05/07/2010

Padres, não tardeis em elevar a Santa Cruz dentro da Igreja Matriz desta cidade

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Recebo de um piedoso leitor uma carta que ele está enviando aos párocos da Igreja Matriz de sua cidade. Ele me deu a permissão para publicá-la, desde que omitesse seu nome, dos párocos e da cidade. Publico-a porque ela pode muito bem servir de modelo para muitos católicos piedosos que estão escandalizados pelo sumiço dos Crucifixos de dentro das Igrejas. A carta é um exemplo para todos nós que queremos fazer alguma coisa pela Santa Madre Igreja.

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XXXX, 29 de junho de 2010

J.M.J

Ave Crux, Spes única!

Ao Revmo. Pároco Pe. XXXXX e ao Revmo. Vigário Pe. XXXXX, da Igreja de São Judas Tadeu, escrevemos nos Sacratíssimos Corações de Jesus, Maria e José.

Revmos. Padres, viemos a vós por meio desta carta por desejo de ver resplandecer novamente na Santa Igreja a vitória sob o símbolo da Santa Cruz. Como conta a história, Constantino viu, em sonho, uma Cruz no Céu onde estava escrito “In hoc signo vincis” (sob este signo vencerás). Assim, Revmos. Padres, temos certeza de que se quereis conquistar as almas para vencer por Cristo, isto deve também ser feito por meio deste Símbolo, tal qual Constantino que, no dia seguinte ao sonho, conquistou a vitória, tendo a Cruz gravada no escudo de seus soldados.

Estamos certos de que é do conhecimento dos Revmos. Padres a luta que os estados laicos travam contra a Santa Igreja e contra Deus, querendo tirar dos lugares públicos as sacras imagens da Santa Cruz. Assim sendo, vendo-nos no dever de defender os interesses de Deus e da Santa Igreja, e certos de que pela Santa Cruz é que Deus deseja santificar as almas, queremos suplicar aos Revmos. Padres que não tardeis em elevar a Santa Cruz dentro da Igreja Matriz desta cidade, não cometais o mesmo pecado dos inimigos da fé.

Muitos são os motivos que nos levam a suplicar a “elevação” da Santa Cruz, na paróquia que vos foi confiada. Como sabem, é claramente evidenciado na vida e escrito dos santos que por meio das sacras imagens Deus concede grandes graças à sua única Igreja Católica Apostólica Romana, como haveremos de lhes mostrar no decorrer desta carta. Tínhamos a intenção de discorrer sobre o ensinamento da Santa Igreja, desde o Sacrossanto Concilio de Trento até os dias de hoje, porém nos vem à cabeça agora a preciosidade do tempo dos Revmos. Padres, por isso nos deteremos em pequenos fatos de piedade na vida dos santos.

Ainda neste ano de 2010, S. S. Papa Bento XVI, discursando sobre o grande doutor Santo Antonio de Pádua, dizia que a visão do crucifixo inspira pensamentos de reconhecimento para com Deus e cita esta frase do Santo Doutor, "Cristo, que é a tua vida, está pendurado diante de ti, para que tu olhes para a cruz como para um espelho. Nela poderás conhecer quanto mortais foram as tuas feridas, que nenhum remédio teria podido curar, a não ser o do sangue do Filho de Deus. Se olhares bem, poderás dar-te conta de como são grandes a tua dignidade humana e o teu valor... Em nenhum outro lugar o homem pode aperceber-se melhor do seu valor, a não ser olhando para o espelho da cruz" (Sermones Dominicales et Festivi III, pp. 213-214). E continua o Santo Padre dizendo: Meditando estas palavras podemos compreender melhor a importância da imagem do Crucifixo para a nossa cultura.

Logo vemos o grande beneficio que o Sacro Crucifixo faz às almas que se ocupam de venerá-lo. Como diria um antigo Padre da Companhia de Jesus, todas as virtudes acham-se contidas no crucifixo: ele é a consumação dos caminhos interiores, e este mesmo Padre segue dizendo, o crucifixo é o compêndio de tudo quanto o cristão deve crer.

Outros tantos benefícios se vê claramente vindo da contemplação do crucifixo na vida dos santos. Como não nos lembrar da Beata Jacinta Marto? – conforme relata a Irmã Lucia em suas memórias, no trecho intitulado O Amor ao Crucificado – que a pequena menina costumava dizer: Coitadinho de Nosso Senhor, eu não hei-de fazer nunca nenhum pecado, não quero que Nosso Senhor sofra mais. E em outro trecho escreve Irmã Lucia, “Outras vezes, mandava procurar uma flor qualquer, que ela escolhia. Um dia, jogávamos isto, em casa de meus pais, e tocou a mim dar uma ordem a ela. Meu irmão estava sentado a escrever, junto de uma mesa.

Mandei-a então, dar-lhe um abraço e um beijo.

Mas ela respondeu: Isso, não! Manda-me outra coisa. Por que não me mandas beijar aquele Crucifixo que está ali?!

Ela apontava para um crucifixo pendurado na parede.

- Pois sim, – respondi-lhe. Sobe numa cadeira, traze-o aqui, e, de joelhos, dá-lhe três abraços e três beijos: um pelo Francisco, outro por mim, e outro por ti.

- A Nosso Senhor dou tantos quantos quiseres. E correu a buscar o crucifixo. Beijou-o e abraçou-o com tanta devoção que nunca mais esqueci daquela ação.”

Ah! Revmos. Padres! Quiséramos nós ter todo o resto da vida livre para aqui ficarmos pensando na beleza que é amar a Cristo e a sua Cruz, e com a espada da verdade nas mãos defender os interesses de Deus e da Santa Igreja. Ficamos aqui a pensar como seria belo entrar naquela paróquia e lá encontrarmos a imagem do crucificado para contemplá-lo, para chorar a paixão de Nosso Senhor.

Revmos. Padres, queremos nos unir a São Boaventura para lhes dizer que as chagas de Cristo ferem os coração mais duras e aquece as almas mais frias; dizer com este mesmo santo que para progredir no amor de Deus, é preciso meditar todos os dias a Paixão do Senhor. Nada contribui tanto para a santidade das pessoas como a Paixão Cristo. Revmos. Padres, com respeito reconhecemos não ser outro o desejo de vossos corações sacerdotais senão a salvação das almas a vós confiadas por Deus Nosso Senhor. Não pode ser outro o desejo de vossos corações, por isso elevai o estandarte da Salvação, concedei aos vossos fiéis a graça de ter ante os olhos a imagem da Paixão de Nosso Senhor, sejam quais forem os motivos para a ausência do crucifixo em vossa paróquia, apressai-vos em restituí-lo ao seu lugar. Pois este lhes assegurará as almas, atadas ao extremado amor de Deus.

Assim, Revmos. Padres, despedimo-nos com confiança ilimitada de que Nossa Senhora das Dores nos alcançará esta graça que hoje lhes pedimos, que os nossos olhos voltem a encontrar a imagem do Crucificado na paróquia de São Judas Tadeu. Encerramos dando as boas vindas ao Crucifixo com o poema de Santa Teresa D’Ávila, na certeza de que não seremos desamparados pela Rainha do Céu.

Gostosa quietação da minha vida,

sê bem-vinda, cruz querida.

Ó bandeira que amparaste

o fraco e o fizeste forte!

Ó vida da nossa morte,

quão bem a ressuscitaste!

O Leão de Judá domaste,

pois por ti perdeu a vida.

Sê bem-vinda, cruz querida.

Quem não te ama vive atado,

e da liberdade alheio;

quem te abraça sem receio

não toma caminho errado.

Oh! ditoso o teu reinado,

onde o mal não tem cabida!

Sê bem-vinda, cruz querida.

Do cativeiro do inferno,

ó cruz, foste a liberdade;

aos males da humanidade

deste o remédio mais terno.

Deu-nos, por ti, Deus Eterno

alegria sem medida.

Sê bem-vinda, cruz querida.

AD MAIOREM DEI GLORIAM.

01/07/2010

Como escolher a religião verdadeira?

 

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Professor,

Acabei de folhear um livro, não anotei o seu nome, sobre História das Religiões. O autor argumenta que o Planeta teve até, o momento, mais de 4.000 (quatro mil) religiões. Há quem diga que foram 10.000 (dez mil).

Como alguém poderia usar a razão para escolher uma delas como A VERDADEIRA?

Se for pela antiquidadede o hinduísmo, com cerca de 4.000 (quatro mil) anos de existência, é a mais cotada de todas.

Como funciona o processo racional de seleção de uma entre milhares, ou até mesmo uma entre as cinco ou seis religiões predomintes atualmente?

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Caro anônimo,

Ainda bem que você não anotou o nome do livro do contador de religiões. Não valeria mesmo o trabalho.

Você pergunta sobre o processo racional de seleção da religião VERDADEIRA. Isso mostra que você valoriza muito a razão. Por isso, vou lhe recomendar que leia primeiro o post Leitor pergunta e blog responde.

A religião verdadeira é aquela que foi revelada por Deus. A religião verdadeira é aquela cuja Igreja foi fundada por um ser humano, completamente homem e completamente Deus, cujo nascimento, vida e morte foram previstos com antecedência de séculos. Esse homem-Deus se revelou como tal a todos que Dele se aproximasse, fez copiosos milagres para demonstrar Seus divinos poderes, morreu na cruz e ressuscitou. Ressuscitado permaneceu na Terra por uns 50 dias dando as últimas instruções aos seus discípulos, a quem prometeu enviar, do Céu, seu Espírito. Este Espírito Santo insuflou os discípulos de dons sobrenaturais e tais homens continuaram pregando e fazendo milagres em nome do Cristo, seu mestre.

Ele também prometeu insuflar com o mesmo Espírito aquele que fizesse parte do seu Corpo Místico, que é a Igreja Católica, e Ele cumpre cotidianamente sua promessa, santificando a vida de milhares de fiéis, membros de Sua Igreja.

Destas 4000 religiões, qual foi a criada pelo próprio Deus? Qual a que teve sua Igreja fundada pelo Filho de Deus? Qual a que tem tido, entre seus seguidores, homens santos durante todo o período de dois mil anos, sem interrupção?

Como usar a razão para escolher a religião verdadeira?, é a sua pergunta. Vou lhe sugerir um critério de exclusão: exclua toda religião cuja doutrina for completamente racional, cujo dogma principal for o de que a razão humana é capaz de entender tudo. Você verá que fazendo isso, só lhe sobrará o catolicismo e seus mistérios, que são muito mais satisfatórios que qualquer explicação puramente racional.

