segunda-feira, maio 24, 2010

Filosofia e impostura

 

O texto que escrevi sobre Dawkins e o Milagre de Fátima, recebeu um comentário que merece ser discutido em um post separado. O comentário completo foi publicado no post original. Publico abaixo partes dele (em itálico), que comento a seguir.

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Acho que existe uma diferença entre contar uma história e defender uma opinião, é por isso que acredito que um filósofo não precisa de “testemunhos”.

... devemos ter independência diante de um filósofo. Eu tenho diante de David Hume e tenho diante de Tomás de Aquino. Mas isso em nenhum momento os torna “impostores” diante de mim. Isso seria violento e arrogante de minha parte.

Eu lembrei que Hume é um filósofo e que, portanto, escrever que uma opinião dele seria verdadeira porque assim ele quer é uma objeção infantil.

Hawkins em seu artigo parece dizer que o Vaticano tinha a obrigação de demonstrar que o Milagre de Fátima realmente aconteceu. Responsabilidade que viria junto com os “lucros” por assim dizer, que o uso daquela história trouxe à Igreja Católica. Mas provar como? O Milagre de Fátima é objeto de fé, não acho que deve ser alvo da ciência.

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Caro leitor,

Um filósofo, se estiver desempenhando sua função de filósofo, muitas vezes não precisa mesmo de “testemunhos”. Estamos frente a frente com um ser humano que está testemunhando sua luta para desvendar, clarear, penetrar na espessa bruma do desconhecido, da realidade. Sua obra é, muitas vezes, o relato dessa luta. Ela vale pelos insights que ofereceu, pelas idéias claras que deixou para a posteridade, não pelo que provou ou deixou de provar. Mesmo quando não deixa grande coisa, é sempre um testemunho do esforço humano na direção do compreender, um testemunho do cumprimento do que é anunciado na primeira frase da Metafísica de Aristóteles.

Você parece dar muita importância ao título de filósofo; parece respeitar demasiadamente os filósofos, mesmo quando eles falam besteiras. Outra coisa é a seguinte: eu não leio os filósofos procurando por suas opiniões. Quando leio filosofia estou procurando a Verdade.

Vou te dar um exemplo do que é falar besteira. Em seu livro “Investigações sobre o Entendimento Humano” ele diz: “Se tomamos em nossas mãos qualquer tratado, sobre a divindade ou sobre metafísica escolástica, por exemplo, perguntemos: Ele contém algum raciocínio abstrato sobre quantidade ou número? Não. Contém algum resultado experimental com relação à matéria? Não. Jogue-o na fogueira, pois ele não contém nada além de sofisma e ilusão.

Eu pergunto: Hume está sendo filósofo quando escreve isso? Claro que não! Está sendo impostor! Está sendo irracional! Está sendo manipulador! Está dando provas de suas mais recônditas más intenções! Ademais, pode ser desmascarado muito facilmente. Basta-nos apenas que apliquemos sua regra ao próprio livro que a anuncia. Ou seja, perguntemos: O tratado de Hume contém algum raciocínio abstrato sobre a quantidade ou número? Respondamos: Não! Perguntemos de novo: Contém algum resultado experimental com relação à matéria? Respondamos: Não! Apliquemos aqui a sugestão do filósofo: Joguemos o tratado na fogueira, pois ele não contém nada além de sofisma e ilusão.

Quer outro exemplo de impostura, irracionalismo, manipulação? Alfred Jules Ayer criou o festejado Princípio da Verificabilidade: “Uma proposição só pode ser significativa se for verdade por definição ou for empiricamente verificável.” Perguntemos: O Princípio da Verificabilidade é uma proposição verdadeira por definição? Respondamos: Não! Perguntemos de novo: É uma proposição verdadeira por verificação empírica? Respondamos: Não! Então, apliquemos aqui o Princípio da Verificabilidade: O Princípio da Verificabilidade não é uma proposição verdadeira!

