01/10/2018

O deslocamento da função magisterial depois do Concílio Vaticano II, por Romano Amerio - Parte III


III – O Papa abdica de sua função magisterial na medida em que não prega mais a fé sobrenatural 

7. Na época do Concílio, estava-se consciente de que a virtude didática lembrada aqui estava em vias de se dissolver na incerteza, como demonstra a declaração autorizada do Cardeal Heenan, Primaz da Igreja da Inglaterra, que numa das primeiras sessões do Concílio se exprimia assim: “Hoje, na Igreja, não há mais o ensinamento dos bispos; estes não são mais a referência na Igreja. O único ponto sobre o qual se atualiza a função magisterial da Igreja é o Soberano Pontífice”. Isto é, onde não há mais pessoas ensinando, todos ensinam; e onde não há mais uma verdade ensinada, ensina-se uma multidão de opiniões. 

8. Mas essa declaração do Primaz da Inglaterra, há trinta anos de distância, parece bem otimista, pois hoje, a função magisterial não se exerce nem mais pelo Pontificado. Se, como vimos, o Magistério é a manifestação da Palavra divina depositada na Igreja, que a Igreja tem por missão e dever de ensinar e pregar, essa manifestação da Palavra divina no Pontificado atual tem estado ausente ou, ao menos, em declínio: eu não teria escrito 57 glosas sobre o documento Tertio Millenio Adveniente se o Santo Padre tivesse sempre ensinado e manifestado a Palavra divina que é, ela, o verdadeiro “Magistério vivo” na Igreja, e se ele não tivesse, de boa vontade, deixado de exprimir diretamente e claramente a verdade da maneira explícita. 

9. Mas eu redigi justamente essas glosas porque o Santo Padre não prega aos fiéis, no exercício pleno de seu magistério, auxílio que eles esperam do Magistério Supremo; ele fala, mas não manifesta aquilo que deveria manifestar. Assim, é preciso dizer, mesmo nos documentos mais importantes, cada palavra do Papa não é mais o Magistério, mas, doravante e muito frequentemente, ela não é mais que a expressão de visões, de pensamento, de considerações difundidas na Igreja: o que quero dizer precisamente é que o Papa, em suas alocuções, reflete todo um sistema de pensamento que é aquele em que o homem de hoje se compraz. 

10. Uma doutrina privada é a elaboração própria de um indivíduo, mas não se trata disso aqui: trata-se de doutrinas que são difundidas e que se tornaram preponderantes numa grande parte da teologia. Lê-se assim na Tertio Millenio: “Cristo é o cumprimento do anelo de todas as religiões do mundo, constituindo por isso mesmo o seu único e definitivo ponto de chegada.” (N. 6); e ainda ...o encontro do cristianismo com aquelas antiquíssimas formas de religiosidade, que significativamente são caracterizadas por uma orientação monoteísta.” (N. 38), e ainda, “[Para o diálogo inter-religioso] deverão ter lugar proeminente os hebreus e os muçulmanos” (N. 53).  E na Ut Unum Sint: “... a infalibilidade do Papa é uma verdade da Igreja à qual não se pode renunciar. Mas deverá se conceber uma nova forma de interpretá-la.1 Então, mesmo as manifestações do Papa assumiram um caráter estranho à função magisterial suprema. Quando o Papa não manifesta a Palavra divina que lhe é confiada e que ele tem a obrigação de manifestar, ele exprime suas visões pessoais na acepção mais elevada; mas ele não exprime a Palavra de Deus. Nos encontramos assim diante da manifestação da decadência do Magistério ordinário da Igreja. O Papa deve guardar e manifestar o Depósito da Fé, da Revelação divina, mas ele não o manifesta senão escassamente. Desde o instante em que o Papa abdica da realização de seu principal dever, uma grande crise ocorre na Igreja, pois é o seu centro que é atingido. Mas não existe nenhum órgão corretor superior ao Pontífice: de fato, o Primado do Pontífice romano é um dos dogmas fundamentais, pode-se dizer, da Igreja. 


CONTINUA...

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1 Não encontrei tal trecho nem na versão em português nem na versão em francês. (N. do T.)

27/09/2018

Palestra sobre Chesterton


Palestra a ser ministrada pelo Prof. Angueth, na ocasião do lançamento do livro "Chesterton: O Pensador Completo", recém publicado pelas Edições Cristo Rei. 

Dia e horário: 30/09/18 - 10:30 às 12:30

Local: Igreja Nossa Senhora do Carmo - Belo Horizonte - MG

Palestra promovida pelo Instituto São Pedro de Alcântara.

25/09/2018

Acordo entre Vaticano e PC Chinês: surpresa que não deveria surpreender!

Converso com padres e leigos sobre a última etapa da submissão da Igreja ao comunismo e todos parecem surpresos. Penso que não há nada a surpreender. Desde que o Concílo Vaticano II decidiu não condenar o comunismo como erro, tudo o mais já estava embutido, só aguardando o futuro para se desenrolar.

Alguém que queira acompanhar o desenvolvimento, a maneira mais rápida é ler dois documentos (entre muitos). O primeiro deles é de fevereiro de 1984, escrito por Jean Buridan e publicado pela revista Itinéraires. Descreve o passo-a-passo do famigerado acordo de Metz.

O segundo foi escrito por Danièle e Pierre de Villemarest, intitulado Le KGB au coeur du Vatican, livro publicado pelas Éditions de Paris, em 2006. Este estudo vai desde a tomada de poder de Lenin e inclui uma vasta gama de informação das tramas da KGB para invadir o Vaticano, em suas várias camadas, desde os anos 1920.

Os papas que orquestraram o acordo de Metz estão prestes a subir aos altares da Igreja! Nenhum católico bem informado pode, em sã consciência se surpreender com isso. Toda a história está muito bem documentada para quem quiser ver.

