terça-feira, outubro 04, 2011

Leitor em dúvida sobre seminário da PUC/Pernambuco: o que uma universidade católica deve ensinar?


Leitor deixa o comentário abaixo no post 50 anos de Vaticano II: Simpósio Gaysista na PUC do Pernambuco. A seguir, tento respondê-lo.
 

1. Concordo com enfoque católico e até mesmo apóio a veemência.
2. Porém, cumpre indagar: a PUC/Pernambuco promove Simpósio em um de seus Cursos de Direito?
3. Porque se assim for, a discussão (não religiosa) do tema é inafastável. A formação do Bacharel em Direito (ainda que pela PUC) não pode prescindir da discussão (no âmbito civil) das relações denominadas "homoafetivas". Recentemente o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu sobre conversão de "união estável" em "casamento" (CIVIL, VALE REPISAR); adoção de órfãos por casal homossexual e assim por diante. Como poderia um aluno de Direito ficar fora dessa discussão no ãmbito do direito civil e do direito constitucional? Até que ponto uma Universidade Católica poderia suprimir o ensino da matéria, tal como é vista hoje pelos Tribunais Superiores (e não pelas Ordens Religosas).
Essa a reflexão que tomo a liberdade de trazer. Ainda somada a uma sincera indagação: como tratar com amor cristão aquele que  psicologicamente não se sente pertencente ao sexo físico? A OMS até já classificou o quadro como distúrbio psiquiátrico. Até o SUS (já tão enfraquecido no suporte da saúde pública em geral) autoriza cirurgia nesses casos de "extremo sofrimento emocional" por parte do "paciente" homossexual, desde que mediante fundamentado e minucioso atestado médico-psíquiátrico. Fraternalmente (e lembrando que não sou homossexual),  JBM.
 
Caro JBM,

Há variados aspectos no que você escreve. O primeiro deles, que salta aos olhos, é o seguinte: você divide a questão em dois âmbitos, o civil (jurídico, social, político) e o religioso (de cunho pessoal, individual). Essa divisão é derivada do protestantismo e apareceu fortemente com a reforma. Ela tem várias roupagens além da que você expressa. Uma delas, por exemplo, é a que divide fé e razão. A idéia por traz disso tudo é o liberalismo que acolhe sob o manto do estado todas as religiões desde que elas não interfiram com a administração estatal; administração da justiça, da economia, das relações sociais. Esta é a raiz do ecumenismo moderno, que infelizmente infesta a nossa amada Igreja. Contra tudo isso se levanta o Papa Pio XI com sua encíclica Quas Prima, de leitura obrigatória a todo o católico. Esta encíclica nos lembra o Reinado Social de Nosso Senhor e estabelece a festa de Cristo-Rei, rei com poder absoluto sobre tudo, sobre todos os aspectos de nossa vida, incluindo-se aí o jurídico, econômico, social, pessoal, psicológico, etc.

Outro aspecto de seu comentário é suas referências à OMS, SUS, sociedades psiquiátricas, etc. Ora, estas instituições em si, não são nada frente ao Reinado Social de Nosso Senhor. Agora, se você estudar um pouquinho mais sobre cada uma delas, você perceberá que nenhuma delas tem estofo moral para sequer sugerir como você deve cortar suas unhas. Se você estudar um pouquinho a história de como essas autoridades modernas que, falando em nome de uma suposta ciência, querem controlar todos os aspectos de nossas vidas, você se convencerá do que digo. Leia, por exemplo: Hope of the Wicked, de Ted Flynn; Libido Dominandi: Sexual Liberation and Political Control, de E Micharel Jones; The Acendancy of the Scientific Dictatorship, de Phillip. D. Collins e Paul. D. Collins; e Sexual Sabotage, de Judith Reisman.

Você pergunta: Até que ponto uma Universidade Católica poderia suprimir o ensino da matéria, tal como é vista hoje pelos Tribunais Superiores (e não pelas Ordens Religiosas)? Ora bolas”! uma Universidade Católica deve ensinar o que a Igreja ensina há milênios: sua doutrina religiosa e social, que inclui todos os aspectos da vida em sociedade. Deve ensinar também, é claro, o que acontece nas sociedades atuais, mas da perspectiva católica (se quiser, da perspectiva das Ordens Religiosas, como você se expressou). O problema é que nossas universidades católicas já não acreditam que a doutrina da Igreja inclui todos os aspectos da vida em sociedade; não acredita que na Igreja há resposta para todas as mais importantes indagações humanas. O problema com nossas universidades católicas é que elas já não mais são católicas.

Você ainda pergunta: como tratar com amor cristão aquele que psicologicamente não se sente pertencente ao sexo físico? Uma resposta simples: devemos tratar desta forma.

Como você vê, já não nos é possível ser católico sem muito estudo, exceto se formos brindados com graças especiais de Deus. Isso acontece porque já não vivemos, como durante séculos no passado, sob um imaginário católico, mas sim sob um imaginário ateu. Plagiando uma suposta frase de Chesterton que ninguém nunca encontrou em suas obras, o ateu não é aquele que não acredita em Deus, mas aquele que O substitui por todo o tipo de coisas que lhe parecem mais convenientes no momento, sempre fundamentado pela divindade-mor que é o cientificismo, ou a mistificação da ciência. Ou seja, o ateu moderno se assemelha mais a um politeísta materialista, muito mais rasteiro e rude que o politeísta da antiguidade greco-romana. Este ateísmo é hoje um de nossos maiores inimigos; quando caímos em suas garras, podemos ter certeza que estamos nos afastando da Igreja de Nosso Senhor, a Igreja Católica, a única que salva. É o que acontece com nossas PUC’s.

3 comentários:

Flavio disse...

Não existe um engano por parte do comentarista quando diz: A OMS até já classificou o quadro como distúrbio psiquiátrico.

Não é exatamente o contrário,por pressão a OMS retirou a homossexualidade da classificação de distúrbio psquiátrico?

E pelo jeito de como as coisas vão,num futuro próximo se retirará a pedofilia da classificação de distúrbio psquiátrico.

Fiquem com Deus.

Flavio.

JBM disse...

Caríssimo Professor Angueth: 1. Permita-me chamá-lo assim: nunca tive aulas com o Sr., nem tive a honra de assistir a uma palestra sua; contudo, tenho aprendido --- e muito --- com seus ensinamentos e suas indicações. Se eu receber a honra de também ser chamado seu aluno, ficarei muito grato, embora isso signifique que de quando em vez (ou sempre) farei colocações talvez impertinentes, quiçá equivocadas, muitas fruto de pouco estudo, mas sempre respeitosas, que exigirão (além do tempo) sua paciência e caridade com mais esse seu aluno. 2. De todo modo, muito obrigado pelas profundas respostas, a mostrar, mais uma vez, o verdadeiro --- e único --- caminho.Fraternalmente, JBM

Gustavo disse...

Prezado prof. Angueth,
Salve Maria!

"Agora, se você estudar um pouquinho mais sobre cada uma delas, você perceberá que nenhuma delas tem estofo moral para sequer sugerir como você deve cortar suas unhas."

A frase acima só poderia ter sido
escrita por um legítimo "chestertoniano". Fantástica! Mui divertida hehehe...

Abraços.
In Corde Iesu et Mariae semper.
Gustavo.