A filosofia, caro leitor, está repleta desse tipo de impostura. Recomendo a leitura de uma obra de Mário Ferreira: “A Origem dos Grandes Erros Filosóficos”. Você verá uma galeria de ditos “filósofos” cometendo os mais grosseiros erros, que não podem ser considerados apenas enganos bem intencionados. Portanto, acautelemo-nos com os filósofos!

Dawkins não cobra nenhuma prova do Vaticano, como você diz. Mas chama a atenção sua menção a lucros do Vaticano. Este é um argumento sempre levantado pelos inimigos da Igreja. Que lucros? Lucro de ser difamada por impostores como Dawkins? Ou você quer dizer que a Igreja aufere grandes lucros com a peregrinação à Fátima? Ou pior: que o Vaticano só reconheceu o milagre do sol para auferir lucros?

Se o lucro de fato ocorrer, o que você propõe? Que os peregrinos devotos de Nossa Senhora de Fátima não devam ir a Fátima? Que o Vaticano financie a viagem dos milhares de peregrinos? Você tem a mesma preocupação com a peregrinação a Meca?

O milagre de Fátima não é matéria de fé; é um fato e fato não é matéria de fé e nem matéria de demonstração. Por exemplo, a Crucificação de Nosso Senhor não é matéria de fé; é fato. O que é matéria de fé é a Redenção, ou seja, a crença de que pela Sua Crucificação estamos redimidos de nossos pecados, se fizermos parte de seu Corpo Místico. As curas que Jesus abundantemente fez são fatos, não são matéria de fé.

Para terminar, quero sugerir dois textos sobre milagres. Um é um ensaio de Olavo de Carvalho: What is a miracle? O outro é o livro de C.S. Lewis: Miracles.

13 comentários:

Guilherme Ferreira Araújo disse...

Professor Angueth: parabéns pelo post! Veio muito a calhar. Após ler o livro de William Thomas Walsh, descobri que o Dawkins é mais vigarista do que o que tinha dado para perceber pelo texto que lhe enviei. Explico: há alguns detalhes relativos ao Milagre, que tornam o FATO ainda mais impressionante. O primeiro deles, não mencionado em sua pífia "refutação", é o de que horas antes da ocorrência do Milagre chovia torrencialmente na Cova da Iria. A chuva formou um verdadeiro lamaçal que inclusive tornou extremamente difícil a chegada das pessoas ao local. Após o Milagre, o terreno estava SECO, como se não tivesse caído UMA GOTA SEQUER de água do céu; ademais, as roupas dos peregrinos e dos curiosos de plantão também se secaram INSTANTANEAMENTE. O segundo ponto, que desautoriza definitivamente a "hipótese" de alucinação coletiva, é o fato de que pessoas que estavam a quarenta ou cinquenta quilômetros do local e que nem sabiam do que se passava por lá também VIRAM o sol "dançar". O sr. Dawkins é um charlatão que alimenta o comportamento pirracento daqueles que não querem ser reconhecer a existência de Deus e de uma Verdade última. Por isso eles esperneiam quando nós desmascaramos picaretas dessa natureza. O pior é que quando fazemos isso, eles dizem que não temos humildade, pois o sr. Dawkins dá aulas em Harvard. Ora, desde quando um posto profissional é distintivo de honestidade intelectual? Isso nunca ocorreu antes na nossa história. As pessoas "obedecem" àqueles que apresentam seus diplomas e titulações, mas não escutam aqueles que apontam o erro e desmascaram as mentiras. Pudera, nós vivemos na era da publicidade, que é a síntese do apego à aparência.

Quanto aos "lucros" auferidos pela Igreja por causa do evento, o sr. leitor e auto-proclamado cavaleiro da razão deveria saber que a Igreja, em situações como essas, é sempre a PRIMEIRA a tentar ver as coisas com mais critério, para evitar distorções, invencionices e fraudes. Com Fátima não foi diferente.

Anônimo disse...

Alguém já disse que não há nada tão futil, inútil e irracional que já não tenha sido dito por algum filósofo.

