12/05/2010

A Carta do Além

Impressionante relato de uma alma condenada ao Inferno
Imprimatur do original alemão;
Brief aus dem Jenseits: Treves, 9/11/1953. N. 4/53.
Aprovação Eclesiástica deste opúsculo:
Taubaté - S. Paulo - 2/11/1955.
Theol. Bernhardin Krempel, C.P.
À Guisa de Prefácio
Com os homens, Deus se comunica por muitos modos. Além de ser a própria Sagrada Escritura a Carta Magna de Deus aos homens, escrita e transmitida por homens autorizados, narra ela muitas comunicações divinas feitas por visões, inclusive sonhos. Deus continua a prevenir, ainda, por sonhos. É que sonhos não são sempre meros sonhos sem base.
A Carta do Além transcrita abaixo conta a história da condenação eterna de uma jovem. À primeira vista parece uma história bastante romanceada. Bem consideradas, porém, as circunstâncias, chega-se à conclusão de que ela não deixa de ter o seu fundo histórico, como base do seu sentido moral e do seu alcance transcendental.
A carta em apreço foi encontrada tal qual entre os papéis de uma freira falecida, amiga da jovem condenada. Relata a freira os acontecimentos da existência da companheira como fatos históricos sabidos e verificados, e sua sorte eterna comunicada em sonho. A Cúria diocesana de Treves (Alemanha) autorizou sua publicação como sumamente instrutiva.
A Carta do Além apareceu primeiramente em livro de revelações e profecias, juntamente com outras narrações. Foi o R. Pe. Bernhardin Krempel C. P., doutor em teologia, quem a publicou em separado e quem lhe emprestou mais autoridade, provando-lhe, nas Anotações, a absoluta concordância com a doutrina da Igreja Católica sobre o assunto.
No Apêndice seguem alguns esclarecimentos complementares sobre o Inferno. O primeiro ponto assinala dois trabalhos literários que por caminhos diferentes chegam à mesma conclusão que o Inferno deve existir e que de fato existe. Nos seguintes pontos expõe-se sumariamente quais são os que trilham o caminho do Inferno e quais os meios que temos à mão para nos salvar do maior perigo da vida, de cair no Inferno.
Informações preliminares
Entre os papéis deixados por uma jovem que morreu num convento como freira, foi encontrado o seguinte depoimento:
"Tinha eu uma amiga. Quer dizer, éramos mutuamente achegadas como companheiras e vizinhas de trabalho no mesmo escritório M.
Quando mais tarde Âni se casou, nunca mais a vi. Desde que nos conhecêramos, reinava entre nós, no fundo, mais amabilidade que amizade.
Por isso eu sentia dela pouca falta, quando, após seu casamento, ela foi morar no bairro elegante das vilas, bem longe do meu casebre.
Quando no outono de 1937 passei minhas férias no lago Garda, minha mãe escreveu-me, em meados de setembro: "Imagine, Âni N. morreu. Num desastre de automóvel perdeu a vida. Ontem foi enterrada no cemitério do Mato".
Essa notícia espantou-me. Sabia eu que Âni nunca fora propriamente religiosa. Estava ela preparada, quando Deus a chamou de repente?
Na outra manhã assisti na capela da casa do pensionato das irmãs, onde eu morava, à santa missa em sua intenção. Rezava fervorosamente por seu descanso eterno e nessa mesma intenção ofereci também a Santa Comunhão.
Mas o dia todo eu sentia certo mal estar, que foi aumentando mais ainda pela tarde.
Dormia inquieta. Acordei de repente, ouvindo como se sacudida a porta do quarto. Liguei a luz. O relógio, no criado mudo, marcava meia noite e dez minutos. Nada, porém, eu podia ver. Nenhum barulho havia na casa. Apenas as ondas do lago Garda batiam, quebrando-se monotonamente, no muro do jardim do pensionato. De vento, nada eu ouvia.
Tinha eu, todavia, a impressão de que ao acordar eu tivesse percebido, além das batidas na porta, um ruído como que de vento, parecido ao do meu chefe de escritório, quando mal humorado me atirava uma carta amolante sobre a escrivaninha.
Refleti um momento, se devia levantar-me.
Ah! Tudo não passa de cisma, disse-me resoluta. Não é senão produto de minha fantasia sobressaltada pela notícia da morte.
Virei-me, rezei alguns Pai-Nossos pelas almas, e adormeci de novo.
* * *
Sonhei então que me levantava de manhã às 6 horas, indo à capela da casa. Quando abri a porta do quarto, dei com o pé num maço de folhas de carta. Levantá-las, reconhecer a escrita de Âni e dar um grito, foi coisa de um segundo.
Tremendo, segurei as folhas nas mãos. Confesso que fiquei tão apavorada, que nem podia proferir o Pai-Nosso. Fiquei presa de uma quase sufocação. Nada melhor que fugir dali e ir-me para o ar livre. Arranjei malmente os cabelos, pus a carta na bolsa e saí à pressa de casa.
Fora, subi o caminho que seguiu tortuoso para cima, por entre oliveiras, loureiros e quintas de vilas, e para além da mundialmente célebre estrada "Gardesana".