29/06/2010

Nossa participação na Vida Divina

 

O texto que vai abaixo me parece útil como marco referencial às discussões que andam ocorrendo no blog, entre o blogueiro e leitores protestantes, protestantes quase-católicos, católicos quase-protestantes, católicos modernistas, padres modernistas, etc. O blogueiro, como todos sabem é, com a graça de Deus, apenas um católico imerso numa crise monumental da Igreja, que se agarra firmemente à Doutrina Tradicional e imutável da Santa Igreja de Roma e que tem sempre na ponta da língua a regra de São Vicente de Lerins: “Quod ubique, quod semper, quod ab omnibus.” O texto é também útil a todo católico que, por diversas razões, ainda não teve acesso a textos teológicos mais profundos. A fonte do texto não poderia ser mais ortodoxa: Tratado de Teologia Ascética e Mística, de Pe. Adolph Tanquerey.

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A vida divina na sua fonte é a Santíssima Trindade. Deus, que é a plenitude do ser e da caridade, contempla-se desde toda a eternidade; contemplando-se, produz o seu Verbo, este Verbo é seu Filho, distinto d’Ele e, contudo, perfeitamente a Ele igual, a sua imagem viva e substancial. Ele ama a este Filho e é por Ele amado; deste amor mútuo procede o Espírito Santo, distinto do Pai e do Filho, e perfeitamente igual a um e a outro. E é esta a vida de que nós participamos!

Por ser infinitamente bom, quer Deus comunicar-se a outros seres: fá-lo pela criação e, sobretudo, pela santificação. Pela criação somos servos de Deus, o que é já para nós uma grande honra. E na verdade, que Deus tenha pensado em mim desde toda a eternidade, que me tenha escolhido entre milhões e milhões de possibilidades, para me dar a existência, a vida, a inteligência, que motivo de admiração, reconhecimento e amor! Mas que Ele me tenha chamado a participar da sua vida divina, que me tenha adotado por filho e que me destine à visão intuitiva da sua essência e a um amor sem restrição, não é isto o apogeu da caridade? E não é também um poderoso motivo de O amar sem reserva?

Havíamos perdido, pelo pecado do nosso primeiro pai, os direitos à vida divina e éramos incapazes de os recuperar por nós mesmos. Mas eis que o Filho de Deus, vendo a nossa miséria, faz-se homem como nós, torna-se desse modo cabeça dum corpo místico, cujos membros somos nós, expia os nossos pecados pela sua dolorosa Paixão e morte de Cruz, reconcilia-nos com Deus e faz circular de novo em nossos almas uma participação dessa vida que Ele hauriu no seu do Pai. Há algo mais próprio para nos fazer amar o Verbo Encarnado, para nos unir estreitamente com Ele, e por Ele, com o Pai?

Para facilitar esta união, fica Jesus entre nós; fica pela sua Igreja, que nos transmite e explica sua doutrina. Fica pelos seus Sacramentos, canais misteriosos da graça, que nos comunicam a vida divina. Fica, sobretudo, pela Santíssima Eucaristia, em que perpetua a um tempo sua presença, a sua ação benfazeja e o seu sacrifício: o seu sacrifício pela Santa Missa, onde renova de modo misterioso a sua imolação, a sua ação benfazeja pela Comunhão, aonde vem, com todos os tesouros da graça, aperfeiçoar a nossa alma e comunicar-lhe a suas virtudes; a sua presença permanente, encerrando-se voluntariamente como prisioneiro, dia e noite, no sacrário, onde O podemos visitar, conversar com Ele, glorificar com Ele a adorável Trindade, encontrar n’Ele a cura das nossas feridas espirituais e a consolação das nossas tristezas e desalentos: “Venite ad me omnes qui laboratis et onerati estis, et ego reficiam vos”.

E tudo isto não é mais que o prelúdio dessa vida consumada em Deus, que gozaremos por toda a eternidade; vê-Lo-emos com amor perfeito; n’Ele veremos e amaremos tudo quanto há de grande e nobre. Saídos de Deus pela criação, voltamos a Ele pela glorificação, e, glorificando-O, encontramos a felicidade perfeita.

26/06/2010

Estudante protestante que estava inclinado ao catolicismo

 

Publiquei o comentário de um anônimo ao post Leitor acusa blog de idéias e hábitos medievais; blog responde. Respondo-o aqui, por se tratar de um assunto que pode interessar a muitos leitores que talvez se encontrem na mesma posição do leitor.

Em resposta anterior ao mesmo anônimo, que se mostrava surpreso com minha preferência pelo Catecismo Maior de São Pio X ao Catecismo da Igreja Católica – ele argumentava que o último catecismo estava na página do Vaticano, estava aprovado pelo Papa, etc – eu respondi que isto fazia parte da crise da Igreja (o ter um catecismo que era, de certa forma, questionável em comparação com a Doutrina de Sempre da Igreja). Escrevi então: “Se você não sabe, ela [a crise] existe. Se você não sabe, ela se desdobra em todos os escalões da Igreja. Se você não sabe, até no Vaticano. Se você não sabe, lá há cardeais que não acreditam na Presença Real, que são satanistas, que .... Vou para por aqui.”

Então, o anônimo me responde:

É dessa informação que eu necessitava. Como estudante protestante de teologia, portanto "não autorizado' a aceitar a doutrina católica, aventurei-me por conta própira - dai o anonimato - a estudar o doutrina oficial católica com a intuição de que ela está mais próxima da verdade.

Porém, com a sua explicação, devo afastar-me, pois não tenho estrutura para entrar nessa briga. Eu precisaria, antes, de certeza e de consenso.

Adotei como referência para minha confiança no Catecismo de 1992 a seguinte passagem:

"Promulga-se em 1567 o Catecismo do Concílio de Trento, redigido po ruma equipe de dominicanos, e que, por indicação docardeal J. Ratztinger, servirá de protótipo ao atual Catecismo da Igreja Católica (1992)."

Fonte:

Suma Teológica, Tomás Aquino, Volume I, Edições Loyuola, 2001, Prefácio à Tradução Brasileira por Carlos Josaphat, OP, pg. 13.

Caro leitor, quem se aproxima da verdade, se aproxima da certeza, mas não do consenso. Não tenho nenhuma intenção de ofendê-lo, mas esta é uma idéia protestante. O consenso nunca pode ser o critério da verdade.

A Doutrina Católica não é mais próxima da verdade, é a VERDADE. Quem lhe garante isso não é professor Angueth; é o próprio Jesus Cristo. Assim, ao se aproximar desta doutrina, você está se aproximando de uma PESSOA, que vive de Corpo, Sangue, Alma e Divindade, na Igreja Católica, e se oferece a todos nós, na Eucaristia, todos os dias. A Igreja é o único lugar em que você pode recebê-Lo. Portanto, não venha para a Igreja por causa do Prof. Angueth, que é um pecador contumaz, que não merece nada. Não venha para Igreja por causa de Josaphats da vida, que são padres modernistas e hereges que infelizmente existem na nossa Igreja, conseqüência nefasta da crise da Igreja. Não venha pelo consenso que possa aqui existir. Venha para lutar pela Igreja contra os hereges e em nome da VERDADE, para carregar a Cruz de Nosso Senhor.

Não tome a mesma atitude do demoníaco Lutero, que por causa da situação lastimável em que se encontrava a Igreja no início do século XVI, preferiu destroçar toda a cristandade a corrigir os erros que ele via, a lutar pela restauração da santidade dos homens da Igreja. Mire-se nos exemplos dos muitos santos que permaneceram na Igreja e que, por meio do extraordinário Concílio de Trento, reformaram a Igreja, tornando-a um estandarte da luta contra os hereges. Tome a atitude dos santos do século XVI; de Santo Inácio de Loyola, de Santa Teresa D’Ávila, de São João da Cruz, de São Pedro Canísio, de São Felipe Neri, de São Carlos Borromeu, do Papa São Pio V, etc. Pense de que lado você quer ficar: de Lutero ou destes santos todos?

Ao invés de ler o prefácio da Suma, leia a Suma! Leia o Catecismo Maior de São Pio X, esqueça, por hora, o Catecismo de 1992. (Se você quiser sabe o que acho sobre as observações e os prefácios modernos de obras antigas, leia, por exemplo: A Teologia da Deformação e "Didaqué: Instrução dos Doze Apóstolos", Santo Afonso de Ligório: o modernismo presente em sua Congregação.)

Por fim, um último conselho. Você diz: “Assim, infelizmente, concluo que minha intuição estava errada.” Sua intuição está certíssima; pode segui-la, mas não a siga com tanto sentimentalismo, que, sem ofensa, é outra característica protestante. Seja forte, use sua VONTADE, não seu sentimento. Você só perceberá a VERDADE, com sua vontade, não com seu sentimento.

Se você precisar e desejar, me escreva sempre. Se você for usar os comentários, identifique-se como “quase católico”; saberei que é você, porque é o que você realmente é. Passo a rezar a Nossa Senhora pela sua conversão, que já começou indubitavelmente.

25/06/2010

Sobre a santidade de G.K. Chesterton

 

Um amigo anônimo colocou, como comentário de um dos posts deste blog, uma oração pela beatificação de Chesterton, que reproduzo abaixo. Ela está em espanhol e está tão bonita neste idioma que decidi não traduzi-la, para não correr o risco de tirar dela toda sua beleza.

Muitos poderão se admirar ao ouvir sobre a beatificação de Chesterton. A idéia existe e está sendo trabalhada pela The Chesterton Society, fundada no ano (1974) do centenário do nascimento do grande escritor, na cidade onde ele viveu. Esta sociedade realizou em 2009 uma conferência cujo título foi exatamente “Sobre a santidade de G.K. Chesterton”.

Os leitores que me acompanham sabem que noite dessas fui abençoado por Chesterton. Passarei assim a rezar pela beatificação de quem já me abençoou.

Segue, então, a oração.

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Dios nuestro Padre,

Tú que has colmado la vida de tu siervo Gilbert Keith Chesterton con ese sentido del asombro y el gozo, y le diste esa fe que fue el fundamento de su incesante trabajo, esa esperanza que nacía de su perdurable gratitud por el don de la vida humana, y esa caridad para con todos los hombres, particularmente sus oponentes; haz que su inocencia y su risa, su constancia en combatir por la fe cristiana en un mundo descreído, su devoción de toda la vida por la Santísima Virgen María y su amor por todos los hombres, especialmente por los pobres, concedan alegría a aquellos que se hallan sin esperanza, convicción y calidez a los creyentes tibios y el conocimiento de Dios a aquellos que no tienen fe.

