sexta-feira, maio 20, 2011

Pensamentos esparsos de um católico perplexo

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A beatificação de João Paulo II lança todos os católicos numa discussão teológica das mais complexas e numa dúvida atroz: tais atos do Santo Padre são infalíveis ou não? Tal é a confusão da Igreja. Agora os pobres católicos, nós todos, estamos tendo de enfrentar discussões que só os medievais davam conta de manter. Sim, além disso, somos bombardeados pela mídia, que parece ter gostado muito do Sumo Pontífice anterior. Esta foi uma beatificação que contou com o apoio de ateus, anti-católicos, comunistas, panteístas e gnósticos de todo o mundo.

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Enquanto a CNBB avança sua crença new-age-eco-panteísta, Dom Tomás de Aquino, prior do Mosteiro da Santa Cruz, ligado à Tradição, consagra Nova Friburgo ao Coração Imaculado de Maria. Enquanto a FSSPX realiza ato de Reparação diante do Santíssimo, pela decisão do Supremo (STF) acerca da “homoafetividade”, um padre de Belo Horizonte elogia a decisão do tribunal, nada acontecendo com ele, até agora. 

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Sempre foi opinião geral, é recomendação constante de santos e doutores da Igreja, é matéria assentada da Teologia Ascética e Mística, que todo fiel deve ter um diretor espiritual para mais bem caminhar na senda da perfeição cristã. A pergunta que me faço, e que não raras vezes me fazem, é: como na atual situação da Igreja, encontra um diretor espiritual? Se alguém souber a resposta, por favor, conte-nos. 

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Uma pergunta pertinente que virou título de livro: como ir à Missa[Nova] sem perder a fé? O autor é simplesmente Dom Nicola Bux, consultor das Congregações para a Doutrina da Fé, do Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos e do Ofício de Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice. Bem, se ele faz a pergunta, que dizer de nós?

14 comentários:

NoMe De tela(postadopor?) disse...

Olá, o senhor sabe em qual livraria de BH eu posso comprar sua tradução de Hereges?

Gosto muito do blog :)

Obrigado!

Antonio Emilio Angueth de Araujo disse...

Caro leitor,

Eu tentaria a Leitura. Não sei se há distribuição do livro aqui em BH.

Em JMJ.

Sérgio Meneses disse...

Prof. Angueth,

O que parece está em jogo, para muitos católicos tradicionalistas, não é exatamente se as beatificações e canonizações envolvem ou não a infalibilidade pontifícia. A rejeição da santidade de João Paulo II (como também a de Sto Josemaria Ecrivá, Santa Edith Stein, etc) é rejeitada a priori. Se fosse comprovado, para estas pessoas, ineqeuivocamente, que um católico não pode duvidar, sequer interiormente, de uma beatificação ou canonização, muito provavelmente eles cederiam ao sedevacantismo. O critério de fé dessas pessoas já não é mais o Magistério eclesiástico, mas o próprio juízo sobre a crise da Igreja. E isso é uma grande lástima.

Acho que um pouco de sinceridade é preciso.

Teologicamente falando, é ridículo duvidar da infaliblidade de uma canonização e muito temerário, para dizer o mínimo, duvidar de uma beatificação.

AMDG

Sérgio Meneses

Antonio Emilio Angueth de Araujo disse...

Caro Sérgio,

Pode ser que alguns tradicionalistas fossem para o campo sedevacantista, caso a Igreja determinasse como infalível o processo ATUAL de canonização ou beatificaçao.

Para mim, seria um grande alívio, pois eu deixaria de pensar nisto e continuaria alegremente como membro da única Igreja que salva.

Contudo, penso que haja fundamento para dúvida. Antes das mudanças do processo de canonização/beatificação era quase consenso entre os grandes teólogos da Igreja que este processo era abrigado dentro dos atos infalíveis do Sumo Pontífice. Para o fiel comum, era, de fato, loucura duvidar disto. Não agora, depois das mudanças, cujos fundamentos teológicos são intricados e deixa a todos nós, simples fiéis, sem profundos conhecimentos teológicos, não pouco perturbados.

Foi esta perplexidade que tentei expressar no post.