A manhã despontava radiante. Nos outros dias eu parava a cada cem passos, encantada pela magnífica vista que me ofereciam o lago e a magnificamente bela ilha Garda. O suavíssimo azul da água refrescava-me; e como uma criança olha admirada para o avô, assim eu olhava sempre admirada de novo o cinzento monte Baldo que se ergue na margem oposta do lago, crescendo de 64 m acima do nível do mar até 2.200 m de altura.
Hoje eu não tinha olhos para tudo isso. Depois de caminhado um quarto de hora, deixei-me cair maquinalmente sobre um banco encostado em dois ciprestes, onde, no dia anterior, eu tinha lido prazerosamente "A donzela Teresa". Pela primeira vez eu via nos ciprestes símbolos da morte, coisa que neles nunca reparava no Sul, onde tão freqüentemente se encontram.
Peguei a carta. Faltava-lhe a assinatura. Sem a mínima dúvida era a escrita de Âni. Nem mesmo faltavam nela a grande "S"-voluta, nem o "T" francês, a que se havia acostumado no escritório para irritar o Sr. G.
O estilo não era o dela. Pelo menos não falava como de costume. Sabia ela tão amavelmente conversar e rir com seus olhos azuis e seu gracioso nariz.
Somente quando discutíamos assuntos religiosos é que ela se tornava mordaz e caía no rude tom da carta. (Eu própria entrei agora na excitada cadência da mesma).
Eis aí
A CARTA DO ALÉM DE ANI, V.,
Palavra por palavra, tal qual a li no sonho:
"Clara! Não rezes por mim. Sou condenada. Se te comunico isso e se a respeito de algumas circunstâncias da minha condenação te dou pormenorizadas informações, não creias que eu o faça por amizade. Aqui não amamos a ninguém mais. Faço-o, como "Parcela daquele Poder que sempre quer o Mal e sempre produz o Bem".
Em verdade, eu queria também ver-te aqui, onde eu para sempre vim parar. [S. Tomas de Aquino, Summa Theológica (S. Th.) Supplementum (Suppl.) q. 98, a. 4: "Os réprobos querem que todos os bons sejam condenados". ]
Não estranhes esta minha intenção. Aqui pensamos todos da mesma forma. A nossa vontade está petrificada no mal - no que vós chamais "mal". Mesmo quando fazemos algo de "bem", como eu agora, descerrando- te os olhos sobre o Inferno, não o fazemos com boa intenção.[S. Th. Suppl. q. 98, a. 1: "Neles o autodeterminado querer é sempre de todo perverso".]
Lembra-te ainda:
Fez 4 anos que nos conhecemos, em M. Tinhas 23 anos e já trabalhavas no escritório havia meio ano, quando lá entrei.
Tiravas-me bastante vezes de embaraços; davas-me a mim, principalmente, freqüentes bons avisos. Mas que é que se chama "bom"!
Eu louvava, então tua "caridade". Ridículo... Tuas ajudas provinham de pura ostentação, como, aliás, eu já suspeitava.
Nós aqui não reconhecemos bem algum em ninguém!
Conheceste minha mocidade. Cumpre preencher, aqui, certas lacunas.
* * *
Conforme o plano de meus pais, eu não devia nunca haver existido. Aconteceu-lhes um descuido, a desgraça da minha concepção.
Minhas duas irmãs já tinham 15 e 14 anos, quando eu vim à luz.
Oxalá nunca eu tivesse nascido! Oxalá pudesse eu agora aniquilar-me, fugir a esses tormentos! Não há volúpia comparável à de acabar minha existência, como se reduz a cinzas um vestido, sem mesmo deixar vestígios.[S. Th. Suppl. q. 98, a. 3, r. ib. ad 3: "Enquanto a inexistência liberta de uma vida de terríveis castigos, seria ela para os condenados um bem maior do que sua miserável existência... Assim desejam a não existência."] Mas é preciso que eu exista; é preciso que eu seja tal como eu me tenho feito: com a falha total da finalidade da minha existência.
Quando meus pais, ainda solteiros, mudaram-se da roça para a cidade, perderam o contato com a Igreja.
Assim era melhor.
Mantinham relações com pessoas desligadas da religião. Conheceram-se num aile e viram-se "obrigados" a casar meio ano depois.
No ato do casamento pegaram neles só algumas gotas de água benta, suficientes apenas para atrair mamãe à missa domingueira raríssimas vezes por ano.
Nunca ela me ensinava a rezar direito. Esgotava-se nos cuidados de cada dia, ainda que a nossa situação não fosse ruim.
Semelhantes palavras como rezar, missa, água benta, igreja, só escrevo com íntima repugnância, com incomparável nojo. Detesto profundamente os freqüentadores de igreja, assim como todos os homens e coisas em geral.
Tudo se nos torna tormento. Cada conhecimento recebido ao falecer, cada lembrança da vida e do que sabemos, se transforma numa flama incandescente. [S. Th. Suppl. q. 98, a. 7, r.: "Nada há nos réprobos, que não lhes seja matéria e causa de tristeza... Assim dirigindo sua atenção sobre coisas conhecidas". ]
E todas essas lembranças nos mostram aquele medonho lado que fora uma graça que desprezamos. Como isso atormenta! Não comemos, não dormimos, nem andamos com as pernas. Espiritualmente acorrentados, nós réprobos, fitamos estarrecidos a nossa vida falhada, uivando e rangendo os dentes, atormentados e cheios de ódio.