Te rogamos otorgar los favores que te pedimos por su intercesión, [y especialmente por ……] de manera que su santidad pueda ser reconocida por todos y la Iglesia pueda proclamarlo Beato.

Te lo pedimos por Cristo Nuestro Señor.

Amén.

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23/06/2010

Leitor acusa blog de idéias e hábitos medievais; blog responde

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Após ver seu blog, concluo que, infelizmente, os piores tumores da humanidade são o fanatismo e a intolerância religiosa. Nem Jesus, nem Deus ou o que for jamais foi partidário disso. Que decepção, professor, continuo a admirar seu trabalho como acadêmico, porém falha ao cultuar hábitos e idéias medievais que já mataram tanta gente e que não levam ninguém ao céu, apenas ao retrocesso humano.

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Pois, então! Temos aqui um corajoso comentador, altamente moderno, cheio de jargões, que fala uma porção de besteiras e decide ficar ... anônimo, claro!

Ele me elogia, na parte acadêmica (pelo que lhe agradeço), o que me faz pensar que ele seja membro desta augusta comunidade universitária. Será um colega professor?; será um ex-aluno, ou um aluno atual?; será de outra área, ou mesmo de outra unidade acadêmica?

Isso tudo fica em segundo plano quando contemplamos como um acadêmico do século XXI expõe tão tranqüilamente sua profunda ignorância. Sobra-lhe, contudo, um pouco de vergonha, daí o anonimato. O retrato-falado, ou melhor, escrito do amigo leitor é mais ou menos fácil de desenhar. É um relativista, pois fala de intolerância religiosa, como se algum religioso verdadeiro não tivesse a obrigação de ser intolerante. É o velho problema de a verdade ser relativa ... Fala de Jesus como um pacifista, mostrando que nunca leu uma linha do Evangelho. Fala de Deus como um apartidário, mostrando que nunca leu uma linha do Velho Testamento, que é a história do povo ESCOLHIDO por Deus. Fala de hábitos e idéias medievais, mostrando que suas leituras mais elevadas são a Veja (ou pior, Isto É, Carta Capital, etc), e a Folha de São Paulo (também existem opções piores). Dali ele tira todas as suas elevadas idéias sobre a Idade Média. Nunca leu um livro de História que valha a pena ser lido, nunca leu (vá lá) Regine Pernoud, pelo menos. Deve ser também um telespectador assíduo do Jornal Nacional, de onde ele tira idéias sobre a direção das coisas do mundo.

Para mim é sempre um espanto encontrar esses seres perambulando pelos corredores da minha universidade, conversando nos cafés, exibindo toda sua empáfia de grandes pesquisadores (ou de alunos brilhantes) sem, contudo, saber o mínimo essencial, o mínimo que um simples estudante medieval tinha na ponta da língua, um mínimo do TRIVIUM.

O problema com esses pobres coitados é que se eles percebessem sua pobreza, haveria como ajudá-los a sair da indigência mental. Mas a visão de sua própria situação já lhes é muito penosa para suportar. Chegar à conclusão da própria miséria é uma experiência muito comum e cotidiana para nós católicos, mas muito penosa para quem não o é. E é por isso que somos intolerantes com o erro; para evitar que as pessoas sejam incapazes de olhar a própria miséria e de elevar o olhar para Deus e Lhe suplicar misericórdia.

22/06/2010

O reverendíssimo Pe. Vagner honra o blog com um comentário

 

“As portas do inferno não prevalecerão”, esta é a promessa de Nosso Senhor. Por isso, Ele não nos deixa sem padres piedosos, que conhecem a Doutrina Sagrada e que sabem defendê-la. Sua benção, Pe. Vagner! Deus lhe pague pela sua corajosa manifestação e por suas palavras a respeito do blogueiro. Reze por mim, padre.

Quero deixar meu humilde ponto de vista.


Se o senhor Angueth estudou ou não filosofia não sei. Mas posso garantir que Santo Tomas de Aquino deve ter ficado alegre lá no céu com a correção do professor Angueth: "Deus é o ser necessário e nós somos contingentes" Simplesmente fantástica esta expressão e digna de um "Filósofo Tomista". Já a expressão do padre Joãozinho não foi muito feliz:" Deus é absoluto. Nós somos relativos. Nossa compreenssão da verdade é relativa".

O tema do relativismo tem sua origem em Descartes (La Haye en Touraine, 31 de março de 1596 — Estocolmo, 11 de fevereiro de 1650), quem formulou o famoso princípio "cógito,ergo sum" (penso logo existo). A partir de então começou o que podemos chamar de "filosofia imanentista" que teve seu apogeu com Hegel (Estugarda, 27 de agosto de 1770 — Berlim, 14 de novembro de 1831). Estes filosfos trocaram o fundamento da realidade que passou a ser o pensamento em vez de ser o SER (ESSE). E as consequencias desse pensamento nefasto nós estamos experimentando nos dias de hoje. O que disse o padre Joãzinho pode ser destrutor: Por exemplo alguém poderia dizer: "O matrimônio deve ser de um homem com a mulher". Outro poderia dizer: "esta é a sua compreenssão da verdade, pois eu compreendo que o matrimônio pode ser de um homem com outro homem" (e poderia aduzir o argumento da "compreensão relativa da verdade")

Por isto a correção feita pelo professor Angueth foi perfeita. A verdade é objetiva mesmo que não a possamos compreender. Ah, como seria maravilhoso se voltassem a ensinar a filosofia de santo Tomas na universidades...

21/06/2010

O Blog do Angueth tem agora um companheiro

No ano em que completa cinco anos de vida, este modesto blog ganha um companheiro de caminhada que acaba de ir ao ar. Nasce centrado no interesse na obra de Belloc e também na de Chesterton. O blogueiro é o Guilherme Ferreira Araújo, que já traduziu para este blog. Tem o sugestivo nome de Caminho para Roma,  que é também o título de uma obra-prima de Belloc que, espero, Guilherme traduzirá.

O que eu desejo é que o novo blog realmente nos mostre com mais clareza, e através destes dois monstros das letras inglesas do século XX, o verdadeiro CAMINHO PARA ROMA.

19/06/2010

Leitor, que quer se promover, pergunta; blog responde

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Eu coloquei varios comentários neste Blog e este tal de professorzinho de matemática não aprovou um sequer e agora tem a coragem de postar uma reclamação em nome de outra pessoa porque seus comentários de baixo nível foram suprimidos de um Blog de respeito.

Uma Pergunta que não quer Calar! Por que o Professor Angeth não aprova comentários de Carismáticos? Será que este Comentário será aprovado?

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O professorzinho de matemática (não sei onde o leitor tirou esta falsa informação), que supostamente sou eu, criou um blog e só aceita comentários que lhe pareçam adequados. O blog é meu e faço dele o que quiser. Isso aqui não é um espaço democrático, que todos podem usar. Não é, sobretudo, um espaço para quem procura promoção à custa de meu trabalho.

Sei bem o que você quer comparar aqui. Você quer comparar a minha aprovação ou não de comentários com o sumiço de vários links e de comentários já publicados do blog do Pe. Joãozinho. Mas só um tolo como você vê as duas coisas como similares. Nunca publiquei e apaguei posts ou comentários de leitores (exceto alguns referentes a traduções que depois se transformaram em livros). Também não postei reclamação em nome de pessoa nenhuma. Tudo que falo aqui, falo em meu nome.

Comentários foram suprimidos ou não mais aceitos no blog do Pe. Joãozinho sobre posts covardes que ele publicou e que muita gente leu e contra eles reagiu. O fato de ele sumir com os posts e não aceitar mais comentários com teores similares aos que já tinha aceitado é demonstração de um padrão: do padrão de comportamento de um covarde. Não disse, em nenhum momento, que ele não tinha o direito de apagar os posts e respectivos comentários; só identifiquei o que isso significa. O blog é dele e lá ele faz o que quiser.

Como você vê, seu comentário não será publicado em meu blog, mas só parte dele. A outra parte é tão tola que pouparei meus leitores para que lhes sobrem tempo para ler, por exemplo, os textos de Chesterton que traduzo.

Uma sugestão final: mande seu comentário para o blog do Pe. Joãozinho. Quem sabe ele publica?

16/06/2010

Dr. Pe. Joãozinho, o Prof. Orlando ainda vive e te calou de novo

 

O “dotô” Pe. Joãozinho pensou, como todo pagão ateu, que a morte é o fim de tudo. Assim, achou que o Prof. Orlando e, sobretudo, suas idéias tinham desaparecido. Pois ele se enganou. O professor vive em cada um de seus admiradores e devedores. E estes fizeram o papel do professor no recente ataque promovido pelo “dotô”; calou novamente o padre e suas heresias.

A prova disso está relatava abaixo, por um dos mais fiéis admiradores do prof. Orlando. Notando que tinha desaparecido, do blog do “dotô” os artigos referentes ao Prof. Orlando, ele postou um comentário.;

junho 16th, 2010 at 08:32
Your comment is awaiting moderation.
Padre Joãozinho,
O Sr. poderia nos esclarecer o motivo de terem sido retirados os posts abaixo relacionados referentes ao falecimento Prof. Orlando Fedeli?
1) Sr. Fedeli procurou aquilo que “entendia ser a verdade”
2) Faleceu hoje o irmão Orlando Fedeli
3) A visão de um canonista sobre a Associação Montfort
Muito obrigado.

Horas depois …

Acabo de voltar (12h10min) à página onde havia postado a pergunta acima (http://blog.cancaonova.com/padrejoaozinho/2010/06/11/palavra-de-padre/#comments) e observo que minha pergunta não foi "aprovada". Foi deletada.
Salvo engano parece que o assunto "morreu" para o Pe. Dr. Joãozinho. Sem qualquer explicação.
Algumas hipóteses:
1) recebeu ordem de superior para apagar posts
2) recuou diante da quantidade avassaladora de críticas dos amigos da Montfort (e até de assíduos frequentadores de seu blog).
De qualquer forma, fica no ar a pergunta: FUGIU DE NOVO?? Fugir é marca registrada de joãozinhos??

É verdade, fugir é a marca registrada de joãozinhos!

Prof. Orlando, pouco antes de morrer, disse, a respeito dsua obra sobre a TFP, uma frase que se aplica perfeitamente ao caso presente: “ À la fin de la vie, je touche!

