26/08/2006

C. S. Lewis sobre o Cristianismo: Parte III

Repostas dadas por Lewis a questões formuladas por empregados da Electric and Musical Industries Ltd., Heyes, Middlesex, Inglaterra, em 18 de abril de 1944




Pergunta: A Bíblia foi escrita há milhares de anos para povos num estado de desenvolvimento mental inferior ao atual. Muitas partes parecem absurdas à luz do conhecimento moderno. Em vista disso, a Bíblia não deveria ser re-escrita descartando o alegório-mitológico e re-interpretando o restante?

Lewis: Primeiramente, quanto ao estado mental dos povos antigos. Não estou certo sobre o que isso quer dizer. Se for que os povos que viveram a dez mil anos atrás não conheciam muitas das coisas que nós conhecemos hoje, eu concordo, é claro. Mas, se o que você quer dizer é que tem havido um desenvolvimento da inteligência com o passar do tempo, acredito que não haja evidência para tal afirmação. A Bíblia pode ser dividida em duas partes – o Velho e o Novo Testamento. O Velho Testamento contém elementos alegórico-mitológicos. O Novo Testamento consiste principalmente de ensinamento, não de narração: mas onde ele é narrativo, é, na minha opinião, histórico. Quanto aos aspectos mitológicos e alegóricos do Velho Testamento, eu duvido muito que sejamos sábios o bastante para nos livrarmos deles. O que se tem aqui é algo gradualmente entrando em foco. A princípio você tem, disperso nas religiões pagãs em todo o mundo – mas ainda muito vaga e mítica – a idéia de um deus que é morto e esquartejado e que depois revive. Ninguém sabe onde ele viveu ou morreu; ele não é histórico. Então, você tem o Velho Testamento. As idéias religiosas ficam um pouco mais focadas. Tudo está agora ligado a uma nação. E fica ainda mais focada à medida que a história se desenrola. Jonas e a Baleia [O Livro de Jonas] e Noé e sua Arca [Gênesis, capítulos VI-VIII] são histórias alegorio-mitológicas; mas a história da Corte do Rei David [II Samuel, capítulo II, I Reis, capítulo II] é provavelmente tão confiável quanto a história da Corte de Luiz XIV. Então, no Novo Testamento, a coisa realmente acontece. O deus a ser morto aparece realmente – como uma Pessoa histórica, vivendo num lugar e tempo definidos. Se pudéssemos filtrar todos os elementos alegóricos e mitológicos dos estágios anteriores, penso que perderíamos uma parte essencial de todo o processo. Isso é o que eu penso.

21/08/2006

Artigo meu no Mídia Sem Máscara

Saiu hoje (21/08) artigo meu no MSM intitulado Clube Bilderberg: o livro de Estulin.
Link http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=5149

16/08/2006

C. S. Lewis sobre o Cristianismo: Parte II

Repostas dadas por Lewis a questões formuladas por empregados da Electric and Musical Industries Ltd., Heyes, Middlesex, Inglaterra, em 18 de abril de 1944




Pergunta: Fico me perguntando o quanto podemos culpar o trabalho do Demônio por alimentarmos certos desejos. Algumas pessoas têm uma forte concepção da presença do Demônio no mundo. Outras nem tanto. Ele é real como pensamos que é? Isso não preocupa certas pessoas, pois, elas não desejam ser boas, mas outras são continuamente perseguidas pelo próprio Demo.

Lewis: Nenhuma referência ao Demônio ou a demônios é feita em nenhum Credo cristão, e é bastante possível ser cristão sem acreditar neles. Eu acredito que tais seres existem, mas isso é problema meu. Supondo que eles existam, o grau de percepção humana com relação a eles varia muito. Isto é, quanto mais um homem está em poder do Demônio, menos ele estará consciente disso, da mesma forma que um homem está bem sóbrio na medida que ele reconhece que está bêbado. São as pessoas que estão completamente cônscias e tentando ser boas é que estão conscientes do Demônio. Só quando você começa se armar contra Hitler é que você percebe que seu país está cheio de agentes nazistas. É evidente que os demônios não querem que você acredite neles. Se os demônios existem, o primeiro objetivo deles é lhe aplicar um anestésico – para lhe fazer baixar a guarda. Somente se isso falhar é que você se torna consciente deles.

15/08/2006

C. S. Lewis sobre o Cristianismo: Parte I



Repostas dadas por Lewis a questões formuladas por empregados da Electric and Musical Industries Ltd., Heyes, Middlesex, Inglaterra, em 18 de abril de 1944



Pergunta: Qual das religiões do mundo confere a seus seguidores maior felicidade?

Lewis: Qual das religiões do mundo confere a seus seguidores maior felicidade? Enquanto dura, a religião da auto-adoração é a melhor.

Tenho um velho conhecido já com seus 80 anos de idade, que vive uma vida de inquebrantável egoísmo e auto-adoração e é, mais ou menos, lamento dizer, um dos homens mais felizes que conheço. Do ponto de vista moral, é muito difícil. Eu não estou abordando o assunto segundo esse ponto de vista. Como vocês talvez saibam, não fui sempre cristão. Não me tornei religioso em busca da felicidade. Eu sempre soube que uma garrafa de vinho do Porto me daria isso. Se você quiser uma religião que te faça feliz, eu não recomendo o cristianismo. Tenho certeza que deve haver algum produto americano no mercado que lhe será de maior utilidade, mas não tenho como lhe ajudar nisso.

Pergunta: Os materialistas e alguns astrônomos sugerem que o sistema solar e a vida como a conhecemos foram criados por uma colisão estelar acidental. Qual é a visão cristã dessa teoria?

Lewis: Se o sistema solar foi criado por uma colisão estelar acidental, então o aparecimento da vida orgânica neste planeta foi também um acidente, e toda a evolução do Homem foi um acidente também. Se é assim, então todos nossos pensamentos atuais são meros acidentes – o subproduto acidental de um movimento de átomos. E isso é verdade para os pensamentos dos materialistas e astrônomos, como para todos nós. Mas se os pensamentos deles – isto é, do Materialismo e da Astronomia – são meros subprodutos acidentais, por que devemos considerá-los verdadeiros? Não vejo razão para acreditarmos que um acidente deva ser capaz de me proporcionar o entendimento sobre todos os outros acidentes. É como esperar que a forma acidental tomada pelo leite esparramado pelo chão, quando você deixa cair a jarra, pudesse explicar como a jarra foi feita e porque ela caiu.

14/08/2006

A fragilidade da civilização

G.K. Chesterton

Nota

Percival Puggina, de maneira muitíssimo oportuna, recoloca em sua página um artigo de Paul Johnson, de 2004, sobre o terrorismo. Afirma o historiador que “A maioria das pessoas, a quem falta um adequado conhecimento da história, tende a subestimar a fragilidade de uma civilização. Elas não percebem que as civilizações declinam, da mesma forma como se desenvolvem. As civilizações podem ser, e têm sido, destruídas por forças malignas.” Temos uma doentia facilidade de esquecer esse alerta, apesar de ele ter sempre nos chegado dos mais sábios dentre nós. Christopher Dawson também nos lembra que “Aprendemos que o barbarismo não é um mito pitoresco ou uma memória quase esquecida de um passado distante, mas uma monstruosa realidade subjacente que pode entrar em erupção com uma inconcebível força destruidora nos momentos em que a autoridade moral de uma civilização perde seu controle

Johnson, no artigo citado, nos descreve três “idades tenebrosas” em que o mundo civilizado se viu escravo das “forças malignas”. Mas, houve também uma ameaça que, pela graça de Deus, fracassou e que, talvez, tivesse sido nosso mergulho definitivo no abismo. Essa ameaça teve um nome: se chamou Moloch. Chesterton descreve, magistralmente, a luta entre Roma e Cartago. São palavras sábias e oportunas. Elas aparecem no livro Everlasting Man (O Homem Eterno). O trecho é transcrito abaixo, adaptado de uma antiga tradução.
[1]

Negritos são todos meus.
_________________________________________________________________

Do outro lado do mar, erguia-se uma cidade que tinha o nome de Vila Nova. Era chamada de nova porque era uma colônia, como Nova York ou Nova Zelândia. Sentinela avançada da expansão fenícia, aprazia-se em afirmações de uma sonoridade metálica e repetia, orgulhosamente, que ninguém poderia lavar as mãos no mar, sem licença de Vila Nova. Herdara de Tiro e Sidon suas prodigiosas aptidões comerciais e uma perfeita ciência na arte da navegação.

Em Vila Nova, que os romanos chamavam de Cartago, o deus que punha os negócios em marcha, chamava-se Moloch, o mesmo, quiçá, que encontramos noutra parte com o nome de Baal, o Senhor. Os adoradores de Moloch não eram nem primitivos nem grosseiros. Sua civilização era, pelo contrário, suntuosa, madura, refinada, e muito superior, nas artes da vida, à dos romanos. E Moloch não era um mito. Sua comida, pelo menos, nada tinha de mítico nem de fabuloso. Aquelas respeitáveis pessoas reuniam-se, efetivamente, para invocar aos céus que abençoasse seus frutíferos negócios, precipitando, na pira ardente, centenas de crianças.

Dito isto, seria fácil prestar demasiada atenção aos começos do conflito que estes honrados cavalheiros começaram com Roma. A fase puramente política ou comercial da querela perde-se, por definição, em uma infinidade de detalhes, e as guerras púnicas, que num momento pareceram que jamais iam terminar, quase não tiveram começos que se pudessem fixar com exatidão. É indiscutível que, em determinada ocasião, tendo Cartago conquistado a Sicília e posto o pé na Espanha, Roma se viu colhida nas mandíbulas de uma tenaz que lhe teria esmagado infalivelmente se, em sua natureza, suportasse ser esmagada. Praticamente, por outra parte, ela o foi, e se ali não estivessem em jogo mais que fatores materiais, o caso teria terminado como contavam os cartagineses. Censura-se, comumente, aos romanos terem-se negado, sempre, a fazer a paz. Um instinto profundo lhes advertia que, com tais adversários, não haveria paz possível. Censura-se seu pertinaz “Delenda est Cartago” mas esquecem que foi Roma a destruída e que a luz sagrada, que a banha através das épocas, provém, em parte, de ter ressuscitado entre os mortos.

No momento decisivo da guerra, Roma soube que a Itália, por um milagre de estratégia, acabava de ser invadida pelo Norte. Aníbal marchava sobre Roma e os romanos, mandados ao seu encontro, convertiam-se em joguetes nas suas mãos de mago. Como sinal supremo do desastre, Roma via seus aliados abandonarem-na, um a um, na sua fortuna expirante, enquanto que, a marchas forçadas, o invulnerável inimigo aproximava-se de seus muros.

Os augúrios romanos e os arúspices, que viram, nesta hora, cheia de prodígios desumanos, nascer um menino com cabeça de elefante e cair as estrelas do céu como granizo, penetravam mais dentro da realidade profunda dos acontecimentos do que o historiador moderno, que não viu neles mais que o desenlace guerreiro de uma competição comercial. Os que vivam, então, sentiram outra coisa, e o ar mesmo que respiravam foi escurecido por nuvens e penetrado por um hálito envenenado. Não foi uma derrota militar, uma rivalidade mercantil que encheu a imaginação romana com os presságios horrorosos de um transtorno da ordem natural do universo: foi Moloch, o deus Moloch, levantando por cima das colinas do Lácio a sua face espantosa; foi Baal, pisoteando as vinhas italianas com seus tacões; foi Tanit, a invisível, murmurando através de seus véus o chamamento de seu amor, mais espantoso que o ódio. Houve destruição de tudo que é doméstico e fecundo, de tudo o que é humano, sob o alento de uma desumanidade, comparada com a qual, a crueldade é humana. Os deuses do lar, silenciosos e trêmulos, se escondiam obscuramente sob o telhado de suas humildes moradas.