Se Nosso Senhor e Sua Mãe não derem jeito na situação, a coisa ainda vai piorar.

Que Deus tenha piedade de nós.

21/09/2018

O deslocamento da função magisterial depois do Concílio Vaticano II, por Romano Amerio - Parte II


II – Negação da sobrenaturalidade da fé

4. O deslocamento da autoridade de que gostaríamos de falar é um dos movimentos de inspiração racionalista, humanista e naturalista dos mais enraizados. Seu grande princípio: as verdades da fé têm sua origem na atividade do intelecto humano.

5. Na doutrina tradicional, a fé excede a razão; segundo a doutrina da Igreja Católica, para crer deve-se sair da esfera da razão, ir além da razão, pois o que está além da razão lhe é extrínseco. Estar no exterior não significa estar em oposição; significa, sobretudo, que é um complemento, um auxílio necessário e é justamente por isso que está fora. Ao contrário, segundo a doutrina moderna, a fé é uma forma de razão, isto é, que ela é algo que lhe é intrínseco. Isto significa que para crer não é necessário de sair da esfera da razão.

6. A função do Magistério da Igreja é de inculcar no espírito dos fiéis as convicções sobrenaturais: aprender, se ligar, aderir. A palavra “ensinar” significa “agir de modo que alguém saiba o que não sabia”. Além do mais, a função do Magistério é também apologética, pois o mestre deve defender o que ensina. Deve defender alegando seja os motivos oferecidos pela autoridade bíblica, portanto os motivos de ordem sobrenatural, ou ainda os motivos de ordem natural. Em terceiro lugar, ensinar uma coisa significa também fazê-la ser retida pelos espíritos aos quais é ensinada, pois o mestre deve garantir que o seu ensinamento não seja nem perdido nem modificado.

CONTINUA...

14/09/2018

O deslocamento da função magisterial depois do Concílio Vaticano II, por Romano Amerio - Parte I

Texto de Romano Amerio, de 1996, publicado no Courrier de Rome, em janeiro de 2018

Introdução

1. Chamado a dar minha contribuição ao Congresso Teológico Si Si No No, gostaria de desenvolver este princípio: a crise da Igreja Católica é uma crise devida ao deslocamento da autoridade magisterial que, da autoridade do Magistério universal é transferida à autoridade dos teólogos. Deslocamento que foi rapidamente sentido, pois nos anos imediatamente pós-concílio a reação foi rápida, e nesses últimos 30 anos a maioria dos teólogos conseguiu o que reivindicava então e se propunha a realizar: isto é, que os próprios teólogos fossem reconhecidos como participantes do ofício didático da Igreja. Tenho entre meus documentos muitos recortes de jornal, numerosas provas que a coisa era sentida como um perigo.

I - Das origens da crise: a equivocidade dos textos do Concílio

2. O Concílio -- deve-se dizer -- afirmou sobre este ponto a doutrina perene da Igreja. Mas o perigo se anunciou imediatamante depois. De fato, aqui, não se deve esquecer o grande princípio metódico dos inovadores, bispos e experts conciliares. Estes últimos introduziram sub-repticiamente nos textos propostos ao Vaticano II as expressões ambíguas que reservaram a si, depois da publicação dos textos, o direito de interpretar segundo um sentido inovador. Eis a estratégia perpetrada, e perpetada explicitamente, pelos modernistas. A este propósito há uma declaração muito importante -- contida também no Iota Unum -- do dominicano holandês: "As ideias que nos eram caras, nós as exprimimos diplomaticamente, mas depois do Concílio tiraremos as conclusões implícitas". O que equivale dizer: utilizamos uma linguagem diplomática, isto é, dupla, na qual a letra é formada em vista à hermenêutica, aclarando ou obscurecendo as ideias que nos interessam ou que nos convenham.

3. Formaram-se assim os documentos conciliares que, supondo uma hermenêutica laxista e frágil, iriam reforçar as sentenças inovadoras. Sem esquecer que o escândalo principal e radical, que se deve atribuir a João XXIII, devido a que ele consentiu que os observadores protestantes não só assistissem aos trabalhos das comissões, mas que eles com elas cooperassem, a tal ponto que certos textos do Concílio não são somente elaborações de teólogos e bispos, mas de teólogos protestantes.

CONTINUA...

11/09/2018

Corção em sol menor

Lendo o extraordinário livro de Corção, Conversas em Sol Menor, recolho dois trechos que reverberaram em minh'alma. 

Falando se sua fase astronômica, ele diz: "O leitor talvez não conheça a espécie de exultação que vem do exercício da exatidão. Forma humilde da verdade, o décimo do segundo de arco tem um fascínio esportivo, poético e moral. Medir é um modo de possuir, além de ser um modo de conhecer; e também um modo de se comprometer".

Mais a frente, falando de sua fase de escritor, diz: "Como pode o escritor ser escritor se não tiver o gosto supremo das mais finas exatidões".

Tendo sentido o fascínio da exatidão, por dever profissional, aprecio muitíssimo essa impressionante definição: "forma humilde da verdade". Quem se preocupa com a exatidão, inclusive da linguagem está envolvido no exercício mais humilde da verdade.

Ai de mim, como diria Corção, que só conheci esse grande escritor já velho e, ai do Brasil, que até hoje o despreza!

04/09/2018

Mais sobre a profecia do Prof. Olavo acerca da pedofilia.

Jason Leonard, 37 anos, considerado pelas autoridades inglesas um perigoso pedófilo, foi condenado em 2013 a 32 meses de prisão fechada por posse de imagens pedo-pornográficas. Um tribunal o proibiu igualmente de viajar para fora do país.


