Notas:
1. Recentemente o prof. Olavo de Carvalho mencionou, aqui, vários livros e autores que têm sido, permanente e voluntariamente, ocultados dos brasileiros, por uma política editorial dominada, há décadas, pela militância esquerdista. Ele não mencionou Thomas Sowell, certamente, porque seu objetivo era citar apenas alguns exemplos da calamidade que a falta de certos livros pode causar a um povo deles privado. No entanto, estou certo de que o livro The Vision of the Anointed (A Visão dos Ungidos) está entre os que mais falta faz aos leitores deste nosso pobre país. Abaixo se encontram alguns trechos desse livro, escolhidas por John Hawkins (versão original) e publicadas em 2001. Pela amostra, pode-se ter uma vaga idéia da preciosidade da obra.
2. O livro de Sowell, apesar das diferenças de tom e de estratégia, é semelhante ao Imbecil Coletivo de Olavo de Carvalho. Os ungidos de Sowell nada mais são que os membros do Imbecil Coletivo desmascarados, implacavelmente, por Olavo. Ambos os autores mostram, de maneira insofismável, como se move essa casta arrogante e autoritária, que objetiva, muitas vezes com sucesso, isolar a Civilização Ocidental de toda a sua herança religiosa e filosófica construída ao longo de milênios. Com Sowell percebemos que o fenômeno é universal. Como Olavo já observou em outro local: “a esquerda é internacional, enquanto a direita é nacional”.
3. Adicionei os títulos dos capítulos referentes aos trechos selecionados. Abaixo de cada título, reproduzo a citação de abertura, que dá o tom do capítulo. Os números das páginas em que aparecem os trechos se referem à edição da Basic Books de 1995.
A melhores trechos de A Visão dos Ungidos de Thomas Sowell.
John Hawkins
*** Observe que Thomas Sowell usa o termo ungido para se referir aos esquerdistas, o termo incivilizado (bárbaro) ou trágico para os conservadores, e o termo visão representa sua (dos ungidos) filosofia. Assim, “a visão dos ungidos” é o modo esquerdista de ver o mundo. ***
Capítulo 1 – A unção lisonjeira
“Não massageies tua alma com essa unção lisonjeira” -- Hamlet
“Essa visão esquerdista permeia tão amplamente a mídia e a academia, e se imiscuiu tão profundamente na comunidade religiosa, que muitos chegam até a idade adulta sem perceber que há um outro modo de olhar para as coisas, ou que evidências podem ser relevantes para a verificação das suposições tão avassaladoras dos ‘bem-pensantes’. Muitos desses ‘bem-pensantes’ podem ser mais bem caracterizados como pessoas ‘articuladas’, como pessoas cuja agilidade verbal pode mascarar a lógica e a força das evidências. Esse pode ser um talento fatal, quando ele promove o crucial isolamento da realidade que está por trás de muitas catástrofes históricas.” – P. 6
Capítulo 2 – O padrão
“Eles foram trabalhar com insuperável eficiência. Pleno emprego, os melhores resultados e o bem-estar geral deve ter sido a conseqüência. Na verdade, ao contrário, encontramos miséria, vergonha e, no final de tudo, um rio de sangue. Mas isso foi mera coincidência.” -- Joseph A. Schumpeter
“Na medida que os programas de educação sexual se multiplicaram amplamente no sistema educacional americano, durante os anos 1970, a taxa de gravidez da faixa etária de 15 a 19 anos cresceu dos aproximadamente 68/mil em 1970 para 96/mil em 1980. Dentre as meninas solteiras na faixa de 15 a 17 anos, a taxa de nascimentos cresceu 29% entre 1970 e 1984, a despeito do enorme crescimento do número de abortos, que mais que dobrou no mesmo período. Entre as meninas menores de 15 anos, o número de abortos ultrapassou o número de nascimentos em 1974.” – P. 18
Capítulo 3 – O que falam os números
“Conhecíamos muitas coisas que dificilmente podíamos entender.” – Kenneth Fearing
“Implícita na equação estatística da desigualdade promovida pela discriminação racial está a suposição que desigualdades não existiriam na ausência de tratamento desigual. No entanto, estudos internacionais têm, repetidamente, demonstrado que desigualdades inter-grupos são freqüentes em todo o mundo, seja com respeito ao consumo de álcool, à taxas de fertilidade, ao desempenho educacional, ou a outras inumeráveis variáveis. Uma lista razoavelmente completa de tais desigualdades seria tão grande quanto um dicionário.” – P. 35
“Que sentido teria a classificação de um homem como deficiente porque ele está, hoje, numa cadeira de rodas, se ele estará andando em um mês e participando de corridas em um ano? Mesmo assim, os americanos são separados em ‘classes’ com base em sua localização transitória na faixa salarial. Se a maioria dos americanos não permanece na mesma faixa salarial ampla por nem uma década, as repetidas mudanças de ‘classe’ fazem com que ‘classe’ seja um conceito nebuloso.” – P. 48
“Num dado ano, o número de divórcios pode ser metade do número de casamentos, mas dizer isso é o mesmo que comparar maçãs com laranjas. Os casamentos considerados são somente aqueles que ocorrem num determinado ano, enquanto que os divórcios daquele ano são de casamentos que ocorreram num passado que pode se estender por décadas. Dizer que metade de todos os casamentos termina em divórcio, baseado em estatísticas, seria equivalente a dizer que metade da população morreu no ano passado, se o número de mortes tivesse sido metade do número de nascimentos.” – P. 59
Capítulo 4 – A irrelevância da evidência
“Os fatos são coisas teimosas; e quaisquer que sejam nossos desejos, nossas inclinações, ou exigências de nossas paixões, eles não podem alterar nem fatos nem evidências” – John Adams
“Apesar da proporção dos filhos que moram com ambos os pais tem diminuído nas últimas décadas, o censo de 1992 mostrou que mais de dois terços – 71%, de fato – de todas as pessoas com idade menor que 18 anos estavam ainda morando com ambos os pais. Menos de 1% estavam vivendo com não parentes.” – P. 61
“Voltando a cem anos atrás, quando apenas uma geração separava os negros da escravidão, descobrimos que os dados do censo mostravam que uma proporção levemente menor de negros contraiam matrimônio, quando comparados aos brancos.” – P. 81
“Em 1940, entre as mulheres negras chefes de família, 52% tinham 45 anos de idade ou mais. Além disso, somente 14% de todas as crianças negras tinham mães solteiras.” – P. 81
“Todos somos a favor de um salário digno; eles (os ungidos), simplesmente, definem esse conceito em termos bem diferentes. Todo mundo é ‘progressista’ em seu próprio conceito. O fato dos ungidos acreditarem que esse rótulo (de progressista) os diferencia das outras pessoas é um dos vários sintomas de seu narcisismo infantil.” – P. 95
Capítulo 5 – Ungido versus incivilizado
“Todo homem, onde for, está cercado por uma nuvem de convicções confortáveis, que se move com ele como moscas num dia de verão” – Bertrand Russell
“Uma das mais importantes questões sobre qualquer curso de ação proposto é se sabemos como empreendê-lo. A Política A pode ser melhor que a Política B, mas isso não tem importância se não sabemos implementar a Política A. Talvez teria sido melhor reabilitar criminosos, ao invés de puni-los, se soubéssemos como fazê-lo. Recompensar o mérito pode ser melhor que recompensar resultados, se soubéssemos como fazê-lo. Mas, uma das diferenças cruciais entre aqueles com a visão trágica e aqueles com a visão do ungido está no que eles, respectivamente, assumem que sabemos fazer. Aqueles com a visão do ungido são, raramente, dissuadidos por qualquer questão sobre se alguém tem o conhecimento necessário para fazer o que eles estão tentando fazer.” – P. 109
“Um resumo sucinto da visão trágica foi dado pelos historiadores Will e Ariel Durant:
‘De cada cem idéias novas, noventa e nove serão, provavelmente, piores que as respostas tradicionais que elas propõem substituir. Nenhum homem, mesmo brilhante e bem-informado, pode alcançar em uma única vida uma tal completude de entendimento para, seguramente, julgar e descartar os costumes e instituições de sua sociedade, pois estes constituem a sabedoria de gerações, depois de séculos de experiência no laboratório da história.’ ” – P. 112
“Na visão trágica, os sofrimentos pessoais e os males sociais são inerentes das inatas deficiências de todos os seres humanos, sejam essas deficiências de conhecimento, de sabedoria, de moralidade ou de coragem. Além disso, os recursos disponíveis são sempre inadequados para preencher todos os desejos existentes. Então, não há ‘soluções’ na visão trágica, mas escolhas que deixam muitos desejos irrealizados e muita infelicidade no mundo.” – P. 113
“Na sua pressa para serem mais sábios e mais nobres do que os outros, os ungidos confundem duas questões básicas. Eles parecem assumir (1) que eles têm mais conhecimento que a média dos incivilizados e (2) que essa é uma comparação relevante. A comparação real, no entanto, não é entre o conhecimento possuído pela média da elite educada versus a média do público em geral, e sim entre o conhecimento total gerado pelos processos sociais (competição no mercado, organização social, etc.), envolvendo milhões de pessoas, versus o conhecimento de segunda mão, sobre generalidades, possuídos por um pequeno grupo de elite.” – P. 114
“Para o ungido, as tradições são vistas como cadáveres do passado, relíquias de uma idade menos ilustrada, e não como a experiências destilada de milhões que enfrentaram vicissitudes semelhantes, anteriormente.” – P. 118
“A suposta irracionalidade do público é um padrão usado por muitos, senão a maioria, dos grandes ungidos em suas cruzadas no século XX – independente do assunto ou da área a que se refere a cruzada. Quer o assunto seja ‘superpopulação’, economia keynesiana, justiça criminal, ou a exaustão de recursos naturais, a suposição-chave tem sido que o público é tão irracional que a sabedoria superior do ungido deve se impor, a fim de evitar o desastre. Não é que o ungido tenha, simplesmente, um desdém pelo público em geral. Tal desdém é uma parte integral de sua visão, pois, a característica central dessa visão é obstruir a decisão dos outros.” – P. 123
“Apesar de Adam Smith considerar as intenções dos empresários como egoístas e anti-sociais, ele percebeu que as conseqüências sistemáticas da competição entre eles eram muito mais benéficas para a sociedade, que uma regulamentação governamental bem-intencionado.” – P. 126
“Em seu fanatismo por tipos particulares de decisão, aqueles com a visão do ungido, raramente, consideram a natureza do processo de tomada de decisão. Freqüentemente, o que eles propõem envolve decisões de terceiros, tomadas por pessoas que não têm nenhum custo por estarem erradas – certamente, um dos modos menos promissores de tomar decisões satisfatórias para aqueles que sofrerão as conseqüências.” – P. 129
“Aqueles com a visão dos ungidos, freqüentemente, advogam a solução de disputas internacionais por meio da ‘diplomacia’ e da ‘negociação’, ao invés da ‘força’ – como se a diplomacia e a negociação não fosse dependente de um conjunto de incentivos adicionais, dos quais uma concreta ameaça militar é crucial.” – P. 130-131
“Para aqueles com a visão dos ungidos, a questão é: o que removerá uma característica particular negativa de uma situação existente para criar uma solução? Aqueles com a visão trágica perguntam: o que deve ser sacrificado para se atingir esse aprimoramento particular?” – P. 135
Capítulo 6 – As cruzadas dos ungidos
“Se acautele contra pessoas moralistas quando se trata de grandes questões; ser moralista é mais fácil do que enfrentar fatos graves” – John Corry
“Não há soluções, apenas escolhas entre situações conflitantes.” – P. 142
“A vasta penumbra de incerteza que encobriu os julgamentos de responsabilidade civil no alvorecer da revolução judicial dos anos 1960 e 1970 -- julgamentos esses que descartaram leis e princípios seculares, deixando juízes e júris livres para ceder às suas próprias inclinações --, fez com que fosse prudente para os acusados, o fechamento de acordos fora dos tribunais, mesmo que eles não tivessem feito nada de errado. Dois casos tipificam a incerteza dos resultados das cortes. Referem-se a um operador de guindaste, que encostou o braço da máquina numa linha de transmissão de alta tensão, originando um processo contra o fabricante do equipamento por não alertar os operadores sobre esse perigo – tal argumento foi refutado, sem julgamento, num estado, com o fundamento de que o perigo é óbvio demais para exigir algum tipo de aviso, apesar de em outro estado, o fabricante ter sido condenado a pagar mais de US$12 milhões. Em outras palavras, não há mais lei no sentido real da expressão, mas, somente éditos imprevisíveis emanados dos tribunais.” – P. 170
“Quando os ungidos dizem que há uma crise, isso significa que algo deve ser feito – e deve ser feito, simplesmente, porque os ungidos desejam alguma ação. Crise se tornou um dos muitos substitutos para evidência ou lógica.” – P. 182
Capítulo 7 – O vocabulário dos ungidos
“Os homens têm uma incurável propensão em prejulgar todas as grandes questões que os interessam estampando seus preconceitos em sua linguagem” – James Fitzjames Stephen
“Muitas discussões de intelectuais sobre as decisões de empresários se processam como se empregadores, proprietários e outros agentes operando sob sistemática pressão do mercado fossem livres para tomar decisões caprichosas e arbitrárias, baseadas em preconceito e informações enganosas – como se eles fossem intelectuais sentados em torno de uma mesa num seminário – e depois deixassem de pagar pelos erros cometidos.” – P. 188
“Mas, para aqueles com a visão dos ungidos, dizer que um plano ou política particular é contrário à natureza humana como a conhecemos, significa apenas que a natureza humana deve ser mudada. Então, o vocabulário dos ungidos está repleto de termos como ‘sensibilização’, ‘esclarecimento’ ou ‘reeducação’ de outras pessoas.” – P. 190
Outra forma verbal de mascarar a interferência da elite na decisão das pessoas é usar a palavra ‘pedir’ – como em ‘Só estamos pedindo que todos arquem com sua devida parcela.’ Mas, o governo não pede, ele manda. A Receita Federal não pede ‘contribuição’. Ela toma.” – P. 197
“Muitas palavras e frases usadas na mídia e entre acadêmicos sugerem que as coisas, simplesmente, acontecem com as pessoas, ao invés de serem causadas por suas próprias escolhas e comportamento. Assim, afirma-se que há uma gravidez ‘epidêmica’ ou um uso ‘epidêmico’ de drogas entre os adolescentes, como se essas coisas fossem como uma gripe que as pessoas pegam somente por estarem no lugar errado, na hora errada.” – P. 198
“Uma personificação ampla da ‘sociedade’ é outra tática verbal que esconde questões de responsabilidade pessoal. Tal uso do termo ‘sociedade’ é uma versão mais sofisticada da noção de que ‘o demônio me obrigou a fazer isso.’ Tal como o todo o vocabulário dos ungidos, esse termo é usado como uma palavra mágica que faz a escolha, o comportamento e o desempenho se esvaecerem.” – P. 199
“A visão dos ungidos considera que males como a pobreza, o sexo irresponsável e o crime derivam, primariamente, da ‘sociedade,’ ao invés de derivar das escolhas pessoais e do comportamento. Acreditar em responsabilidade pessoal seria destruir todo o papel especial do ungido, cuja visão os escala para o papel de salvadores das pessoas que são tratadas de forma injusta pela ‘sociedade.’ ” – P. 203
“Dizer que ‘a riqueza na América é tão injustamente distribuída,’ como faz Ronald Dworkin, é grosseiramente enganador, pois, a maior parte da riqueza dos Estados Unidos não é, de forma alguma, distribuída. As pessoas criam, ganham, poupam e gastam a riqueza.” – P. 211
Capítulo 8 – Cortejando o desastre
“O sistema legal perdeu sua alma e se tornou uma selva” – Bertrand de Jouvenel
“Em resumo, conquanto salvar alguns indivíduos inocentes de uma injusta condenação é importante, a questão é se isso é mais importante que poupar outros indivíduos inocentes da violência e morte nas mãos de criminosos. Salvar um réu inocente por década vale o sacrifício de dez assassinatos de vítimas inocentes? Mil assassinatos? Quando reconhecemos que não há solução, mas apenas escolhas entre situações conflitantes, não podemos mais perseguir o ideal da justiça cósmica, mas devemos fazer nossas escolhas entre alternativas, realmente, disponíveis – e essas alternativas não incluem a garantia de que nenhum mal atingirá uma vítima inocente. A única maneira de nos assegurarmos de que nenhum inocente será jamais condenado erradamente é descartarmos o sistema judicial criminal e aceitarmos os horrores da anarquia.” – P. 225
“Aqueles que, hoje, advogam uma ‘moderação judicial’ definem essa expressão como sendo juízes interpretando leis, inclusive a Constituição, de acordo com o significado que as palavras dessas leis tinham quando foram escritas.” – P. 227
“Ativismo judicial é um mecanismo por meio do qual a visão esquerdista pode ser imposta sobre o público em geral que não a compartilha, sem ter de passar pelo crivo de autoridades eleitas que não ousariam apoiar muitas das características dessa visão.” – P. 235
Capítulo 9 – Realidade opcional
“... ideologia … é um instrumento de poder; um mecanismo de defesa contra a informação; um pretexto para desprezar os limites morais na consecução ou na aprovação do mal, com a consciência tranqüila; e finalmente, um modo de banir o critério da experiência, isto é, de eliminar completamente, ou postergar indefinidamente, o critério pragmático do sucesso e do fracasso.” – Jean-François Revel
“Como Hannah Arendt observou, transformar questões de fato em questões de intenção foi uma grande realização dos totalitários do século XX. É uma realização perigosa que sobreviveu ao colapso dos impérios facista e comunista e se transformou numa marca registrada da maior parte da intelligentsia ocidental.” – P. 244
“Se a verdade é maçante, a civilização é irritante. Os limites inerentes da vida civilizada são frustrantes de muitas formas. Mesmo assim aqueles com a visão dos ungidos, freqüentemente, vêem esses limites, somente, como imposições arbitrárias, coisas das quais eles – e nós todos – podemos ser liberados. A desintegração social que segue o advento de tais liberações, raramente, provoca qualquer reconsideração séria de todo o conjunto de suposições – a visão – que levou a tais desastres. Essa visão é muito bem isolada de realimentações.” – P. 247
“Uma alegação é sempre levantada contra a intelligentsia e outros membros dos ungidos, a de que falta senso comum a suas teorias e políticas. Mas a própria normalidade do senso comum o faz muito pouco atrativo para os ungidos. Como eles podem ser mais sábios e mais nobres do que todos, ao mesmo tempo em que concordam com todo mundo?” – P. 248
“A civilização já foi definida, muito apropriadamente, como ‘uma fina crosta sobre um vulcão’. Os ungidos estão, constantemente, pressionando essa crosta.” – P. 250
“Um fazendeiro californiano pode sempre mostrar à audiência televisiva a abundante safra que ele colheu com a ajuda do projeto de irrigação governamental. Mas ninguém pode filmar as safras que teriam sido colhidas em outros lugares, a um custo menor, se não houvesse subsídios governamentais que encorajassem o uso da água, obtida a um custo maior, no deserto da Califórnia, ao invés do uso da água de graça, obtida das nuvens, em algum outro lugar.” – P. 257
“Dentre os ungidos encontramos toda uma classe de supostos ‘bem-pensantes’, que pensam, surpreendentemente, pouco sobre os fundamentos e, incrivelmente, muito sobre expressão verbal. Por esse pequeno grupo de pessoas acreditar-se mais sábio e mais nobre que os mortais comuns, temos adotado políticas que impõem altos custos a milhões de outros seres humanos, não somente por meio de impostos, mas também em empregos perdidos, em desintegração social e na perda da segurança pessoal. Raramente, tão poucos custaram tanto a tanta gente.” – P. 260
03/02/2006
A Visão dos Ungidos - alguns trechos
Igualdade, Desigualdade e Destino
Thomas Sowell
Uma das confusões que contamina as discussões sobre igualdade e desigualdade é a confusão entre os caprichos do destino e os pecados do homem. Há muito dos dois, mas eles precisam ser distinguidos claramente um do outro.
O fato simples de que há grandes diferenças entre indivíduos em relação a salários e ocupações e que seus níveis de vida dependem disso, tem sido visto como “injusto”, especialmente quando o acidente do nascimento tem muito a ver com essas grandes diferenças econômicas e sociais.
A vida é injusta. Não há razão para negar isso. De fato, é difícil imaginar como a vida poderia ser justa, dados todos os inumeráveis fatores que influenciam o sucesso ou o fracasso individual – e a forma como esses fatores variam enormemente de uma pessoa para outra, de um grupo para outro e de uma nação para outra.
Quaisquer que sejam as potencialidades com que alguém entre no mundo, o desenvolvimento dessas potencialidades em habilidades específicas depende dos pais, escolas, pares e valores culturais que envolvem o indivíduo.
Os esquimós têm, certamente, toda a inteligência requerida para plantar abacaxis, mas eles, dificilmente, terão essa experiência. Nem os havaianos, provavelmente, saberão como caçar focas no Ártico.
Crianças que crescem em lares onde os esportes são discutidos constantemente, mas não as ciências, não terão, provavelmente, os mesmos objetivos e as mesmas carreiras que as crianças que crescem em lares onde o contrário é verdadeiro.
Nada disso é culpa de alguém, nem daquele bode expiatório universal, a “sociedade”. Esses são apenas os caprichos do destino.
Por milhares de anos, o Hemisfério Ocidental como um todo não teve a oportunidade de se desenvolver do mesmo modo que a Europa e a Ásia, porque os cavalos e bois permitiram aos europeus e aos asiáticos construírem sua agricultura e seu meio de transporte através dessas bestas de carga – nenhuma delas existia no Hemisfério Ocidental até que foram trazidas pelos invasores europeus.
Todo o modo de vida tinha de ser diferente nesta metade do planeta em relação ao que era na vasta massa de terra eurasiana. De quem era a culpa?
Alguns grupos étnicos têm uma idade média uma década maior do que a média de outros e mesmo países inteiros como a Alemanha e Itália têm idades médias que são duas décadas maiores que a média do Afeganistão ou Yemem.
Seria isso um campo de jogo plano*? Não! Há uma injusta vantagem para aqueles com mais experiência e com mais capacidade adquirida pela maior experiência.
Outras diferenças são devidas aos pecados dos homens – discriminação, conquista, escravidão e muito mais. Mesmo assim, quaisquer que sejam as fontes das diferenças entre os povos, elas são enormes, assim como suas conseqüências econômicas.
Nada disso é difícil de entender em si mesmo. Mas tudo fica confuso e deformado pela retórica e pelas visões e as cruzadas da intelligentsia e dos políticos.
Mesmo nossos tribunais estão prontos para considerar diferentes distribuições de grupos nas ocupações como evidência de que o empregador discriminou, uma vez que é, aparentemente, inoportuno considerar que os próprios grupos podem diferir, tanto de forma quantificável, como em idade, quanto de forma intangível, como em atitudes.
Esse dogma igualitário está tão profundamente enraizado que diferentes taxas de aprovação em testes de um grupo em relação ao outro são tomadas como evidências de que algo está errado com os testes. Taxas diferentes de promoção no trabalho ou na escola são consideradas como prova virtual de que o empregador ou a escola está fazendo algo errado.
O autor de sucesso Shelby Steele tem argumentado, persuasivamente, que os brancos temem ser considerados racistas e os negros temem ser considerados inferiores natos – e que, como resultado, ambos os grupos fazem coisas tolas e contra-produtivas, Tais atitudes se aplicam em questões além das raciais.
As leis e políticas de uma nação precisam servir a propósitos mais sérios do que permitir as pessoas fugirem de seus problemas psicológicos. Já é tempo de essas leis e políticas se basearem em realidades e serem avaliadas por suas conseqüências.