Os deuses estavam mortos e Roma, com suas águias prisioneiras e suas legiões despedaçadas, tinha perdido tudo, menos a honra e a coragem gelada de seu desespero. Nada no mundo ameaçava mais Cartago do que a própria Cartago. Os homens de negócios de Cartago, com o golpe de vista infalível que distingue os verdadeiros realizadores, viam claro na situação. Chegara a hora, pois, de por um freio aos generais e aos gastos gerais, isto é, às contínuas exigências de homens e de dinheiro daquele Aníbal.

Assim aconteceu com os príncipes comerciantes de Cartago e com o seu culto do desespero, justamente na hora em que todas as esperanças pareciam ser-lhes favoráveis. Quem lhes teria dito que os romanos esperavam contra toda a esperança? Onde poderiam eles aprender a conhecer o coração do homem, eles que só reverenciavam o ouro, a força bruta, os deuses com coração de besta feroz? E um belo dia souberam, esfregando os olhos, que, das cinzas que desdenharam dispersar com o pé, acabava de renascer um incêndio novo, devorando tudo o que tinha ante si. E Cartago caiu como um relâmpago, como só antes dela caíra Satã. Da Vila Nova existe apenas um nome sobre a areia e, nem sequer, resta uma pedra que assinale o sítio de seu esplendor. Séculos após a última guerra que acabou de consumar sua perda, uns trabalhadores que escavavam nos escombros de suas construções sepultas tiraram, na ponta das picaretas, as relíquias de sua religião: um punhado de esqueletos minúsculos.

Cartago caiu por ser fiel à sua própria filosofia. Moloch devorou a seus próprios filhos. Os deuses tinham se levantado e os demônios, fugido. Ninguém compreenderá plenamente o gesto de Roma, nem o destino que devia levá-la ao posto supremo, se não conservar toda a memória das horas de vergonha e de agonia, em que perseverou firme, no seu alto testemunho de possuir a alma sensata da Europa. Aos olhos dos homens, doravante, ela personificará a Humanidade, e já a ilumina o reflexo de uma luz, ainda invisível, encoberta pelos véus do futuro. Os desígnios da misericórdia divina são insondáveis para nós, mas um fato certo é que as lutas em que se empenhou a Cristandade teriam sido muito diferentes, se o império fosse vencido por Cartago. Graças ao triunfo de Roma, a claridade divina, na hora por ela escolhida, elevou-se sobre uma humanidade humana, a-pesar-de-tudo. Qualquer que fosse a sua corrupção e a sua miséria, a Europa se livraria de piores destinos. Pois há grande diferença entre o ídolo de madeira, ao qual as crianças oferecem as migalhas de sua comida, e o ídolo gigante que, para saciar sua fome, devora crianças.

O que Roma esmagou não foi um concorrente, mas um inimigo realmente mortal. E quando se ergueu para o golpe de graça, seu braço implacável não pensava mais em seu coração, nem em tratados de comércio, nem em protetorados, mas em um riso execrável e sinistro. O que o romano odiava era a alma odienta de Cartago. Ódio magnífico! Porque soube ser duro, nos é permitido rememorar, sem dureza, o nosso passado humano, e nós não tivemos jamais de abater os bosques de Vênus, como foram, outrora, derrubados os de Baal. Passaram os tempos e hoje estamos de bem com os nossos avós, os pagãos. Antes de virarmos a página sobre eles, ponhamos na frente do que eles foram o que eles teriam podido ser. Honras lhes sejam feitas. A antiguidade é, para nós, um fardo leve e não temos que estremecer diante da ninfa de uma fonte ou do cupido de uma consola. Pela doce cadeia dos sorrisos e das lágrimas estamos vinculados a épocas que já não são, e cuja lembrança não nos faz baixar a cabeça. E não é sem um movimento íntimo de ternura que vemos cair o crepúsculo da tarde sobre a herdade sabina, e os deuses familiares conversarem, alegremente, em voz baixa, quando Catulo volta a Sirmio.

Delenda est Cartago”.


[1] Da qual, infelizmente, não possuo o nome nem do tradutor nem da editora.

03/08/2006

Artigo meu no Mídia Sem Máscara

Saiu hoje (03/08) artigo meu no MSM intitulado Beatificação do ditador da Tanzânia.
Link http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=5104

27/07/2006

Barbarismo e Imediação

Que cultura seja sentimento refinado e comedido pelo intelecto se torna claro quando nos voltamos para um tipo de barbarismo existente em nosso meio e possuidor de um inconfundível poder desintegrador. Essa ameaça pode ser mais bem descrita como o desejo de imediação. É característica do bárbaro, quer ele apareça num estágio pré-cultural, quer ele emirja do fundo de uma decadente civilização, insistir em ver uma coisa “como ela é”. O desejo atesta que ele não tem nada em si mesmo com o que espiritualizá-la; a relação é de coisa para coisa, sem a intercessão da imaginação. Impaciente com o véu de significado imaginativo com que o homem superior cobre o mundo, o bárbaro e o filisteu, que é o bárbaro imerso numa cultura, exigem o acesso à imediação. Onde o primeiro almeja a representação, o último insiste na rigidez da materialidade, suspeitando, com razão, que a forma significará restrição.

Richard Weaver (Ideas have consequences)

22/07/2006

Guerra religiosa segundo Chesterton

Pessoas refinadas parecem considerar que há algo desagradável e profano numa guerra religiosa. Devo dizer que não deve haver guerra a não ser a guerra religiosa. Se a guerra for irreligiosa, ela será imoral. Homem algum deve empreender qualquer luta a menos que ele esteja preparado para colocar sua desavença perante aquela Corte de Arbitragem invisível que perpassa toda a religião. A menos que ele pense estar vitalmente, eternamente, cosmicamente do lado certo, ele estará errado se disparar sua pistola

Para entender o Brasil e a justa reação de Israel contra um grupo terrorista (Hezbollah)

Os dois artigos abaixo são importantes neste pobre país da desinformação.

Sobre o Brasil, artigo do filósofo Alberto Oliva
http://www.parlata.com.br/artigos_exp.asp?art=1857


Sobre o conflito entre Israel e os terroristas que tomaram de assalto um país chamado Líbano ler

http://www.puggina.org/outrosautores/news.php?detail=n1153529741.news

Que coisa mais maluca, um grupo terrorista gerencia um PAÍS, e todo mundo por aqui acha que Israel está lutando contra outro país!!!!

20/07/2006

Matemática nos tempos do comunismo de Lula



Li esse texto delicioso nos comentários de um artigo no blog do Reinaldo Azevedo. Parece ser um texto anônimo que está circulando pela Internet. Dá a medida exata da situação educacional do nosso pobre país.


Semana passada comprei um um artigo que custou R$ 1,58. Dei à balconista R$ 2,00 e peguei na minha bolsa 8 centavos, para evitar receber ainda mais moedas.A balconista pegou o dinheiro e ficou olhando para a máquina registradora, aparentemente sem saber o quê fazer. Tentei explicar que ela tinha que me dar 50 centavos de troco, mas ela não se convenceu e chamou o gerente para ajudá-la. Ficou com lágrimas nos olhos enquanto o gerente tentava explicar e ela aparentemente continuava sem entender.Porquê estou contando isso? Porque me dei conta da evolução do ensino de matemática desde 1950, que foi assim:

1. Ensino de matemática em 1950:

Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de produção desse carro de lenha é igual a 4/5 do preço de venda. Qual é o lucro?

2. Ensino de matemática em 1960:

Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de produção desse carro de lenha é igual a 4/5 do preço de venda, ou R$ 80,00.Qual é o lucro?

3. Ensino de matemática em 1970:

Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de produção desse carro de lenha é R$ 80,00. Qual é o lucro?

4. Ensino de matemática em 1980:

Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de produção desse carro de lenha é R$ 80,00. Escolha a resposta certa, que indica o lucro:
R$ 20,00 ( ) R$40,00 ( ) R$60,00 ( ) R$80,00 ( ) R$100,00 ( )

5. Ensino de matemática em 1990:

Um cortador de lenha derruba uma bela árvore porque êle é egoísta e não tem nenhuma consideração para com o habitat de animais ou a preservação de nossas florestas. Êle faz isso apenas para ter um lucro de R$ 20,00.

O quê você acha dessa maneira de ganhar a vida? É socialmente justa?

6. Ensino de matemática em 2006:

Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$100,00. O custo de produção é R$ 80,00. Ele tem um lucro de apenas R$20,00.

Não está sendo explorado pelo capitalismo selvagem e destruindo a natureza?

Depois de responder, dê sua opinião sôbre como os tatus, os passarinhos, as cobras e outros animais se sentiram com essa destruição do seu habitat....

Textos de Thomas Sowell

Tenho traduzido alguns textos de Thomas Sowell, para o Mídia Sem Máscara. Alguns deles eu já postei também aqui no blog. Outros ainda não. Seguem os links destes últimos, para a consulta dos interessados.

Somos sérios ou suicidas?
http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=4486

Velhos Budweisers
http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=4656

Catedrais da Fé
http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=4704

Que importância tem os fatos? Parte I
http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=4731

Que importância tem os fatos? Final
http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=4732

Lavegem cerebral na sala de aula
http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=4748

A esquerda e a pobreza
http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=4768

Alternativas à realidade
http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=4793

A família está mesmo sendo extinta?
http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=4818

Mitos sobre ricos e pobres
http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=4850

Lei ou linchamento?
http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=4897

Justiça retardada?
http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=4926

O maior dos escândalos
http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=4956

Fatos explosivos
http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=4978

Pensamentos esparsos
http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=4989

Aquecimento Global
http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=5008

Preservando uma visão: Parte I
http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=5031

Preservando uma visão: Parte II
http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=5042

Preservando uma visão: Final
http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=5059

História Geral da África: Uma Introdução
http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=5068

09/07/2006

O Ressurgimento da Filosofia – Por quê?

G.K. Chesterton


O melhor motivo para o ressurgimento da filosofia é que a menos que um homem tenha uma filosofia, certas coisas horríveis acontecerão a ele. Ele será prático; ele será progressista; ele cultivará a eficiência; ele acreditará na evolução; ele realizará o trabalho dele mais próximo e imediato; ele se devotará a feitos, não a palavras. Assim, atingido por rajadas e mais rajadas de estupidez cega e destino aleatório, ele caminhará trôpego para uma morte miserável, sem nenhum conforto, exceto uma série de slogans; tais como esses que cataloguei acima.

Essas coisas são simples substitutos dos pensamentos. Em alguns casos, eles são pedaços esparsos do pensamento de alguém. Isso significa que um homem que se recusa a ter sua própria filosofia não terá nem mesmo a vantagem de uma fera, a de ser deixado à mercê de seus próprios instintos. Ele terá apenas os esgotados fragmentos de alguma filosofia alheia; o que as feras não precisam herdar; daí sua felicidade.

Os homens sempre têm uma de duas coisas: ou uma completa e consciente filosofia ou uma inconsciente aceitação de fragmentos dispersos de alguma incompleta, devastada e, freqüentemente, desacreditada filosofia. Esses fragmentos dispersos são as frases que eu citei: eficiência, evolução etc. A idéia de ser “prático”, em si mesma, é tudo que resta de um Pragmatismo que não se sustenta. É impossível ser prático sem uma Pragma. E o que aconteceria se você abordasse o próximo homem prático que encontrasse e dissesse ao pobre pateta: “Onde está sua Pragma?” Fazer o trabalho mais próximo e imediato é um nonsense óbvio; mesmo assim, isso é repetido em muitos almanaques. Em noventa por cento dos casos, isso significaria fazer o trabalho a que você menos se adequasse, tal como limpar janelas ou esmurrar um policial.

