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17/12/2014

A culpa agora é da frutose: um exemplo de como agem os anti-tudo espalhados por aí.

Comentei, num post recente, acerca dos cientificistas modernos, aquela espécia asquerosa de cientista que usa a ciência para cumprir uma agenda ideológica, filosófica e religiosa; para destruir, enfim, a Civilização Ocidental.

Aos que se surpreenderam em saber que essa gente age à luz do dia, nos mais prestigiosos periódicos científicos do mundo, dou um exemplo recentíssimo (exemplos como esse abundam!). A Veja On Line publica um artigo, sobre um estudo publicado no Journal of Physiology, uma respeitável publicação, acerca do efeito da frutose sobre o mecanismo da fome. O assunto em si é relevante e o estudo envolveu 24 indivíduos (apenas isso) de 16 a 24 anos (apenas nessa faixa de idade), e consta de imagens de ressonância magnética do cérebro dos indivíduos e do registro das impressões dos mesmo sobre a sensação de fome (não li o artigo científico). 

O interessante é o que vem ao final do artigo da Veja, como sendo uma espécie de resumo do estudo: 

Consumir altas quantias de frutose diariamente pode prejudicar o aprendizado e a memória. É o que indica uma pesquisa publicada recentemente no periódico Journal of Physiology. No estudo, conduzido por uma equipe da Universidade da Califórnia, ratos que ingeriram xarope de milho rico em frutose (encontrada em produtos industrializados, como refrigerantes, condimentos e comidas de bebê) tiveram prejuízo na memória e queda no número de sinapses cerebrais. Essa queda nas sinapses acabou por deixar o cérebro mais lento. A boa notícia é que a ingestão de alimentos com ácidos graxos ômega-3 protege contra os danos causados pelo açúcar. 

Viram aí que um estudo cuja amplitude de indivíduos pesquisados é de 24 pessoas, de 16 a 24 anos, que deram impressões sobre fome, pode fundamentar um ataque frontal aos "produtos industrializados, como refrigerantes, condimentos e comidas de bebê" e ainda um elogio rasgado a  ingestão de alimentos com ácidos graxos ômega-3 protege contra os danos causados pelo açúcar. Não seria o caso de sugerir baixa ingestão de frutas? Porque atacar só os produtos industriais?

Isso é cientificismo, não ciência. Isso é ciência a serviço de uma agenda de dominação das mentes. Se surgir uma lei que proíba a frutose de ser usada em alimentos industriais, será baseada neste e em outras impressões trasvestidas de ciência, não se surpreendam. Não se surpreendam também se o Dr. Dráuzio começar a falar sobre isso por aí.

Aos anti-colesterol, anti-fumo, anti-gordura trans (sei lá!), anti-glicose, anti-calorias, se juntam agora os anti-frutose, mas só a dos produtos industrializados, não a que existe nas frutas. 

12/01/2013

Corção defende Chesterton de um detrator tardio.


Há talvez três anos, tenho sobre minha mesa uma cópia de um capítulo de um livro de Martin Gardner, matemático americano, morto em 2010. O livro me foi mostrado por um amigo e eu tirei cópia de um capítulo onde o autor faz uma crítica tanto a Chesterton quanto a Belloc, em suas posições críticas à teoria da evolução, que Gardner aborda como se fosse uma teoria científica, e uma verdade absoluta. O livro se intitula Fads and Fallacies in the Name of Science, e em português ganhou o título de Manias e Crendices em Nome da Ciência, Ed. Ibrasa, 1960. O capítulo copiado tem o título “Geologia versus Genesis”.  O mote do texto pode ser aquilatado pela frase: “O golpe que esse livro (Origem das Espécies, de Darwin) fez cair sobre a cristandade produziu uma explosão fácil de se compreender.” Gardner parece desconhecer que a adoção dessa “teoria” por parte dos maiores cientistas evolucionistas é exatamente por causa do golpe e não por causa da veracidade da teoria. O golpe é que acreditando-se na “teoria”, que é na verdade uma religião, não é preciso se acreditar no Genesis, fim último do cientificismo. O valor da “teoria” está na exclusão do Genesis. Mas isso eu já abordei em Por que a academia adota a Evolução?.

No que diz respeito a Belloc e Chesterton, Gardner começa por se referir ao grande debate de Belloc e Wells ficando, claro, do lado de Wells. Inclui aí também Chesterton e sua resposta ao livro de Wells, Outline of History, que se constitui em uma de suas obras-primas, O Homem Eterno. Ao fazer isso, ele diz: “O grande e bom amigo de Belloc, Gilbert Chesterton, raramente tocou na evolução, em seus livros. Quando o fez, sempre escreveu coisas mais ou menos insensatas.” E aí ele fala de O Homem Eterno. A defesa das ideias de Chesterton expressas neste livro, vou deixar para Corção. Quero apenas assinalar que Chesterton escreveu copiosamente contra a teoria da evolução e suas consequências, tanto em livro – A Coisa, por exemplo – quanto em centenas de artigos de jornal. Eu mesmo já pensei em organizar uma coletânea de seus artigos de jornal sobre darwinismo e evolução. Gadner talvez não tivesse bem informado sobre isso.

Mas eis que sou surpreendido por um artigo de jornal de um grande chestertoniano, o maior dos brasileiros: Gustavo Corção. Leio na excelente coletânea, Gustavo Corção Tomista, Org. D. Lourenço Fleichamn, Ed. Permanência, 2012, um artigo intitulado “Um Argumento Infeliz”. Corção comenta uma passagem destacada por Gardner, que supostamente demonstraria as manias e crendices de Chesterton: “Os animais superiores não desenham retratos cada vez melhores; o cão não pinta melhor, no seu estágio avançado, do que em sua forma primitiva de chacal: o cavalo selvagem não foi impressionista, e o cavalo bem tratado não se tornou pós-impressionista... Uma vaca num campo não parece demonstrar nenhum impulso lírico, nem se preocupa comas oportunidades raras de ouvir a cotovia...” Gardner reconhece que Chesterton fala aqui da diferença profunda e essencial que separa os homens dos animais. E para isso, Gadner tem o seguinte contra-argumento: “A resposta simples é que a mesma grande diferença existe também entre um homem e uma criança recém-nascida. A réplica de que a criança se transforma em homem é irrelevante.” Corção, depois de reparar na grande incapacidade de Gardner em perceber que o problema à mão não é de arqueologia ou de etnografia, mas de filosofia, responde: “Não seria esta a resposta de Chesterton ao cientista americano, e sim uma outra, prodigiosamente mais simples. Ele não diria que a grande diferença que existe entre a criança e o homem será vencida quando a criança se transformar em homem. Diria: não existe diferença entre a criança e o homem, a criança é igual, rigorosamente igual ao homem. (...) [Aqueles que subscrevem filosofias nominalistas] consideram apenas aspectos acidentais exteriores, e com eles pretendem especificar o homem, o pássaro e os demais habitantes do universo.” Aponta mais adiante uma outra incapacidade de Gardner: “O cientista americano, preso aos seus hábitos de observador dos fatos empíricos, nem chegou a perceber a que realidade humana, a que definição, se referiam Chesterton e Belloc quando argumentavam contra a filosofia evolucionista.”

Mas no final do artigo de Corção há a emergência do grande chestertoniano que ele é. Ele diz, no último parágrafo: “No fim do capítulo, Martin Gardner lembra aos católicos um excelente conselho tirado de Santo Agostinho, no qual o grande doutor dizia que o cristão deve acautelar-se de falar sobre assuntos científicos que não conheça, porque pode acontecer que algum pagão presente, mais versado no assunto, possa corrigi-lo. Dou o mesmo conselho a Martin Gardner. Descreva os achados das ciências que conhece, mas abstenha-se cuidadosamente de enveredar por caminhos filosóficos, porque pode acontecer que algum leitor menos informado em Astronomia, Geologia, Física, ou Química, tenha estudado alguma coisa de Filosofia, e então perceba, nua e esquálida, a miséria da improvisada filosofia do cientista.”

Eis aí a resposta que eu gostaria de ter dado a Gardner!

Agradeço a Deus por nos ter dado um intelectual como Corção.

11/01/2012

Perseguição da Religião

Gilbert Keith Chesterton
The Illustrated London News, 8 de março de 1924


Nota do blog: Chesterton nunca foi um mero crítico literário, embora seja autor do que há de melhor em termos de crítica literária na Inglaterra do início do século XX. Ele sempre fazia de sua crítica ― crítica cultural, de idéias ― um instrumento de luta contra as concepções que considerava destrutivas ao ser humano. Vivendo numa época herdeira de todo o racionalismo dos séculos XVIII e XIX e de todo o cientificismo fin de siècle, e ao mesmo tempo belle époque, ele usava toda a sua extraordinária capacidade para chamar a atenção de seus leitores para o quão irracionais eram aquelas noções modernas que surgiam dos melhores cérebros de então. Neste artigo, ele se defronta com um conhecido adversário de idéias, o Sr. Bernard Shaw, e sua crítica se concentra numa longa peça teatral escrita pelo famoso dramaturgo inglês.


Muitos de nós sentimos algo por demais fascinante, para não dizer alarmante, sobre a situação do homem que é encarcerado num asilo de loucos por oito anos por ser religioso, ou por ter um razoável interesse pela palavra “paralelogramo,” e pela idéia do fim do mundo. A perseguição da ciência pela religião é algo de que ouvimos muito, e muito mais do que é historicamente correto. Mas, de qualquer modo, isso praticamente acabou. A perseguição da religião pela ciência talvez tenha proporcionalmente apenas começado; mas já está em ação em não se sabe quantos casos obscuros de pedantismo e crueldade. Os místicos serão muito provavelmente os mártires quando os psicólogos forem os reis. Mas há aí um paradoxo envolvido que é ainda mais peculiar. Não é que apenas qualquer coisa religiosa deva ser perseguida sob a alegação de que não seja racional. É também que qualquer coisa irracional deva ser tolerada contanto que seja também irreligiosa. É tão somente loucura defender a religião; já não é mais loucura negar a razão. Se fosse, todos os professores de pragmatismo estariam encarcerados. Os próprios incidentes desse caso permitem uma ilustração. Um homem pode ser representado como louco ou como construindo uma charada mística com a palavra “paralelogramo”. Mas um homem não é considerado louco porque diz que linhas paralelas sempre se encontram. Nossos pais o teriam chamado de louco desvairado, por negar algo auto-evidente e proferir uma contradição em termos. Nós meramente o chamamos de matemático das novas escolas da relatividade ou da quarta dimensão. O homem que dizia: “Dois e dois pode ser cinco nas estrelas fixas” era um louco; e louco mesmo sendo um erudito. Eu de bom grado admito que homens de ciência não tenham o monopólio desse colapso mental. Mas certamente o homem que fosse capaz de falar como se as estrelas fossem fixas, e os números não, estaria sofrendo um completo colapso mental. O mesmo acontece com a outra forma de insanidade alegada nesse caso. É muito menor loucura esperar o fim do mundo para breve do que esperar o Super-homem para breve. Ainda assim, quantos evolucionistas fervorosos de nosso tempo escreveram seriamente como se o Super-homem fosse surgir na próxima semana? As coisas chegam realmente ao fim; e uma coisa projetada é geralmente reexaminada pelo projetista quando chega ao fim. Um homem que planta uma azaléia a vê florescer e fenecer e manifesta-se sobre o experimento; e não há nada irracional com um dia de julgamento, pressupondo um projeto. Mas não há nada no mundo a mostrar que uma azaléia por si mesma desenvolver-se-á em uma super-azaléia com todas as cores do arco-íris, apenas porque essa seria uma planta superior. O Super-homem foi apenas e tão somente um fantasma evocado do vazio pela imaginação de um louco; um homem literalmente louco chamado Nietzsche. Mesmo assim, quão vívida essa visão completamente absurda se tornou para muitos de nossa hesitante e débil geração! E a coisa mais estranha de todas é que tenham sido assim enfeitiçados alguns dos melhores cérebros. Eles também têm sua palavra sagrada “paralelogramo,” como, por exemplo, a palavra sagrada “Mesopotâmia”; mas, enquanto poucos são os soldados que querem voltar à Mesopotâmia,[1] há evidentemente sábios que desejam voltar a Matusalém.[2]