Em JMJ.

Sérgio Meneses disse...

Prezado Prof. Angueth,
Salve Maria.

A infalibilidade das canonizações não está no processo, mas na declaração do Papa. Muitos santos foram assim declarados sem processo de canonização algum, mas pelo simples reconhecimento, pelo Papa, de sua santidade.

Se sempre houve unanimidade moral entre os teólogos sobre a infalibilidade das canonizações, não é uma mudança no processo, que é mera parte acessória (até dispensável, se o Papa assim o desejasse) da canonização em si, que vai mudar essa verdade teológica. Não precisa o Papa reafirmar uma verdade que sempre foi assim tida, para que nossas consciências fiquem obrigadas a aceitá-la.

Não é possível aos católicos, sem um malabarismo teológico absurdo, aceitar ao mesmo tempo que Bento XVI (ou qualquer outro Papa) seja Papa e canonize alguém que não tenha, de fato, vivido as virtudes em grau heróico. Um claríssimo indício disso é que, via de regra, os tradicionalistas mais eruditos acabam no sedevacantismo.

O critério da nossa santíssima fé católica, caro Prof. Angueth, é o Magistério da Igreja. Se colocarmos nosso entendimento pessoal (pelo amor de Deus, não estou dizendo que é o seu caso!) acima da autoridade do Magistério, nos esquecemos completamente do fundamento da nossa fé, pelo o qual Nosso Senhor quis que Sua Igreja fosse coluna e sustentáculo da verdade.

Abraço,

Em Jesus e Maria,

Sérgio

Antonio Emilio Angueth de Araujo disse...

Caro Sérgio,
Salve Maria!

Bem, sem querer entrar numa discussão ampla, para a qual não me considero preparado, canonização e beatificação são dois atos distintos. Há muita discussão sobre a infalibilidade da beatificação.

Cito abaixo um trecho do verbete "Beatification and Canonization" da Enciclopédia Católica (desculpe-me a citação em inglês):

This general agreement of theologians as to papal infallibility in canonization must not be extended to beatification, not withstanding the contrary teaching of the canonical commentary known as "Glossa". Canonists and theologians generally deny the infallible character of decrees of beatification, whether formal or equivalent, since it is always a permission, not a command; while it leads to canonization, it is not the last step. Moreover, in most cases, the cultus permitted by beatification, is restricted to a determined province, city, or religious body (Benedict XIV, op. cit., I, xlii). Some, however, have thought otherwise (Arriaga, Theol., V, disp. 7, p. 6; Amicus, Theol., IV, disp. 7, p. 4, no 98; Turrianus on II-II, V, disp. 17, no 6; Del Bene, De S. Inquisit. II, dub. 254).

Há aí bastante desacordo.

Quanto à canonização temo não concordar com você de que o processo é acessório na decisão do Pontífice (exceto se o Papa assim o considerar e dele prescindir para a tomada de decisão. Neste caso, penso eu, ele está tomando uma decisão ex cathedra). É desprezar muito o papel do "advogado do diabo" e das informações coletadas para a decisão do Papa. Decisão inspirada pelo Espírito Santo não deve significar decisão mal fundamentada ou com fundamentação deficiente. Deus age, mas não sem o nosso concurso. Se houve mudanças no processo (as quais não tenho condições de analisar profundamente) há que se perguntar até que ponto elas enfraquecem ou invalidam o processo de decisão do Papa. Manter esta dúvida, já que esta não é matéria dogmática, não me parece ser algo reprovável ou falta grave.

De qualquer forma, a nossa pequena discussão já ilustra minha perplexidade com a atual situação da Igreja.

Deus lhe pague suas visitas e seus comentários.

Em JMJ.

?????????? disse...

Caro professor,
Sei que não é este o assunto, mas não vi outro meio de consultá-lo.

Nas minhas leituras de textos (livros, artigos, etc...) de antes do concílio, não encontrei (ou encontrei pouco) os termos catequese e sim aulas de catecismo ou instrução religiosa. E o termo catequista.
O senhor que lê muito mais que eu sobre a Igreja antes do concílio, quais eram os termos empregados para o que hoje se diz: CATEQUESE E CATEQUISTA? e são esses termos, termos modernistas?