Se o filósofo se esconde por trás do pensamento puro, é mais provável que, ao falar de metafísica, ele seja um impostor.

Cristo conjugaga pensamento, sentimento e ação. A fé, para ele, funcionava como um primeiro passo para o conhecimento. Mas o conhecimento manifestava-se na ação.

Ele não dava muita importância aos milagres, mas os fazia quando julgava necessário. O fundamental não era o milagre em si, mas o perdão dos pecados.

Ser Cristão é, de fato, um escândalo para o mundo. Mas os ditos Cristãos devem tomar cuidado. Se o ambiente em que eles vivem não for diferente do mundo, melhor seria que não se proclamassem aquilo que não são.

Antonio Emilio Angueth de Araujo disse...

Sr. anônimo,

Já disse mais de uma vez no blog que o termo cristão é hoje equívoco. Por isso, procuro não usá-lo com freqüência. Eu falo aqui como católico.

Jesus não usava sentimento! Usava vontade e Sua vontade era a Vontade de Deus. Tudo que Ele fazia era prenhe de significado. E Ele dava, sim, muita importância aos milagres, tanto que os fez aos borbotões. Ele sabia de nossa incredulidade e toda a Sua mensagem foi como que ornada de muitíssimos milagres. Mesmo quando Ele mostrou que o importante era o perdão dos pecados, Ele fez o milagre; não deixou de fazê-lo. Quando mandou o Espírito Santo, Ele deu poder aos apóstolos de realizar muitos milagres também. Todos os santos realizaram muitos milagres.

Olhe, o ambiente que vivemos é o mundo. Não temos ambiente diferente. Estamos por aí, em todos os lugares. Não temos de nos retirar do mundo para sermos católicos. Estamos aqui, bem no centro do teatro humano. Exceto aqueles que se retiram por vocação, temos de viver aqui onde Deus quer. Mas temos de ser diferentes do mundo. Temos de encará-lo como nosso inimigo e enfrentá-lo cotidianamente. Temos de enfrentar a carne, o mundo e o demônio, pois somos seres caídos.

Antônio Emílio Angueth de Araújo.

Anônimo disse...

Senhor Angueth,

Jesus era completamente homem. Então, por definição, tinha sentimento. O home pensa, sente e age. Jesus pensava, sentia e agia.

Jesus era completametne Deus. Então ele não sentia, enquanto Deus, como os homens sentem. Mas ele, como homem, esvaziou-se do poder de Deus para dar-se aos homens, na cruz. Jesus chourou, sabia?

Deus amou o mundo de tal maneira que Deu o seu Filho Unigênito para que todo aquele que nEle crê, não pereça, mas tenha a vida eterna.

O amor não é um sentimento?

Sou seguidor de Cristo. Aceito a sistematização feita pela Igreja Católica. Mas se ser católico signifca ser seguidor do papa, então procurarei outra denominação.

Obrigado por abrir os meus olhos!

Anônimo disse...

Pois e, os protestantes sempre fundamentam a revalação de algum modo no sentimento. Meu primo protestante tem muita dificuldade com isso, e isso o prejudica imensamente como ser humano. Sei q e fruto do romantismo essa adesao ao sentimentalismo pelos protestantes, mas tira-los de la e dureza. Sua resposta, professor ajudara muito esse rapaz.

Antonio Emilio Angueth de Araujo disse...

Sr. anônimo,

Jesus chorou. Jesus suou sangue na “noite que ia ser entregue”. Jesus pediu ao Pai para que Lhe evitasse o cálice da Paixão. Em todos estes casos, o modelo que Jesus quer que sigamos é: não nos deixemos levar por sentimentos, mas por uma vontade firme, orientada pelos Mandamentos de Deus: aceitemos a vontade de Deus. Inteligência, vontade e memória são as potências superiores da alma. São elas que devem determinar nossa ação; não nossos sentimentos.

Quanto a termos uma autoridade na Terra, determinada por Cristo, e que O representa em todas as questões morais e de fé, ora isso temos. Se o senhor não sabia disso, nunca foi católico.

