segunda-feira, julho 30, 2012

Os Melancias: verdinhos por fora, vermelhos por dentro.

Este é o título de um livro recém traduzido e lançado pela TopBooks. Gostaria de sugerir aqui a compra do livro de James Delingpole, o blogueiro que denunciou o Climagate. Escrevi sobre isso para uma revista brasileira de geografia. Contudo, a tradução da obra é sofrível, na melhor das hipóteses. Há muitos erros menores, que embora não comprometam o entendimento do texto, são surpreendentes em qualquer projeto editorial desse porte. 

Há, todavia, erros mais graves, que mostram um desconhecimento mais profundo do que se está traduzindo. Vou dar aqui apenas dois exemplos:

1o. exemplo

Texto em inglês (transcrição de um e-mail): "I've just completed Mike's Nature trick of adding in the real temps to each series for the last 20 years (ie, from 1981 onwards) and from 1961 for Keith's to hide the decline."

Texto em português, na página 18 da edição em português (primeira ocorrência, de várias): Acabei de completar o truque de Mike no projeto Natureza, aumentando as temperaturas verdadeiras de cada série para os últimos vinte anos (ou seja, a partir de 1981), e a partir de 1961 para as de Keith, a fim de esconder o declínio. (Negritos meus.)

Nature, no texto do e-mail, se refere à revista Nature, periódico científico de renome, que é publicado desde 1869. O truque de Mike se refere à curva taco de hóquei, obtida por manipulação de dados, publicada em um artigo cuja referência completa é: M.E. Mann, R.S. Bradley, e M.K. Hughes, “Global-scale Temperature Patterns and Climate Forcings over the Past Six Centuries,” Nature 392 (1998): 779-87. Este artigo foi tão influente em sua mentira que ganhou um apelido: o MBH98.

2o. exemplo

Texto em inglês: This was the danger of always criticising the skeptics for not publishing in the "peer-reviewed literature".

Texto em português, na página 20 da edição em português: Este era o perigo de estar sempre criticando os céticos por não se manifestarem na "literatura das avaliações pelas bancas". (Negritos meus.)

A expressão peer-reviewed literature se refere a publicações que tem um corpo de revisores e em que os artigos só são publicados se aprovados por eles. Em português poderia ter sido usada a expressão periódicos indexados, ou seja, periódicos constantes das várias bases de dados de publicações científicas, ou ainda, periódicos com corpo de revisores, ou com corpo editorial.

O curioso é que três linhas antes aparece a expressão peer review process que o tradutor deixou sem traduzir. Esta expressão se refere ao processo de revisão por pares. Esse processo está no centro de todo o imbróglio do Climagate e não poderia deixar de ser compreendido pelo tradutor do livro.

Com esses dois exemplos, que ocorrem já no segundo capítulo, e distam de duas páginas um do outro, e depois de vários erros menores, que já mencionei, parei de ler meu exemplar. Vou comprar o livro em inglês (Watermelons). É o que sugiro a todos, infelizmente. 

Precisamos desesperadamente de traduções de livros importantes para o português e no estágio em que nos encontramos até traduções não muito boas seriam aceitáveis. Veja que até o blogueiro que vos fala se aventura nesta seara! Mas há um nível de qualidade abaixo do qual fica insustentável qualquer projeto editorial, pois o texto se torna ininteligível.


3 comentários:

Sinclair disse...

Não tive qualquer problema na compreensão do texto. Será que estamos falando de diferentes edições ?

Antônio Emílio Angueth de Araújo disse...

Caro Sinclair,

Pelo que sei, só há uma edição.

Anônimo disse...

também achei o livro muito difícil de entender e até sem nexo as vezes como se tivesse faltando algo