21/11/2008

Capítulo I. Observações Iniciais sobre a Ortodoxia: Final

Gilbert Keith Chesterton


A teoria da amoralidade na arte se estabeleceu firmemente na classe artística. Eles se sentiram livres para produzir qualquer coisa que desejassem. Estavam livres para escrever “O Paraíso Perdido” em que Satã conquistaria Deus. Podiam escrever a “Divina Comédia” em que o paraíso estaria sob o chão do inferno. E o que fizeram? Será que produziram em sua universalidade algo mais grandioso ou mais belo do que as coisas produzidas pelos gibelinos católicos, por um rígido professor puritano? Sabemos que produziram apenas uns poucos “roundels”.[1] Milton não os vencia somente em sua devoção, ele os vencia na própria irreverência deles. Em todos os seus pequenos livros de versos, você não encontrará um desafiante mais sofisticado de Deus que Satã. Tampouco encontrará a grandeza do paganismo visto pelos ardorosos cristãos que descreveram Faranata balançando a cabeça em puro desdém pelo inferno. E a razão é muito clara. A blasfêmia é um efeito artístico, pois depende de uma convicção filosófica. A blasfêmia depende da crença e está definhando com ela. Se alguém duvida disso, deixe-o sentar calmamente e tentar seriamente ter pensamentos blasfemos sobre Thor. Penso que a família desse sujeito o encontrará exausto ao final do dia.

Nem o mundo da política, nem o da literatura conseguiu ter sucesso com a rejeição das teorias gerais. Pode ser por causa dos ideais equivocados e lunáticos que de tempos em tempos atingem a humanidade. Mas, seguramente, não houve ideal posto em prática mais equivocado e lunático que o ideal da praticidade. Nada perdeu tantas oportunidades que o oportunismo de Lord Rosebery. Ele é, de fato, um símbolo permanente de sua época – o homem que é teoricamente um homem prático, e praticamente mais sem prática do que um teórico. Nada neste universo está tão longe da sabedoria que aquele tipo de adoração da sabedoria mundana. Um homem que está perpetuamente pensando se esta ou aquela raça é mais forte, ou se esta ou aquela causa é mais promissora, é um homem que nunca acreditará em algo por tempo suficiente para fazê-lo prosperar. O político oportunista é como um homem que para de jogar sinuca porque não consegue vencer e que para de jogar golfe porque não consegue vencer. Não há nada mais prejudicial aos propósitos práticos que essa enorme importância dada à vitória imediata. Não há maior fracasso que a vitória.

E tendo descoberto que o oportunismo realmente fracassa, fui induzido a considerá-lo mais detalhadamente e, em conseqüência, a ver que ele tem de fracassar. Percebi que é muito mais prático começar pelo começo e analisar as teorias. Vi que os homens que se matavam pela ortodoxia de Homoousion[2] eram muito mais sensíveis que as pessoas que estão discutindo a Lei da Educação. Pois a dogmática cristã estava tentando estabelecer um reino da santidade e tentando criar uma liberdade religiosa sem tentar definir o que é religião e o que é liberdade. Se os antigos padres impunham um juízo à humanidade, pelo menos se esforçavam previamente para torná-lo lúcido. Sobrou para a moderna turba de anglicanos e não-conformistas a perseguição doutrinária sem nem mesmo defini-la.

Por estas razões, e por muitas mais, eu, por exemplo, cheguei à crença na volta aos fundamentos. Tal é a idéia deste livro. Quero tratar com meus mais distintos contemporâneos, não pessoalmente ou de uma maneira meramente literária, mas em relação ao corpo doutrinário real que eles ensinam. Não estou preocupado com o Sr. Rudyard Kipling como um vívido artista ou uma vigorosa personalidade; estou preocupado com ele como um herege – isto é, um homem cujas idéias das coisas têm a audácia de diferir das minhas. Não estou preocupado com o Sr. Bernard Shaw como o homem vivo mais brilhante e um dos mais honestos; estou preocupado com ele como um herege – isto é, um homem cuja filosofia é muito sólida, muito coerente e muito forte. Volto-me para os métodos doutrinais do século XIII, inspirado pela esperança geral de conseguir alguma coisa.

Suponha que uma grande comoção surja, numa rua, sobre alguma coisa, digamos um poste de iluminação a gás, que muitas pessoas influentes desejam derrubar. Um monge de batina cinza, que é o espírito da Idade Média, começa a fazer algumas considerações sobre o assunto, dizendo à maneira árida da Escolástica: “Consideremos primeiro, meus irmãos, o valor da Luz. Se a Luz for em si mesma boa –”. Nessa altura, ele é, compreensivelmente, derrubado. Todo mundo corre para o poste e o põe abaixo em dez minutos, cumprimentando-se mutuamente em sua praticidade nada medieval. Mas, com o passar do tempo, as coisas não funcionam tão facilmente. Alguns derrubaram o poste porque queriam a luz elétrica; alguns outros, porque queriam o ferro do poste; alguns mais, porque queriam a escuridão, pois, seus objetivos eram maus. Alguns se interessavam pouco pelo poste, outros muito; alguns agiram porque queriam destruir os equipamentos municipais; alguns outros porque queriam destruir alguma coisa. E acontece uma guerra noturna, ninguém sabendo a quem atinge. Então, gradualmente, hoje, amanhã, ou depois de amanhã, forma-se a convicção de que o monge estava certo, afinal, e que tudo depende de qual é a filosofia da Luz. Mas o que podíamos discutir sob o lâmpada a gás, agora temos de discutir no escuro.

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[1] Emblemas nacionais em forma circular. (N. do T.)

[2] Palavra síntese do grande Concílio de Nicéia que significa “da mesma substância de”, é o “consubistantiálem” do Credo de Nicéia. Para lutar contra a insidiosa heresia ariana, “Os católicos afirmaram a integral divindade de Nosso Senhor pelo uso dessa palavra, que implicava que o Filho era da mesma substância Divina que o Pai; que Ele era o mesmo Ser; i.e., Deus”, como diz Belloc, em As Grandes Heresias. (N. do T.)


Ver também Hereges de G.K. Chesterton e Hereges - Capítulo I. Observações Iniciais sobre a Ortodoxia: Parte I, Hereges - Capítulo I. Observações Iniciais sobre a Ortodoxia: Parte II

15/11/2008

Convocação para o abaixo-assinado pela vida

Grupos pró-aborto estão promovendo um abaixo-assinado para que a ONU reconheça o aborto como um suposto direito universal, aproveitando a festa dos 60 anos da promulgação da Declaração Universal dos Diretos Humanos, no dia 10 de dezembro.

Nós, Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família da CNBB, entidades e movimentos em defesa da vida, estamos promovendo outro abaixo-assinado, ou seja, em favor da vida e contra o aborto. Precisamos de 50.000 assinaturas. Convocamos a todos para que divulguem esta nossa campanha a fim de neutralizar um flagrante desrespeito aos direitos humanos.

Faça sua assinatura, defenda a maternidade e a vida inocente votando a favor da dignidade do embrião, do feto e da criança no útero materno. Para isso, acesse:
http://www.c-fam.org/publications/id.101/default.asp

Repasse esta mensagem à sua família, seus amigos, enfim, a todas as pessoas . “Escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19).

Brasília, 24 de outubro de 2008.

Dom Dimas Lara Barbosa
Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro Secretário-Geral da CNBB

Dom Orlando Brandes
Arcebispo de Londrina e Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e Família

08/11/2008

Hereges de G.K. Chesterton

Nota: Apesar de desejar muito continuar a traduzir H. Belloc, começo hoje a tradução de Hereges de G.K. Chesterton. Considero que esta obra é mais importante, neste momento, de ser conhecida do público. Os leitores poderão julgar o acerto ou desacerto desta minha decisão no desenrolar da tradução. De qualquer forma, Chesterton e Belloc eram tão amigos e produziram obras tão afins que George Bernard Shaw os chamava de "monstro biforme Chesterbelloc". Rezem por este pobre tradutor para que ele dê conta do recado.



Fonte da obra
Os direitos autorais deste livro foram registrados em 1905 por John Lane Company. Este texto é o da décima nova edição (1919) publicada pela John Lane Company de Nova York e impressa pela Editora Plimpton de Norwood, Massachusetts. Ele se encontra em domínio público no Brasil.


O autor
Uma das melhores introduções à vida e à obra de Chesterton foi escrita por Ives Gandra da Silva Martins Filho como introdução à Ortodoxia, Editora LTr, São Paulo, 2001. Os leitores podem também consultar o texto de Dale Ahlquist, Quem é esse sujeito, e por que nunca ouvi falar dele?

Tiro do texto de Ives Gandra dois trechos relacionado com a obra Hereges.

Esta obra

“Junto ao ‘Clube dos Negócios Raros’, Chesterton publica em 1905 um livro que cairá como uma bomba nos meios intelectuais ingleses: trata-se de ‘Heretics’, obra em que ataca, com fino humor e numa lógica desconcertante, todos os ídolos literários da época, por considerar que, através deles, está se dando o envenenamento intelectual de toda uma geração. Assim, condena como hereges a George Moore, pelo seu subjetivismo ético, a Bernard Shaw, por seu socialismo desumanizador, a Rudyard Kipling, por seu imperialismo discriminatório, a H.G.Wells, por seu historicismo naturalista [a respeito do qual escreve sua outra obra-prima O Homem Eterno], e a Oscar Wilde , por seu esteticismo aético. Nem os amigos escapam de sua pena, que esgrime, sem ira, a defesa de algo que já começava a delinear em sua mente: uma concepção global do mundo, plasmada numa filosofia ou religião, que norteasse os aspectos díspares destacados pelos vários literatos que combate, por serem reducionistas da realidade, que é muito mais rica do que as teorias por eles propostas. Começa já a falar da ‘teologia geral cristã, que muitos odeiam e poucos estudam’ e que principia a lhe servir de norte para suas meditações.”

A obra Hereges dá, de certa forma, origem a uma das obras-primas de Chesterton: Ortodoxia. Ives Gandra nos lembra que: “Um tal de G.S. Street publica, nesse ano [1908], o livro ‘G.K. Chesterton – Estudo Crítico’, reconhecendo o talento de Chesterton, mas criticando acerbadamente suas obras, ao fundamento de que destruir e atacar todo mundo é fácil, como o fez em ‘Hereges’; difícil mesmo é construir uma visão sólida e coerente do mundo.”