Desnecessário dizer que não estou discutindo se o Sr. Bernard Shaw tem um parafuso a menos na cabeça; estou apenas enfatizando que há muito mais parafusos faltantes no Hall da Ciência do que na igreja paroquial, ou mesmo na capela revivalista.[3] Ao contrário, é meu desejo aqui penetrar para além das esquisitices do experimento dramático do Sr. Bernard Shaw, e considerar se a idéia em si é de fato tão sã quanto é certamente séria. O Sr. Shaw tem sido submetido à crítica por duas classes de críticos. A primeira é composta daqueles que dizem que não sabem o que ele quer dizer, e consideram necessário inferir que ele não diz nada. A segunda é composta daqueles que pensam que sabem o que ele quer dizer, e consideram necessário concordar com ele. Poucos são os que parecem perceber que é bem possível entender completamente o ele diz e discordar dele totalmente. Mas, com efeito, é somente levando-o a sério que alguém consegue discordar dele seriamente. O homem que diz que todas as peças de Shaw não têm sentido está oferecendo valoroso apoio ao homem que diz que todas elas fazem sentido. Por confessar sua inabilidade de fazer delas algum nexo, ele está se impedindo de discutir com aquele que delas faz o nexo para tudo. Ele é como um homem que deveria defender o cristianismo contra a “Vie de Jésu”, de Renan, dizendo que agradece a Deus por não entender francês. Ou é como o homem que deveria responder a uma denúncia política detalhada dizendo que o sujeito balbuciou tão rápido que o impediu de entender. Seria impossível fazer uma homenagem maior à verdade de uma filosofia do que dizer que ninguém a entende, exceto uns poucos que a consideram verdadeira. Seria impossível fazer um elogio maior ao Sr. Shaw do que sugerir que ele ilude os estúpidos e convence os sábios. Todavia essa é exatamente a impressão que é necessariamente deixada se meramente se ridiculariza a excentricidade, ou extravagância, ou a extraordinária extensão, ou outra característica fantástica, mas meramente externa, de uma obra como “De volta a Matusalém (Um Pentateuco Metabiológico)”.[4] Tenho tentado sempre fazer, portanto, em minhas críticas o que o Sr. Shaw faz em prefácios, e discutir a doutrina que é a espinha dorsal de toda a questão. Pois o Sr. Shaw, de todos os homens do mundo, não deixa a seus críticos o menor direito de alegar que não entenderam o que ele diz; pois ele explica elaboradamente tudo de antemão. Único dentre os mais fantásticos fabulistas, ele não somente adorna a fábula com uma moral, mas realmente coloca a moral antes da fábula.

O prefácio a esta peça particular trata,[5] em primeiro lugar, de uma questão mais particular; sobre o que o Sr. Shaw parece-me provar completamente seu ponto de vista; o de que a versão darwinista da evolução não se assemelha, no mais enfático sentido da frase, à vida. É impossível acreditar que a vida seja tão separada da vontade, como se conclui da noção de que a seleção natural produz toda a variedade da natureza. Ela é uma excessiva confluência fortuita de animais, tal como uma confluência fortuita de átomos. Nesse sentido, cada capítulo da “Origem das Espécies” pode ser precisamente descrito como um capítulo de acidentes. A seleção natural é a coisa mais artificial que podemos conceber. É um eterno incidente. Mas não é somente verdade que a seleção natural não seja absolutamente natural; é também verdade ― e esta é toda a questão sobre ela ― que ela não é absolutamente seleção. Ninguém seleciona; e o nada não pode selecionar. Parece-me, no sentido mais luminoso e amplo, uma questão de senso comum dizer que, se não houve um claro projeto desde cima, então houve um obscuro projeto vindo desde baixo; e é muito possível, claro, que ambos existiram. Toda essa parte preliminar do prefácio e do argumento é razoável e solidamente fundamentado; porque ele está tratando de uma teoria definida e dando razões para se discordar dessa teoria. Em outras palavras, ele está tentando fazer em relação a Darwin o que estou tentando fazer em relação a Shaw.

A noção do Sr. Shaw não pretende ser absurda, mas é absurda; não digo isso como uma ofensa, mas no exato sentido em que tenho dito que as pessoas mais razoáveis teriam considerado absurdo o moderno discurso sobre pragmatismo e paralelismo. Qualquer pessoa racional, e especialmente qualquer pessoa racionalista, o teria considerado irracional. Qualquer cético, de Lucrécio ou Luciano, a Hume ou Huxley, teria considerado muito mais racional dizer que o mundo estivesse chegando ao seu final dentro de cem anos do que dizer que a vida de um homem não tivesse seu fim dentro de trezentos anos. A mera escala, o mero escopo das modernas profecias teria parecido completamente desequilibrado e extravagante a todas as filosofias da história da civilização. Penso que eles estavam certos; mas não somente por causa de algo externamente extravagante acerca da escala ou do escopo. O que é artificial sobre essa filosofia é que ela não aceitará a única norma que ela consegue afinal obter; aquela que Aristóteles chamou a medida de todas as coisas. Uma boa e feliz humanidade é, falando humanamente, a idéia pela qual testamos as idéias políticas e sociais; é o teste; é, nesse sentido, o ideal. Essa religião futurista não a aceitará como normal e prosseguirá caçando um novo “normal” que nunca conseguirá encontrar. Não pode nunca encontrá-lo porque não pode nunca fixá-lo. É óbvio, claro, que um ideal permanente é absolutamente necessário para algo como progresso ou reforma. Não se pode reformar o que é eternamente informe; e não se pode marchar em direção ao que está sempre em movimento. Que sentido tem o progressista garantir que as crianças do futuro terão melhores sapatos, quando o profeta já está dizendo que elas não terão pés? Pode parecer uma comparação maluca dizer que as crianças não terão pés. Mas é muito menos maluco do que dizer que as pessoas não terão filhos. E é realmente parte desse esquema futurista que a nova geração nasça madura, sem passar pela infância. Esse é um excelente modelo de trabalho para toda a questão. Para nós, um mundo sem crianças não seria um mundo melhor, mas um mundo muito pior. Não seria uma Utopia impossível, mas simplesmente um intolerável pesadelo. E isso simplesmente porque mantemos em nosso horizonte o que os loucos evolucionistas perderam de vista, que não pode haver nada mais ideal do que o ideal; e a única coisa que afeta a humanidade como um ideal é que é inteiramente humano ser divino. Para alguns de nós isso está fixado por uma divina humanidade, e mesmo por uma criança divina.  



[1] Referência à Campanha da Mesopotâmia, da I Grande Guerra, ocorrida em 1914 onde hoje é o Iraque, em que tropas aliadas (principalmente inglesas) enfrentaram as tropas das potências centrais, principalmente do Império Otomano. (N. do T.)
[2] Referência à peça de Bernard Shaw, “De volta a Matusalém”. Ver nota 4, a seguir. (N. do T.)
[3] O Revivalismo foi um movimento nascido no século XVIII, principalmente nos EUA, e pregava, por meio de ministros itinerantes, o perdão do pecado pessoal pela fé a Jesus Cristo, a responsabilidade pessoal por uma disciplina pessoal de oração, a leitura da Bíblia e apoio a uma igreja.  Tal movimento foi uma reação, dentro mesmo do protestantismo, às principais denominações, que davam muito ênfase ao ritual, a uma exatidão doutrinal, em detrimento à experiência religiosa pessoal. (N. do T.)
[4] Obra de Bernard Shaw escrita logo depois da I Grande Guerra, e publicada em 1921, composta de um Prefácio e cinco peças: No Princípio: 4004 a.C. (No Jardim do Éden); O Evangelho dos Irmãos Barnabás: Hoje em Dia; A Coisa Acontece: 2170 d.C; A Tragédia de um Cavalheiro Ancião: 3000 d.C; Tão Longe Quanto o Pensamento Pode Alcançar: 31.920 d.C. Chesterton faz uma primeira menção a esta peça, e faz a ela algumas críticas, em seu artigo de 16 de julho de 1921, no The Illustrated London News. (N. do T.)
[5] No prefácio da peça “De Volta a Matusalém”, Shaw fala do generalizado desalento e pobreza na Europa depois da I Grande Guerra e relaciona essas questões aos governos ineptos. As sociedades primitivas e simples, ele diz, eram facilmente governadas, ao passo que as sociedades civilizadas do século XX são tão complexas que aprender a governá-las adequadamente não poderia ser conseguido no período de uma vida humana. Pessoas com suficiente experiência para tal estão próximas da senilidade e da morte. A solução de Shaw é a longevidade aprimorada: devemos aprender a viver mais; um homem de cem anos deveria estar antes da meia idade. Essa mudança, Shaw prediz, acontecerá por meio da Evolução Criativa (mudanças evolucionárias que ocorrem porque são necessárias ou desejadas ― ponto de vista de Lamarque ― e não como o resultado da seleção natural darwinista) sob a influência da Força Vital (conceito criado por Henri Bergson, segundo o qual um impulso vital, ou uma força vital, gerou as variações que, durante o curso da evolução, produziu novas espécies). Shaw diz que estes são os nomes por ele escolhidos para o que as igrejas chamam de Providência e os cientistas chamam de adaptação funcional e seleção natural (dentre outros nomes) e dá os devidos créditos a Henri Bergson. Contudo ele usa ambos os termos em “Homem e Super-homem” que foi escrito nove anos antes do trabalho de Bergson ser publicado. Shaw também elabora, no prefácio, uma teoria da educação, o método pedagógico homeopático, que consistia em mentir para os estudantes até que estes fossem capazes de perceber as mentiras e discutir com os professores. (N. do T.)

04/10/2011

Leitor em dúvida sobre seminário da PUC/Pernambuco: o que uma universidade católica deve ensinar?