Ouves tu? Bebemos aqui ódio como água. Odiamo-nos mutuamente.[ S. Th. Suppl. q. 98, a. 4, r.: "Nos réprobos domina um ódio total".]
Mais do que tudo, odiamos a Deus. Procuro tornar-te isso compreensível.
Os bem-aventurados no Céu devem amá-Lo. Porque O vêem desveladamente em Sua arrebatadora beleza. Isso torna-os indescritivelmente felizes. Sabemos isso e é esse conhecimento que nos torna furiosos.[S. Th. Suppl. q. 98, a. 9, r.: "Ante o dia do juízo universal sabem os réprobos que os bem aventurados se encontram numa inefável glória."]
Os homens, na terra, que conhecem Deus pela criação e revelação podem amá-Lo; não são forçados a fazê-lo.
O crente - furiosa eu te digo aqui - que contempla, meditando, cristo estendido na cruz, O amará.
Mas a alma de quem Deus se acerca, fulminante, como vingador e justiceiro, como Quem foi repelido, essa O odeia, como nós O odiamos.[S. Th. Suppl. q. 98, a. 8, ad 1, ib. ad 5, r.: "Os réprobos só enxergam em Deus o castigador e impedidor (do mal, que desejam ainda fazer). Mas como só O enxergam no castigo, efeito da sua justiça, odeiam-nO".] Odeia-O com toda a força de sua má vontade. Odeia-O eternamente. Em virtude da deliberada resolução de ficar afastada de Deus, com que terminou a vida terrena. E essa perversa vontade, não podemos revogá-la mais, nem jamais quereremos revogá-la.
Compreendes tu agora por que o Inferno há de ser eterno? Porque a nossa obstinação nunca derrete, nunca termina.
Forçada acrescento que Deus é propriamente ainda misericordioso para conosco. Disse "forçada". A razão é esta: ainda que voluntariamente escreva esta carta, não me é possível mentir, como eu bem queria. Assento no papel muitas informações contrariamente à minha vontade. Também a corrente de injúrias que queria despejar, tenho de reengolí-la.
Deus era misericordioso para conosco pelo que não deixou a nossa vontade produzir e efetivar na Terra todo o mal que desejávamos fazer. Se Ele nos tivesse deixado a esmo, teríamos aumentado muito a nossa culpa e castigo. Deixou-nos morrer prematuramente - como a mim - ou introduziu circunstâncias atenuantes.
Agora Ele se nos torna misericordioso por que não nos obriga a nos aproximar Dele, porém a ficarmos neste lugar distante do Inferno, diminuindo-nos o tormento.[S. Th. I, q. 21, a. ad. 1.: "Na condenação dos réprobos aparece a misericórdia de Deus... , no que os castiga menos do que merecem". - Em outro lugar nota o santo doutor da Igreja, que isso é o caso sobretudo com os que neste Mundo eram misericordiosos para com os outros (S. Th. Suppl. q. 99, a. 5, ad 1.)]
Cada passo mais perto de Deus dar-me-ia maior sofrimento do que a ti um passo mais perto de uma fogueira.
Ficaste espantada um dia quando te contei, em passeio, o que meu pai me dissera alguns dias antes da minha primeira comunhão: "Cuida, Anita, que ganhes bonito vestido; o mais não passa de burla".
Quase me teria mesmo envergonhado do teu espanto. Agora rio-me disso. O mais bem feito, em toda essa burla, era permitir-se a comunhão apenas aos 12 anos. Eu já estava, então, assaz possuída do prazer do mundo, que postergava facilmente tudo quanto era religião, e não levei a comunhão a sério.
O novo costume de deixar as crianças receberem a comunhão aos 7 anos põe-nos furiosos. Envidamos todos os meios para burlar isso, fazendo crer que para comungar cumpre haver compreensão. É preciso que as crianças já tenham cometido antes alguns pecados mortais. O "branco" Deus será menos prejudicial, então, do que recebido quando a fé, a esperança e o amor, frutos do batismo - escarro sobre tudo isso - ainda estão vivos no coração da criança.
Lembras-te que já sustentei esse mesmo ponto de vista na Terra?
Torno a meu pai. Ele brigava muito com minha mãe. Raras vezes te frisei isso: tinha vergonha. Ah! que é vergonha? Coisa ridícula! A nós tudo nos é indiferente.
Meus pais não dormiam mais no mesmo quarto.. Eu dormia com minha mãe, papai no quarto ao nosso lado, aonde podia voltar a qualquer hora da noite. Ele bebia muito e gastou a nossa fortuna. Minhas irmãs estavam empregadas e precisavam do seu próprio dinheiro, como diziam. Mamãe começou a trabalhar. No último ano de sua amargurada vida, papai batia em mamãe muitas vezes, quando não lhe queria dar dinheiro. Para mim ele era sempre bonzinho. Um dia, contei-te isso e ficastes escandalizada sobre o meu capricho - e de que não te escandalizastes em mim? - um dia, pois, devolveu duas vezes sapatos novos, porque a forma dos saltos não me era bastante moderna.[Os assinalados traços sobre o pai de Âni e as ocorrências subsequentes são fatos.]