Este tal de G.S. Street ficou famoso às custas de Chesterton, que já na introdução de Ortodoxia diz: “A única desculpa possível para este livro é o fato de ser ele a resposta a um desafio. Um atirador, por pior que seja, torna-se digno de respeito quando aceita um duelo. Quando, há algum tempo, publiquei, sob o título de Hereges, uma série de ensaios, escritos apressadamente porém com sinceridade, alguns críticos, cuja inteligência admiro (refiro-me especialmente ao senhor G.S. Street), declararam que eu incitava todos a tornarem públicas suas teorias sobre os problemas cósmicos, mas evitava, cautelosamente, apoiar meus preceitos com o exemplo. ‘Começarei a me inquietar com minha filosofia’ – disse, nessa ocasião, o senhor Street – ‘quando o senhor Chesterton nos tiver apresentado a sua’. Era, talvez, uma imprudente sugestão feita a quem está sempre preparado para escrever um livro à mais leve provocação.”

O livro Ortodoxia teve um destino, no Brasil, mais feliz que Hereges, tendo merecido por aqui algumas traduções, a última das quais em 2008, pela Editora Mundo Cristão, em comemoração ao centenário da obra.

Hereges, pelo que sei, ainda não foi traduzido para o português, tarefa a que, temerariamente, me lanço agora neste blog. Tarefa temerária pela dificuldade de se traduzir Chesterton e pela modesta capacidade do tradutor. Mas como ninguém mais bem preparado apareceu, sobrou para mim o preenchimento desta lacuna indesculpável da ausência deste livro em nossa língua pátria.


Sumário da obra

1. Observações Iniciais sobre a Importância da Ortodoxia
2. Sobre o Espírito Negativista.
3. Sobre o sr. Rudyard Kipling e Fazendo o Mundo Pequeno
4. O sr. Bernard Shaw
5. O sr. H. G. Wells e os Gigantes
6. O Natal e os Estetas
7. Omar e o Vinho Sagrado
8. A Delicadeza da Imprensa Amarela
9. O Temperamento do sr. George Moore
10. Sobre Sandálias e Simplicidade
11. A Ciência e os Selvagens
12. O Paganismo e o sr. Lowes Dickinson
13. Os celtas e os Celtófilos
14. Sobre Certos Escritores Modernos e a Instituição da Família
15. Sobre Novelistas Inteligentes
16. Sobre o sr. McCabe e a Divina Frivolidade
17. Sobre o Wit of Whistler
18. A Falácia da Jovem Nação
19. Novelistas de Cortiço e os Cortiços
20. Observações Finais sobre a Importância da Ortodoxia

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Ver Hereges, de Chesterton, será publicado em português, pela primeira vez.

31/10/2008

Sobre o que dizem os dicionários

Dia desses um colega me passou o link do dicionário Aulete Digital, supostamente o sucessor do Caldas Aulete, um dicionário legendário no Brasil, editado até a década de 1980, como nos informa o link do Aulete Digital.

A versão digital do famoso dicionário é uma “construção coletiva”. Quem quiser pode colaborar. Os parceiros principais são o Estado de São Paulo e a Rede Globo de Televisão, que “têm na língua seu instrumento de comunicação, e que representam um universo de seu uso real em praticamente todos os setores da vida contemporânea, no Brasil e no mundo”, segundo dizem.
Quando vejo coisa assim sempre desconfio. Essa tal de construção coletiva é normalmente um palavrório bonitinho para nos enganar. É como a história do software livre, cujos idealizadores gostam mesmo é de mamar em verbas governamentais.

Mas será que tem dinheiro nosso no tal dicionário coletivo? Vejam lá os patrocinadores: Ministério da Cultura (Lei de Incentivo à Cultura), CEMIG e Petrobrás, dentre outros. Nosso rico dinheirinho está indo embora.

Por trás da coisa toda está a Lexikon Editora Digital que faz apologia da Lei Rouanet e, acreditem, oferece por meio de um link, um vídeo de Gilberto Gil. Que doçura, não é?!
Fui dar uma olhada nos verbetes. Escolhi para começar “comunismo” e já bastou para ver que construção coletiva é essa que suga nosso dinheiro. Vejam o que encontramos no dicionário:

(co.mu.nis.mo)
sm.
1. Econ. Pol. - Sistema e ideologia política, social e econômica que se baseiam na propriedade coletiva e propõem-se a distribuir os bens segundo as necessidades individuais e a abolir as classes sociais
2. Pol. - O conjunto dos comunistas e sua atividade política
3 Qualquer grupo coletivo em que os bens são divididos segundo a necessidade de cada um.

[F.: comun (i)- + -ismo]
Comunismo primitivo
1. Hist. Econ. Pol. - Sistema de organização social da Idade da Pedra, no qual a propriedade dos meios de produção (relativos à caça, á coleta e a uma agricultura primitiva) eram coletivos, e os produtos divididos entre todos os membros da coletividade.

Viram que coisa mais delicada. Comunismo para o Aulete Digital é um sistema político que propõe distribuir os bens segundo as necessidades de cada um. Se não conhecemos a respeito dos cem milhões de mortos do comunismo, ainda assim, para preservar um pouco de lógica, deveríamos perguntar à tal construção coletiva, como é que o “sistema político” ficaria sabendo sobre minhas necessidades ou as suas leitor amigo. Poderíamos perguntar também se onde foi implantado tão nobre sistema as coisas funcionaram bem.

Mas o melhor vem depois, quando o dicionário define um “comunismo primitivo”. Veja bem, se você pensava que o comunismo foi uma criação de alguns desequilibrados, na melhor das hipóteses, lá pelo século XIX, você está redondamente enganado. Na Idade da Pedra, todos éramos comunistas.

Isso é tão estapafúrdio que chega a ser cômico. A tal construção coletiva não percebeu que há uma relação entre o comunismo e a Idade da Pedra, mas não é essa que está no dicionário. A relação verdadeira é que toda comunidade que adota esse sistema político volta para a Idade da Pedra. Esta sim é a relação correta entre os dois termos.

Aqui me ocorre uma passagem do livro de Luis Pazos, Lógica Econômica, em que ele diz:

“Alguns pensadores, entre eles Marx e Engels, criaram a dúvida, em muitos legisladores, políticos e estudiosos das ciências sociais, sobre a legitimidade da propriedade. Partiram da premissa de que o oferecido pela natureza é de todos e a apropriação de terras e de bens é um ato arbitrário. A partir dessa idéia se concluiu que se a propriedade era, originalmente, ilegítima, os governantes tinham o direito de apoderar-se dela e redistribuí-la com um critério mais justo.

“A origem da propriedade é muito anterior à época em que o homem se torna sedentário e começa a cercar pedaços de terra. A propriedade é uma atitude racional a respeito dos bens que nos rodeiam. Normalmente, o ser humano descobre ou acrescenta uma utilidade aos bens naturais, mediante sua transformação ou transporte.

“O ser humano, na maior parte da história - talvez, excetuando-se a época da coleta de frutos -, tem utilizado a razão para reunir as coisas que o satisfaça. Na medida em que o ser humano progride, é menor a proporção do consumo de bens oferecidos espontaneamente pela natureza e prontos para serem consumidos.

“O erro dos marxistas, como assinala Eudocio Ravines, que foi marxista durante grande parte de sua vida, estava em situar a origem da propriedade numa época histórica caracterizada pelos 'cercamentos' ou pela repartição de terras.

“A primeira manifestação social da propriedade não está em cercar um terreno, como pensavam Engels e Marx, mas na fabricação de ferramentas, desde o alvorecer da humanidade, como demonstram os restos do chamado Homo habilis, que datam de um milhão e oitocentos mil anos atrás.”

Veja que é a origem da propriedade que está na pré-história do homem e não a do comunismo.
Depois disso, fechei o programa e desisti de usar essa “maravilhosa” construção coletiva para qual, pelo jeito, vou continuar colaborando com meu imposto de renda. Talvez seja esta a “necessidade” que o sistema descobriu que tenho.

26/10/2008

Aos leitores do blog

A Editora Permanência vai publicar a tradução de "As Grandes Heresias", de Hilaire Belloc, que tenho publicado aqui ao longo de muito tempo. A primeira estimativa é que a publicação já esteja disponível no primeiro semestre de 2009. O livro contará com um prefácio de Dom Lourenço Fleishman.

Uma conseqüência disso é que as traduções que já estão publicadas serão retiradas deste blog dentro de uma semana. A outra conseqüência é que não serão publicadas novas traduções.

Sei que isso é uma pena para o leitor do blog, mas é muito bom que uma editora verdadeiramente católica se interesse em publicar livro tão importante.

Para compensar os leitores, assim que puder, vou começar nova série de traduções de Belloc. Estou planejando traduzir "The Servile State", um livro de teoria econômica na perspectiva católica.

19/10/2008

No mês do Rosário, o papa do Rosário

No mês do Rosário, com indesculpável atraso, publico o link das Encíclicas marianas de Leão XIII, o papa do Rosário. Estão todas em português.

Adiutricem Populi
Augustissimae Virginis Mariae
Diuturni Temporis
Fidentem Piumque Animum
Iucunda Semper Expectatione
Laetitiae Sanctae
Magnae Dei Matris
Octobri Mense
Superiore Anno
Supremi Apostolatus



Que a Virgem Maria nos abençoe neste vale de lágrimas e nos recomende ao seu Augusto Filho!

05/10/2008

Juros: Böhm-Bawerk, Ludwig von Mises e Santa Catarina de Sena

A Igreja Católica, como todos sabem, sempre condenou a usura (cobrança de altos juros, agiotagem). Atualmente, a Igreja não proíbe o empréstimo a juros, se estes forem estipulados em valores razoáveis. No entanto, a cobrança de juros razoáveis, apesar de não atentar contra a justiça, pode atentar contra o que a caridade aconselha. E como todos sabem, a caridade é uma virtude teologal, enquanto a justiça é uma virtude cardeal.

