossos genes, ao invés de serem resultados da seleção natural, fossem escolhidos por um time de cientistas do mal. Intrinsecamente comparáveis? Por isso eles, presumivelmente, querem dizer que o ambiente é ainda um ambiente terreno como o nosso, – a mesma casa com mobília, aparelho de TV e pais etc. – e os genes são, ainda, cadeias de DNA feitas de férteis nucleotides. Mas, claramente, essas características “intrínsecas” são irrelevantes no caso do Sr. Marionete. Seus genes e seu ambiente são, afinal, projetados para torná-lo um criminoso. Mas note, em particular, a ênfase peculiar de Greene e Cohen na combinação de genes e ambiente. A Biologia, é claro, nos diz que há fatores adicionais que não são nem genéticos nem ambientais, mas, podemos, seguramente, supor que esses autores, não possuindo nenhum interesse particular na ciência da Biologia, não estejam interessados nisso.
Sendo cientistas metafóricos, por “genes e ambiente” eles querem dizer tudo que nos faz o que somos, tudo que determina nossas ações. Nós estamos, agora, prontos para traduzir suas alegações para a linguagem comum: tudo que determina quem nós somos, determina quem nós somos; tudo que determina nossas ações, determina nossas ações. Certamente, não temos controle sobre tudo – Greene e Cohen, corretamente, assim supõem. E, seguramente, todos os possíveis fatores combinados determinam nossas ações. Mas, no processo de tirar essa brilhante conclusão eles se afundaram num caos mental e não perceberam a circularidade no processo. Somos compelidos, pelas leis da lógica, a concordar com eles: Sim, banana é banana.
Ilusão do livre-arbítrio
Tendo posto o livre-arbítrio em seu devido lugar, Greene e Cohen estão prontos para nos explicar o porquê de pensarmos que temos tal coisa. Se pensamos que temos alguma coisa que não existe, então, essa coisa deve ser uma ilusão. Assim, eles afirmam que nosso cérebro gera a ilusão de livre-arbítrio para que pensemos que estamos no controle dos processos.
Com toda a modéstia, nossos autores se comparam a Copérnico, Darwin e Freud em seus esforços em desbancar o narcisismo humano. Copérnico removeu a Terra do centro do universo. Darwin removeu os seres humanos do comando da Terra e Freud removeu a consciência como o único determinante do comportamento humano. Vem aí outro golpe baixo – mesmo aquele pequeno controle que você tem sobre suas ações é uma ilusão.
Parece-me, no entanto, que esse é um caso de sadomasoquismo. Greene e Cohen parecem auferir um autêntico prazer em atingir o narcisismo humano, representado pela psicologia popular do livre-arbítrio. Você acha que decidiu ler esse artigo porque o considerou interessante. Mas, não, você não tem a mínima idéia da razão e aquele pensamento que primeiro lhe assaltou foi, realmente, apenas alguma ilusão criada pelo seu cérebro para mascarar sua falta de idéia.
Quanto insulto a seu narcisismo você pode suportar? Essa é a questão, da qual sua humanidade científica depende. Somente cientistas durões, como Greene e Cohen, são corajosos o suficiente para enfrentar o determinismo de frente, sem ilusões. E se você não acha que é uma marionete, eles o esmurrarão com seus experimentos mentais e seus dados imaginários até que você, nocauteado, desistir de si mesmo. E assim o jogo continua. Apesar de eu não desejar negar a diversidade de prazeres sentidos por Greene e Cohen por se tornarem marionetes de uma ficção metafísica e porta-vozes de uma fanfarrice pseudocientífica, desejo, sim, examinar a evidência que eles apresentam para suas assertivas.
Essa evidência vem do trabalho de Daniel Wegner [3], um psicólogo de Harvard e um outro cientista metafórico. De acordo com Wegner, nossas ações não são causadas por nossa vontade. Para fundamentar essa afirmação ele cita a evidência de que a hipnose ou danos cerebrais pode prejudicar nossa noção de livre-arbítrio, de que várias manipulações experimentais podem criar em nós a ilusão de controle.