Mas Jason impetrou recurso para que a justiça britânica levantasse a proibição, por se considerar vítima de discriminação, noticia o The Mirror.

Para a estupefação da corte, Jason Leonard comparou a situação dos pedófilos à dos “dos judeus e dos homossexuais durante a II Guerra Mundial”.

Durante a audiência, esse pedófilo declarou que a idade de sua “companhia ideal” se situaria entre “12 e 14 anos”. E que é por isso que ele deseja poder viajar a países em que a maioridade sexual é mais baixa, com a Tailândia, a Espanha ou a França.

Quando o juiz lhe perguntou a que idade ele situava a maioridade sexual, o pedófilo assumido declarou que uma “criança numa idade em que seja capaz de falar, está numa idade capaz de ter relações sexuais”.

O juiz lhe perguntou também sua opinião sobre o estupro, mas ele se recusou a responder à questão.

Quanto ao advogado de Jason Leonard, ele declarou que a decisão da justiça de proibir seu cliente de viajar para fora da Inglaterra “era completamente desproporcional, pois nada há nos registros criminais de seu cliente que prova que ele teve relações sexuais com uma criança. A única coisa que ele já fez foi baixar, na Internet, pornografia infantil”.

O tribunal se recusou, todavia, a levantar a interdição, lembrando que Jason Leonard está “profundamente perturbado com um comportamento abertamente pedófilo”.

Um oficial da polícia britânica comentou esse caso: “Ele é único. Nos meus últimos dez anos de serviço, jamais cruzei com um delinquente sexual que reconhecesse abertamente suas tendências pedófilas. Isso é justamente a razão porque que se assume que ele se tornou excepcionalmente perigoso. O senhor Leonard exprimiu seu desejo de deixar o país, pois ele pensa que a polícia, o sistema judiciário e o governo de nosso país perseguem os pedófilos. Ele está convencido disso. Ele compara isso à perseguição aos homossexuais de 40 anos atrás. Está persuadido de que a pedofilia será um dia aceita da mesma maneira que a homossexualidade”.

Sobre este último ponto, à vista da degradação moral de nossa sociedade, é provável que o futuro dê razão a Jason Leonard.

Para acessar o artigo orginal, em francês, clique aqui.

03/09/2018

Pergunta antiga, que há muito deveria ser respondida.

Um leitor anônimo, no post UM MONGE E A SUA CURIOSIDADE, pergunta o seguinte:

Aproveitando o espaço dos comentários, gostaria de fazer uma pergunta sobre a santa doutrina católica./ Jesus Cristo morreu por muitos, isso ja é de conhecimento, mas infelizmente trocaram o "por muitos", e colocaram o "por todos" ,mas porque no Catecismo maior de São PIO X na pergunta: " 112) Se Jesus Cristo morreu pela salvação de todos, por que nem todos se salvam?
Jesus Cristo morreu por todos, mas nem todos se salvam, porque nem todos O reconhecem, nem todos seguem a sua lei, nem todos se servem dos meios de santificação 
que nos deixou." Gostaria de entender porque essa aparente contradiçao no catecismo maior. respondam nos comentarios ,por favor.

A diferença aqui é entre ato e potência. O sangue de Cristo é "em potência" suficiente para salvar todos nós. Mas o que está em potência precisa de algo em ato para se atualizar. O que é este ato? É exatamente o que expllica São Pio X, a nossa vontade, de reconhecê-Lo, de seguir Sua lei e de se servir dos meios de santificação. Assim, não há nenhuma contradição.

São Pio X, rogai por nós.

Paço de São Cristovão, 1840


A imagem pode conter: céu, atividades ao ar livre e natureza


ALÉM DA CINZA
Brasil que já não existe, 
Pois morreu em desengano,
Vive em nossa alma triste 
Impávido, soberano.
SIDNEY SILVEIRA

Essa quadrinha é a minha singela homenagem ao muito que se perdeu hoje no incêndio do Museu da Quinta da Boa Vista.
A propósito, há tempos perdi todas as esperanças no Brasil; se continuo a trabalhar no meu âmbito restrito é porque a solidão moral me impele a tanto.
Por paradoxal que pareça, essa humana desesperança faz com que eu me sinta infinitamente livre.

Faço minhas as palavras do prof. Sidney Silveira.

22/08/2018

Mais uma profecia do Prof. Olavo que se realiza, infelizmente!

Há uns dez anos, ouvi o prof. Olavo profetizando que a pedofilia seria admitida como coisa normal em 20 anos. Ele errou! Levou só dez anos. A França acaba de descriminalizar a pedofilia.


Clique aqui para ir para a reportagem.


Seguindo a profecia, ele disse que o passo seguinte seria criminalizar todo o comportamento contra a pedofilia. Aguardemos!

20/08/2018

Os Santos da Reforma



 O título acima se refere, obviamente, ao exército de santos que Nosso Senhor nos enviou na época da chamada “reforma”, ou o movimento que Lutero iniciou em 1517 e que completa agora 500 anos. Segundo Pe. Rivaux, em seu Tratado de História Eclesiástica: “Lutero, destruindo toda a subordinação à autoridade eclesiástica, proclamando a independência absoluta do espírito, abolindo todas as ideias de abstinência, de mortificação e de penitência, reuniu em suas mãos todo o poder que o inferno tinha na terra.” Palavras terríveis as do Pe. Rivaux; mais terríveis ainda por serem a mais pura verdade. Do ponto de vista espiritual, esquecendo por hora os aspectos históricos, o poder infernal varreu toda a Civilização Ocidental e criou uma situação que não iria ser resolvida jamais. Esse poder ainda devasta o mundo, hoje, com muito mais sofisticação que anteriormente.