“Feitos em vez de palavras” é, em si mesmo, um excelente exemplo de “Palavras em vez de pensamentos”. Jogar uma pedra no lago é um feito e mandar um preso para a forca é uma palavra. Mas, há palavras verdadeiramente fúteis; quase inteiramente delas consiste esse tipo de jornalismo científico popular e filosófico.

Alguns têm medo de que a filosofia os entediará ou os confundirá; a razão é que eles não pensam apenas numa série de longas palavras, mas também num novelo de complicadas noções. Essas pessoas deixam de perceber toda a natureza da atual situação. Esses são os males que já existem; principalmente pelo desejo de uma filosofia. Os políticos e os jornais estão sempre usando longas palavras. Não se constitui em uma completa consolação o fato de eles as usarem erradamente. As relações políticas e sociais já são desesperadamente complicadas. Elas são muito mais complicadas do que qualquer página de metafísica medieval; a única diferença é que os medievalistas podiam desembaraçar o novelo e entender as complicações; os modernos não podem. As principais coisas práticas atuais, como corrupção financeira e política, são enormemente complicadas. Nos contentamos em tolerá-las porque nos contentamos em não entendê-las, em vez de compreendê-las. O mundo dos negócios precisa de metafísica – para simplificá-lo.

Eu sei que essas palavras serão recebidas com escárnio, e com a reafirmação mal-humorada de que não é momento para nonsense e paradoxo; e que o que é realmente desejável é um homem prático para ir em frente e limpar toda a bagunça. E um homem prático, sem dúvida, aparecerá, um de uma sucessão interminável de homens práticos; e ele, sem dúvida, irá em frente, e talvez “limpará” alguns milhões para si próprio e deixará uma bagunça maior ainda; tal como os homens práticos anteriores fizeram. A razão é perfeitamente simples. Esse tipo de pessoa excessivamente rude e sem consciência sempre aumenta a confusão; porque ela está à mercê de diferentes motivos ao mesmo tempo; e ele não os distingue. Um homem tem, já totalmente entrelaçado em sua mente, (1) um desejo entusiástico e humano por dinheiro, (2) um desejo pedante e superficial de estar progredindo, ou indo pelo caminho de todo mundo, (3) um desconforto por ser considerado muito velho para se relacionar com os jovens, (4) uma certa quantidade de um vago, mas genuíno, patriotismo ou espírito público, (5) uma incompreensão do erro cometido pelo Sr. H. G. Wells, na forma de um livro sobre a Evolução. Quando um homem tem todas essas coisas dentro de sua cabeça e nem sequer tenta resolvê-las, ele é chamado, pelo consenso e aclamação geral, um homem prático. Mas do homem prático não se pode esperar algum aprimoramento em relação à impraticável confusão; pois, ele não pode sequer organizar a confusão de sua própria mente, o que dizer de sua altamente complexa comunidade e civilização. Por alguma estranha razão, é comum dizer que esse tipo de homem prático “sabe o que faz”. É claro que isso é exatamente o que ele não sabe. Ele pode, em alguns casos felizes, conhecer o que ele quer, como um cachorro ou um bebê de dois anos; mas mesmo assim, ele não sabe o porquê de seu desejo. E é o porquê e o como que deve ser considerado quando estamos elucidando a razão de uma cultura ou tradição ter se tornado tão confusa. O que precisamos, como os antigos entenderam, não é um político que é um negociante, mas um rei que é um filósofo.

Peço desculpas pela palavra “rei”, que não é estritamente necessária no contexto; mas eu sugiro que seria uma das funções do filósofo ponderar sobre tais palavras e determinar se elas têm ou não importância. A República Romana e todos os seus cidadãos tinham um horror enorme da palavra “rei”. Como conseqüência eles inventaram e nos impuseram a palavra “imperador”. Os grandes republicanos que fundaram a América também tinham horror da palavra “rei”; que depois reapareceu com a especial qualificação de um Rei do Ferro, um Rei do Petróleo, um Rei do Porco, ou outros monarcas similares, feitos de materiais semelhantes. O negócio de um filósofo não é necessariamente condenar a inovação ou negar a distinção. Mas é sua tarefa perguntar-se exatamente o que é que ele ou os outros desgostam na palavra “rei”. Se o que ele desgosta é um homem usando um casaco cheio de manchas, feito de pele de um animal chamado arminho, ou um homem que tinha um anel de metal colocado sobre sua cabeça por um clérigo, ele terá de decidir. Se o que ele desgosta é que tal casaco ou tal poder seja passado de pai para filho, ele perguntará se isso ocorre nas condições comerciais correntes. Mas, de qualquer forma, ele terá o hábito de testar a coisa pela reflexão; por meio da idéia de que gosta ou desgosta; e não meramente pelo som da sílaba ou a aparência das letras da palavra.

Filosofia é meramente pensamento que foi cuidadosamente considerado. É, freqüentemente, muito enfadonho. Mas, o homem não tem alternativa, exceto entre ser influenciado pelo pensamento refletido ou ser influenciado pelo pensamento irrefletido. O último é o que comumente chamamos, hoje, de cultura e erudição. Mas o homem é sempre influenciado por pensamento de algum tipo, seu próprio ou de alguém; de alguém que ele confia ou de alguém de quem ele nunca ouviu falar, pensamento de primeira, segunda ou terceira mão; pensamento de lendas esquecidas ou de rumores não confirmados; mas sempre algo com a sombra de um sistema de valores e uma razão para preferência. Um homem testa qualquer coisa por meio de alguma coisa. A questão aqui é se ele alguma vez testa o teste.

Tomarei um exemplo, entre milhares que poderia escolher. Qual é a atitude de um homem comum ao ser informado sobre um evento extraordinário: um milagre? Quero dizer um tipo de coisa que é informalmente chamado de sobrenatural, mas que deveria ser chamado propriamente de preternatural. Pois, a palavra sobrenatural aplica-se somente ao que é mais elevado que o homem; e muitos milagres modernos são como se viessem de um lugar consideravelmente inferior. De qualquer forma, o que os homens modernos dizem quando se confrontam com algo que, aparentemente, não pode ser explicado naturalmente? Bem, a maioria dos homens modernos diz asneira. Quando uma tal coisa é mencionada, em romances e em histórias de jornais ou revistas, o primeiro comentário que se ouve é, “Mas, meu caro amigo, este é o século XX!” Vale a pena ter um pequeno treino em filosofia, se não por outras razões, pelo menos para não parecer tão surpreendentemente idiota. A afirmação tem, no todo, muito menos sentido ou significado do que, “Mas, meu caro amigo, estamos numa tarde de terça-feira.” Se milagres não podem acontecer, eles não acontecem nem no século XX, nem no século XII. Mas se eles podem acontecer, ninguém pode provar que em algum momento determinado eles não possam acontecer. O melhor que pode ser dito para um cético é que ele não pode explicar o que ele quer dizer, e portanto, o que quer que ele queira dizer, ele não pode explicar o que diz. Mas se ele somente quer dizer que se poderia acreditar em milagres no século XII, mas que não se pode acreditar neles no século XX, então, ele está errado novamente, tanto em teoria quanto em fatos. Ele está errado em teoria, porque um inteligente reconhecimento de possibilidades não depende de datas mas de filosofia. Um ateu poderia ter desacreditado em milagre no primeiro século e um místico poderia continuar a acreditar em milagres no século XXI. E ele está errado em fatos, porque há fortes indícios que haverá muito misticismo e um grande número de milagres no século XXI; e há, certamente, um crescente número deles no século XX.

Mas, eu tomei aquela primeira resposta superficial porque há um significado no mero fato de que ela apareça em primeiro lugar; e sua própria superficialidade revela algo do subconsciente. É uma resposta quase automática; e palavras ditas automaticamente são de alguma importância em psicologia. Não sejamos tão severos com o valoroso cavalheiro que informa seu caro interlocutor que este é o século XX. Nas profundezas misteriosas de seu ser, mesmo aquela enorme asneira significa realmente alguma coisa. A questão é que ele não pode explicar o que ele quer dizer; e este é o argumento para uma melhor educação em filosofia. O que ele realmente quer dizer é algo como, “Há uma teoria a respeito desse misterioso universo para a qual mais e mais pessoas ficaram inclinadas durante a segunda metade do século XVIII e a primeira metade do XIX; e até este ponto pelo menos, essa teoria cresceu com um crescente número de invenções da ciência às quais devemos nossa presente organização – ou desorganização – social. Essa teoria afirma que causa e efeito têm, desde o início, operado numa seqüência ininterrupta como um destino fixo; e que não há nenhuma vontade por atrás ou no interior desse destino; de tal forma que ele deve trabalhar na ausência de tal vontade, como uma máquina deve funcionar sem a presença de um homem. Havia mais pessoas no século XIX que acreditavam nessa particular teoria do universo do que havia no século IX. Eu mesmo acredito nela; e portanto eu, obviamente, não posso acreditar em milagres.” Isso faz completo sentido; mas também faz a contra-afirmação; “Eu não acredito nela; e portanto eu, obviamente, acredito em milagres.”

A vantagem de um hábito filosófico elementar é que ele permite a um homem, por exemplo, entender uma afirmação como esta, “O fato de poder ou não poder haver exceções a um processo depende da natureza do processo.” A desvantagem de não ter esse hábito é que um homem se tornará impaciente mesmo com um truísmo tão simples; e chama-lo-á lixo metafísico. Ele, então, disparará a seguinte afirmação: “Não se podem ter tais coisas no século XX”; o que é realmente um lixo. Mesmo assim, a última afirmação pode ser explicada a ele em termos suficientemente simples. Se um homem vê as águas de um rio caminhando rio abaixo, ano após ano, ele terá razão em considerar, podemos dizer em apostar, que isso acontecerá até que ele morra. Mas, ele não terá razão em dizer que as águas do rio não podem caminhar rio acima, até que ele saiba porque elas correm rio abaixo. Dizer que isso acontece por causa da gravidade responde a questão física mas não a filosófica. Somente se repete que há uma repetição; não se toca na questão mais profunda sobre se essa repetição pode ser alterada por algo proveniente do exterior. E isso depende da existência de algo no exterior. Por exemplo, suponha que um homem tenha visto o rio apenas num sonho. Ele poderia ter sonhado noventa e nove sonhos, sempre se repetindo e sempre com as águas fluindo rio abaixo. Mas, isso não evitaria que o centésimo sonho pudesse mostrar o rio subindo a montanha; porque o sonho é um sonho, e há algo exterior a ele. Mera repetição não prova realidade ou inevitabilidade. Devemos conhecer a natureza da coisa e a causa da repetição. Se a natureza da coisa é uma Criação, e a causa da coisa um Criador, em outras palavras, se a própria repetição é somente a repetição de algo desejado por uma pessoa, então, não é impossível para essa mesma pessoa desejar uma coisa diferente. Se um homem é um idiota para acreditar num Criador, então ele será um idiota para acreditar num milagre; mas não ao contrário. Ao contrário, ele é simplesmente um filósofo que é consistente com sua filosofia.

