terça-feira, dezembro 04, 2012

Purgatório: Segunda visão - Parte IV


Pe. Faber

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PENA DOS SENTIDOS

Santa Catarina compara a alma que sofre a pena dos sentidos com o ouro no crisol. “Vede o ouro; quanto mais ele derrete, melhor fica, e ele é derretido até que todas as impurezas sejam aniquiladas. Esse é o efeito do fogo nas coisas materiais. Mas a alma não pode se aniquilar em Deus, mas pode se aniquilar em si mesma; e quanto mais é purificada, mais se aniquila em si mesma, até que finalmente ela descanse em Deus, completamente pura. Quando o ouro, segundo a expressão dos ourives, é purificado a vinte e quatro quilates, não mais se reduz, qualquer que seja o fogo que lhe seja aplicado, porque, na realidade, nada é consumido senão as imperfeições. O fogo divino age da mesma forma na alma. Deus a mantém no fogo até cada imperfeição ser consumida, e até que Ele a reduza a uma pureza de vinte e quatro quilates; cada um, contudo, segundo seu próprio grau. Quando a alma é purificada, descansa completamente em Deus, sem reter nada em si mesma. Deus é a sua vida. E quando Ele traz a Si a alma assim purificada, ela se torna impassível, pois nada mais há a ser purificado; e se ela fosse mantida purificada desta forma no fogo, ele não a causaria dor; não, pois seria o fogo do Amor Divino, a própria vida eterna, no qual a alma já não poderia experimentar mais contradições.”

A ALEGRIA NO PURGATÓRIO
  
Tal é o primeiro objeto que surge ante os olhos da alma: um sofrimento extremo. Agora, examinemos outro objeto: a extrema alegria. Como a alma ama Deus com a mais pura afeição, e sabe que seus sofrimentos são a Vontade de Deus para operar sua purificação, ela se conforma perfeitamente ao divino decreto. Durante sua estada no purgatório, ela nada vê senão o que agrada a Deus; ela não pensa outra coisa senão na Sua Vontade; nada lhe é mais claro que a conveniência de sua purificação, a fim de se apresentar bela e radiosa diante de tão suprema Majestade. Assim fala Santa Catarina: “Se uma alma, a ser ainda purificada, fosse apresentada à visão de Deus, ela se consideraria gravemente ferida, e seus sofrimentos seriam piores que os de dez purgatórios; pois ela seria inteiramente incapaz de suportar aquela excessiva Bondade e aquela suprema Justiça.” Por isso é que a alma sofredora está inteiramente resignada à Vontade de seu Criador. Ama suas próprias dores, e nelas se regozija, porque elas são a única Vontade de Deus. Assim, no meio de ardente calor, ela desfruta de um contentamento tão completo que excede ao entendimento da inteligência humana. “Não acredito,” diz Santa Catarina, “que seja possível encontrar um contentamento comparável ao das almas no Purgatório, a menos que seja o contentamento dos santos no Paraíso. Esse contentamento cresce diariamente por meio do influxo de Deus nessas almas, e esse influxo cresce na proporção em que os obstáculos vão se desvanecendo. De fato, com relação à vontade, dificilmente podemos dizer que as penas sejam realmente penas, tal é o contentamento com que as almas descansam na Vontade de Deus, à qual estão unidas pelo mais puro amor.”

Em outro lugar, Santa Catarina diz que esse inexplicável júbilo da alma enquanto submetida ao Purgatório se origina da força e pureza de seu amor a Deus. “Esse amor dá à alma um contentamento que não pode ser expresso. Mas esse contentamento não alivia nem uma pequena parte do sofrimento; não, é a demora que o amor experimenta antes de tomar posse do objeto amado que causa o sofrimento; e o sofrimento é maior na proporção da perfeição do amor que Deus tornou a alma capaz de Lhe devotar. Assim, as almas no Purgatório têm, ao mesmo tempo, o maior contentamento e o maior sofrimento; e um não obstrui o outro.” Quanto às orações, esmolas e Missas, Santa Catarina afirma que as almas experimentam com elas grande consolação; mas que, nessas e em outras coisas, a principal solicitude das almas é que tudo se deve “pesar na justa balança da Vontade Divina, deixando Deus seguir Seu próprio curso em tudo, satisfazendo a Si mesmo e à Sua Justiça, como Lhe aprouver.”