15/06/2010

Olavo sobre Orlando, meus dois grandes professores

 

A morte sempre revela muito sobre a dignidade de quem parte e da de quem fica. Enquanto padres hereges festejam a morte do Prof. Orlando Fedeli, difamando-o e tentando destruir o legado de seu trabalho, o filósofo Olavo de Carvalho, que manteve uma acirrada polêmica com o falecido professor, disse isto, em seu último programa TRUE OUTSPEAK:

“Quero encerrar este programa prestando aqui minhas homenagens póstumas ao professor Orlando Fedeli, com o qual tive minhas discussões, minhas desavenças, mas que sem dúvida era um batalhador cristão, um homem sincero, e tenho a certeza que ele repousa nos braços de Nosso Senhor Jesus Cristo.”

Quando escrevi aqui sobre Olavo de Carvalho, muitos admiradores do Prof. Orlando enviaram-me comentários raivosos. Isto, graças a Deus, me fez escrever um post sobre o Prof. Orlando, post este que me fez trocar um último e-mail com ele. A eles também o Prof. Olavo responde.

O depoimento do filósofo mostra a dignidade de quem fica.

Leitor pergunta e blog responde

 

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Se um homem não tem religião, mas está pesquisando o assunto com a intenção de escolher uma, como poderá chegar à religião verdadeira? Seria por sua própria capacidade de raciocínio ou por meio do seu encaminhamento oculto por Deus?

Anônimo, até que descubra a minha religião

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Caro leitor,

Se você espera chegar à religião verdadeira é porque acredita que existe verdade. Se acredita que existe verdade, você bem sabe que verdade é o contrário da mentira. Assim, só existe uma religião verdadeira e muitas falsas.

É preciso que você compreenda que a razão humana tem limitações. Diz Santo Tomás de Aquino: “É evidentíssimo que existem verdades referentes a Deus que excedem totalmente a capacidade da razão humana.” Por exemplo (são exemplos do Aquinate), é acessível à razão a existência de Deus, mas não o fato de Ele ser uno e trino, que só podemos saber por revelação.

Assim, nas suas pesquisas você poderá encontrar estas duas ordens de verdades; as que podem ser atingidas pela luz da razão e as que nos são comunicadas pela Revelação. O que vem a ser a Revelação?

Muito resumidamente, a Revelação nos ensina que Deus, depois da Queda, escolheu um povo a quem Ele iria enviar, num futuro, seu Filho, para apagar a mancha que Adão havia deixado em todas as almas; a mancha do Pecado Original. Este povo teve todas as revelações necessárias para seu preparo a fim de receber o Filho de Deus. Sua Vinda foi anunciada com todos os detalhes possíveis: seu nascimento virginal, seus milagres, seus intensos sofrimentos e, finalmente, sua morte na cruz. Isso tudo com uns 500 anos de antecedência. Ele veio, cumpriu tudo que sobre Ele estava escrito e nos deixou sua Igreja, com os Sacramentos, que são por onde escoa a Vida Eterna que Ele veio nos trazer. Fez milagres de todos os tipos e iluminou os apóstolos para que eles também fizessem milagres.

Depois da Revelação, durante dois mil anos, o Filho de Deus manteve sua Igreja, fazendo que vários de seus membros continuassem fazendo milagres como seus apóstolos. Além disso, deixou vários dos corpos dos membros santos de sua Igreja incorruptos – por anos, décadas, séculos – para nos mostrar, COTIDIANAMENTE, qual é a sua Igreja. Como uma seta apontando: ENTRE, AQUI É A MINHA IGREJA.

Bem, diante da Revelação, da história da Igreja de Cristo e com sua razão natural, você certamente descobrirá a religião verdadeira. Rezo para que Nossa Senhora lhe ilumine em sua caminhada, e que você saia rápido do anonimato.

Escreva-me quando precisar e desejar.

11/06/2010

Dr. Pe. Joãozinho liquida de vez o blogueiro

 

Vejam abaixo os argumentos de Pe. Joãozinho para liquidar a discussão com este modesto blogueiro.

Obrigado pela atenção em ler meu BLOG. Aliás, qual seria a formação autor da crítica? Esqueci de dizer que sou doutor em filosofia da educação pela USP. Sei muito bem o que estou afirmando. A sua refutação é de palha! Dr. Pe. João Carlos Almeida, scj

Eu sinceramente não esperava resposta tão elucidativa daquilo que eu disse sobre o referido padre. Ele pede humildade: “Espero que a família de Montfort tenha esta humilde serenidade, para não se tornar sectária.” Ele está pedindo a humildade de convicção, não de ambição.

E logo a seguir, em resposta ao meu post abaixo, ele demonstra toda a sua humildade, humildade de doutor, claro, exibindo desabridamente seu título acadêmico! Ou seja, falta-lhe a humildade da ambição. Mas ele não faz só isso. Ele considera que este título é tão importante, é tão espetacular, é tão aterrador, que ele não se digna a dizer mais nada, exceto, é claro, afirmar: “sua refutação é de palha”.

Mas o mais extraordinário (já vejo o padre em seu pedestal de doutor, contemplando as esferas superiores) é que ele massacra o blogueiro com a pergunta definitiva: “Aliás, qual seria a formação [do] autor da crítica?” O “aliás” foi o máximo, padre.

O autor da crítica é um modesto católico que formula alguns argumentos quando participa de discussões e que não tem o hábito de falar freqüentemente de seus títulos acadêmicos e, sobretudo, de usá-los como argumento nessas discussões.

Mas estou agradecido pela resposta, mesmo que seja esta. Afinal, é a resposta de um doutor, que honra muito este modesto blog, que é lugar de católicos sem títulos conhecidos, mesmo que existentes.

Samba do crioulo doido: Pe. Joãozinho e a filosofia

 

Pe. Joãozinho, tendo sido reduzido ao silêncio pelo Prof. Orlando Fedeli, não esperou sequer o sepultamente de nosso querido professor para se tornar falador de novo. Repete novamente a mesma cantilena modernista.

O padre cita uma encíclica de Bento XVI e prova que não sabe sequer interpretar o que lê. Não querendo mostrar-se relativista ao extremo, parte para uma estratégia filosoficamente insustentável. Quer nos fazer crer que existe a verdade, mas que nossa compreensão dela é relativa.

Tendo muito boa vontade com o padre, talvez ele tenha querido dizer que cada um percebe a verdade de sua maneira pessoal, interpreta a tal verdade como quer, pode ou deseja. Mas, se for assim, como saber que existe verdade? Caímos de novo no relativismo puro e simples.

Ele cita a encíclica papal sem notar que ela o desmente. Bento XVI diz: “Santo Agostinho expõe, de maneira detalhada, este ensinamento no diálogo sobre o livre arbítrio (De libero arbítrio, II, 3, 8s.). Aponta para a existência de um « sentido interno » dentro da alma humana. Este sentido consiste num ato que se realiza fora das funções normais da razão, um ato não reflexo e quase instintivo, pelo qual a razão, ao dar-se conta da sua condição transitória e falível, admite acima de si mesma a existência de algo de eterno, absolutamente verdadeiro e certo. O nome, que Santo Agostinho dá a esta verdade interior, umas vezes é Deus”. Ou seja, o que Santo Agostinho ensina é que Deus nos dotou, primeiro da razão, para percebermos as verdades mais evidentes, verdades da ordem natural e algumas da ordem sobrenatural (como diria Santo Tomás) e nos deu um “sentido interno” para percebermos as verdades mais sutis. Ora, o padre não percebe que para Santo Agostinho dizer isto é porque ele acredita que possamos apreender as verdades nas várias ordens, seja pela razão natural, seja por este sentido interno que opera acima e além da razão, seja pela Revelação, através da fé.

Pe. Joãozinho nos brinda com frases como estas: “Deus é absoluto. Nós somos relativos. Nossa compreensão da verdade é relativa.” Fazendo um esforço, podemos compreender qual a confusão do padre. Ele quer dizer: Deus é o Ser necessário, nós somos seres contingentes. Como ele não sabe se expressar de maneira filosoficamente precisa, fala besteira. Ademais, ou nossa compreensão da verdade existe ou não existe. Se existe, não pode ser relativa, já que é a compreensão da verdade. Se vemos um quadrado e pensamos ver um triângulo, não podemos sequer saber se o quadrado existe.

O que o padre não percebe é que dizendo que “Nossa compreensão da verdade é relativa”, ele se expõe à seguinte pergunta: O Sr. espera que minha compreensão deste seu juízo seja relativa ou absoluta?

Não posso deixar de lembrar, para finalizar, de Chesterton que dizia que a “modéstia deslocou-se do órgão da ambição” para o da convicção. Ou seja, Pe. Joãozinho prega a modéstia na convicção quando devia pregar a modéstia da ambição.

 

09/06/2010

Morre o querido Prof. Orlando Fedeli

 

Estamos consternados com a morte do Prof. Orlando Fedeli. O catolicismo no Brasil perde uma grande figura, um de seus maiores apologistas, um dos maiores defensores da Tradição bimilenar da Igreja. Profundo conhecedor da Doutrina Católica, ganhou para Nosso Senhor Jesus Cristo milhares de almas, inclusive a deste blogueiro.

Rezemos por sua alma, para que Nossa Senhora o receba e o recomende ao Seu Altíssimo Filho.