Mas, não só a Igreja, mas “os velhos pagãos gregos, os judeus do Antigo Testamento e os grandes mestres cristãos da Idade Média. (...) Todas essas pessoas nos recomendavam unanimemente que não emprestássemos dinheiro a juros; no entanto, emprestar dinheiro a juros – aquilo a que damos o nome de ‘investimento’ – é a própria base de todo o nosso sistema econômico. (...) Três grandes civilizações [grega, romana e medieval] estiveram de acordo – ou pelo menos assim parece, à primeira vista -- em condenar precisamente aquilo em que baseamos toda a nossa vida econômica.” (C.S.Lewis, Mero Cristianismo)


A resposta a essa observação de Lewis é mais ou menos a seguinte: “Numa economia estática como a ordem feudal, ou mais ainda na sociedade escravista do tempo de Aristóteles, o dinheiro, de fato, não funciona como força produtiva, mas apenas como um atestado de direito a uma certa quantidade genérica de bens que, se vão para o bolso de um, saem do bolso de outro. Aí a concentração de dinheiro nas mãos do usurário só serve mesmo para lhe dar meios cada vez mais eficazes de sacanear o próximo. Mas pelo menos do século XVIII em diante, e sobretudo no XIX, o mundo europeu já vivia numa economia em desenvolvimento acelerado, onde a função do dinheiro tinha mudado.” (Capitalismo e Cristianismo, Olavo de Carvalho)

Parece-me que é exatamente pelo que Olavo de Carvalho observa que a Igreja evolui de uma posição de condenação dos juros para a condenação da usura.

Um detalhe interessante da história econômica se relaciona com a evolução do entendimento do homem do que sejam os juros. Tem-se como certo de que foi von Mises, aluno de Böhm-Bawerk, que nos explicou o que era de fato os juros, a que esse preço da economia se relacionava: quem cobra juros vende tempo: “o direito à remuneração provém de que o banqueiro não troca simplesmente uma riqueza por outra, mas troca riqueza em ato por riqueza em potência”. (Capitalismo e Cristianismo, Olavo de Carvalho) Ou seja, supostamente ninguém antes de von Mises tinha “sacado” o verdadeiro significado dos juros, o que dá ao economista austríaco um confortável lugar no panteão dos pioneiros.

Bem eu descobri (não, não devo ter sido pioneiro nisso!) recentemente que, se não estou completamente enganado, a idéia do fator tempo no significado dos juros já era velha de pelo menos 6 séculos quando von Mises a “redescobriu”. Santa Catarina de Sena, em O Diálogo (14.2), descreve Deus lhe dizendo o seguinte: “Outros pecados ficam nos bens materiais, como nos avarentos e gananciosos. Estes fazem como as toupeiras, que se alimentam de terra até à morte. Só que estes pecadores, ao chegar o dia da morte, já não têm mais cura. Gananciosos, eles negociam o tempo, são usurários, cruéis, ladrões. Sua memória se esquece dos meus benefícios. Em caso contrário, deixariam de ser cruéis consigo mesmos e com os outros. De si mesmos teriam pena, praticando as virtudes; dos outros, pelo serviço da caridade. (...) Ele [o pecador] mata a alma, torna-a escrava dos bens materiais, negligente em observar os meus mandamentos. O ganancioso-avarento não ama ninguém, a não ser por interesse próprio.” [Negritos meus]

Aí está, em pleno século XIV, a santa, e doutora da Igreja, dizendo que os gananciosos (usurários) “negociam o tempo”, adiantando assim, é o que me parece, o grande achado do economista austríaco.

Mas Deus adianta ainda mais. O que O preocupa não é a eficiência econômica, da qual a cobrança de juros (altos ou baixos) é uma parte importante, “base de nossa vida econômica”, como nos lembra Lewis. Deus quer salvar as almas que ele criou. Ele parece pensar que a ganância (mesmo que promovendo a eficiência econômica) depõe contra a salvação das almas: “o pecador [usurário] mata a alma”. Já dizia São Paulo, muito antes de Santa Catarina, que muitas coisas nos são possíveis, mas apenas algumas recomendáveis. Parece ser este o caso.

Talvez seja interessante ler o que a Enciclopédia Católica nos diz dos juros e da usura.

27/09/2008

O diabo da Veja e o nosso

A revista Veja, em sua edição 2078, de 17 de setembro de 2008, publica uma resenha de dois livros que tratam do tema do diabo, Anjos Caídos e Satã. O resenhista é Jerônimo Teixeira.

Não li nenhum dos dois livros e nem irei lê-los, pois tenho mais o que fazer. Mas chamam a atenção na resenha algumas afirmações. Se elas são do sr. Jerônimo ou dos autores dos livros, não fica claro no texto.

Uma observação inicial é a de que há uma superficialidade insuportável na resenha. Tal como em outra resenha que comentei aqui (O mal, os católicos e a Veja), parece que atualmente os resenhistas têm muito pouco interesse em se aprofundar no tema do livro que eles comentam. As obras que o sr. Jerônimo cita, além da que ele comenta, para dar um sabor de erudição ao seu texto são “Legenda Áurea” e “Fausto”. A referência à “Legenda Áurea” mostra que tipo de conhecimento tem o resenhista, pois qualquer católico minimamente informado sabe que a obra é totalmente condenável por ser inverídica[1]. Ele ainda cita uma referência de Charles Baudelaire ao diabo. No mais, o sr. Jerônimo tenta fazer o diabo parecer um ser absolutamente ridículo.

Aqui lembro-me de Bernanos em seu “Diário de um Pároco de Aldeia”, quando o pároco diz: “Pois Satã é um amo muito rígido: ele não ordenaria, como o Outro, com sua simplicidade divina: ‘Imitem-me!’ Ele não suporta que suas vítimas se assemelhem a ele, permite-lhes apenas uma caricatura grosseira, impotente, com a qual deve se deliciar, sem jamais se saciar, a feroz ironia do abismo.” Lembro também da advertência inicial que C.S. Lewis faz em seu “Cartas de um Diabo a seu Aprendiz”: “Há dois erros semelhantes mas opostos que os seres humanos podem cometer quanto aos demônios. Um é não acreditar em sua existência. O outro é acreditar que eles existem e sentir um interesse excessivo e pouco saudável por eles. Os próprios demônios ficam igualmente satisfeitos com ambos os erros, e saúdam o materialista e o mago com a mesma alegria.” Faria muito bem ao sr. Jerônimo ler tanto o livro de Bernanos quanto o de Lewis.

Comentemos pois a resenha, no que ela tem de mais significativo. A primeira frase que chama a atenção é: “No cômputo final, Satanás é quase como um figurante na Bíblia. Sua aparição”. A outra, semelhante a essa é: “A narrativa cristã da perdição e da redenção do homem quase poderia prescindir do Coisa-Ruim.” Notem, primeiramente, que satanás e coisa-ruim são escritos com letra maiúscula e redenção com minúscula. Daí se vê que o sr. Jerônimo não entende bem as coisas que comenta. Não entende que a Redenção só foi necessária por causa da Queda, que teve participação direta da serpente, que outra coisa não é que satanás.

Com relação à posição bíblica de figurante de satanás, vamos clarear um pouco as coisas. Primeiramente, nós católicos, somos os primeiros a admitir que as referências bíblicas a satanás não são numerosas. Mas elas são muito significativas. Vejamos algumas:

“Como caíste do céu,
ó astro brilhante, que, ao nascer
do dia, brilhavas?
Como caíste por terra, tu que ferias as nações?
Que dizias no teu coração: Subirei
ao céu,
estabelecerei o meu trono acima dos astros de Deus,
sentar-me-ei sobre o monte da aliança,
(situado) aos lados do aquilão.
Sobrepujarei a altura das nuvens,
Serei semelhante ao Altíssimo.
E contudo foste precipitado no inferno,
Até ao mais profundo dos abismos.” (Is 14:12-15)

“Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que foi preparado para o demônio e para os seus anjos”. (Mt 25:41)

“Eu via satanás cair do céu como um raio.”(Lc 10:18)

“Houve no céu uma grande batalha: Miguel e os seus anjos pelejavam contra o dragão, e o dragão com os seus anjos pelejava contra ele; porém estes não prevaleceram, nem o seu lugar se encontrou mais no céu. Foi precipitado aquele grande dragão, aquela antiga serpente, que se chama demônio e satanás, que seduz todo o mundo, foi precipitado na terra, e foram precipitados como ele os seus anjos.” (Ap 12:7-9)

Somam-se a essas, as narrativas dos três Evangelhos sinóticos sobre as tentações de Nosso Senhor Jesus Cristo pelo demônio. Sobre elas há um comentário belíssimo de Bento XVI em seu livro “Jesus de Nazaré”.

Essas (e outras) poucas referências bíblicas são a palavra da Sagradas Escrituras. Para nós, católicos, além das Sagradas Escrituras, há também a Tradição da Igreja. E aí há muitíssimas referências ao diabo, da Patrística latina e grega, de vários grandes teólogos, dos Concílios e dos Papas.

Há assim uma riqueza imensa de comentários sobre a natureza do pecado dos anjos rebeldes e de sua rebelião contra Deus.

O Concílio que definiu o dogma referente ao demônio foi o IV Concílio Laterano de 1215: “Diabolus enim et alii dæmones a Deo quidem naturâ creati sunt boni, sed ipsi per se facti sunt mali.” [O diabo e os outros demônios foram criados por Deus naturalmente bons, mas por si mesmos se tornaram maus.]

Que o diabo tenha a natureza angélica, que ele tenha sido criado bom e se rebelado por orgulho encerra um grande ensinamento para nós católicos: o grande pecado contra Deus é o orgulho ou soberba. É ele que pode nos levar aos infernos e é em direção a ele que o demônio nos empurra. Por isso, a primeira das bem-aventuranças é: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus”. Os ricos de espírito são os orgulhosos e: “Ai de vós ricos, porque recebestes já a consolação.”

Depois de tudo isso, o sr. Jerônimo termina sua resenha, dando razão a Baudelaire “que observou que o maior truque do Diabo é nos convencer de que ele não existe.” O resenhista conclui: “Faz sentido: é só dar-lhe um pouco de atenção, para o Diabo se tornar uma figurinha ridícula.” Quem escreve diabo com letra maiúscula, protocolando-o o maior respeito, e depois o chama de figurinha ridícula ou perdeu o juízo ou quer brincar com fogo.