Na noite em que uma apoplexia vitimou meu pai mortalmente, aconteceu algo que nunca te confiei, por temer desagradável interpretação de tua parte. Hoje, porém, deves sabê0lo. Esse fato é memorável, porque foi pela primeira vez que o meu atual espírito carrasco se acercou de mim.
Eu dormia no quarto de minha mãe. Suas respirações regulares denotavam seu profundo sono.
De repente ouvi chamar meu nome. Uma voz desconhecida murmurou: "Que acontecerá, se teu pai morrer?"
Eu não amava mais meu pai, desde que ele começara a maltratar minha mãe. Já não amava propriamente ninguém: só me prendia a alguns que eram bons para mim. - Amor sem intuito natural existe quase só nas almas que vivem em estado de graça. Nele eu não vivia.
Respondia assim ao misterioso interlocutor: "Com certeza ele não morre".
Após breve intervalo, ouvi a mesma bem compreendida pergunta sem me incomodar de saber, de onde provinha.
"Qual o que! Ele não está morrendo" escapou-me casmurra.
Pela terceira vez fui interrogada: "Que acontecerá se teu pai morrer?"
De relance me surgiu no espírito como meu pai freqüentes vezes voltava para casa meio bêbado, ralhando e brigando com mamãe e quanto ele nos envergonhava perante os vizinhos e conhecidos!
Gritei, então embirrada: "Pois não, é quanto merece! Que morra!"
Depois, ficou tudo quedo.
Na manhã seguinte, quando mamãe foi para arrumar o quarto de papai, encontrou a porta fechada. Ao meio dia abriram-na à força. Papai encontrava-se meio vestido em cima da cama - morto, um cadáver. Ao procurar cerveja na adega, deve se ter resfriado. Desde muito, estava adoentado. - (Será que Deus fez depender da vontade de uma criança, a quem o homem demonstrava bondade, o conceder-lhe mais tempo e ocasião para se converter?)
* * *
Marta K. e tu me fizestes ingressar na associação das moças. Nunca te escondi que achava as instruções das duas diretoras, duas senhoras X., assaz vigaristas. Achava os jogos bastante divertidos. Conforme sabes, cheguei, em breve, a sustentar nele papel preponderante. Isso era o que me lisonjeava. Também as excursões me agradavam. Deixei-me até levar algumas vezes a confessar-me e comungar. Propriamente não tinha nada para confessar. Pensamentos e sentimentos comigo não entravam em conta. Para coisas piores eu não estava madura ainda.
Admoestaste- me um dia: "Âni, se não rezares mais, perder-te-ás" . Eu rezava realmente muito pouco; e também só contrariada, de má vontade.
Tinhas tu, sem dúvida, razão. Todos os que no Inferno ardem, não rezaram, ou não rezaram bastante. A oração é o primeiro passo para Deus. Sempre decisivo. Mormente a oração para aquela que é a mãe do Cristo, cujo nome não nos é lícito pronunciar. A devoção a Ela arranca ao demônio inúmeras almas, que os pecados lhe teriam infalivelmente atirado às mãos.
Furiosa, continuo - por ser forçada: rezar é o mais fácil que se pode fazer na Terra. Justamente a essa facilidade Deus ligou a salvação.
A quem reza coma assiduidade, Deus dá, paulatinamente, tanta luz e fortalece-o tanto que o mais afogado bode de pecador se pode definitivamente levantar pela oração, ainda que esteja submerso na lama até ao pescoço.
Nos últimos anos da vida eu deveras não rezava mais e assim me privava das graças, sem as quais ninguém se pode salvar.
Aqui não recebemos mais graça alguma. Mesmo que a recebêssemos, com escárnio a rejeitaríamos. Todas as vacilações da existência terrestre acabaram no além.
* * *
Na vida terrena pode o homem passar do estado de pecado para o estado de graça. Da graça pode cair no pecado. Freqüentes vezes caí por fraqueza; raramente por maldade. Com a morte, terminou essa inconstância do sim e do não, caindo e levantando-se. Pela morte, cada um entra no estado final, fixo e inalterável.
À medida que avança a idade, tornam-se menores os saltos. É verdade que, até à morte, a gente se pode converter a Deus ou virar-Lhe as costas. No morrer se decide o homem, entretanto, com as últimas tremuras da vontade, maquinalmente, tal como se acostumara na vida.
Bom ou mau hábito tornou-se uma segunda natureza. Esta o arrasta no derradeiro momento. Assim também arrastou à mim. Anos inteiros eu vivera afastada de Deus. Consequentemente, decidi-me no último chamamento da graça, contra Deus. Não que o haver pecado muitas vezes me fosse uma fatalidade, mas porque eu não me queria mais levantar.