07/06/2010

São José, rogai por nós

Do livro Tesouro de Exemplos
O viajante e São José
Foi a 18 de março de 1888. Viajava um sacerdote no trem de Mogúncia a Colônia, quando, ao passar por Bonn, notou que seu vizinho se persignou, juntou as mãos e se pôs a rezar.
- Amanhã é a festa de S. José!... talvez que seja o seu patrono, disse o padre.
- Não, sr., mas minha esposa chama-se Josefina.. . e gostaria de estar amanhã em sua companhia. Tenho, porém, outro motivo de dar graças; e, se interessar ao senhor, contar-lhe-ei
a minha história, pois um sacerdote a entenderá.
- Certamente.
- Quando menino, recebi de minha boa mãe uma educação piedosa.Infelizmente, bem cedo morreu minha mãe; meu pai não se ocupou de minha educação religiosa e logo abandonei todas as práticas de piedade. Encontrei, mais tarde, uma jovem excelente e, desejando fazê-la minha esposa, fingi sentimentos religiosos que não possuía. Uma vez casados, quase morreu de pesar, quando lhe abri meu coração e me pus a zombar de suas devoções. Há cinco anos, na Sua festa onomástica fiz-lhe um rico presente, mas ela, quase receosa, me disse:
- Há outro presente que me faria mais feliz.
- Qual?
- A tua alma, querido, respondeu entre soluços.
- Pede-me o que quiseres: eu o farei.
-- Vem comigo amanhã, dia de S. José, à Igreja de N. N. Haverá sermão e benção.
- Se for só isso, podes enxugar tuas lágrimas, que te acompanharei.
A igreja estava repleta; o pregador, muito moço, deixou-me frio e indiferente, contudo disse uma coisa que me impressionou: "Jamais invocou alguém a proteção de S. José sem que sentisse o seu auxílio. Tende firme confiança de que correrá em socorro de todo aquele que o invocar na hora do perigo, ainda que seja pecador ou mesmo incrédulo".
Ao sairmos da igreja, disse-me minha esposa: - Meu amigo, muitas vezes estarás em perigo em tuas viagens; prometes-me que, chegando o caso, dirás esta breve oração: "S. José, rogai a vosso divino Filho por mim"?
- Assim o farei; não é nada difícil.
Pouco depois, viajava por este mesmo lugar em que nos encontramos; éramos sete no compartimento. De repente, um apito de alarma e já um formidável choque nos atirava pelos ares. Não tive tempo de dizer mais que: "S. José, socorro!" Tudo foi coisa de um instante. Ao voltar a mim, vi meus companheiros horrivelmente despedaçados e mortos. Eu sofrera apenas leves contusões. Desde aquele dia retomei as práticas religiosas e repito, sempre com grande confiança: "S. José, socorrei-me!"

São José e o primeiro asilado
Em 1863 chegava a Barcelona um grupo de lrmãzinhas dos Pobres para fazer a sua primeira fundação na Espanha. Foram muito bem recebidas pelos catalães, que precisavam não pouco de um asilo para tantos infelizes velhos abandonados que costuma haver nas grandes capitais. O Asilo foi, como de costume, colocado sob a proteção de S. José, a quem chamam as Irmãs de Procurador da Casa. No começo, por falta de local, admitiam somente mulheres velhas. Mas, eis que S. José, um belo dia, lhes traz o primeiro velho. Era um homem de 80 anos que se apresentou dizendo à Irmã:
- Venho aqui para internar-me.
- É impossível, replicou a Superiora; ainda não podemos receber nenhum homem.
- Seja, mas não há remédio, ficarei assim mesmo.
- Como se chama o Sr.?
- Chamo-me José.
Este nome chamou a atenção das Irmãs; além disso era dia consagrado a S. José. Não há remédio, recebê-lo-emos em nome de São José.
O velho não possuía mais que farrapos e estava coberto de insetos. Roupa de homem não havia. A Superiora, chamando duas Irmãs, disse-lhes:
- Saiam as Senhoras à procura de roupa, enquanto vamos lavá-lo e penteá-lo.
Durante este breve colóquio ouviu-se a campanhia da portaria: era uma senhora desconhecida que, entregando um embrulho, se retirou sem dizer nada. Abriram e viram, com grande surpresa, que era um traje completo para homem.
O pobre velho chegou ao cúmulo da alegria; não menos, porém as Irmãs que compreenderam que S. José as convidava a ampliar seus planos de caridade.
O Asilo cresceu tranqüila e constantemente e dentro de poucos anos abrigava mais de duzentos velhos sem que lhes faltasse o pão de cada dia, nem as carinhosas atenções das boas Irmãs.

29/05/2010

Objeções à Caridade

G.K. Chesterton
The Illustrated London News
8 de dezembro de 1906
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Nota (longa) – Publiquei há alguns anos, no Mídia Sem Máscara, um artigo sobre a caridade que talvez seja um bom intróito brasileiro ao extraordinário artigo de Chesterton, que abaixo traduzo e que na época não conhecia. Se o conhecesse, certamente o teria citado. Vou reproduzi meu artigo abaixo porque o site do MSM não disponibiliza mais os links dos artigos antigos. Reproduzo também, logo a seguir, uma pequena discussão que mantive com um leitor, sobre as questões tratadas no artigo.
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REVOGADA A LEI DA CARIDADE EM BELO HORIZONTE
Leio no Estado de Minas de hoje (12/10/2006) que, muito oportunamente nesta data, a Prefeitura de Belo Horizonte revogou a lei da caridade cristã. Diz o título da reportagem, em letras garrafais: COMPANHA CONTRA A ESMOLA. Os ungidos da Secretaria Municipal de Assistência Social afirmam que os problemas com os menores estão resolvidos. Sobretudo dos menores que trabalham. Isso, na visão dessa gente, é o maior absurdo. O menor vadio, ah!, esse não tem problema. Os problemáticos são os que trabalham, porque esses são os “explorados”.

Os que teimam em dar esmolas são agora os colaboradores dos exploradores de crianças. Sim, porque no dizer de uma assistente social “Ao comprar um chiclete ou coisa semelhante [no semáforo, por exemplo], a pessoa colabora com a manutenção da exploração infantil”.

Fica revogada, a partir de hoje em Belo Horizonte, o capítulo 13 da primeira carta de S. Paulo aos Coríntios. Aquilo tudo foi muito útil enquanto não existia a Prefeitura de Belo Horizonte. Fica ainda, para os estudiosos, o problema de saber se devemos revogar a epístola toda ou se há alguma parte dela que se aproveita, depois desse ato oficial.

A ungida assistente social afirma ainda que “Muitos acreditam que o menor deve trabalhar para ajudar a família, porém a prefeitura tem programas que atendem todos que precisam.” Aqui fica evidente a inutilidade da caridade individual.

Que maravilha! Você é pobre? Você tem filhos? Você acredita que eles precisam aprender a trabalhar o quanto antes, para serem, um dia, alguém na vida? Até pouco tempo atrás você era um pai zeloso, que desejava o melhor para o seu filho, dadas as condições em que ele nasceu. Agora você é explorador de menores. Seu filho não precisa do que você quer dar a ele. Aliás, quem sabe o que ele precisa, não é você que é pai, que o viu nascer, que se esforçou em criá-lo da melhor forma que você pôde. São as assistentes sociais da prefeitura que sabem o que é melhor para seu filho.

Ele deve aprender balé, dança flamenca, teatro, etc. Assim, quando ele crescer, ele vai ser um grande artista. Porque você sabe, né?, todo mundo deve ser artista no Brasil. Não vê o exemplo do Gilberto Gil. Ele é artista. Não sabe se expressar, não fala coisa com coisa, e chegou a ministro. Mire-se nos exemplos de Caetanos, Gils e daquela penca de artistas que se reuniram para nos convencer que ética é aquilo que o PT fez, nos quatro anos de governo.

Como S. Paulo se tornou persona non grata em Belo Horizonte, talvez devamos nos atentar para a advertência de C.S. Lewis: “Há hoje em dia pessoas que pensam que a esmola deveria ser desnecessária e que, em vez de darmos aos pobres, deveríamos criar uma sociedade em que não houvesse pobres. Talvez tenham toda a razão em afirmar que deveríamos esforçar-nos por criar esse tipo de sociedade; mas se alguém pensa que, enquanto não se chegar a esse ponto, pode parar de dar esmolas, com certeza deixou completamente de lado toda a moral cristã.

Depois deste artigo, temo que todos vão querer morar em Belo Horizonte, que será a Cidade de Deus agostiniana. E tudo isso sob os auspícios de sua administração municipal, que, por coincidência, é claro, é petista.
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DISCUSSÃO COM UM LEITOR
Prezado Sr Antônio Emílio de Araújo,
Ao ler seu artigo “Revogada a Lei da Caridade Cristã” fui tomado da curiosidade de conhecer melhor seu pensamento.
Para tanto formulei algumas perguntas às quais gostaria imensamente de ver respondidas:
1) O senhor considera realmente como trabalho, a atividade de vender balas nas ruas?
2) O senhor considera que tal atividade ajudará na formação do caráter dessas crianças?
3) O senhor considera que tal atividade trará alguma lição, ou ensinamento, ou aprendizado relevante para a vida futura dessas crianças?
4) O senhor considera realmente que essas crianças sejam filhas de pais zelosos que estão pensando no melhor dos interesses dos seus filhos?
5) O senhor considera que este tipo de caridade seja imprescindível para a sobrevivência dessas crianças?
6) Em caso positivo, o senhor considera errado que o estado assuma a posição de provedor?
7) Por fim: Já que o ato de vender balas nos sinais é um excelente meio disciplinador e formador de caráter, bem como um excelente meio para as pessoas praticarem a caridade; o senhor colocaria seus filhos para vender balas nos sinais?
Peço por caridade, que o senhor tenha a devida paciência para responder aos meus questionamentos.
Atenciosamente
Wolmar Murgel Filho
***
Caro Sr. Wolmar,
O Sr. usa um tom deveras professoral para um debate de idéias. Além disso, não sem certa ironia, o Sr. responde, indiretamente, algumas das perguntas feitas. Não vou comentar sobre isso e acreditarei que o Sr. esteja realmente interessado em minhas idéias e não em me dar uma lição de moral.

Eu acredito que a vida é injusta, que nem todos nasçam com as mesmas potencialidades ou mesmo num meio ambiente que as faça florescer devidamente. Eu acredito que o homem pode, dentro de suas limitações e dificuldades, se elevar acima de suas circunstâncias, mas com muito trabalho e esforço.

O nascido pobre, no sentido econômico, tem de trabalhar desde cedo se quiser se elevar acima da pobreza original. Quanto mais ele atrasar, mais difícil fica seu caminho. Quanto mais convencermos o pobre de que ele deve dançar balé e não tentar ajudar, com alguma atividade remunerada, sua família, mais estamos atravancando seu caminho.

O caminho do trabalho precoce foi o caso, no século XIX, de uma criança órfã que trabalhava, desde os nove anos de idade, nos armazéns de um comerciante inglês muito rico, e que se tornou o Barão de Mauá. Foi também a história de um menino negro, filho de lavadeira, que se tornou Machado de Assis. No século XX, foi o caminho de uma criança de nome Abravanel, que trabalhava como camelô e se tornou Sílvio Santos. Fora do Brasil, podemos citar aquele menino que trabalhava com um encadernador de livros, que de tanto ler os livros que encadernava, se tornou Michael Faraday, um dos maiores físicos que o mundo conheceu. Vou poupar o Sr. e os demais leitores do exemplo daquele lenhador que se tornou presidente dos EUA.