* Tradução literal da expressão “level playing field”, que significa um campo de jogo que não privilegia nenhum dos times. Um campo justo, onde cada adversário tem a mesma chance de ganhar. (N. do T.)
Publicado por Townhall
Uma das confusões que contamina as discussões sobre igualdade e desigualdade é a confusão entre os caprichos do destino e os pecados do homem. Há muito dos dois, mas eles precisam ser distinguidos claramente um do outro.
O fato simples de que há grandes diferenças entre indivíduos em relação a salários e ocupações e que seus níveis de vida dependem disso, tem sido visto como “injusto”, especialmente quando o acidente do nascimento tem muito a ver com essas grandes diferenças econômicas e sociais.
A vida é injusta. Não há razão para negar isso. De fato, é difícil imaginar como a vida poderia ser justa, dados todos os inumeráveis fatores que influenciam o sucesso ou o fracasso individual – e a forma como esses fatores variam enormemente de uma pessoa para outra, de um grupo para outro e de uma nação para outra.
Quaisquer que sejam as potencialidades com que alguém entre no mundo, o desenvolvimento dessas potencialidades em habilidades específicas depende dos pais, escolas, pares e valores culturais que envolvem o indivíduo.
Os esquimós têm, certamente, toda a inteligência requerida para plantar abacaxis, mas eles, dificilmente, terão essa experiência. Nem os havaianos, provavelmente, saberão como caçar focas no Ártico.
Crianças que crescem em lares onde os esportes são discutidos constantemente, mas não as ciências, não terão, provavelmente, os mesmos objetivos e as mesmas carreiras que as crianças que crescem em lares onde o contrário é verdadeiro.
Nada disso é culpa de alguém, nem daquele bode expiatório universal, a “sociedade”. Esses são apenas os caprichos do destino.
Por milhares de anos, o Hemisfério Ocidental como um todo não teve a oportunidade de se desenvolver do mesmo modo que a Europa e a Ásia, porque os cavalos e bois permitiram aos europeus e aos asiáticos construírem sua agricultura e seu meio de transporte através dessas bestas de carga – nenhuma delas existia no Hemisfério Ocidental até que foram trazidas pelos invasores europeus.
Todo o modo de vida tinha de ser diferente nesta metade do planeta em relação ao que era na vasta massa de terra eurasiana. De quem era a culpa?
Alguns grupos étnicos têm uma idade média uma década maior do que a média de outros e mesmo países inteiros como a Alemanha e Itália têm idades médias que são duas décadas maiores que a média do Afeganistão ou Yemem.
Seria isso um campo de jogo plano*? Não! Há uma injusta vantagem para aqueles com mais experiência e com mais capacidade adquirida pela maior experiência.
Outras diferenças são devidas aos pecados dos homens – discriminação, conquista, escravidão e muito mais. Mesmo assim, quaisquer que sejam as fontes das diferenças entre os povos, elas são enormes, assim como suas conseqüências econômicas.
Nada disso é difícil de entender em si mesmo. Mas tudo fica confuso e deformado pela retórica e pelas visões e as cruzadas da intelligentsia e dos políticos.
Mesmo nossos tribunais estão prontos para considerar diferentes distribuições de grupos nas ocupações como evidência de que o empregador discriminou, uma vez que é, aparentemente, inoportuno considerar que os próprios grupos podem diferir, tanto de forma quantificável, como em idade, quanto de forma intangível, como em atitudes.
Esse dogma igualitário está tão profundamente enraizado que diferentes taxas de aprovação em testes de um grupo em relação ao outro são tomadas como evidências de que algo está errado com os testes. Taxas diferentes de promoção no trabalho ou na escola são consideradas como prova virtual de que o empregador ou a escola está fazendo algo errado.
O autor de sucesso Shelby Steele tem argumentado, persuasivamente, que os brancos temem ser considerados racistas e os negros temem ser considerados inferiores natos – e que, como resultado, ambos os grupos fazem coisas tolas e contra-produtivas, Tais atitudes se aplicam em questões além das raciais.
As leis e políticas de uma nação precisam servir a propósitos mais sérios do que permitir as pessoas fugirem de seus problemas psicológicos. Já é tempo de essas leis e políticas se basearem em realidades e serem avaliadas por suas conseqüências.
* Tradução literal da expressão “level playing field”, que significa um campo de jogo que não privilegia nenhum dos times. Um campo justo, onde cada adversário tem a mesma chance de ganhar. (N. do T.)
Publicado por Townhall
O Dogma da Desigualdade
Thomas Sowell
Esta é mesmo a era dos dogmas, quando se trata de diferenças entre grupos. Alguns negam, cegamente, que diferenças de desempenho intergrupos são algo além de “estereótipos”, “percepções”, ou discriminação.
Do outro lado do espectro, o dogma é que diferenças mentais, especialmente – tanto entre indivíduos quanto entre grupos – são inatas, estão nos genes. As reações contra essa visão são tão fortes em alguns lugares que podem se tornar um caso de Justiça Federal aplicar testes de QI em crianças negras.
Essas visões opostas sobrevivem a séculos. No século XVIII, Adam Smith disse que as diferenças entre os portuários e os filósofos eram devidas à educação e sugeriu que havia menos diferença entre os homens que entre os cães.
Do outro lado, um estudioso islâmico do século X observou que os europeus ficavam mais brancos quanto mais ao norte se ia e, também, que “quanto mais ao norte eles viviam, mais estúpidos, grossos e brutos eles eram.” Mas, quais foram os fatos a partir do século X?
Desde a antiguidade, a Europa Mediterrânea – especialmente o extremo leste – foi muito mais avançada que o norte da Europa, em tecnologia, organização, alfabetização e todas as coisas que fazem uma sociedade mais avançada. O fato de que tudo isso mudou nos séculos posteriores não significa que esse estudioso do século X não estava correto, no que ele dizia, quando ele dizia. No mínimo, ele estava lá e nós não.
Infelizmente, os fatos têm tido um papel secundário na maior parte da discussão sobre as diferenças entre grupos, raças, nações e civilizações – tanto entre os que defendem a igualdade inata quanto entre os que defendem a desigualdade inata.
No início do século XX, muitos crentes na desigualdade inata apresentaram o que parecia ser um argumento logicamente sólido de que nosso QI nacional corria perigo de um declínio a longo prazo, uma vez que as pessoas com baixo QI, usualmente, tinham mais filhos que os de alto QI. Os movimentos pela eugenia e pelo controle de natalidade procuraram contrabalançar essa tendência propondo reduzir o número de crianças nascidas de pessoas com baixo QI.
A solidez lógica desse argumento se tornou sua maior vulnerabilidade quando confrontado com fatos reais. Uma ampla pesquisa conduzida pelo Professor James R. Flynn, um americano expatriado em Nova Zelândia, mostrou que, de fato, as nações têm aumentado substancialmente seus desempenhos em testes mentais ao longo dos anos.
Isso nunca deveria ter ocorrido se os testes de QI medissem habilidades inatas, predeterminadas pelos genes. Mesmo assim, o trabalho do Professor Flynn, amplamente reconhecido entre os estudiosos, revelou muitos países em que gerações inteiras respondiam maior número de questões certas nos testes de QI que seus pais e avós.
Pelo fato dos testes de QI terem, por definição, um escore médio de 100, os padrões mudam continuamente. Em outras palavras, se a pessoa média responde corretamente 42 questões num teste de QI, então 42 respostas corretas serão computadas como um QI de 100.
Uma geração mais tarde, se a pessoa média responde corretamente 53 questões no mesmo teste, então 53 respostas corretas serão definidas como um QI de 100. O que isso significa é que não havia nada para indicar como os resultados dos testes de QI estariam se aprimorando, até que o Professor Flynn voltou e consultou os resultados brutos dos escores e descobriu o quanto eles haviam aumentado ao longo de gerações.
Já é tempo de reconhecer os fatos como fatos, quaisquer que sejam nossas filosofias divergentes ou nossas esperanças. A preponderância da evidência é que os Europeus do norte não eram, nem de perto, tão avançados quanto os do sul no século X. Se existissem então testes de QI, os norte-europeus ficariam, indubitavelmente, num pobre segundo lugar.
Quando testes reais de QI foram desenvolvidos e aplicados no início do século XX nos EUA, os imigrantes do norte da Europa tiveram melhor desempenho que os do sul, cujos QI’s eram similares aos dos negros americanos. Não precisamos brigar com os resultados. Precisamos mudar a realidade que os testes medem.
Publicado por Townhall
Esta é mesmo a era dos dogmas, quando se trata de diferenças entre grupos. Alguns negam, cegamente, que diferenças de desempenho intergrupos são algo além de “estereótipos”, “percepções”, ou discriminação.
Do outro lado do espectro, o dogma é que diferenças mentais, especialmente – tanto entre indivíduos quanto entre grupos – são inatas, estão nos genes. As reações contra essa visão são tão fortes em alguns lugares que podem se tornar um caso de Justiça Federal aplicar testes de QI em crianças negras.
Essas visões opostas sobrevivem a séculos. No século XVIII, Adam Smith disse que as diferenças entre os portuários e os filósofos eram devidas à educação e sugeriu que havia menos diferença entre os homens que entre os cães.
Do outro lado, um estudioso islâmico do século X observou que os europeus ficavam mais brancos quanto mais ao norte se ia e, também, que “quanto mais ao norte eles viviam, mais estúpidos, grossos e brutos eles eram.” Mas, quais foram os fatos a partir do século X?
Desde a antiguidade, a Europa Mediterrânea – especialmente o extremo leste – foi muito mais avançada que o norte da Europa, em tecnologia, organização, alfabetização e todas as coisas que fazem uma sociedade mais avançada. O fato de que tudo isso mudou nos séculos posteriores não significa que esse estudioso do século X não estava correto, no que ele dizia, quando ele dizia. No mínimo, ele estava lá e nós não.
Infelizmente, os fatos têm tido um papel secundário na maior parte da discussão sobre as diferenças entre grupos, raças, nações e civilizações – tanto entre os que defendem a igualdade inata quanto entre os que defendem a desigualdade inata.
No início do século XX, muitos crentes na desigualdade inata apresentaram o que parecia ser um argumento logicamente sólido de que nosso QI nacional corria perigo de um declínio a longo prazo, uma vez que as pessoas com baixo QI, usualmente, tinham mais filhos que os de alto QI. Os movimentos pela eugenia e pelo controle de natalidade procuraram contrabalançar essa tendência propondo reduzir o número de crianças nascidas de pessoas com baixo QI.
A solidez lógica desse argumento se tornou sua maior vulnerabilidade quando confrontado com fatos reais. Uma ampla pesquisa conduzida pelo Professor James R. Flynn, um americano expatriado em Nova Zelândia, mostrou que, de fato, as nações têm aumentado substancialmente seus desempenhos em testes mentais ao longo dos anos.
Isso nunca deveria ter ocorrido se os testes de QI medissem habilidades inatas, predeterminadas pelos genes. Mesmo assim, o trabalho do Professor Flynn, amplamente reconhecido entre os estudiosos, revelou muitos países em que gerações inteiras respondiam maior número de questões certas nos testes de QI que seus pais e avós.
Pelo fato dos testes de QI terem, por definição, um escore médio de 100, os padrões mudam continuamente. Em outras palavras, se a pessoa média responde corretamente 42 questões num teste de QI, então 42 respostas corretas serão computadas como um QI de 100.
Uma geração mais tarde, se a pessoa média responde corretamente 53 questões no mesmo teste, então 53 respostas corretas serão definidas como um QI de 100. O que isso significa é que não havia nada para indicar como os resultados dos testes de QI estariam se aprimorando, até que o Professor Flynn voltou e consultou os resultados brutos dos escores e descobriu o quanto eles haviam aumentado ao longo de gerações.
Já é tempo de reconhecer os fatos como fatos, quaisquer que sejam nossas filosofias divergentes ou nossas esperanças. A preponderância da evidência é que os Europeus do norte não eram, nem de perto, tão avançados quanto os do sul no século X. Se existissem então testes de QI, os norte-europeus ficariam, indubitavelmente, num pobre segundo lugar.
Quando testes reais de QI foram desenvolvidos e aplicados no início do século XX nos EUA, os imigrantes do norte da Europa tiveram melhor desempenho que os do sul, cujos QI’s eram similares aos dos negros americanos. Não precisamos brigar com os resultados. Precisamos mudar a realidade que os testes medem.
Publicado por Townhall
03/01/2006
O Dogma da Igualdade
Thomas Sowell
Alguns leitores reclamaram de uma afirmação desta coluna de que estudantes negros, usualmente, não se saem tão bem nos estudos quanto os estudantes de origem asiática. Esses leitores parecem pensar que essa é uma opinião pessoal – ou mesmo uma afirmação imoral.
Parece que nunca ocorreu a eles que esse é um fato verificável, demonstrado em inumeráveis estudos ao longo dos anos, por muitos estudiosos de várias raças. Como John Adams disse, há mais de dois séculos: “Os fatos são coisas teimosas e quaisquer que sejam os nossos desejos, as nossas inclinações ou os ditados de nossas paixões, eles não podem alterar os fatos e as evidências.”
Há mais coisas envolvidas do que uma confusão entre fatos e opiniões. O dogma reinante de nosso tempo é a igualdade – e qualquer coisa que parece ir contra ele, cria uma resposta automática, muito parecida com as repostas condicionadas do cão de Pavlov.
Quando discutimos igualdade, devemos, pelo menos, ser claros sobre o que queremos dizer: Igualdade de quê? Desempenho? Potencial? Tratamento? Humanidade? Freqüentemente, o fervor das palavras serve como substituto da clareza do significado.
É fato inegável que diferentes grupos exibem diferentes desempenhos num amplo espectro de atividades. Alguém seriamente acredita que os brancos jogam basquete tão bem quanto os negros? Alguém fica surpreso quando jovens americanos de origem asiática ganham prêmios científicos, ano após ano?
Podem-se encher páginas e páginas com exemplos de grupos particulares que excelem em atividades determinadas. Quanto se fala de desempenho, enormes disparidades são a regra e não a exceção. E desempenho é o que conta.
Os politicamente corretos podem tentar argumentar que esses são todos “estereótipos” ou “percepções”, mas dados reais mostram que as cervejas mais vendidas nos EUA são as criadas por indivíduos de ancestrais alemães. É a mesma história do outro lado do mundo, onde a famosa cerveja chinesa Tsingtao foi criada por alemães.
O que desagrada certas pessoas é a inferência de que diferenças de desempenho refletem diferenças inatas de potencial. Mas há enormes diferenças em tudo que transforma potencial em desempenho.
No século XIX, um oficial russo relatou que mesmo o mais pobre dos Judeus, na Rússia, conseguia ter livros em sua casa e que “toda a população judia estudava,” enquanto livros eram virtualmente desconhecidos pela maior parte da população não judia.
Quando o repórter da C-SPAN, Brian Lamb, recentemente, perguntou a autora Abigail Thernstrom porque os Judeus tinham escores tão altos em testes mentais, ela respondeu: “Eles têm se preparado para esses testes nos últimos mil anos.”
Um recente estudo das Nações Unidas mostra que as publicações per capita na Europa hoje são, pelo menos, dez vezes maiores que nos países árabes ou na África. Como potencial igual pode levar a igual desempenho quando há tão grandes disparidades em fatores intervenientes?
O fato de algumas sociedades educarem, por longo tempo, meninos e meninas, enquanto outras não se preocuparem em educar as meninas, significa que algumas sociedades jogam fora metade de seus talentos e habilidades inatos. Como poderiam seus desempenhos não ser diferentes?
Não são só alguns leitores, mas agências governamentais e as altas cortes do país que dogmatizam contra qualquer reconhecimento de diferenças no comportamento e no desempenho entre grupos. Diferenças estatísticas nos resultados são, automaticamente, suspeitas de discriminação, como se os próprios grupos não pudessem, de nenhuma forma, ser diferentes no comportamento ou no desempenho.
Qualquer escola que disciplina mais as meninas negras que as de origem asiática se arrisca a um processo, como se não pudesse haver diferenças de comportamento entre as próprias crianças. Empregadores podem ser processados por discriminação, mesmo se ninguém puder encontrar uma única pessoa discriminada, se os dados de suas contratações ou promoções mostrarem diferenças entre grupos étnicos ou entre homens e mulheres.
Os maiores perdedores com essas noções dogmáticas são as pessoas que precisam muito mudar seus comportamentos, mas de quem esse conhecimento crucial é sonegado por seus “líderes” ou “amigos”.
Publicado por Townhall
A Neurociência Refuta o Livre-Arbítrio?
Lucretius
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Essa é a maravilhosa tolice do mundo: quando as coisas não nos correm bem - muitas vezes por culpa de nossos próprios excessos - pomos a culpa de nossos desastres no sol, na lua e nas estrelas, como se fossemos celerados por necessidade, tolos por compulsão celeste, velhacos, ladrões e traidores pelo predomínio das esferas; bêbedos, mentirosos e adúlteros, pela obediência forçosa a influências planetárias, sendo toda nossa ruindade atribuída à influência divina...
William Shakespeare
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No trecho acima de Rei Lear encontramos uma descrição daqueles que, através da história humana, negam o livre-arbítrio e a responsabilidade pessoal, culpando de suas falhas as intervenções divinas e planetárias. Num recente artigo, Joshua Greene e Jonathan Cohen se somam aos crentes da “influência divina” [1]. Como esta é a era científica e nossos autores são neurocientistas de carteirinha, a influência divina se torna a influência da neurociência, o cérebro fazendo o papel das estrelas celestes.
O ímpeto divino de seu argumento é que não temos livre-arbítrio porque existe a neurociência, apesar de nossas leis ainda não levá-la em conta: “... o suporte intuitivo do sistema legal é, em última instância, fundamentado em uma noção excessivamente ambiciosa e libertária de livre-arbítrio que é questionada pelo determinismo e, de maneira mais marcante, pela nascente neurociência cognitiva ... O efeito líquido desse influxo de informação científica será a rejeição do livre-arbítrio como concebido ordinariamente, com importantes ramificações no Direito” [2].
Quais são essas ramificações? Para começar, o conceito de responsabilidade pessoal está obsoleto. Como todas as ações são determinadas pelo “estado preexistente do universo”, não temos escolha. Como eles explicam: “Dado um conjunto de condições prévias no universo e um conjunto de leis físicas que governam completamente a forma com que o universo evolui, há somente uma maneira para as coisas procederem.” Então, podemos, logicamente, referenciar, retroativamente, tudo ao Big Bang que pariu o universo. Se você me perguntar, por exemplo, porque eu comi pão ao invés de banana, hoje, no meu café da manhã, posso me referir à teoria do Big Bang sobre a ação humana.
Mas, se já existe o Big Bang, por que precisamos da neurociência para nos revelar nossa falta de livre-arbítrio? De acordo com Greene e Cohen, por séculos, os filósofos “científicos”, ou seja, os filósofos do seu campo determinista, têm argumentado contra o livre-arbítrio, mas pelo fato da mente ter sido, até então, uma caixa-preta, era fácil para o povo – iludido pela religião – para os humanistas “soft” e para outras almas lerdas, se agarrarem à ilusão do livre-arbítrio. Agora, que temos a neurociência, a mente não é mais uma caixa-preta – já é tempo para o resto de nós acordar de nosso sono dogmático e sentir o perfume do universo determinístico. Em resumo, enquanto o Big Bang nos dá a visão global, a neurociência nos fornece os detalhes que mostrarão com clareza abundante, mesmo ao público leigo, que somos afinal e literalmente, marionetes no universo determinístico.
Culpe o Cérebro
Greene e Cohen argumentam que nossos cérebros são responsáveis por todo o nosso comportamento. Nossos cérebros cometem crimes. “Nós” somos inocentes. Assim, em outras palavras, “demonstrar que há um fundamento cerebral para as transgressões dos adolescentes nos permite culpar seus cérebros, ao invés, deles próprios”. Felizmente, os garotos da vizinhança não leram o artigo, pois nele se encontra a defesa pelo estrago de sua propriedade: eu não fiz nada, foi meu cérebro!
Apesar de ser conhecido, mesmo antes de Platão, que o cérebro desempenha um papel fundamental no comportamento, esse argumento particular é, de fato, novo. Uma razão que impede que outros sejam intrépidos o suficiente para desenvolver ainda mais o argumento (apesar da eterna insistência a favor do determinismo) é que ele contém um erro categórico óbvio. Greene e Cohen comparam duas fontes de ação opostas – seu cérebro e você – como se elas fossem mutuamente exclusivas, como se, sem seu cérebro, você pudesse ser, ainda, um agente moral.
Como resultado desse erro, Greene e Cohen concluem, “a idéia de distinguir os culpados verdadeiros daqueles que são meras vítimas das circunstâncias neurológicas parecerá, a nosso ver, sem sentido”.
Mas o agente moral, no sentido legal, é o pacote completo – você, consistindo de seu cérebro e do resto. Dizer que somos vítimas de circunstâncias neurológicas é o mesmo que dizer que somos vítimas de nós mesmos. A suposição fundamental é a de que não temos controle sobre as “circunstâncias neurológicas” , tal como não temos controle sobre as “circunstâncias externas”. Mas essa suposição (suposição behaviorista em nova embalagem) contradiz, inteiramente, nosso conhecimento de que o cérebro é um sistema biológico auto-organizado e auto-regulado e não, meramente, uma etapa na transformação de algum estímulo externo numa saída comportamental. Não é necessário, entretanto, discutir o cérebro, em nenhum nível de detalhe, para refutar Greene e Cohen, pois, seus argumentos não são, absolutamente, baseados em algum conhecimento sobre o cérebro. A lógica primitiva ensina que, por exemplo, se eu roubo sua carteira, são as minhas mãos que devem ser cortadas.
Sr. Marionete
Para ser justo, Greene e Cohen perceberam que culpar o cérebro por tudo não é suficiente. Eles têm outra arma escondida contra o livre-arbítrio, um outro “experimento mental”. Pois, sua estratégia é gerar tantos argumentos contra o livre-arbítrio quantos eles puderem, na esperança de que alguns deles farão estragos suficientes, mesmo que esses argumentos se contradigam uns aos outros.
Em sua segunda tentativa, eles insistem em que imaginemos o caso de “Sr. Marionete”, um criminoso projetado por um grupo de cientistas, sob um rígido controle genético e ambiental. Durante o julgamento do Sr. Marionete, o cientista-chefe é chamado como testemunha de defesa. E aqui está a sua fala, de acordo com Greene e Cohen:
“Eu o projetei. Cuidadosamente selecionei cada gene em seu corpo e projetei cada evento significante em sua vida, de forma a torná-lo, exatamente, o que ele é hoje. Selecionei sua mãe, sabendo que ela o deixaria chorar por horas, antes de pegá-lo no colo. Selecionei, cuidadosamente, cada um dos parentes, professores, amigos, inimigos etc., e os disse, exatamente, o que dizer a ele e como tratá-lo. As coisas, de um modo geral, aconteceram como o planejado, mas não sempre. Por exemplo, as cartas iradas escritas ao seu falecido pai não estavam planejadas até que ele tivesse catorze anos, mas antes do seu décimo terceiro ano de vida, ele já tinha escrito quatro delas. Em retrospecto, penso que isso é devido a algumas poucas substituições que fiz em seu oitavo cromossomo.”
É claro que uma mudança num cromossomo não pode determinar o momento da formulação de uma carta malvada, pois o genoma não contém informação que especifique qualquer de nossas ações. A regulação ambiental é, também, impossível, exceto na ficção científica. Mas, plausibilidade ou conhecimento da biologia básica não podem ser esperados de nossos autores. Greene e Cohen acreditam que o Sr. Marionete não é responsável por suas ações, porque “forças além de seu controle desempenharam um papel dominante no cometimento de seus crimes, sendo difícil pensar que ele seja algo mais que um fantoche.”