Leitor deixa o comentário abaixo no post 50 anos de Vaticano II: Simpósio Gaysista na PUC do Pernambuco. A seguir, tento respondê-lo.
 

1. Concordo com enfoque católico e até mesmo apóio a veemência.
2. Porém, cumpre indagar: a PUC/Pernambuco promove Simpósio em um de seus Cursos de Direito?
3. Porque se assim for, a discussão (não religiosa) do tema é inafastável. A formação do Bacharel em Direito (ainda que pela PUC) não pode prescindir da discussão (no âmbito civil) das relações denominadas "homoafetivas". Recentemente o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu sobre conversão de "união estável" em "casamento" (CIVIL, VALE REPISAR); adoção de órfãos por casal homossexual e assim por diante. Como poderia um aluno de Direito ficar fora dessa discussão no ãmbito do direito civil e do direito constitucional? Até que ponto uma Universidade Católica poderia suprimir o ensino da matéria, tal como é vista hoje pelos Tribunais Superiores (e não pelas Ordens Religosas).
Essa a reflexão que tomo a liberdade de trazer. Ainda somada a uma sincera indagação: como tratar com amor cristão aquele que  psicologicamente não se sente pertencente ao sexo físico? A OMS até já classificou o quadro como distúrbio psiquiátrico. Até o SUS (já tão enfraquecido no suporte da saúde pública em geral) autoriza cirurgia nesses casos de "extremo sofrimento emocional" por parte do "paciente" homossexual, desde que mediante fundamentado e minucioso atestado médico-psíquiátrico. Fraternalmente (e lembrando que não sou homossexual),  JBM.
 
Caro JBM,

Há variados aspectos no que você escreve. O primeiro deles, que salta aos olhos, é o seguinte: você divide a questão em dois âmbitos, o civil (jurídico, social, político) e o religioso (de cunho pessoal, individual). Essa divisão é derivada do protestantismo e apareceu fortemente com a reforma. Ela tem várias roupagens além da que você expressa. Uma delas, por exemplo, é a que divide fé e razão. A idéia por traz disso tudo é o liberalismo que acolhe sob o manto do estado todas as religiões desde que elas não interfiram com a administração estatal; administração da justiça, da economia, das relações sociais. Esta é a raiz do ecumenismo moderno, que infelizmente infesta a nossa amada Igreja. Contra tudo isso se levanta o Papa Pio XI com sua encíclica Quas Prima, de leitura obrigatória a todo o católico. Esta encíclica nos lembra o Reinado Social de Nosso Senhor e estabelece a festa de Cristo-Rei, rei com poder absoluto sobre tudo, sobre todos os aspectos de nossa vida, incluindo-se aí o jurídico, econômico, social, pessoal, psicológico, etc.

Outro aspecto de seu comentário é suas referências à OMS, SUS, sociedades psiquiátricas, etc. Ora, estas instituições em si, não são nada frente ao Reinado Social de Nosso Senhor. Agora, se você estudar um pouquinho mais sobre cada uma delas, você perceberá que nenhuma delas tem estofo moral para sequer sugerir como você deve cortar suas unhas. Se você estudar um pouquinho a história de como essas autoridades modernas que, falando em nome de uma suposta ciência, querem controlar todos os aspectos de nossas vidas, você se convencerá do que digo. Leia, por exemplo: Hope of the Wicked, de Ted Flynn; Libido Dominandi: Sexual Liberation and Political Control, de E Micharel Jones; The Acendancy of the Scientific Dictatorship, de Phillip. D. Collins e Paul. D. Collins; e Sexual Sabotage, de Judith Reisman.

Você pergunta: Até que ponto uma Universidade Católica poderia suprimir o ensino da matéria, tal como é vista hoje pelos Tribunais Superiores (e não pelas Ordens Religiosas)? Ora bolas”! uma Universidade Católica deve ensinar o que a Igreja ensina há milênios: sua doutrina religiosa e social, que inclui todos os aspectos da vida em sociedade. Deve ensinar também, é claro, o que acontece nas sociedades atuais, mas da perspectiva católica (se quiser, da perspectiva das Ordens Religiosas, como você se expressou). O problema é que nossas universidades católicas já não acreditam que a doutrina da Igreja inclui todos os aspectos da vida em sociedade; não acredita que na Igreja há resposta para todas as mais importantes indagações humanas. O problema com nossas universidades católicas é que elas já não mais são católicas.

Você ainda pergunta: como tratar com amor cristão aquele que psicologicamente não se sente pertencente ao sexo físico? Uma resposta simples: devemos tratar desta forma.

Como você vê, já não nos é possível ser católico sem muito estudo, exceto se formos brindados com graças especiais de Deus. Isso acontece porque já não vivemos, como durante séculos no passado, sob um imaginário católico, mas sim sob um imaginário ateu. Plagiando uma suposta frase de Chesterton que ninguém nunca encontrou em suas obras, o ateu não é aquele que não acredita em Deus, mas aquele que O substitui por todo o tipo de coisas que lhe parecem mais convenientes no momento, sempre fundamentado pela divindade-mor que é o cientificismo, ou a mistificação da ciência. Ou seja, o ateu moderno se assemelha mais a um politeísta materialista, muito mais rasteiro e rude que o politeísta da antiguidade greco-romana. Este ateísmo é hoje um de nossos maiores inimigos; quando caímos em suas garras, podemos ter certeza que estamos nos afastando da Igreja de Nosso Senhor, a Igreja Católica, a única que salva. É o que acontece com nossas PUC’s.

29/03/2011

Um decreto que convida?

Leio no FratresInUnun uma intervenção de Frei Charles Morerod, pela foto um sujeito muito simpático, sobre o recente decreto da Santa Sé sobre a reforma dos estudos filosóficos em instituições eclesiásticas. Notícia alvissareira, dadas as informações que temos do nível destes estudos nos seminários espalhados pelo mundo. 

Frei Morerod analisa, em sua intervenção, a importância da filosofia para o estudo da teologia. Não sou filósofo e não li o decreto, mas algumas coisas me parecem merecer um comentário.

A primeira delas é que, segundo Frei Morerod: “O Decreto de Reforma dos estudos eclesiásticos de Filosofia convida os filósofos a ‘recuperar com força a vocação original da filosofia: a busca do verdadeiro e sua dimensão sapiencial e metafísica” (§ 3).’” Duas observações são oportunas: um decreto não convida, decreta, senão não seria um decreto e sim um convite. Além disso, do jeito que estão as coisas, como convencer os filósofos modernos de que existe o verdadeiro? Aqui não basta um convite, mesmo que seja da Santa Sé.

No final da intervenção, Frei Morerod parece mudar de assunto: da teologia para a catequese e aí as coisas se complicam enormemente. Ele diz: “Por exemplo, a catequese é frequentemente confrontada com perguntas sobre a relação entre a evolução das espécies e a estória bíblica da criação. As tentativas de passar diretamente da teologia à biologia são pouco frutuosas. É necessária uma mediação filosófica.” Duas observações se impõem. A primeira delas é que a evolução das espécies não pode se confrontar com a catequese, pois esta teoria não passa de um “wishfull thinking”. Esta teoria é apenas especulação e não ciência (Ver aqui, aqui e aqui). Assim, toda vez que ela tentar se confrontar com a catequese, o catequista tem de solicitar provas desta teoria e só depois discutir alguma coisa.[1] A segunda observação a ser feita é que se fatos – fatos reais e não ciência podre – se contrapusessem à catequese não haveria mediação filosófica que resolvesse a questão. Ocorre que nenhum fato científico verdadeiro, nestes dois milênios de catolicismo, se contrapôs à catequese católica. Na verdade, o que se precisa são de exegetas muito bem preparados para nos orientar – a nós pobres católicos leigos – em como interpretar as passagens bíblicas segundo a Tradição da Igreja. Ou seja, a Igreja não pode cair nesta esparrela do cientificismo moderno (sobre cientificismo ver aqui); para lutar contra isto temos a Tradição.

Frei Morerod se equivoca ainda em dizer: “O catequista que trata da evolução é tentado a desqualificar a Bíblia como Palavra de Deus, ou a fechar-se num fundamentalismo que nega a verdade das descobertas científicas.” O Frei coloca a teoria da evolução como descoberta científica e isto ela nunca foi. Além do mais, a evolução não deve ser tema de catequese, a meu ver. Tenho aqui em mãos o Catecismo Maior de São Pio X e não vejo nada nele que toca na questão da evolução. Ou seja, não podemos admitir que uma conjectura científica muito pouco lógica possa se confrontar com verdades eternas da Doutrina Católica.

A parte filosófica da intervenção do Frei Morerod parece-me fraca. Dou um exemplo apenas, já que meus conhecimentos filosóficos são muito modestos. O frei diz a certa altura: “Um problema crucial para a teologia é a possibilidade de falar de Deus por meio de palavras plasmadas para descrever o mundo: não temos outras expressões à nossa disposição.” Aqui, sinto o (mau) cheiro de Wittgenstein e outros filósofos da linguagem, que chegaram à brilhante conclusão de que as palavras não servem para nada. Eles não notaram, claro, que para chegarem a esta conclusão usaram as famigeradas ... palavras. Ora, se Deus mesmo feito homem, se a Segunda Pessoa da Trindade, quando na terra, se o Logos Divino, usou exatamente “as palavras plasmadas para descrever o mundo” para nos ensinar tudo sobre Seu Pai, sobre a relação de Deus com o homem e, sobretudo, sobre a relação do homem com Deus, por que então o homem moderno acha que as palavras já não são suficientes para a teologia, que é o discurso sobre Deus? Se Deus as considera suficiente, não seria um orgulho extremo achá-las algo defeituosas? Todavia, deixo este assunto para gente mais competente que eu, gente do talante do tomista Sidney Silveira do ContraImpugnantes.

Como última observação, fico a imaginar se não seria importante a Santa Sé se lembrar – não sei se o novo decreto faz menção a isto – da monumental encíclica de Leão XIII,  Aeterni Patris, sobre o estudo da filosofia tomista nos seminários de então. Desta encíclica retiro o trecho que encerrará este post: “Se refletirmos sobre a maldade de nossos tempos e entendermos bem a razão do que acontece em campo público e privado, descobriremos certamente que a causa geradora dos males que nos afligem e nos ameaçam está nas doutrinas culpadas que foram ensinadas sobre as realidades divinas e humanas, primeiramente pelas escolas filosóficas e, depois, se infiltraram em todas as camadas da sociedade e foram geralmente acolhidas.” (Grifo meu)

[1] Lembro-me aqui de uma passagem de Três Alqueires e Uma Vaca, de Gustavo Corção: “O evolucionismo é uma doutrina pela qual o universo irá até as últimas conseqüências, obstinadamente, como o esquartejador. Os gênios das espécies vivem a esquartejar porcos e cavalos, e os praticantes dessa esquisita religião são indivíduos que estão impacientes por serem também esquartejados.” (Grifo meu)

21/01/2010

Lições das missas dominicais pós-Vaticano II– Parte XXVIII

Comento aqui o artigo do Sr. Domingos Zamagna intitulado “Catequese e Ecumenismo”, n’O DOMINGO de 27/09/2009.