Sabemos que o inferno só age com a autorização de Deus, e alguns consideram a Reforma Protestante como um castigo para a Igreja, pelo seu estado lastimável logo no término da Idade Média. Mas como aconteceu com a Queda, depois da qual Deus nos mandou um exército de Profetas e depois Seu próprio Filho, Ele não se esqueceu de seu povo, e nos mandou muitos, muitíssimos santos para salvar o que podia ser salvo da antiga cristandade unida.

Precisávamos mesmo desse exército de santidade, pois o ataque protestante foi diferente de todos até então desferidos contra a Igreja de Cristo. Os ataques anteriores eram heresias e movimentos heréticos em que era possível explorar seus conteúdos, debate-los, defini-los e, enfim, condená-los. Mas o movimento protestante produziu, segundo Belloc[1], “uma pletora de heresias”, não uma heresia. E essas heresias possuíam uma atmosfera comum, ainda segundo Belloc, que prolongava e espalhava uma atmosfera moral muito específica e que conhecemos como protestantismo. As antigas heresias disputavam e rivalizavam-se com a Igreja então existente; o protestantismo propunha dissolver a Igreja Católica. Hoje sabemos o sucesso que esse movimento infernal está logrando.

Chesterton diz, em sua biografia de Santo Tomás, que “cada geração busca seu santo por instinto; e ele não é o que o povo quer, mas, ao contrário, o que o povo precisa.” Isto certamente se aplica a cada santo que Nosso Senhor nos enviou naquele século XVI. Veja-se, por exemplo, esta lista certamente incompleta: Santo Inácio de Loyola (1491-1556), São Francisco Xavier (1506-1552), São Carlos Borromeu (1538-1584), São Francisco de Sales (1567-1622), Santa Teresa D’Ávila (1515-1582), São Francisco Borja (1510-572), São Pedro de Alcântara (1499-1562), Santo Estanislau Kotska (1550-1568), Santo Aloísio Gonzaga (1568-1591), São Felipe Neri (1515-1595), Santa Joana Francisca de Chantal (1572-1641), Santa Maria Madalena de Pazzi (1566-1607), São João de Deus (1495-1550), São Pedro Canísio (1521-1597), São João da Cruz (1542-1591) São Pio V (1504-1565).

O ano de 1550 vê quase todos estes santos vivos (três deles nasceriam pouco depois). Do recém-nascido Santo Estanislau ao quase falecido São João de Deus e os ainda por nascer São Francisco de Sales, Santa Joana e Santo Aloísio. Há documentação abundante da incorruptibilidade dos corpos dos seguintes santos[2]: São Francisco Xavier, São João de Deus, Santa Teresa D’Ávila, Santo Estanislau Kotska, São Carlos Borromeu, São João da Cruz, São Felipe Neri, Santa Maria Madalena de Pazzi, São Francisco de Sales, Santa Joana Francisca de Chantal e São Pio V.

A importância de cada um desses santos é matéria de avaliação pessoal no que tange a devoção pessoal, mas não há como negar que, no plano histórico mais geral, e também no plano sobrenatural, alguns foram mais importantes que outros, na preservação da Fé Católica onde foi possível fazê-lo. O evento central para a preservação da fé foi obviamente o Concílio de Trento. O nome de São Carlos Borromeu está indelevelmente ligado a esse concílio. Ele foi o responsável direto pela elaboração e publicação do Catecismo do Concílio de Trento, conhecido como Catecismo Romano. Quem conhece esse catecismo sabe quão monumental ele é e quão fundamental ele foi para a verdadeira reforma da Igreja. O trabalho desse santo em sua diocese, como bispo, foi também extraordinário.

Belloc destaca, em sua obra sobre a Reforma[3], dois santos que ele denomina de “elementos subsidiários de defesa” da Fé: Santo Inácio de Loiola e São Filipe Neri. São Filipe Neri participou ativamente da reforma do clero e de seus costumes, exatamente no centro da cristandade: Roma. O apóstolo de Roma, com seus exemplos, sua piedade, sua imensa capacidade intelectual, seu amor a Deus e a Nossa Senhora e seus milagres, foi uma motivação extraordinária para a reforma dos costumes e para o terror dos inimigos da Igreja. Além disso, ele teve uma participação central num acontecimento que poderia ter levado a França para o lado dos protestantes. Henrique IV, antes calvinista, tinha abjurado a heresia e se convertido ao catolicismo. No caos das guerras religiosas, ele voltou ao calvinismo. Mais uma vez, ele quis voltar à antiga religião, mas o papa Clemente VIII, com apoio dos cardeais, negou ao rei a absolvição. São Filipe, consciente do que estava acontecendo e prevendo a apostasia da França, fez jejuns e orações extraordinárias e pediu ao Cardeal Barônio, seu filho espiritual e confessor do papa, que o acompanhasse nesses exercícios espirituais. Depois de três dias de práticas espirituais, disse ao cardeal: “Hoje o papa te pedirá para ouvi-lo em confissão, antes de lhe dares a absolvição, dizei-lhe: O Pai Filipe ordenou-me que negasse a V. Santidade a absolvição e lhe declarasse que não continuarei a servir-te de confessor se não concederes absolvição ao rei da França.” Assim Barônio fez. Clemente VIII, impressionado com essa declaração, pediu a absolvição com a promessa de cumprir o pedido de São Filipe. Isso salvou a França para a Fé.