Nossa resposta imediata é: E daí? Não teremos livre-arbítrio se nossas cabeças forem cortadas. Não teremos livre-arbítrio se estivermos dormindo. Às vezes, erroneamente, pensamos que fizemos algo quando, de fato, não o fizemos. Disso, no entanto, não se pode concluir que o livre-arbítrio é uma ilusão.
Sob hipnose, por exemplo, podemos sentir nosso braço se levantando, mesmo que não o desejemos. Da mesma forma, quando nosso córtex motor ou nosso músculo é estimulado, vários movimentos podem ser induzidos sem nosso controle. Para Wegner, entretanto, essa sensação de “olha, aconteceu!” é a descrição mais precisa do que realmente aconteceu, quando agimos. Nunca ocorreu a ele que não há nenhuma instância de vontade porque aquelas não são instâncias de ações voluntárias sob nosso controle.
Wegner prefere, muito mais, essa sensação de passividade, pois só assim nos sentimos como objetos inanimados. Quando meu braço faz algo incontrolável, ele está agindo como um “objeto científico”, como um tijolo. Nosso livre-arbítrio deve ser uma ilusão porque ele não se encaixa na compreensão científica do mundo, esposada por Wegner.
O filósofo Daniel Dennet acredita que, por conveniência, adotamos a “postura intencional” quando interpretamos o comportamento dos outros seres humanos. A posição de Wegner pode ser descrita como “postura passiva”. Ele prefere sentir-se como o sujeito hipnotizado, o paciente com o dano cerebral ou um zumbi, porque, de acordo com sua Weltanschauung científica, a postura passiva é um reflexo mais preciso da realidade. Mas, a questão permanece: quem está iludido, Wegner ou o homem comum das ruas?
Concordar com Wegner resulta em que nossa sensação de livre-arbítrio é uma ilusão. Greene e Cohen vão um passo mais longe e afirmam que nossa atribuição de livre-arbítrio aos outros é, também, uma ilusão. Eles citam um estudo de Heberlein et al., onde se apresenta o seguinte vídeo para sujeitos humanos: um grande triângulo caça um pequeno círculo na tela, trombando com ele. O pequeno círculo foge repetidamente, e um pequeno triângulo se move, repetidamente, entre o círculo e o grande triângulo. Quando pessoas normais assistem ao vídeo, eles vêem essas interações em termos sociais e intencionais. O grande triângulo tenta ferir o pequeno círculo e o pequeno triângulo tenta proteger o pequeno círculo. Contudo, um paciente com algum dano na amygdala, uma coleção de estruturas cerebrais em forma de amêndoa, não consegue atribuir intenções a essas figuras [4]. Conseqüentemente, para Greene e Cohen, como essa atribuição de livre-arbítrio é gerada por uma área cerebral, ela é, também, uma ilusão.
Os leitores de meu artigo anterior estão familiarizados com a inclinação de Greene e Cohen na direção da especulação evolutiva. Aqui eles atacam novamente. De acordo com sua nova historinha, partes do cérebro, no curso da evolução, se tornam módulos especializados da psicologia popular, isto é, atribuindo livre-arbítrio aos outros; outras partes se tornam módulos especializados da física popular, isto é, acreditando naqueles movimentos tipicamente encontrados nos desenhos de Disney. Sabemos que a física popular está errada, mas, de acordo com Greene e Cohene, a psicologia popular está igualmente errada. Por causa de nossa psicologia popular, encaramos outros objetos animados como causadores sem causa*. Mas, depois que aprendemos neurociência, “quando olhamos as pessoas como sistemas físicos, não podemos vê-las nem mais dignas de reprovação, nem mais dignas de elogio, do que um tijolo”.
Talvez possamos conjeturar, ao lado dos sistemas da física e da psicologia popular, sobre um terceiro sistema do masoquismo cientificista que, enganosamente, faz alguém acreditar que é um tijolo à mercê das forças da natureza, ao invés de um agente responsável por suas ações. A base neurológica para o terceiro sistema, a meu ver, está, ainda, para ser estabelecida.