Um homem moderno é livre para escolher qualquer uma das filosofias. Mas, a verdadeira questão do homem moderno é que ele não conhece nem mesmo sua própria filosofia, mas somente sua própria fraseologia. Ele pode somente responder à próxima mensagem produzida pelo espiritualista, ou à próxima cura atestada por doutores em Lourdes, com a repetição do que são, geralmente, nada mais que frases; ou são, na melhor das hipóteses, preconceitos.

Assim, quando um brilhante homem como o Sr. H. G. Wells diz que tais idéias sobrenaturais se tornaram impossíveis para “pessoas inteligentes”, ele não está (neste caso) falando como uma pessoa inteligente. Em outras palavras, ele não está falando como um filósofo; porque ele não está nem mesmo dizendo o que ele quer dizer. O que ele quer dizer não é “impossível para homens inteligentes”, mas, “impossível para monistas inteligentes”, ou, “impossível para deterministas inteligentes”. Mas, não é uma negação da inteligência afirmar qualquer concepção lógica e coerente de um mundo tão misterioso. Não é uma negação da inteligência pensar que toda experiência é um sonho. Não é pouco inteligente pensá-la como uma ilusão, como alguns budistas fazem; muito menos pensá-la com um desejo criativo, como fazem os cristãos. Estamos sempre ouvindo que os homens não devem manter as divisões tão pronunciadas de suas religiões. Como um passo imediato em direção ao progresso, é mais urgente que eles sejam mais claros e mais pronunciadamente divididos em suas diferentes filosofias.

Publicado por The American Chesterton Society

02/07/2006

Dawkins está errado

Roger Scruton

Face ao espetáculo de crueldades perpetradas em nome da fé, Voltaire bradou o famoso “Ecrasez l’infâme!” Numerosos pensadores iluministas o seguiram, declarando que a religião organizada é inimiga da raça humana, a força que divide o crente do infiel, com isso, tanto excitando quanto autorizando o assassínio. Richard Dawkins, cuja série de TV “A raiz do mal?” exibe seu último capítulo na próxima segunda-feira[1], é o mais influente exemplo dessa tradição. E ele a está embelezando com sua própria e surpreendente teoria – a teoria da “meme” religiosa. Uma meme é uma entidade mental que coloniza o cérebro das pessoas, de forma similar a que um vírus coloniza uma célula. A meme explora seu hospedeiro para se reproduzir, difundindo-se de cérebro a cérebro, como a meningite, e destruindo os poderes de seu competidor – o argumento racional. Como os gêneros e as espécies, as memes são indivíduos darwinianos, cujo sucesso ou fracasso depende de suas habilidades em encontrar um nicho ecológico que propicie a reprodução. Tal é a natureza do “óleo gerin,”[2] como Dawkins descreve, depreciativamente, a religião.

Essa analogia com a teoria biológica da reprodução tem uma qualidade espantosa. Ela parece explicar o extraordinário poder de sobrevivência do nonsense e o constante “adormecimento da razão” que, na gravura de Goya, convida os monstros. Frente a uma página de Derrida – e sabendo que tal idiotice está sendo lida e reproduzida em milhares de campi americanos – tenho sido, constantemente, tentado pela teoria da meme. A página em minhas mãos é, claramente, o produto de um cérebro doente e a doença é infecciosa, em altíssimo grau: o próprio Derrida admitiu isso quando se referiu ao “vírus desconstrutivo”.

Apesar de tudo, não estou inteiramente persuadido por essa analogia genética. A teoria de que as idéias têm a tendência de se propagar, apropriando-se da energia do cérebro que as hospeda, lembra o perito médico de Molière (Le malade imaginaire) que explicava o fato de o ópio induzir ao sono, referindo-se ao seu virtus domitiva. A coisa só parece uma explicação quando “lemos” nas alegadas causas, as distintas características de seus efeitos, imaginando idéias como entidades cuja existência depende, como a dos gêneros e espécies, da reprodução.

Contudo, concedamos a Dawkins a tentativa de formulação de uma teoria. Devemos ainda lembrar que nem todo organismo dependente destrói seu hospedeiro. Além dos parasitas, há também os simbiantes e os mutualistas – invasores que, ou não impedem, ou mesmo amplificam as possibilidades reprodutivas do hospedeiro. Como classificar a religião? Por que ela tem sobrevivido, se não confere nenhum benefício aos seus adeptos? E o que acontece com as sociedades que se vacinam contra a infecção – a sociedade soviética, por exemplo, ou a Alemanha nazista –, experimentaram elas um ganho em seu potencial reprodutivo? É claro que muito mais pesquisa será necessária se formos apoiar firmemente uma vacinação em massa em vez de (minha opção preferida) respaldar a religião, que parece muito mais adequada a moderar nossos instintos beligerantes, e que, fazendo isso, nos pede para perdoar a quem nos ofende e, humildemente, reparar nossas faltas.

Assim, há memes más e memes boas. Usemos a matemática como exemplo. Ela se propaga através dos cérebros humanos porque é verdadeira; indivíduos inteiramente “a-matemáticos” – que não conseguem contar, subtrair ou multiplicar – não têm filhos, pela simples razão de que eles cometem erros fatais antes disso. A matemática é um mutualista real. O mesmo não é verdade sobre a má matemática, é claro; mas má matemática não sobrevive, precisamente porque ela destrói o cérebro em que se hospeda.

Talvez a religião, a esse respeito, seja como a matemática: sua sobrevivência tem algo a ver com a verdade. Não é uma verdade literal, é claro, nem uma verdade integral. De fato, a verdade de uma religião está menos no que é revelado em suas doutrinas, do que no que é ocultado em seus mistérios. As religiões não revelam seus significados diretamente porque elas não podem fazê-lo; seus significados têm de ser alcançados por adoração e oração, e por uma vida de obediência silenciosa. No entanto, verdades ocultas são ainda verdades; e talvez possamos ser guiados por elas tal como o somos pelo sol, contanto que para ele não olhemos diretamente. O contato direto com a verdade religiosa seria como o encontro de Semele com Zeus, uma conflagração súbita.

Para Dawkins, a idéia de uma verdade puramente religiosa não tem valor algum. Os mistérios da religião, ele diria, existem para vetar todo o questionamento, dando à religião uma vantagem em relação à ciência, na luta pela sobrevivência. De qualquer forma, por que há tantos competidores dentre as religiões, se elas estão competindo pela verdade? Não deveriam as falsas ter desaparecido, como acontece às teorias científicas refutadas? E como a religião aprimora o espírito humano, quando ela parece autorizar os crimes, agora, cometidos por mussulmanos e que são apenas sombras dos crimes espalhados pela Europa quando da Guerra dos Trinta Anos?

Essas são grandes questões, irrespondíveis em um programa de TV, por isso, eis um esboço das minhas respostas. As religiões sobrevivem e florescem porque são um convite ao espírito de grupo – elas promovem os costumes, as crenças e os rituais que unem as gerações numa forma de vida compartilhada e semeiam as sementes do respeito mútuo. Como todas as formas de vida social, elas são inflamadas nas fronteiras, onde competem por territórios com outras profissões de fé. Culpar as religiões pelas guerras conduzidas em seu nome é, no entanto, como culpar o amor pela guerra de Tróia. Todos os motivos humanos, mesmo os mais nobres, alimentarão as chamas do conflito quando reunidos pelo “imperativo territorial” – isso também nos ensinou Darwin, e Dawkins, certamente, deve tê-lo notado. Livre-se da religião, como os nazistas e comunistas fizeram, e você nada faz para suprimir a procura por Lebensraum. Você, simplesmente, remove a principal força de misericórdia no coração humano ordinário e faz, assim, a guerra impiedosa; o ateísmo descobriu sua prova em Estalingrado.

Há uma tendência, alimentada pelo sensacionalismo televisivo, de julgar todas as instituições humanas pelo seu comportamento em tempos de conflito. A religião, como o patriotismo, tem uma imagem negativa entre aqueles para quem a guerra é a única realidade humana, a única ocasião em que o Outro, em todos nós, é perceptível. Mas o teste real de uma instituição humana é o período de paz. A paz é tediosa, cotidiana e, também, cansativa na televisão. Mas, você pode aprender sobre ela nos livros. Aqueles criados na fé cristã sabem que a capacidade do cristianismo em manter a paz no mundo ao nosso redor reflete seu dom de paz interior. Numa sociedade cristã não há necessidade de Asbos[3] e num mundo pós-religioso elas não farão nenhum bem – elas estarão em sua última e desesperada tentativa de nos salvar dos efeitos da ausência do sagrado, e a tentativa está fadada ao fracasso.

Os mussulmanos dizem coisas parecidas, assim como os judeus – na realidade, todos que possuem a verdade. Mas, como saber? Bem, nós não sabemos, nem precisamos saber. Toda a fé depende da revelação, e a prova da revelação está na paz que ela traz. Argumentos racionais só nos podem trazer até aqui, em elevar a fé monoteísta acima de um mundo enlameado de superstições. Podem nos ajudar a entender a diferença real entre a fé que nos exige que perdoemos nossos inimigos e aquela que nos exige que os esfolemos. Mas o salto da fé propriamente dita – o colocar sua vida a serviço de Deus – é um salto sobre o limite da razão. Isso não o faz irracional, tanto quanto se apaixonar não é irracional. Ao contrário, é a submissão do coração a um ideal, e uma aposta no amor, na paz e no perdão que Dawkins está, também, procurando, pois ele, como o resto de nós, foi feito desta mesmíssima forma.


Artigo publicado no The Spectator


[1] Este artigo foi escrito em 12/01/2006. (N. do T.)

[2] Droga alucinógena, altamente viciante. (N. do T.)

[3] Asbo – anti-social behaviour order (ordem anti-social) – ordem judicial, do sistema judicial escocês e inglês, emitida contra uma pessoa que supostamente tenha tido uma conduta anti-social. (N. do T.)

30/06/2006

Artigo meu no Mídia Sem Máscara

Saiu hoje (30/06/2006) um artigo meu no sítio do Mídia Sem Máscara intitulado "O domínio do homem sobre a natureza". Seu link é http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=5016 .

Sugiro que se leia antes o artigo de Sowell (http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=5008) juntamente com os artigos cujos links estão nele sugeridos.

22/06/2006

O que aconteceu com a Razão?

Roger Scruton

O iluminismo tornou explícito o que já estava, há muito tempo, implícito na vida intelectual da Europa: a crença de que a inquirição racional leva à verdade objetiva. Mesmo aqueles pensadores iluministas que desconfiavam da razão, como Hume, e aqueles que tentavam restringir seu poder, como Kant, nunca abandonaram a confiança no argumento racional. Hume se opunha à idéia da moralidade racional; mas ele justificava a distinção entre o certo e o errado em termos da ciência natural das emoções, ficando implícito que poderíamos descobrir a verdade sobre a natureza humana e fazer desta verdade uma firme fundação sobre a qual construir. Kant pode ter rebaixado a “razão pura” a um tecido de ilusões, mas ele elevou, em seu lugar, a razão prática, defendendo a validade absoluta da lei moral. Nos 200 anos subseqüentes, a razão manteve sua posição de árbitro da verdade e fundação do conhecimento objetivo.

A razão está agora se retraindo, tanto como um ideal quanto como uma realidade. O seu lugar tem sido tomado pela “visão desde fora” – que coloca em questão nossa tradição inteira. O apelo à razão, nos avisam, é um mero apelo à cultura Ocidental, que fez da razão sua pedra-de-toque e uma petição à objetividade que nenhuma cultura poderia possuir. Além do mais, considerando a razão sua fundamentação, a cultura Ocidental ocultou seu pernicioso etnocentrismo; ela revestiu o pensamento Ocidental como se ele tivesse força universal. A razão, portanto, é uma mentira, e pela exposição da mentira, revelamos a opressão no coração da cultura Ocidental. Por trás do ataque à razão nos espreita uma outra (e mais virulenta) hostilidade: a hostilidade à cultura e ao currículo que herdamos do Iluminismo.

