sexta-feira, maio 13, 2011

50 anos de Vaticano II: contribuições de um católico perplexo

Nota do blog: Tenho mostrado, neste blog, minha perplexidade com a situação da Igreja pós-conciliar. Com ela a tira-colo, escrevi um pequeno livro. Com ela, novamente, tomo conhecimento da comemoração dos 50 anos do Concílio Vaticano II (isto é, do início dos trabalhos conciliares, em 11 de outubro de 1962) que está sendo preparada para o ano que vem (os milenaristas de sempre bem podem ter razão agora; em 2012, talvez o mundo acabe!). Decido, também com ela, participar, não da comemoração, mas da lembrança, terrível lembrança, dos 50 anos pós-conciliares. Vez ou outra, vou escrever algo sobre estes anos aqui no blog. Começo hoje, dia 13 de maio (A 13 de maio, na Cova da Iria, no céu aparece a Virgem Maria!), data expressiva e irremediavelmente ligada ao Vaticano II, pois, segundo as mais abalizadas opiniões, Nossa Senhora teria ordenado não convocar o Concílio e nem alterar a Missa de Sempre. Começo com as impressões de Nelson Rodrigues que, já disse aqui, é mais católico que a CNBB. O trecho que vai abaixo é da crônica de 5/4/1968 (o Concílio tinha pouco mais de 2 aninhos, pois promulgado em 8 de dezembro de 1965, e já mostrava todo o seu “potencial”), intitulada “Os Dráculas”. Os negritos são todos meus.

Que Nossa Senhora de Fátima nos proteja neste furacão conciliar!
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Quero crer que certas épocas são doentes mentais. Por exemplo: – a nossa. Ainda anteontem, falei da idéia inusitada de D. Hélder. O nosso querido arcebispo propõe uma missa cômica (se duvidarem, leiam a última edição dominical de O Jornal). Por trás de suas palavras, sentimos o tédio cruel de uma missa que se repete, com uma monotonia já irrespirável, há 2 mil anos. E ele sugere que se substitua o órgão, o violino, a harpa, o címbalo, pelo reco-reco, o tamborim e a cuíca. 

Por aí se vê que ele, como o dr. Alceu,[1] é um progressista. Não sei se o leitor entendeu todo o alcance da sugestão.[2] D. Hélder propõe, se bem o entendi, que se enfie o sobrenatural na gafieira ou por outra: – que se faça da catedral uma gafieira gótica. Parece ao arcebispo de Olinda que se pode louvar a Deus, igualmente ou até com vantagem, com a cuíca, o pandeiro, o reco-reco e o tamborim

A missa, como a conhecemos, nos últimos vinte séculos, é triste, é depressiva, é neurótica. E quem sabe se a Virgem, se Jesus, se os santos não hão de preferir, por fundo musical, o samba? Seria uma boa maneira de espanar o pó que 2 mil anos depositaram em certas representações católicas. 

Mas falei de épocas que parecem doentes mentais. Só em nossos dias um arcebispo poderia irromper num jornal, na televisão ou rádio e lançar a idéia da missa cômica. Estamos pertinho da Semana Santa. É o caso de, na Sexta-Feira da Paixão, cada um levar seu reco-reco, sua cuíca, seu tamborim e seu pandeiro. Nada de lúgubres e mórbidas procissões. E chorar por que, se tristezas não pagam dívidas? Mas, como eu ia dizendo: – se em qualquer outra época, de razoável sanidade, alguém sugerisse tal coisa, seria um escândalo inominável. Em sua indignação, os fiéis dariam arrancos triunfais de cachorro atropelado. Hoje, não. 

Hoje, achamos perfeitamente normal que se instale a vida eterna numa gafieira. Daqui a pouco, um outro há de propor que, dentro das igrejas, garçons passem bandejas de salgadinhos, mães-bentas, caldo de cana, grapete e chica-bon.[3] Mas volto à minha observação anterior: – d. Hélder não espantou ninguém. Não houve escândalo, ninguém arrancou os cabelos etc. etc. 

Essa impotência para o espanto dá que pensar. Eis o que me pergunto: – e por que, meu Deus, por quê? Vejo católicos justificando a guerrilha, achando a guerrilha uma atividade nobilíssima. E o dr. Alceu só não a recomenda para o Brasil, porque, diz ele, os nossos camponeses não são politizados. Eu me lembro de que, antes da esquerda católica, não tínhamos dráculas neste país. 

E já os temos. Amaldiçoados? Não. Abençoados. Sim, abençoados, absolvidos por respeitáveis homens de fé. (...) 

Não quero ser enfático. Mas me parece estar havendo, no Brasil, uma degringolada de valores. Vimos d. Hélder propor a missa cômica; e ninguém se espantou. Vimos o dr. Alceu declarar que, por causa de um passarinho, pode-se matar um homem. Uma coisa está ligada à outra e ambas se explicam. Se d. Hélder pode propor a gafieira gótica, e se o dr. Alceu absolve um monstruosíssimo assassinato (se bem que hipotético), tudo é permitido e vale tudo.[4]    


[1] Alceu de Amoroso Lima, o Tristão de Atayde. (Nota do blog.)
[2] Nós, depois de 50 anos, não só entendemos o que D. Hélder estava propondo, como sabemos no que deu sua proposta! (Nota do blog.)
[4] Esta é a versão rodriguiana do Lex orandi, lex credendi. (Nota do blog.)

2 comentários:

Catolico disse...

realmente incrível!
òtima postagem professor.

Rodrigo
jnd-sp

Leandro Vieira disse...

Pois é, professor. O último Concílio gerou uma "revolução" na Igreja.
O filho do professor Olavo de Carvalho, o Luiz (Gugu), comentou comigo que "Deus pode muito bem ter permitido o Concílio para mostrar um castigo aos (in)fiéis da Igreja"; pois que não se vê benefícios às almas até agora (pelo contrário). O que se vê é apenas euforia e uma prática de fé superficial.