sábado, março 13, 2010

Noite passada, conversei com Chesterton

 

Ele estava dando uma entrevista aqui no Brasil e eu, que conhecia a entrevistadora, pude assistir a gravação da mesma. Estava como sempre muito divertido, falando de tudo, até de seu proverbial tamanho e peso.

Num dos intervalos de gravação, tomei coragem e me dirigi ao grande escritor inglês.

– I am a big fan of yours. Coisa realmente ridícula de se dizer, mas o que dizer quando se está frente a frente com Gilbert Keith Chesterton?

– Well, thank you, but why?

– Because your books convert people.

– Do they?

– Yes, they really do.

– But, why? Aqui Chesterton está sendo apenas gentil, tentando fingir que não sabe que seus livros sejam um meio de conversão.

– Well, because ... Parei um pouco para pensar.

– I really don’t know. What I know is that they convert the worst of the pagans, the intellectuals.

– And why is that? Ele estava querendo mesmo puxar minha língua.

– Well ... I think that they convert intellectuals because they are a trap for those people. They think they will find “intellectual stuff” in your books and find Catholicism instead! I would say “Catholicism for adults”.

Quando Chesterton ouviu minha resposta abriu um belo sorriso e me deu um abraço muitíssimo acolhedor e então eu ....

ACORDEI!

Que pena que nossa conversa teve de ser interrompida assim. Eu queria lhe perguntar tantas coisas: sobre Padre Brown, sobre sua amizade com Belloc, sobre os finais de tarde nos bares da Fleet Street em Londres, sobre Frances, sua adorável esposa, sobre a vila de Beaconsfield, etc. Quem sabe haverá outras entrevista dele aqui no Brasil e eu possa delas participar!

Senti falta de Gustavo Corção lá onde estávamos. Gostaria muito de ter presenciado uma conversa dos dois. Mas acho que os dois estão sempre conversando lá no Céu.

De qualquer forma, com aquele abraço final, penso ter sido abençoado em sonho por meu escritor favorito!

11 comentários:

Anônimo disse...

Prezado Antônio Emílio,

Você precisa contar a história da sua conversão!

Abraço,
João Marti9ns

Antonio Emilio Angueth de Araujo disse...

Caro João,

Talvez um dia ainda conte algo sobre minha conversão. Se você quiser ler sobre a conversão de um engenheiro eletricista como eu, só que infinitamente mais importante, leia A DESCOBERTA DO OUTRO, de Gustavo Corção e leia sobretudo, ORTODOXIA, de Chesterton.

Um abraço.

Antônio Emílio Angueth de Araújo

Anônimo disse...

Entre o eletromagnetismo e a metafísica, ficamos com o melhor: a fé!
Com imenso e fraterno amplexo;
MMLPimenta
Elerotécnico
88-1-02520-9 CREA/RJ

Flavio disse...

Antonio,

Começei a ler Ortodoxia e estou achando uma leitura dificil,de dificil compreensão.Nunca havia lido nada de Chesterton.

Sou uma pessoa de pouco estudo e queria saber se pode vir dai minha dificuldade de lê-lo ou realmente Chesterton não é fácil de ler?

Como parece ser um grande conhecedor do escritor inglês,o que me aconselha para ler Chesterton e absorver toda a riqueza deste que sei ser um grande escritor e um grande católico?

Desde já agradeço e que NS Jesus Cristo e Nossa Senhora de Fátima lhe abençõem.

Flavio.

Antonio Emilio Angueth de Araujo disse...

Caro Flávio,

Ortodoxia é difícil de ler. A ele se aplica a frase de Jorge Luis Borges: para entender um livro é preciso já ter lido muitos livros.

Mas também se aplica a frase de Mortmer Adler: os livros que não entendemos na primeira leitura, aqueles que resistem ao nosso entendimentos, só esses valem a pena ser lidos.

Eu tenho traduzido alguma coisa de Chesterton. Está na lapela da esquerda do blog. Talvez você pudesse dar uma passeada pelos textos.

Lembre-se sempre de que Chesterton foi talvez um dos poucos grandes intelectuais (os verdadeiros) da passagem do século XIX para o XX. Ele era realmente o herdeiro de toda a cultura ocidental. Ele nos falava de cima de uma montanha muito alta. Se não tentamos subir, pelo menos um pouquinho esta montanha para ouvi-lo melhor, sua voz não nos chegará aos ouvidos.

Suba um pouquinho a montanha, apure seu ouvido e você ouvirá a canção da civilização ocidental.

Chesterton é um exímio artista. Para entende-lo você demorará um tempo. Mas cada minuto deste tempo compensa a riqueza a que você terá acesso.

Um abraço e Deus lhe abençoe.

Antônio Emílio Angueth de Araújo.

Flavio disse...

Muito obrigado pela resposta,Antonio.Vou olhar no teu blog a seção que sugeriu.

Tem também a questão da tradução que é muito importante e não se sabe se é uma boa ou má tradução.

Estou lendo a edição centenária da editora mundo cristão,tradução de Almiro Pisetta.

abraço e fique com Deus.

Antonio Emilio Angueth de Araujo disse...

Caro Flávio,
Salve Maria!

Considero a edição da LTr muito melhor que a outra. A tradução é melhor e há uma introdução à obra de Chesterton muito boa, além e um texto no final que é um resumo da história da Inglaterra, que ajuda no entendimento do texto de Chesterton.