Se examinarmos os gurus do novo establishment universitário, aqueles cujos trabalhos são mais freqüentemente citados no interminável fluxo de artigos, devotados a desbancar a cultura Ocidental, descobriremos que eles são todos oponentes da verdade objetiva. Nietzsche é um dos favoritos, pois ele afirmou explicitamente: “Não existe verdade, somente interpretações.” Mas, ou o que disse Nietzsche é verdade – e, neste caso, não é verdade, pois não existem verdades – ou o que ele disse é falso. Prova suficiente, você imaginaria. Mas, não: essa afirmação pode ser feita de forma menos burlesca e o paradoxo, ocultado. Isso explica a atração dos pensadores posteriores – Michel Foucault, Jacques Derrida e Richard Rorty – que devem sua eminência intelectual não a seus argumentos (que são muito poucos), mas a seus papéis em dar autoridade à rejeição da autoridade, e ao absoluto compromisso deles com a impossibilidade de compromissos absolutos. Em cada um deles você descobrirá a visão de que a verdade, a objetividade, o valor e o significado são quiméricos e que tudo que você pode ter, e tudo que você necessita ter é a cálida segurança de sua própria opinião.

É vão argumentar contra esses gurus. Nenhum argumento, por mais racional que seja, pode conter o enorme desejo em acreditar, que inebria seus leitores normais. Afinal, um argumento racional pressupõe exatamente o que eles questionam – ou seja, a possibilidade do argumento racional. Pelo menos um deles – Michel Foucault – foi o personagem de uma hagiografia, Santo Foucault de David Halperin, pela mensagem libertadora contida em seu ataque à estrutura do pensamento. Mas, cada um deles deve sua reputação a uma nova espécie de fé religiosa: a fé na relatividade das opiniões, incluindo esta.

A verdade, Foucault nos ensina, não é um absoluto, que pode ser compreendido e avaliado de alguma forma trans-histórica, como se fosse através dos olhos de Deus. A verdade é cria do “discurso”, e como o discurso muda, assim acontece com a verdade nele contida. O que significa o termo “discurso”? Consulte qualquer periódico acadêmico na área das humanidades e você o encontrará em meio a milhares de debates artificiais: “Falocentrismo Ocidental e o discurso do gênero,” “O discurso da supremacia branca nos romances de Conrad,” “O discurso de exclusão: uma perspectiva homossexual” etc. Pela descrição dos argumentos como “discurso”, você os desmascara, tendo acesso ao estado mental de onde eles surgem. Você não confronta mais a verdade ou a razoabilidade da opinião do outro, mas se engaja diretamente com a força social que fala por meio dele. A questão não é mais “O que você está dizendo?”, mas “De onde você está falando?” Este é o triunfo de Foucault, fornecer uma palavra que nos capacitaria a re-anexar todo pensamento ao seu contexto e fazer o contexto mais importante do que o pensamento.

O discurso, para Foucault, é o produto de uma época e existe em virtude do “poder” social prevalecente. É o que Marx chamou de “ideologia”: uma coleção de idéias que não tem autoridade própria, mas que despista e mistifica a realidade social. A verdade não contém nada mais do que o poder que a considera conveniente; e pelo desmascaramento do poder, nós “desestabelecemos” a verdade. Em qualquer época, há aqueles que refutam o discurso prevalecente. Estes são denunciados, marginalizados – e mesmo encarcerados como loucos. São deles a voz da não-razão, e, para os detentores da autoridade, o que eles proferem não é verdade, mas delírio. Contudo, afirma Foucault claramente, não há nada de objetivo nessas denúncias de loucura: não é nada além de um dispositivo pelo qual o poder estabelecido, o poder da ordem burguesa, se sustenta, salvaguardando sua própria “verdade” contra o discurso rival que a rejeita.

Foucault e seus discípulos generalizam esse argumento, sugerindo que a visão tradicional do homem, da família, das relações sexuais e da moral sexual, não tem nenhuma autoridade além do poder que a sustenta. Nos três volumes de sua História da Sexualidade, Foucault dá um passo além. O prazer sexual, ele defende, não é intrinsecamente problemático; não há nenhuma razão em controlá-lo ou suprimi-lo. Se o sexo é “problematizado,” para se proibir alguns prazeres e encorajar outros, isto é, na verdade, um curioso fato social, que pode ser explicado, mas nunca justificado. Ele descreve seu próprio estudo do sexo, tomando emprestado o termo de Nietzsche, como uma “genealogia” das morais – uma explicação das crenças que, por não terem nenhuma validade ou verdade intrínseca, devem ser explicadas em termos de seu contexto social, e, portanto, só assim justificadas.

Tal panorama foi extremamente útil para Foucault, cuja homossexualidade descontrolada não sofreria nenhuma censura. Sua morte, causada pela AIDS, trouxe um fim a sua predação sexual. Mas, não limitou sua influência: pelo contrário, corou seu pensamento com um halo de correção política. Foucault não era somente um advogado dos prazeres imediatos, mas um mártir deles. Ainda assim, essa aura de virtude não deve nos levar a aceitar sua desmistificação da moralidade sexual. Pois, a “genealogia” de Foucault não distingue entre causa e efeito. Por mais que Foucault diga ao contrário, a verdade objetiva poderia indicar que as realizações pessoais e da sociedade humana fossem mais facilmente garantidas pelo casamento heterossexual do que pela transgressão sexual, e que o capital político e cultural de uma época fosse mais facilmente transferido onde as pessoas criassem (educassem) suas crianças em seus lares. Em vez de ser efeito do poder social, a velha moralidade poderia bem ser sua causa. Sobre isso – causa e efeito – o diagnóstico de Foucault nada diz. A suposição é que, ao ligar uma crença ao poder daqueles que a sustentam, a alegação de validade se desfaz. Mas, essa suposição pode ser a oposição polar da verdade.

Tão popular – e pelas mesmas razões – quanto à análise foucaultiana do poder é a técnica da desconstrução, associada a Jacques Derrida. Ninguém sabe – ou pelo menos ninguém ainda explicou – o que é desconstrução. Mas, sua própria obscuridade constitui a maior parte de seu apelo. Ao oferecer enorme quantidade de nonsense, o desconstrucionista é capaz de fortalecer sua suposição fundamental: que a significação é impossível. Não existe tal coisa como a significação objetiva, decifrável de uma palavra ou argumento. No jargão oficial, não há “significado transcendental.” Cada palavra, uma vez proferida, é cativa à interpretação e a decisão de interpretar a palavra de uma forma ou de outra é, em última análise, política – as únicas questões reais são aquelas proferidas por Lênin: Quem? e A quem? Quem está interpretando e contra que vítima? Se os Homens Brancos Antepassados monopolizaram a interpretação de Jane Austen, por exemplo, há alguma surpresa no fato de que as leituras “oficiais” dos romances de Austen não reconheçam algum lugar real às mulheres e às suas aspirações? Há alguma surpresa em que esses romances são construídos como vingança, em vez de repúdio, ao casamento burguês? Confrontados por um texto do cânon tradicional, podemos proceder à sua desconstrução como quisermos, pois, as únicas restrições a que estamos submetidos são aquelas que escolhemos. A crítica desconstrucionista é como as produções modernas do teatro tradicional: o texto é lido contra si próprio, de forma a significar qualquer coisa que o crítico ou produtor escolher. E, invariavelmente, o propósito é político: desbancar as velhas autoridades, em nome da liberação.

O “pragmatismo” de Richard Rorty opera de forma similar, alcançando conclusões políticas inevitáveis pela repetição de um truque de prestidigitador. Mas, como o pragmatismo é um produto nativo americano, com uma respeitável história, as pessoas, nem sempre, devotam a ele a suspeita que ele, agora (graças a Rorty), merece. Vale a pena, portanto, examinar suas credenciais subversivas.

O pragmatismo, simplificadamente, é a visão de que “verdadeiro” significa “útil.” A crença mais útil é aquela que me dá o melhor apoio no mundo: a crença que, quando colocada em funcionamento, tem a maior chance de sucesso. Obviamente, essa não é uma caracterização suficiente para distinguir a verdade da falsidade. Qualquer um que anseie por uma carreira em uma universidade americana descobrirá que as crenças feministas são úteis, assim como as crenças racistas o foram para o apparatchik universitário da Alemanha nazista. Mas, isso dificilmente mostra que essas crenças sejam verdadeiras.

Então, o que, realmente, queremos dizer com termo “útil”? Uma sugestão é esta: uma crença é útil quando é parte de uma teoria de sucesso. Mas uma teoria de sucesso é a que faz predições verdadeiras. Assim, estamos andando em círculos, definindo a verdade por meio da utilidade e a utilidade por meio da verdade. De fato, é difícil encontrar um pragmatismo plausível que não se reduza a isto: que uma proposição verdadeira é aquela que é útil de uma forma que a verdadeira proposição seja útil. Impecável, mas lacunar.

A ameaça da vacuidade não detém Rorty, que vê o pragmatismo como uma arma contra a velha idéia da razão. Mesmo que ele fracasse miseravelmente em sua tentativa de dizer o que seja realmente o pragmatismo, esse fracasso não preocupa seus discípulos, que o usa a seu favor, como usaram a vacuidade da “genealogia” foucaultiana das morais e o impenetrável nonsense da desconstrução. É suficiente que Rorty invoque seu pragmatismo como um tipo de encantamento mágico contra a velha idéia da razão e a favor da causa do relativismo cultural. É isso que o qualifica para o cargo de guru em nossos departamentos de humanidades.

Em suas palavras: “Os pragmatistas vêem a verdade como ... o que seja bom acreditar ... Eles vêem o espaço entre verdade e justificação não como algo a ser transposto por meio do isolamento de um tipo de racionalidade natural e trans-cultural que pode ser usada para criticar certas culturas e elogiar outras, mas, simplesmente, como um espaço entre o bom real e o melhor possível ... Para os pragmatistas, o desejo de objetividade não é o desejo de escapar das limitações da própria comunidade, mas, simplesmente, o desejo de acordo intersubjetivo tão grande quanto possível, o desejo de estender a referencia ‘nós’ tanto quanto pudermos.” Em outras palavras, o pragmatismo nos habilita a rejeitar a idéia da “racionalidade trans-cultural.” Não há lugar para as velhas idéias de objetividade e verdade universal; tudo o que importa é sobre o que concordamos.

Mas, quem somos nós? E com que concordamos? Volte aos ensaios de Rorty e você logo descobrirá. “Nós” somos todos feministas, esquerdistas, promotores da liberação gay e do currículo aberto; “nós” não acreditamos em Deus ou em qualquer religião herdada; nem as velhas idéias de autoridade, ordem e autodisciplina têm algum peso para “nós”. Não estamos limitados por nada, além da comunidade a que escolhemos pertencer. E porque não há verdade objetiva, mas somente nosso próprio consenso auto-engendrado, nossa posição é inacessível desde um ponto exterior. O pragmatista pode não somente decidir o que pensar; ele pode se proteger de qualquer um que não pense como ele.