Repetidas vezes me admoestaste a assistir à pregação e a ler livros devotos. Eu escusava-me regularmente com a falta de tempo. Havia eu de aumentar ainda mais a minha incerteza íntima?
Cumpre-me, aliás, afirmar: Quando cheguei a esse ponto crítico, pouco antes da minha saída da associação das moças, ter-me-ia sido muito difícil enveredar por outro caminho. Sentia-me insegura e infeliz. Diante da minha conversão, levantou-se um paredão.. Deves tê-lo desapercebido. Tu o tinhas imaginado tão fácil, quando uma vez me disseste: "Faça, pois, uma boa confissão, Âni, e tudo ficará bem".
Eu suspeitava que assim fosse. Mas o mundo, o demônio e a carne já me seguravam nas suas garras.
Na atuação do demônio eu não acreditava nunca. Agora atesto que, a pessoas como eu então era, o demônio influencia poderosamente. [A influência dos maus espíritos encerra-se nos apelidos "demônio" ou "diabo". Como comprovação da sua existência, bastam dois textos da S. Escritura: "Irmãos, sede sóbrios e vigiai! Vosso inimigo, o demônio, anda por aí como um leão rugindo e procurando a quem puder devorar". (1 Petr. 5, 8). O rugir nãos e refere ao que satanás faz muito alarme com as suas tentações, porém à avidez com que ele nos procura perder. - S. Paulo escreve aos Efésios (*, 12): "Ponde a armadura de Deus, para que possais resistir às astúcias do demônio. Nossa luta não é contra carne e sangue (homens), porém contra os poderes dos tenebrosos dominadores deste Mundo e contra os maus espíritos dos ares."]
Só muitas orações alheias e as minhas próprias, juntamente com sacrifícios e sofrimentos, teriam conseguido arrancar-me dele.
E isso deveras só paulatinamente. Poucos possessos. O demônio não pode tirar o livre arbítrio àqueles que se entregam à sua influência. Contudo, como castigo de sua apostasia quase total de Deus, Este permite que o "Mau" neles se aninhe.
Odeio também o demônio. Todavia gosto dele, porque ele procura perder-vos: ele e seus auxiliares, os anjos caídos com ele desde os princípios do tempo. Há miríades. Vagueiam pela terra inúmeros como enxames de moscas, sem que sejam suspeitados. [S. Th. Suppl. q. 98, a. 6, ad 2: "Não é tarefa dos homens condenados, perderem e tentarem outros, porém dos demônios."]
A nós, homens réprobos, não nos incumbem de vos tentar; isso cabe aos espíritos caídos.
Aumentam, sim, ainda mais os seus tormentos toda vez que arrastam uma alma humana ao Inferno. Mas de que não é capaz o ódio![S. Th, q. 98, a. 4, ad 3: "O crescente número dos réprobos aumenta ainda os sofrimentos de todos. Mas são de tal modo cheios de ódio e inveja, que antes querem sofrer mais com muitos, do que menos sozinhos.."]
Ainda que eu andasse por veredas tortuosas, Deus me procurava. Eu preparava o caminho à graça, por serviços de caridade natural, que por inclinação de minha índole, não raras vezes prestava.
Às vezes atraía-me Deus para uma Igreja. Lá eu sentia certa nostalgia. Quando cuidava da minha mãe doente, apesar do meu trabalho no escritório durante o dia, e sacrificava- me realmente um tanto, atuavam sobre mim poderosamente essas atrações de Deus.
Uma vez - foi na capela do hospital, aonde me levaste no tempo livre de meio dia - fiquei tão impressionada, que me encontrei a um passo apenas da minha conversão. Eu chorava.
Em seguida, porém, vinha o prazer do mundo derramar-se, como uma torrente, por sobre a graça. Os espinhos aforaram o trigo. Com a explicação de que religião é sentimentalismo conforme sempre se dizia no escritório, lancei também essa graça, como outras, debaixo da mesa.
Repreendestes- me um dia que, em vez de genuflexão, fiz numa igreja uma ligeira inclinação da cabeça. Tomastes isso como preguiça e não parecias suspeitar de que, já então, não acreditava mais na presença de Cristo no Sacramento. Agora creio nela, porém só naturalmente, como se acredita em tempestade, cujos sinais e efeitos se percebem.
Nesse ínterim, havia-me arranjado, eu própria, uma religião. Agradou-me a opinião generalizada no escritório, de que, após a morte, a alma voltaria para este Mundo em outro ser e passaria por outros e mais outros seres, numa sucessão sem fim.
Com isso liquidei o angustiante problema do além e imaginava tê-lo tornado inofensivo.
Por que não me lembraste a parábola do gozador rico e do pobre Lázaro, em que o narrador, Cristo, imediatamente após a morte, mandou um para o Inferno, o outro para o Paraíso? Mas o que terias conseguido? Nada mais do que com tuas demais palavras beatas.
Aos poucos eu própria arranjei um deus: bem privilegiado para se chamar deus; a mim bastante longe para não me obrigar a relações com ele; assas confuso, para se transformar, à vontade e sem mudar de religião, num deus panteístico ou até tornar-me orgulhosa deísta.