Mas, mesmo assumindo, só para argumentar, que tal pessoa poderia ser assim projetada, devemos concluir que ele é, de fato, uma marionete do cientista-projetista, enquanto que nós não somos marionetes desse tipo. Nossos genes não são selecionados, nem nosso ambiente é projetado, por alguém.
Naturalmente, contudo, Greene e Cohen chegam a uma conclusão, completamente, diferente: “Qual é a diferença entre o Sr. Marionete e qualquer acusado de um crime? Afinal, temos poucas razões para duvidar que (i) o estado do universo 10.000 anos atrás, (ii) as leis físicas e (iii) os resultados dos eventos quânticos aleatórios são, juntos, suficientes para determinar tudo que acontece hoje, incluindo nossas próprias ações. Essas coisas estão, claramente, além de nosso controle. Então, qual é a real diferença entre nós e o Sr. Marionete? ... num sentido muito real, somos todos marionetes. Os efeitos combinados dos genes e do ambiente determinam todas as nossas ações. O Sr. Marionete é excepcional apenas na medida em que as intenções de outros seres humanos estão por trás de seus genes e de seu ambiente. Mas, isso não importa, uma vez que seus genes e seu ambiente são, intrinsecamente, comparáveis àqueles das pessoas comuns. Não somos mais livres que ele.”
Num aparente escorregão, eles reconhecem que os cientistas tiveram intenções, que eles deliberadamente agiram no projeto do Sr. Marionete. Suas ações, aparentemente, diferem das causas que não são ações humanas. Greene e Cohen nunca se preocuparam em perguntar se esses cientistas deviam ser punidos por projetarem, especificamente, alguém para cometer crimes, se eles são os responsáveis, afinal. Mas, se somos forçados a aceitar esse cenário, então, a responsabilidade pelos crimes parece ser dos cientistas – por projetarem marionetes criminosas.
De acordo com Greene e Cohen, no entanto, os genes e o ambiente do Sr. Marionete são “intrinsecamente comparáveis” àqueles das pessoas comuns, como se vivêssemos todos num ambiente projetado, no qual as pessoas, deliberadamente, abusassem de nós e nos mentisse; como se nossos genes, ao invés de serem resultados da seleção natural, fossem escolhidos por um time de cientistas do mal. Intrinsecamente comparáveis? Por isso eles, presumivelmente, querem dizer que o ambiente é ainda um ambiente terreno como o nosso, – a mesma casa com mobília, aparelho de TV e pais etc. – e os genes são, ainda, cadeias de DNA feitas de férteis nucleotides. Mas, claramente, essas características “intrínsecas” são irrelevantes no caso do Sr. Marionete. Seus genes e seu ambiente são, afinal, projetados para torná-lo um criminoso. Mas note, em particular, a ênfase peculiar de Greene e Cohen na combinação de genes e ambiente. A Biologia, é claro, nos diz que há fatores adicionais que não são nem genéticos nem ambientais, mas, podemos, seguramente, supor que esses autores, não possuindo nenhum interesse particular na ciência da Biologia, não estejam interessados nisso.
Sendo cientistas metafóricos, por “genes e ambiente” eles querem dizer tudo que nos faz o que somos, tudo que determina nossas ações. Nós estamos, agora, prontos para traduzir suas alegações para a linguagem comum: tudo que determina quem nós somos, determina quem nós somos; tudo que determina nossas ações, determina nossas ações. Certamente, não temos controle sobre tudo – Greene e Cohen, corretamente, assim supõem. E, seguramente, todos os possíveis fatores combinados determinam nossas ações. Mas, no processo de tirar essa brilhante conclusão eles se afundaram num caos mental e não perceberam a circularidade no processo. Somos compelidos, pelas leis da lógica, a concordar com eles: Sim, banana é banana.
Ilusão do livre-arbítrio
Tendo posto o livre-arbítrio em seu devido lugar, Greene e Cohen estão prontos para nos explicar o porquê de pensarmos que temos tal coisa. Se pensamos que temos alguma coisa que não existe, então, essa coisa deve ser uma ilusão. Assim, eles afirmam que nosso cérebro gera a ilusão de livre-arbítrio para que pensemos que estamos no controle dos processos.
Com toda a modéstia, nossos autores se comparam a Copérnico, Darwin e Freud em seus esforços em desbancar o narcisismo humano. Copérnico removeu a Terra do centro do universo. Darwin removeu os seres humanos do comando da Terra e Freud removeu a consciência como o único determinante do comportamento humano. Vem aí outro golpe baixo – mesmo aquele pequeno controle que você tem sobre suas ações é uma ilusão.
Parece-me, no entanto, que esse é um caso de sadomasoquismo. Greene e Cohen parecem auferir um autêntico prazer em atingir o narcisismo humano, representado pela psicologia popular do livre-arbítrio. Você acha que decidiu ler esse artigo porque o considerou interessante. Mas, não, você não tem a mínima idéia da razão e aquele pensamento que primeiro lhe assaltou foi, realmente, apenas alguma ilusão criada pelo seu cérebro para mascarar sua falta de idéia.
Quanto insulto a seu narcisismo você pode suportar? Essa é a questão, da qual sua humanidade científica depende. Somente cientistas durões, como Greene e Cohen, são corajosos o suficiente para enfrentar o determinismo de frente, sem ilusões. E se você não acha que é uma marionete, eles o esmurrarão com seus experimentos mentais e seus dados imaginários até que você, nocauteado, desistir de si mesmo. E assim o jogo continua. Apesar de eu não desejar negar a diversidade de prazeres sentidos por Greene e Cohen por se tornarem marionetes de uma ficção metafísica e porta-vozes de uma fanfarrice pseudocientífica, desejo, sim, examinar a evidência que eles apresentam para suas assertivas.
Essa evidência vem do trabalho de Daniel Wegner [3], um psicólogo de Harvard e um outro cientista metafórico. De acordo com Wegner, nossas ações não são causadas por nossa vontade. Para fundamentar essa afirmação ele cita a evidência de que a hipnose ou danos cerebrais pode prejudicar nossa noção de livre-arbítrio, de que várias manipulações experimentais podem criar em nós a ilusão de controle.
Nossa resposta imediata é: E daí? Não teremos livre-arbítrio se nossas cabeças forem cortadas. Não teremos livre-arbítrio se estivermos dormindo. Às vezes, erroneamente, pensamos que fizemos algo quando, de fato, não o fizemos. Disso, no entanto, não se pode concluir que o livre-arbítrio é uma ilusão.
Sob hipnose, por exemplo, podemos sentir nosso braço se levantando, mesmo que não o desejemos. Da mesma forma, quando nosso córtex motor ou nosso músculo é estimulado, vários movimentos podem ser induzidos sem nosso controle. Para Wegner, entretanto, essa sensação de “olha, aconteceu!” é a descrição mais precisa do que realmente aconteceu, quando agimos. Nunca ocorreu a ele que não há nenhuma instância de vontade porque aquelas não são instâncias de ações voluntárias sob nosso controle.
Wegner prefere, muito mais, essa sensação de passividade, pois só assim nos sentimos como objetos inanimados. Quando meu braço faz algo incontrolável, ele está agindo como um “objeto científico”, como um tijolo. Nosso livre-arbítrio deve ser uma ilusão porque ele não se encaixa na compreensão científica do mundo, esposada por Wegner.
O filósofo Daniel Dennet acredita que, por conveniência, adotamos a “postura intencional” quando interpretamos o comportamento dos outros seres humanos. A posição de Wegner pode ser descrita como “postura passiva”. Ele prefere sentir-se como o sujeito hipnotizado, o paciente com o dano cerebral ou um zumbi, porque, de acordo com sua Weltanschauung científica, a postura passiva é um reflexo mais preciso da realidade. Mas, a questão permanece: quem está iludido, Wegner ou o homem comum das ruas?
Concordar com Wegner resulta em que nossa sensação de livre-arbítrio é uma ilusão. Greene e Cohen vão um passo mais longe e afirmam que nossa atribuição de livre-arbítrio aos outros é, também, uma ilusão. Eles citam um estudo de Heberlein et al., onde se apresenta o seguinte vídeo para sujeitos humanos: um grande triângulo caça um pequeno círculo na tela, trombando com ele. O pequeno círculo foge repetidamente, e um pequeno triângulo se move, repetidamente, entre o círculo e o grande triângulo. Quando pessoas normais assistem ao vídeo, eles vêem essas interações em termos sociais e intencionais. O grande triângulo tenta ferir o pequeno círculo e o pequeno triângulo tenta proteger o pequeno círculo. Contudo, um paciente com algum dano na amygdala, uma coleção de estruturas cerebrais em forma de amêndoa, não consegue atribuir intenções a essas figuras [4]. Conseqüentemente, para Greene e Cohen, como essa atribuição de livre-arbítrio é gerada por uma área cerebral, ela é, também, uma ilusão.
Os leitores de meu artigo anterior estão familiarizados com a inclinação de Greene e Cohen na direção da especulação evolutiva. Aqui eles atacam novamente. De acordo com sua nova historinha, partes do cérebro, no curso da evolução, se tornam módulos especializados da psicologia popular, isto é, atribuindo livre-arbítrio aos outros; outras partes se tornam módulos especializados da física popular, isto é, acreditando naqueles movimentos tipicamente encontrados nos desenhos de Disney. Sabemos que a física popular está errada, mas, de acordo com Greene e Cohene, a psicologia popular está igualmente errada. Por causa de nossa psicologia popular, encaramos outros objetos animados como causadores sem causa*. Mas, depois que aprendemos neurociência, “quando olhamos as pessoas como sistemas físicos, não podemos vê-las nem mais dignas de reprovação, nem mais dignas de elogio, do que um tijolo”.
Talvez possamos conjeturar, ao lado dos sistemas da física e da psicologia popular, sobre um terceiro sistema do masoquismo cientificista que, enganosamente, faz alguém acreditar que é um tijolo à mercê das forças da natureza, ao invés de um agente responsável por suas ações. A base neurológica para o terceiro sistema, a meu ver, está, ainda, para ser estabelecida.
Então, em resumo, nossos teóricos cabeças-de-tijolo culpam a psicologia popular por considerarmos os agentes morais como causadores sem causa. Como não somos causadores sem causa, não podemos ser agentes morais, e, assim, não podemos ser responsáveis por nossas ações.
Se sou causador sem causa, minhas ações são isoladas de todas as influências externas. Supunha que um homem seja condenado à prisão perpétua por matar um guarda, durante um assalto a banco. Tal punição não evitará que eu faça o mesmo. A prevenção é, realmente, impossível se sou um causador sem causa de minhas ações.
Não obstante, isso não pode, de forma alguma, ser uma suposição oculta de nossas leis, pois, não se explica, assim, a intencionalidade como o foco do sistema legal. De acordo com a psicologia popular que Greene e Cohen atacam incansavelmente, é caracteristicamente humano que, deliberadamente, escolhamos meios apropriados para alcançar os fins desejados. Essa capacidade nos torna agentes morais, alvos de elogios e críticas. Por exemplo, um ato não é reprovável, a menos que haja uma mente culpada (Reum non facit nisi mens rea).
Como Mises repetidamente alerta, o próprio conceito de ação humana, de meios e fins, pressupõe a categoria da causalidade. Responsabilidade não implica que somos motores imóveis no sentido aristotélico, que estejamos de fora da cadeia de causa e efeito, mas significa que, como agentes de ações intencionais, estamos numa peculiar posição em uma longa cadeia de causas que se alonga até o Big Bang. Somos agentes capazes de controlar nossas ações e não um sistema ato-reflexo que transforma estímulo em resposta.
A lei pune, então, crimes que são o resultado da deliberação e da vontade e é indulgente com os acidentes ou aqueles agentes incapazes de ações racionais (p.ex. crianças). Essa seletividade só pode estar baseada na idéia de prevenção. Pois, seria absurdo dizer a alguém para não matar se ele não fosse capaz de deixar de fazê-lo, tanto quanto seria absurdo dizer a alguém para parar seu próprio coração.
Por seu turno, a lei pune crimes que resultam de ações que podemos controlar e podemos, então, evitá-las no futuro. Se a lei se baseasse na suposição da existência de causadores sem causa, não teria sentido fazer distinções entre assassinato deliberado e morte acidental. Penas rígidas seriam aplicadas em todos os crimes. Está fora do escopo deste artigo, naturalmente, a discussão da história do Direito, apesar de ser necessário alertar que o conceito de responsabilidade pessoal em crimes violentos é, de fato, um desenvolvimento relativamente recente. Penas extensíveis a parentes e senhores do criminoso eram comuns em muitas sociedades primitivas. (Aos interessados, sugiro a leitura da obra-prima de Pallack e Maitland ou o livro de Zane sobre a história do Direito).
Lei e liberdade
O livre-arbítrio, no sentido aqui discutido, significa que os seres humanos controlam o que eles fazem. A neurociência não mudará esse fato. A ficção científica, do tipo que Greene e Cohen gostam, pode sempre imaginar o contrário. Nesse sentido, ela não pode ser distinguida de qualquer religião teleológica.
De fato, esse tipo de determinismo, que afirma que os seres humanos não escolhem, não agem, mas sempre são objetos de ações, tem reaparecido inúmeras vezes na história, sob vários disfarces. É um fato histórico que selvagens primitivos, fanáticos religiosos e crentes nas leis inexoráveis da história têm, sempre, advogado alguma versão dele. No desenvolvimento dos sistemas legais, o conceito de responsabilidade pessoal também evoluiu, parcialmente porque alguns seres humanos, depois de se libertarem das superstições e da “postura passiva”, começaram a entender a natureza de suas próprias ações e seus efeitos sobre o mundo. O individualismo ilustrado, devemos lembrar, foi um desenvolvimento tardio e ainda permanece impopular em muitas partes do mundo. A psicologia popular intuitiva da ação humana que possuímos é o produto de tal ilustração. Por outro lado, ao atacar o conceito de livre-arbítrio e da responsabilidade pessoal, Greene e Cohen, meramente, revivem o culto do pensamento irracional, que por muito tempo prevaleceu nas sociedades humanas. Não deve nos surpreender, contudo, em descobrirmos no seu artigo a seguinte sentença: “a racionalidade é apenas presumivelmente correlacionada com o que a maioria realmente se preocupa”. De fato, o que sobra da racionalidade quando você não é responsável por suas ações?
No lugar da razão, esses autores colocam o bem-estar agregado. A lei, reformada à luz do conhecimento neurocientífico, de acordo com os dois autores, tem o objetivo de promover o futuro bem-estar, ao invés de punir os responsáveis por seus crimes. Num artigo anterior, discuti a tentativa desses autores de abolirem as normas morais universais, usando dados de imagens cerebrais, em nome do bem-estar agregado. Devemos, pelo menos, aplaudir sua consistência. Certamente, uma norma moral como o Imperativo Categórico não teria nenhum sentido se não houvesse o livre-arbítrio. Por que dizer a alguém para não roubar se ele não é capaz de obedecer, se o culpado é seu cérebro?
Depois de tudo considerado, seus argumentos se resumem a: (1) criminosos não são responsáveis por seus crimes, pois, tudo que determina quem ele é, determina quem ele é; (2) ao invés de punir criminosos pelo que eles fizeram, a lei deve maximizar o bem-estar futuro.
Eticamente, parece ridículo argumentar contra o bem-estar total da humanidade, tal como logicamente é impossível refutar uma tautologia. A lição a ser aprendida aqui é que você deve sempre se acautelar quando alguém defende algo que não pode ser contraditado, pois há, freqüentemente, um plano oculto anexo ao pacote nada-pode-estar-errado, que se autodestruirá uma vez aberto. Como alertei no artigo anterior, o conceito de bem-estar agregado é vazio, criado por conveniência. Não podemos calcular o que é esse bem-estar, apesar de podermos indiretamente observar, pelo estudo da história, os efeitos de longo prazo de certas regras e práticas em grupos que as seguem.
Num sentido mais recente e concreto de bem-estar, nosso atual sistema legal parece ter sido um dos principais promotores de bem-estar humano, julgando-se pela extraordinária difusão de idéias relevantes no Ocidente, contra freqüentes e fortes resistências dos costumes e práticas locais.
Finalmente, ao longo de seu ensaio, Greene e Cohen enfatizam que o conceito “libertário” de livre-arbítrio que eles atacam não tem nenhuma conexão com a filosofia política. As leis protegem a liberdade e liberdade requer responsabilidade.
Seus argumentos a favor do determinismo são, ainda, outra tentativa de abolir as leis como regras abstratas que se aplicam a todos, indistintamente. Ao contrário, o Estado e seus “especialistas cientistas” decidirão se uma pessoa será ou não um mal para a sociedade, a fim de maximizar o bem-estar futuro em cada caso (isto é, fazer o que aqueles no poder desejam). A própria lei se torna sem sentido. E, ao invés de regra geral que protege a liberdade individual, nas mãos de Greene e Cohen, e em nome da neurociência, a lei será usada como um instrumento para a intervenção estatal e para julgamentos arbitrários, destruindo a liberdade.
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Lucretius é um neurobiologista e vive em Mariland, EUA.
1. Greene, J. & Cohen, J. "For the law, neuroscience changes nothing and everything." Philos Trans R Soc Lond B Biol Sci 359, 1775-85 (2004).
2. von Mises, L. Theory and History (Mises Institute, 1957).
3. Wegner, D. M., "Precis of the illusion of conscious will". Behav Brain Sci 27, 649-59; discussion 659-92 (2004).
4. Heberlein, A. S. & Adolphs, R., "Impaired spontaneous anthropomorphizing despite intact perception and social knowledge". Proc Natl Acad Sci U S A 101, 7487-91 (2004).
* Uncaused causers, no original. O sentido aqui é de quem é causa das coisas, mas não é efeito de nenhuma causa, de quem se determina a si mesmo, livremente. É o conceito ligado à expressão causa sui, no sentido escolástico. (N. do T.)
Publicado pelo Mises Institute.
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Essa é a maravilhosa tolice do mundo: quando as coisas não nos correm bem - muitas vezes por culpa de nossos próprios excessos - pomos a culpa de nossos desastres no sol, na lua e nas estrelas, como se fossemos celerados por necessidade, tolos por compulsão celeste, velhacos, ladrões e traidores pelo predomínio das esferas; bêbedos, mentirosos e adúlteros, pela obediência forçosa a influências planetárias, sendo toda nossa ruindade atribuída à influência divina...
William Shakespeare
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No trecho acima de Rei Lear encontramos uma descrição daqueles que, através da história humana, negam o livre-arbítrio e a responsabilidade pessoal, culpando de suas falhas as intervenções divinas e planetárias. Num recente artigo, Joshua Greene e Jonathan Cohen se somam aos crentes da “influência divina” [1]. Como esta é a era científica e nossos autores são neurocientistas de carteirinha, a influência divina se torna a influência da neurociência, o cérebro fazendo o papel das estrelas celestes.
O ímpeto divino de seu argumento é que não temos livre-arbítrio porque existe a neurociência, apesar de nossas leis ainda não levá-la em conta: “... o suporte intuitivo do sistema legal é, em última instância, fundamentado em uma noção excessivamente ambiciosa e libertária de livre-arbítrio que é questionada pelo determinismo e, de maneira mais marcante, pela nascente neurociência cognitiva ... O efeito líquido desse influxo de informação científica será a rejeição do livre-arbítrio como concebido ordinariamente, com importantes ramificações no Direito” [2].
Quais são essas ramificações? Para começar, o conceito de responsabilidade pessoal está obsoleto. Como todas as ações são determinadas pelo “estado preexistente do universo”, não temos escolha. Como eles explicam: “Dado um conjunto de condições prévias no universo e um conjunto de leis físicas que governam completamente a forma com que o universo evolui, há somente uma maneira para as coisas procederem.” Então, podemos, logicamente, referenciar, retroativamente, tudo ao Big Bang que pariu o universo. Se você me perguntar, por exemplo, porque eu comi pão ao invés de banana, hoje, no meu café da manhã, posso me referir à teoria do Big Bang sobre a ação humana.
Mas, se já existe o Big Bang, por que precisamos da neurociência para nos revelar nossa falta de livre-arbítrio? De acordo com Greene e Cohen, por séculos, os filósofos “científicos”, ou seja, os filósofos do seu campo determinista, têm argumentado contra o livre-arbítrio, mas pelo fato da mente ter sido, até então, uma caixa-preta, era fácil para o povo – iludido pela religião – para os humanistas “soft” e para outras almas lerdas, se agarrarem à ilusão do livre-arbítrio. Agora, que temos a neurociência, a mente não é mais uma caixa-preta – já é tempo para o resto de nós acordar de nosso sono dogmático e sentir o perfume do universo determinístico. Em resumo, enquanto o Big Bang nos dá a visão global, a neurociência nos fornece os detalhes que mostrarão com clareza abundante, mesmo ao público leigo, que somos afinal e literalmente, marionetes no universo determinístico.
Culpe o Cérebro
Greene e Cohen argumentam que nossos cérebros são responsáveis por todo o nosso comportamento. Nossos cérebros cometem crimes. “Nós” somos inocentes. Assim, em outras palavras, “demonstrar que há um fundamento cerebral para as transgressões dos adolescentes nos permite culpar seus cérebros, ao invés, deles próprios”. Felizmente, os garotos da vizinhança não leram o artigo, pois nele se encontra a defesa pelo estrago de sua propriedade: eu não fiz nada, foi meu cérebro!
Apesar de ser conhecido, mesmo antes de Platão, que o cérebro desempenha um papel fundamental no comportamento, esse argumento particular é, de fato, novo. Uma razão que impede que outros sejam intrépidos o suficiente para desenvolver ainda mais o argumento (apesar da eterna insistência a favor do determinismo) é que ele contém um erro categórico óbvio. Greene e Cohen comparam duas fontes de ação opostas – seu cérebro e você – como se elas fossem mutuamente exclusivas, como se, sem seu cérebro, você pudesse ser, ainda, um agente moral.
Como resultado desse erro, Greene e Cohen concluem, “a idéia de distinguir os culpados verdadeiros daqueles que são meras vítimas das circunstâncias neurológicas parecerá, a nosso ver, sem sentido”.
Mas o agente moral, no sentido legal, é o pacote completo – você, consistindo de seu cérebro e do resto. Dizer que somos vítimas de circunstâncias neurológicas é o mesmo que dizer que somos vítimas de nós mesmos. A suposição fundamental é a de que não temos controle sobre as “circunstâncias neurológicas” , tal como não temos controle sobre as “circunstâncias externas”. Mas essa suposição (suposição behaviorista em nova embalagem) contradiz, inteiramente, nosso conhecimento de que o cérebro é um sistema biológico auto-organizado e auto-regulado e não, meramente, uma etapa na transformação de algum estímulo externo numa saída comportamental. Não é necessário, entretanto, discutir o cérebro, em nenhum nível de detalhe, para refutar Greene e Cohen, pois, seus argumentos não são, absolutamente, baseados em algum conhecimento sobre o cérebro. A lógica primitiva ensina que, por exemplo, se eu roubo sua carteira, são as minhas mãos que devem ser cortadas.
Sr. Marionete
Para ser justo, Greene e Cohen perceberam que culpar o cérebro por tudo não é suficiente. Eles têm outra arma escondida contra o livre-arbítrio, um outro “experimento mental”. Pois, sua estratégia é gerar tantos argumentos contra o livre-arbítrio quantos eles puderem, na esperança de que alguns deles farão estragos suficientes, mesmo que esses argumentos se contradigam uns aos outros.