Então, em resumo, nossos teóricos cabeças-de-tijolo culpam a psicologia popular por considerarmos os agentes morais como causadores sem causa. Como não somos causadores sem causa, não podemos ser agentes morais, e, assim, não podemos ser responsáveis por nossas ações.
Se sou causador sem causa, minhas ações são isoladas de todas as influências externas. Supunha que um homem seja condenado à prisão perpétua por matar um guarda, durante um assalto a banco. Tal punição não evitará que eu faça o mesmo. A prevenção é, realmente, impossível se sou um causador sem causa de minhas ações.
Não obstante, isso não pode, de forma alguma, ser uma suposição oculta de nossas leis, pois, não se explica, assim, a intencionalidade como o foco do sistema legal. De acordo com a psicologia popular que Greene e Cohen atacam incansavelmente, é caracteristicamente humano que, deliberadamente, escolhamos meios apropriados para alcançar os fins desejados. Essa capacidade nos torna agentes morais, alvos de elogios e críticas. Por exemplo, um ato não é reprovável, a menos que haja uma mente culpada (Reum non facit nisi mens rea).
Como Mises repetidamente alerta, o próprio conceito de ação humana, de meios e fins, pressupõe a categoria da causalidade. Responsabilidade não implica que somos motores imóveis no sentido aristotélico, que estejamos de fora da cadeia de causa e efeito, mas significa que, como agentes de ações intencionais, estamos numa peculiar posição em uma longa cadeia de causas que se alonga até o Big Bang. Somos agentes capazes de controlar nossas ações e não um sistema ato-reflexo que transforma estímulo em resposta.
A lei pune, então, crimes que são o resultado da deliberação e da vontade e é indulgente com os acidentes ou aqueles agentes incapazes de ações racionais (p.ex. crianças). Essa seletividade só pode estar baseada na idéia de prevenção. Pois, seria absurdo dizer a alguém para não matar se ele não fosse capaz de deixar de fazê-lo, tanto quanto seria absurdo dizer a alguém para parar seu próprio coração.
Por seu turno, a lei pune crimes que resultam de ações que podemos controlar e podemos, então, evitá-las no futuro. Se a lei se baseasse na suposição da existência de causadores sem causa, não teria sentido fazer distinções entre assassinato deliberado e morte acidental. Penas rígidas seriam aplicadas em todos os crimes. Está fora do escopo deste artigo, naturalmente, a discussão da história do Direito, apesar de ser necessário alertar que o conceito de responsabilidade pessoal em crimes violentos é, de fato, um desenvolvimento relativamente recente. Penas extensíveis a parentes e senhores do criminoso eram comuns em muitas sociedades primitivas. (Aos interessados, sugiro a leitura da obra-prima de Pallack e Maitland ou o livro de Zane sobre a história do Direito).
Lei e liberdade
O livre-arbítrio, no sentido aqui discutido, significa que os seres humanos controlam o que eles fazem. A neurociência não mudará esse fato. A ficção científica, do tipo que Greene e Cohen gostam, pode sempre imaginar o contrário. Nesse sentido, ela não pode ser distinguida de qualquer religião teleológica.
De fato, esse tipo de determinismo, que afirma que os seres humanos não escolhem, não agem, mas sempre são objetos de ações, tem reaparecido inúmeras vezes na história, sob vários disfarces. É um fato histórico que selvagens primitivos, fanáticos religiosos e crentes nas leis inexoráveis da história têm, sempre, advogado alguma versão dele. No desenvolvimento dos sistemas legais, o conceito de responsabilidade pessoal também evoluiu, parcialmente porque alguns seres humanos, depois de se libertarem das superstições e da “postura passiva”, começaram a entender a natureza de suas próprias ações e seus efeitos sobre o mundo. O individualismo ilustrado, devemos lembrar, foi um desenvolvimento tardio e ainda permanece impopular em muitas partes do mundo. A psicologia popular intuitiva da ação humana que possuímos é o produto de tal ilustração. Por outro lado, ao atacar o conceito de livre-arbítrio e da responsabilidade pessoal, Greene e Cohen, meramente, revivem o culto do pensamento irracional, que por muito tempo prevaleceu nas sociedades humanas. Não deve nos surpreender, contudo, em descobrirmos no seu artigo a seguinte sentença: “a racionalidade é apenas presumivelmente correlacionada com o que a maioria realmente se preocupa”. De fato, o que sobra da racionalidade quando você não é responsável por suas ações?