Esse "deus" não tinha um céu para me galhardear nem inferno para ame amedrontar-me. Deixei-o em paz. Nisso consistia a minha adoração a ele.
No que se ama, acredita-se facilmente. No curso dos anos tinha-me eu assaz persuadido da minha religião. Vivia-se bem com ela, sem que ela me incomodasse.
Só uma coisa lhe teria quebrado a nuca: uma dor profunda, prolongada. Mas este sofrimento não veio. Compreende agora: "A quem Deus ama, Ele castiga!"
Era um dia de estio, em julho, quando a associação das moças organizava uma excursão para A. Gostava eu sim das excursões. Mas não das beatarias anexas!
Outra imagem, diferente da de Nossa Senhora das Graças de A., estava, desde pouco, no altar do meu coração. O grã-fino Max N. do armazém ao lado. Pouco antes conversáramos divertidamente algumas vezes. Convidara-me, nessa ocasião, para fazermos uma excursão naquele mesmo domingo. A outra com que costumava andar, estava no hospital.
Reparara, sim, que eu tinha deitado um olhar sobre ele. Mas eu não pensava ainda em casar-me com ele. Era afortunado, porém amável demais para com muitas e quaisquer mocinhas; até então eu queria um homem que me pertencesse exclusivamente, como única mulher.. Certa distância sempre me era própria. [Isso era verdade. Com toda a sua indiferença religiosa Âni tinha algo de nobre em seu ser. Espanto-me de que também pessoas "honestas" possam cair no Inferno, se são assaz desonestas para fugirem do encontro com Deus]
Nessa excursão, Max cumulou-me de todas as amabilidades. Conversações de beatas é que não tivemos, como vocês.
No outro dia, no escritório, repreendestes- me porque não vos acompanhei até A. Contei-te os meus divertimentos domingueiros.
Tua primeira pergunta era: "Estivestes na missa?" Louca! Como podia assistir à missa, desde que combinamos a saída para 6 horas! Lembras-te, ainda, que juntei excitada: "O bom deus não é tão mesquinho como os vossos padrecos?" Agora, cumpre-me confessar-te que, apesar de sua infinita bondade, Deus toma tudo mais a sério do que os padres.
Após esse primeiro passeio com Max, assisti mais uma só vez à vossa reunião. Na solenidade de Natal. Certas coisas me atraíam. Mas interiormente, já estava apartada de vocês.
Cinemas, bailes, excursões, seguiam-se. Brigávamos às vezes, Max e eu, mas eu sabia prendê-lo sempre a mim.
Mui desagradável me foi a rival que, de volta do hospital, se comportava furiosamente. Propriamente a meu favor. Minha calma distinta causou grande impressão a Max e obrigou-lhe, afinal, a decisão de me preferir.
Eu sabia denegri-la, rebaixá-la. Falando com calma: por fora, realidades objetivas; por dentro, atirando peçonha. Semelhante sentimentos e insinuações conduzem rapidamente ao Inferno. São diabólicos, no verdadeiro sentido da palavra.
Por que te conto isso? Para constar como fiquei definitivamente livre de Deus.
Para esse afastamento não foi preciso que eu chegasse com Max muitas vezes às últimas familiaridades. Compreendi que me rebaixaria aos seus olhos, se me deixasse esvaziar antes do tempo. Por isso me retinha, vedava.
Realmente estava eu sempre pronta para tudo que achava útil. Cumpria-me conquistar Max. Para isso nada achava caro de mais. Amamo-nos aos poucos, pois que ambos possuíamos valiosas qualidades que podíamos apreciar mutuamente. Fui talentosa e tornei-me hábil e conversadora. Cheguei, assim, a prender Max nas mãos, segura de que o possuía sozinha, pelo menos nos últimos meses antes do casamento.
Nisso consistia minha apostasia de Deus, em fazer de uma criatura o meu deus. Em coisa alguma pode isso realizar-se tão plenamente como entre pessoas de diferentes sexo, se o amor se afoga na matéria. Isso torna-se seu encanto, seu aguilhão e seu veneno. A "adoração" que eu me prestava em Max, tornou-se-me uma religião vivida..
* * *
Era no tempo quando, no escritório, tão virulentamente eu caia em cima das corridas à igreja, dos padrecos, do murmurejar de rosário e das demais bugigangas.
Emprenhastes- te, mais ou menos inteligentemente, em proteger tudo isso; aparentemente sem suspeitares de que para mim, em última análise, não se tratava dessas coisas, mas propriamente de ponto de apoio contra minha consciência que eu estava procurando - dele eu precisava ainda - para justificar racionalmente a minha apostasia.
No fundo eu vivia revoltada contra Deus. Tu não percebias isso. Sempre me consideravas ainda católica. Como tal, queria eu também ser chamada; até mesmo pagava a contribuição para a igreja. Certa "ressalva" não me podia fazer mal, pensava eu.
Por mais certas que às vezes fossem tuas respostas, de mim ressaltavam, porque tu não devias ter razão. Em face dessas nossas relações entrecortadas a dor da nossa separação era pequena, quando meu casamento nos distanciou.