Em sua segunda tentativa, eles insistem em que imaginemos o caso de “Sr. Marionete”, um criminoso projetado por um grupo de cientistas, sob um rígido controle genético e ambiental. Durante o julgamento do Sr. Marionete, o cientista-chefe é chamado como testemunha de defesa. E aqui está a sua fala, de acordo com Greene e Cohen:
“Eu o projetei. Cuidadosamente selecionei cada gene em seu corpo e projetei cada evento significante em sua vida, de forma a torná-lo, exatamente, o que ele é hoje. Selecionei sua mãe, sabendo que ela o deixaria chorar por horas, antes de pegá-lo no colo. Selecionei, cuidadosamente, cada um dos parentes, professores, amigos, inimigos etc., e os disse, exatamente, o que dizer a ele e como tratá-lo. As coisas, de um modo geral, aconteceram como o planejado, mas não sempre. Por exemplo, as cartas iradas escritas ao seu falecido pai não estavam planejadas até que ele tivesse catorze anos, mas antes do seu décimo terceiro ano de vida, ele já tinha escrito quatro delas. Em retrospecto, penso que isso é devido a algumas poucas substituições que fiz em seu oitavo cromossomo.”
É claro que uma mudança num cromossomo não pode determinar o momento da formulação de uma carta malvada, pois o genoma não contém informação que especifique qualquer de nossas ações. A regulação ambiental é, também, impossível, exceto na ficção científica. Mas, plausibilidade ou conhecimento da biologia básica não podem ser esperados de nossos autores. Greene e Cohen acreditam que o Sr. Marionete não é responsável por suas ações, porque “forças além de seu controle desempenharam um papel dominante no cometimento de seus crimes, sendo difícil pensar que ele seja algo mais que um fantoche.”
Mas, mesmo assumindo, só para argumentar, que tal pessoa poderia ser assim projetada, devemos concluir que ele é, de fato, uma marionete do cientista-projetista, enquanto que nós não somos marionetes desse tipo. Nossos genes não são selecionados, nem nosso ambiente é projetado, por alguém.
Naturalmente, contudo, Greene e Cohen chegam a uma conclusão, completamente, diferente: “Qual é a diferença entre o Sr. Marionete e qualquer acusado de um crime? Afinal, temos poucas razões para duvidar que (i) o estado do universo 10.000 anos atrás, (ii) as leis físicas e (iii) os resultados dos eventos quânticos aleatórios são, juntos, suficientes para determinar tudo que acontece hoje, incluindo nossas próprias ações. Essas coisas estão, claramente, além de nosso controle. Então, qual é a real diferença entre nós e o Sr. Marionete? ... num sentido muito real, somos todos marionetes. Os efeitos combinados dos genes e do ambiente determinam todas as nossas ações. O Sr. Marionete é excepcional apenas na medida em que as intenções de outros seres humanos estão por trás de seus genes e de seu ambiente. Mas, isso não importa, uma vez que seus genes e seu ambiente são, intrinsecamente, comparáveis àqueles das pessoas comuns. Não somos mais livres que ele.”
Num aparente escorregão, eles reconhecem que os cientistas tiveram intenções, que eles deliberadamente agiram no projeto do Sr. Marionete. Suas ações, aparentemente, diferem das causas que não são ações humanas. Greene e Cohen nunca se preocuparam em perguntar se esses cientistas deviam ser punidos por projetarem, especificamente, alguém para cometer crimes, se eles são os responsáveis, afinal. Mas, se somos forçados a aceitar esse cenário, então, a responsabilidade pelos crimes parece ser dos cientistas – por projetarem marionetes criminosas.
De acordo com Greene e Cohen, no entanto, os genes e o ambiente do Sr. Marionete são “intrinsecamente comparáveis” àqueles das pessoas comuns, como se vivêssemos todos num ambiente projetado, no qual as pessoas, deliberadamente, abusassem de nós e nos mentisse; como se nossos genes, ao invés de serem resultados da seleção natural, fossem escolhidos por um time de cientistas do mal. Intrinsecamente comparáveis? Por isso eles, presumivelmente, querem dizer que o ambiente é ainda um ambiente terreno como o nosso, – a mesma casa com mobília, aparelho de TV e pais etc. – e os genes são, ainda, cadeias de DNA feitas de férteis nucleotides. Mas, claramente, essas características “intrínsecas” são irrelevantes no caso do Sr. Marionete. Seus genes e seu ambiente são, afinal, projetados para torná-lo um criminoso. Mas note, em particular, a ênfase peculiar de Greene e Cohen na combinação de genes e ambiente. A Biologia, é claro, nos diz que há fatores adicionais que não são nem genéticos nem ambientais, mas, podemos, seguramente, supor que esses autores, não possuindo nenhum interesse particular na ciência da Biologia, não estejam interessados nisso.
Sendo cientistas metafóricos, por “genes e ambiente” eles querem dizer tudo que nos faz o que somos, tudo que determina nossas ações. Nós estamos, agora, prontos para traduzir suas alegações para a linguagem comum: tudo que determina quem nós somos, determina quem nós somos; tudo que determina nossas ações, determina nossas ações. Certamente, não temos controle sobre tudo – Greene e Cohen, corretamente, assim supõem. E, seguramente, todos os possíveis fatores combinados determinam nossas ações. Mas, no processo de tirar essa brilhante conclusão eles se afundaram num caos mental e não perceberam a circularidade no processo. Somos compelidos, pelas leis da lógica, a concordar com eles: Sim, banana é banana.
Ilusão do livre-arbítrio
Tendo posto o livre-arbítrio em seu devido lugar, Greene e Cohen estão prontos para nos explicar o porquê de pensarmos que temos tal coisa. Se pensamos que temos alguma coisa que não existe, então, essa coisa deve ser uma ilusão. Assim, eles afirmam que nosso cérebro gera a ilusão de livre-arbítrio para que pensemos que estamos no controle dos processos.
Com toda a modéstia, nossos autores se comparam a Copérnico, Darwin e Freud em seus esforços em desbancar o narcisismo humano. Copérnico removeu a Terra do centro do universo. Darwin removeu os seres humanos do comando da Terra e Freud removeu a consciência como o único determinante do comportamento humano. Vem aí outro golpe baixo – mesmo aquele pequeno controle que você tem sobre suas ações é uma ilusão.
Parece-me, no entanto, que esse é um caso de sadomasoquismo. Greene e Cohen parecem auferir um autêntico prazer em atingir o narcisismo humano, representado pela psicologia popular do livre-arbítrio. Você acha que decidiu ler esse artigo porque o considerou interessante. Mas, não, você não tem a mínima idéia da razão e aquele pensamento que primeiro lhe assaltou foi, realmente, apenas alguma ilusão criada pelo seu cérebro para mascarar sua falta de idéia.
Quanto insulto a seu narcisismo você pode suportar? Essa é a questão, da qual sua humanidade científica depende. Somente cientistas durões, como Greene e Cohen, são corajosos o suficiente para enfrentar o determinismo de frente, sem ilusões. E se você não acha que é uma marionete, eles o esmurrarão com seus experimentos mentais e seus dados imaginários até que você, nocauteado, desistir de si mesmo. E assim o jogo continua. Apesar de eu não desejar negar a diversidade de prazeres sentidos por Greene e Cohen por se tornarem marionetes de uma ficção metafísica e porta-vozes de uma fanfarrice pseudocientífica, desejo, sim, examinar a evidência que eles apresentam para suas assertivas.
Essa evidência vem do trabalho de Daniel Wegner [3], um psicólogo de Harvard e um outro cientista metafórico. De acordo com Wegner, nossas ações não são causadas por nossa vontade. Para fundamentar essa afirmação ele cita a evidência de que a hipnose ou danos cerebrais pode prejudicar nossa noção de livre-arbítrio, de que várias manipulações experimentais podem criar em nós a ilusão de controle.
Nossa resposta imediata é: E daí? Não teremos livre-arbítrio se nossas cabeças forem cortadas. Não teremos livre-arbítrio se estivermos dormindo. Às vezes, erroneamente, pensamos que fizemos algo quando, de fato, não o fizemos. Disso, no entanto, não se pode concluir que o livre-arbítrio é uma ilusão.
Sob hipnose, por exemplo, podemos sentir nosso braço se levantando, mesmo que não o desejemos. Da mesma forma, quando nosso córtex motor ou nosso músculo é estimulado, vários movimentos podem ser induzidos sem nosso controle. Para Wegner, entretanto, essa sensação de “olha, aconteceu!” é a descrição mais precisa do que realmente aconteceu, quando agimos. Nunca ocorreu a ele que não há nenhuma instância de vontade porque aquelas não são instâncias de ações voluntárias sob nosso controle.
Wegner prefere, muito mais, essa sensação de passividade, pois só assim nos sentimos como objetos inanimados. Quando meu braço faz algo incontrolável, ele está agindo como um “objeto científico”, como um tijolo. Nosso livre-arbítrio deve ser uma ilusão porque ele não se encaixa na compreensão científica do mundo, esposada por Wegner.
O filósofo Daniel Dennet acredita que, por conveniência, adotamos a “postura intencional” quando interpretamos o comportamento dos outros seres humanos. A posição de Wegner pode ser descrita como “postura passiva”. Ele prefere sentir-se como o sujeito hipnotizado, o paciente com o dano cerebral ou um zumbi, porque, de acordo com sua Weltanschauung científica, a postura passiva é um reflexo mais preciso da realidade. Mas, a questão permanece: quem está iludido, Wegner ou o homem comum das ruas?
Concordar com Wegner resulta em que nossa sensação de livre-arbítrio é uma ilusão. Greene e Cohen vão um passo mais longe e afirmam que nossa atribuição de livre-arbítrio aos outros é, também, uma ilusão. Eles citam um estudo de Heberlein et al., onde se apresenta o seguinte vídeo para sujeitos humanos: um grande triângulo caça um pequeno círculo na tela, trombando com ele. O pequeno círculo foge repetidamente, e um pequeno triângulo se move, repetidamente, entre o círculo e o grande triângulo. Quando pessoas normais assistem ao vídeo, eles vêem essas interações em termos sociais e intencionais. O grande triângulo tenta ferir o pequeno círculo e o pequeno triângulo tenta proteger o pequeno círculo. Contudo, um paciente com algum dano na amygdala, uma coleção de estruturas cerebrais em forma de amêndoa, não consegue atribuir intenções a essas figuras [4]. Conseqüentemente, para Greene e Cohen, como essa atribuição de livre-arbítrio é gerada por uma área cerebral, ela é, também, uma ilusão.
Os leitores de meu artigo anterior estão familiarizados com a inclinação de Greene e Cohen na direção da especulação evolutiva. Aqui eles atacam novamente. De acordo com sua nova historinha, partes do cérebro, no curso da evolução, se tornam módulos especializados da psicologia popular, isto é, atribuindo livre-arbítrio aos outros; outras partes se tornam módulos especializados da física popular, isto é, acreditando naqueles movimentos tipicamente encontrados nos desenhos de Disney. Sabemos que a física popular está errada, mas, de acordo com Greene e Cohene, a psicologia popular está igualmente errada. Por causa de nossa psicologia popular, encaramos outros objetos animados como causadores sem causa*. Mas, depois que aprendemos neurociência, “quando olhamos as pessoas como sistemas físicos, não podemos vê-las nem mais dignas de reprovação, nem mais dignas de elogio, do que um tijolo”.
Talvez possamos conjeturar, ao lado dos sistemas da física e da psicologia popular, sobre um terceiro sistema do masoquismo cientificista que, enganosamente, faz alguém acreditar que é um tijolo à mercê das forças da natureza, ao invés de um agente responsável por suas ações. A base neurológica para o terceiro sistema, a meu ver, está, ainda, para ser estabelecida.
Então, em resumo, nossos teóricos cabeças-de-tijolo culpam a psicologia popular por considerarmos os agentes morais como causadores sem causa. Como não somos causadores sem causa, não podemos ser agentes morais, e, assim, não podemos ser responsáveis por nossas ações.
Se sou causador sem causa, minhas ações são isoladas de todas as influências externas. Supunha que um homem seja condenado à prisão perpétua por matar um guarda, durante um assalto a banco. Tal punição não evitará que eu faça o mesmo. A prevenção é, realmente, impossível se sou um causador sem causa de minhas ações.
Não obstante, isso não pode, de forma alguma, ser uma suposição oculta de nossas leis, pois, não se explica, assim, a intencionalidade como o foco do sistema legal. De acordo com a psicologia popular que Greene e Cohen atacam incansavelmente, é caracteristicamente humano que, deliberadamente, escolhamos meios apropriados para alcançar os fins desejados. Essa capacidade nos torna agentes morais, alvos de elogios e críticas. Por exemplo, um ato não é reprovável, a menos que haja uma mente culpada (Reum non facit nisi mens rea).
Como Mises repetidamente alerta, o próprio conceito de ação humana, de meios e fins, pressupõe a categoria da causalidade. Responsabilidade não implica que somos motores imóveis no sentido aristotélico, que estejamos de fora da cadeia de causa e efeito, mas significa que, como agentes de ações intencionais, estamos numa peculiar posição em uma longa cadeia de causas que se alonga até o Big Bang. Somos agentes capazes de controlar nossas ações e não um sistema ato-reflexo que transforma estímulo em resposta.
A lei pune, então, crimes que são o resultado da deliberação e da vontade e é indulgente com os acidentes ou aqueles agentes incapazes de ações racionais (p.ex. crianças). Essa seletividade só pode estar baseada na idéia de prevenção. Pois, seria absurdo dizer a alguém para não matar se ele não fosse capaz de deixar de fazê-lo, tanto quanto seria absurdo dizer a alguém para parar seu próprio coração.
Por seu turno, a lei pune crimes que resultam de ações que podemos controlar e podemos, então, evitá-las no futuro. Se a lei se baseasse na suposição da existência de causadores sem causa, não teria sentido fazer distinções entre assassinato deliberado e morte acidental. Penas rígidas seriam aplicadas em todos os crimes. Está fora do escopo deste artigo, naturalmente, a discussão da história do Direito, apesar de ser necessário alertar que o conceito de responsabilidade pessoal em crimes violentos é, de fato, um desenvolvimento relativamente recente. Penas extensíveis a parentes e senhores do criminoso eram comuns em muitas sociedades primitivas. (Aos interessados, sugiro a leitura da obra-prima de Pallack e Maitland ou o livro de Zane sobre a história do Direito).
Lei e liberdade
O livre-arbítrio, no sentido aqui discutido, significa que os seres humanos controlam o que eles fazem. A neurociência não mudará esse fato. A ficção científica, do tipo que Greene e Cohen gostam, pode sempre imaginar o contrário. Nesse sentido, ela não pode ser distinguida de qualquer religião teleológica.
De fato, esse tipo de determinismo, que afirma que os seres humanos não escolhem, não agem, mas sempre são objetos de ações, tem reaparecido inúmeras vezes na história, sob vários disfarces. É um fato histórico que selvagens primitivos, fanáticos religiosos e crentes nas leis inexoráveis da história têm, sempre, advogado alguma versão dele. No desenvolvimento dos sistemas legais, o conceito de responsabilidade pessoal também evoluiu, parcialmente porque alguns seres humanos, depois de se libertarem das superstições e da “postura passiva”, começaram a entender a natureza de suas próprias ações e seus efeitos sobre o mundo. O individualismo ilustrado, devemos lembrar, foi um desenvolvimento tardio e ainda permanece impopular em muitas partes do mundo. A psicologia popular intuitiva da ação humana que possuímos é o produto de tal ilustração. Por outro lado, ao atacar o conceito de livre-arbítrio e da responsabilidade pessoal, Greene e Cohen, meramente, revivem o culto do pensamento irracional, que por muito tempo prevaleceu nas sociedades humanas. Não deve nos surpreender, contudo, em descobrirmos no seu artigo a seguinte sentença: “a racionalidade é apenas presumivelmente correlacionada com o que a maioria realmente se preocupa”. De fato, o que sobra da racionalidade quando você não é responsável por suas ações?
No lugar da razão, esses autores colocam o bem-estar agregado. A lei, reformada à luz do conhecimento neurocientífico, de acordo com os dois autores, tem o objetivo de promover o futuro bem-estar, ao invés de punir os responsáveis por seus crimes. Num artigo anterior, discuti a tentativa desses autores de abolirem as normas morais universais, usando dados de imagens cerebrais, em nome do bem-estar agregado. Devemos, pelo menos, aplaudir sua consistência. Certamente, uma norma moral como o Imperativo Categórico não teria nenhum sentido se não houvesse o livre-arbítrio. Por que dizer a alguém para não roubar se ele não é capaz de obedecer, se o culpado é seu cérebro?
Depois de tudo considerado, seus argumentos se resumem a: (1) criminosos não são responsáveis por seus crimes, pois, tudo que determina quem ele é, determina quem ele é; (2) ao invés de punir criminosos pelo que eles fizeram, a lei deve maximizar o bem-estar futuro.
Eticamente, parece ridículo argumentar contra o bem-estar total da humanidade, tal como logicamente é impossível refutar uma tautologia. A lição a ser aprendida aqui é que você deve sempre se acautelar quando alguém defende algo que não pode ser contraditado, pois há, freqüentemente, um plano oculto anexo ao pacote nada-pode-estar-errado, que se autodestruirá uma vez aberto. Como alertei no artigo anterior, o conceito de bem-estar agregado é vazio, criado por conveniência. Não podemos calcular o que é esse bem-estar, apesar de podermos indiretamente observar, pelo estudo da história, os efeitos de longo prazo de certas regras e práticas em grupos que as seguem.
Num sentido mais recente e concreto de bem-estar, nosso atual sistema legal parece ter sido um dos principais promotores de bem-estar humano, julgando-se pela extraordinária difusão de idéias relevantes no Ocidente, contra freqüentes e fortes resistências dos costumes e práticas locais.
Finalmente, ao longo de seu ensaio, Greene e Cohen enfatizam que o conceito “libertário” de livre-arbítrio que eles atacam não tem nenhuma conexão com a filosofia política. As leis protegem a liberdade e liberdade requer responsabilidade.
Seus argumentos a favor do determinismo são, ainda, outra tentativa de abolir as leis como regras abstratas que se aplicam a todos, indistintamente. Ao contrário, o Estado e seus “especialistas cientistas” decidirão se uma pessoa será ou não um mal para a sociedade, a fim de maximizar o bem-estar futuro em cada caso (isto é, fazer o que aqueles no poder desejam). A própria lei se torna sem sentido. E, ao invés de regra geral que protege a liberdade individual, nas mãos de Greene e Cohen, e em nome da neurociência, a lei será usada como um instrumento para a intervenção estatal e para julgamentos arbitrários, destruindo a liberdade.
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Lucretius é um neurobiologista e vive em Mariland, EUA.
1. Greene, J. & Cohen, J. "For the law, neuroscience changes nothing and everything." Philos Trans R Soc Lond B Biol Sci 359, 1775-85 (2004).
2. von Mises, L. Theory and History (Mises Institute, 1957).
3. Wegner, D. M., "Precis of the illusion of conscious will". Behav Brain Sci 27, 649-59; discussion 659-92 (2004).
4. Heberlein, A. S. & Adolphs, R., "Impaired spontaneous anthropomorphizing despite intact perception and social knowledge". Proc Natl Acad Sci U S A 101, 7487-91 (2004).
* Uncaused causers, no original. O sentido aqui é de quem é causa das coisas, mas não é efeito de nenhuma causa, de quem se determina a si mesmo, livremente. É o conceito ligado à expressão causa sui, no sentido escolástico. (N. do T.)
Publicado pelo Mises Institute.
16/11/2005
A Neurociência Refuta a Ética?
Lucretius*
O estudo do cérebro, também chamado de neurociência, de seu modesto começo como um ramo da fisiologia, se expandiu consideravelmente em anos recentes, agora fadado a se tornar a rainha das ciências. O advento de técnicas tais como a fMRI (functional magnetic resonance imaging), por exemplo, tem atraído muitos pesquisadores com pouco interesse na neurobiologia tradicional, mas que se interessam muito pelo estudo das conexões anatômicas e da comunicação eletro-química entre as células do cérebro.
Esses novos neurocientistas estão interessados em tipos de questões tratadas, tradicionalmente, pelas humanidades e as ciências sociais. As respostas que eles dão têm atraído muita atenção da mídia. Agora temos neurociência afetiva, neurociência social, neurociência cognitiva – de fato, neurociência de tudo sob o sol. Como todas as atividades humanas podem ser relacionadas ao cérebro, a neurociência parece estar na perfeita posição para trazer o prestígio das ciências naturais para as disciplinas “soft”.
A Moral e o Direito estão entre as mais recentes áreas a serem invadidas pela neurociência. Aqui discuto uma tentativa recente, baseada na evidência de imagens cerebrais, de desbancar os princípios morais universais e reviver o utilitarismo em decisões morais, não no sentido Misesiano, de regras que promovem o bem social, mas no sentido de que não há um certo ou errado reais ou ainda, um padrão moral pelo qual qualquer coisa possa ser julgada. (Num artigo futuro, discutirei uma tentativa similar, dos mesmos pesquisadores, novamente se valendo de argumentos da neurociência, para atacar o conceito de livre arbítrio e de responsabilidade pessoal no Direito.)
Neurociência e moralidade
Em 2001, um grupo de pesquisadores publicaram, no periódico Science, um estudo examinando o fundamento neurológico da decisão moral. Surpreendentemente, o principal autor desse artigo, Joshua Greene, é um filósofo analítico, tendo recebido seu Ph.D. em Princeton, sob a orientação do falecido David Lewis (você pode ler sobre Greene aqui.)
Os dilemas morais enfrentados por sujeitos experimentais, enquanto seus cérebros estavam sendo escaneados, foram descritos como se segue:
“Um vagão desgovernado, faiscando os trilhos, se aproxima de cinco pessoas que serão mortas se o vagão se mantiver no curso presente. O único modo de salvá-las é acionar a chave que mudará o curso do vagão para um curso alternativo, onde ele matará apenas uma pessoa, ao invés de cinco. Deve você mudar o curso do vagão para salvar cinco pessoas ao custo de uma vida? A maioria responde sim. Agora considere um problema similar, o dilema da passarela. Como antes, um vagão ameaça matar cinco pessoas. Você está perto de um estranho sobre uma passarela que se estende sobre os trilhos, entre o vagão desgovernado e as cinco pessoas. Nesse cenário, o único meio de salvar as cinco pessoas é empurrar o estranho para fora da passarela, sobre os trilhos abaixo. Ele morrerá se você fizer isso, mas seu corpo parará o vagão, impedindo-o de atingir os outros. Deve você, para salvar as cinco pessoas, empurrar o estranho para a morte? A maioria responde não.”[3]
Usando a técnica fMRI, Greene et al. descobriram que as áreas do cérebro associadas com a emoção eram ativadas quando a versão da passarela, do dilema moral, era apresentada, mas isso não acontecia com a versão do vagão. Alguns dilemas, portanto, parecem envolver mais “processamento emocional” que outros. Eles argumentaram que as pessoas são mais propensas a sacrificar uma vida para salvar cinco se o cenário não envolver as áreas emocionais de seus cérebros, como o caso do vagão; e eles chamaram esse tipo de dilema de “impessoal”.
Em contraste, no caso da passarela, onde se deve matar um estranho para salvar cinco, as áreas emocionais do cérebro são ativadas e, como resultado, as pessoas são menos propensas a tomar essa decisão; esse tipo de dilema eles chamaram de “pessoal”.