Em JMJ.

Antônio Emílio Angueth de Araújo.

Flavio disse...

Antonio,muito obrigado novamente.Vou tentar conseguir esta tradução que mencionou.

abraço e fique com Deus.

Flavio.

Anônimo disse...

Prezado Antônio Emílio,

Acho que você não pode esquivar-se de contar a história da sua conversão. Isso pode ter grande valor para as pessoas comuns que não conseguem se aproximar da grandeza de um Gustavo Corção ou de um Chesterton.

Embora Kant tenha demonstrado que a razão pura não pode, nem tem o direito, de concluir sobre a existência ou inexistênia de Deus, sendo a opção uma questão de fé, Chesterton, aparentemente, usou seu intelecto poderoso para decidir-se.

Nem mesmo os ateus que estavam à altura dele escaparam de ser esmagados - com humor, é lógico - pelo poder do seu intelecto.

Mas não sei se, realmente, ele fez uma opção após analisar racionalmente a questão, aceitando as demonstrações racionais de Aquino, ou se o fez apenas por exclusão das demais possibilidades, ou se foi persuadido pelo coração (caso de Pascal).

Acho muito mais interessante o depoimento do Antônio Emílio. Afinal, talvez tudo seja uma questão de realizar o potencial que existe desde antes da fundação do mundo. Isso é razoável segundo o conceito de Potência, Movimento e Ato, de Aristóteles.

Isto é: O Antõnio Emílio tinha o potencial de conversão que, durante o movimento existencial, mediante a conjunção das condições necessárias, realizou-se efetivamente após ler Chesterton.

Desculpe-me pela liberdade de tentar pensar sobre assuntos tão misteriosos.

Saudações,
João Martins

Antonio Emilio Angueth de Araujo disse...

Caro João Martins,

Minha conversão nada tem de especial, além da manifestação da graça de Deus e a interseção da Virgem Santíssima.

Eu fui muito católico na adolescência. Lembro-me muito bem os sentimentos que tinha. Eram o de uma alma devota. Mas aí o mundo interveio, eu pensei que tinha ficado muito esperto, que tinha atingido um nível muito acima daqueles católicos bobocas.

Daí, quando entrei na universidade, descobri que esta instituição poderia me explicar tudinho que eu pensava ter encontrado na Igreja Católica. Não percebia que ficava cada vez mais burro.

Daí veio o esquerdismo, a liberdade total, o relativismo moral, o espiritualismo oriental, o rosacrucianismo, o espiritismo, etc. Quando tudo estava escurecido, quando via meus filhos crescerem tão idiotas como eu, e longe de Deus, me apareceu Olavo de Carvalho e me salvou do esquerdismo. Quando eu estava já me aproximando da Igreja, Orlando Fedeli me jogou definitivamente dentro da Igreja de Cristo.

Daí para cá muita gente me foi mandada pela Santíssima Virgem Senhora Nossa para me ajudar. Comecei a ficar menos burro e pude conversar com Sócrates, Platão e Aristóteles. Comecei a conversar com Santo Tomás, com Santa Catarina de Sena e Santo Afonso Maria de Ligório.

Comecei sobretudo a conversar com Chesterton, meu amigo e protetor de minha mente sempre muito mais fraca que a dele. Ele chamou também Belloc para me ajudar. Com eles vieram muita gente. Hoje estou com a casa cheia, sendo eu o mais modesto dos habitantes.

É mais ou menos isso. Nada de mais, nada de extraordinário, exceto minhas companhias atuais. Estas sim, são extraordinárias.

Reze por mim.

Antônio Emílio Angueth de Araújo.

Anônimo disse...

Prezado Antônio Emílio,

Ótimo. Esse pequeno depoimento pode ajudar muitas pessoas. O caminho básico que você aponta é: estudar. Isso é compatível com o que se espera de um professor universitário. Só que os professores, geralmente, só estudam uma especialidade. Isso os torna uma espécie de sábios-idiotas.

Se pudéssemos montar um "canon" apropriado, creio que muitos "intelectuais" poderiam ter uma nova perspectiva sobre o que é importante na vida.

Não sei qual a sua sugestão para esse "canon". Na minha opinião, pode-se começar, com vantatem, pela leitura do livro Sócrates, da Coleção os Pensadores.

Outro ponto central é ter um quadro bem amplo da teoria do conhecimento. Isso implica esquematizar uma metateoria - um quadro no qual caibam todas as teorias -. A de Einstein me parece a mais avançada e bem-sucedida. Está descrita, por exemplo, no livro A Imaginação Científica, de Gerald Holton.

Em seguida, talvez, C. S. Lewis e Chesterton. De Lewis, eu indicaria o seu livro Surpreendido pela Alegria. De Chesterton, Ortodoxia.

Em seguida, alguns livros do NT, que eu não me considero preparado para indicar agora. Esses só devem ser lidos quando o coração estiver sedento.

Etc...

Quem sabe possamos, um dia, elaborar esse "canon" católico - no sentido de universal apenas - e montar Grupos de Estudos Socráticos?

Que Deus o ilumine para que possa aplicar sua inteligência em temas inteligentes. Isto é, os temas que nos aproximem de Deus!

Rezemos/oremos um pelo outro.

Abraço,
João Martins