R. Oliveira

Antonio Emilio Angueth de Araujo disse...

Caro Oliveira,
Salve Maria!

A catequese foi totalmente modificada pelo CVII. Para você ter uma idéia vaga do processo, leia um post do blog: A dissolução da catequese: Romano Amério conta como foi.

O livro que escrevi traz também quatro capítulos sobre a catequese modernista e suas idéias heréticas.

Em JMJ.

Tetsui disse...

Na verdade a Canonização é um ato infalivel e aquele que dela duvidar automaticamente cai em sedevacantismo.

Já a beatificação não é declarada com a infalibilidade papal. As beatificaçoes podem sim ser desacreditadas. Um caso interessante é o da Beata Ana Catharina Emmerich, que foi beatificada, mas para que ela fosse beatificada tiveram que retirar do processo os escritos que a beata deixou, pois esses foram considerados pela Igreja Católica como heréticos.

Antonio Emilio Angueth de Araujo disse...

Caro Tetsui,

Dois reparos:
1) Quem discorda de ensinamento infalível da Igreja é herege e conforme a profundidade da discordância, está automaticamente excomungado, mas não é necessariamente sedevacantista. Ser sedevacantista já significa ser herege e passível de excomunhão;
2) Sobre o processo de canonização há ainda dúvidas e não é ensinamente infalível da Igreja. Abaixo segue um texto, em inglês, da Enciclopédia Católica (Newadvent) para sua referência.
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Is the pope infallible in issuing a decree of canonization? Most theologians answer in the affirmative. It is the opinion of St. Antoninus, Melchior Cano, Suarez, Bellarmine, Bañez, Vasquez, and, among the canonists, of Gonzales Tellez, Fagnanus, Schmalzgrüber, Barbosa, Reiffenstül, Covarruvias (Variar. resol., I, x, no 13), Albitius (De Inconstantiâ in fide, xi, no 205), Petra (Comm. in Const. Apost., I, in notes to Const. I, Alex., III, no 17 sqq.), Joannes a S. Thomâ (on II-II, Q. I, disp. 9, a. 2), Silvester (Summa, s.v. Canonizatio), Del Bene (De Officio Inquisit. II, dub. 253), and many others. In Quodlib. IX, a. 16, St. Thomas says: "Since the honour we pay the saints is in a certain sense a profession of faith, i.e., a belief in the glory of the Saints [quâ sanctorum gloriam credimus] we must piously believe that in this matter also the judgment of the Church is not liable to error." These words of St. Thomas, as is evident from the authorities just cited, all favouring a positive infallibility, have been interpreted by his school in favour of papal infallibility in the matter of canonization, and this interpretation is supported by several other passages in the same Quodlibet. This infallibility, however according to the holy doctor, is only a point of pious belief. Theologians generally agree as to the fact of papal infallibility in this matter of canonization, but disagree as to the quality of certitude due to a papal decree in such matter. In the opinion of some it is of faith (Arriaga, De fide, disp. 9, p. 5, no 27); others hold that to refuse assent to such a judgment of the Holy See would be both impious and rash, as Francisco Suárez (De fide, disp. 5 p. 8, no 8); many more (and this is the general view) hold such a pronouncement to be theologically certain, not being of Divine Faith as its purport has not been immediately revealed, nor of ecclesiastical Faith as having thus far not been defined by the Church.
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Obrigado pela visita e comentário.

Em JMJ.

Felipe Coelho disse...

Prezado Professor, Salve Maria!

Como leitor assíduo do seu blogue e admirador do senhor, a quem conheci pessoalmente num Retiro de Santo Inácio pelos Pes. da FSSPX, muito me surpreende sua afirmação de que os sedevacantistas seríamos hereges.

Pois se nem mesmo Bento XVI convocando uma nova Assis ou beatificando João Paulo II lhe dá certeza de ele ser herege, é realmente surpreendente que os sedevacantistas não sejamos objeto da mesma hesitação.

Enfim, nunca nenhum clérigo tradicional, seja FSSPX, IBP, Campos, diocesano, etc., jamais me disse coisa semelhante, daí minha perplexidade.