Até aqui, tudo bem. Independentemente da validade dos seus dados, Greene et al. permaneceram dentro das fronteiras da ciência experimental. Num estudo posterior, no entanto, eles foram mais longe [2]. Dessa vez, eles usaram um dilema moral diferente. Deve alguém sufocar até a morte um bebê que chora para proteger as vidas de muitos, quando os soldados inimigos se aproximam? Aqui eles compararam os padrões de ativação cerebral daqueles que aprovam a morte do bebê (utilitários) e daqueles que não aprovam (deontologistas).
Para aqueles não acostumados com o jargão filosófico, os utilitários acreditam que a moralidade é uma forma de promoção de um bem maior, enquanto os deontologistas argumentam que existem princípios morais absolutos que nunca podem ser violados, não importando as conseqüências. Portanto, de acordo com os utilitários, o bebê devia ser morto para salvar os outros, mas de acordo com os deontologistas, o bebê não devia ser morto, pois, o assassinato é, simplesmente, errado.
Greene et al. observaram uma maior atividade nas regiões cerebrais associadas com a emoção, quando os indivíduos desaprovavam a morte do bebê, e maior atividade nas regiões cerebrais associadas ao “controle cognitivo”, quando a decisão utilitária prevalecia. Os processos de controle cognitivo, além do mais, podem trabalhar contra uma resposta sócio-emocional, resultando em decisões mais utilitárias – maior tendência a sufocar o bebê. Em uma região cerebral (córtex dorsolateral pré-frontal direito anterior), a atividade aumenta para os participantes que fizeram a escolha utilitária, mas decresce para aqueles que fizeram a escolha não-utilitária. Novamente, as emoções levam os indivíduos a rejeitar as escolhas que, mesmo violando princípios morais, resultem num maior bem-estar agregado.
O choque vem da conclusão tirada pelos autores: “As respostas sócio-emocionais que herdamos dos nossos ancestrais primatas ...dão sustentação às proibições absolutas que são centrais na deontologia. Em contraste, o ‘cálculo moral’ que define o utilitarismo é tornado possível por estruturas evolutivas mais recentes localizadas nos lobos centrais, que possibilitam o pensamento abstrato e o controle cognitivo de alto nível.” De forma mais clara, o velho cérebro emocional representa a visão dos deontologistas, que acreditam em regras universais de moralidade, enquanto o novo cérebro racional representa a visão utilitária [2].
Neste ponto, o leitor vigilante já pode detectar alguma parcialidade se insinuando na interpretação dos dados. De acordo com Greene et al., há dois conjuntos de estruturas cerebrais em competição quando os seres humanos tomam decisões morais – as velhas regiões emocionais e as novas regiões racionais. A forma do argumento, é claro, não é nova, mas no lugar da tradicional dicotomia entre razão e emoção, nós temos agora “áreas associadas ao controle cognitivo e a memória ativa” e “áreas associadas à emoção.”
O benefício dessa transformação é a habilidade de usar um argumento evolucionário associado a áreas cerebrais. E o raciocínio se desenvolve assim: como o velho cérebro emocional evoluiu para tratar somente com situações pessoais, ele é mal equipado para fazer cálculos morais, pesando custos e benefícios e escolhendo a ação que leve ao maior bem-estar agregado. Para tal cognição avançada, as áreas cerebrais mais recentemente evoluídas devem ser recrutadas.
Infelizmente, no entanto, Greene et al. não estão interessados em perseguir sua linha evolucionária de raciocínio mais do que é conveniente para seus argumentos. O córtex dorsolateral pré-frontal, uma área do cérebro que Greene et al. consideraram tão importante para o cálculo utilitário, é, de fato, uma “estrutura recente” na escala evolutiva, mas seu período de maior expansão nos primatas foi ainda milhões de anos antes dos princípios morais universais terem entrado em cena.
Por exemplo, regras tais como “não mate” e “não roube” não eram encontradas entre os seres humanos há 40.000 anos, apesar de não haver diferença biológica conhecida entre seu córtex dorsolateral pré-frontal e o nosso. Além do mais, como um deontologista, Kant seria, presumivelmente, classificado por Greene et al. como alguém com um cérebro emocional sobre-desenvolvido. Mas o Imperativo Categórico Katiano – devemos sempre agir de acordo com uma regra que possa se tornar lei universal; devemos sempre tratar outro ser humano como um fim, nunca como um mero meio – não é um tipo de moralidade que caracterizaria nossos ancestrais caçadores.
Deve ainda ser observado que a medida da atividade do cérebro através de um sinal fMRI pode, na melhor das hipóteses, ser correlacionada com uma função psicológica; não pode demonstrar um papel causal para a área do cérebro em questão. Apenas porque uma área cerebral particular se tornou mais ativa quando uma decisão foi tomada não significa que essa área influenciou a decisão. De fato, o sinal fMRI nem mesmo fornece uma medida dos pulsos neurônicos, de tal forma que não sabemos se ela reflete os sinais de entrada ou de saída das áreas ativadas.
Além disso, a classificação de áreas do cérebro em “emocionais” ou “cognitivas” não está fora de discussão; ela é, de fato, um truque de prestidigitador entre os novos frenologistas. A maioria dos estudos fMRI liga uma área particular a uma função particular. Não importa a validade da função psicológica atribuída – a suposição, ao contrário, é que se há um nome acadêmico para uma função, tal como controle cognitivo, deve haver uma área cerebral para ela. Como resultado, muitas áreas são sobrecarregadas com dúzias de rótulos. Se você descobre múltiplas áreas ativadas, pode pesquisar na literatura e achar o que você procura entre as funções descobertas dessas áreas. Isso raramente falha e, nas mãos de praticantes habilidosos, é receita de sucesso quase garantido.
Chega de argumentos científicos! As próprias opiniões de Greene sobre a moral podem ser encontradas num texto escrito para a Nature Reviews Neuroscience [1]. Não é surpresa encontrar Greene do lado dos utilitários. Com suas opiniões fortalecidas, agora, por evidências empíricas do tipo das descritas acima, nosso neurocientista utilitário, seguindo os candidatos a Mister Universo, argumenta, em essência, que devemos nos importar mais com o mundo, a fim de fazê-lo um lugar melhor. Essa simples mensagem, no entanto, é apresentada num formado em moda entre os filósofos analíticos contemporâneos e necessita alguma explicitação.
Usando ainda um dilema moral tomado de empréstimo do trabalho de Peter Unger, Greene pergunta: Por que devemos sentir uma obrigação moral em socorrer um homem ferido na estrada, mas podemos ignorar cartas de solicitação de doações de respeitáveis instituições de caridade? Como não há diferença entre os casos quando analisados em termos do bem-estar total do ser humano, ele argumenta, isso é o resultado de nosso cérebro ter evoluído de tal forma que importamos mais com situações pessoais do que com situações impessoais, deixando de levar em conta as condições das crianças famintas na África. Nossos sentimentos morais são, portanto, deficientes em seu escopo. Pois, se visto em termos do bem-estar global, não colaborar com instituições de caridade é tão errado quanto não socorrer um ferido a beira da estrada.
Em relação a isso, Greene menciona, com aprovação, o fato de que Peter Singer, o famoso professor utilitário, doa em torno de 20% de seu salário a instituições de caridade. Mas se devemos agir baseado em suposições utilitárias, por que nos ater em modestas contribuições? Por que somente 20%, e não tudo? Se devemos, realmente, fazer o cálculo moral, como os utilitários nos exigem, a única coisa racional a fazer é doar tudo que temos e morrer de fome. O dinheiro que Greene gasta no armazém é mais do que suficiente para alimentar, digamos, diversos bebês famintos em países do terceiro mundo. Seguramente, se matar de fome, em termos do cálculo moral, não é diferente de sufocar o bebê para salvar os outros – o paradigma do pensamento utilitário.
Por que tal responsabilidade moral estrita parece ridícula, especialmente, quando recomendada por alguém cujas pesquisas exigem centenas de milhares de dólares dos contribuintes? Para responder essa questão é conveniente lembrar que os argumentos de Greene têm o objetivo de atacar a moralidade que se fundamenta em princípios universais. Tal moralidade contém muito poucas recomendações, entre as quais, como Greene sugere, está a regra de que se vemos um homem seriamente ferido a beira da estrada, devemos socorrê-lo. As proibições são um pouco mais extensas: não devemos matar, roubar, etc. É uma moralidade de um escopo muito modesto, em comparação com a busca dos utilitários pela justiça cósmica**.
Anteriormente expliquei que os utilitários fazem coisas para um bem maior, enquanto os deontologistas seguem princípios morais absolutos. Essa breve descrição não é muito adequada, pois não está claro o que significa “um bem maior”. Para utilitários como Greene, o bem ou o bem-estar maior poderia ser calculado pelo agente individual baseado em suas crenças sobre o mundo; é um produto do cálculo individual.
Foi uma preocupação central de Hayek, especialmente em seus últimos anos de vida, mostrar porque essa suposição não é válida. De acordo com Hayek, enquanto é freqüentemente possível calcular as conseqüências imediatas das ações de alguém, é quase impossível calcular, dada a limitação da informação disponível, as conseqüências de longo prazo. Mas isso pode ser descoberto, de forma indireta, simplesmente observando aquelas regras que sobreviveram o maior período de seleção, que foram independentemente desenvolvidas em várias culturas, ou, originando-se em uma cultura, se espalharam para outras no curso da história. Essas regras e práticas são, elas próprias, selecionadas, a unidade de seleção sendo o grupo de seres humanos que as seguem. Elas são universais devido a suas conseqüências de longo prazo para os grupos que a seguem, e sua existência implica algum tipo de vantagem global.
Dessa forma, o “cálculo moral” é um oximoro, porque todo o propósito da moral é ficar livre do cálculo individual. Os utilitários de todas as estirpes confundem cálculos desse tipo, que qualquer homem primitivo pode fazer, com racionalidade, e eles pensam que uma análise de custo-benefício é necessária para o comportamento moral. O que eles não conseguem reconhecer, acima de tudo, é que pode haver maneiras mais inteligentes de coleta de informação e “cálculo” além do ator individual envolvido com suas tomadas de decisão. O desenvolvimento da moral transforma contingências temporárias “ação-resultado” em regras perenes e universais. Como diz a famosa conclusão de Hume, “as regras da moral não são conclusões de nossa razão.” O fato dos princípios morais não serem baseados na razão, não os invalida, porque o produto de um processo gradual de seleção pode ser superior aos resultados do cálculo individual.
O ponto central do argumento de Hayek, descrito acima, com o qual não precisamos concordar in totum, mostra as falhas das suposições do pensamento utilitário. Como Hayek gostava de observar, os ímpetos altruístas é que são, freqüente e precisamente, primitivos e comandam o comportamento irracional dos supostos progressistas. Ao contrário, os princípios universais derivados da seleção cultural evitam o preconceito individual que polui a análise utilitária. O altruísmo instintivo de fazer o bem visível, por exemplo, é substituído por um sistema impessoal de coordenação de recursos, mais precisamente capitalismo, que, não nos surpreende, é o alvo favorito daqueles que não conseguem nenhuma satisfação de seus impulsos altruístas primitivos [4].
Como o bipolo teórico altruísmo-compaixão, aplicado a todos num sentido abstrato, posto em ação desde um confortável sofá, se tornou o ópio dos intelectuais, é um fascinante tópico de estudo. Infelizmente, o ímpeto para fazer o bem, apesar de maciçamente presente em nossas universidades, causa mais obstáculo do que facilita a consecução de algum bem. Foi, de fato, com o declínio da responsabilidade moral que emergiu um amplo grupo de intelectuais profissionais cujo trabalho se resume a proclamar a preocupação com os pobres e os sofredores.
Professar preocupação se tornou a mais recente função dos professores e aumentar o bem-estar agregado a função favorita de governos em todos os lugares, para o desapontamento daqueles que são os alvos dessas ações e intenções, cujo bem-estar é tomado como um agregado. Tal como “um pouco de sacrifício para um bem maior” sempre foi o refrão dos ditadores, justificando assassinatos, confiscos e tortura, as proibições morais tradicionais, os “insignificantes” princípios morais, devem ser pisoteados, em nome do bem-estar agregado, como já vem acontecendo.
A segunda confusão de Greene se refere ao realismo moral, a idéia de que as verdades morais são objetivas. Ele argumenta contra o realismo moral, declarando que os princípios morais são relativos, que o que é moral depende de quem assim considera. Pois, se não há fatos morais, somente opiniões, então não pode haver princípios morais universais que todos devem seguir.
No entanto, uma objeção imediatamente surge: o fato de algo ser objetivo não implica que devemos seguí-lo. Por exemplo, apesar da árvore do lado de fora de minha casa existir objetivamente, independente dos seres humanos, ela não merece minha obediência. O amor, por outro lado, é subjetivo, mas não devemos, por isso, considerá-lo irrelevante para o homem, especialmente, no momento da escolha da pessoa com quem se casar. Que os princípios morais são produzidos pelos seres humanos, que eles somente se aplicam aos habitantes humanos deste planeta por um breve período de tempo em sua história, não significa que eles devem ser ignorados.
Além do mais, o realismo moral não pode ser experimentalmente testado pela neurociência. Se você escanear o cérebro de alguém enquanto ele está tomando decisões morais, você encontrará certos padrões de ativação neurológica. Mas verdades morais não são subjetivas porque você encontra ativação cerebral (ou uma mudança no batimento cardíaco). O subjetivismo moral não pode jamais ser provado por um experimento. A confusão de Greene se origina de seu erro fundamental sobre o que a ciência pode ou não pode fazer, pois para ele, a neurociência é apenas outra ferramenta com a qual se pode nocautear pontos de vista opostos.
Com a remoção da fachada escolástica e pseudocientífica, o que Greene realmente pretende dizer é que, pelo fato de que as pessoas acreditam em verdades morais objetivas, elas são muito dogmáticas nessa área. E ele detesta dogmatismos. Como um bom relativista moral, ele deseja que todos convivam, confortavelmente, com suas próprias verdades morais – um estado de coisas que, supostamente, produz paz e harmonia. Por exemplo, se eu acredito que é errado para você roubar minha carteira e você discorda, pois as nossas morais são diferentes, eu simplesmente, dou de ombros e sigo meu caminho.
Greene deseja o relativismo moral, apesar de achar mais fácil argumentar a favor do subjetivismo moral, ou ainda atacar o realismo moral. Portanto, ele acredita que princípios morais universais podem ser abolidos pela consideração de que não há verdades morais objetivas. Aqui encontramos uma característica interessante e particular a muitos intelectuais contemporâneos, que explica o caos conceitual em que Greene se meteu. De um lado, eles acreditam que, no que diz respeito à moral, não devemos ser dogmáticos – não devemos ser tão dogmáticos em nossos princípios morais, pois os outros têm seus próprios.
Por outro lado, eles advogam uma certa versão do utilitarismo e do coletivismo que acaba sendo tão exigente que qualquer um que a conteste deve ser rotulado como primitivo e estúpido, como o deontologista cujo cérebro emocional é sobre-desenvolvido.
Então, o objetivo dessa busca secreta por relativismo moral é conseguir que os outros abandonem suas crenças em alguns poucos princípios morais; e assim os estudos de Greene são somente uma tentativa de provar sua verdade coletivista por meio da ciência do cérebro. Mas, nesse caso descobrimos um novo truque. Ele usa fatos sobre a atividade do cérebro para argumentar: 1) que não há fatos morais, é tudo questão de opinião; e 2) que devemos todos nos tornar utilitários e fazer doações a instituições de caridade.
Sendo justo com Greene, ele não nos incita, à la Manifesto Comunista, a nos unir e nos tornar utilitários imediatamente. Ele, meramente, descreve os dois lados para nós. Um lado é controlado pelo cérebro primitivo e emocional, que evoluiu antes desse nosso mundo comunitário e multicultural – um cérebro adequado para o gueto cruel e pré-histórico de nossos ancestrais caçadores, que não tinham nenhum interesse na paz e harmonia. O outro lado, com o seu cérebro mais evoluído, capaz de controle cognitivo, é mais racional e adequado para o mundo de hoje.
Nosso cérebro é uma combinação de ambos, que estão em perpétua guerra dentro de nosso crânio. Greene nos faria crer que, dado esses fatos, nós saberíamos que lado escolher. Mas, estudantes da liberdade devem reconhecer, no caso em tela, apenas uma outra fantasia coletivista. O tipo de neurociência de Greene não é ciência, mas um novo membro da categoria “política por outros meios”.
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[1] Greene, J., From neural 'is' to moral 'ought': what are the moral implications of neuroscientific moral psychology?, Nat Rev Neurosci, 4 (2003) 846-9.
[2] Greene, J.D., Nystrom, L.E., Engell, A.D., Darley, J.M. and Cohen, J.D., The neural bases of cognitive conflict and control in moral judgment, Neuron, 44 (2004) 389-400.
[3] Greene, J.D., Sommerville, R.B., Nystrom, L.E., Darley, J.M. and Cohen, J.D., An fMRI investigation of emotional engagement in moral judgment, Science, 293 (2001) 2105-8.
[4] Hayek, F.A., The Fatal Conceit, The University of Chicago Press, Chicago, 1988.
* Lucretius é um neurobiologista que vive em Maryland, USA.
** Não fica claro aqui, se o autor se refere ao termo justiça cósmica na acepção de Thomas Sowell. De qualquer forma, vale a pena uma consulta à abordagem sowelliana desse conceito e suas conseqüências em: Thomas Sowell, The Quest for Cosmic Justice, The Free Press, New York, 1999. (N. do T.)
Publicado pelo Mises Institute.
O estudo do cérebro, também chamado de neurociência, de seu modesto começo como um ramo da fisiologia, se expandiu consideravelmente em anos recentes, agora fadado a se tornar a rainha das ciências. O advento de técnicas tais como a fMRI (functional magnetic resonance imaging), por exemplo, tem atraído muitos pesquisadores com pouco interesse na neurobiologia tradicional, mas que se interessam muito pelo estudo das conexões anatômicas e da comunicação eletro-química entre as células do cérebro.
Esses novos neurocientistas estão interessados em tipos de questões tratadas, tradicionalmente, pelas humanidades e as ciências sociais. As respostas que eles dão têm atraído muita atenção da mídia. Agora temos neurociência afetiva, neurociência social, neurociência cognitiva – de fato, neurociência de tudo sob o sol. Como todas as atividades humanas podem ser relacionadas ao cérebro, a neurociência parece estar na perfeita posição para trazer o prestígio das ciências naturais para as disciplinas “soft”.
A Moral e o Direito estão entre as mais recentes áreas a serem invadidas pela neurociência. Aqui discuto uma tentativa recente, baseada na evidência de imagens cerebrais, de desbancar os princípios morais universais e reviver o utilitarismo em decisões morais, não no sentido Misesiano, de regras que promovem o bem social, mas no sentido de que não há um certo ou errado reais ou ainda, um padrão moral pelo qual qualquer coisa possa ser julgada. (Num artigo futuro, discutirei uma tentativa similar, dos mesmos pesquisadores, novamente se valendo de argumentos da neurociência, para atacar o conceito de livre arbítrio e de responsabilidade pessoal no Direito.)
Neurociência e moralidade
Em 2001, um grupo de pesquisadores publicaram, no periódico Science, um estudo examinando o fundamento neurológico da decisão moral. Surpreendentemente, o principal autor desse artigo, Joshua Greene, é um filósofo analítico, tendo recebido seu Ph.D. em Princeton, sob a orientação do falecido David Lewis (você pode ler sobre Greene aqui.)
Os dilemas morais enfrentados por sujeitos experimentais, enquanto seus cérebros estavam sendo escaneados, foram descritos como se segue:
“Um vagão desgovernado, faiscando os trilhos, se aproxima de cinco pessoas que serão mortas se o vagão se mantiver no curso presente. O único modo de salvá-las é acionar a chave que mudará o curso do vagão para um curso alternativo, onde ele matará apenas uma pessoa, ao invés de cinco. Deve você mudar o curso do vagão para salvar cinco pessoas ao custo de uma vida? A maioria responde sim. Agora considere um problema similar, o dilema da passarela. Como antes, um vagão ameaça matar cinco pessoas. Você está perto de um estranho sobre uma passarela que se estende sobre os trilhos, entre o vagão desgovernado e as cinco pessoas. Nesse cenário, o único meio de salvar as cinco pessoas é empurrar o estranho para fora da passarela, sobre os trilhos abaixo. Ele morrerá se você fizer isso, mas seu corpo parará o vagão, impedindo-o de atingir os outros. Deve você, para salvar as cinco pessoas, empurrar o estranho para a morte? A maioria responde não.”[3]
Usando a técnica fMRI, Greene et al. descobriram que as áreas do cérebro associadas com a emoção eram ativadas quando a versão da passarela, do dilema moral, era apresentada, mas isso não acontecia com a versão do vagão. Alguns dilemas, portanto, parecem envolver mais “processamento emocional” que outros. Eles argumentaram que as pessoas são mais propensas a sacrificar uma vida para salvar cinco se o cenário não envolver as áreas emocionais de seus cérebros, como o caso do vagão; e eles chamaram esse tipo de dilema de “impessoal”.
Em contraste, no caso da passarela, onde se deve matar um estranho para salvar cinco, as áreas emocionais do cérebro são ativadas e, como resultado, as pessoas são menos propensas a tomar essa decisão; esse tipo de dilema eles chamaram de “pessoal”.
Até aqui, tudo bem. Independentemente da validade dos seus dados, Greene et al. permaneceram dentro das fronteiras da ciência experimental. Num estudo posterior, no entanto, eles foram mais longe [2]. Dessa vez, eles usaram um dilema moral diferente. Deve alguém sufocar até a morte um bebê que chora para proteger as vidas de muitos, quando os soldados inimigos se aproximam? Aqui eles compararam os padrões de ativação cerebral daqueles que aprovam a morte do bebê (utilitários) e daqueles que não aprovam (deontologistas).
Para aqueles não acostumados com o jargão filosófico, os utilitários acreditam que a moralidade é uma forma de promoção de um bem maior, enquanto os deontologistas argumentam que existem princípios morais absolutos que nunca podem ser violados, não importando as conseqüências. Portanto, de acordo com os utilitários, o bebê devia ser morto para salvar os outros, mas de acordo com os deontologistas, o bebê não devia ser morto, pois, o assassinato é, simplesmente, errado.
Greene et al. observaram uma maior atividade nas regiões cerebrais associadas com a emoção, quando os indivíduos desaprovavam a morte do bebê, e maior atividade nas regiões cerebrais associadas ao “controle cognitivo”, quando a decisão utilitária prevalecia. Os processos de controle cognitivo, além do mais, podem trabalhar contra uma resposta sócio-emocional, resultando em decisões mais utilitárias – maior tendência a sufocar o bebê. Em uma região cerebral (córtex dorsolateral pré-frontal direito anterior), a atividade aumenta para os participantes que fizeram a escolha utilitária, mas decresce para aqueles que fizeram a escolha não-utilitária. Novamente, as emoções levam os indivíduos a rejeitar as escolhas que, mesmo violando princípios morais, resultem num maior bem-estar agregado.
O choque vem da conclusão tirada pelos autores: “As respostas sócio-emocionais que herdamos dos nossos ancestrais primatas ...dão sustentação às proibições absolutas que são centrais na deontologia. Em contraste, o ‘cálculo moral’ que define o utilitarismo é tornado possível por estruturas evolutivas mais recentes localizadas nos lobos centrais, que possibilitam o pensamento abstrato e o controle cognitivo de alto nível.” De forma mais clara, o velho cérebro emocional representa a visão dos deontologistas, que acreditam em regras universais de moralidade, enquanto o novo cérebro racional representa a visão utilitária [2].