Este artigo é muito explícito em pontos que foram apenas anunciados nos artigos anteriores. O que o Sr. Zamagna prega é má doutrina. Não é má doutrina segundo minha opinião, que, neste caso, merece tanta atenção quanto à do próprio articulista. É má doutrina segundo a verdadeira e tradicional Doutrina Católica.

Já no início do artigo, o Sr. Zamagna, citando um grande pensador do século XX, que ele não declina o nome, diz que esse século foi o século do ateísmo e do ecumenismo. Cita na maior inocência sem se dar conta de que este é causa daquele. O ecumenismo leva à apostasia e depois ao ateísmo. Se algum indivíduo minimamente inteligente acredita que em todas as religiões há meios de salvação, logo ele se desvincula da Igreja e procura algum culto que lhe seja menos exigente. De religião em religião, passando pelas religiões orientais, que não são outra coisa senão um materialismo disfarçado, ele chega facilmente ao cientificismo rasteiro, alardeado incessantemente pela mídia, e daí ao ateísmo. Isto é a conclusão lógica do ecumenismo. Ele começa negando que a Verdade esteja somente na Igreja Católica e acaba negando que exista Verdade. Este é o caminho da grande apostasia que existe hoje na Igreja.

Na sua inocência ou inconsciência, o Sr. Zamagna declara sua esperança de que o século XXI seja o século de um “reavivamento da fé e um incremento do movimento ecumênico”. Uma coisa não leva à outra, pois se estamos falando da Fé, aquela cujo depósito se encontra única e exclusivamente com a Igreja Católica, é claro que seu reavivamento significará um decremento do “movimento ecumênico”. Feliz expressão “movimento ecumênico”! Ela desnuda exatamente o que é o ecumenismo: um movimento. Como o foi, e ainda o é, o movimento comunista, o movimento fascista, o movimento ambientalista, etc. Colocamos assim o ecumenismo com seus irmãos siameses. São movimentos políticos, ao estilo de Judas Iscariotes. São heresias, no sentido em que elas são entendidas pela tradição católica.

Chama a atenção do leitor a seguinte frase do Sr. Zamagna: “a busca da unidade entre os cristãos, certamente um movimento moderno inspirado pelo Espírito Santo ...” Meu Deus! Esses pregadores pós CVII consideram que o primeiro papa foi João XXIII. Quando é que a Igreja desistiu de converter os hereges? Quando é que a Igreja deixou de rezar pela conversão dos hereges? Quando é que pregadores do talante de São Francisco de Sales deixaram de pregar aos protestantes com o intuito de sua conversão? O que é novo, e o que não é em absoluto inspirado pelo Espírito Santo, é a idéia herética de que a união dos cristãos seja feita, não a partir da conversão à Igreja Católica, mas a partir da conversão dos católicos a uma religião comum, que contenha elementos comuns aos dois (ou três, quatro, etc.) lados. Chesterton chamava esta religião de “Religião da Irmandade Universal”, cujo fundamento seria o que ele chama de “Fé Progressista”. E com quem irmanaríamos? Quem seriam nossos irmãos nesta ampla e progressista religião? Chesterton nos diz: “O deão da Catedral de São Paulo [da Igreja Anglicana] que se permite alegremente chamar a Igreja Católica de uma corporação traidora e sangrenta; o Sr. H.G. Wells que se permite comparar a Santíssima Trindade a uma dança indigna; o Bispo de Birmingham [bispo da Igreja Anglicana] que se permite comparar o Santíssimo Sacramento a uma bárbara festa de sangue.”

Diz ainda, perigosamente, o Sr. Zamagna: “A Igreja sempre nos ensinou que permanece nela a plenitude das verdades reveladas e dos meios de salvação instituídos por Jesus Cristo; mas essa convicção deve ser acolhida com humildade e no respeito às demais religiões ...” É-me impossível não lembrar novamente de Chesterton. Diz este escritor em sua obra-prima Ortodoxia: “O mundo moderno está repleto de antigas virtudes cristãs que enlouqueceram. Essas virtudes enlouqueceram porque ficaram isoladas umas das outras e vagueiam por aí sozinhas. (...) Acontece, porém, que a humildade está no lugar errado. A modéstia afastou-se do órgão da ambição e estabeleceu-se no órgão da convicção, onde nunca deveria estar. O homem podia duvidar de si, mas não duvidava da verdade. Agora se dá exatamente o contrário.” A convicção do Sr. Zamagna é humilde, pois ele relativiza a verdade, e sua ambição monstruosa: nada mais do que fundar a “Religião da Irmandade Universal”.

No final do artigo, o Sr. Zamagna declara sua concepção de catequese: “Daí a importância de, ao lado da exposição correta da fé cristã e católica, fazermos também verdadeira exposição sobre as outras religiões, sem caricaturas.” Note a expressão “fé cristã e católica”! Que significa isto? Há uma fé cristã e outra católica? Ora! se existe de início tal dúvida, como catequizar alguém? Além disso, o Sr. Zamagna está confundindo catecismo com estudo comparado de religiões.

Mas o articulista continua: “Essa mesma lealdade devemos esperar de quem não professa nenhuma crença ou segue uma religião diferente da nossa, o que não nos impede de valorizar os pontos de convergência doutrinária e ultrapassar as barreiras do preconceito para realizarmos a prática comum da justiça e do amor.” Este é um exemplo prático da humildade enlouquecida, da humildade localizada no “órgão da convicção”. A religião do Sr. Zamagna é aquela que é tão ampla que inclui, não só os inimigos declarados da Fé Católica, mas até os ateus. Inclui não só o deão da Catedral de São Paulo ou o Bispo de Birmingham, mas também H.G. Wells. Catequese para ele é a pregação do vale tudo doutrinário, do quem quiser pode entrar, do amor à criatura e não ao Criador.

1. Para fazer DOWNLOAD DO LIVRO com os primeiros 28 posts sobre a Missa de Paulo VI (e algumas coisas mais) clique aqui.

2. Para ver outros comentários sobre a Missa nova, clique: Parte XX, Parte XXI, Parte XXII, Parte XXIII, Parte XXIV, A dissolução da catequese: Romano Amério conta como foi, Parte XXV, Parte XXVI, Parte XXVII

21/09/2009

Algumas sugestões apologéticas

Fiz, recentemente, uma palestra sobre as mentiras que são ditas sobre a Igreja Católica. Falei sobre as Cruzadas, a Inquisição, o cientificismo, e as pseudo-ciências – o freudismo e o darwinismo. Registro aqui algumas fontes de informações que usei, na esperança de que isso seja importante para mais alguém.

Sobre as Cruzadas usei um livro da Regine Pernoud (versão em inglês): The Crusaders – The Struggle for the Holy Land. Há também a obra extraordinária de Steve Runciman em três volumes: A História das Cruzadas.

Sobre a Inquisição há:
1. No site da Permanência: A História da Inquisição, A Inquisição Espanhola: Uma Questão Candente, O Processo Galileu.
2. No site da FSSPX dos EUA: Defense of the Inquisition. Este foi o melhor texto. Estou tentando contatar o autor, pois foi isto que a FSSPX americano me sugeriu, para solicitar a permissão para traduzir o texto para este blog. Estou tendo muitas dificuldades.
3. O livro “A Inquisição em seu Mundo”, do prof. João B Gonzaga, Editora Saraiva, 1993. Este livro está fora de catálogo e só é possível encontrá-lo em sebos.
4. Sobre o processo contra Galileu há o livro de Pietro Redondi, “Galileu Herético”, Companhia das Letras, 1991. Hoje está fora de catálogo.
5. Em 2006, traduzi para o MSM um interessante artigo de Gene Calahan sobre o caso Galileu, que foi recentemente publicado na Revista Mineira de Psiquiatria.

Sobre o cientificismo:
1. Há o grande Gustavo Corção. Um de seus textos sobre o assunto eu já postei aqui no blog.
2. Há um livro recente e muito bom de David Berlinsky: The Devil Delusion – Atheism and its Scientific Pretensions, cuja resenha, de George Gilder, já traduzi neste blog.
3. Há também um livro que sempre cito aqui no blog: Não tenho fé suficiente para ser ateu, de Geisler e Tuker, Editora Vida.

Sobre Darwinismo:
1. Há o livro de David Berslinsky citado acima.
2. Há o livro de Geisler e Tuker citado acima.

Sobre Psicanálise há o extraordinário livro de Rudolph Allers, “Freud: Estudo Crítico da Psicanálise”, Livraria Tavares Martins, Porto, 1970. Imagino que este livro seja encontrado somente em sebos. Agradeço ao prof. Carlos Nougué a sugestão de leitura deste livro em seu site Contraimpugnantes. Vale a pena ler o artigo do professor intitulado “Castidade e teoria psicanalítica”.

Há ainda, sobre esses assuntos, o site Montfort, do prof. Orlando Fedeli, onde se podem encontrar diversos textos, sobretudo respostas às cartas, que são muito elucidativos. Usem o mecanismo de busca do site que vocês encontrarão muita coisa boa.

11/05/2008

Uma aula de Gustavo Corção: Cientificismo, senso comum e a Igreja

Gustavo Corção

Nota do blogueiro: Neste texto excepcional (parte do capítulo III – A revolução se avoluma – do monumental “O Século do Nada”), Gustavo Corção nos ensina o que é cientificismo e quais são suas conseqüências, assunto de uma recente resenha que publiquei neste blog. O texto é longo e demandará muita paciência ao leitor. Talvez nem seja um texto adequado a um blog. Contudo, como o livro de Corção está fora de edição há anos, senão décadas, e é dificílimo de encontrar em sebos, resolvi publicá-lo assim mesmo. Fiz muitas correções de texto e de ortografia no texto original. A edição de que disponho foi muito mal revisada e não faz jus à importância do texto, nem à erudição do autor. Introduzi também algumas observações, nos lugares que considerei conveniente, e as marquei com “N. do B”, nota do blogueiro, para distingui-las das notas do próprio Gustavo Corção. Faço também alguns destaques no texto, colocando-os em negrito. Vamos ao texto!


Com o objetivo de apontar, na bacia hidrográfica a que nos referimos atrás, os principais afluentes que convergem todos na caudalosa Revolução que faz de nosso século um estuário de contestações e recusas, comecemos por este "ismo" que, no livro anteriormente citado (Dois Amores, Duas Cidades, AGIR 1967), foi apontado como uma das primeiras conseqüências da poluição nominalista.[1] Cremos que vale a pena transcrever algumas linhas dessa obra:

Como atrás já dissemos, o termo cientificismo não designa o maior incremento de pesquisas nem o maior ardor de estudo nos domínios das ciências naturais. Tudo isto, em si, é bom. O que não é bom é o estado de espírito que coloca a ciência da natureza na presidência de uma civilização, depois da expulsão da Sabedoria.

Uma vez que a inteligência não alcança as coisas superiores — diz o homem moderno — apliquemo-la no trabalho de apalpar o fenômeno para deles tirar uma nova confiança em nós mesmos, e para ordenhar a nosso gosto a imensa mãe telúrica, brutal, que às vezes, no seu sono pesado, mata os próprios filhos.