Antes do meu casamento, confessei-me e comunguei mais essa vez. Era uma formalidade. Meu homem pensava como eu. De resto, por que não haveríamos de satisfazê-la? Cumprimo-la como qualquer outra formalidade.
Vós o chamais "indigno". Após aquela "indigna" comunhão eu tinha mais sossego de consciência. Era essa a última.
Nossa vida matrimonial decorria, em geral, em boa harmonia. Em quase todos os pontos tínhamos a mesma opinião. Também nisso: não nos queríamos impor o encargo de filhos. No fundo, meu marido desejava ter um - naturalmente não mais. Eu soube arrancar-lhe, finalmente, essa idéia. Eu gostava mais de vestidos e mobílias finas, de tertúlias de chá, de passeios de automóvel e de semelhantes divertimentos.
Era um ano de prazeres terrenos entre o casamento e minha repentina morte.
Cada domingo passeávamos de automóvel ou visitávamos parentes de meu esposo. (De minha mãe eu me envergonhava então). Esses nadavam bem como nós, na superfície da existência.
Interiormente, porém, nunca me sentia deveras feliz. Algo roía-me sempre na alma. Eu desejava que pela morte, a qual sem dúvida havia de demorar muito tempo ainda, tudo acabasse.
Mas é como em criança eu ouvira uma vez falar, em sermão, que deus recompensa já neste Mundo o bem que alguém pratica. Se não pode recompensá-lo no outro mundo, fá-lo na Terra.
Sem o esperar, recebi uma herança (da tia Lote). Meu marido teve a sorte de ver o seu salário consideravelmente aumentado. Assim pude instalar mimosamente a nossa casa nova.
* * *
Minha religião estava às últimas, como um vislumbre do ocaso no firmamento longínquo. Os bares e cafés da cidade e os restaurantes por onde passávamos nas viagens, não nos aproximaram de Deus.
Todos os que lá freqüentavam, vivam como nós: de fora para dentro, não de dentro para fora.
Visitando uma célebre catedral, nas viagens de férias, procurávamos deleitar-nos com o valor artístico das obras primas. O sopro religioso que irradiavam, mormente as da Idade Média, eu sabia neutralizá-lo, escandalizando- me em qualquer circunstâncias da visita. Assim, a um irmão leigo que nos conduzia, eu criticava o estar um tanto sujo e desajeitado; criticava o comércio de piedosos monges que fabricavam e vendiam licor; criticava as eternas badaladas dos sinos chamando para igrejas, onde se trata apenas de dinheiro.
Assim eu conseguia afastar de mim a graça, cada vez que me batia à porta.
Mormente deixava meu mau humor derramar-se livremente sobre tudo que tratava de antigas representações do Inferno em livros, cemitérios e outros lugares, onde se viam os demônios fritarem as almas em fogo vermelho ou amarelo, e seus sócios, de cauda comprida, trazerem-lhes mais e mais vítimas.
Clara, o Inferno pode ser mal desenhado, porém nunca ser exagerado.
Sobretudo escarnecia eu sempre da foto do Inferno. Lembras-te como numa conversa sobre isso eu te meti um fósforo aceso debaixo do nariz burlando: "É assim que cheira!"
Tu apagaste tão logo a chama. Aqui ninguém a extingue. Digo-te mais: o fogo de que fala a Bíblia, não significa tormento de consciência. Fogo significa fogo. Cumpre entendê-lo em sentido real, quando Aquele declarou: "Afastai-vos de mim, vós, malditos, ide para o fogo eterno". Literalmente!
Como pode o espírito ser tocado pelo fogo material? Perguntas.
Como então pode, na Terra, tua alma sofrer, segurando teu dedo na chama?
Tua alma também não se queima, mas que dor tem de aturar o homem todo!
Semelhantemente estamos nós aqui presos ao fogo em nosso ser em nossas faculdades. Nossa alma fica privada do seu vôo natural; não podemos pensar nem querer o que queremos.[S. Th. Suppl. q. 70, a. 3, r.: "O fogo do Inferno atormenta o espírito pelo que o impede de executar o que quer; não pode atuar onde quer e quanto quer."]
Não procures esclarecer o mistério contrário às leis da natureza material: o fogo do Inferno queima sem consumir.
O nosso maior tormento consiste em que sabemos exatamente que nunca veremos Deus.
Quanto pode torturar o que na terra nos era indiferente! Enquanto a faca está em cima da mesa, deixa-te fria. Vês-lhe o fio, porém não o sentes. Mas entra a faca na carne e gritarás de dor.
Agora sentimos a perda de Deus; antes só a vimos.["A separação de Deus é um tormento tão grande como Deus" (Frase atribuída a S. Agostinho. Cf. Houdry, Biblioteca concionatorum - Veneza, 1786, vol. 2, sob Infernus, § 4, p. 427)]
Todas as almas não sofrem igualmente. Quanto mais frívolo, maldoso e decidido alguém foi no pecar, tanto mais lhe pesa a perda de Deus, e tanto mais torturado se sente pela criatura abusada.
Os católicos condenados sofrem mais do que os de outra crença, porque receberam e desaproveitaram, em geral, mais luzes e mais graças.
Quem sabia mais, sofre mais do que aquele que menos conhecimentos tinha.