Nós católicos queremos a maior distância do diabo, pois sabemos que ele é mau e muito mais poderoso que nós humanos. Por isso rezamos pedindo a proteção dos santos, da Virgem Maria, nossa grande protetora contra o demônio e do Altíssimo Jesus Cristo que, quando entre nós, expulsou muitos demônios que atentavam os seres humanos e em nome de quem é feito o exorcismo católico.

Quem se interessar pelo assunto “demônio” pode consultar a Enciclopédia Católica sobre Demônio e Demonologia.

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[1] Ver, por exemplo, o verbete Beato Jacopo de Veragine, da Enciclopédia Católica.

07/09/2008

Teresa de Frei Beto, não Santa Teresa de Ávila

Frei Beto, em artigo de jornal semana passada (tive o desprazer de ler o artigo no Estado de Minas de 04/09/2008), cria um personagem chamado Teresa que ele tenta fazer parecer com a grande santa e doutora da Igreja.

A personagem é uma revolucionária anti-paulina. Afrontou e venceu a maldosa inquisição e finalmente deixou um legado de libertação. Isso tudo ele descobriu em Bananeiras (PB), num convento das Carmelitas Descalças, que teve a desventura de receber esse herege para pregar um retiro.

Ele comenta que “Entre 1558 e 1560 seis teólogos a mantiveram sob observação, prontos a desmascarar o demônio que estaria por trás da espiritualidade dela ...” Isso é verdade e demonstra todo o cuidado que a Igreja tinha em se certificar da procedência dos fenômenos espirituais. Isso se chama exercitar o “discernimento dos espíritos”, conceito, por ironia, paulino e que é uma das coisas preciosas que a Igreja mantém. Aliás, para os leitores desse blog, vai aí uma sugestão de leitura muito interessante sobre assunto: Mystical Phenomena Compared with Their Human and Diabolical Counterfeits. Desnecessário dizer que esse frei nunca leu tal livro. Se ele o tivesse lido, veria que era obrigação da Igreja ter o cuidado que teve com Teresa.

Mas notemos as reticências ao final da frase de frei Beto. Não posso deixar de escutar o riso de sarcasmo desse frei: “esses teólogos medievais que ainda acreditavam no demônio! Que coisa mais ultrapassada!” Claro, os modernistas hereges não acreditam no demônio ou, no máximo, acham que isso é apenas uma metáfora.

O frei cita também várias passagens do livro “Vida” da santa Teresa de Ávila, onde ela comenta sobre as suspeitas da Igreja a respeito de seus relatos espirituais. Esse livro foi escrito por imposição da Igreja e se destinava somente aos teólogos que estavam analisando o “caso” de Teresa. Daí se vê, de antemão, como era revolucionária essa santa: a Igreja mandava e ela ... obedecia!!!!

Mas será que a grande santa e doutora da Igreja obedecia cegamente, como aqueles medievais retrógrados? Vejamos o que diz santa Teresa sobre suas experiências místicas:
“Pois em começando a fugir das ocasiões e a dar-me mais à oração, começou o Senhor a fazer-me as mercês como quem desejava – segundo parecia – que eu as quisesse receber. Começou Sua Majestade a dar-me, muito de ordinário, oração de quietude e muitas vezes a de união que durava muito tempo. Como nesses tempos tinha acontecido haver grandes ilusões em mulheres e enganos a que as tinha levado o demônio, comecei a temer, pois era tão grande o deleite e a suavidade que sentia, e muitas vezes sem o poder evitar, ainda que por outra parte, visse em mim uma grande segurança de que aquilo era Deus, em especial quando estava em oração, e que saía dela muito melhorada e com mais fortaleza. Mas, em me distraindo um pouco, tornava a temer e a pensar se o demônio quereria – fazendo entender que aquilo era bom – suspender-me o entendimento para me tirar a oração mental e não pudesse pensar na Paixão nem me aproveitar do entendimento. Isto me parecia a mim maior perda, pois não o compreendia.” (Vida, XXIII, 2)

A grande santa acreditava no demônio, ao contrário dos modernistas. A grande santa tinha também dúvidas. Mas, quem não as teria? Maria, quando ouviu as palavras do anjo na Anunciação “perturbou-se e discorria pensativa que saudação seria esta.” (Lc. 1, 29.) Se mesmo a Virgem Santíssima, ao ver o anjo, perturbou-se, quem ao ter as experiências que teve Teresa não duvidaria? Mas o que fez Teresa, então? Vamos deixar que ela nos conte: “Mas como sua Majestade já me queria dar luz para que não O ofendesse e conhecesse o muito que Lhe devia, cresceu este medo de tal sorte que me fez buscar com diligência pessoas espirituais com quem tratar.” (Vida, XXIII, 3) Vê-se então que Teresa procurou ajuda, porque o Senhor fez o medo dela crescer! E ela procurou ajuda na Companhia de Jesus, como ela narra no livro.

Contada assim, a história fica sendo bem outra. A Igreja se preocupou com a experiência mística de Teresa tanto quanto ela própria se preocupou. Teresa morreu em 1582 e foi canonizada em 1614. Um tempo relativamente curto para a época. Isso mostra o reconhecimento da Igreja, depois de muito analisar, sobre a origem divina da experiência de Teresa. A propósito, o frei diz, no artigo, que Teresa “transvivenciou” em 1582. A morte para o frei é “transvivenciar”. O meu Word está reclamando dessa palavra e meu Aurélio não registra tal verbete. Isso é coisa de revolucionário que tem medo da morte! E deve tê-lo mesmo! Vocês já imaginaram a expressão: Jesus transvivenciou na cruz!

A Teresa de Ávila foi, ao longo de sua vida, completamente submissa à Igreja, obediente em tudo à Esposa de Cristo. A Teresa do frei era revolucionária. E mais, anti-paulina. São Paulo, em (1Cor. 14, 34-35), diz (cito como aparece no artigo): “As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei. E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa seus próprios maridos; porque é vergonhoso que as mulheres falem na igreja”. Daí o frei diz “que Paulo VI [o grande papa dos modernistas] ousou discordar do apóstolo e proclamar Teresa ‘doutora da Igreja’. Militante da fé, reformadora e fundadora, ela não se calou na Igreja e lutou em prol da liberdade religiosa das contemplativas e se assumiu com mestra espiritual.”

Quem lê isso pode pensar que Teresa de Ávila celebrava missa, ou fazia leituras lá do altar, como fazem os atuais “ministros da eucaristia”. Nada disso aconteceu! Ela foi muitíssimo paulina. Citava o apóstolo constantemente em seus escritos. Quanto a ser uma lutadora pela liberdade religiosa, isso ela foi: liberdade de ser católica, de ser enclausurada, de ser monja carmelita! Lutar pela liberdade religiosa naquela época, na acepção modernista do frei, teria sido ser ecumênica, ou seja, dizer, como dizem os modernistas, que há salvação fora da Igreja católica. Se Teresa tivesse dito isso ela não teria sido santa, mas sim herege.

O frei deixa o melhor para o final do artigo, quando diz: “A grande revolução operada por Teresa na espiritualidade foi justamente inverter os pólos: não são os nossos méritos que nos tornam mais próximos de Deus, e sim nossa capacidade de nos fazer mais próximos de nossos semelhantes e nos abrir ao amor gratuito de Deus.”

O frei não se satisfaz com a revolução marxista que ele ajudou a fazer em Cuba e com a que ele está ajudando a fazer aqui no Brasil. Ele quer mais; ele quer uma revolução na espiritualidade também! Quanto aos pólos que foram supostamente invertidos, que católico antes de Teresa afirmava que nossos méritos é que nos tornam mais próximos de Deus? Que católico antes e depois de Teresa, católico digno do nome, não acredita que a Graça de Deus sopra onde quer? Meu Deus! De que catolicismo esse frei está nos falando? Para citar só um exemplo anterior a Teresa, e só para ficar com outra doutora da Igreja, santa com a Graça dos estigmas, que também tinha experiências místicas fenomenais, vou citar Santa Catarina de Sena. Ela diz ter ouvido de Deus o seguinte (O Diálogo, 2.5): “Vou explicar-lhe agora que toda virtude se realiza no próximo, bem com todo o pecado. (...) Todo e qualquer auxílio prestado ao próximo deve provir do amor que se tem por aquela pessoa, mas como conseqüência do amor que se tem por mim. Da mesma forma, todo mal se realiza no próximo, e quem não me ama, também não tem amor pelos outros.” O inferno PODE ser os outros, como não disse Sartre!!!!

Para terminar vou contar a esse frei enganador quem é que fez a tal revolução espiritual que ele procura em Santa Teresa. Ele ainda não percebeu quem foi o grande revolucionário espiritual, para usar as palavras dele. Isso acontece porque ele não é católico, porque se afastou de Deus. E quem se afasta de Deus, perde, pouco a pouco, as faculdades da alma, que, segundo Santa Catarina de Sena, são a memória, a inteligência e a vontade. Mas o revolucionário espiritual procurado foi Jesus de Nazaré. E qual sua credencial de revolucionário? Obediência ao Pai até a Sua morte no madeiro, por amor a nós. Nos amou por causa do Pai e em obediência a Ele!

05/09/2008

Ann Coulter sobre Sarah Palin: O melhor deles era uma mulher

Ann Coulter em seu artigo no Townhall é como sempre brilhante nos comentários sobre a vice na chapa de John McCain. O título se refere ao fato de que a lista de candidatos a candidato a vice de McCain era composta principalmente de homens.

Não tenho autorização para traduzir o artigo, por isso não vou fazê-lo, mas traduzo duas pérolas.

Primeira frase do artigo: “A escolha de Sarah Palin, governadora do Alaska, por John McCain finalmente deu motivos aos republicanos para votarem nele – isto é, uma razão além de B. Hussein Obama.” Note como Ann Coulter se refere a Obama!

Sobre as críticas dos esquerdistas a respeito de uma mulher com cinco filhos concorrer à vice-presidência e também sobre sua filha de 17 anos estar grávida e não ser casada: “Quando os esquerdistas começam a agir como se eles se opusessem ao sexo antes do casamento e que mães tenham suas próprias carreiras, tem-se logo a certeza que a escolha de McCain foi um chute na canela deles. Mas, pelo menos, os jornalistas esquerdistas acharam alguém do tamanho deles para brigar: uma garota de 17 anos.”