Esse estado de espírito nos primeiros tempos produzirá grande euforia. A humanidade, depois de descobrir a pólvora, o movimento dos astros, a força do vapor, o poder mágico da eletricidade, terá, como teve nos séculos XVII, XVIII, XIX,
momentos de inebriado otimismo.

A cândida idéia que logo ocorrerá nos espíritos fracos é a de que, na continuação dos tempos, a Ciência do fenômeno polirá todas as arestas do Velho Homem, iluminará todas as trevas, resolverá todas as dificuldades. Ora, essa idéia, comicamente
falsa, extravagantemente, delirantemente falsa foi difundida e tornou-se o ar que respiramos e a água que bebemos, e isto aconteceu porque a Civilização Ocidental moderna já não tinha à sua presidência os dados da antiga Sabedoria.
Se a tivesse, ouviria a censura clara e irreputável: a ciência dos elementos exteriores dilata o campo do domínio do homem sobre as coisas exteriores e inferiores, mas nada acrescenta ao domínio do homem sobre si mesmo.
Uma civilização ( . . .) não pode ser governada pelas ciências da natureza que é cega, surda e conseqüentemente muda para os problemas mais comuns e mais profundos de nossa vida. Como já disse em outra obra[2], a ciência pode-nos dizer que nossos pulmões estão anormais e devem ser tratados desta ou daquela maneira, mas é inteiramente incapaz de nos dizer, de nos sugerir o que podemos ou devemos fazer de nossos pulmões normais.

Hoje eu não diria que o cientificismo, isto é a falsíssima idéia que espera da ciência inferior solução para os problemas superiores, difundiu-se depois da desmoralização e do destronar da Sabedoria; antes diria que essa tentação foi um dos fatores que contribuiu para a rejeição da Sabedoria. E, assim dizendo, estarei apontando o "cientificismo" (e não a legítima glória das ciências) como um dos fatores do revolucionarismo vacuador da civilização.[3]

O cientificismo e o senso comum [4]

Para entender bem o processo demolidor da subversão cientificista é preciso compreender a imensa significação que teve nesse drama a desmoralização do "senso comum" promovida pelos "intelectuais" a partir do século XVIII sempre em nome da "Ciência". Todo o drama cultural que no século XVIII capitaliza explosivos para a Revolução Francesa começou pelo repúdio do senso comum, que eu chamaria de "pétite sagesse" e que foi a primeira vítima da torrente nominalista que inundou os tempos modernos. E para compreender bem a gravidade e a infinita conseqüência desse processo precisamos saber o que não é, e o que é o "senso comum" neste contexto. Poderia remeter o leitor à citada obra (Dois Amores, Duas Cidades, AGIR, 1967, vol. II p. 57 e seg.) ou recomendar o profundo estudo de R. Garrigou-Lagrange, Le Sens Commun (Desclée de Brouwer, Paris, 1936); mas cremos prestar bom serviço avivando e condensando aqui as noções principais.

De início lembremos que todo o homem já nasce com todos estes dons de sua natureza racional:

a) a alma espiritual ou forma específica pela qual o homem é homem;

b) as potências da alma: a inteligência e a vontade racionais;

c) as inclinações inatas determinadas pelo condicionamento (inclusive o corpóreo e o sensível) que favorecerá ou desfavorecerá a sorte ulterior dos hábitos adquiridos:

d) os primeiros princípios, que são dons de natureza.

A partir desse núcleo essencial começa a história das aquisições intelectuais e morais. O senso comum se situa na zona dos primeiros acervos da razão especulativa e da razão prática, é uma primeira metafísica rudimentar, e uma primeira filosofia moral. Situado entre a cercadura dos primeiros princípios, e a cercadura maior e mais confusa do consabido cultural de cada época, ouso dizer que o senso comum, de importância vital para todo o desenvolvimento ulterior do homem, está muito mais próximo dos primeiros princípios do que do firmamento das coisas sabidas por todos num momento histórico, e portanto participa mais da perenidade da metafísica (digo da reta metafísica) do que da fluência e da mobilidade do consabido que anos atrás ignorava totalmente os raios laser, o código genético, a existência de um planeta transnetuniano e outras coisas desse tipo.

O senso comum é um acervo das primeiras elaborações dos primeiros princípios e poderá ser enriquecido ou deformado pelo envoltório cultural.

Gostaria de me estender longamente sobre a transcendental importância do senso comum tanto na vida temporal, particular ou pública, como na vida da Fé, que se torna dificilmente praticável numa sociedade que perde a docilidade ao real, e o instinto racional quase espontâneo que levaria a razão a bem considerar as coisas se não houvesse perturbações culturais trazidas pela enxurrada da história. Sem o senso comum sadiamente começado e alargado sem estorvos, dificilmente pode o homem começar a fazer filosofia e teologia, dificilmente pode ser vivida a sabedoria. Este é o drama dos tempos modernos, desde a Renascença e a Reforma, que na obra anteriormente citada chamei "civilização do homem exterior". E nesta "civilização", mal nascida de imensos dramas intelectuais, morais e religiosos de toda a Cristandade, e marcada com os sinais genéticos do nominalismo, um dos fatores mais nocivos para o senso comum, e portanto a todo o edifício da civilização e de seu relacionamento com a Igreja, foi o cientificismo. Torno a dizer: não foi em si o progresso da ciência das coisas exteriores e inferiores — a física, a astronomia, etc. — que é razoável e constitui uma glória para o homem, e sim o preço filosófico e religioso que custou esse progresso, por ter sido orgulhosamente armado em forma de rejeição de mais altos graus de saber, isto é, em forma de revolução.

Até hoje a pestilência do cientificismo continua a produzir seus frutos, como se vê no prazer sádico com que um Betrand Russell, sob pretexto de filosofia matemática, tentou desmoralizar o senso comum, e como se vê no próprio nível vulgar da estupidez moderna que é, toda ela, tecida de pedante e asmático cientificismo.

Creio poder afirmar que um dos grandes pioneiros desse espúrio subproduto das ciências foi Galileu — ou mais exatamente — foi o "affaire Galileu" em que o próprio foi um dos agentes, irias não o único. É pena que Jacques Maritain não tenha introduzido este d'Artagnan entre os Três Mosqueteiros da Revolução (Trois Réformateurs) que na verdade foram quatro. Para maior aflição nossa, o grande tomista teve a infelicidade de abordar o caso Galileu pela outra ponta que só vem servir os interesses da grande Rejeição. No seu livro recente, De l’Église du Christ (Desclée de Brouwer, 1970), Maritain aborda o caso mais explorado dos últimos 4 séculos como se estivessem em jogo os direitos da Ciência feridos pelo Santo Ofício, e não como efetivamente estava em jogo a pretensão do "cientificismo" e a injúria feita ao senso comum em nome do "progresso da Ciência"[5].

Em vista do papel de destaque que esse caso desempenhou no afluente revolucionário que nos trouxe a este estuário de erros, não resisto à idéia de inserir, com a maior condensação possível, algumas considerações que, de início, têm o picante do desafio, porque levam a mostrar que, no caso, certo estava o Santo Ofício e errado Galileu. E antes que clamores de asneiras escandalizadas cheguem ao meu tugúrio, apresso-me a explicar o problema em termos de exemplar moderação. E desde logo observo que só entenderá alguma coisa do imbróglio quem tiver, razoavelmente claras, meia dúzia de noções.

Entre essas noções dou lugar de destaque ao "senso comum" que é, por assim dizer, uma primeira trincheira onde temos de defender o humano. Forçado pelo espaço a contentar-me com o que disse no tópico anterior, e na leitura que remeto a Garrigou-Lagrange (Le Sens Commun), passo a ocupar-me da segunda, que diz respeito à estrutura e aos métodos das ciências da natureza: física, química, biologia, astronomia, etc.

O "depósito observado" e as "teorias"

Desde a Idade Média, e principalmente desde Santo Tomás, sabemos que convêm distinguir, no cabedal científico a que damos vários nomes, conforme seus objetos materiais, duas coisas:

a) O acervo dos dados observados e trazidos por observações e experimentações à prova da evidência sensível. Demos a este principal patrimônio, e principal critério das ciências o nome de "dado fenomênico" ou de "fenômenos observados", ou ainda lembremos o nome que lhe davam os escolásticos: "apparentia sensibilia" onde o termo "apparentia" não quer dizer "o que parece ser . . . " e muito menos "o que parece ser, mas não é", e sim "o que é evidente para o conhecimento sensível".

b) A segunda coisa é a síntese interpretativa feita de teorias destinadas a propor uma explicação conexa aos vários elementos dispersos do dado observado.

E aqui cabe um reparo importante: a teoria interpretativa, apesar de seu talhe imponente, é cientificamente sujeita ao observado, aos fenômenos, e só se mantém enquanto suas articulações e a costura de seu tecido de hipóteses explicativas conseguem dar conta dos dados observados. Santo Tomás, na questão relativa à possibilidade de prova metafísica da Trindade (S.T. Prima, Qu.32), chega à conclusão de que seria possível sem a Revelação adivinhar, propor a idéia de um Deus Trino refletido em todas as coisas, mas não é possível prová-lo como provamos a existência de um Ato Puro ou de um Ser A-ser. E então, para ilustrar genialmente com um exemplo astronômico, Santo Tomás diz que é evidentemente provado o movimento dos astros, que naquele tempo se enquadravam para cálculos de eclipses, etc, na teoria dos epiciclos que viera do Almagest de Ptolomeu e durante quatorze séculos conseguiu enquadrar os "dados observados"; mas logo o Doutor Angélico acrescenta com o mais lúcido discernimento científico (além dos outros mais altos) que isto não provava a teoria dos epiciclos, e que amanhã ou depois outra teoria interpretativa poderia dar uma explicação mais simples. O que importava era a salvaguarda de "depósito observado". Digamos como os escolásticos: "opportet salvare apparentia sensibilia".

Dois exemplos de ruptura de uma teoria interpretativa

Há nos tempos modernos dois exemplos curiosos e curiosamente cercados de circunstâncias e ressonâncias diversas. Comecemos pelo segundo: a saturação e os primeiros estalos de uma das teorias interpretativas mais gloriosas da ciência moderna: a da síntese newtoniana. Durante mais de dois séculos o mundo ocidental viveu tão solidamente agarrado à gravitação universal formulada por Newton que muitos, mesmo nos grêmios mais científicos, chegaram a esquecer a essencial distinção, i.e., chegaram a esquecer que a teoria interpretativa pode ter as costuras rompidas pelo advento de um fenômeno observado que nela não consiga encontrar explicação cabal. Tal era a convicção, mais cientificista do que científica, que milhões de pessoas não hesitariam em dizer que estava matematicamente provado que os corpos se atraíam na razão direta das massas etc. etc.

Ora, essa afirmativa era errônea (filosoficamente) porque nada se pode demonstrar matematicamente de coisas físicas. Pode-se observar, pode-se medir, mas essa mesma não é uma operação matemática e sim física.