No lugar da razão, esses autores colocam o bem-estar agregado. A lei, reformada à luz do conhecimento neurocientífico, de acordo com os dois autores, tem o objetivo de promover o futuro bem-estar, ao invés de punir os responsáveis por seus crimes. Num artigo anterior, discuti a tentativa desses autores de abolirem as normas morais universais, usando dados de imagens cerebrais, em nome do bem-estar agregado. Devemos, pelo menos, aplaudir sua consistência. Certamente, uma norma moral como o Imperativo Categórico não teria nenhum sentido se não houvesse o livre-arbítrio. Por que dizer a alguém para não roubar se ele não é capaz de obedecer, se o culpado é seu cérebro?
Depois de tudo considerado, seus argumentos se resumem a: (1) criminosos não são responsáveis por seus crimes, pois, tudo que determina quem ele é, determina quem ele é; (2) ao invés de punir criminosos pelo que eles fizeram, a lei deve maximizar o bem-estar futuro.
Eticamente, parece ridículo argumentar contra o bem-estar total da humanidade, tal como logicamente é impossível refutar uma tautologia. A lição a ser aprendida aqui é que você deve sempre se acautelar quando alguém defende algo que não pode ser contraditado, pois há, freqüentemente, um plano oculto anexo ao pacote nada-pode-estar-errado, que se autodestruirá uma vez aberto. Como alertei no artigo anterior, o conceito de bem-estar agregado é vazio, criado por conveniência. Não podemos calcular o que é esse bem-estar, apesar de podermos indiretamente observar, pelo estudo da história, os efeitos de longo prazo de certas regras e práticas em grupos que as seguem.
Num sentido mais recente e concreto de bem-estar, nosso atual sistema legal parece ter sido um dos principais promotores de bem-estar humano, julgando-se pela extraordinária difusão de idéias relevantes no Ocidente, contra freqüentes e fortes resistências dos costumes e práticas locais.
Finalmente, ao longo de seu ensaio, Greene e Cohen enfatizam que o conceito “libertário” de livre-arbítrio que eles atacam não tem nenhuma conexão com a filosofia política. As leis protegem a liberdade e liberdade requer responsabilidade.
Seus argumentos a favor do determinismo são, ainda, outra tentativa de abolir as leis como regras abstratas que se aplicam a todos, indistintamente. Ao contrário, o Estado e seus “especialistas cientistas” decidirão se uma pessoa será ou não um mal para a sociedade, a fim de maximizar o bem-estar futuro em cada caso (isto é, fazer o que aqueles no poder desejam). A própria lei se torna sem sentido. E, ao invés de regra geral que protege a liberdade individual, nas mãos de Greene e Cohen, e em nome da neurociência, a lei será usada como um instrumento para a intervenção estatal e para julgamentos arbitrários, destruindo a liberdade.
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Lucretius é um neurobiologista e vive em Mariland, EUA.
1. Greene, J. & Cohen, J. "For the law, neuroscience changes nothing and everything." Philos Trans R Soc Lond B Biol Sci 359, 1775-85 (2004).
2. von Mises, L. Theory and History (Mises Institute, 1957).
3. Wegner, D. M., "Precis of the illusion of conscious will". Behav Brain Sci 27, 649-59; discussion 659-92 (2004).
4. Heberlein, A. S. & Adolphs, R., "Impaired spontaneous anthropomorphizing despite intact perception and social knowledge". Proc Natl Acad Sci U S A 101, 7487-91 (2004).
* Uncaused causers, no original. O sentido aqui é de quem é causa das coisas, mas não é efeito de nenhuma causa, de quem se determina a si mesmo, livremente. É o conceito ligado à expressão causa sui, no sentido escolástico. (N. do T.)
Publicado pelo Mises Institute.
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