Quanto a procurar outras denominações, o alerta é dado pela própria Igreja: só nela há salvação. Seguidores de Calvino e Lutero não se salvarão se não se arrependerem antes da morte!

Antônio Emílio Angueth de Araújo.

Anônimo disse...

"Jesus chorou. (...). São elas que devem determinar nossa ação; não nossos sentimentos."

Nisso o senhor está certo. É por isso que devemos, ao lado das virtudes teologais, aderir firmemente às virtudes cardeais. Não que o sentimento seja extinto no homem, senão ele não seria homem, mas pelo fato de que o homem, que é capaz de Deus, adquira a temperança - o controle dos seus sentimentos.

Quanto ao Papa, evidentemente que aceito que suas orientações sejam as mesmas de Cristo quando ele fala ex-cathedra.

Estou atento quanto a buscar mais conhecimento. Se errei, me perdoe.

Antonio Emilio Angueth de Araujo disse...

Sr. anônimo,

Não tenho nada a lhe perdoar; você não me ofendeu, de forma nenhuma. Fico muito feliz de que o senhor respeita o “doce Cristo na Terra”, como diria Santa Catarina de Sena (rogai por nós).

Concordo com o senhor quanto às virtudes cardeais, mas note que elas são virtudes pagãs. As verdadeiras virtudes católicas são as teologais!

Sugiro que o senhor pense um pouco antes de repetir que o “homem é capaz de Deus”. Isso é modernismo puro e uma inverdade. Não somos capazes de nada, somos um nada perante Deus. Só a Sua infinita misericórdia faz com que Ele se aproxime de nós. Pelos nossos méritos estaríamos todos no inferno. Não somos capazes de nada!, tudo que fazemos de bom vem d’Ele.

Obrigado por seu interesse pelo blog e por suas visitas.

Antônio Emílio Angueth de Araújo.

Anônimo disse...

“homem é capaz de Deus”.

Citei de memória, mas, pelo que me lembro, aprendi isso no Catecistmo que está em www.vatican.va. Vou checar.

Assim, sem grandes raciocínios, concordo com o senhor. Não somos capazes de nada. Mas Deus, apesar disso, decidiu salvar-nos.

Obrigado pela tolerância com minha falta de sabedoria.

Rick disse...

Prof. Angueth,

O Sr. poderia me explicar porque afirma que as virtudes cardeais são virtudes pagãs?

Cordialmente.

Antonio Emilio Angueth de Araujo disse...

Caro Rick,

Chamo as virtudes cardeais de pagãs porque elas foram descobertas, descritas e estimadas pela alta civilização pagã que antecedeu o cristianismo. Grécia e Roma estimavam muito estas virtudes, que foram confirmadas pelo cristianismo, foram "batizadas".

As virtudes verdadeiramente cristãs, as que foram genuinamente introduzidas pelo cristianismo, são as virtudes teologais e é por isso que elas são, como a cruz, escândalo.

Antônio Emílio Angueth de Araújo.

Rick disse...

Prof. Angueth,

Obrigado pela explicação. Fiz esta pergunta justamente pensando em uma dúvida em relação ao Catecismo de São Pio X, quando este Grande Papa pôs como distinção entre as duas virtudes - cardeal e teologal-a infusão recebida pela segunda mediante o estado de graça.

Gustavo disse...

Prezado anônimo,
Salve Maria.

"O amor não é um sentimento?"

Conforme o prof. Angueth já esclareceu o amor NÃO é um sentimento e sim um desejo do bem,um querer o bem. Logo está ligado a vontade. Obviamente para se amar algo é necessário que a inteligência conheça primeiro esse algo (mesmo com deformação)para depois querê-lo.

Os que disseram que o amor é sentimento foram os trovadores cátaros e os renascentistas fazendo descer nas artes, os velhos vícios e "podridões" do Olimpo.

In Corde Iesu et Mariae semper.
Gustavo.