FALSA CONFIANÇA

A Santa conclui seu Tratado lançando seu olhar ao seu próximo e a si mesma. Ao próximo, ela diz: “Ah! se eu pudesse elevar minha voz tão alto para assustar todos os homens sobre a terra e dizer-lhes: Ó homens miseráveis! Por que se deixaram cegar por este mundo de modo a não fazer nenhuma provisão para aquelas imperiosas necessidades que encontrarão no momento da morte? Vós, todos vós, esperais encontrar abrigo sob a esperança da misericórdia de Deus. Mas não vedes que a própria bondade de Deus testemunhará contra vós por terdes se rebelado contra a Vontade de Senhor tão bom? Não descanseis numa falsa confiança, dizendo: Quanto chegar a hora de minha morte, farei uma boa confissão, e então, eu ganharei a indulgência plenária, e assim, naquele último momento, eu serei limpo de todos os meus pecados, e então serei salvo. Confissão e contrição (perfeita) são necessárias para uma indulgência plenária; e (essa) contrição é coisa tão difícil de conseguir que se soubésseis da dificuldade, tremeríeis de tanto temor, não ousando crer que tal graça vos possa jamais ser concedida, em vez de a esperardes com uma confiança temerária, como agora fazeis.”

Quando se examinava a si própria com a luz da iluminação sobrenatural, ela via que Deus a escolhera para ser na Igreja a expressão e a imagem viva do Purgatório. Ela diz: “Essa forma de purificação, que observo nas almas no Purgatório, eu a percebo agora em minha própria alma. Vejo que minha alma habita em seu corpo num purgatório inteiramente conforme ao verdadeiro Purgatório, com a diferença de que meu corpo pode suportar sem morrer. Não obstante, os sofrimentos estão pouco a pouco aumentando, até que alcancem um ponto em que meu corpo realmente morrerá.”

A doutora do Purgatório

Sua morte foi verdadeiramente maravilhosa, e tem sido sempre considerada um martírio do Amor Divino. A missão da santa, como a grande Doutora do Purgatório, foi tão verdadeiramente apreciada, desde o princípio, que na sua antiga vida, a vita antica, que foi examinada por teólogos em 1670 e aprovada no processo de sua Canonização, processo este composto por Marabotto, seu confessor, e Vernazza, seu filho espiritual, está dito: “Verdadeiramente, parece que Deus escolheu Sua criatura como um espelho e um exemplo das dores da outra vida, que as almas sofrem no Purgatório. É como se Ele a tivesse colocado num alto muro a dividir esta da outra vida; de modo que ao ver qual sofrimento nos espera na vida além tumulo, ela pudesse manifestar-nos, ainda nesta vida, o que devemos esperar quando cruzarmos a fronteira.” Este é um simples resumo de seu maravilhoso e superlativamente belo Tratado, que colocou Santa Catarina dentre os teólogos da Igreja.

A mesma visão do Purgatório de Santa Catarina é exposta brevemente, embora de modo tocante, por Dante, naquela bela cena em que ele e Virgílio vagueiam pelos arredores do Purgatório. O poeta se torna subitamente fascinado pela luz brilhante de um Anjo que desliza pelo mar, empurrando um barco repleto de novas almas para o Purgatório; e ele descreve o barco deslizando na direção das margens tão suavemente que não produz nenhuma onda na água, enquanto as almas que deixaram a vida, a terra, e o julgamento há poucos minutos, penosa e, ao mesmo tempo, alegremente cantam o salmo In exitu Israel de Egypto. Foi, certamente, uma bela concepção de Dante; e como ele era tanto teólogo quanto poeta, julguei oportuno mencioná-la aqui como prova da visão que tinham os intelectuais no tempo de Dante.

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Um comentário:

Nik disse...

Professor, desculpe por comentar aqui algo fora do assunto deste belíssimo post, mas acho que vale o risco. É uma trivialidade, mas por isso mesmo interessante, a maquina de escrever de Chesterton: http://www.imaginativeconservative.org/2012/05/conservative.html#more