Qual o trabalho cada pobre deve escolher eu não sei. Parece, pelas perguntas feitas, que o Sr. sabe. Digo apenas que considero que lavar privada, carregar compras, vender chicletes, etc. são todos trabalhos relevantes. Não acho, porém, que traficar drogas, se prostituir e roubar sejam trabalhos relevantes.

O Sr. me faz uma pergunta pessoal, pensando talvez em me atemorizar ou em me pegar em contradição. Pergunta se eu deixaria meus filhos venderem chiclete no semáforo. Sr. Wolmar, eu não nasci pobre (nem rico) e não precisei, pela graça de Deus, trabalhar até me formar na universidade. Mas minha esposa trabalha desde os 11 anos de idade (vendia bijuteria em feira de artesanato) e meu filho, às vezes, vende bombom na porta do restaurante de sua escola, na hora do almoço. Se nossa família precisasse (ou precisar), o Sr. fique certo de que meus filhos estariam(estarão) vendendo chicletes nos semáforos da vida.
Quanto ao estado provedor, eu conheço, relativamente bem, a história do século XX, em que a implantação deste tipo de estado levou para a cova 200 milhões de pessoas. Dispenso esse tipo de estado!

Um comentário final sobre a caridade. Ela é para ser praticada com o próximo e não com o distante. Segundo Lewis, uma das estratégias do demônio é nos fazer amar o distante (por exemplo, nos fazer ter a maior compaixão pelas criancinhas famintas da África) e odiar ou desprezar o próximo (por exemplo, nos fazer recusar dar esmolas às crianças em nossos semáforos). Outro exemplo é achar que colaborar com o "Criança Esperança" é meritório ao mesmo tempo em que sentimos o maior desprezo por aquele menino feio e catarrento que se aproxima de nós para vender chicletes.

Sr. Wolmar, espero que o tenha esclarecido melhor sobre as minhas idéias.

Obrigado pelo interesse.

Antônio Emílio Angueth de Araújo

P.S. Talvez seja de seu interesse consultar este artigo de Olavo de Carvalho sobre a temática da pobreza em geral.
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A seguir, o artigo de Chesterton.
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Lamento ver que há um tipo de suposição universal na maioria dos jornais de que o cavalheiro que deu dinheiro às crianças e homens nas ruas fez algo inteiramente indefensável e absurdo. Quando interpretou a caridade como a obrigação de distribuir dinheiro pelas ruas, ele fez algo pelo que eu, por exemplo, esperava há muito tempo. Não vou tão longe a ponto de afirmar que ele estava certo; mas certamente penso que estava muito mais certo que todos os filantropos e organizadores de caridade que o desaprovam. Está tudo muito bem em dizer que os economistas alertam que a caridade casual faz mal. Os economistas são muito capazes de afirmar que comer e beber faz mal – e, de fato, pensando bem, comer e beber faz certamente mal. Fala-se em jogar dinheiro no mar. Fala-se em atira riquezas num poço sem fundo. Fala-se em derramar um bom vinho no esgoto. Mas pelo menos, em todos esses casos de jogar algo no abismo, a coisa, uma vez no abismo, não pode fazer mal. O dinheiro não pode subornar o mar; nem o vinho pode embebedar a tubulação. Fazemos, contudo, algo mais obscuro e mais imprudente quando atiramos vinho ou comida num abismo mais tenebroso que é dentro de nós mesmos.

Por que devo me preocupar se não sei se faço bem ou mal quando dou uma refeição a um mendigo? Não se faço bem ou mal se dou uma refeição a mim mesmo. A comida tal como a comemos nestas épocas civilizadas e com digestões civilizadas, a comida, neste sentido, contém as sementes tanto da morte quando da vida. Não me diga que não sei o que acontece com a moeda que dou àquele reconhecido mendigo, Esgotado da Silva. Não sei o que acontece com o sanduíche de presunto que dou àquele pária faminto: G.K. Chesterton. Não quero saber. Sei que, em certo sento, estamos derramando dons num universo sem fundo, num universo que usa os dons de seu próprio modo e com uma complexidade além de nosso controle ou mesmo de nossa imaginação.

Sem dúvida, em matéria de mendigos e caridade, eu sei o que não sei – não sei que uso será feito afinal do presente em dinheiro que dou a um homem pobre. Mas tampouco sei do uso que será feito do presente que dou a qualquer outro homem. Dar qualquer presente digno do nome é dar poder; dar poder é dar liberdade; dar liberdade é dar pecado em potencial. Se dou o presente mais decoroso e pio, ele se coloca além de meu poder por eu meramente tê-lo dado. Se dou uma Bíblia a um homem, ele pode lê-la de forma a justificar a poligamia. Muitos homens têm lido a Bíblia (os Mórmons, por exemplo) para justificar a poligamia. Se dou a um homem um copo de chocolate (o que seguramente nunca deveria fazer) ele pode obter desse copo de chocolate a quantidade exata de nutrientes e vigo que precisava para cometer um assassinato. Muitos homens, tenho certeza (embora não tenha estatísticas à mão) têm cometido assassinato sob o imediato revigoramento do chocolate. Se dou a um homem uma igreja, ele pode nela celebrar uma Missa Negra. Se dou a um homem um altar (o que parece improvável) ele pode usá-lo para sacrifício humano. E se isso é a lógica até desses casos em que o presente em si é algo comumente considerado inofensivo ou correto, a questão é extraordinariamente séria em relação aos presentes que as pessoas do mundo dão umas às outras. Se é possível que dinheiro ou bebida sejam mal-usados por indivíduos socialmente nossos inferiores, é quase certo que livros, roupas, móveis e obras de arte possam ser mal-usados e sejam mal-usados por nossos iguais.

Eis a peculiar torpeza da objeção à caridade casual. Não nos permitem supor que dinheiro seja uma boa coisa para aqueles que não o têm no mesmo sentido aproximado e geral que supomos que altos salários, quadros ou convites são coisas boas para aqueles que não os têm. Dizem-nos que é nossa responsabilidade considerar se a pequena esmola fará o mendigo mais bêbado ou mais ocioso. Mas nunca nos disseram ser nossa responsabilidade considerar se a ajuda a tal cavalheiro para conseguir-lhe um bom salário o fará mais bêbado ou mais ocioso. Não é nossa responsabilidade perguntar-nos se dar pérolas a uma senhora a fará mais vã. Não é nossa responsabilidade perguntar-nos se dar-lhe livros pedantes a fará mais pedante. Não se supõe que calculemos por meio de uma elaborada psicologia se dar um deslumbrante presente de casamento a um elegante casal de noivos os fará eticamente melhores ou piores do que são. Em todos esses casos nós, sendo pessoas de senso comum, exigimos o direito de dizer: “A forma de usar a coisa é problema deles; tenho razão em supor que, de acordo com os propósitos ordinários, livros são coisas boas, lindas jóias são coisas boas e um bom salário é uma coisa boa.” Mas o único caso em que não nos permitem argumentar assim é exatamente o caso de dar dinheiro aos muito pobres. Ou seja, o único caso em que não nos permitem tratar o dinheiro como algo bom em si mesmo é aquele em que realmente sabemos que ele é necessário.

Não sabemos nem mesmo se uma senhora decente deseja realmente uma pérola. Sabemos contudo que, em noventa e nove de cem casos, mesmo um falso mendigo deseja realmente dinheiro. Nossa ignorância sobre o que acontecerá com o dinheiro é simplesmente parte de nossa ignorância do que acontecerá com qualquer outra coisa, nossa ignorância do mundo em que vivemos. O que é realmente vil é o seguinte: que nossa ignorância, que nunca é invocada quando satisfazemos as frívolas necessidades dos frívolos, seja sempre imediata e violentamente invocada quando estamos, pelo menos uma vez, satisfazendo as palpáveis necessidades dos necessitados. Não desejo explorar mais profundamente este aspecto da questão; ele é muito sério para ser tratado neste lugar. Mas uma vez, quando o grande crime humano da história do homem foi cometido, o crime que obscureceu o sol no firmamento, o espírito que tinha a maior razão em reclamar, disse dos criminosos: “Eles não sabem o que fazem.” É, de fato, verdade que não sabemos o que fazemos. É-nos permitido apresentar essa desculpa quando cometemos um crime. Será que não nos é permitido apresentá-la quando fazemos uma gentileza?

Portanto, tenho uma simpatia pelo filantropo louco. Sei que quando ele jogou dinheiro pelas ruas, todas as instituições do mundo moderno lhe disseram que ele fazia mais mal do que bem. Todavia, sei também que cada uma dessas instituições lhe teria dito que ele fazia mais mal do que bem se ele tivesse dado dinheiro a qualquer das outras instituições. Há um ataque cabível a ser feito à caridade promíscua. Mas há exatamente o mesmo ataque a ser feito à caridade institucional. Sei do caso de um confuso milionário que perguntou a dois homens públicos de nosso tempo como ele poderia fazer o bem com seu dinheiro. O primeiro, depois de uma longa consideração de todos os aspectos, não tenho dúvida de que imbuído do mais elevado espírito filantrópico, aconselhou-o a ficar com seu dinheiro. O outro, depois de levar um mês para considerar a questão, escreveu-lhe para dizer que concebera uma maneira por meio da qual ele não faria mal com seu ouro, que era cobrir com ele o domo da Catedral de São Paulo.

Quando há tal desesperança e desamparo mesmo da caridade sistemática, é absurdo alertar para a desesperança e desamparo da caridade individual. Tenho alguma simpatia para com o home que quer emplastar com ouro o domo da Catedral de São Paulo. Mas tenho muito mais simpatia com o Sr. Yates, o filantropo louco de nossos dias, que quer consumar a antiga lenda e pavimentar com ouro as ruas de Londres. Que seus presentes causaram inveja, desordem e mesmo decepção é possivelmente verdade. Da mesma forma, a ausência de tais presentes causa inveja, desordem e decepção. Não defendo seriamente esse método no seu todo. Mas digo, contudo, que é dessa forma individual que a caridade será reformada. Nada será feito até que tenhamos percebido que caridade não é dar recompensa aos merecedores, mas felicidade aos infelizes.

