segunda-feira, outubro 24, 2011

São Francisco, o padre e o cão


Vejo a foto no Fratres e penso várias coisas. Em primeiro lugar, penso na minha cadela Mila que morreu há dois meses. Ela ganhava grandes beijos de todos aqui de casa. Depois, penso que padre só deve se ajoelhar diante de Deus e logo imagino: será que este padre dá comunhão a quem está de pé, ou exige que o fiel se ajoelhe? Sim, porque ele entende que ajoelhar-se é, no mínimo, homenagear, demonstrar respeito, carinho, amor. Daí, penso também: será que ele usa batina o tempo todo, ou foi só para beijar o cão que ele a usou? Ao sair, será que ele foi logo colocando uma calça jeans? Mas a referência que mais me deteve foi a São Francisco de Assis. Sei que os ateus modernos gostam de São Francisco porque o vêem como um ambientalista avant la lettre. Parece que o padre também o vê assim, um amante da natureza, um panteísta como os ecologistas modernos. Pena que o padre não leu a biografia que Chesterton escreveu sobre São Francisco, pois, se tivesse lido, leria o seguinte. [Uso aqui a 3a. edição da Ediouro, 2001]

“São Francisco não era amante da natureza. Se entendermos essa expressão de maneira adequada, amante da natureza é exatamente o que ele não era. Do contrário, aceitaria o universo material como um ambiente vago, uma espécie de panteísmo sentimental. No período romântico da literatura inglesa, na época de Lord Byron e de Sir Walter Scott, era bem fácil imaginar que um eremita nas ruínas de uma capela (de preferência à luz da lua) pudesse encontrar a paz e algum prazer na harmonia de florestas solenes e estrelas silenciosas, enquanto pensava em algum pergaminho ou volume com iluminuras, sobre a natureza litúrgica de que o autor falou um tanto por alto. Em resumo, o eremita poderia amar a natureza como um segundo plano. Ora, para São Francisco nada estava em segundo plano. Poderíamos dizer que sua mente não comportava um segundo plano, exceto talvez a divina escuridão a partir da qual o amor divino anunciara uma a uma cada criatura dotada de cor. Ele via todas as coisas como personagens dramáticos, distintos de seu cenário, jamais como um quadro, mas em ação, como numa peça teatral. Um pássaro se aproximava dele com uma flecha; algo como uma história e um propósito, mas que era propósito de vida, não de morte. Um arbusto o fazia parar do mesmo modo que uma brigada; e ele estava igualmente pronto para dar as boas-vindas tanto à brigada como ao arbusto.

“Em uma palavra, estamos falando de um homem que não tomava a floresta pelas árvores. São Francisco era um homem que não tomava a floresta pelas árvores. Queria ver cada árvore como algo separado e quase sagrado, como um filho de Deus e, portanto, como irmão ou irmã do homem. Mas não queria ficar à frente de um cenário usado apenas como pano de fundo e demarcado: “Cenário: uma floresta”. Poderíamos dizer que ele era dramático demais para o drama. (...) Ele não chamava a natureza de mãe; chamava um burrico específico de irmão ou uma pomba de irmã. Se chamasse uma garça de tia ou um elefante de tio, como possivelmente o faria, ainda assim estaria indicando que ele eram criaturas específicas às quais o Criador atribuíra um lugar particular, não meras expressões da energia evolutiva das coisas. É nisso que seu misticismo se aproxima tanto do senso comum da criança. Uma criança não tem dificuldades para entender que Deus fez o cão e o gato, mesmo que saiba bem que a criação de cães e gatos a partir do nada é um processo misterioso que está além de sua imaginação. Mas nenhuma criança entenderia qual a intenção de se misturar o cão, o gato e tudo o mais para formar um monstro como inúmeras pernas e dar a ele o nome de natureza. A criança se recusaria terminantemente a entender um animal assim. São Francisco era um místico, mas acreditava no misticismo, não na mistificação. Como místico, era inimigo mortal de todos os místicos que diluíam as extremidades das coisas e as faziam desaparecer em seu ambiente. Era um místico da luz do dia e da escuridão, mas não um místico do crepúsculo. Era exatamente o oposto do visionário oriental que só é místico porque é cético demais para ser materialista.”


3 comentários:

Manoel Carlos disse...
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Manoel Carlos disse...
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Wendy A. Carvalho disse...

Interessante! Ações como essas me deixam pensativo, também, Angueth. Eu nunca me ajoelhei ante um cachorro, mas creio no que diz Chesterton no texto mencionado. Devemos respeitar natureza não como mãe, mas como irmã. Eu tava aqui folheando meu exemplar da Ediouro e encontrei uma frase que grifei no tempo que li:

"O homem expulsara de si o último vestígio de culto à natureza, e podia assim voltar a ela." (pág. 42)

O filho de Pietro Bernardone tinha o conhecimento por presença, que o Olavo fala. Ele sabia o que tava fazendo com a natureza, mas acho pouco provável que nós, os modernos, saibamos o mesmo. Para não insultar a inteligência alheia, falo por mim. Eu não sei. Só acho que devemos falar com um cachorro como o príncipe Edward, do filme "Encantada Comédia" (seria feio citar um filme moderninho?), fala com o seu esquilo. É, como diz Chesterton, uma relação de irmandade.