31/08/2008

Lições das Missas dominicais pós-Vaticano II – Parte X

O Evangelho deste domingo, 31/08/2008, na Missa de Paulo VI é Mt. 16, 21-27. É a seqüência do Evangelho do domingo anterior. O evangelista diz que “Jesus começou a mostrar a seus discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, do sumo sacerdotes e dos mestres da lei e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia”. Pedro, o primeiro papa, diz a Jesus: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca aconteça!” Se Jesus fosse aquele pacifista, aquele mestre água-com-açúcar, que tentam nos vender por aí, ele agradeceria muito a preocupação de Pedro e tentaria lhe consolar. Mas Jesus é o Filho de Deus e então diz a Pedro: “Vai para longe satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas, sim, as coisas dos homens!” Na Vulgata de São Jerônimo se lê: “Vade post me Satana scandalum es mihi quia non sapis ea quae Dei sunt sed ea quae hominum”. Depois disso, Jesus nos dá a ordem, seguida por todos os mártires e santos: “Se alguém quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome a cruz e me siga. Pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim vai encontrá-la”.

Claro que Pedro não estava entendendo coisíssima alguma. Não estava entendendo que a Paixão significaria nossa Redenção e que qualquer um que desejasse impedi-La só podia estar trabalhando para a perdição das almas, ou seja, para satanás. Daí a repreensão duríssima de Jesus!

A ordem de seguí-Lo, através da renúncia de si mesmo, é claríssima. Devemos renunciar à vida, esta vida que pensamos ter, esta condição que temos agora, estes bens que supomos possuir, esta casa, este carro, esta esposa, estes filhos, esta profissão, estes olhos, estes ouvidos, este paladar, este tato. Tudo enfim, com que nos confundimos e nos iludimos. “Porque o Filho do homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta”, nos diz ainda o Evangelho.

O que nos diz então o Semanário Litúrgico-Catequético, de 31/08/2008?

1. Há sempre no folheto uma introdução aos Ritos Iniciais. A deste domingo diz: o Senhor “nos convida a renunciar a tudo o que possa atrapalhar nossa caminhada em sua companhia”. Que linguagem melosa! Jesus não convida! Jesus determina as condições de quem o quiser seguir. Jesus não diz que devemos renunciar a tudo que atrapalha. Jesus diz que temos de renunciar a TUDO. Que diferença, heim! É a diferença entre o todo e a parte. Jesus quer que renunciemos somente tudo, a vida. Que nos entreguemos completamente – não só alguma coisa, alguma parte de nós, algum bem que temos – sem nenhuma restrição. Não há meio termo.

2. Há também, no folheto, uma introdução à Liturgia da Palavra que diz: “Quem busca assumir o projeto de Jesus experimenta na própria pele a incompatibilidade desse projeto com os sistemas do mundo”. Meus Deus! Que projeto é esse? Jesus não veio nos convidar a fazer parte de um projeto. Ele não é um político que tem uma plataforma, uma campanha para um mandato. Ele veio nos informar quais são as condições para que salvemos nossas almas, para SEMPRE. As condições, duríssimas, que devemos cumprir, para que não enfrentemos o inferno, para SEMPRE. Assim, não me venham com essa linguagem melíflua de “projeto”, de “convite”!

3. E há, também, um texto do pe. Nilo Luza, o redator do folheto. Vou citar alguns trechos do artigo do pe. Luza e depois os comento. “No evangelho deste domingo, Jesus anuncia aos discípulos seu destino e censura Pedro, pois este queria impedi-lo (sic!) de realizar o plano do Pai. Após convidá-lo a ‘ficar atrás’, ou ‘longe’ – isto é, a continuar sendo discípulo e não empecilho – apresenta as condições para seu seguimento: renunciar a si mesmo e tomar a cruz. (...) Há muitas renúncias que devem ser feitas para que nossa vida se coadune com a vida e a proposta do Mestre. (...) Tomar a cruz não significa buscar o sofrimento em si. O evangelho não quer justificar o sofrimento humano; ao contrário, manda combatê-lo e eliminá-lo da vida das pessoas. (...) Tomar a cruz significa seguir o caminho de Jesus, ser fiel ao evangelho, dar a vida pelos ideais por ele propostos ...”

Vejam só! Pe. Luza entende de forma originalíssima a fala de Jesus a Pedro. Para esse padre, Jesus “convida” Pedro a “ficar atrás” ou “longe”. O padre é, de fato, candidato ao prêmio “Originalidade Exegética 2008”! Para ele, “Vade post me Satana” soa como um convite. “Vá para longe de mim satanás”, para os modernistas é um convite. Vejam a que nível chegamos para vender a imagem de Jesus como um pacifista banana! Ele está chamando o futuro primeiro papa de satanás, mas isso soa aos ouvidos da Igreja pós-Vaticano II como um convite para “ficar atrás”. Não admira que já não se ouvem mais sermões que mencionem satanás.

Pe. Luza continua ainda com a lenga-lenga da tal “proposta” de Jesus, que já comentei acima. E agora vem o mais interessante. Ele diz que: “Tomar a cruz não significa buscar o sofrimento em si.” Não, claro que não. Todo mundo que medita o quarto mistério dos Mistérios Dolorosos, sabe o quanto foi divertido para Jesus levar sua própria cruz para o Calvário. Foi muito legal, pe. Luza! Quando Jesus fala sobre a cruz, sendo ele um pacifista fenomenal, além de um hedonista contumaz, ele não quer que ninguém entenda sofrimento. Afinal, para Ele, que foi PREGADO no madeiro, a coisa toda foi um prazer imenso. São João da Cruz, da CRUZ, pe. Luza, também escreveu sobre a cruz, mas seus escritos são um “barato” constante para seus leitores.

Pe. Luza diz ainda que: “O evangelho não quer justificar o sofrimento humano; ao contrário, manda combatê-lo e eliminá-lo da vida das pessoas.” Onde, pe. Luza, o evangelho manda combatê-lo e eliminá-lo da vida das pessoas? Onde é que está isso, pe. Luza? Pe. Luza, é possível eliminar o sofrimento da vida das pessoas? Com quê? Com o marxismo, que nos promete um reino de deus na terra? Jesus não ensina que o sofrimento é o caminho? O senhor não está sendo como Pedro, um “scandalum”, uma pedra de tropeço, ao afirmar isso?

Mas, podem acreditar, há mais no folheto de hoje! O assunto agora é São Paulo. Primeiro a epístola da Missa, que passa sem nenhum comentário. Note que até as ausências são significativas no folheto. Paulo diz na Epístola aos Romanos (Rm 12, 2) que: “Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensa e de julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, isto é, o que é bom, o que lhe (sic!) agrada, o que é perfeito”. Veja que coisa interessante. Ao contrário da Teologia da Libertação, Paulo ordena que não nos conformemos com o mundo, mas não que o transformemos, mas que NOS transformemos. Que bela aula contra a teologia da embromação! Que bela aula contra o marxismo e todos os esquerdismos seus filhos.

Ainda sobre Paulo, e agora para finalizar, pe. José Bortolini nos brinda com fabulosas e originais informações sobre esse apóstolo. Ele diz, logo no início de seu artigo: “Sem ter por trás dos bastidores a comunidade de Antioquia da Síria, Paulo não teria realizado tudo o que sabemos”. Vejam só! Paulo, na verdade, é fruto da comunidade de Antioquia. Aqueles que até hoje pensaram que Paulo tinha por suporte Jesus Cristo, que lhe falou na estrada de Damasco e o guiou na evangelização dos gentios, em todas aquelas suas fenomenais viagens, até seu martírio em Roma, estavam e estão enganados. Quem deu força a Paulo, nos bastidores que só pe. Bortolini conhece, foi a comunidade de Antioquia. Ou seja, a obra de Paulo é obra coletiva. Quando vocês lerem as cartas de Paulo, podem ter certeza de que estão ouvindo a fala da comunidade de Antioquia. Quem morreu na cruz em Roma foi a comunidade de Antioquia. E quando comemoramos, no dia 29 de junho, a festa de São Pedro e de São Paulo, comemoramos a festa de santa Antioquia.

Estas são as lições da Missa de hoje, segundo “O Domingo”.

Para ver outros comentários, clique: Parte I, Parte II, Parte III, Parte IV, Parte V, Parte VI, Parte VII, Parte VIII, Parte IX

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28/08/2008

Candidatos, meu voto está à venda!

Como todos sabem, época de eleição é um bom momento para vendermos o voto. Tentando dar um bom exemplo a meus filhos, estou eu aqui a anunciar que meu voto está à venda.

Acautelem-se, contudo, os candidatos afoitos. Meu voto é muito caro. Eu disse muito caro. Não é qualquer depósito em conta no exterior que vai levando meu voto. Não é qualquer mensalão que vai me enganar.

Meu voto irá para o candidato que depositar na Caixa .... de correio lá de casa, uma declaração assinada e com firma reconhecida, com as seguintes afirmações (que devem também constar da propaganda do candidato no rádio e na televisão):

1. O fundamento moral de minhas ações de candidato eleito serão os Dez Mandamentos da Lei de Deus.

2. Caridade é virtude individual. Quando o governo se mete a fazer caridade com o dinheiro público é sinal de vagabundo pondo a mão no salário do trabalhador.

3. Todo cidadão tem o direito de defender a si e a sua família de criminosos e assassinos, inclusive com arma em punho. Porte de arma para o cidadão comum é fundamento da democracia.

4. Todo cidadão tem o direito a educar seus filhos segundo seus próprios valores. Educar o filho em casa é um direito básico da cidadania.

5. A escola, pública ou privada, não tem o direito de doutrinar nossos filhos. Eles têm o direito de receber uma educação baseada na verdade e nos valores da Civilização Ocidental.

6. Lugar de criminoso é na cadeia e cadeia não é colônia de férias.

7. Crimes hediondos devem ser punidos com a pena de morte.

8. ONG significa Organização Não Governamental, portanto nada de dinheiro público financiando esse tipo de organização.

9. Sou a favor de “programas de redução da mortalidade infantil”, por isso sou contra o aborto.

10. Sou favorável à “preservação das espécies em extinção”, por isso sou contra a matança generalizada de cristãos em países comunistas e islâmicos.