Embora o século XVI tenha presenciado o surgimento de numerosas ordens religiosas (mais um sinal da interferência de Deus para salvar seu povo escolhido), tais como os teatinos, os capuchinhos, os recoletos, os oratorianos, etc, nenhuma foi mais instrumental naquele momento que a ordem criada por Santo Inácio, a Companhia de Jesus. A importância dessa ordem pode ser aquilatada pela quantidade e qualidade dos inimigos que ela suscitou, principalmente dentro da Igreja. Santo Inácio, como militar, deu à sua ordem uma organização militar, uma disciplina militar. E nas guerras religiosas, esse regimento de santos homens lutaram no front mais destituído de soldados; nas fileiras do conhecimento, da retidão pessoal e do ensino. Os jesuítas, como se chamaram os soldados de Santo Inácio, forneceram à Igreja as melhores armas para esse front da guerra. Eles consolidaram um poderoso método de ensino que foi preservado por séculos e que educou toda a Europa católica, consolidando as decisões do Concílio de Trento e formando inumeráveis gerações católicas em todo o mundo. Somos católicos hoje, nós habitantes da América do Sul, por causa dos jesuítas. Quando se espalharam pelo mundo, eles ganharam incontáveis almas para o reino de Nosso Senhor. Um deles, o fabuloso São Francisco Xavier batizou, segundo avaliações da época, mais de um milhão de pessoas na Índia e por onde ele passou. Isso é tão extraordinário quando seus milagres, incluindo várias ressurreições.

Como não falar também do livro que Santo Inácio escreveu, delineando seus Exercícios Espirituais, a base da meditação católica. O cardeal Newman diz desse livro que: “Se há alguma obra que faça bem conhecer a comunhão íntima dos membros da Igreja Católica, com seu Deus e Salvador, é certamente esta”. O papa Paulo III, em 1548, aprovou a obra de Santo Inácio, nestes termos: “Conhecendo que esses Exercícios são cheios de piedade e santidade, muito úteis e salutares à santificação e adiantamento dos fiéis, nós o aprovamos, louvamos e confirmamos no todo e em suas partes: Quoad onmia et singula in eis contenda”. São Francisco de Sales dizia que essa obra tinha salvado tantas almas quantas letras encerrava.

Não é obviamente um mero acaso que São Filipe Neri e Santo Inácio de Loiola foram singularizados por Belloc no processo da Contra-Reforma.

Que todos eles roguem a Deus por nós.



[1] As Grandes Heresias, Hilaire Belloc, trad. Antônio Emílio Angueth de Araújo, Ed. Permanência, 2009.
[2] Ver, por exemplo, The Incorruptibles, Joan Carrol Cruz, Tan Books, 1977.
[3] How The Reformation Happened, Hilaire Belloc, Tan Books, 1992.

14/08/2018

Zlatko Dalic: sempre levo comigo meu terço.






A equipe croata que se distinguiu na Copa do Mundo de 2018 merece atenção por mais de uma razão. Seu nacionalismo já tinha ficado claro a todos.

A fé católica é nela igualmente presente, como testemunha seu técnico Zlatko Dalic.

"Devo tudo que consegui na minha vida e na minha carreira profissional à minha fé e sou reconhecido ao meu bom Deus."

"Quando um homem perde toda a esperança, ele deve apelar a Deus e à fè", ele afirma. Ele continua: "sempre levo comigo meu terço".

O mesmo acontece com o jogador croata Mateo Kovacic, que se cobriu com um manto paroquial de Santo Antônio de Pádua com o Menino Jesus, e desfilou na frente do comunista Putin e do globalista Macron.



10/08/2018

Um católico atual e um dogma antigo

Nada como a lucidez de um católico vivente para nos instruir sobre um dogma antigo, em linguagem corrente, não teológica e extraordinariamente clara.

Sidney Silveira, num post despretensioso no Facebook, mas profundo, como soi acontecer com escritos de quem não esqueceu que a humildade é uma virtude maiúscula de um crente católico, nos brinda, sem mencionar, com seu entendimento do dogma em questão: extra ecclesiae nulla salus.

Vamos ao post.

"Não há cristianismo sem o 'contemptus saeculi', mas o desprezo do século não é o ódio ao ser, mas o ódio ao não-ser. Lutando contra a carne, o asceta medieval quer restabelecer o corpo em sua perfeição (...)".
ÉTIENNE GILSON
("L'esprit de la philosophie médiévale")

O notável medievalista francês, ao falar do real sentido do otimismo cristão, lembra-nos na obra acima citada que o desprezo dos negócios do século, ou seja, do espírito do mundo, não é propriamente uma negação do mundo, mas a sua afirmação nas virtualidades mais elevadas que possui. Diz Gilson: "Nada mais positivo que tal ascetismo, nada que suponha mais esperança, nada também que suponha otimismo mais resoluto".

As mazelas humanas, entrevistas pelo viés do cru realismo católico, apontam para a possibilidade de o homem derrotado por seus próprios vícios e más inclinações vencer-se a si mesmo e se recolocar de pé. Para tanto, ele tem um modelo perfeitíssimo: o Verbo que se fez carne e habitou entre nós.

Já quem não está na fé não tem a oportunidade de contemplar a desgraceira humana sem nela afundar; não tem como contemplar o abismo sem nele cair, psíquica, moral e espiritualmente.

Cedo ou tarde.

Voilà l'explication! 

Desenhando: Extra Ecclesiae Nulla Salus Est porque "quem não está na fé não tem a oportunidade de contemplar a desgraceira humana sem nela afundar; não tem como contemplar o abismo sem nele cair, psíquica, moral e espiritualmente."

Je vous remercie beaucoup, mon cher ami!


06/08/2018

Martírio cristão dos primeiros séculos, por Pe. Antonio Gallonio. Figura 4.



A. Mártir suspenso pelos pés, sua cabeça sendo esmagada a golpes de martelada.

B. Mártir suspenso pelas mãos que são amarradas para trás, com pesados objetos atados aos seus pés e pescoço.

30/07/2018

Devoção aos santos: doutrina e prática

OBS: Este texto foi publicado na revista Verbum, Ano I, no. 2, em novembro de 2016.