Neste ponto, o leitor vigilante já pode detectar alguma parcialidade se insinuando na interpretação dos dados. De acordo com Greene et al., há dois conjuntos de estruturas cerebrais em competição quando os seres humanos tomam decisões morais – as velhas regiões emocionais e as novas regiões racionais. A forma do argumento, é claro, não é nova, mas no lugar da tradicional dicotomia entre razão e emoção, nós temos agora “áreas associadas ao controle cognitivo e a memória ativa” e “áreas associadas à emoção.”
O benefício dessa transformação é a habilidade de usar um argumento evolucionário associado a áreas cerebrais. E o raciocínio se desenvolve assim: como o velho cérebro emocional evoluiu para tratar somente com situações pessoais, ele é mal equipado para fazer cálculos morais, pesando custos e benefícios e escolhendo a ação que leve ao maior bem-estar agregado. Para tal cognição avançada, as áreas cerebrais mais recentemente evoluídas devem ser recrutadas.
Infelizmente, no entanto, Greene et al. não estão interessados em perseguir sua linha evolucionária de raciocínio mais do que é conveniente para seus argumentos. O córtex dorsolateral pré-frontal, uma área do cérebro que Greene et al. consideraram tão importante para o cálculo utilitário, é, de fato, uma “estrutura recente” na escala evolutiva, mas seu período de maior expansão nos primatas foi ainda milhões de anos antes dos princípios morais universais terem entrado em cena.
Por exemplo, regras tais como “não mate” e “não roube” não eram encontradas entre os seres humanos há 40.000 anos, apesar de não haver diferença biológica conhecida entre seu córtex dorsolateral pré-frontal e o nosso. Além do mais, como um deontologista, Kant seria, presumivelmente, classificado por Greene et al. como alguém com um cérebro emocional sobre-desenvolvido. Mas o Imperativo Categórico Katiano – devemos sempre agir de acordo com uma regra que possa se tornar lei universal; devemos sempre tratar outro ser humano como um fim, nunca como um mero meio – não é um tipo de moralidade que caracterizaria nossos ancestrais caçadores.
Deve ainda ser observado que a medida da atividade do cérebro através de um sinal fMRI pode, na melhor das hipóteses, ser correlacionada com uma função psicológica; não pode demonstrar um papel causal para a área do cérebro em questão. Apenas porque uma área cerebral particular se tornou mais ativa quando uma decisão foi tomada não significa que essa área influenciou a decisão. De fato, o sinal fMRI nem mesmo fornece uma medida dos pulsos neurônicos, de tal forma que não sabemos se ela reflete os sinais de entrada ou de saída das áreas ativadas.
Além disso, a classificação de áreas do cérebro em “emocionais” ou “cognitivas” não está fora de discussão; ela é, de fato, um truque de prestidigitador entre os novos frenologistas. A maioria dos estudos fMRI liga uma área particular a uma função particular. Não importa a validade da função psicológica atribuída – a suposição, ao contrário, é que se há um nome acadêmico para uma função, tal como controle cognitivo, deve haver uma área cerebral para ela. Como resultado, muitas áreas são sobrecarregadas com dúzias de rótulos. Se você descobre múltiplas áreas ativadas, pode pesquisar na literatura e achar o que você procura entre as funções descobertas dessas áreas. Isso raramente falha e, nas mãos de praticantes habilidosos, é receita de sucesso quase garantido.
Chega de argumentos científicos! As próprias opiniões de Greene sobre a moral podem ser encontradas num texto escrito para a Nature Reviews Neuroscience [1]. Não é surpresa encontrar Greene do lado dos utilitários. Com suas opiniões fortalecidas, agora, por evidências empíricas do tipo das descritas acima, nosso neurocientista utilitário, seguindo os candidatos a Mister Universo, argumenta, em essência, que devemos nos importar mais com o mundo, a fim de fazê-lo um lugar melhor. Essa simples mensagem, no entanto, é apresentada num formado em moda entre os filósofos analíticos contemporâneos e necessita alguma explicitação.
Usando ainda um dilema moral tomado de empréstimo do trabalho de Peter Unger, Greene pergunta: Por que devemos sentir uma obrigação moral em socorrer um homem ferido na estrada, mas podemos ignorar cartas de solicitação de doações de respeitáveis instituições de caridade? Como não há diferença entre os casos quando analisados em termos do bem-estar total do ser humano, ele argumenta, isso é o resultado de nosso cérebro ter evoluído de tal forma que importamos mais com situações pessoais do que com situações impessoais, deixando de levar em conta as condições das crianças famintas na África. Nossos sentimentos morais são, portanto, deficientes em seu escopo. Pois, se visto em termos do bem-estar global, não colaborar com instituições de caridade é tão errado quanto não socorrer um ferido a beira da estrada.
Em relação a isso, Greene menciona, com aprovação, o fato de que Peter Singer, o famoso professor utilitário, doa em torno de 20% de seu salário a instituições de caridade. Mas se devemos agir baseado em suposições utilitárias, por que nos ater em modestas contribuições? Por que somente 20%, e não tudo? Se devemos, realmente, fazer o cálculo moral, como os utilitários nos exigem, a única coisa racional a fazer é doar tudo que temos e morrer de fome. O dinheiro que Greene gasta no armazém é mais do que suficiente para alimentar, digamos, diversos bebês famintos em países do terceiro mundo. Seguramente, se matar de fome, em termos do cálculo moral, não é diferente de sufocar o bebê para salvar os outros – o paradigma do pensamento utilitário.
Por que tal responsabilidade moral estrita parece ridícula, especialmente, quando recomendada por alguém cujas pesquisas exigem centenas de milhares de dólares dos contribuintes? Para responder essa questão é conveniente lembrar que os argumentos de Greene têm o objetivo de atacar a moralidade que se fundamenta em princípios universais. Tal moralidade contém muito poucas recomendações, entre as quais, como Greene sugere, está a regra de que se vemos um homem seriamente ferido a beira da estrada, devemos socorrê-lo. As proibições são um pouco mais extensas: não devemos matar, roubar, etc. É uma moralidade de um escopo muito modesto, em comparação com a busca dos utilitários pela justiça cósmica**.
Anteriormente expliquei que os utilitários fazem coisas para um bem maior, enquanto os deontologistas seguem princípios morais absolutos. Essa breve descrição não é muito adequada, pois não está claro o que significa “um bem maior”. Para utilitários como Greene, o bem ou o bem-estar maior poderia ser calculado pelo agente individual baseado em suas crenças sobre o mundo; é um produto do cálculo individual.
Foi uma preocupação central de Hayek, especialmente em seus últimos anos de vida, mostrar porque essa suposição não é válida. De acordo com Hayek, enquanto é freqüentemente possível calcular as conseqüências imediatas das ações de alguém, é quase impossível calcular, dada a limitação da informação disponível, as conseqüências de longo prazo. Mas isso pode ser descoberto, de forma indireta, simplesmente observando aquelas regras que sobreviveram o maior período de seleção, que foram independentemente desenvolvidas em várias culturas, ou, originando-se em uma cultura, se espalharam para outras no curso da história. Essas regras e práticas são, elas próprias, selecionadas, a unidade de seleção sendo o grupo de seres humanos que as seguem. Elas são universais devido a suas conseqüências de longo prazo para os grupos que a seguem, e sua existência implica algum tipo de vantagem global.
Dessa forma, o “cálculo moral” é um oximoro, porque todo o propósito da moral é ficar livre do cálculo individual. Os utilitários de todas as estirpes confundem cálculos desse tipo, que qualquer homem primitivo pode fazer, com racionalidade, e eles pensam que uma análise de custo-benefício é necessária para o comportamento moral. O que eles não conseguem reconhecer, acima de tudo, é que pode haver maneiras mais inteligentes de coleta de informação e “cálculo” além do ator individual envolvido com suas tomadas de decisão. O desenvolvimento da moral transforma contingências temporárias “ação-resultado” em regras perenes e universais. Como diz a famosa conclusão de Hume, “as regras da moral não são conclusões de nossa razão.” O fato dos princípios morais não serem baseados na razão, não os invalida, porque o produto de um processo gradual de seleção pode ser superior aos resultados do cálculo individual.
O ponto central do argumento de Hayek, descrito acima, com o qual não precisamos concordar in totum, mostra as falhas das suposições do pensamento utilitário. Como Hayek gostava de observar, os ímpetos altruístas é que são, freqüente e precisamente, primitivos e comandam o comportamento irracional dos supostos progressistas. Ao contrário, os princípios universais derivados da seleção cultural evitam o preconceito individual que polui a análise utilitária. O altruísmo instintivo de fazer o bem visível, por exemplo, é substituído por um sistema impessoal de coordenação de recursos, mais precisamente capitalismo, que, não nos surpreende, é o alvo favorito daqueles que não conseguem nenhuma satisfação de seus impulsos altruístas primitivos [4].
Como o bipolo teórico altruísmo-compaixão, aplicado a todos num sentido abstrato, posto em ação desde um confortável sofá, se tornou o ópio dos intelectuais, é um fascinante tópico de estudo. Infelizmente, o ímpeto para fazer o bem, apesar de maciçamente presente em nossas universidades, causa mais obstáculo do que facilita a consecução de algum bem. Foi, de fato, com o declínio da responsabilidade moral que emergiu um amplo grupo de intelectuais profissionais cujo trabalho se resume a proclamar a preocupação com os pobres e os sofredores.
Professar preocupação se tornou a mais recente função dos professores e aumentar o bem-estar agregado a função favorita de governos em todos os lugares, para o desapontamento daqueles que são os alvos dessas ações e intenções, cujo bem-estar é tomado como um agregado. Tal como “um pouco de sacrifício para um bem maior” sempre foi o refrão dos ditadores, justificando assassinatos, confiscos e tortura, as proibições morais tradicionais, os “insignificantes” princípios morais, devem ser pisoteados, em nome do bem-estar agregado, como já vem acontecendo.
A segunda confusão de Greene se refere ao realismo moral, a idéia de que as verdades morais são objetivas. Ele argumenta contra o realismo moral, declarando que os princípios morais são relativos, que o que é moral depende de quem assim considera. Pois, se não há fatos morais, somente opiniões, então não pode haver princípios morais universais que todos devem seguir.
No entanto, uma objeção imediatamente surge: o fato de algo ser objetivo não implica que devemos seguí-lo. Por exemplo, apesar da árvore do lado de fora de minha casa existir objetivamente, independente dos seres humanos, ela não merece minha obediência. O amor, por outro lado, é subjetivo, mas não devemos, por isso, considerá-lo irrelevante para o homem, especialmente, no momento da escolha da pessoa com quem se casar. Que os princípios morais são produzidos pelos seres humanos, que eles somente se aplicam aos habitantes humanos deste planeta por um breve período de tempo em sua história, não significa que eles devem ser ignorados.
Além do mais, o realismo moral não pode ser experimentalmente testado pela neurociência. Se você escanear o cérebro de alguém enquanto ele está tomando decisões morais, você encontrará certos padrões de ativação neurológica. Mas verdades morais não são subjetivas porque você encontra ativação cerebral (ou uma mudança no batimento cardíaco). O subjetivismo moral não pode jamais ser provado por um experimento. A confusão de Greene se origina de seu erro fundamental sobre o que a ciência pode ou não pode fazer, pois para ele, a neurociência é apenas outra ferramenta com a qual se pode nocautear pontos de vista opostos.
Com a remoção da fachada escolástica e pseudocientífica, o que Greene realmente pretende dizer é que, pelo fato de que as pessoas acreditam em verdades morais objetivas, elas são muito dogmáticas nessa área. E ele detesta dogmatismos. Como um bom relativista moral, ele deseja que todos convivam, confortavelmente, com suas próprias verdades morais – um estado de coisas que, supostamente, produz paz e harmonia. Por exemplo, se eu acredito que é errado para você roubar minha carteira e você discorda, pois as nossas morais são diferentes, eu simplesmente, dou de ombros e sigo meu caminho.
Greene deseja o relativismo moral, apesar de achar mais fácil argumentar a favor do subjetivismo moral, ou ainda atacar o realismo moral. Portanto, ele acredita que princípios morais universais podem ser abolidos pela consideração de que não há verdades morais objetivas. Aqui encontramos uma característica interessante e particular a muitos intelectuais contemporâneos, que explica o caos conceitual em que Greene se meteu. De um lado, eles acreditam que, no que diz respeito à moral, não devemos ser dogmáticos – não devemos ser tão dogmáticos em nossos princípios morais, pois os outros têm seus próprios.
Por outro lado, eles advogam uma certa versão do utilitarismo e do coletivismo que acaba sendo tão exigente que qualquer um que a conteste deve ser rotulado como primitivo e estúpido, como o deontologista cujo cérebro emocional é sobre-desenvolvido.
Então, o objetivo dessa busca secreta por relativismo moral é conseguir que os outros abandonem suas crenças em alguns poucos princípios morais; e assim os estudos de Greene são somente uma tentativa de provar sua verdade coletivista por meio da ciência do cérebro. Mas, nesse caso descobrimos um novo truque. Ele usa fatos sobre a atividade do cérebro para argumentar: 1) que não há fatos morais, é tudo questão de opinião; e 2) que devemos todos nos tornar utilitários e fazer doações a instituições de caridade.
Sendo justo com Greene, ele não nos incita, à la Manifesto Comunista, a nos unir e nos tornar utilitários imediatamente. Ele, meramente, descreve os dois lados para nós. Um lado é controlado pelo cérebro primitivo e emocional, que evoluiu antes desse nosso mundo comunitário e multicultural – um cérebro adequado para o gueto cruel e pré-histórico de nossos ancestrais caçadores, que não tinham nenhum interesse na paz e harmonia. O outro lado, com o seu cérebro mais evoluído, capaz de controle cognitivo, é mais racional e adequado para o mundo de hoje.
Nosso cérebro é uma combinação de ambos, que estão em perpétua guerra dentro de nosso crânio. Greene nos faria crer que, dado esses fatos, nós saberíamos que lado escolher. Mas, estudantes da liberdade devem reconhecer, no caso em tela, apenas uma outra fantasia coletivista. O tipo de neurociência de Greene não é ciência, mas um novo membro da categoria “política por outros meios”.
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[1] Greene, J., From neural 'is' to moral 'ought': what are the moral implications of neuroscientific moral psychology?, Nat Rev Neurosci, 4 (2003) 846-9.
[2] Greene, J.D., Nystrom, L.E., Engell, A.D., Darley, J.M. and Cohen, J.D., The neural bases of cognitive conflict and control in moral judgment, Neuron, 44 (2004) 389-400.
[3] Greene, J.D., Sommerville, R.B., Nystrom, L.E., Darley, J.M. and Cohen, J.D., An fMRI investigation of emotional engagement in moral judgment, Science, 293 (2001) 2105-8.
[4] Hayek, F.A., The Fatal Conceit, The University of Chicago Press, Chicago, 1988.
* Lucretius é um neurobiologista que vive em Maryland, USA.
** Não fica claro aqui, se o autor se refere ao termo justiça cósmica na acepção de Thomas Sowell. De qualquer forma, vale a pena uma consulta à abordagem sowelliana desse conceito e suas conseqüências em: Thomas Sowell, The Quest for Cosmic Justice, The Free Press, New York, 1999. (N. do T.)
Publicado pelo Mises Institute.
A morte de Rosa Parks
Thomas Sowell
A morte de Rosa Parks nos lembrou seu lugar na história, como uma mulher negra cuja recusa em ceder seu assento num ônibus a um homem branco, como prescrevia a lei Jim Crow do estado do Alabama, foi a faísca que incendiou o movimento pelos direitos civis dos anos 1950 e 1960.
No entanto, muitos não conhecem o resto da história. Porque havia assentos racialmente segregados no transporte público, em primeiro lugar? “Racismo” alguém dirá – e havia, certamente, muito racismo no Sul, há muitos séculos. Mas assentos racialmente segregados no transporte público no Sul não existiam há muitos séculos.
Longe de existirem desde tempos imemoriais, como muitos têm suposto, os assentos racialmente segregados no transporte público começou no Sul no final do século XIX e início do século XX.
Aqueles que vêem o governo como a solução para os problemas sociais podem se surpreender em saberem que foi o governo que criou esse problema. Muitos, se não todos, dos sistemas de transporte municipal eram propriedades privadas no século XIX e os seus proprietários não tinham nenhum incentivo para segregar as raças.
Esses proprietários podem ter sido racistas, mas eles estavam naquele negócio para produzir lucros – e você não obtém lucros excluindo muitos de seus clientes. Não havia demanda suficiente para os assentos Jim Crow no transporte municipal para que o lucro acontecesse.
Foi a política que segregou as raças, pois os incentivos do processo político são diferentes dos incentivos do processo econômico. Brancos e negros gastavam dinheiro para andar de ônibus mas, depois da exclusão do voto negro no final do século XIX e início do século XX, somente os brancos contavam no processo político.
Não era necessário que uma maioria maciça de eleitores brancos demandasse a segregação racial. Se alguém o fizesse e outros nem ligasse, isso já era suficiente politicamente, pois o que os negros queriam não contava politicamente depois que eles perderam o direito ao voto.
Os incentivos do sistema econômico e os incentivos do sistema político não eram somente diferentes, eles se colidiam. Os proprietários de ônibus, trens urbanos, e de companhias ferroviárias no Sul fizeram lobby contra as leis Jim Crow enquanto essas leis estavam sendo propostas, contestando-as nos tribunais depois que elas eram aprovadas e retardando seu cumprimento quando os tribunais as mantinham em vigor.
Essas táticas retardaram a aplicação das leis Jim Crow por anos em alguns lugares. Então, os empregados das companhias de transporte começaram a ser presos por não observarem tais leis e, pelo menos, um presidente de companhia foi ameaçado de ser mandado para a cadeia se ele não acedesse.
Essa resistência não foi por um desejo de direitos civis para os negros. Foi baseada no medo de perder dinheiro se a segregação racial causasse uma diminuição dos clientes negros depois dessa afronta.
Da mesma forma que não foi necessária uma maioria expressiva de brancos a demandar a segregação racial para que o sistema político a criasse, também não foi necessária que uma maciça maioria de negros parasse de usar o transporte público para que os proprietários dos sistemas de transporte sentissem a iminente perda monetária.
As pessoas que desprezam o fato de que negociantes estão no mercado “somente para ganhar dinheiro”, raramente, entendem as implicações do que elas estão falando. Você ganha dinheiro fazendo o que outras pessoas querem, não o que você quer.
O dinheiro dos negros era tão bom quando o dos brancos, apesar de não ser esse o caso quando falamos de votos.
Inicialmente, a segregação significou que os brancos não poderiam se sentar na ala dos negros num ônibus, tanto quanto os negros não poderiam se sentar na ala dos brancos. Mas, os brancos que eram forçados a ficar em pé quando havia assentos vazios na ala dos negros, objetaram. Foi quando a regra foi imposta de que os negros tinham que ceder seus assentos aos brancos.
Sofismas legais criados por juízes jogaram para escanteio a determinação de tratamento igual a todos da Emenda 14. O ativismo judicial pode ir para qualquer direção.
Foi quando Rosa Parks entrou em cena, depois de quase meio século de tramóia política e fraude judicial.
Publicado por Townhall.com
A morte de Rosa Parks nos lembrou seu lugar na história, como uma mulher negra cuja recusa em ceder seu assento num ônibus a um homem branco, como prescrevia a lei Jim Crow do estado do Alabama, foi a faísca que incendiou o movimento pelos direitos civis dos anos 1950 e 1960.
No entanto, muitos não conhecem o resto da história. Porque havia assentos racialmente segregados no transporte público, em primeiro lugar? “Racismo” alguém dirá – e havia, certamente, muito racismo no Sul, há muitos séculos. Mas assentos racialmente segregados no transporte público no Sul não existiam há muitos séculos.
Longe de existirem desde tempos imemoriais, como muitos têm suposto, os assentos racialmente segregados no transporte público começou no Sul no final do século XIX e início do século XX.
Aqueles que vêem o governo como a solução para os problemas sociais podem se surpreender em saberem que foi o governo que criou esse problema. Muitos, se não todos, dos sistemas de transporte municipal eram propriedades privadas no século XIX e os seus proprietários não tinham nenhum incentivo para segregar as raças.
Esses proprietários podem ter sido racistas, mas eles estavam naquele negócio para produzir lucros – e você não obtém lucros excluindo muitos de seus clientes. Não havia demanda suficiente para os assentos Jim Crow no transporte municipal para que o lucro acontecesse.
Foi a política que segregou as raças, pois os incentivos do processo político são diferentes dos incentivos do processo econômico. Brancos e negros gastavam dinheiro para andar de ônibus mas, depois da exclusão do voto negro no final do século XIX e início do século XX, somente os brancos contavam no processo político.
Não era necessário que uma maioria maciça de eleitores brancos demandasse a segregação racial. Se alguém o fizesse e outros nem ligasse, isso já era suficiente politicamente, pois o que os negros queriam não contava politicamente depois que eles perderam o direito ao voto.
Os incentivos do sistema econômico e os incentivos do sistema político não eram somente diferentes, eles se colidiam. Os proprietários de ônibus, trens urbanos, e de companhias ferroviárias no Sul fizeram lobby contra as leis Jim Crow enquanto essas leis estavam sendo propostas, contestando-as nos tribunais depois que elas eram aprovadas e retardando seu cumprimento quando os tribunais as mantinham em vigor.
Essas táticas retardaram a aplicação das leis Jim Crow por anos em alguns lugares. Então, os empregados das companhias de transporte começaram a ser presos por não observarem tais leis e, pelo menos, um presidente de companhia foi ameaçado de ser mandado para a cadeia se ele não acedesse.
Essa resistência não foi por um desejo de direitos civis para os negros. Foi baseada no medo de perder dinheiro se a segregação racial causasse uma diminuição dos clientes negros depois dessa afronta.
Da mesma forma que não foi necessária uma maioria expressiva de brancos a demandar a segregação racial para que o sistema político a criasse, também não foi necessária que uma maciça maioria de negros parasse de usar o transporte público para que os proprietários dos sistemas de transporte sentissem a iminente perda monetária.
As pessoas que desprezam o fato de que negociantes estão no mercado “somente para ganhar dinheiro”, raramente, entendem as implicações do que elas estão falando. Você ganha dinheiro fazendo o que outras pessoas querem, não o que você quer.
O dinheiro dos negros era tão bom quando o dos brancos, apesar de não ser esse o caso quando falamos de votos.
Inicialmente, a segregação significou que os brancos não poderiam se sentar na ala dos negros num ônibus, tanto quanto os negros não poderiam se sentar na ala dos brancos. Mas, os brancos que eram forçados a ficar em pé quando havia assentos vazios na ala dos negros, objetaram. Foi quando a regra foi imposta de que os negros tinham que ceder seus assentos aos brancos.
Sofismas legais criados por juízes jogaram para escanteio a determinação de tratamento igual a todos da Emenda 14. O ativismo judicial pode ir para qualquer direção.
Foi quando Rosa Parks entrou em cena, depois de quase meio século de tramóia política e fraude judicial.
Publicado por Townhall.com
24/10/2005
O Grande Frasista G. K. Chesterton
Verdades Eternas
Os sovinas acordam cedo; os ladrões, pelo que sei, acordam na noite anterior.
Defender quaisquer das virtudes cardeais tem, hoje em dia, toda a excitação de um vício.
Uma coisa morta pode seguir a correnteza, mas somente uma coisa viva pode contrariá-la.
As falácias não se tornam menos falácias porque se tornaram modas.
Imparcialidade é um nome pomposo para indiferença, que é um nome elegante para ignorância.
Uma inconveniência é apenas uma aventura erroneamente considerada; uma aventura é uma inconveniência corretamente considerada.
O que amargura o mundo não é excesso de crítica, mas a ausência de autocrítica.
Um homem são é aquele que tem a tragédia em seu coração e a comédia em sua cabeça.