Esse é o preço mínimo que estou cobrando dos candidatos que desejarem o meu voto. Se quiserem pagar mais, podem adicionar itens ao decálogo acima. Por exemplo, quem afirmar que existem verdades absolutas, pois ninguém consegue negar isso sem uma afirmação autocontraditória, ganha muitos pontos no meu conceito. Quem fizer algum comentário a respeito da prova tomista, em cinco vias, da existência de Deus, ganha minha mais profunda admiração. Mas basta o decálogo, para ser um candidato de minha predileção.

26/08/2008

Campanha da Fraternidade 2008: observações tardias

Vocês vêem aí ao lado o cartaz da Campanha da Fraternidade 2008 da CNBB. Um velho negro segurando no colo uma criança branca. Nada na foto lembra o tema da campanha. O texto é uma aula de como não ir direto ao ponto. E, sob o ponto de vista católico, aí meu Deus, é lamentável. A palavra pecado não aparece nem mesmo uma vez. Veja aqui o texto de Dom Jacyr Francisco Braido. Procure a palavra pecado e verão que ela não existe.

Mas voltemos ao cartaz. Quando eu o vi, numa missa de domingo, fiquei pensando no que aquilo significava. Cheguei à conclusão que era mais uma dessas peças publicitárias politicamente corretas. Daí para uma profunda indignação foi um pulo. Ora, mas a CNBB, tratando de um tema tão relevante como a defesa da vida, vem se colocar numa posição politicamente correta! Se isso não é vender a alma ao demônio, não sei o que é.

Tão logo me acalmei um pouco, fiquei pensando numa foto que tinha visto num artigo do pe. Lodi no MSM, sobre a menina Marcela, que nasceu sem cérebro e já fazia um ano de idade. Pensei cá comigo, era aquela foto, ou outra parecida, que tinha que se constituir no cartaz da campanha contra o aborto. A menina Marcela foi um sinal de Deus, tanto para os abortistas, quanto para quem defende a vida. Esse sinal significa simplesmente o seguinte: Deus nos está dizendo que Ele é o dono da vida e que Ele a mantém em quem Ele quiser, em qualquer situação, mesmo na falta de um cérebro. Também significa que ninguém tem o direito de imaginar que qualquer quantidade de conhecimento humano será suficiente para que o homem decida quando tirar a vida de um ser humano. Os especialistas sempre afirmaram que casos como o da Marcela são impossíveis.


Pensei em tudo isso e desejei que a CNBB pudesse ter sido um pouco mais católica. Tive a esperança de que num futuro próximo, aquela instituição pudesse fazer justiça ao sinal de Deus e então pudesse exibir um retratinho da Marcela que fosse, no site tão pomposo dessa ONG dos bispos do Brasil. Mas, agora, Deus resolveu chamar a Marcela de volta a Ele. Nesse chamado, mais um sinal foi dado. Ela morreu por um motivo completamente alheio à anencefalia. Qualquer criança com cérebro normal poderia ter morrido pelo mesmo motivo. Aí do lado, está um retratinho de Marcela com sua mãe, santa mãe, quando ela fez um aninho de idade.
A CNBB perdeu definitivamente a oportunidade.

24/08/2008

Lições das Missas dominicais pós-Vaticano II – Parte IX

O Evangelho deste domingo, 24/08/2008, na Missa de Paulo VI é Mt. 16, 13-20. Nesse trecho do Evangelho, Jesus diz a Pedro: “Eu te darei as chaves do reino dos céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”. Esse poder de ligar e desligar que Jesus transmite a Pedro é conhecido como o “poder das chaves”.

O que nos diz então o Semanário Litúrgico-Catequético, de 24/08/2008, do 21º Domingo Comum sobre o poder das chaves? Num texto inicial da Liturgia da Palavra, o folheto nos ensina que “Deter o ‘poder das chaves’ é ser responsável pela administração de alguma instituição ou organização. Deus pede aos seus representantes seriedade no compromisso de administrar; somente com muito amor podem exercer, com fidelidade, tal missão”.

O que dizer desse trecho do folheto? Vamos admitir a boa vontade de quem o preparou. Vamos admitir que essa pessoa esteja querendo fazer uma analogia que permita às pessoas comuns, talvez sem instrução, compreender o que seja o “poder das chaves”. A comparação é a mais simples possível, o que é bom quando se tenta ensinar algo. Mas há comparações que diminuem tanto a coisa comparada que servem mais para confundir do que para explicar.

É claro que chaves abrem e fecham portas, a questão é saber que portas são essas. Serão portas institucionais? Será a porta do Vaticano? Será a porta da Igreja como instituição? É claro que não! Aliás, é bem ao contrário. A Igreja, como instituição, repousa no “poder das chaves”. É esse poder que faz a Igreja. É a chave que constrói a porta. A Igreja foi constituída sobre Pedro porque a Pedro foi dado o “poder das chaves”.

Esse poder, segundo a longuíssima tradição da Igreja, é o poder de abrir as portas do Céu, que não é instituição, e também de fechar as portas do inferno, que também não é instituição. É por isso que quem se separa da Igreja perde esse poder. Isso é o que nos diz todos os Padres e santos da Igreja. Quem quiser ter uma idéia da Tradição com relação a essa passagem dos Evangelhos, veja a Catena Áurea.

Assim, identificar esse poder apenas como poder institucional é, no mínimo, equivocado. Equivocado quando à natureza do poder e equivocado quanto à natureza do ensino, sobretudo ao ensino catequético. O “poder das chaves” passa dos apóstolos e do primeiro Papa para os bispos e padres, desde então. É preciso que nós leigos católicos compreendamos que isso aconteça, mas é preciso ainda mais que os padres compreendam também. E atenção: o demônio não é funcionário de uma instituição chamada inferno. Não cometamos esse erro fatal!

Na parte essencialmente catequética do folheto, temos um texto do pe. José Bortolini que menciona o fato de que o Messias era esperado como um libertador de Israel do jugo de Roma. Libertador é uma palavra que ele teve o juízo de não usar, pois lembraria uma tal teologia da libertação que espera a mesma coisa de Jesus. Que Ele nos liberte do jugo dos ricos e poderosos desse mundo, via um marxismo chulo. Essa reflexão o padre não fez, claro, sendo ele um modernista empedernido. Mas essa teologia é nada mais nada menos que a herdeira das esperanças de Judas Iscariotes: que Jesus seja o libertador temporal do Israel contemporâneo. Foram as esperanças frustradas de Judas que puseram Jesus no madeiro. É a teologia da libertação que traz tanta devastação à Igreja no Brasil.



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17/08/2008

Assumpta est Maria in coelum

Enciclopédia Católica


A festa da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria em 15 de agosto, também chamada nos livros litúrgicos antigos Pausatio, Nativitas (para o céu), Mors, Depositio, Dormitio S. Marie.

Essa festa tem um duplo objetivo: (1) a alegre partida de Maria dessa vida; (2) a assunção de seu corpo ao céu. É a principal festa da Bem-aventurada Virgem.

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O fato da Assunção

A respeito do dia, ano e forma da morte de Nossa Senhora, nada de certo é conhecido. A referência literária mais antiga da Assunção é encontrada em um trabalho em grego: De Obitu S. Dominae. A fé católica, contudo, tem sempre extraído nosso conhecimento desse mistério da Tradição Apostólica. Epiphanius (403 d.C.) reconhece nada saber sobre o fato (Haer., lxxix, 11). As datas indicadas para a Assunção variam de 3 a 15 anos depois da Ascensão de Cristo. Duas cidades alegam ter sido o lugar da partida de Nossa Senhora: Jerusalém e Éfeso. O consenso parece indicar Jerusalém, onde seu túmulo é exposto; mas alguns argumentam em favor de Éfeso. Os primeiros seis séculos não conheceram seu túmulo em Jerusalém.

A crença na assunção corporal de Maria é baseada no tratado apócrifo De Obitu S. Dominae, que leva o nome de São João como autor, mas que pertence ao quarto ou quinto século. Essa crença é também encontrada no livro De Transitu Virginis, falsamente atribuído a São Melito de Sardis, e numa carta espúria atribuída a São Dionísio, o Areopagita. Se consultamos os escritos genuíno do Oriente, a Assunção é mencionada nos sermões de Santo André de Creta, São João Damasceno, São Modesto de Jerusalém e outros. No Ocidente, São Gregório de Tours (De gloria mart. , 1, iv) a menciona pela primeira vez. Os sermões de São Jerônimo e Santo Agostinho para essa festa, contudo, são espúrios. São João Damasceno (P;G., I, 96) assim formula a tradição da Igreja de Jerusalém:

“São Juvenal, Bispo de Jerusalém, no Concílio da Calcedônia (451), fez conhecer ao Imperador Marciano e Pulcheria, que desejava possuir o corpo da Mãe de Deus, que Maria morreu em presença de todos os Apóstolos, mas que seu túmulo, quando aberto, por solicitação de São Tomás, estava vazio; de onde os Apóstolos concluíram que seu corpo foi levado para o céu”.

Hoje, a crença na assunção corporal de Maria é universal no Oriente e no Ocidente; segundo Bento XIV (De Festir B.V.M., I, viii, 18) essa é uma opinião provável, e que sua negação seria impiedosa e blasfema.


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A festa da Assunção

A respeito da origem da festa, não temos também certeza. É mais provável que a festa se originou do aniversário da consagração de alguma igreja do que o aniversário de morte de Nossa Senhora. Que a festa tenha se originado no tempo do Concílio de Éfeso, ou que São Damásio a introduziu em Roma, são apenas hipóteses.

Segundo Santo Teodósio (529 d.C.) a festa era celebrada na Palestina antes do ano 500, provavelmente em agosto (Baeumer, Brevier, 185). No Egito e Arábia, contudo, ela acontecia em janeiro, e como os monges da Gália adotaram muitos costumes dos monges do Egito (Baeumer, Brevier, 163), encontramos essa festa na Gália no século VI, em janeiro [mediante mense undecimo (Greg. Turon., De gloria mart., I, ix)]. A Liturgia Gaulesa comemora a data em 18 de janeiro, sob o título: Depositio, Assumptio, ou Festivitas S. Mariae (cf. a nota de Mabillon sobre a Liturgia Gaulesa, P. L., LXXII, 180). Esse costume foi mantido na Igreja gaulesa até a introdução do Rito Romano. Na Igreja grega, assim parece, alguns mantiveram a festa em janeiro, como os monges do Egito; outros em agosto, como aqueles da Palestina; assim o Imperador Maurice (602 d.C.), se a descrição do Liber Pontificalis (II, 508) estiver correta, determinou a data da festa em 15 de agosto para o Império Grego.