Hoje sabemos que a grande síntese newtoniana não dava boa conta, por exemplo, do movimento do periélio de Mercúrio, nem conseguia enquadrar bem o eletromagnetismo depois de Maxwell. Por essas e outras e sobretudo depois de Plank e Einstein operou-se uma transformação do sistema de síntese explicativa para cumprir o preceito escolástico: salvaguardar o depósito observado. Não se trata pois de reformar, de revolucionar, e sim de procurar novos meios de sistematização que continuem o acervo adquirido e crescido. Não creio que tenha passado no espírito de Einstein ou de Plank que Newton fosse um trevoso medieval deixado para trás a babar na gravata, ou na gargantilha, que era o que se usava naquele tempo em que também se usava a ação a distância como vitória sobre o aristotelismo.

Aliás, convém lembrar que Netuno, descoberto com cálculos de Lavoisier do mais ortodoxo newtonismo, até a 6ª ou 7ª casa decimal do logaritmo, não tornou a mergulhar no ignoto, nem os eclipses, que ainda se calculam na mesma honrada mecânica celeste, que tão bons serviços prestou, deixam de comparecer, com a prevista pontualidade. Mas o fato incontestável é que a Física newtoniana assim chamada por seu lado hipotético-explicativo, cedeu lugar a uma outra Física que ainda se debate perdida numa excessiva soma de dados que andam à procura de uma nova roupagem.

O segundo exemplo de mudança de teoria interpretativa para mantença do "depósito observado" foi cronologicamente anterior à transmutação Newton-Einstein e ocorreu num clima de euforia já revolucionária. Refiro-me ao "caso Copérnico", que merece um tópico especial, mais por seu alarido do que por seu valor epistemológico.

A "revolução" coperniciana

A contribuição de Copérnico, por causa do ponto histórico em que ocorreu, produziu no mundo um ataque de estupidez que dura até hoje. Até então o sistema de Ptolomeu permitia prever a posição dos astros e o comparecimento dos eclipses, com uma precisão que só dependia do aperfeiçoamento dos aparelhos de medida (isto é, do instrumental de observação física), e todo ele se firmava em referenciais que estavam na Terra e eram tidos por imóveis. Da escolha desse sistema referencial fixado no observador terrestre resultavam os famosos epiciclos para adequada, e tão rigorosa quanto possível, previsão do movimento dos astros. Durante quatorze séculos esse majestoso sistema deu conta dos "dados observados", ou salvou os fenômenos como dizia Santo Tomás. Copérnico fez a experiência placidamente prevista por Santo Tomás; imaginou outra escolha de eixos coordenados com centro no Sol e viu que toda a geometria do movimento se simplificava se colocasse o Sol no centro do sistema planetário e se partisse do puro postulado (sem nenhuma base na observação) de serem circulares os movimentos dos planetas em torno do Sol.

É inegável a intuição que teve Copérnico nessa escolha de novos referenciais, mas há um colossal exagero no valor que passa o mundo inteiro a atribuir-lhe. Na verdade, nem o instrumental matemático possuía esse cientista e foi um matemático alemão Georg Rhéticus (1514-1516) que, ouvindo falar em sua teoria, veio trabalhar dois anos com ele. Com os dados observados retomados no século XV por George Burlach (1423-1461), da Universidade de Viena, e sobretudo por seu discípulo Johannes Miiller (1436-1476), que haviam estudado na Itália as versões gregas do original de Ptolomeu, puderam ambos elaborar a obra principal que Copérnico publica: De revolutionibus orbium coelestium. Morre poucos anos depois (1543) sem ser
incomodado por ninguém e talvez sem imaginar que lançava uma outra revolução diferente do giro circular dos planetas. A chamada revolução coperniciana é realmente uma revolução no sentido que hoje dou a este termo. Sem culpa nenhuma do autor, a mudança de eixos de uma cinemática trouxe fortes abalos culturais, e muita gente sentiu efetivamente um abalo no nível do senso comum, e até hoje as vítimas do cientificismo exageram o feito, ignoram as controvérsias, ignoram que a estrepitosa "revolução coperniciana" nada descobriu na natureza física dos astros, mas pouco mais fez do que rearrumar os eixos de uma geometria do movimento, i.e., de uma cinemática. E sobretudo ignoram que, facilitando embora os cálculos astronômicos de previsão da ascensão reta e da declinação dos planetas, e das datas dos eclipses, o sistema do Copérnico não trazia melhor aproximação do que os cálculos feitos com os epiciclos de Ptolomeu, e até de certo modo se arriscava a trazer erros maiores, porque, enquanto os astrônomos tradicionais se apegavam aos dados observados que extrapolavam, Copérnico apegava-se a priori, e sem base física, à idéia antiqüíssima, pitagórica, de órbitas circulares.
Há, assim, na festejada novidade um divertido anacronismo que vem precisamente do fato de ser mais imaginoso do que cientista o autor de De revolutionibus. . ., e do fato de não ter sido dócil ao observado como ensinava Santo Tomás; "opportet salvare apparentia sensibilia". É curioso notar que o conhecido autor da revolução coperniciana, além de apriorista em matéria física, era rigidamente tradicionalista quando censurava Ptolomeu por ter-se afastado demais de Pitágoras. E eis aqui um divertido paradoxo resultante da mistura do cientificismo com uma espécie de mística, ou de gnose, com a qual Copérnico é ao mesmo tempo o abridor de portas do século XVI e o fiel pitagórico de vinte e dois séculos atrás! Kepler (1571-1630), quando descobrir a forma elíptica das órbitas planetárias e as famosas três leis do movimento planetário, dirá que Copérnico não soube aproveitar a riqueza que tinha nas mãos. Cumpre porém notar que, mesmo depois do apuro trazido pelas leis de Kepler ao movimento dos planetas, aplica-se à astronomia do tempo a mesma queixa formulada por Francis Bacon contra Galileu e Copérnico.

Adversário do método elaborado por Galileu, que consiste em isolar os fenômenos do contexto natural, para estudar somente os aspectos mensuráveis, e para desenvolver depois vastas teorias matemáticas sobre a base dos resultados, Bacon reclama a consideração dos fatos que tenham relação com a matéria tratada: em astronomia, por exemplo, a natureza física dos corpos celestes, que Copérnico desprezava, e a resistência do ar na queda dos corpos, desprezada por Galileu... [6]

Na verdade, a astronomia até Kepler, e antes de Newton, reduz-se a uma cinemática baseada em medidas de ângulos: era uma trigonometria esférica em movimento, com duas dimensões angulares, e uma 3ª dimensão de duração t. Exagerei dizendo em outro lugar[7] que se reduzia a uma cinemática colocada no 2º grau da abstração matemática. Onde há medida experimentalmente feita, com régua e transferidor, por exemplo, já há uma espécie de topografia do espaço físico. O que se pode dizer, sem exagero, é que aquela astronomia era de uma magreza física esquelética que não tinha o direito de passar dos entes de razão, ou da teoria interpretativa para matrícula no acervo fenomênico, a não ser com prova física, isto é, reduzida experimentalmente a uma evidência sensível, a uma "apparentia sensibilia".

Mesmo depois de Newton (1642-1727) é ainda prematuro dizer que está fisicamente provado o movimento de rotação da Terra, e fisicamente justificada a escolha do centro do sistema planetário no astro que condensa a maior massa. É somente depois da medida da constante g de gravitação, realizada em laboratório por Cavendish, (1731-1816), que a chamada lei da gravitação universal pode ser provocada, medida e, assim, enquadrada no acervo fenomênico. Mas ainda é cedo para dizer que está cientificamente provado que o Sol atrai os planetas na razão direta das massas e na inversa do quadrado das distâncias, porque o verbo atrair implica toda uma teoria interpretativa. Na física moderna ainda não se solidificou uma tranqüila teoria da gravitação, mas a tendência parece ser a de procurá-la mais numa "forma" do espaço-tempo em torno de uma massa do que numa ação a distância.

Ainda depois de Kepler, Newton e Cavendish é prematuro falar em prova física do movimento diurno da Terra, que só ingressa no patrimônio do "dado observado" com as experiências do pêndulo de Foucault, na cúpula do Panthéon de Paris, em 1850.

Reflexões sobre ciência autônoma e heterônoma

Apesar do título rebarbativo, o que queremos dizer neste tópico é simples e relevante: sendo as ciências empíricas (a astronomia, a física, a biologia, etc.) compostas de duas partes, um acervo fenomênico ou um "dado observado" de um lado, e uma "teoria interpretativa" de outro, é fácil adivinhar a soma de equívocos que advirá quando tomarmos uma coisa pela outra. E aqui cumpre notar que, embora não pareça, a primeira parte é muito mais inacessível e impopular do que a segunda, porque são poucos os que entram em confronto direto e fraterno com o irmão-fenômeno, e muitos são os que lêem as notícias das sínteses teóricas, quase sempre em formas vulgarizadas e brutalizadas.

Tomemos por exemplo o movimento diurno da Terra.

Muito poucos são os que fizeram ou refizeram a experiência de Foucault, e os que, com o olho colado à ocular do círculo meridiano, puderam verificar com aproximação cada vez maior a uniformidade do movimento angular dos "pontos no infinito" que cruzam os fios do retículo. Todos os outros que falam da rotação da Terra, de oitiva falam. De ouvir dizer e não de coisa vista ou diretamente ouvida. Essa grande e respeitabilíssima maioria dos não-astrônomos, o pouco que sabem de astronomia não o sabem com ciência adequada e autônoma, sabem-no por informação, por fé humana, ou por ciência pobre, inadequada e heterônoma. A mais lúcida inteligência do mundo, digamos por exemplo Jacques Maritain, fala com toda a simplicidade do acerto de Galileu, da mancada do Santo Ofício, sem se dar conta de que a verdade "científica" do movimento da Terra só é por ele conhecida em nível colegial de ciência heterônoma, colada por informação.

Arma-se aqui um problema filosófico interessante e indispensável à compreensão dos equívocos tecidos em torno do "caso Galileu". Será hoje o movimento diurno da Terra um simples dado do consabido, uma ciência realmente heterônoma de pura informação, ou será hoje um dado do senso comum e, portanto, sob certo título, uma ciência muito mais densa do que uma simples informação?