Um verdadeiro pragmatista inventará, sem dúvida, a história, assim como ele inventa tudo o mais, persuadindo-“nos” a concordar com ele. No entanto, vale a pena dar uma olhada na história, senão por outras razões, pelo menos para ver o quão paradoxal e perigoso é a visão de Rorty sobre intelecto humano. O ummah islâmico – a sociedade de todos os crentes – era, e permanece sendo, o mais extenso consenso que o mundo já conheceu. Ele, expressamente, reconhece o consenso (ijma) como um critério de, e de fato um substituto para, a verdade, e está engajado num permanente empreendimento de incluir, tantos quanto possíveis, na sua totalizante primeira pessoa do plural. Além do mais, qualquer que seja, para Rorty, o significado de crenças “boas” ou “melhores”, o mussulmano pio deve, certamente, acreditar que ele tem simplesmente as melhores: crenças que trazem segurança, estabilidade, felicidade, um apoio no mundo, e uma consciência tranqüila quando se explode os kafirs, que pensam de maneira diferente.

Mas, mesmo assim, não fica aquele sentimento desconfortável de que alguma coisa nessas crenças, que aquecem os corações, possa não ser verdadeira, e que as lânguidas opiniões do ateu pós-moderno possam ter algo a ver com isso? Pelo que afirma o pragmatismo de Rorty, isso não é algo que se possa dizer. Afinal, os ateus pós-modernos, diferentemente dos pios mulssulmanos, não compõem uma comunidade – nem mesmo uma comunidade imaginária. Eles não têm nenhum credo ou catecismo, nenhum texto sagrado, nenhum consenso estabelecido. Mesmo assim, Rorty é um ateu pós-moderno. Por quê? Não porque ele pertença a uma comunidade de incrédulos, mas porque ele pensa que o ateísmo é verdadeiro. O pragmatismo que coloca o consenso no lugar da verdade é, no fim e ao cabo, uma fraude.

Em seus próprios olhos, o Iluminismo envolve a celebração de valores universais de uma natureza humana comum. A arte do Iluminismo percorre outros lugares, outros tempos e outras culturas, numa tentativa heróica de justificar uma visão do homem como livre a auto-criado. Esta visão inspirava e era inspirada pelo velho currículo, cujo questionamento tem sido a principal preocupação da universidade pós-moderna. Essa preocupação explica a popularidade de outro guru relativista – Edward Said, cujo livro Orientalismo mostra como desqualificar o próprio Iluminismo como uma forma de imperialismo cultural. O Oriente aparece na arte e literatura Ocidental, diz Said, como algo exótico, irreal, teatral, e portanto frívolo. Longe de ser um generoso reconhecimento de outras culturas, o orientalismo da arte iluminista européia é uma tentativa de apequená-las, de reduzi-las a episódios decorativos no interior do progresso do imperium Ocidental.

O argumento de Said anda de mãos dadas com aqueles que fundamentam o currículo multicultural. O velho currículo, um produto do Iluminismo, é, eles nos dizem, monocultural, devotado à perpetuação da visão da Civilização Ocidental como inerentemente superior às suas rivais. É também patriarcal, produto do Homem Europeu Antepassado, que, há muito, perdeu toda a sua autoridade. E sua suposição de uma perspectiva racional universal, lugar de onde toda a humanidade pode ser estudada, não é nada mais que a racionalização de suas ambições imperialistas. Em contraste, nós, que vivemos no ambiente amorfo e multicultural da cidade pós-moderna, devemos abrir nossos corações e mentes para todas as culturas e não nos ater a nenhuma delas. O resultado inescapável disso é o relativismo: o reconhecimento de que nenhuma cultura nos chama mais a atenção, e que nenhuma cultura pode ser julgada ou desqualificada desde fora.

Mas, uma vez mais, há um paradoxo. Pois, aqueles que advogam essa perspectiva multicultural são, via de regra, veementes na desqualificação da cultura Ocidental. Said não é exceção. Ao mesmo tempo que está nos exortando a julgar outras culturas em seus próprios termos, ele está nos pedindo para julgar a cultura Ocidental do ponto de vista externo – compará-la com as alternativas e julgá-la, adversamente, como etnocêntrica e racista.

Mas, as críticas feitas à cultura Ocidental confirmam, realmente, a verdade do que é criticado. É graças ao Iluminismo e sua visão universal dos valores humanos que a igualdade racial e sexual exerce sobre nosso senso comum um tal apelo. É sua visão universalista do homem que nos faz exigir tanto da arte e da literatura Ocidental – mais do que demandaríamos da arte e da literatura de Java, Bornéu ou China. É a própria tentativa de abraçar outras culturas – uma tentativa que não tem paralelo na arte tradicional da Arábia, Índia ou África – que faz a arte Ocidental refém das críticas capciosas de Said. E é somente uma visão muito estreita de nossa tradição artística que não descobre nela a perspectiva multicultural que é muito mais imaginativa do que qualquer coisa nova ensinada sob este nome. Nossa cultura invoca uma comunidade histórica de sentimento, ao mesmo tempo que celebra os valores humanos universais. Ela é enraizada na experiência cristã que bebe de uma fonte rica em sentimentos humanos que ela difunde por mundos imaginários. De Orlando Furioso de Ariosto ao Don Juan de Byron, de Poppea de Monteverdi ao Hiawatha de Longfellow, de Winter’s Tale a Madame Butterfly, nossa cultura tem, continuamente, se aventurado no território espiritual que não tem lugar no mapa cristão.

O Iluminismo, que nos colocou um ideal de verdade objetiva, também dispersou a bruma da doutrina religiosa. A consciência moral, isolada da observância religiosa, começou a se ver desde fora. Ao mesmo tempo, a crença na natureza humana universal, tão poderosamente defendida por Shaftesbury, Hutcheson e Hume, manteve contido o ceticismo. Seus contemporâneos iluministas teriam considerado absurdo a sugestão de que, traçando o curso da simpatia humana, Shaftesbury e Hume estivessem, meramente, descrevendo um aspecto da cultura “Ocidental”. Para eles, “as ciências morais”, inclusive o estudo da arte e da literatura, incorporava o que T.S. Eliot chamaria mais tarde de “a busca comum do verdadeiro julgamento.” E essa busca comum ocupou os grandes pensadores da Era Vitoriana, que, mesmo quando davam os primeiros passos na sociologia e antropologia, acreditavam na validade objetiva de seus resultados e na natureza humana universal que seria revelada em seus estudos.

Tudo isso mudou completamente. No lugar da objetividade, temos somente “inter-subjetividade” – em outras palavras, consenso. Verdades, significados, fatos e valores são, agora, considerados negociáveis. A coisa curiosa, no entanto, é que esse confuso e vago subjetivismo anda de mãos dadas com uma censura vigorosa. Aqueles que colocam o consenso no lugar da verdade, se descobrem distinguindo a verdade do falso consenso. Assim, o consenso de Rorty, rigorosamente, exclui todos os conservadores, tradicionalistas e reacionários. Somente os esquerdistas podem pertencer a ele; tal como somente as feministas, os radicais, os ativistas gays e os anti-autoridade podem tirar vantagens da desconstrução; tal como somente os oponentes do “poder” podem fazer uso das técnicas de sabotagem moral de Foucault; e como somente os multiculturalistas podem se beneficiar da crítica de Said aos valores do Iluminismo. A conclusão inescapável é que os gurus atuais advogam a subjetividade, a relatividade, e o irracionalismo, não a fim de incluir todas as opiniões, mas, precisamente, para excluir as opiniões de quem acredita nas velhas autoridades e valores objetivos.

Se você estuda as opiniões que prevalecem nas academias modernas, descobrirá que elas são de dois tipos: aquelas que emergem do constante questionamento dos valores tradicionais e aquelas que emergem da tentativa de evitar qualquer questionamento das alternativas esquerdistas. Todas as crenças seguintes estão, efetivamente, proibidas num campus universitário americano: (1) A crença na superioridade da cultura Ocidental; (2) A crença de que possa haver distinções moralmente relevantes entre sexos, culturas e religiões; (3) A crença no bom gosto, quer seja na literatura, na música, na arte, na amizade ou no comportamento; e (4) A crença nos costumes sexuais tradicionais. Você pode até professar essas crenças, mas é perigoso confessá-las, e ainda mais perigoso defendê-las, pois, você pode ser considerado culpado de “hate speech” (discurso de ódio) – em outras palavras, culpado de julgar desfavoravelmente outro grupo de seres humanos. Contudo, a hostilidade a essas crenças não é fundamentada na razão e nunca se sujeita a uma justificativa racional. A universidade pós-moderna não venceu a razão, mas a substituiu por um novo tipo de fé – uma fé sem autoridade e sem transcendência, uma fé ainda mais tenaz por não se reconhecer enquanto tal.

A religião do politicamente correto não está confinada aos EUA. Recentemente, Glen Hoddle, um treinador de futebol, expressou a visão (perfeitamente aceitável, quando proferida por um representante de uma minoria racial) de que pessoas com deficiência estão sofrendo nesta vida pelos pecados que cometeram em outras. Ele foi, imediatamente, castigado pelos seus empregadores, pela mídia e pelo governo, numa série inesquecível de julgamentos-espetáculos. Ele foi, então, despedido. Tais caças às bruxas, cada vez mais freqüentes na Inglaterra, são conduzidas fora dos tribunais, por burocratas ou por comissões quase independentes, tal como a Comissão pela Igualdade Racial. E o princípio orientador é sempre “culpado até prova em contrário.”

De forma similar, você descobrirá que quase todos aqueles que esposam os “métodos” relativísticos introduzidos por Foucault, Derrida e Rorty são veementes apoiadores de um código do politicamente correto que condena a divergência em termos absolutos e intransigentes. Paul de Man, uma vez foi simpático aos nazistas. É um patente absurdo sugerir que tal desarranjo teria algo a ver com a descoberta de que Paul de Man tinha sido comunista – mesmo que ele tivesse tomado parte em alguns dos grandes crimes comunistas. Em tal caso, ele teria contado com o mesmo apoio compassivo que puderam desfrutar os comunistas e companheiros de viagem Lukacs, Merleau-Ponty e Sartre. O ataque ao significado movido pelos desconstrucionistas não é um ataque aos “nossos” significados, que permanecem exatamente o que eles eram: radicais, igualitários e transgressivos. É um ataque aos significados “deles” – significados seqüestrados de uma tradição de pensamento artístico e filosófico e passados à posteridade por meio de antigas formas de ensino.

Vale a pena manter tudo isso na lembrança quando consideramos o estado atual da vida intelectual na Europa e EUA. Apesar de existirem áreas, tais como a filosofia, que tenha se mantido imune ao subjetivismo prevalecente, elas estão, também, começando a sucumbir. Professores que se apegam ao que Rorty chama “um tipo natural e trans-cultural de racionalidade” – em outras palavras, aqueles que acreditam que se possa dizer algo permanente e universalmente verdadeiro sobre a condição humana – consideram cada vez mais difícil despertar o interesse do estudante, para quem a negociação tomou o lugar do argumento racional. Expor a ética de Aristóteles e enfatizar que as virtudes cardeais que ele defendia são tão importantes como parte de nossa felicidade hoje, como o foram para os antigos gregos é convidar problemas e incompreensão. O máximo que o estudante moderno pode gerenciar é a curiosidade: esta, ele admitirá, é a forma como eles viam a questão. Quanto a mim, quem sabe?

Desse estado de ceticismo confuso, o estudante pode dar um salto para a fé. E o salto nunca é para trás, para o antigo currículo, o velho cânon, a antiga crença e padrões objetivos e forma de vida estabelecidas. É sempre um salto adiante, para o mundo da livre escolha e opinião, no qual ninguém tem autoridade e nada é objetivamente certo ou errado. Neste mundo pós-moderno não existe tal coisa como um julgamento desfavorável – a menos que seja proferido por um juiz desfavorável. É um mundo “parque de diversões”, no qual todos têm, igualmente, direito a sua cultura, ao seu estilo de vida e às suas opiniões.