Em Roma (Batiffol, Brev. Rom., 134) a mais antiga e única festa de Nossa Senhora ocorria em 1 de janeiro, na oitava do nascimento de Cristo. Ela era celebrada a princípio na igreja Santa Maria Maggiore e mais tarde na igreja de Santa Maria dos Mártires. As outras festas são de origem bizantina. Duchesne considera (Orígenes du culte chr., 262) que antes do século VII nenhuma festa existia em Roma, e que conseqüentemente a festa da Assunção, encontrada nos sacramentais de Gelásio e Gregório, é uma adição espúria feita no século VII ou VIII. Porbst, contudo (Sacramentarien, 264 ss.), apresenta argumentos para provar que a Missa da Virgem Maria, celebrada em 15 de agosto segundo o Gelasianum, é genuína, pois ela não menciona a assunção corporal de Maria; que, conseqüentemente, a festa era celebrada na igreja de Santa Maria Maggiore em Roma pelo menos no século VI. Ele prova, além disso, que a Missa do Sacramentário Gregoriano é de origem gaulesa (pois a crença da assunção corporal de Maria, sob a influência de escritos apócrifos, é mais antiga na Gália do que em Roma), e que ela suplanta a antiga Missa gelasiana. Ao tempo de Sérgio I (700) essa festa era uma das principais festividades em Roma; a procissão começava na igreja de Santo Adriano. Era sempre uma festa dupla de primeira classe[1] e um dia santo.

A oitava foi adicionada em 847 por Leão IV; na Alemanha essa oitava não era observada em diversas dioceses até o tempo da Reforma. A Igreja de Milão não a aceita até hoje (Ordo Ambros., 1906) A oitava é privilegiada em dioceses das províncias de Siena, Fermo, MIchoacan, etc.

Na Igreja Grega a festa continua até dia 23 de agosto, inclusive, e em alguns monastérios de Monte Athos ela se alongava até dia 29 de agosto (Menaea Graeca, Venice, 1880), pelo menos formalmente. Nas dioceses da Bavária um décimo terceiro dia da Assunção era celebrado durante a Idade Média, em 13 de setembro, com o Ofício da Assunção (duplo); hoje, somente a Diocese de Augsburg retém esse antigo costume.

Algumas das dioceses bávaras e aquelas de Brandenburgo, Mainz, Frankfurt etc., mantinha a festa da “Segunda Assunção” em 23 de setembro, ou o “Quadragésimo dia da Assunção” (duplo) na crença, segundo as revelações de Santa Isabel de Schönau (1165 d.C.) e São Bertrand, O.C. (1170 d.C.), de que a B.V. Maria foi levado aos céus no quadragésimo dia depois de sua morte (Grotefend, Calendaria 2, 136). Os seguidores de Santa Brigita da Suécia mantinha a festa da “Glorificação de Maria” (dupla) em 30 de agosto, depois que a santa disse (Revel., VI, 1) que Maria foi levada ao paraíso quinze dias depois de sua morte (Colvenerius, Cal. Mar., 30 agosto). Na América Central uma festa especial de Coroação de Maria no céu (dupla, primeira classe) é celebrada em 18 de agosto. A cidade de Gerace na Calábria mantém três dias sucessivos com o rito duplo de primeira classe, comemorando: 15 de agosto, a morte de Maria; 16 de agosto, sua Coroação.

Em Piazza, na Sicília, há uma comemoração da Assunção de Maria (dupla de segunda classe) em 20 de fevereiro, o aniversário de terremoto de 1743. Uma festa similar (dupla de primeira classe com oitava) é mantida em Martano, Diocese de Otranto, em Apulia, no dia 19 de novembro.

[Nota: Com a promulgação da Bula Munificentissimus Deus, em 1 de novembro de 1950, o Papa Pio XII declara infalivelmente que a Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria é dogma da Fé Católica.]


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Sobre esse texto

APA citation. Holweck, F. (1907).
A Festa da Assunção. In The Catholic Encyclopedia. New York: Robert Appleton Company. Retrieved August 17, 2008

MLA citation. Holweck, Frederick. "
A Festa da Assunção." The Catholic Encyclopedia. Vol. 2. New York: Robert Appleton Company, 1907. 17 Aug. 2008 .

Aprovação eclesial. Nihil Obstat. 1907. Remy Lafort, S.T.D., Censor. Imprimatur. +John M. Farley, Archbishop of New York.

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[1] Diz-se que um dia é de festa de dupla obrigação quando se deve assistir a missa e não trabalhar. Quando à dignidade uma festa pode ser de primeira e de segunda classe. As festas de primeira classe comemoram os principais mistérios de nossa religião ou a morte de um santo. (N. do T.)

12/08/2008

Nelson Rodrigues é mais católico que a CNBB – Parte II

Nota prévia – Desnecessária qualquer nota prévia. A situação fala por si mesmo. E Nelson fala (escreve) muito bem. Que São José proteja a Igreja de seu Filho adotivo. Ah, sim! O título da crônica de que extraio os trechos abaixo: Quem extravasa ódio?

Em que consiste o Paredão de Manchete? É uma enquête. A revista escolhe uma vítima e chama uma série de personalidades. Faz-se o julgamento ou, melhor do que isso, a execução. As perguntas devem ser mortíferas como balas.

Quando o Zevi fez o convite, a minha modéstia estrebuchou. Aleguei que o Paredão exige os méritos especialíssimos que me faltam. Quem se lembraria de fuzilar um homem secundário como eu? (...)

(...)

(...) Propus ao Zevi: – “Arranja outro nome.” Ele insistiu, quase zangado: – “É você, só serve você.” Tenho comigo a velha pusilanimidade, sim, o velho medo de contrariar os amigos. Disse: – “Vá lá, vá lá.”

(...)

(...) Finalmente, veio trazer as perguntas um rapaz, Buarque de Holanda, talento das novas gerações. Eu tinha que ler e gravar as respostas na hora. (...)

(...)

O momento mais lacinante do Paredão ocorre com a pergunta do jovem ator Paulo José. Excelente menino. Mas diz o seguinte: – “As posições de D. Hélder, autenticamente cristãs, estão apoiadas no pensamento da Igreja de hoje.” E continua: – “Estabelecendo confronto, pergunto: – qual é o outro pensamento da Igreja? Existe outra coisa que mereça ser lida ou vivida?”

Como posso descrever o meu escândalo profundo? Considero invencível um rapaz que chega à boca de cena e anuncia, de fronte alta: – “A Igreja começa e acaba em D. Hélder.” Não lhe apareceu um parente, um contraparente que cochichasse: – “Além de D. Hélder, há pra mais de dois mil anos.” Simplesmente, ele enxota os vinte séculos como quem afasta, com o lado do pé, uma barata seca. Rapaz fortemente atualizado, jamais desconfiou de que tivesse existido, alhures, um Cristo.

Ver também: Nelson Rodrigues “entrevista” D. Hélder Câmara, Nelson Rodrigues “entrevista” D. Hélder Câmara – Parte II, Nelson Rodrigues é mais católico que a CNBB

10/08/2008

Nelson Rodrigues é mais católico que a CNBB

Nota prévia - Num dos meus comentários sobre o folheto das missas dominicais, comentei sobre o que dizia o padre Nilo Luza (redator do folheto) sobre o milagre da multiplicação dos pães. O padre fazia, usando o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, apologia do “fome zero”. O padre esquecia da dimensão eucarística do pão, de sua função de alimento da alma.

É obvio que o pão sempre tem uma dimensão material, de matar a fome do corpo, apesar de não ser essa a dimensão a ser explorada numa homilia sobre a multiplicação dos pães. Mesmo assim, falar do “fome zero” quando se quer falar da dimensão material do pão é de uma impropriedade extraordinária.

Para falar da miséria, da fome e do pão, convoco um autor (e uma crônica). Não, não é Santo Atanásio, não é Santo Agostinho, não é nem mesmo Santo Tomás de Aquino. Esqueçam Chesterton e Belloc. Esqueçam papas e cardeais. Convoco Nelson Rodrigues, o reacionário. Sua crônica?
Marxismo e asma. Que São José proteja a Igreja de Cristo que hoje se encontra invadida por apóstatas.


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Já lhes falei do meu amigo marxista. Sempre o encontro com a bombinha da asma. Ele próprio declara, com tenebroso humor, que se não fosse a bombinha estaria morto e enterrado desde a Primeira Batalha do Marne. Dizem seus amigos que seu marxismo e todo o seu horror à ordem capitalista são de fundo asmático.

Anteontem procurou-me, irritadíssimo. Chama-me para um canto: – “Preciso falar contigo.” Arquejava, e teve que usar a bomba. Fez tanto “suspense” que pergunto, interessado: – “Mas o que é que há?” Olhou para os lados e então, ainda ofegante, disse: – “Aquele teu artigo está de um reacionarismo!” – pausa, e repetiu, de olho rútilo e lábio trêmulo: – “De um reacionarismo, rapaz!”

Até hoje não sei se a sua irritação era mesmo irritação ou deslumbramento. Ainda perguntei: – “Meu artigo?” Ah, sou um autor sujeito a lapsos fatais. Quantas vezes me esqueço do que escrevi há meia hora? Foi ele quem me alumiou a memória: – “O artigo da fome!” Era verdade. Eu escrevera recentemente artigo sobre a fome de 1917, 18 e 19.

É de caso pensado que ponho as datas. E, com efeito, a fome muda o seu comportamento de época para época. Nos anos citados ela não tinha o apelo, o patético, a promoção dos nossos dias. Bem me lembro dos meus seis, sete anos. De vez em quando vinha gente bater na nossa porta: – “Um pedaço de pão! Um pedaço de pão!” Eis a palavra e a imagem: – pão. Há uns quarenta anos não vejo ninguém pedir pão a ninguém.