Respondeo dicendum que, nos tempos de Galileu e Copérnico, a rotação da Terra era um dado da teoria interpretativa, sem prova física para os próprios autores e defensores da idéia, que abusavam de seus dons intuitivos, divinatórios, ou de suas faculdades oníricas quando a apresentavam como fisicamente provada. Galileu chegou a dizer, sem direito de fazê-lo, que sentia-o (o movimento da Terra) como se o tocasse com as mãos. O glorioso florentino, nesse passo, abusava de seus talentos e cometia fraude epistemológica. E aqui não me venham dizer — pelo amor de Deus e das verdades menores — que o futuro deu razão a Galileu e provou que era verdade o que afirmava, porque a honra e dignidade do cientista não consiste em ter intuições de que outros mais tarde darão a prova adequada a esse grau do saber. Não, mil vezes não. A honra e dignidade da ciência não consiste em acertar como na loteria (que só mais tarde comprova o acerto), consiste essencialmente em dar as razões do que assevera e demonstrar o que diz com os recursos adequados a esse grau de saber. Foucault poderia dizer, metafisicamente, que sentia o movimento diurno da Terra como se o pegasse, mas Galileu, sem fraude ou abuso, não podia. Mas não é ainda aí que se situa o nó da questão para o qual abrimos este "respondeo dicendum", é na posição do problema em relação ao senso comum. Perguntávamos se hoje o movimento da Terra é um simples dado do consabido, ou do dilúvio de informações, ou se já ganhou lugar no senso comum. E agora respondo dizendo que hoje o movimento da Terra se incorporou aos dados periféricos do senso comum porque entre os dados mais nucleares da petite sagesse está a confiança no que se tornou opinião universal e incontrovertida apesar da minguada minoria dos astrônomos.

Diferente era a situação no tempo de Galileu: a influência do consabido da época no senso comum tornava-o pouco acolhedor de uma transposição de eixos que colocasse o observador no Sol a menos que se atribuísse ao Sol uma imutabilidade e outros atributos cientificamente desnecessários para salvaguardar o "depósito observado", mas psicologicamente necessários para amolecer as resistências do senso comum e predispô-lo a novidades fantásticas de caráter gnóstico em que se misturavam dados de ciência e de religião entremeados.

O heliocentrismo e o culto do "Deus-Sol"

A História é sempre composta de uma face clara, consciente, superficial, onde se demarcam as datas, se travam as batalhas e se mudam os regimes, e de outra subterrânea, por onde correm os vasos capilares de mistério, irracionalismo e perpétua conspiração que os homens inventam nas profundezas da alma com a ilusão de conjurar assim as variadas aflições da vida.

O claro e estridente século da Renascença e da Reforma, com toda a sua presunção cientificista, ou por causa dela, não escapou à regra geral e até pode-se dizer que confirmou-a com certo exagero. Assim é que no próprio domínio da ciência que produzirá o cartesianismo e o culto das idéias claras vê-se o lado sombra formado pelo culto religioso do Sol, que vigorava na era das pirâmides, no Egito e na Mesopotâmia.[8]

Num recente artigo,[9] Lewis Mumford assinala a estranha composição do "progressismo" do século XVI, metade mecanicista e metade gnóstico, sendo de notar que a parte gnóstica, esotérica ou mágico-supersticiosa, não era trazida pelas classes mais ignorantes, mas pelos mesmíssimos "filósofos" que enaltecem a ciência e que no século seguinte começarão a preparar a revolução. Vale a pena inserir aqui algumas passagens de Mumford:

Se algum ponto da História pode ser assinalado como o início da moderna concepção do mundo, concepção mecânica, expressão de uma nova religião e base de um novo sistema de poder, esse ponto está na quinta década do século XVI. Nesse tempo não foi apenas o sensacional De revolutionibus Orbium Coelestium, de Copérnico, que veio a lume; foram também o tratado de anatomia De Humani Corporis Fabrica, de Vesalius (1543), a Ars Magna, álgebra de Jerônimo Cardano (1S4S), e a teoria da bacteriologia patogênica enunciada por Fracastor em De Contagine et Coníagionis Morbis (1S46). Cientificamente pode-se dizer que foi a década das décadas.


A maneira usual de interpretar a chamada revolução coperniciana é a que considera como principal efeito a ruptura de uma teológica e assentada concepção, pela qual Deus colocara a Terra no centro do universo, e fizera do homem o objeto último de Sua atenção. Se o Sol é efetivamente o centro do universo, então toda a estrutura da teologia dogmática cristã — com seu único ato de criação e a alma humana tida como interesse central de Deus, e a provação moral do homem neste mundo como preparação para a vida eterna em conformidade com a vontade de Deus — toda essa estrutura está ameaçada de colapso.

Observo eu que não é a Sagrada Congregação do Santo Ofício que está dizendo essas coisas em Roma nos idos de 1616, é o atualíssimo e muito lúcido autor de The History of Utopies que nos descreve o impacto cultural, teológico e, conseqüentemente, o impacto na fé católica trazido pelo "heliocentrismo", e nos prepara o espírito para a divertida surpresa de ver o refluxo desse impacto sobre os próprios autores das descobertas, invenções, utopias ou sonhos.

Continua Mumford:

Visto através das novas lentes da ciência, o homem encolheu. Em termos de escala astronômica, o gênero humano totaliza pouco mais do que um efêmero e inquieto mofo deste pequeno planeta. A ciência, que realizou esta impressionante descoberta pelo simples exercício das naturais faculdades humanas e não pela divina revelação, tornou-se a única fonte de autêntico conhecimento digno de crédito. Tudo isto, porém, embora nos pareça hoje tão claro, não foi imediatamente reconhecido por aqueles que estavam mais profundamente cativados pela nova religião...


Cabe aqui um reparo: esse encolhimento do homem não ocorreu logo no século XVI, após a formulação do heliocentrismo por Copérnico, porque a escala astronômica só ganhou divulgação depois da medida da distância do Sol que, não podendo ser feita por método puramente trigonométrico com base na Terra como a distância da Lua, foi efetivada pelo astrônomo Halley em 1631 por um processo mais indireto, que envolvia a observação de uma passagem de Vênus sobre o disco solar observada por dois astrônomos muito afastados. Essa distância, que orça por 149.000.000 quilômetros, passou a ser o metro da nova escala astronômica que
somente no século XIX (1840), quando Bessel mediu a primeira paralaxe da estrela 6N do Cisne, ganhou as dimensões de anos-luz que logo passaram de 4,3 (da estrela mais próxima, Alfa do Centauro) para milhares, milhões e bilhões de anos-luz com os sucessivos progressos da espectroscopia, da fotometria e da atual radioastronomia. Como, porém, "tudo isto foi descoberto pelo simples exercício natural das faculdades humanas, segundo observa Lewis Mumford, o conseqüente encolhimento do homem esmagado pela escala astronômica foi alternativamente seguido de momentos de narcisismo idolátrico: o próprio homem, em vez de passar de pulga a Napoleão, como na cabeça de Raskalnikoff, oscilava vertiginosamente entre Deus e Nada. Nunca chegara a tão delirante amplitude a oscilação psicológica a que Oliver Brachfeld[10] denominou "complexo de Gulliver". E nunca se descurou tanto o conselho de Pascal: não é bom falar na glória humana sem evocar sua miséria, mas também não é bom demorar-se em sua miséria sem lembrar sua glória.

Outro reparo: Mumford diz que todas as exorbitâncias do cientificismo, que hoje nos parecem claras, não foram imediatamente percebidas por aqueles que estavam profundamente cativados pela nova religião. Ora, isto que parece tão claro hoje a um dos mais argutos observadores da atualidade continua obscuro para os "progressistas" da nova religião, e o que disse ele ter passado despercebido aos "progressistas" da nova religião do século XVI não passou despercebido ao Santo Ofício, cujos juízes, no caso Galileu, sentiram, no nível do senso comum vivificado pela Fé, ou graças aos dons do Espírito Santo, não apenas uma tese ousada e mal fundada, mas todo um intrincado processo de cientificismo e de gnose que divinizava o Sol, no século XVI, como nos mostra Lewis Mumford, que mais adiante escreve:

O efeito imediato da nova teologia foi o de reviver concepções que datavam do tempo das pirâmides no Egito e na Mesopotâmia.

Alongando-se, no referido artigo, em considerações que merecem ser lidas e meditadas, em certa altura Mumford cita Battersfield, que diz: "Copérnico se torna lírico e chega quase à adoração do Sol quando escreve a respeito de sua natureza monárquica (regai) e da posição central que ocupa". Tyllyard assinala que o Sol, na era elisabetana, era geralmente considerado como a contraparte material de Deus.

O caso Galileu [11]

Creio que agora temos, na condensação que nos foi possível, as várias noções e os vários dados que permitem uma abordagem do caso Galileu que permitirá, assim o espero, desanuviar mais uma das tantas histórias mal contadas com que se tece a história.

Eis os termos em que o Santo Ofício, sob o pontificado de Paulo V, foi consultado em fevereiro de 1616.

Duas proposições foram apresentadas.

1 — O Sol é o centro do mundo e por conseqüência imóvel de movimento

2 — A Terra não é o centro do mundo nem imóvel, mas move-se ela toda por um movimento diurno.

Poucos dias depois a resposta é dada:

a) "A primeira proposição é insensata e absurda em filosofia e formalmente herética, por contradizer expressamente muitas passagens da Sagrada Escritura, conforme a propriedade dos termos, segundo a
interpretação comum e o sentido dos santos padres e dos doutores da teologia";

b) "quanto à segunda proposição, ela merece a mesma censura filosófica, e em relação à verdade teológica é pelo menos errônea na fé.[12]

Dois dias depois, o comissário do Santo Ofício notifica a Galileu a censura lavrada contra a opinião segundo a qual o Sol está no centro imóvel do universo, e a Terra se move. Essa opinião não deve ser sustentada nem defendida. Galileu é advertido das penas a que se expõe e promete obedecer.

Aqui termina a primeira parte do caso Galileu, e desde já se escandalizam os que vêem em tais condenações do Santo Ofício um crime de lesa-majestade contra a Ciência. Ora, por incrível que isto pareça aos que se deixaram conscientizar pelo culto da "livre pensée" (que na verdade, como veremos, é um culto da "pensée vide"), ouso dizer que essa reação é errônea. O próprio Maritain, que quer ser mais anti-antimoderne do que nunca, diz mais adiante[13] que: "se os juízes do Santo Ofício se enganaram tão gravemente foi porque, por um errôneo princípio ainda mais perigoso (por ser de alcance geral) julgaram que a ciência dos fenômenos estivesse sob a jurisdição da teologia e de uma interpretação geral da Sagrada Escritura”. Pode ser — digo eu a título de hipótese — que os juízes do Santo Ofício acreditassem nesse falso princípio epistemológico, mas o que é certo, e duvido de que algum filósofo ou teólogo possa contestar-me, é que, se a teologia e o Magistério da Igreja não podem julgar as ciências dos fenômenos nos seus processos intrínsecos e próprios, podem e devem julgar o uso que o cientista faz das intuições e teorias interpretativas do fenômeno. Não ignoro que essa jurisdição da Igreja é hoje negada e recusada em todo o nosso bravo novo mundo gloriosamente pluralista. Mas é preciso lembrar que, no tempo de Galileu, a Igreja e o Santo Ofício ainda se sentiam responsáveis por todos os passos em que a prudência pastoralmente recomendava moderação nos domínios da ficção e do sonho científico. Além disso, explica-se certa brutalidade na sumária condenação do Santo Ofício, que parece efetivamente colocada em termos dogmáticos, pela consciência que tinha de representar ainda a paternal proteção de uma civilização cristã.