Nada distingue mais os católicos dos outros cristãos que a Eucaristia (e todos os outros sacramentos) e a devoção aos santos (incluindo-se principalmente a devoção à Virgem Maria). O termo cristão designou, por quinze séculos, os católicos, a Igreja Universal fundada e alimentada por Nosso Senhor Jesus Cristo. Com o advento do perverso e pervertido Lutero, cristão se tornou um termo equívoco. Há atualmente cerca de trinta mil denominações protestantes que usam o termo para se auto definirem. O grande católico inglês Hilaire Belloc, em seu livro As Grandes Heresias, argumenta que não existe o que se convencionou chamar de cristianismo. Existe a Igreja e seus inimigos. Aqui, não há como discordar de Belloc, embora dois outros ingleses escreveram sobre o tal cristianismo: C.S. Lewis escreveu um livro em que tenta explicar exatamente o que é o mero cristianismo (Mere Christianity). Paul Johnson escreveu a história da coisa (História do Cristianismo). Para Belloc, cristianismo fora da Igreja é heresia.

Assim, pois, a prática da devoção dos santos é um divisor de águas entre nós católicos e os hereges ditos cristãos. Importante será então tecermos algumas observações sobre essa prática católica milenar e a doutrina que a fundamenta. Comecemos, pois, por Nossa Senhora, nossa Mãe Santíssima.

Uma bela nota biográfica de Chesterton nos dá bem a ideia da importância da Mãe de Deus. No livro A Coisa, que é exatamente a Igreja Católica, Chesterton nos descreve talvez o momento mesmo de sua completa e definitiva conversão.



Os homens precisam de uma imagem, única, colorida e de claros contornos, uma imagem a ser trazida instantaneamente à imaginação, quando o que é católico precisa ser distinguido do que alega ser cristão ou mesmo do que é, em certo sentido, cristão. Dificilmente consigo lembrar uma ocasião em que a imagem de Nossa Senhora não se impusesse à minha imaginação de forma definitiva, à simples menção ou pensamento sobre essas coisas. Eu estava muito distante dessas coisas, e então com dúvidas sobre elas; e por isso, discutindo com o mundo sobre elas, e comigo mesmo contra elas; pois esta é a condição antes da conversão. Mas mesmo que a figura estivesse distante, ou fosse obscura e misteriosa, ou fosse um escândalo para meus contemporâneos, ou fosse um desafio para mim – nunca duvidei que esta figura fosse o símbolo da Fé; que ela incorporava, como um ser humano ainda somente humano, tudo o que A Coisa tinha a dizer para a humanidade. No momento em que me lembrava da Igreja Católica, lembrava-me dela; quando tentava esquecer a Igreja Católica, eu tentava esquecê-la; quando finalmente percebi o que era mais nobre que meu destino, o mais livre e o mais difícil de meus atos de liberdade, foi em frente à pequena imagem dela, dourada e muito brilhante, no porto de Brindisi, que eu prometi o que eu iria fazer, se eu retornasse ao meu próprio país. 

Vemos aí a ação da Medianeira de todas as Graças agindo na conversão de um ser humano, criado e alimentado numa igreja protestante, fundada por Henrique VIII e inspirada por sua amante, com quem queria se casar. Repitamos a frase principal da nota biográfica para que não haja dúvidas: “nunca duvidei que esta figura [Nossa Senhora] fosse o símbolo da Fé; que ela incorporava, como um ser humano ainda somente humano, tudo o que A Coisa [A Igreja] tinha a dizer para a humanidade.” Assim é que, toda vez que se quer atacar a Igreja, atacar a nossa Fé, ataca-se nossa Santíssima Mãe. Não é por outra razão que Pe. Frederick Faber, também advindo da igreja de Henrique VIII, diz muito claramente:

A devoção à Mãe de nosso Senhor não é um ornamento do sistema católico, uma beleza supérflua, nem mesmo um auxílio, dentre os muitos que podemos ou não empregar, mas é parte integral do cristianismo, e, sem ela, nossa religião não é, estritamente falando, cristã. Seria uma religião diferente da que Deus revelou. Nossa Senhora é uma lei distinta de Deus, um meio especial de graça, cuja importância ressalta do ódio instintivo que lhe tem a heresia.

Ressaltemos a frase que me parece crucial no texto de Faber: “Nossa Senhora é uma lei distinta de Deus”. Assim, o que todos os santos afirmam e o que a doutrina nos ensina é que, como Pe. Adolph Tanquerey expõe no seu Compêndio de Teologia Ascética e Mística:

A veneração à Virgem Santíssima deve ser maior que a que temos para com os anjos e santos, porque Ela, pela sua dignidade de Mãe de Deus, pelo seu múnus de Mediadora, pela sua santidade, sobrepuja todas as criaturas. E, assim, o seu culto, não obstante ser culto de dulia e não de latria, é chamado com razão de culto de hiperdulia, pois é superior ao que se tributa aos anjos e santos.

O culto de latria é o devido apenas a Deus, Uno e Trino; é o culto de adoração. O culto de dulia (que significa servidão) é o devido aos santos em geral; o culto de superdulia à Nossa Senhora. Assim, devemos ter para com Nossa Mãe a escravidão preconizada por São Luís Maria de Montfort. Não deixemos dúvidas neste ponto e afirmemos com Pe. Faber: a devoção à Virgem Maria não é opcional para nós católicos. Só sairemos do Purgatório pelas mãos de Maria, só entraremos no Reino dos Céus pelas mãos de Maria. É assim porque Deus quis, e ponto final.