Outro dia ocorreu um episódio que me parece singularmente ilustrativo. Uma santa senhora deu pão a um mendigo. O sujeito apanhou o pão e o olhou, esbugalhado, como se não entendesse a esmola. E súbito deu-lhe uma ira, um ódio. Agrediu a senhora, deu-lhe uma surra de pão. A vítima pôs a boca no mundo. Com um rapa fulminante o mendigo a derrubou: e, por cima da senhora, queria enfiar-lhe o pão pela goela abaixo.

Assim se comporta a fome da nossa época. Vive do ódio. Outrora, não. Na Confissão que provocou o divertido horror do marxista asmático eu escrevia, justamente, sobre os famintos da minha infância. Ah, naquele tempo tínhamos por aqui uma fome sem raiva, sem agressividade, dócil, mansa e como que consentida.

Um dia houve um enterro em Aldeia Campista. Salvo engano, o morto era “Seu” Ferreira, português rico, dono de um armazém. Quatro cavalos de crepe e penacho puxavam o carro fúnebre. Na hora certa o enterro vai partir. E então acontece o seguinte: o cocheiro desmaia, simplesmente desmaia (caiu-lhe a cartola).

Corre-corre no portão. Dois ou três agarram o homem; dão-lhe tapinhas na cara. Finalmente, abre os olhos; arquejante, geme: – “Quero comer, quero comer.” E fazia o apelo por entre lágrimas. Foi carregado para o interior da casa enlutada. Lá dentro alguém improvisa um prato fundo de feijão com arroz. O cocheiro começa a comer. Súbito pára e, de boca cheia, pergunta: – “Tem uma pimentinha?”

Aquele homem não comia há dois dias. E não faltou à funerária. Lá estava, de cartola, fazendo o enterro de luxo. E, não fosse derrubado pela inanição, chegaria ao cemitério. Eis o que eu queria dizer: era uma fome sem Ministério do Trabalho, sem greve, sem reivindicações salariais. Ainda garoto, tivemos uma cozinheira que tinha um filho por ano, matematicamente. Chamava-se Hortência. Era uma fecundidade radiante. Dizia, na cozinha, esplêndida de vaidade: – “Tenho os meus filhos em pé.”

E assim chegou aos nove, dez, onze filhos. A fome levou nove. Exatamente nove filhos. Os mais resistentes morriam aos cinco, seis anos. Pois a mãe os enterrava sem pena, nem ressentimentos. Ter os filhos e perdê-los era a sua rotina. Ela própria não odiava a fome, e repito: não havia desespero, nem tristeza, na sua fome.

Muitos anos depois, vou a Caxias e a encontro lá. Já se tinham incorporado à vida brasileira os direitos trabalhistas. Falava-se, na época, que o novo salário-mínimo seria de seis mil cruzeiros antigos. A minha ex-cozinheira, já alquebrada, já avó, ralhava com o genro: – “Sei contos é demais. Onde já se viu? Seis contos é abuso.”

Claro que o marxista queria que eu apresentasse uma cozinheira retórica como “La Passionaria”. E, como não a descrevi derrubando bastilhas e decapitando marias antonietas, o leninista me chamava de reacionário[1]. Curioso é que ele escreve bem. Se deixasse de fazer concessões às esquerdas, seria capaz de obra-prima. Também a asma o prejudica literariamente.

O Brasil de minha infância não tinha assalto por isso mesmo: porque a fome não assaltava e digo mais, a fome ainda não assaltava. O assaltante não quer comer. Mata e fere para ter o supérfluo. Dirá alguém que estou falsificando a verdade. Mas insisto em que só a fome literária do Zola arromba padarias, e só ela pendura o padeiro num pedaço de pau.[2]

Hoje há uma fúria. Quantos vivem da fome? Por exemplo: D. Hélder. Sempre teve gênio promocional e nunca foi um obscuro. Mas faltava ao D. Hélder anterior o dramatismo, a potência, a fama do D. Hélder da fome. A fome tem-no feito. Podíamos apresentar a fome como a autora de D. Hélder. Ele precisava ter, por fundo, a mortalidade infantil. Mas coisa curiosa! Os grandes indignados da fome não são as suas vítimas, mas os que não a tem. Sim, são os bem alimentados que vociferam e dão patadas.

Ainda ontem, uma grã-fina batia o telefone para mim. Reclamava de uma Confissão que tratava, justamente, da fome da Índia. E a excelente senhora agrediu-me como se eu fosse o culpado, da fome do Nordeste, da Índia, Paquistão, Biafra, e de todos as misérias passadas, presentes, e futuras.

Perguntou-me: – “Você acha que a Índia gosta de passar fome? Acha que a Índia gosta de ver as cinzas do próprio cadáver no rio? Sua literatura sobre a fome é desumana.” Eu poderia responder-lhe: – “Meu anjo, por que é que você não asfalta uma favela com seu colar de quinhentos milhões antigos?” Mas sou um tímido e um delicado. E conversei longamente no telefone.

Disse-lhe eu o óbvio total: – a fome é o mais antigo hábito dos hábitos humanos. Ora, um hábito não dói, não faz sofrer. Por exemplo: a Índia. Há seis mil anos que o cadáver é atirado no rio. E o cadáver já não se espanta mais. Lá, milhões de sujeitos não moram. E bebem, a mãos ambas, a água da sarjeta. Do outro lado da linha, a grã-fina esperneava: – “Isso é blague. Não brinque com coisas sérias.” Por fim, como ela tomava a verdade por piada, disse-lhe: – “As vítimas da fome sofrem menos. Quem se descabela, e soluça, e quer chupar a carótida das classes dominantes, são a senhora, D. Hélder e o Dr. Alceu.”[3] Ao ouvir falar no Tristão, pulou: – “Você quer negar a bondade do Alceu?” Com a humildade de um torpe que fala de um santo, desejei que o Mestre tivesse milhares de boas ações, inclusive do Banco do Brasil, da Vale do Rio Doce, Petrobrás e outras. A grã-fina perdeu a paciência. Bateu o telefone.

[1] Nelson vê aqui o óbvio ululante, como ele mesmo gostava de dizer: o marxismo é filho dileto da Revolução Francesa, aquele episódio que, assim se diz, criou o mundo moderno. E a Igreja pós-conciliar optou pela Revolução Francesa, como nos diz candidamente João Paulo II: "Nos documentos do Concílio Vaticano II pode-se encontrar uma sugestiva síntese da relação entre o cristianismo e o iluminismo" (João Paulo II, Memória e Identidade, Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2005, pg 126). (Nota do blogueiro)

[2] Quem quiser saber quais são as raízes da violência no Brasil, o texto fundamental, para mim, é o de Olavo de Carvalho: Bandidos e letrados. Olavo e Nelson diagnosticam certeiramente o problema. (Nota do blogueiro)

[3] E a CNBB. (Nota do blogueiro)

03/08/2008

Lições das Missas dominicais pós-Vaticano II – Parte VIII

“Avertántur retrórsum et erubéscant: qui cógitant mihi mala.”

Volto a comentar, com muita tristeza, as imposturas do Semanário Litúrgico-Catequético, de 03/08/2008, sobre “O projeto ‘fome zero’”. Desta vez é o Pe. Nilo Luza que nos oferece o espetáculo nojento da subserviência da Igreja ao partido mais corrupto que já assumiu o governo do Brasil.

Esse padre nos diz que o projeto “fome zero” é na verdade um projeto de Jesus. Ele comenta o milagre da multiplicação dos pães como sendo o fundamento do projeto. Vale para o Pe. Nilo Luza o versículo do Salmo 69, do Introitus da Missa Tridentina do XII Domingo Depois de Pentecostes, reproduzido acima: Voltem para trás e fiquem envergonhados os que me querem mal.

Vamos a alguns trechos. Que Deus nos ajude a ler tantas heresias. “A proposta do evangelho de hoje é ‘fome zero’ para a humanidade. Jesus, quando viu a multidão faminta, convocou seu grupo e mandou-o dar um jeito. Seu gesto mostra que a Igreja não pode se isentar do problema.” Assim como Lenine tinha um grupo, Mao tinha um grupo, Fidel tinha um grupo, Jesus tinha também o seu grupo. E vejam que ele mandou o grupo resolver o problema: de alimentar 5000 pessoas com cinco pães e dois peixes. Notem, ainda mais, que, segundo esse padre, é uma das funções da Igreja a alimentação dos povos. Não, ele não está dizendo que a Igreja tem, diretamente, de alimentar os povos. Ele candidamente diz: “Claro que ela não tem condições de alimentar todos os famintos, mas pode ser solidária com eles, fazendo parcerias com outros segmentos da sociedade.” Viram só? A Igreja agora é uma ONG em parceria com a ONU, com o PT, com o PC do B etc.

Mas o que dizer do “grupo de Jesus”? Ele resolveu o problema? Ele multiplicou os pães? Claro que não! Quem o fez foi Jesus, o Cristo. Que importância teve o “grupo de Jesus” nesse caso? Claro que nenhuma. O centro de toda a história do milagre é que Jesus pode multiplicar os pães e entregá-los a nós. Não o grupo. Mas isso o padre não fala. Ele procura torcer a história ao máximo, mesmo que tenha de assassinar a lógica.

Mas, perguntarão os leitores, o padre não fez nenhuma alusão ao significado eucarístico do pão, ao significado de uma outra alimentação, a da alma? Não disse ele nada em relação a: “Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus?” Não. Padre Nilo Luza foi absolutamente silencioso ao significado maior do pão. Ou seja, foi incapaz de chegar ao inteligível a partir das coisas sensíveis. Esse padre deve ter faltado às aulas sobre Santo Tomás quando estava no seminário, se é que se ensina Santo Tomás nos seminários hoje em dia.

Enquanto escrevo, noto uma observação em letras pequenas ao pé da última página de O Domingo: “Texto litúrgico publicado com a autorização da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).” Pergunto-me: devo ficar aliviado? Devo considerar que os outros textos, os não-litúrgicos, como os que tenho comentado aqui, não são do conhecimento da CNBB? Será que eles não têm o Nihil Obstat? Queira Deus que isso aconteça. Queira Deus que a apostasia não tenha chegado tão alto.

Para quem queira ler algo muitíssimo mais elevado sobre a multiplicação dos pães, sugiro Santo Agostinho e Orígenes.

Para ver outros comentários, clique: Parte I, Parte II, Parte III, Parte IV, Parte V, Parte VI, Parte VII

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