Entre os ricos você nunca encontrará um homem verdadeiramente generoso, nem por acaso. Eles podem doar seu dinheiro, mas nunca se doam; eles são egoístas, enigmáticos, secos como ossos velhos. Para ser inteligente o suficiente para conseguir todo aquele dinheiro, você deve ser estúpido o suficiente para desejá-lo.
Força moderada é usada na violência, força suprema é usada na levitação.
A simplificação de qualquer coisa é sempre sensacional.
Protestos sempre voltam como um eco dos confins do mundo; mas o silêncio nos revigora.
Costumes são, geralmente, generosos. Hábitos, são quase sempre, egoístas.
Acredito que o que realmente acontece na história é o seguinte: o homem idoso está sempre errado; e os jovens estão sempre errados sobre o que está errado. A forma prática que isso toma é a seguinte: enquanto o homem idoso se apega a algum costume estúpido, o homem jovem sempre o ataca, com alguma teoria que se mostra igualmente estúpida.
O centro de toda a existência do homem é um sonho. Morte, doença, insanidade, são, meramente, acidentes materiais, como uma dor de dente ou uma torção no tornozelo. Que essas forças brutais sempre sitiam e, freqüentemente, capturam a cidadela, não prova que elas são a cidadela.
O otimista é uma pessoa em permanente rebelião que, geralmente, vive e morre num esforço desesperado e suicida para persuadir as pessoas do quando elas são boas.
Ter o direito de fazer uma coisa não é, em absoluto, estar certo em fazê-la.
Todos os exageros estão certos, se eles exageram as coisas certas.
A comédia do homem sobrevive à sua tragédia.
Ultimamente não temos tido boas óperas cômicas, pois, o mundo real tem sido mais cômico que qualquer ópera imaginável.
Quando homens instruídos começam a usar a razão, então, geralmente, descubro que eles não a têm.
O homem livre é dono de si próprio. Ele pode se prejudicar comendo ou bebendo; ele pode se arruinar com o jogo. Se ele assim se comporta, ele é um grande idiota, e pode ser uma alma condenada; se não for esse o caso, ele é tão livre quanto um cachorro.
O esteta nunca faz nada além do que lhe é mandado fazer.
O esteta aspira à harmonia, não à beleza. Se seu cabelo não combina com o purpúreo por do sol, contra o qual ele se posta, ele rapidamente tinge seu cabelo com uma sombra de púrpura. Se sua esposa não combina com o papel de parede, ele se divorcia.
O reformador está sempre certo sobre o que está errado. Ele, geralmente, está errado sobre o que está certo.
A razão é sempre uma espécie de força bruta; aqueles que apelam mais para a cabeça do que para o coração, mesmo que pálido e educado, são, necessariamente, homens violentos. Falamos de ‘tocar’ o coração do homem, mas não podemos fazer nada com a sua cabeça, exceto golpeá-la.
O homem é sempre algo pior e algo melhor que um animal; e meros argumentos sobre a perfeição animal nunca o tocam. Assim, no sexo nenhum animal é cortes ou obsceno. E assim, nenhum animal inventou algo tão ruim quanto a embriaguez – ou tão boa quanto a bebida.
Quando entramos numa família, pelo ato de nascermos, entramos realmente num mundo que é incalculável, num mundo que tem suas próprias e estranhas leis, num mundo que poderia passar sem nós, num mundo que não criamos. Em outras palavras, quando entramos numa família, entramos num conto de fadas.
Uma coisa pode ser muito triste para ser crível ou muito má para ser crível ou muito boa para ser crível; mas ela não pode ser tão absurda para ser crível, neste planeta de sapos e elefantes, de crocodilos e peixes-espada.
Conselhos gratuitos
Não se deleite consigo mesmo. Deleite-se com a dança, com peças teatrais, com passeios de automóveis, com champagne e com ostras; deleite-se com jazz, com cocktails e com boates, se você não se diverte com nada melhor; deleite-se com a bigamia, com o roubo ou com outro crime qualquer; mas nunca se deleite consigo próprio.
Não olhe para os rostos nos jornais e revistas ilustrados. Olhe para os rostos na rua.
Quando for fazer um agrado a um amigo ou a uma criança, dê-lhes o que eles gostam, nunca o que seja bom para eles.
Concordo com o realista irlandês que diz que prefere a profecia depois do acontecido.
O culto ao progresso
O progresso é um comparativo para o qual ainda não temos o superlativo.
O progresso deve significar que estamos sempre mudando o mundo para adequá-lo à nossa visão, ao invés de sempre mudarmos a nossa visão.
Minha atitude perante o progresso passou do antagonismo ao tédio. Parei, há muito tempo, de discutir com as pessoas que preferem quinta-feira à quarta-feira porque é quinta-feira.
Os homens inventam novos ideais porque não ousam tentar os velhos ideais. Eles olham à frente com entusiasmo, porque eles temem olhar para trás.
Tradição significa votar na mais obscura das classes, nossos ancestrais. É a democracia dos mortos. A tradição recusa a se submeter àquela arrogante oligarquia que, por acaso, se encontra por perto.
O mundo moderno é um punhado de carros de corrida, todos obrigados a uma parada, presos num engarrafamento de trânsito.
Confortos raros aos nossos ancestrais são, agora, multiplicados nas fábricas e vendidos indiscriminadamente; e realmente, ninguém atualmente, que não se importe em passar sem ar, espaço, quietude, decência e boas maneiras, precisa se privar de nada que se queira; ou, pelo menos, de uma imitação barata do que se queira.
Uma história de detetive, geralmente, descreve seis homens discutindo sobre como aquele homem morreu. Uma história filosófica moderna, geralmente, descreve seis homens mortos discutindo como algum homem pode estar vivo.
Nenhuma das máquinas modernas, nenhuma das parafernálias modernas ... têm algum poder sobre alguém, exceto sobre aqueles que optaram por usá-las.
Toda a maldição do último século foi o que se pode chamar de a Oscilação do Pêndulo; isto é, a idéia de que o Homem deve ir, alternativamente, de um extremo ao outro. Isso é vergonhoso e chocante; é a negação de toda a dignidade da espécie humana. Quando o Homem está vivo ele permanece parado. É somente quando morre que ele oscila.
Este é o tempo no qual minorias ínfimas e teóricas podem conquistar maiorias inconscientes e não-teóricas.
Guerra e Política
[O marxismo], numa geração, irá para o limbo da maioria das heresias, mas enquanto isso, ele envenenará a Revolução Russa.
A guerra não é o melhor caminho para resolver as diferenças; é o único caminho para evitar que as diferenças sejam resolvidas em seu nome.
Há um corolário da concepção ‘ser muito orgulhoso para lutar’. Os humildes têm de empreender a maior parte da luta.
A única guerra defensável é a guerra de defesa.
O verdadeiro soldado luta não porque ele odeia o que está a sua frente, mas porque ele ama o que está atrás.
Como as revoluções envelhecem, e pior, se tornam respeitáveis!
Governo e Política
Uma vez que se abole Deus, o governo se torna Deus.
A América é o único país jamais fundando sobre um credo.
A Declaração de Independência baseia, dogmaticamente, todos os direitos no fato de que Deus criou todos os homens iguais; e está certa; pois, se eles não fossem criados iguais, eles, certamente, teriam evoluído desigualmente. Não há fundamento para a democracia, exceto no dogma da origem divina do homem.
A democracia inconsciente na América é uma coisa muito boa. É uma suposição verdadeira, profunda e instintiva na igualdade dos cidadãos que, mesmo o voto e as eleições, não destruíram.
Quando você desobedece as grandes leis, você não alcança a liberdade; você não promove nem mesmo a anarquia. Você promove as pequenas leis.
Se você tentar, atualmente, uma discussão real com um jornal de posição política oposta à sua, você não terá nenhuma resposta, exceto jargão ou silêncio.
É um crítico superficial aquele que não enxerga um eterno rebelde no coração de um conservador.
Você nunca terá uma revolução para estabelecer uma democracia. Você deve ter uma democracia para ter uma revolução.
Quando um político está na oposição ele é um expert nos meios para determinados fins; quando é situação, ele é um expert nos obstáculos.
Formei uma clara concepção de patriotismo. Geralmente, o tenho encontrado alçado ao primeiro plano por algum sujeito que tem algo a esconder no segundo plano. Tenho visto uma grande quantidade de patriotismo; e o tenho descoberto como o último refúgio dos patifes.
Não pode haver uma nação de milionários, e nunca houve uma nação de camaradas utópicos; mas pode haver muitas nações de camponeses toleravelmente felizes.
Todo governo é uma horrível necessidade.
É difícil tornar um governo representativo quando ele é, ao mesmo tempo, remoto.
É um bom sinal para uma nação quando as coisas estão sendo feitas imperfeitamente. Isso mostra que todo o povo as está fazendo. E é um mau sinal quando as coisas estão sendo feitas muito bem, pois, isso mostra que somente uns poucos experts e excêntricos as estão fazendo e que a nação está sendo um mero espectador.
Todo o mundo moderno se dividiu em conservadores e progressistas. O negócio dos progressistas é continuar cometendo erros. O negócio dos conservadores é prevenir que os erros sejam corrigidos.
Sociedade e cultura
Nunca pude ver nada de errado no sensacionalismo; e estou certo de que nossa sociedade sofre mais pela confidencialidade do que por quaisquer revelações extravagantes.
De tudo o que ouvimos da atividade e da pressa americanas, é realmente estranho que os americanos parecem gostar de se demorarem em grandes palavras.
É verdade que sou da velha guarda; muito do que amo foi destruído ou exilado.
Penso que o mais estranho sobre os povos avançados é que, ao mesmo tempo em que eles estão sempre conversando sobre as coisas como sendo problemas, eles, dificilmente, têm qualquer noção do que seja um problema real.
Super-civilização e barbárie estão a menos de uma polegada de distância. E uma marca de ambos é o poder do curandeiro.
Por especialistas em pobreza eu não quero dizer sociólogos, mas homens pobres.
Uma cidade moderna é feia não porque ela é uma cidade, mas porque ela não é suficientemente uma cidade, porque é uma selva, porque é confusa e anárquica, surgindo com a energia egoística e materialista.
Auto-negação é o teste e a definição do auto-governo.
Amor, casamento e os sexos
Amor significa amar o inamável, ou não é uma virtude, em absoluto.
As mulheres são as únicas realistas; todo seu objetivo na vida é opor seu realismo ao extravagante, excessivo e, ocasionalmente, embriagado idealismo dos homens.
O grande prazer do casamento é que ele é uma crise permanente.
O bom trabalho de um homem é conseqüência do que ele faz, o da mulher, do que ela é.
As mulheres têm uma sede de ordem e beleza como algo físico; há um estranho poder feminino de odiar a feiúra e o desperdício, enquanto que o homem bom somente odeia os pecados e as virtudes dos homens maus.
O casamento é um duelo mortal que nenhum homem honrado deve rejeitar.
Os primeiros dois fatos que um menino ou menina saudável sentem sobre o sexo são: primeiro que é bonito e depois que é perigoso.
Tenho poucas dúvidas de que quando São Jorge matou o dragão ele estava com um medo terrível da princesa.
Religião e Fé
Um dos principais usos da religião é que ela nos lembra nossa origem na escuridão, o simples fato de que fomos criados.
A Bíblia nos diz para amar nosso próximo e também para amar nosso inimigo; provavelmente porque eles são a mesma pessoa.
Se não houvesse Deus, não haveria nenhum ateu.
Há aqueles que odeiam o Cristianismo e chama esse ódio um completo amor pelas outras religiões.
O ideal Cristão não foi tentado e considerado imperfeito; ele foi considerado difícil e não foi tentado.
Os mistérios de Deus são mais satisfatórios que as soluções humanas.
Tem sido afirmado, muito acertadamente, que a religião é a coisa que faz o homem ordinário se sentir extraordinário; é uma verdade igualmente importante que a religião é a coisa que faz o homem extraordinário se sentir ordinário.
Teologia é somente o pensamento aplicado à religião.
A verdade é, claramente, que a rigidez dos Dez Mandamentos é uma evidência, não da obscuridade e estreiteza da religião, mas, ao contrário, da sua liberalidade e humanidade. É mais econômico afirmar as coisas proibidas do que as permitidas: precisamente porque muitas coisas são permitidas e apenas poucas proibidas.
Estes são tempos em que se espera do Cristão que ele admire todo credo, exceto o seu próprio.
O Puritanismo foi uma honrada disposição mental, uma nobre voga. Em outras palavras, foi um admirável erro.
Natal
Quando um homem considera o dia de Natal uma mera desculpa para se encharcar de comida e bebida, isso seria falso mas, haveria um fato verdadeiro escondido em algum lugar. Mas quando Bernard Shaw diz que o dia de Natal é somente uma conspiração estritamente comercial de avicultores e comerciantes de vinho, então ele diz algo chocante e magnificentemente estúpido. Ele poderia também ter dito que os dois sexos foram inventados por joalheiros interessados na venda de anéis.
Quem pensa que o Menino Jesus nasceu em dezembro entende por isso exatamente o que nós entendemos; que Cristo não é meramente um sol de verão para o próspero, mas um fogo invernal para o infeliz.
Quanto mais nos orgulhamos de que a história de Belém é simples o bastante para ser compreendida pelos pastores, e quase pelas ovelhas, tanto mais nos deixamos levar, através de obscurecidos e belos afrescos e procissões imaginárias, pelo mistério e majestade dos Três Reis Magos.
A grande maioria das pessoas continuará a observar formas que não podem explicar; elas continuarão, no dia de Natal, a trocar presentes de Natal e a aspirarem a benção de Natal; elas continuarão a fazê-lo; e algum dia, repentinamente, elas acordarão e descobrirão o por quê.
Moralidade e Verdade
Os homens não discordam muito nas coisas que eles consideram más; eles discordam, enormemente, sobre que males eles considerarão desculpáveis.
Não é que não temos patifes suficientes para amaldiçoar; é que não temos homens bons suficientes para amaldiçoá-los.
Há motivos para dizer a verdade; há motivos para evitar a calúnia; mas não há defesa possível para o homem que calunia e não diz a verdade.
A verdade integral é, geralmente, a aliada da virtude; a meia verdade é sempre aliada de algum vício.
A verdade é sagrada; e se você diz a verdade muito freqüentemente, ninguém acreditará.
A civilização tem corrido à frente da alma do homem, e está produzindo mais rápido do que ele pensa e possa agradecer.
Não é intolerância ter certeza de se estar certo; mas é intolerância ser incapaz de imaginar como pudemos ter errado.
Haveria muito menos desgraça se as pessoas não idealizassem o pecado e se posassem como pecadores.
Todos os homens têm sede de dizer a verdade mais do que bestas cansadas são sedentas por água; mas eles naturalmente se negam a confessá-los quando outras pessoas, que cometeram os mesmos crimes, se sentam por perto e se riem deles.
Idolatria é cometida, não somente pela instituição de falsos deuses, mas também, pela instituição de falsos demônios; fazendo os homens temerem a guerra e o álcool, ou a lei econômica, quando eles devem temer a corrupção espiritual e a covardia.
Eu digo que o homem deve estar certo de sua moralidade pela simples razão de que ele tem de sofrer por ela.
Para o homem humilde, e para o homem humilde somente, o sol é realmente o sol; para o homem humilde, e para o homem humilde somente, o mar é somente o mar.
Grandes verdades podem, somente, ser esquecidas, mas nunca podem ser falsificadas.
A voz de rebeldes e profetas especiais, recomendando descontentamento, deve, como eu disse, se fazer ouvir de quando em vez, repentinamente, como um anúncio. Mas as vozes dos santos e sábios, recomendando contentamento, devem soar incessantemente, como o mar.
Toda a ciência, mesmo a divina ciência, é uma sublime história de detetive. Mas ela não é para detectar porque o homem está morto; mas o obscuro segredo do porquê ele está vivo.
A maior parte da liberdade moderna tem sua raiz no medo. Não é que somos tão corajosos para nos submeter às leis; é que, ao contrário, somos muito tímidos para nos submeter às responsabilidades.
Se quisermos dar aos pobres entretenimento, devemos nos preparar para dá-los luxo. Se não os fizermos suficientemente ricos para serem limpos, então, devemos fazer o que fazíamos com os santos. Devemos reverenciá-los por estarem sujos.
O mundo será, muito proximamente, dividido, a menos que me engane, entre aqueles que continuarão explicando nosso sucesso, e aqueles, algo mais inteligentes, que estão tentando explicar nosso fracasso.
O que chamamos emancipação é, sempre e por necessidade, simplesmente, a livre escolha da alma entre um conjunto de limitações em detrimento de outro.
Há alguns desejos que não são desejáveis.
Na luta pela existência, a esperança começa a alvorecer somente para aqueles que permanecerem por dez minutos depois que tudo tenha se tornado desesperado.
A indulgência e tolerância modernas beneficiam os ricos; e não beneficiam mais ninguém.
O principal negócio terreno do ser humano é construir seu lar e seus arredores, tão simbólico e significativo para sua imaginação quanto ele seja capaz.
Teoria Econômica e Distributismo
O Grande Negócio e o Estado Socialista são muito parecidos, especialmente o Grande Negócio.
Nenhuma sociedade pode sobreviver da falácia socialista de que existe um número absolutamente ilimitado de autoridades inspiradas e uma quantidade absolutamente ilimitada de dinheiro para pagá-las.
Um cidadão dificilmente distingue entre um imposto e uma multa, exceto pelo fato de que a multa é, geralmente, muito menor.
Muito capitalismo não significa muitos capitalistas, mas muito poucos capitalistas.
O preço é uma coisa maluca e incalculável, enquanto o Valor é uma coisa intrínseca e indestrutível.
Os empresários, especialmente os grandes empresários, estão agora organizados como um exército. É, como alguns diriam, um militarismo suave sem derramamento de sangue; como eu digo, um militarismo sem as virtudes militares.
Todos, excetos os duros de coração, devem estar consternados com o patético dilema do homem rico, que tem de manter o homem pobre gordo o suficiente para conseguir trabalhar e magro o suficiente para ter de trabalhar.
Do ponto de vista de qualquer pessoa sã, o problema atual da concentração capitalista não é somente uma questão de lei, mas de lei criminal, para não falar de demência criminal.
Porque a garota deve ter cabelos longos, ela deve os ter limpos; porque ela os deve ter limpos, ela não deve ter uma casa suja; por que ela não deve ter uma casa suja, ela deve ter uma mãe livre e sem trabalho; por sua mãe não trabalhar, ela não deve ter um locador usurário; porque o locador não deve ser usurário, deve haver uma redistribuição de propriedade; porque deve haver uma redistribuição de propriedade, deve haver uma revolução.
Há apenas uma coisa em nosso meio, atenuada e ameaçada, mas detentora de um certo poder, como um fantasma da Idade Média: os Sindicatos.
[O capitalismo é] aquele sistema comercial em que a oferta imediatamente responde pela demanda e em que todo mundo parece estar completamente insatisfeito e incapaz de conseguir aquilo que deseja.
Nossa sociedade é tão anormal que o homem normal nunca sonha em ter a ocupação normal de cuidar se sua própria propriedade. Quando ele escolhe um negócio, ele escolhe um, entre milhares de negócios, que envolve cuidar da propriedade dos outros.
O argumento real contra a aristocracia é que ela sempre significa o governo do ignorante. Pois, a mais perigosa forma de ignorância é a ignorância do trabalho.
Fazer o locatário e o locador a mesma pessoa tem certas vantagens, tal como o locatário não pagar o aluguel e o locador não trabalhar muito.
Você não pode ter uma fazenda familiar sem ter família.
Eu daria à mulher não mais direitos, mas mais privilégios. Ao invés de mandá-la procurar aquela liberdade que, notoriamente, prevalece em bancos e fábricas, eu, especialmente, projetaria uma casa em que ela pudesse ser livre.
Arte e Literatura
Arte, como a moralidade, consiste em traçar uma linha em algum lugar.
A decadência da sociedade é louvada pelos artistas assim como a decadência de um defunto é louvada pelos vermes.
O temperamento artístico é uma doença que aflige os amadores.
Os selvagens e os artistas são igual e estranhamente levados a criarem algo mais feio que eles mesmos. Mas, os artistas acham a tarefa mais difícil.
A decoração do mundo não é trabalho da natureza, mas um trabalho de arte, assim, ele envolve um artista.
Por uma curiosa confusão, muitos críticos modernos passaram da proposição de que uma obra-prima pode ser impopular para a outra proposição de que, a menos que seja impopular, ela não é uma obra-prima.
E em todo o mundo, a velha literatura, a literatura popular, permanece a mesma. Ela consiste de muita tristeza digna e de muito divertimento indigno. Suas tristes lendas são de corações partidos; suas lendas alegres são de cabeças partidas.
As palavras de uma boa prosa significam o que elas dizem. As palavras de uma boa poesia significam o que elas não dizem.
Palavras Passadas e Dilemas Atuais
Pais ausentes
O que é chamado matriarcado é, simplesmente, anarquia moral, na qual as mães ficam sozinhas porque todos os pais são fugitivos ou irresponsáveis.
Volta à natureza
Propriamente falando, é claro, não existe tal coisa como uma volta à natureza, porque não uma tal coisa como uma saída dela. A frase lembra um cavalheiro, levemente embriagado, que se levanta na sua própria sala de jantar e declara, firmemente, que está indo para casa.
Preconceito
O preconceito é uma incapacidade de conceber, seriamente, uma alternativa a uma proposição.
Pena Capital
De minha parte, não haveria nenhuma execução, exceto pela plebe; ou, pelo menos, pelo povo agindo muito excepcionalmente. Eu proibiria a pena capital, exceto em casos de confisco. Assim, haveria alguma chance de uns poucos de nossos reais opressores serem enforcados.
Distribuição de Preservativos
Nossos mestres materialistas podem, e provavelmente irão, colocar o Controle de Natalidade em um programa prático imediato, enquanto todos nós estamos discutindo o terrível perigo de alguém colocá-lo numa distante Utopia.
O Sistema Educacional
O propósito da Educação Compulsória é o de negar às pessoas comuns seu senso comum.
Apesar das autoridades acadêmicas se orgulharem de conduzir tudo por meio da Avaliação, elas raramente cedem ao que as pessoas religiosas descrevem como Auto-Avaliação. A conseqüência disso é que o Estado moderno tem educado seus cidadãos numa série de modas transitórias.
Uma Sociedade Litigante
A posição que agora nos encontramos é esta: começando pelo Estado, tentamos remediar os fracassos de todas as famílias, de todas as creches, de todas as escolas, de todas as oficinas, de todas as instituições secundárias que tiveram, no passado, alguma autoridade própria. Tudo é, ao fim, levado aos Tribunais. Nós estamos tentando parar o vazamento que acontece do outro lado.
Psicanálise
Psicanálise é uma ciência conduzida por lunáticos para lunáticos. Eles estão, geralmente, preocupados em provar que as pessoas são irresponsáveis; e eles, certamente, tiveram sucesso em provar que algumas pessoas são.
Direitos Reprodutivos
Deixemos todos os bebes nascerem. Então, afoguemos aqueles de quem não gostarmos.
Separação Igreja-Estado
Liberdade religiosa deve significar que todos são livres para discutir sobre religião. Na prática ela significa que a quase ninguém é permitido mencionar o assunto.
Fonte: http://www.chesterton.org
Os sovinas acordam cedo; os ladrões, pelo que sei, acordam na noite anterior.
Defender quaisquer das virtudes cardeais tem, hoje em dia, toda a excitação de um vício.
Uma coisa morta pode seguir a correnteza, mas somente uma coisa viva pode contrariá-la.
As falácias não se tornam menos falácias porque se tornaram modas.