Nos estado atual das coisas, temos apenas a escolha entre dar dinheiro a homens de quem nada sabemos e dar dinheiro a instituições das quais nada sabemos. Evidentemente, podemos saber que certa instituição é, no sentido formal e fútil, respeitável, que é solvente, que não é presidida por um vigarista com seus caminhões carregados e etiquetados “Venezuela”; mas isso não é o que queremos saber sobre uma instituição beneficente. Não queremos saber meramente se uma instituição beneficente é cautelosa ou sólida como um banco. Queremos saber se a instituição beneficente pode contar com a confiança, não somente do corpo, mas da alma dos homens. Queremos conhecer uma instituição beneficente que seja humana, abrangente, solidária com os homens livres, magnânima. Em resumo, queremos, por estranho que pareça, conhecer uma instituição de caridade que seja caridosa. E isso, em regra, nós não conhecemos. Essas são as coisas que levam o homem razoável a sentir um pouco de simpatia pelo cavalheiro que foi descrito pelos jornais como o “milionário louco”. Pesquisa subseqüente revelou, eu acho, que ele não era milionário. Uma pesquisa adicional e mais profunda revelará, eu acho, que ele não era assim tão louco.

Há uma observação que pode ser adicionada a essa divagação. Não sei se há métodos que possam testar se o recipiente da esmola é genuíno. Mas estou seguro de que o método ordinariamente adotado, especialmente por caridosas senhoras, é uma grande bobagem. Ouve-se constantemente que um homem faminto é uma fraude porque tão logo ele recebe o dinheiro ele “vai para um bar”. Esse precioso teste é constantemente adotado para provar que um homem com fome é um enganador. Ninguém parece ter o ordinário discernimento para lembrar que ir a um bar é exatamente o que alguém faria se fosse, não um enganador, mas um homem com fome. Ele vai lá, em primeiro lugar, porque lá é o único lugar em que se vende um pão com queijo por alguns reais. E se ele vai também para tomar algo estimulante, ele faz exatamente o que qualquer sadio bispo ou juiz faria se ficasse enfraquecido pela fome. Qualquer que seja o teste para mendigos que você empregar, não empregue este teste imbecil, que é universal entre os filantropos modernos.

26/05/2010

Igreja Santa e Pecadora

Leitor escreve:

Na missa deste domingo o padre disse: A Igreja é Santa e Pecadora.Santa pelo Espírito Santo e pecadora por nós cristãos. Comente a respeito destas palavras do padre e sobre essa coisa de Igreja Santa e Pecadora.

Este padre está propagando uma heresia que veio diretamente de Lutero. Karl Rahnner, teólogo modernista, trouxe de volta a antiga heresia para o seio da Igreja. Leia o texto do professor Orlando Fedeli sobre isso: Igreja Santa e Pecadora?

24/05/2010

Filosofia e impostura

 

O texto que escrevi sobre Dawkins e o Milagre de Fátima, recebeu um comentário que merece ser discutido em um post separado. O comentário completo foi publicado no post original. Publico abaixo partes dele (em itálico), que comento a seguir.

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Acho que existe uma diferença entre contar uma história e defender uma opinião, é por isso que acredito que um filósofo não precisa de “testemunhos”.

... devemos ter independência diante de um filósofo. Eu tenho diante de David Hume e tenho diante de Tomás de Aquino. Mas isso em nenhum momento os torna “impostores” diante de mim. Isso seria violento e arrogante de minha parte.

Eu lembrei que Hume é um filósofo e que, portanto, escrever que uma opinião dele seria verdadeira porque assim ele quer é uma objeção infantil.

Hawkins em seu artigo parece dizer que o Vaticano tinha a obrigação de demonstrar que o Milagre de Fátima realmente aconteceu. Responsabilidade que viria junto com os “lucros” por assim dizer, que o uso daquela história trouxe à Igreja Católica. Mas provar como? O Milagre de Fátima é objeto de fé, não acho que deve ser alvo da ciência.

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Caro leitor,

Um filósofo, se estiver desempenhando sua função de filósofo, muitas vezes não precisa mesmo de “testemunhos”. Estamos frente a frente com um ser humano que está testemunhando sua luta para desvendar, clarear, penetrar na espessa bruma do desconhecido, da realidade. Sua obra é, muitas vezes, o relato dessa luta. Ela vale pelos insights que ofereceu, pelas idéias claras que deixou para a posteridade, não pelo que provou ou deixou de provar. Mesmo quando não deixa grande coisa, é sempre um testemunho do esforço humano na direção do compreender, um testemunho do cumprimento do que é anunciado na primeira frase da Metafísica de Aristóteles.

Você parece dar muita importância ao título de filósofo; parece respeitar demasiadamente os filósofos, mesmo quando eles falam besteiras. Outra coisa é a seguinte: eu não leio os filósofos procurando por suas opiniões. Quando leio filosofia estou procurando a Verdade.

Vou te dar um exemplo do que é falar besteira. Em seu livro “Investigações sobre o Entendimento Humano” ele diz: “Se tomamos em nossas mãos qualquer tratado, sobre a divindade ou sobre metafísica escolástica, por exemplo, perguntemos: Ele contém algum raciocínio abstrato sobre quantidade ou número? Não. Contém algum resultado experimental com relação à matéria? Não. Jogue-o na fogueira, pois ele não contém nada além de sofisma e ilusão.

Eu pergunto: Hume está sendo filósofo quando escreve isso? Claro que não! Está sendo impostor! Está sendo irracional! Está sendo manipulador! Está dando provas de suas mais recônditas más intenções! Ademais, pode ser desmascarado muito facilmente. Basta-nos apenas que apliquemos sua regra ao próprio livro que a anuncia. Ou seja, perguntemos: O tratado de Hume contém algum raciocínio abstrato sobre a quantidade ou número? Respondamos: Não! Perguntemos de novo: Contém algum resultado experimental com relação à matéria? Respondamos: Não! Apliquemos aqui a sugestão do filósofo: Joguemos o tratado na fogueira, pois ele não contém nada além de sofisma e ilusão.

Quer outro exemplo de impostura, irracionalismo, manipulação? Alfred Jules Ayer criou o festejado Princípio da Verificabilidade: “Uma proposição só pode ser significativa se for verdade por definição ou for empiricamente verificável.” Perguntemos: O Princípio da Verificabilidade é uma proposição verdadeira por definição? Respondamos: Não! Perguntemos de novo: É uma proposição verdadeira por verificação empírica? Respondamos: Não! Então, apliquemos aqui o Princípio da Verificabilidade: O Princípio da Verificabilidade não é uma proposição verdadeira!

A filosofia, caro leitor, está repleta desse tipo de impostura. Recomendo a leitura de uma obra de Mário Ferreira: “A Origem dos Grandes Erros Filosóficos”. Você verá uma galeria de ditos “filósofos” cometendo os mais grosseiros erros, que não podem ser considerados apenas enganos bem intencionados. Portanto, acautelemo-nos com os filósofos!

Dawkins não cobra nenhuma prova do Vaticano, como você diz. Mas chama a atenção sua menção a lucros do Vaticano. Este é um argumento sempre levantado pelos inimigos da Igreja. Que lucros? Lucro de ser difamada por impostores como Dawkins? Ou você quer dizer que a Igreja aufere grandes lucros com a peregrinação à Fátima? Ou pior: que o Vaticano só reconheceu o milagre do sol para auferir lucros?

Se o lucro de fato ocorrer, o que você propõe? Que os peregrinos devotos de Nossa Senhora de Fátima não devam ir a Fátima? Que o Vaticano financie a viagem dos milhares de peregrinos? Você tem a mesma preocupação com a peregrinação a Meca?

O milagre de Fátima não é matéria de fé; é um fato e fato não é matéria de fé e nem matéria de demonstração. Por exemplo, a Crucificação de Nosso Senhor não é matéria de fé; é fato. O que é matéria de fé é a Redenção, ou seja, a crença de que pela Sua Crucificação estamos redimidos de nossos pecados, se fizermos parte de seu Corpo Místico. As curas que Jesus abundantemente fez são fatos, não são matéria de fé.

Para terminar, quero sugerir dois textos sobre milagres. Um é um ensaio de Olavo de Carvalho: What is a miracle? O outro é o livro de C.S. Lewis: Miracles.

20/05/2010

A EMANCIPAÇÃO DA DOMESTICIDADE

G.K. Chesterton

Nota: Este é o Capítulo III do livro “O que está errado com o mundo” que Chesterton publicou em 1910. Expressa a sua visão da importância da mulher no esquema geral da sociedade humana, numa época em que ela estava se emancipando de suas funções naturais para assumir as funções que a modernidade estava exigindo. Este tema será retomado em outro livro de Chesterton publicado em 1929, “A Coisa”.

E deve ser observado, de passagem, que esta exigência para que o homem desenvolva apenas uma habilidade não tem nada a ver com o que é comumente chamado nosso sistema competitivo, mas existiria igualmente sob qualquer tipo racionalmente concebido de coletivismo. A menos que os socialistas estejam totalmente preparados para uma queda no padrão de seus violinos, telescópios e lâmpadas elétricas, eles devem de alguma forma criar uma demanda moral sobre os indivíduos de maneira que eles mantenham a atual concentração em tais coisas. Foi apenas porque os homens se tornaram, em algum grau, especialistas é que surgiram os telescópios; eles devem ser, em algum grau, especialistas para continuarem a construí-los. Não é fazendo um homem ser um assalariado estatal que se possa impedi-lo de pensar principalmente sobre como é difícil ganhar seu salário. Há apenas uma maneira de preservar no mundo aquela superior leveza e aquela serena perspectiva contidas na antiga visão de universalismo. E esta é permitir a existência de uma metade da humanidade parcialmente protegida; uma metade a que o assédio da demanda industrial inquieta, mas inquieta apenas indiretamente. Em outras palavras, há de haver em cada centro da humanidade um ser humano preocupado com um plano mais amplo; um ser humano que não “dê o seu melhor”, mas que se dê integralmente.