Quanto aos santos em geral e ao nosso Anjo da Guarda em particular, nossa devoção nasce de maneira diversa. Pode ser que nossos pais nos tenham posto sob a guarda de algum santo em especial, pois era o santo de sua devoção. Pode ser que tenhamos nos afeiçoado a algum santo, ao longo de nossa vida, por razões diversas: algo que tenha nos tocado em suas vidas, alguma inspiração em nossas orações, a influência de algum padre, algum amigo ou algum escritor. Esses caminhos da vida mostram também a ação da graça que vem da Virgem Santíssima. A Igreja nos oferece um panteão amplíssimo de santos que preenchem todas as nossas necessidades e o calendário litúrgico nos possibilita rezar por todos eles, todos os dias do ano, prática recomendada pela Igreja, e muito salutar para a manutenção de nossa Fé.

O Concílio de Trento afirma, e com ele toda a Igreja, que:

Os corpos dos santos Mártires e dos demais que reinam com Cristo, que outrora foram membros de Cristo e templos do Espírito Santo, devem ser venerados pelos fiéis, pois os homens obtêm por seu intermédio muitos benefícios de Deus.

Além disso, o Concílio ordena que as imagens de Cristo, da Virgem Mãe de Deus e dos outros santos sejam colocadas e guardadas nas igrejas e se lhes rendam a honra e a reverência devidas, não porque se creia que nelas há alguma divindade ou virtude em vista da qual se lhes deva prestar culto ou pedir alguma coisa, ou pôr a confiança nelas, como faziam antigamente os gentios na adoração aos ídolos, mas porque a honra tributada a elas se refere aos que essas imagens representam; de tal maneira que pelas imagens que beijamos e ante as quais nos ajoelhamos, adoramos a Cristo e veneramos aos santos, cuja semelhança possuem. Essa é a essência do que sempre ensinou a Igreja a todos os católicos, ao longo dos séculos. É nisso que devemos acreditar e praticar, como nossos irmãos fizeram por mais de dois milênios.

Diante da crise tremenda por que passa a Igreja atualmente, vemos arrefecer, não surpreendentemente, o culto dos santos e da Virgem Santíssima. Quem ainda não observou que tiraram de nossas igrejas as imagens dos santos? Quem não vê nisso um vento frio de tendência protestante varrendo a Igreja? O jansenismo foi outra tendência protestante que atacou a Igreja nos séculos XVII e XVIII; seu alvo era a Eucaristia, pois afastava os fiéis deste sacramento por excesso de escrúpulos. As heresias deixam marcas na Fé, mesmo depois de contestadas e eventualmente vencidas.

Uma das formas mais eficientes de lutarmos contra todos os inimigos que nos atacam é praticarmos a devoção aos santos e a Maria Santíssima. Essa devoção e essa prática só depende de nós; não depende de nenhum bispo e, nem sequer, do Papa. Afervoremos, pois, nossa devoção. Façamos a nossa parte e sejamos abençoados pela Virgem Santa e pelos santos de nossa devoção.


25/07/2018

A Wikipédia e nós católicos

Eu consulto sempre a Wikipédia e a considero um instrumento valioso. Mas como sabemos que o mundo está em permanente guerra contra a Igreja, alguns cuidados são necessários. Outro dia, ouvi ou li um comentário do prof. William Bottazzini Resende com o qual eu concordo plenamente. Ele disse também consultar sempre a Wikipédia, mas observou que sua preferência é consultá-la sempre em outra língua. Tenho há muito esse costume. Na verdade, nunca a consulto em português. Vario, conforme o verbete, entre inglês, francês, espanhol e italiano. Descubro a cada dia que a Wikipédia em francês é usualmente muito mais completa que em outras línguas. 

Vou dar um exemplo de uma consulta recente que fiz, para tornar mais claro meu raciocínio. Estava lendo um esboço bibliográfico de José Geraldo Vieira (Impressões e Expressões, ed. Arcadia, 2016), onde consta a informação de que ele foi muito influenciado por um livro, lido na adolescência: O Coração, de Edmondo De Amicis. Livro influente na Itália no final do século XIX e início do século XX, com centenas de edições e traduções. Ainda hoje é editado no Brasil. Consta que esse livro influenciou gerações de escritores em todo o mundo. Bem, como nunca tinha ouvido falar do escritor, consultei a Wikipédia.

Uma informação relevante deste autor e deste livro só encontrei em francês e em italiano. Tanto em inglês quanto em português a informação está ausente. E qual é esta informação? Reproduzo abaixo o trecho em questão (no original e em tradução minha).

Em francês: "Des critiques littéraires considèrent que le Livre-Cœur est un ouvrage fortement inspiré par la morale maçonnique, dans lequel la religion catholique des Italiens est remplacée par la religion laïque de la Patrie, l’Église par l’État, le fidèle par le citoyen, les dix commandements par le Code civil, l’Évangile par la Constitution et les martyres par les héros [1]. En effet, De Amicis a été initié en franc-maçonnerie dans la loge Concordia de Montevideo, à l'obédience de la Grande Loge d'Uruguay[2]." 

Tradução: Os críticos literários consideram que O Coração é uma obra fortemente inspirada pela moral maçônica, na qual a religião católica dos italianos é substituída pela religião laica da Pátria, a Igreja pelo Estado, o fiel pelo cidadão, os dez mandamentos pelo Código Civil, o Evangelho pela Constituição e os mártires pelos heróis[1]. De fato, De Amicis foi iniciado na maçonaria na loja Concordia de Montevidéo, da Grande Loja do Uruguai[2].