Imparcialidade é um nome pomposo para indiferença, que é um nome elegante para ignorância.
Uma inconveniência é apenas uma aventura erroneamente considerada; uma aventura é uma inconveniência corretamente considerada.
O que amargura o mundo não é excesso de crítica, mas a ausência de autocrítica.
Um homem são é aquele que tem a tragédia em seu coração e a comédia em sua cabeça.
Entre os ricos você nunca encontrará um homem verdadeiramente generoso, nem por acaso. Eles podem doar seu dinheiro, mas nunca se doam; eles são egoístas, enigmáticos, secos como ossos velhos. Para ser inteligente o suficiente para conseguir todo aquele dinheiro, você deve ser estúpido o suficiente para desejá-lo.
Força moderada é usada na violência, força suprema é usada na levitação.
A simplificação de qualquer coisa é sempre sensacional.
Protestos sempre voltam como um eco dos confins do mundo; mas o silêncio nos revigora.
Costumes são, geralmente, generosos. Hábitos, são quase sempre, egoístas.
Acredito que o que realmente acontece na história é o seguinte: o homem idoso está sempre errado; e os jovens estão sempre errados sobre o que está errado. A forma prática que isso toma é a seguinte: enquanto o homem idoso se apega a algum costume estúpido, o homem jovem sempre o ataca, com alguma teoria que se mostra igualmente estúpida.
O centro de toda a existência do homem é um sonho. Morte, doença, insanidade, são, meramente, acidentes materiais, como uma dor de dente ou uma torção no tornozelo. Que essas forças brutais sempre sitiam e, freqüentemente, capturam a cidadela, não prova que elas são a cidadela.
O otimista é uma pessoa em permanente rebelião que, geralmente, vive e morre num esforço desesperado e suicida para persuadir as pessoas do quando elas são boas.
Ter o direito de fazer uma coisa não é, em absoluto, estar certo em fazê-la.
Todos os exageros estão certos, se eles exageram as coisas certas.
A comédia do homem sobrevive à sua tragédia.
Ultimamente não temos tido boas óperas cômicas, pois, o mundo real tem sido mais cômico que qualquer ópera imaginável.
Quando homens instruídos começam a usar a razão, então, geralmente, descubro que eles não a têm.
O homem livre é dono de si próprio. Ele pode se prejudicar comendo ou bebendo; ele pode se arruinar com o jogo. Se ele assim se comporta, ele é um grande idiota, e pode ser uma alma condenada; se não for esse o caso, ele é tão livre quanto um cachorro.
O esteta nunca faz nada além do que lhe é mandado fazer.
O esteta aspira à harmonia, não à beleza. Se seu cabelo não combina com o purpúreo por do sol, contra o qual ele se posta, ele rapidamente tinge seu cabelo com uma sombra de púrpura. Se sua esposa não combina com o papel de parede, ele se divorcia.
O reformador está sempre certo sobre o que está errado. Ele, geralmente, está errado sobre o que está certo.
A razão é sempre uma espécie de força bruta; aqueles que apelam mais para a cabeça do que para o coração, mesmo que pálido e educado, são, necessariamente, homens violentos. Falamos de ‘tocar’ o coração do homem, mas não podemos fazer nada com a sua cabeça, exceto golpeá-la.
O homem é sempre algo pior e algo melhor que um animal; e meros argumentos sobre a perfeição animal nunca o tocam. Assim, no sexo nenhum animal é cortes ou obsceno. E assim, nenhum animal inventou algo tão ruim quanto a embriaguez – ou tão boa quanto a bebida.
Quando entramos numa família, pelo ato de nascermos, entramos realmente num mundo que é incalculável, num mundo que tem suas próprias e estranhas leis, num mundo que poderia passar sem nós, num mundo que não criamos. Em outras palavras, quando entramos numa família, entramos num conto de fadas.
Uma coisa pode ser muito triste para ser crível ou muito má para ser crível ou muito boa para ser crível; mas ela não pode ser tão absurda para ser crível, neste planeta de sapos e elefantes, de crocodilos e peixes-espada.
Conselhos gratuitos
Não se deleite consigo mesmo. Deleite-se com a dança, com peças teatrais, com passeios de automóveis, com champagne e com ostras; deleite-se com jazz, com cocktails e com boates, se você não se diverte com nada melhor; deleite-se com a bigamia, com o roubo ou com outro crime qualquer; mas nunca se deleite consigo próprio.
Não olhe para os rostos nos jornais e revistas ilustrados. Olhe para os rostos na rua.
Quando for fazer um agrado a um amigo ou a uma criança, dê-lhes o que eles gostam, nunca o que seja bom para eles.
Concordo com o realista irlandês que diz que prefere a profecia depois do acontecido.
O culto ao progresso
O progresso é um comparativo para o qual ainda não temos o superlativo.
O progresso deve significar que estamos sempre mudando o mundo para adequá-lo à nossa visão, ao invés de sempre mudarmos a nossa visão.
Minha atitude perante o progresso passou do antagonismo ao tédio. Parei, há muito tempo, de discutir com as pessoas que preferem quinta-feira à quarta-feira porque é quinta-feira.
Os homens inventam novos ideais porque não ousam tentar os velhos ideais. Eles olham à frente com entusiasmo, porque eles temem olhar para trás.
Tradição significa votar na mais obscura das classes, nossos ancestrais. É a democracia dos mortos. A tradição recusa a se submeter àquela arrogante oligarquia que, por acaso, se encontra por perto.
O mundo moderno é um punhado de carros de corrida, todos obrigados a uma parada, presos num engarrafamento de trânsito.
Confortos raros aos nossos ancestrais são, agora, multiplicados nas fábricas e vendidos indiscriminadamente; e realmente, ninguém atualmente, que não se importe em passar sem ar, espaço, quietude, decência e boas maneiras, precisa se privar de nada que se queira; ou, pelo menos, de uma imitação barata do que se queira.
Uma história de detetive, geralmente, descreve seis homens discutindo sobre como aquele homem morreu. Uma história filosófica moderna, geralmente, descreve seis homens mortos discutindo como algum homem pode estar vivo.
Nenhuma das máquinas modernas, nenhuma das parafernálias modernas ... têm algum poder sobre alguém, exceto sobre aqueles que optaram por usá-las.
Toda a maldição do último século foi o que se pode chamar de a Oscilação do Pêndulo; isto é, a idéia de que o Homem deve ir, alternativamente, de um extremo ao outro. Isso é vergonhoso e chocante; é a negação de toda a dignidade da espécie humana. Quando o Homem está vivo ele permanece parado. É somente quando morre que ele oscila.
Este é o tempo no qual minorias ínfimas e teóricas podem conquistar maiorias inconscientes e não-teóricas.
Guerra e Política
[O marxismo], numa geração, irá para o limbo da maioria das heresias, mas enquanto isso, ele envenenará a Revolução Russa.
A guerra não é o melhor caminho para resolver as diferenças; é o único caminho para evitar que as diferenças sejam resolvidas em seu nome.
Há um corolário da concepção ‘ser muito orgulhoso para lutar’. Os humildes têm de empreender a maior parte da luta.
A única guerra defensável é a guerra de defesa.
O verdadeiro soldado luta não porque ele odeia o que está a sua frente, mas porque ele ama o que está atrás.
Como as revoluções envelhecem, e pior, se tornam respeitáveis!
Governo e Política
Uma vez que se abole Deus, o governo se torna Deus.
A América é o único país jamais fundando sobre um credo.
A Declaração de Independência baseia, dogmaticamente, todos os direitos no fato de que Deus criou todos os homens iguais; e está certa; pois, se eles não fossem criados iguais, eles, certamente, teriam evoluído desigualmente. Não há fundamento para a democracia, exceto no dogma da origem divina do homem.
A democracia inconsciente na América é uma coisa muito boa. É uma suposição verdadeira, profunda e instintiva na igualdade dos cidadãos que, mesmo o voto e as eleições, não destruíram.
Quando você desobedece as grandes leis, você não alcança a liberdade; você não promove nem mesmo a anarquia. Você promove as pequenas leis.
Se você tentar, atualmente, uma discussão real com um jornal de posição política oposta à sua, você não terá nenhuma resposta, exceto jargão ou silêncio.
É um crítico superficial aquele que não enxerga um eterno rebelde no coração de um conservador.
Você nunca terá uma revolução para estabelecer uma democracia. Você deve ter uma democracia para ter uma revolução.
Quando um político está na oposição ele é um expert nos meios para determinados fins; quando é situação, ele é um expert nos obstáculos.
Formei uma clara concepção de patriotismo. Geralmente, o tenho encontrado alçado ao primeiro plano por algum sujeito que tem algo a esconder no segundo plano. Tenho visto uma grande quantidade de patriotismo; e o tenho descoberto como o último refúgio dos patifes.
Não pode haver uma nação de milionários, e nunca houve uma nação de camaradas utópicos; mas pode haver muitas nações de camponeses toleravelmente felizes.
Todo governo é uma horrível necessidade.
É difícil tornar um governo representativo quando ele é, ao mesmo tempo, remoto.
É um bom sinal para uma nação quando as coisas estão sendo feitas imperfeitamente. Isso mostra que todo o povo as está fazendo. E é um mau sinal quando as coisas estão sendo feitas muito bem, pois, isso mostra que somente uns poucos experts e excêntricos as estão fazendo e que a nação está sendo um mero espectador.
Todo o mundo moderno se dividiu em conservadores e progressistas. O negócio dos progressistas é continuar cometendo erros. O negócio dos conservadores é prevenir que os erros sejam corrigidos.
Sociedade e cultura
Nunca pude ver nada de errado no sensacionalismo; e estou certo de que nossa sociedade sofre mais pela confidencialidade do que por quaisquer revelações extravagantes.
De tudo o que ouvimos da atividade e da pressa americanas, é realmente estranho que os americanos parecem gostar de se demorarem em grandes palavras.
É verdade que sou da velha guarda; muito do que amo foi destruído ou exilado.
Penso que o mais estranho sobre os povos avançados é que, ao mesmo tempo em que eles estão sempre conversando sobre as coisas como sendo problemas, eles, dificilmente, têm qualquer noção do que seja um problema real.
Super-civilização e barbárie estão a menos de uma polegada de distância. E uma marca de ambos é o poder do curandeiro.
Por especialistas em pobreza eu não quero dizer sociólogos, mas homens pobres.
Uma cidade moderna é feia não porque ela é uma cidade, mas porque ela não é suficientemente uma cidade, porque é uma selva, porque é confusa e anárquica, surgindo com a energia egoística e materialista.
Auto-negação é o teste e a definição do auto-governo.
Amor, casamento e os sexos
Amor significa amar o inamável, ou não é uma virtude, em absoluto.
As mulheres são as únicas realistas; todo seu objetivo na vida é opor seu realismo ao extravagante, excessivo e, ocasionalmente, embriagado idealismo dos homens.
O grande prazer do casamento é que ele é uma crise permanente.
O bom trabalho de um homem é conseqüência do que ele faz, o da mulher, do que ela é.
As mulheres têm uma sede de ordem e beleza como algo físico; há um estranho poder feminino de odiar a feiúra e o desperdício, enquanto que o homem bom somente odeia os pecados e as virtudes dos homens maus.
O casamento é um duelo mortal que nenhum homem honrado deve rejeitar.
Os primeiros dois fatos que um menino ou menina saudável sentem sobre o sexo são: primeiro que é bonito e depois que é perigoso.
Tenho poucas dúvidas de que quando São Jorge matou o dragão ele estava com um medo terrível da princesa.
Religião e Fé
Um dos principais usos da religião é que ela nos lembra nossa origem na escuridão, o simples fato de que fomos criados.
A Bíblia nos diz para amar nosso próximo e também para amar nosso inimigo; provavelmente porque eles são a mesma pessoa.
Se não houvesse Deus, não haveria nenhum ateu.
Há aqueles que odeiam o Cristianismo e chama esse ódio um completo amor pelas outras religiões.
O ideal Cristão não foi tentado e considerado imperfeito; ele foi considerado difícil e não foi tentado.
Os mistérios de Deus são mais satisfatórios que as soluções humanas.
Tem sido afirmado, muito acertadamente, que a religião é a coisa que faz o homem ordinário se sentir extraordinário; é uma verdade igualmente importante que a religião é a coisa que faz o homem extraordinário se sentir ordinário.
Teologia é somente o pensamento aplicado à religião.
A verdade é, claramente, que a rigidez dos Dez Mandamentos é uma evidência, não da obscuridade e estreiteza da religião, mas, ao contrário, da sua liberalidade e humanidade. É mais econômico afirmar as coisas proibidas do que as permitidas: precisamente porque muitas coisas são permitidas e apenas poucas proibidas.
Estes são tempos em que se espera do Cristão que ele admire todo credo, exceto o seu próprio.
O Puritanismo foi uma honrada disposição mental, uma nobre voga. Em outras palavras, foi um admirável erro.
Natal
Quando um homem considera o dia de Natal uma mera desculpa para se encharcar de comida e bebida, isso seria falso mas, haveria um fato verdadeiro escondido em algum lugar. Mas quando Bernard Shaw diz que o dia de Natal é somente uma conspiração estritamente comercial de avicultores e comerciantes de vinho, então ele diz algo chocante e magnificentemente estúpido. Ele poderia também ter dito que os dois sexos foram inventados por joalheiros interessados na venda de anéis.
Quem pensa que o Menino Jesus nasceu em dezembro entende por isso exatamente o que nós entendemos; que Cristo não é meramente um sol de verão para o próspero, mas um fogo invernal para o infeliz.
Quanto mais nos orgulhamos de que a história de Belém é simples o bastante para ser compreendida pelos pastores, e quase pelas ovelhas, tanto mais nos deixamos levar, através de obscurecidos e belos afrescos e procissões imaginárias, pelo mistério e majestade dos Três Reis Magos.
A grande maioria das pessoas continuará a observar formas que não podem explicar; elas continuarão, no dia de Natal, a trocar presentes de Natal e a aspirarem a benção de Natal; elas continuarão a fazê-lo; e algum dia, repentinamente, elas acordarão e descobrirão o por quê.
Moralidade e Verdade
Os homens não discordam muito nas coisas que eles consideram más; eles discordam, enormemente, sobre que males eles considerarão desculpáveis.
Não é que não temos patifes suficientes para amaldiçoar; é que não temos homens bons suficientes para amaldiçoá-los.
Há motivos para dizer a verdade; há motivos para evitar a calúnia; mas não há defesa possível para o homem que calunia e não diz a verdade.
A verdade integral é, geralmente, a aliada da virtude; a meia verdade é sempre aliada de algum vício.
A verdade é sagrada; e se você diz a verdade muito freqüentemente, ninguém acreditará.
A civilização tem corrido à frente da alma do homem, e está produzindo mais rápido do que ele pensa e possa agradecer.
Não é intolerância ter certeza de se estar certo; mas é intolerância ser incapaz de imaginar como pudemos ter errado.
Haveria muito menos desgraça se as pessoas não idealizassem o pecado e se posassem como pecadores.
Todos os homens têm sede de dizer a verdade mais do que bestas cansadas são sedentas por água; mas eles naturalmente se negam a confessá-los quando outras pessoas, que cometeram os mesmos crimes, se sentam por perto e se riem deles.
Idolatria é cometida, não somente pela instituição de falsos deuses, mas também, pela instituição de falsos demônios; fazendo os homens temerem a guerra e o álcool, ou a lei econômica, quando eles devem temer a corrupção espiritual e a covardia.
Eu digo que o homem deve estar certo de sua moralidade pela simples razão de que ele tem de sofrer por ela.
Para o homem humilde, e para o homem humilde somente, o sol é realmente o sol; para o homem humilde, e para o homem humilde somente, o mar é somente o mar.
Grandes verdades podem, somente, ser esquecidas, mas nunca podem ser falsificadas.
A voz de rebeldes e profetas especiais, recomendando descontentamento, deve, como eu disse, se fazer ouvir de quando em vez, repentinamente, como um anúncio. Mas as vozes dos santos e sábios, recomendando contentamento, devem soar incessantemente, como o mar.
Toda a ciência, mesmo a divina ciência, é uma sublime história de detetive. Mas ela não é para detectar porque o homem está morto; mas o obscuro segredo do porquê ele está vivo.
A maior parte da liberdade moderna tem sua raiz no medo. Não é que somos tão corajosos para nos submeter às leis; é que, ao contrário, somos muito tímidos para nos submeter às responsabilidades.
Se quisermos dar aos pobres entretenimento, devemos nos preparar para dá-los luxo. Se não os fizermos suficientemente ricos para serem limpos, então, devemos fazer o que fazíamos com os santos. Devemos reverenciá-los por estarem sujos.
O mundo será, muito proximamente, dividido, a menos que me engane, entre aqueles que continuarão explicando nosso sucesso, e aqueles, algo mais inteligentes, que estão tentando explicar nosso fracasso.
O que chamamos emancipação é, sempre e por necessidade, simplesmente, a livre escolha da alma entre um conjunto de limitações em detrimento de outro.
Há alguns desejos que não são desejáveis.
Na luta pela existência, a esperança começa a alvorecer somente para aqueles que permanecerem por dez minutos depois que tudo tenha se tornado desesperado.
A indulgência e tolerância modernas beneficiam os ricos; e não beneficiam mais ninguém.
O principal negócio terreno do ser humano é construir seu lar e seus arredores, tão simbólico e significativo para sua imaginação quanto ele seja capaz.
Teoria Econômica e Distributismo
O Grande Negócio e o Estado Socialista são muito parecidos, especialmente o Grande Negócio.
Nenhuma sociedade pode sobreviver da falácia socialista de que existe um número absolutamente ilimitado de autoridades inspiradas e uma quantidade absolutamente ilimitada de dinheiro para pagá-las.
Um cidadão dificilmente distingue entre um imposto e uma multa, exceto pelo fato de que a multa é, geralmente, muito menor.
Muito capitalismo não significa muitos capitalistas, mas muito poucos capitalistas.
O preço é uma coisa maluca e incalculável, enquanto o Valor é uma coisa intrínseca e indestrutível.
Os empresários, especialmente os grandes empresários, estão agora organizados como um exército. É, como alguns diriam, um militarismo suave sem derramamento de sangue; como eu digo, um militarismo sem as virtudes militares.
Todos, excetos os duros de coração, devem estar consternados com o patético dilema do homem rico, que tem de manter o homem pobre gordo o suficiente para conseguir trabalhar e magro o suficiente para ter de trabalhar.
Do ponto de vista de qualquer pessoa sã, o problema atual da concentração capitalista não é somente uma questão de lei, mas de lei criminal, para não falar de demência criminal.
Porque a garota deve ter cabelos longos, ela deve os ter limpos; porque ela os deve ter limpos, ela não deve ter uma casa suja; por que ela não deve ter uma casa suja, ela deve ter uma mãe livre e sem trabalho; por sua mãe não trabalhar, ela não deve ter um locador usurário; porque o locador não deve ser usurário, deve haver uma redistribuição de propriedade; porque deve haver uma redistribuição de propriedade, deve haver uma revolução.
Há apenas uma coisa em nosso meio, atenuada e ameaçada, mas detentora de um certo poder, como um fantasma da Idade Média: os Sindicatos.
[O capitalismo é] aquele sistema comercial em que a oferta imediatamente responde pela demanda e em que todo mundo parece estar completamente insatisfeito e incapaz de conseguir aquilo que deseja.
Nossa sociedade é tão anormal que o homem normal nunca sonha em ter a ocupação normal de cuidar se sua própria propriedade. Quando ele escolhe um negócio, ele escolhe um, entre milhares de negócios, que envolve cuidar da propriedade dos outros.
O argumento real contra a aristocracia é que ela sempre significa o governo do ignorante. Pois, a mais perigosa forma de ignorância é a ignorância do trabalho.
Fazer o locatário e o locador a mesma pessoa tem certas vantagens, tal como o locatário não pagar o aluguel e o locador não trabalhar muito.
Você não pode ter uma fazenda familiar sem ter família.
Eu daria à mulher não mais direitos, mas mais privilégios. Ao invés de mandá-la procurar aquela liberdade que, notoriamente, prevalece em bancos e fábricas, eu, especialmente, projetaria uma casa em que ela pudesse ser livre.
Arte e Literatura
Arte, como a moralidade, consiste em traçar uma linha em algum lugar.
A decadência da sociedade é louvada pelos artistas assim como a decadência de um defunto é louvada pelos vermes.
O temperamento artístico é uma doença que aflige os amadores.
Os selvagens e os artistas são igual e estranhamente levados a criarem algo mais feio que eles mesmos. Mas, os artistas acham a tarefa mais difícil.
A decoração do mundo não é trabalho da natureza, mas um trabalho de arte, assim, ele envolve um artista.
Por uma curiosa confusão, muitos críticos modernos passaram da proposição de que uma obra-prima pode ser impopular para a outra proposição de que, a menos que seja impopular, ela não é uma obra-prima.
E em todo o mundo, a velha literatura, a literatura popular, permanece a mesma. Ela consiste de muita tristeza digna e de muito divertimento indigno. Suas tristes lendas são de corações partidos; suas lendas alegres são de cabeças partidas.
As palavras de uma boa prosa significam o que elas dizem. As palavras de uma boa poesia significam o que elas não dizem.
Palavras Passadas e Dilemas Atuais
Pais ausentes
O que é chamado matriarcado é, simplesmente, anarquia moral, na qual as mães ficam sozinhas porque todos os pais são fugitivos ou irresponsáveis.
Volta à natureza
Propriamente falando, é claro, não existe tal coisa como uma volta à natureza, porque não uma tal coisa como uma saída dela. A frase lembra um cavalheiro, levemente embriagado, que se levanta na sua própria sala de jantar e declara, firmemente, que está indo para casa.
Preconceito
O preconceito é uma incapacidade de conceber, seriamente, uma alternativa a uma proposição.
Pena Capital
De minha parte, não haveria nenhuma execução, exceto pela plebe; ou, pelo menos, pelo povo agindo muito excepcionalmente. Eu proibiria a pena capital, exceto em casos de confisco. Assim, haveria alguma chance de uns poucos de nossos reais opressores serem enforcados.
Distribuição de Preservativos
Nossos mestres materialistas podem, e provavelmente irão, colocar o Controle de Natalidade em um programa prático imediato, enquanto todos nós estamos discutindo o terrível perigo de alguém colocá-lo numa distante Utopia.
O Sistema Educacional
O propósito da Educação Compulsória é o de negar às pessoas comuns seu senso comum.
Apesar das autoridades acadêmicas se orgulharem de conduzir tudo por meio da Avaliação, elas raramente cedem ao que as pessoas religiosas descrevem como Auto-Avaliação. A conseqüência disso é que o Estado moderno tem educado seus cidadãos numa série de modas transitórias.
Uma Sociedade Litigante
A posição que agora nos encontramos é esta: começando pelo Estado, tentamos remediar os fracassos de todas as famílias, de todas as creches, de todas as escolas, de todas as oficinas, de todas as instituições secundárias que tiveram, no passado, alguma autoridade própria. Tudo é, ao fim, levado aos Tribunais. Nós estamos tentando parar o vazamento que acontece do outro lado.
Psicanálise
Psicanálise é uma ciência conduzida por lunáticos para lunáticos. Eles estão, geralmente, preocupados em provar que as pessoas são irresponsáveis; e eles, certamente, tiveram sucesso em provar que algumas pessoas são.
Direitos Reprodutivos
Deixemos todos os bebes nascerem. Então, afoguemos aqueles de quem não gostarmos.
Separação Igreja-Estado
Liberdade religiosa deve significar que todos são livres para discutir sobre religião. Na prática ela significa que a quase ninguém é permitido mencionar o assunto.
Fonte: http://www.chesterton.org
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