Podemos admitir que os assessores e juízes do Santo Ofício, não sendo todos geniais e santos como Santo Tomás, tenham confundido a censura pastoral que as proposições de Galileu bem mereciam com a censura dogmática que só mereceriam efetivamente os erros formalmente contrários à Revelação e à Fé; mas não podemos deixar de assinalar que tais proposições, lançadas num contexto cultural despreparado, em que os próprios astrônomos como Tycho Brahé reclamavam provas mais convincentes, afligiriam a cristandade nos costumes intelectuais, no nível do senso comum que, além da Fé e dos Costumes, também está sob a alvaguarda da Igreja. Além disso, notemos que a Igreja seria impraticável, e que a Civilização Cristã seria impraticável, se os juízes do Santo Ofício devessem todos ter a estatura de Santo Tomás. O próprio Maritain (na página 357 da mesma obra citada) diz encolerizado que:

. . . se era verdade —• e é efetivamente verdade — que (como diz o Cardeal Journet) todos os contemporâneos tinham como evidente "que essa condenação doutrinal atingia matéria revogável por uma autoridade falível", eles, os juízes, eram certamente os primeiros a saber que podiam estar enganados.


É o caso de perguntarmos: e daí? Se os juízes do Santo Ofício só podiam proibir e censurar infalivelmente, concluo eu que o erro não está no personnel mas na Personne da Igreja que tanto tempo admitiu a possibilidade de governar que necessariamente inclui a possibilidade de decisões gravíssimas em matéria revogável, e fora do domínio estrito da infalibilidade. Se o Santo Ofício além de uma grave mancada (bourde) cometeu um "abuso de poder", então concluímos que é impraticável o governo da Igreja, já que o exercício da infalibilidade deve ser poupado preciosamente para as questões extraordinárias, e diretamente contrárias à Fé e já que o governo exige medidas pastorais em todas as matérias ordinárias.

E volto a dizer, com a consciência de estar afrontando de um lado um himalaia de opiniões amontoadas durante quatro séculos, e de outro um autor que em filosofia sempre tive por mestre, que o pronunciamento do Santo Ofício quis dizer que aquelas proposições eram perigosas contra a fé, nocivas à fé no nível do senso comum, que é uma sabedoria (rústica embora), e como tal superior e mais merecedora de cuidados do que as ciências das coisas exteriores e inferiores que nada perderiam por esperar um pouco o sinal verde nos cruzamentos da história, e que põem em risco toda a civilização se querem ser elas as infalíveis.

Além disso, nunca é demais insistir neste ponto: o erro do genial Galileu, no seu próprio campo científico, foi mais grave e mais petulante do que o excesso de formulação dogmática com que o Santo Ofício o advertiu. A idéia de um Sol imóvel no centro do mundo é mais grotesca, mais fantástica, mais insensata do que a tradicional idéia que colocava o centro na Terra em que surgiu o homem e se encarnou o Verbo de Deus. O Santo Ofício, sem o saber, sem mesmo fazer questão do provar as sucessivas revoluções da Física, dizendo que o "heliocentrismo" era insensato e absurdo "filosoficamente", diz o mesmo que diriam os físicos modernos: a proposição que diz estar o Sol imóvel no centro do universo é meaningless para um físico, "e mesmo para um não-físico" como disse Einstein em situações semelhantes. Mais acertada é a proposição filosófica ou teológica que coloca o centro do mundo onde está o observador capaz de medir paralaxes e anos-luz, ou onde esteve a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade em sua condição carnal.

Sim, em 1611 como em 1971, e como em 2611 e até o fim do mundo, só terá sentido a noção de centro do universo na ordem do conhecimento e do amor. O Sol será, se quiserem, centro imaginário (ente de razão matemática) da órbita percorrida pelos centros de gravidade dos planetas, órbita circular para Galileu, elíptica para Képler, e complicadamente helicoidal quando se descobriu, depois que a análise espectral revelou o deslocamento de certas raias K na direção do vermelho ou na oposta conforme se observavam estrelas nas cercanias da constelação de Hércules, ou na oposta. Desde essa observação ficou sabido que messer frate il sole, longe da majestática imobilidade que lhe atribuíram Copérnico e Galileu, é um globo incandescente caindo, ou melhor, errando no espaço, mais erradiamente do que Parsifal sem elmo e sem lança. Desmanchou-se num novelo caprichosamente desenrolado o pomposo "heliocentrismo" que sempre foi uma pobre verdade de fraca compleição, como dizia Ibsen, porque já no tempo de Képler o Sol passou do centro do círculo para o foco da elipse, e hoje não passa de um dos trepidantes e incertos grãos de nosso restless Universe, como diz Max Born.
Na verdade, a proposição apresentada ao Santo Ofício por Galileu, ligada à presunção de uma prova física de que lhe parecia "evidente como se a tocasse com as mãos", constitui um monstro epistemológico, onde se misturam os graus de abstração e onde a hipótese explicativa se transforma em dado observado, ligado a uma fraude pelo empenho com que tentou, na divulgação, inculcar a idéia de uma prova científica.

Parece-me indubitável que, nesse episódio, Galileu, como cientista, errou mais gravemente na formulação de sua comunicação do que os juízes do Santo Ofício erraram como teólogos; porque para defender cabalmente o enunciado da condenação basta-nos colocá-lo no plano pastoral de defesa do senso comum barbaramente agredido, não pelas pesquisas e observações dos satélites de Júpiter, não pelas teorias explicativas apresentadas prudentemente com caráter de hipóteses, mas pela fraude com que se pretendia inculcar como provado o que teria de esperar muito estudo para ganhar direito a um enunciado decentemente científico. E aqui parece-me especialmente infeliz a nota (a) de Maritain (op.cit.pág.393):

Que Galileu não tenha realmente demonstrado o movimento da Terra nada tem a ver aqui. Realmente foi somente depois de Newton que o heliocentrismo se impôs a todos os homens de ciência. As provas invocadas por Galileu não eram demonstrativas e pouco valiam. Mas, antes de mostrar e sem estar ainda em condições de fazê-lo, há no espírito do grande sábio uma percepção intuitiva que basta (grifo nosso) para lhe dar uma convicção da qual — certo ou errado (grifo nosso), isto é outro assunto que diz respeito ao progresso da ciência — ele absolutamente não duvida. Tal foi o caso para o gênio intuitivo de Galileu.


Nesta nota infelicíssima, onde se evidencia o empenho de glorificar um dos motoristas do progresso da ciência, em detrimento do obscurantista Santo Ofício, não reconhecemos o autor de Théonas, de Antimoderne, de Trois Rêformateurs, de Reflexiona sur l’Intelligence et sa Vie Propre, não reconhecemos o severo e exigente filósofo que nos ensinou, entre mil outras coisas, esta lição que eu já escrevi atrás e agora repito: a honra e dignidade do cientista não consiste em ter acertado (ou quase acertado) a proposição que outros demonstrarão, e da qual ele mesmo, dizendo que a sente como se a tocasse, não sabe provar; não, mil vezes não: a honra do cientista, do filósofo e do teólogo não é de natureza esportiva ou lotérica, não consiste em acertar à tort ou à raison, mas consiste essencialmente em dar as razões de sua proposição.

Os tomistas, e com toda a razão, costumam ficar irritados quando os franciscanos lhes dizem, ou melhor, lhes diziam com garbo que Duns Scotus acertara na questão da imaculada conceição da Virgem Santíssima, enquanto Santo Tomás perdera o ponto. Volvendo com saudades aos bons tempos em que dominicanos e franciscanos discutiam essas coisas, lembro-me de um O.P., não sei se Garrigou- Lagrange ou Gardeil, que chegava a asseverar que no encaminhamento da proclamação do dogma valeram mais os argumentos refutadores de Santo Tomás do que os surtos intuitivos com que Duns Scotus, à fort ou à raison, afirmava.

No caso Galileu, para terminar, direi que hoje, melhor do que nunca, estamos em condições de apreciar a real e profunda intuição com que o Santo Ofício sentiu a presença do monstro — o cientificismo e não a ciência — que arrombava as porteiras e se precipitava para devastar uma civilização. Mas nossa constatação não é triunfalista porque são muito poucos os que participam dela; é antes melancólica, e tem todo o travo de uma batalha perdida.



[1] Duas referências adicionais poderão ser importantes ao leitor: a primeira são os
artigos de Olavo de Carvalho sobre a Mente Revolucionária (por exemplo,
A mentalidade revolucionária, Mensagem de Natal 2007, A lógica da destruição, Afinal, lutamos contra quem?). A segunda, sobre a “poluição nominalista”é o texto por mim traduzido de Richard Weaver e publicado neste blog sob o título A dissolução do Ocidente: uma introdução. (N. do B.)

[2] Gustavo Corção, A Descoberta do Outro, AGIR.

[3] Não posso deixar de lembrar a passagem de Doutrina Cristã, Livro I, parte B, capítulo 11, item 11a, do grande Santo Agostinho: Ora, nós não conseguiríamos nos purificar se a própria Sabedoria não se houvesse dignado adaptar-se à nossa tão pequena fraqueza carnal, para tornar-se modelo de vida, precisamente fazendo-se homem, visto sermos nós homens. // Mas ao passo que agimos sabiamente quando nos aproximamos da Sabedoria, ela, ao vir a nós, foi considerada, por homens soberbos, como realizadora de loucura. Enquanto nós nos fortificamos ao nos aproximar da Sabedoria, ela, ao se aproximar de nós, foi considerada como realizadora de ato de fraqueza. Contudo, o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens (1Cor 1,25), // Eis por que a Sabedoria, sendo a pátria, fez-se também caminho para levar-nos à pátria. (N. do B.)

[4] Dois textos adicionais são importantes sobre a questão do senso comum, ambos de Marcel de Corte: Common Sense in Crisis e Inteligência em Perigo. (N. do B.)

[5] Jacques Maritain, De 1'Eglise du Christ, Desclée de Brouwer, 1970, pág. 345 e seg.

[6] S. J. Mason, Histoire de la Science, Armand Colin, 1956, pág. 10.

[7] PERMANÊNCIA, n° 41, pág. 22.

[8] Na verdade, a Renascença foi um dos períodos mais saturados de magia, só não ultrapassando o Iluminismo nos séculos XVIII e XIX. Ver, sobre a Renascença, Giordano Bruno e a Tradição Hermética, Francis A. Yates, Cultix, 1995. Ver, sobre o Iluminismo nos séculos XVII e XIX, Hope of the Wicked, Ted Flynn, Maxkol Communications, 2000, e the Theosophical Enlightenment, Joscelyn Godwin, State University of New York, 1994. (N. do B.)

[9] Lewis Mumford, The Megamachine, em "The New Yorker", 10-17 outubro de 1970.

[10] Oliver Brachfeld, Los Sentimentos de Inferioridade, Luiz Mirade, Barcelona, 1959, pág. 24 e seg.

[11] Ver, sobre o assunto, extenso estudo de Pietro Redondi: Galileu Herético, Companhia das Letras, 1991. (N. do B.)

[12] Jacques Maritain, op. cit.

[13] Ibid.