E esta é a razão pela qual, paradoxalmente, a censura está tão presente no currículo pós-moderno – da mesma forma que está presente no esquerdismo. Quando tudo é permitido, é vital proibir o proibidor. Todas as culturas sérias são fundadas em distinções entre o certo e o errado, o verdadeiro e o falso, o bom e o mau gosto, o conhecimento e a ignorância. À perpetuação dessas distinções, a área das humanidades era, no passado, devotada. Daí o ataque pós-moderno ao currículo e a veemente tentativa de impor um padrão do “politicamente correto” – que significa, de fato, um padrão de não exclusão e não julgamento.

Mas o ataque ao antigo currículo é infundado, pois ele não era nem um pouco monocultural. Nossos ancestrais estudavam – estudavam de verdade –, as culturas que lhes eram inteiramente diferentes. Eles aprenderam as línguas e a literatura da Grécia e de Roma; chegaram a entender, amar e mesmo, a seu modo, adorar os deuses pagãos; traduziram do hebreu, sânscrito e árabe; e vagaram pelo mundo com uma insaciável curiosidade, acreditando firmemente que nada humano lhes seria estranho. Era absolutamente natural ao estudante universitário do século XIX aprender a língua do país ao qual viajava, estudar sua literatura, religião, história e costumes – ao ponto de, freqüentemente, se tornar nativo, como muitos ingleses na Índia e muitos indianos na Inglaterra. O Iluminismo europeu, levado pelo comércio e pela aventura colonial às praias do Mediterrâneo Oriental, inspirou a classe intelectual do Egito e Líbano com a visão do aprendizado universal. Edward Said é um produto disso: uma prova viva contra suas próprias teorias.

Tudo isso nos traz de volta à natureza profundamente paradoxal do novo relativismo. Ao mesmo tempo que afirma que todas as culturas são iguais e a distinção entre elas é absurda, o novo relativismo secretamente apela à crença oposta. Ele está tentando nos convencer de que a cultura Ocidental, e o currículo tradicional, são racistas, etnocêntricos, patriarcais e, portanto, se encontra além do limite da aceitabilidade política. Por falsas que essas acusações sejam, elas pressupõem a visão universalista que elas próprias declaram ser impossível. A consciência subliminar desse paradoxo explica a popularidade dos gurus que tenho aqui discutido. Seus argumentos pertencem a um novo tipo de teologia: a teologia do politicamente correto. Como em toda teologia, não é a qualidade do argumento, mas a natureza da conclusão, que torna a discussão aceitável. As crenças relativistas existem porque elas sustentam uma comunidade – a nova ummah dos desenraizados e descontentes. Assim, em Rorty, Derrida e Foucault encontramos uma duplicidade de propósitos: de um lado o propósito de desmontar todas as alegações de verdade absoluta e de outro, o propósito de sustentar as ortodoxias sobre as quais suas congregações dependem. O mesmo raciocínio estabelecido para destruir as idéias de verdade objetiva e valor absoluto impõe o politicamente correto como absolutamente obrigatório e o relativismo cultural como objetivamente verdadeiro.

Qual deve ser nossa resposta a isso? Certamente, a primeira conclusão que devemos tirar é que o novo relativismo é autocontraditório. Sua censura absoluta já é prova disso; como é também sua constante pressuposição da perspectiva “trans-cultural” que ele nega ser possível. Sem tal perspectiva, a própria idéia de uma pluralidade de culturas não poderia ser expressa. E qual é essa perspectiva – o “ponto de vista além da cultura” – senão a perspectiva da razão?

A segunda conclusão a tirar disso, intelectualmente falando, é que o projeto iluminista, como o chamou Alasdair MacIntyre – o projeto de construir uma moralidade objetiva a partir de argumentos racionais – é tão real para nós quanto foi para Kant ou Hegel. O problema não está em dar fundamentos racionais à moralidade ou aos princípios objetivos da crítica. O problema está em persuadir as pessoas a aceitá-los. Apesar de existirem aqueles que, como John Gray, nos dizem que o projeto fracassou, o fracasso está neles e não no projeto. É possível elaborar uma defesa racional da moralidade tradicional e mostrar exatamente porque a natureza humana e as relações pessoais a exigem. Mas o argumento é difícil. Nem todo mundo é capaz de segui-lo; nem todo mundo tem o tempo suficiente, ou a inclinação, ou a necessária percepção do está em jogo. Assim, a razão, que incita questões fáceis e, ao mesmo tempo, fornece somente respostas difíceis, mais destruirá do que fundamentará nossas devoções.

O que está errado com o projeto iluminista não é a crença que a razão pode oferecer uma moralidade trans-cultural. Pois, essa crença é verdadeira. O que está errado é a suposição de que as pessoas têm algum pálido interesse na razão. A falsidade dessa suposição está aí, para todos verem, em nossas academias: no relativismo de seus gurus e no equivocado absolutismo – absolutismo sobre coisas erradas e por razões erradas, absolutismo que exclui a todos de seu ambiente, exceto os relativistas.




Publicado no City Journal

15/06/2006

Por que acredito no cristianismo[1]

G. K. Chesterton

Não tenho a intenção de desrespeitar o Sr. Blatchford dizendo que nossa dificuldade, em grande medida, está em que ele, como a maioria das pessoas inteligentes atualmente, não entende o que é Teologia. Equivocar-se em ciência é uma coisa, mas equivocar-se sobre a natureza da ciência é outra. Na medida em que leio “God and My Neighbour (Deus e o meu vizinho)”, cresce minha convicção de que ele pensa que Teologia é o estudo sobre se as diversas lendas que a Bíblia conta sobre Deus é historicamente demonstrável. É como se ele estivesse tentando provar a um sujeito que o Socialismo seria, na verdade, a sólida ciência da Economia Política[2] e começasse a perceber, no meio do caminho, que o sujeito considerava a Economia Política o estudo sobre se os políticos eram econômicos.

É muito difícil de explicar brevemente a natureza de todo um ativo campo de estudo, tanto quanto o é explicar o que é política ou ética. Pois, quanto maior e mais óbvia é uma coisa, e quanto mais ela te encara face a face, mais difícil é defini-la. Todo mundo pode definir concologia.. Ninguém pode definir a moral.

No entanto, toca-nos tentar explicar essa filosofia religiosa que era, e de novo será, o estudo dos maiores intelectuais e a fundamentação das mais fortes nações, mas que nossa diminuta civilização, há algum tempo, esqueceu, da mesma forma que esqueceu como dançar e como se vestir decentemente. Tentarei explicar porque eu considero necessária uma filosofia religiosa e porque eu considero o cristianismo a melhor filosofia religiosa. Mas, antes que eu faça isso, quero que você se lembre de dois fatos históricos. Não peço para que você tire deles as minhas conclusões ou mesmo qualquer conclusão. Peço que você se lembre deles como simples fatos, ao longo da discussão.

1. O cristianismo surgiu e se expandiu num mundo muito refinado e cínico – num mundo muito moderno. Lucrécio era tão materialista quanto Haeckel e um escritor muito mais persuasivo. O mundo romano tinha lido “God and My Neighbour”, e de uma maneira um tanto sonolenta o considerou verdadeiro. Vale a pena notar que as religiões quase sempre surgem nessas civilizações céticas. Um livro recente sobre a literatura pre-maometana da Arábia descreve uma vida inteiramente luxuosa e refinada. Foi assim com Buda, nascido em berço de ouro, numa antiga civilização. Foi assim com o Puritanismo na Inglaterra e com a Restauração Católica na França e Itália, ambas advindas do racionalismo da Renascença. É assim hoje, e será sempre assim. Vá a dois dos mais modernos centros do pensamento moderno, Paris e EUA, e você encontra-los-á cheios de anjos e demônios, de velhos mistérios e novos profetas. O racionalismo está lutando pela própria vida contra as novas e vigorosas superstições.

2. O cristianismo, que é uma religião muito mística, tem sido, contudo, a religião das porções mais práticas da humanidade. Ele tem mais paradoxos que as filosofias orientais, mas ele também constrói as melhores rodovias. O mussulmano tem uma concepção lógica e pura de Deus, o Alah monístico. Mas ele permanece bárbaro na Europa e a grama não renascerá por onde ele passar. O cristão tem um Deus Trino, “uma trindade oblíqua,” que parece uma caprichosa contradição em termos. Mas, em ação, ele abarca a terra e, mesmo, o mais inteligente oriental só pode com ele lutar, imitando-o a princípio. O Oriente tem sua lógica e vive do arroz. A cristandade tem seus mistérios – e seus automóveis. Não importa a inferência. Como eu disse, registremos os fatos.

Agora com essas duas coisas em mente, deixe-me tentar explicar o que é a Teologia Cristã.

O agnosticismo completo é a atitude óbvia para o homem. Todos somos agnósticos até descobrirmos que o agnosticismo não funciona. Então, adotamos alguma filosofia, a do Sr. Blachford ou a minha, ou alguma outra, pois, o Sr. Blatchford não é mais agnóstico que eu, é claro. O agnóstico diria não estar certo se o homem é responsável pelos seus pecados. O Sr. Blatchford diz que ele tem certeza de que o homem não é.

Aqui temos a semente de toda uma imensa árvore de dogmas. Por que o Sr. Blatchford vai além do agnosticismo e afirma que não há, certamente, livre arbítrio? Porque ele não pode desenvolver seu sistema moral sem afirmar a inexistência do livre arbítrio. Ele deseja que nenhum homem seja culpado de pecado. Portanto, ele tem de convencer seus discípulos de que Deus não os fizeram livres e, por conseguinte, culpáveis. Nenhuma mínima dúvida cristã pode passar pela mente do determinista. Nenhum demônio pode sussurrá-lo, numa hora de angústia, que, talvez, o promotor de vendas fraudulento foi o responsável por ele estar no asilo. Nenhum ataque de ceticismo deve sugeri-lo que, talvez, o professor primário foi o culpado pela surra de matar dada no pequeno garoto. A fé do determinista deve permanecer firme, senão a fraqueza da natureza humana, certamente, fará com que os homens se enfureçam quando são difamados ou devolvam o soco, quando são socados. Em resumo, o livre arbítrio parecerá, em princípio, pertencer ao Desconhecido. Mesmo assim, o Sr. Blatchford não conseguirá pregar o que a ele pareça mera caridade sem afirmar, sobre isso, um dogma. E eu não conseguirei pregar o que me parece ser mera honestidade, sem afirmar outro.

Aqui está a falha do agnosticismo. Que a nossa visão cotidiana das coisas que sabemos (do senso comum), realmente depende de nossa visão de coisas que não sabemos (do senso comum). Tudo bem dizer a um homem, como faz o agnóstico, “cultive seu jardim.” Mas, suponha que ele ignore tudo fora do seu jardim, inclusive o sol e a chuva?

Isso é fato real. Você não pode viver sem dogmas sobre as coisas. Você não pode agir vinte e quatro horas por dia sem decidir se as pessoas são responsáveis ou não. A Teologia é um produto muito mais prático que a Química.

Alguns deterministas imaginam que o cristianismo inventou um dogma como o livre arbítrio por diletantismo – uma simples contradição. Isso é absurdo. Você se confronta com contradições onde quer que você esteja. Os deterministas me dizem, com um grau de verdade, que o determinismo não faz diferença na vida diária. Isso significa que, apesar do determinismo saber que os homens não têm livre arbítrio, mesmo assim, ele continua tratando-os com se tivessem.