O senhor poderia, por caridade, dar mais detalhes sobre a fonte dessa sua certeza?

Atenciosamente,
Em JMJ,
Felipe Coelho

Antonio Emilio Angueth de Araujo disse...

Caro Felipe,
Salve Maria!

Lembro-me bem quando nos encontramos em Mogi das Cruzes. Lembro-me também de ouvir dizer que você (posso lhe tratar de você?) era sedevacantista, mas confesso que sua admissão neste comentário é, para mim, motivo de tristeza. Conheço e admiro alguns de seus textos (já citei alguns aqui no blog) publicados na Montfort, que se destacam pela clareza e profundidade. Conheço algumas pessoas que lhe têm em alta conta, certamente não por acaso.

Sei, por alguns comentários que posta de quando em vez, que você é meu leitor, pelo que lhe agradeço.

Você diz: “Enfim, nunca nenhum clérigo tradicional, seja FSSPX, IBP, Campos, diocesano, etc., jamais me disse coisa semelhante, daí minha perplexidade.” Eu pergunto: algum clérigo tradicional, seja FSSPX, IBP, Campos, diocesano, etc., já lhe disse que os Papas conciliares não são Papas, que Bento XVI é herege?

Conheço católicos que poderiam receber o adjetivo de tradicionais que acham o sedevacantismo um grave erro; um exemplo é Carlos Nougué, que escreveu longamente sobre o assunto do blog ContraImpugnantes.

Você pergunta: “O senhor poderia, por caridade, dar mais detalhes sobre a fonte dessa sua certeza?” Uma pergunta destas de um sedevacantista não pode deixar de causar perplexidade, uma vez que há de sua parte uma certeza da heresia de vários papas.

Vou matizar minha afirmação sobre o sedevacantismo: ele é a reação ao CVII, e à atual crise da Igreja, mais próxima de uma atitude herética. Do meu ponto de vista, é uma atitude de presunção extrema, de um racionalismo de dar inveja a um Ário, um cisma, algo insolúvel teologicamente e falacioso, como tenta provar Carlos Nougué. Sei que as discussões teológicas nos grupos sedevacantistas são infindáveis e talvez haja no sedevacantismo tantas facções quanto igrejas protestantes.

Não julgo suas intenções ao abraçar o sedevacantismo e suspeito que sua inteligência e cultura lhe tenham dado a presunção necessária para tal posicionamento. Orígenes e Tertuliano, como nos lembra São Vicente de Lerins, eram mentes privilegiadíssimas, sobretudo Orígenes, que era um portento; e ambos se perderam. Estes exemplos me são muito caros, pois qualquer um está exposto a este perigo.

Para terminar, não fico hesitante em considerar Bento XVI um herege, quando ele vai a Assis ou beatifica JPII; simplesmente, jamais me passou tal coisa pela cabeça. Meu sentimento é outro; é de uma profunda tristeza e perplexidade.

Em JMJ.

Felipe Coelho disse...

Prezado Professor, Salve Maria!

Fico contente por o senhor ter voltado atrás em sua acusação de heresia, que era de fato injusta.

Minha menção aos clérigos do mais diversos graus de "tradicionalidade" era um argumento ad hominem, que aliás me parece ter surtido efeito.

Sem dúvida o sedevacantismo é um cisma em relação a Bento XVI e à Igreja conciliar que ele encabeça, mas, sendo o Vaticano II um concílio cismático, como disse o Arcebispo Dom Lefebvre, tenho a consciência tranquila de estar cumprindo um dever de todo católico de estar em cisma com um cisma.

Atenciosamente,
Em JMJ,
Felipe Coelho

Antonio Emilio Angueth de Araujo disse...

Caro Felipe,
Salve Maria!

Ah! Sim. A consciência tranquila dos puros, dos que não se misturam. Sim, quando a Igreja se tornar pura novamente, os puros cismáticos retornarão. Não creio em absoluto que este tenha sido o legado de D. Lefebvre, nem o que defendem hoje os mais sensatos dentro da FSSPX.

Como eu disse, é de se lamentar o tal de sedevacantismo.

Em JMJ.