Nossa antiga analogia do fogo continua sendo a mais viável. O fogo não precisa resplandecer como a eletricidade nem se agitar como a água fervente; a questão é que ele resplandece mais que a água e aquece mais que a luz. A esposa é como o fogo, ou para colocar as coisas na perspectiva adequada, o fogo é como a esposa. Como o fogo, espera-se que a mulher cozinhe; não de forma excelente, mas cozinhe; que cozinhe melhor que seu marido, que está conseguindo a lenha lecionando botânica ou quebrando pedras. Como o fogo, espera-se que a mulher conte histórias para seus filhos, não histórias originais e artísticas, mas histórias – histórias melhores do que as possivelmente contadas pelos cozinheiros de primeira classe. Como o fogo, espera-se que a mulher ilumine e esclareça, não pelas mais espantosas revelações ou as mais selvagens agitações do pensamento, mas melhor que um homem pode fazer depois de quebrar pedras ou lecionar. Mas não se pode esperar que ela suporte tal responsabilidade universal se for suportar também a crueldade do trabalho competitivo e burocrático. A mulher deve ser uma cozinheira, mas não uma cozinheira competitiva; uma decoradora, mas não uma decoradora competitiva, uma costureira, mas não uma costureira competitiva. Ela não deve ter nenhum negócio, mas vinte hobbies; ela, ao contrário do homem, deve desenvolver tudo que faz sem se preocupar em atingir a perfeição. Isto é o que foi sempre buscado a princípio no que é chamado reclusão, ou mesmo opressão, da mulher. As mulheres não foram mantidas em casa para que fossem limitadas, foram mantidas em casa para que fossem amplas. O mundo do lado de fora é uma massa de limitações, um labirinto de caminhos estreitos, um hospício de monomaníacos. Foi por esta parcial limitação e proteção da mulher que ela era capaz de desempenhar-se em cinco ou seis profissões e assim se aproximar tanto de Deus quanto a criança que brinca de ter cem profissões. Mas as profissões da mulher, ao contrário das da criança, eram todas verdadeira e, quase, terrivelmente frutíferas; tão tragicamente reais que nada exceto sua universalidade e equilíbrio impediam que elas se tornassem meramente mórbidas. Esta é a substância da alegação que ofereço sobre o papel histórico da mulher. Não nego que as mulheres foram ofendidas ou mesmo torturadas; mas duvido que elas tenham sido torturadas tanto quanto o são agora pela moderna tentativa absurda de fazê-las ao mesmo tempo rainhas do lar e funcionárias competitivas. Não nego que mesmo sob a antiga tradição, as mulheres tivessem vidas mais difíceis que a dos homens; esta é a razão porque tiramos nossos chapéus. Não nego que todas essas várias funções femininas fossem exasperantes; mas digo que havia algum objetivo e significado em mantê-las variadas. Não tento nem mesmo negar que a mulher fosse uma criada; mas pelo menos era a criada principal.

A forma mais breve de resumir a questão é dizer que a mulher é a responsável pela idéia da Sanidade; aquele lar intelectual para o qual a mente retorna depois de cada excursão pela extravagância. A mente que se dirige a lugares extravagantes é a do poeta; mas a mente que não retorna é a do lunático. Deve haver em cada máquina uma parte que move e uma parte imóvel; deve haver em tudo que muda uma parte imutável. E muitos dos fenômenos que os modernos apressadamente condenam são realmente partes dessa posição da mulher como centro e pilar da saúde. Muito do que é chamada sua subserviência, e mesmo sua docilidade, é meramente a subserviência e docilidade de um remédio universal; ela varia como um remédio varia, conforme a doença. Ela tem de ser uma otimista para um marido mórbido, uma pessimista salutar para um marido excessivamente otimista. Ele tem de impedir que o Quixote seja abusado pelos outros, e que o valentão abuse dos outros. O Rei da França escreveu

“Toujours femme varie Bien fol qui s'y fie”

mas a verdade é que a mulher sempre varia, e esta é a razão de sempre confiarmos nela. Corrigir cada aventura e extravagância com seu antídoto, usando o senso comum, não é (como os modernos parecem pensar) estar na posição de um espião ou de um escravo. É estar na posição de Aristóteles ou (no nível mais baixo) de Herbert Spencer, ser uma moral universal, um completo sistema de pensamento. O escravo lisonjeia; o moralista repreende. É ser, em resumo, um trimmer[1] no verdadeiro sentido deste honroso termo, que por alguma razão, é sempre usado no sentido oposto. Parece realmente que consideram um trimmer uma pessoa covarde que sempre escolhe o lado mais forte. Mas este termo significa realmente uma pessoa altamente cavalheiresca que sempre escolhe o lado mais fraco; como aquele que equilibra a carga de um barco sentando-se onde há poucas pessoas sentadas. A mulher é um trimmer, e isso é uma função generosa, perigosa e romântica.

Um fato final que determina isso é de natureza muito simples. Supondo que a humanidade agiu de forma não artificial dividindo-se em duas metades, respectivamente tipificando os ideais de talento especial e sanidade geral (uma vez que eles são genuinamente difíceis de combinar completamente em uma única mente), não é difícil ver porque a linha de clivagem seguiu a linha do sexo, ou porque a fêmea tornou-se o emblema do universal e o macho do especial e superior. Dois fatos gigantes da natureza demonstraram isso: primeiro, que a mulher que freqüentemente cumprisse literalmente suas funções não poderia ser especialmente proeminente no experimento e na aventura; e segundo, que a mesma operação natural a rodeava de crianças muito jovens, que exigiam não o ensino de alguma coisa, mas o ensino de todas as coisas. Bebês não precisam aprender uma profissão, mas precisam que se lhe apresentem um mundo. Para resumir, a mulher é geralmente encerrada numa casa com um ser humano numa época em que ele pergunta todas as questões que existem e algumas que não existem. Seria estranho que ela retivesse qualquer traço da estreiteza de um especialista. Ora, se alguém diz que essa tarefa de esclarecimento geral (mesmo quando livre dos horários e das regras modernas, e exercido espontaneamente por uma pessoa mais protegida) é em si excessivamente exigente e opressiva, consigo entender esse ponto de vista. Posso apenas responder que nossa raça considerou que vale a pena colocar este peso sobre a mulher a fim de manter o senso comum no mundo. Mas quando as pessoas começam a falar sobre esse trabalho doméstico como não simplesmente difícil, mas trivial e monótono, eu simplesmente desisto da discussão. Pois, eu não consigo, com o máximo poder de imaginação, entender a respeito do que estão falando. Quando a domesticidade, por exemplo, é chamada de lida penosa, toda a dificuldade surge do duplo sentido da expressão. Se penosa significar trabalho duro, admito que a mulher labute em casa, como o homem pode labutar na Catedral de Amiens ou atrás de um canhão em Trafalgar. Mas se penosa significar que o trabalho duro é mais pesado porque é insignificante, sem graça e sem importância para a alma, então, como disse, eu desisto; não sei o que as palavras significam. Ser a Rainha Elizabete dentro de uma área definida, decidindo salários, banquetes, tarefas e feriados; ser Whiteley[2] dentro de certa área, suprindo brinquedos, sapatos, bolos e livros; ser um Aristóteles dentro de certa área, ensinando moral, boas maneiras, teologia e higiene; posso entender como isso pode exaurir uma mente, mas não posso imaginar como pode estreitá-la. Como pode ser uma larga carreira ensinar a Regra de Três a crianças dos outros, e uma estreita carreira ensinar à sua própria criança sobre o universo? Como pode ser amplo ensinar a mesma coisa a todo mundo, e estreito ensinar tudo a alguém? Não; a função de uma mulher é trabalhosa, mas porque é gigantesca, não porque é minúscula. Tenho pena da Sra. Jones pela enormidade da sua tarefa, não pela sua pequenez.

Mas embora a tarefa essencial da mulher seja a universalidade, isso não a impede, claro, de ter um ou dois fortes, mas grandemente saudáveis, preconceitos. Ela tem sido, em geral, mais consciente do que o homem de que ela é apenas uma das metades da humanidade; mas ela tem expressado isso (se alguém pode dizer isso de uma senhora) agarrando com unhas e dentes duas ou três coisas que considera ser suas responsabilidades. Eu observaria aqui, entre parêntesis, que muito do recente problema oficial sobre a mulher surgiu do fato de que elas transferem para as coisas da razão e da dúvida aquela sagrada obstinação apenas apropriada às coisas primárias que foram confiadas à guarda da mulher. O próprio filho, o próprio altar, deve ser uma questão de princípio – ou se se preferir, uma questão de preconceito. Por outro lado, a dúvida sobre quem escreveu as Cartas de Junius[3] não deve ser uma questão de princípio ou preconceito, deve ser uma questão de investigação livre e quase indiferença. Mas tome uma garota moderna e cheia de vida, secretária de uma associação e dê-lha a função de mostrar que George III escreveu tais cartas, e em três meses ela acreditará nisso também, por mera lealdade a seus empregadores. As mulheres modernas defendem seu escritório com toda a ferocidade da domesticidade. Elas lutam pela mesa e pela máquina de escrever como pelo lar, e desenvolvem um tipo de selvagem atitude doméstica para com o chefe invisível da empresa. Esta é a razão de elas fazerem o trabalho de escritório tão bem feito; e esta é a razão porque elas não devem fazê-lo.


[1] Trimmer tem dois significados principais: estivador (aquele que equilibra a carga das embarcações) e oportunista. Chesterton brinca com estes dois significados. (N. do T.)

[2][2] Grande loja de departamentos da Londres de Chesterton. (N. do T.)

[3] Junius era o pseudônimo de um indivíduo, cuja a identidade é desconhecido, que escreveu uma série de cartas para um jornal londrino, Public Advertiser, entre 21 de janeiro de 1769 e 21 de janeiro de 1772. De eminentemente político, tiveram grande repercussão no reinado de George III. (N. do T.)

18/05/2010

O Convertido

G.K. Chesterton
Nota: Esta é minha primeira tentativa de traduzir a poesia de Chesterton. É uma completa ousadia, pois nunca traduzi poesia antes. Escolhi, para começar, os versos que ele escreveu logo após sua Primeira Comunhão, em 1922. Ele tinha então 48 anos.

Quando minha cabeça inclinei,
O mundo girou e ereto ficou,
Na antiga estrada luzente entrei,
Pelos caminhos andei e o que todos diziam ouvi,
Florestas de línguas, tal folhas outonais por cair,
Desagradáveis não eram, mas estranhas e leves;
Antigos mistérios e novos credos, não enganosos,
Mas suaves, como homens rindo dos mortos.

Os sábios têm centenas de mapas a dar
Que traçam como uma árvore seu cosmos a rastejar,
Passam a razão por peneiras que a fazem debilitar
Pois retêm a areia e o ouro deixam passar:
Tudo isso é para mim como poeira no ar;
Meu nome é Lázaro e a viver vou recomeçar.
After one moment when I bowed my head
And the whole world turned over and came upright,
And I came out where the old road shone white,
I walked the ways and heard what all men said,
Forests of tongues, like autumn leaves unshed,
Being not unlovable but strange and light;
Old riddles and new creeds, not in despite
But softly, as men smile about the dead.

The sages have a hundred maps to give
That trace their crawling cosmos like a tree,
They rattle reason out through many a sieve
That stores the sand and lets the gold go free:
And all these things are less than dust to me
Because my name is Lazarus and I live.