A diferença, então, é muito simples. O cristão coloca a contradição em sua filosofia. O determinista a coloca em seus hábitos diários. O cristão afirma, como um mistério declarado, o que o determinista chama nonsense. O determinista tem o mesmo nonsense em seu café da manhã, em seu almoço, em seu chá e em seu jantar, todos os dias de sua vida.

O cristão, repito, coloca o mistério em sua filosofia. Este mistério, pela sua escuridão, ilumina todas as coisas. Depois disso, vida é vida, pão é pão e queijo é queijo: ele pode sorrir e lutar. O determinista torna a questão lógica e lúcida: e à luz dessa lucidez, todas as coisas são obscurecidas, as palavras perdem o sentido, e as ações, o objetivo. Ele fez de sua filosofia um silogismo e dele próprio um lunático delirante. [3]

Essa não é uma questão entre misticismo e racionalidade. É uma questão entre misticismo e loucura. Pois, o misticismo, e somente o misticismo, tem mantido o homem são, desde o início dos tempos. Todos os caminhos retilíneos da lógica levam ao caos, à anarquia ou à obediência passiva, por tratar o universo como uma pura engrenagem material ou então como uma ilusão da mente. É somente o místico, o homem que aceita as contradições, que pode sorrir e caminhar livremente pelo mundo.

Você está surpreso pelo fato de que a mesma civilização que acreditou na Trindade descobriu a máquina a vapor? Todos as grandes doutrinas cristãs são deste tipo. Examine-as você mesmo, cuidadosa e justamente. Tenho espaço para apenas dois exemplos. O primeiro é a idéia cristã de Deus. Tal como temos todos sido agnósticos, também temos sido panteístas. Com uma ingenuidade infantil é fácil dizer, “Por que o homem não pode enxergar Deus num vôo de um pássaro e ser feliz?” Mas, vem o tempo em que, indo além, dizemos, “Se Deu está nos pássaros, sejamos não só bonitos como eles, mas sejamos cruéis como os pássaros, vivamos a vida louca e colorida da natureza.” E algo que mantém sua própria inteireza dentro de nós resiste e nos alerta, “Meu amigo, você está enlouquecendo.”

Então vem o outro lado e dizemos: “Os pássaros são odiosos, as flores são vergonhosas. Um universo com tais coisas não merece meu tributo.” E a coisa inteira em nosso íntimo diz: “Meu amigo, você está enlouquecendo.”

Então vem uma coisa fantástica e nos diz: “Você está certo de gostar dos pássaros, mas errado em copiá-los. Há uma coisa boa em todas essas coisas, mas todas essas coisas são menores que você. O Universo está certo, mas o Mundo está errado. A coisa por trás de tudo não é cruel como um pássaro, mas bondosa como um homem.” E a coisa inteira dentro de nós diz: “Encontrei o caminho da montanha.”

Assim, quando o cristianismo surgiu, o mundo antigo tinha acabado de chegar a esse dilema. Ele ouviu a Voz do Culto à Natureza que rezava, “Todas as coisas naturais são boas. A guerra é saudável como as flores. A luxúria é tão cândida como as estrelas.” E ele ouviu também o lamento dos desesperados Estóicos e Idealistas. “As flores estão em guerra: as estrelas estão maculadas: nada é certo além da consciência do homem e esta foi completamente vencida.”

Ambas as visões eram consistentes, filosóficas e exaltadas: suas únicas desvantagens eram que a primeira levava logicamente ao assassinato, e a segunda, ao suicídio. Depois de uma agonia do pensamento, o mundo descobriu um caminho saudável entre os dois. Era o Deus cristão. Ele fez a Natureza mas, Ele era Homem.

Finalmente, há uma palavra a dizer sobre a Queda. Só poderá ser uma palavra, e ela é esta. Sem a doutrina da Queda, toda a idéia do progresso é sem sentido. O Sr. Blatchford diz que não houve uma Queda, mas uma ascensão gradual. Mas, a própria palavra “ascensão” implica que você saiba em que direção está ascendendo. A menos que haja um padrão, você não pode se dizer em ascensão ou em queda. Mas o ponto principal é que a Queda, tal como todos os outros largos caminhos do cristianismo, está embebida, invisivelmente, na linguagem comum. Qualquer um pode dizer, “Muito poucos homens são realmente humanos.” Ninguém diria, “Muito poucas baleias são realmente, ‘baleiais’.”

Se você quisesse dissuadir um homem de beber sua décima dose de whisky, você bateria em suas costas e diria, “Seja homem.” Ninguém que desejasse dissuadir um crocodilo de comer seu décimo explorador, bateria nas costas da fera e diria, “Seja crocodilo.” Pois, não temos nenhuma noção de um crocodilo perfeito, nenhuma alegoria de uma baleia expulsa do Éden ‘baleial’. Se uma baleia viesse ao nosso encontro e dissesse: “Eu sou um novo tipo de baleia, eu abandonei a ‘baleiez’,” não deveríamos nos preocupar. Mas, se um homem viesse até nós (como muitos logo virão) e dissesse, “Eu sou um novo tipo homem. Eu sou o super-homem. Eu abandonei a misericórdia e a justiça;” deveríamos responder, “Sem dúvida você é novo, mas nem um pouco parecido com o homem perfeito, pois este sempre esteve na mente de Deus. Caímos com Adão e ascenderemos com Cristo; mas preferimos cair com Satã, que ascender com você.”



Publicado em The American Chesterton Society

[1]Reproduzido de The Religious Doubts of Democracy (1904) e de "The Blatchford Controversies" (in The Collected Works of G.K. Chesterton, Vol. 1) (N. do T.)

[2] Nome que a Economia tinha na época. (N. do T.)

[3] A linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós, é uma força divina. Onde está o sábio? Onde o erudito? Onde o argumentador deste mundo? Acaso não declarou Deus por loucura a sabedoria deste mundo? Já que o mundo, com a sua sabedoria, não reconheceu a Deus na sabedoria divina, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura de sua mensagem (...) mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos. Pois a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens. (1 Cor. 1, 18; 20-21; 23;25) (N. do T.)

14/06/2006

Civilização Ocidental

Quem quiser saber o que é Civilização Ocidental e porque querem destruí-la na visão de Roger Scruton clique http://www.isi.org/lectures/video/ram/v_scruton060403.ram . Quem quiser saber quem é Roger Scruton clique http://www.morec.com/scruton.htm .

Have fun!!!

07/06/2006

Uma fábula revisitada

"The Ant and the Grasshopper", extraída do livro "Is Reality Optional? and other essays", de Thomas Sowell

Traduzida e adaptada por Miguel Nagib.

Assim como os filmes “Rocky” e “Guerra nas Estrelas” tiveram suas seqüências, as velhas fábulas deveriam ter as suas. Aqui está a seqüência para uma delas: A Formiga e a Cigarra.

Era uma vez, uma cigarra e uma formiga que viviam no campo. Durante todo o verão, a cigarra cantou e dançou, enquanto a formiga trabalhava duro, debaixo de um sol escaldante, para armazenar comida para o inverno. Quando o inverno chegou, a cigarra teve fome e, num dia frio e chuvoso, procurou a formiga para pedir-lhe comida.

“Quê?! Você está maluca?”, disse a formiga. "Eu arruinei minhas costas durante todo o verão enquanto você cantava e ria de mim por não aproveitar a vida..."

“Eu fiz isso?”, perguntou a cigarra mansamente.

“Sim! Você disse que eu era um desses bobalhões que não compreendiam a essência da moderna filosofia da auto-realização.”

“Puxa, sinto muito”, disse a cigarra. “Eu não sabia que você era tão sensível. Mas certamente você não vai usar isso contra mim numa hora dessas.”

“Bem, eu não costumo guardar rancor, mas tenho boa memória.” Eis que aparece uma outra formiga.

“Olá, Lefty!”, disse a primeira formiga.

“Olá, George.”

“Lefty, você sabe o que essa cigarra quer que eu faça? Que eu lhe dê uma parte da comida pela qual eu trabalhei tanto nesse verão, sob o sol inclemente.”

“Ora, na minha opinião, isso é o mínimo que você devia fazer, até mesmo sem esperar que ela lhe pedisse” disse Lefty.

“Quê?!”

“Quando a natureza distribui seus frutos de forma desigual, podemos ao menos tentar corrigir a desigualdade.”

“Frutos da natureza uma ova!”, disse George. “Eu tive de carregar toda essa comida até aqui, subindo o morro e cruzando um riacho num pedaço de pau, sem me distrair um segundo para não ser comido por outros bichos. Por que esse vagabundo não fez o mesmo para ter o que comer no inverno?”

“Calma, calma, George”, amenizou Lefty. “Não devemos usar a palavra ‘vagabundo’. Hoje dizemos ‘sem-teto’.”

“Pois eu digo ‘vagabundo’ mesmo. Qualquer um que seja tão preguiçoso que não cuide para ter um teto sobre a sua própria cabeça, que prefira ficar na chuva a fazer um pequeno esforço...”

"Eu não sabia que ia chover desse jeito”, interrompeu a cigarra. “O serviço de metereologia previu que faria bom tempo."

“Tempo bom?”, George resmungou. “Foi isso mesmo o que o homem do tempo havia dito a
Noé.”

Lefty pareceu afligir-se. “Estou surpreso com a sua crueldade, George, seu egoísmo e sua avareza.”

“Você ficou louco, Lefty?”

“Não, pelo contrário, eu fui educado.”

“Bem, hoje em dia isso pode ser até mais grave.”

“No verão passado, eu segui uma trilha de migalhas de biscoito deixada por um grupo de estudantes que me levou a uma sala de aula na Universidade.”

“Você esteve na Universidade? Se é assim, não me surpreende que tenha voltado com esse belo discurso e essas idéias idiotas.”

“Eu me recuso a dialogar nesses termos. Em todo caso, lhe digo que participei do curso de Justiça Social do Professor Murky. Ele explicou como a riqueza do mundo é distribuída de forma desigual.”

“Riquezas do mundo?”, repetiu George. “O mundo não carregou essa comida morro acima. O mundo não cruzou o riacho num pedaço de pau. O mundo não correu o risco de ser comido por um devorador de formigas."

“Essa é uma forma estreita de enxergar o problema”, disse Lefty.

“Se você é tão generoso, por que você mesmo não dá de comer a essa cigarra?”

“É isso o que eu vou fazer”, replicou Lefty. E, virando-se para a cigarra, lhe disse: “Venha comigo. Vou levá-la ao albergue do governo. Lá você terá comida e um lugar para dormir”.

“Ah, você está trabalhando para o governo agora?!”

“Sim, eu entrei para o serviço público”, disse Lefty orgulhoso. “I want to 'make a difference' in this world."

“Vê-se que você realmente esteve na Universidade...”, disse George. “Mas se você é tão amigo da cigarra, por que você não a ensina a trabalhar durante o verão para ter o que comer no inverno?”

“Nós não temos o direito de mudar seus costumes e tentar fazer que ela seja como nós. Isso seria imperialismo cultural.”

George estava chocado demais para responder. Lefty não apenas ganhou a discussão, como continuou a expandir o seu programa de albergues para cigarras. Como a notícia se espalhou, uma multidão de cigarras começou a chegar de toda parte. Até que algumas jovens formigas decidiram adotar o estilo de vida das cigarras.

Quando a geração mais velha de formigas se foi, mais e mais formigas se juntaram às cigarras. Finalmente, todas as formigas e todas as cigarras passaram a usar o seu tempo curtindo a vida, sem compromissos, e viveram felizes para sempre – isto é, durante o verão. Então veio o inverno.