Em italiano: "La sua iniziazione alla massoneria non viene considerata certa da alcuni storici, mentre altri lo ritengono iniziato alla Loggia Concordia di Montevideo, presieduta da D. Triani, presumibilmente all'Obbedienza della Gran Loggia dell'Uruguay[1]. Nel 1895 infatti, fu proprio De Amicis a pronunciare il saluto massone al torinese Giovanni Bovio, in occasione della rappresentazione teatrale del dramma San Paolo, a sua volta interpretato da un altro massone, l'attore Giovanni Emanuel. A tal proposito, alcuni critici sostengono che Cuore sia stato un libro di forte ispirazione massonica, dove si sostituiscono la religione cattolica degli italiani con la religione laicista della Patria, la Chiesa con lo Stato, il fedele col cittadino, i Comandamenti coi Codici, il Vangelo con lo Statuto, i martiri con gli eroi.[2]" 

Tradução: Sua iniciação na Maçonaria não é considerada certa por alguns historiadores, enquanto outros o consideram iniciado na Loja de Montevidéu, presidida por D. Triani, presumivelmente na Obediência da Grande Loja do Uruguai [1]. De fato, em 1895 foi De Amicis quem pronunciou a saudação maçônica a Giovanni Bovio, nascido em Turim, por ocasião da representação teatral do drama San Paolo, por sua vez interpretado por outro maçom, o ator Giovanni Emanuel. A esse respeito, alguns críticos argumentam que O Coração foi um livro de forte inspiração maçônica, substituindo a religião católica dos italianos pela religião laica da Pátria, a Igreja pelo Estado, o fiel pelo cidadão, os Mandamentos pelos Códigos, o Evangelho pelo Constituição, os mártires pelos heróis. [2]

Referências
1. Rosario F. Esposito, La Massoneria e l'Italia. Dal 1860 ai nostri giorni, Edizioni Paoline, Roma, 1979, p. 244 n.
2. Vittorio Gnocchini, L'Italia dei Liberi Muratori. Brevi biografie di Massoni famosi, Roma-Milano, Erasmo Edizioni-Mimesis, 2005, p. 93.

Vejam que há uma coincidência de informações, embora a versão italiana traga nuances diferentes. Em todas as versões, há ainda a informação de que De Amici foi membro do partido socialista.

Bem, tudo isso compõe o perfil do autor que qualquer católico deve saber antes de ler o livro (coisa que eu mesmo não fiz). Mas consta que o livro é muito sedutor, de um sentimentalismo exacerbado (segundo Carpeux, em sua História da Literatura Ocidental) o que torna a informação ainda mais relevantes ao leitor católico. 

Eis aqui um exemplo de como procuro consultar a Wikipédia que espero seja útil ao leitor do blog.

23/07/2018

Martírio cristão dos primeiros séculos, por Pe. Antonio Gallonio. Figura 3.



A. Mártir suspenso pelos polegares, com pesadas pedras atadas aos seus pés.

B. Cristãos pendurados sobre fogueiras acesas para sufocá-los; as vítimas são atingidas, ao mesmo tempo, com bastões.

19/07/2018

Martírio cristão dos primeiros séculos, por Pe. Antonio Gallonio. Figura 2.


A. Mártir suspenso pelos dois pés, com uma grande pedra no pescoço.

B. Algumas vezes os santos mártires, depois de serem cobertos de mel, eram amarrados a mastros fixados na terra, e assim expostos aos raios do sol para serem torturados pelas picadas de abelhas e moscas.

C. Mártir suspenso por um pé; uma das pernas dobrada ao joelho e mantida assim por um anel de ferro. Uma grande massa de ferro é ligada à outra perna.

10/07/2018

O martírio cristão dos primeiros séculos descrito pelo Pe. Antonio Gallonio

O Pe. Antonio Gallonio, do Oratório de São Felipe Neri escreveu, em 1591, o Tratado dos Instrumentos de Martírio: e diversos modos de suplício empregados pelos Pagãos Contra os Cristãos.

Eis um trecho da introdução à edição francesa, escrito por Claude Louis-Combet.

"O Tratado dos Instrumentos de Martírio, obra do oratoriano Antonio Gallonio, foi publicado em italiano em 1591, e imediatamente traduzido para o latim pelo próprio autor. A primeira edição francesa data de 1659. Este livro, muito popular, foi muitas vezes reeditado no curso dos séculos XVII e XVIII. Usamos aqui a tradução francesa modernizada publicada em 1904. A obra não foi reeditada na França depois desta data.

"Este Tratado que se apoia nos Atos de Martírio e sobre o testemunho de escritores contemporâneos às perseguições, se apresenta como um repertório exaustivo, minuciosamente documentado, dos diferentes modos de tortura aplicados aos cristãos dos primeiros séculos. Toda a arte do autor se concentra sobre os aparelhos e os procedimentos usados nos suplícios. Sem exageros, o horror nasce da objetividade imperturbável com que as coisas são descritas. O texto tem a frieza de uma enciclopédia e toda a aparência de um relatório de testemunhas. Fica-se sabendo, dessa forma, quais foram os refinamentos tecnológicos inventados pelos torturadores, desde a cruz, que foi o instrumento de sacrifício de Jesus até o touro de bronze e à série de grelhas e cavaletes. Tudo o que se pode saber sobre o evisceramento, a degola, as marcas de ferro, a extração da língua ou dos seios é aqui apresentado para a instrução dos fiéis sem comentários edificantes nem voos líricos. As gravuras de Tempesta, de soberbo talhe barroco, ilustram o Tratado de Gallonio que elas conduzem em seu rastro estético."

São 46 as gravuras de Tempesta. A seguir, vocês podem ver a primeira delas.

Planejo traduzir este Tratado, pouco a pouco, aqui no blog. Se encontrar editor interessado, quem sabe não teremos sua edição em português?


Legenda da fig. I

A. Mártires suspensos por um pé
B. Suspensos pelos dois pés
C. Elevados sobre a cruz, com a cabeça para cima
D. Pregados à cruz, com a cabeça para baixo
E. Pedurados pelos dois braços, com pesadíssimos objetos atados em seus pés
F. Mulheres cristãs peduradas pelo cabelo
G. Mártires pedurados por um braço, com enormes pesos atados em seus pés