Quem pecou por maldade sofre mais do que aquele que caiu por fraqueza.
Mas nenhum sofre mais do que mereceu. Oxalá isso não fosse verdade, para que eu tivesse motivo para odiar!
Tu me disseste um dia: ninguém cai no Inferno sem que o saiba. Foi isso revelado a uma santa. Ria eu disso, no entanto me entrincheirava atrás desta reflexão: nesse caso me ficaria suficiente tempo para me converter - assim eu pensava no íntimo.
O enunciado calha. Antes do meu fim repentino, de certo não conhecia o Inferno tal qual é. Nenhum ente humano o conhece. Mas eu estava exatamente inteirada disso: Se tu morreres, entrarás na eternidade como revoltada contra Deus. Suportarás as conseqüências. .
Conforme declarei já, não voltei atrás, mas perseverei na mesma direção, arrastada pelo costume, com que os homens agem tanto mais calculada e regularmente, quanto mais velhos ficam.
* * *
Minha morte ocorreu do seguinte modo:
Há uma semana - falo de acordo com a vossa contagem, porque calculada pelas dores, eu poderia já estar ardendo no Inferno havia dez anos - faz pois uma semana que meu marido e eu fizemos, num domingo, uma excursão, que foi a última para mim.
Radiante despontara o dia. Eu sentia-me bem, como raras vezes. Perpassou-me, porém, um sinistro pressentimento. .
Inesperadamente, na viagem de volta, meu marido que vinha guiando o carro, e eu ficamos ofuscados pela luz de um automóvel que vinha em sentido contrário e com grande velocidade. Meu marido perdeu a direção.
Jesus! Estremeci. Não como oração, mas como grito. Sentia uma dor esmagadora por compressão - uma bagatela em comparação com o tormento atual. Perdi então os sentidos.
Estranho! Naquele manhã mesma, nascera-me inexplicavelmente a idéia: poderias, enfim, mais uma vez ir à missa. Soava-me como súplica. Claro e decidido cortou meu "Não" o fio da idéia.. Com isso devo acabar definitivamente. Tomo sobre mim todas as conseqüências. Agora as suporto.
* * *
O que aconteceu após a minha morte, tu conheces. A sorte de meu marido, de minha mãe, do meu cadáver e enterro, tudo te é conhecido até nos pormenores, como sei por uma intuição natural que todos nós temos.
Do mais que acontece no Mundo, só temos um conhecimento confuso. Mas o que nos tocava de perto conhecemos. Assim conheço também teu paradeiro.[" As almas de falecidos não têm seguro conhecimento de pormenores, porém apenas um enuviado conhecimento geral da natureza material". (S. Th. Suppl. q. 98, a. 3).]
* * *
Acordei das trevas no momento da minha morte.. Vi-me de repente envolvida de luz ofuscante. Era no mesmo lugar onde estava o meu cadáver. Aconteceu como em teatro, quando de repente apagam as luzes, a cortina é ruidosamente removida e aparece a cena tragicamente iluminada: a cena de minha vida.
Como num espelho, assim eu vi minha alma. Vi as graças pisadas aos pés, desde a juventude até o último "Não" dado a Deus.
Apossou-se de mim a impressão como que de assassino levado ao tribunal à frente da sua vítima inanimada. - Arrepender-me? Nunca! [S. Th. Suppl. q. 98, a. 2, r.: "Os maus não se arrependem propriamente dos pecados, por lhes serem afeitos maliciosamente. Arrependem-se, porém enquanto são castigados pelas penas dos pecados".] - Envergonhar- me? Jamais!
Entretanto nem me era possível permanecer na vista de Deus, negado e reprovado por mim. Restava-me uma só coisa: a fuga.
Assim como Caim fugiu do cadáver de Abel, assim minha alma se atirou longe desse aspecto horrível.
Esse era o Juízo particular.
O invisível juiz falou: "Afasta-te!" Logo caiu minha alma, como uma sombra sulfúrica, no lugar do tormento eterno. ["É certo que o Inferno é um local determinado. Mas onde esse local fica situado, ninguém o sabe." A eternidade das penas do Inferno é um dogma: seguramente o mais terrível de todos. Tem suas raízes na S. Escritura. Cf. Mt. 25, 41 e 46; 2 Thess. 1, 9; Jud. 13; Apoc. 14, 11 e 20, 10; todos eles são textos irrefutáveis, em que "eterno" não se deixa trocar e interpretar por "longo". Se não fora conveniente ilustrar esse dogma num caso particular, nem o próprio Nosso Senhor teria pedido fazê-lo na parábola do rico folgazão e do pobre Lázaro. Lá fez o mesmo que aqui vem feito: desenhou o Inferno e como se pode cair nele. Não o fez por prazer sensacional, porém levado pela mesma intenção que ocasionou esta publicação. A finalidade deste folheto encontra sua expressão no seguinte conselho: "Desçamos ao Inferno ainda vivos, para que moribundos nele não caiamos". Este conselho dirigido a cada um não é senão a paráfrase do salmo 54: "Descendant in infernum viventes, videlicet, ne descendant morientes", a qual se encontra numa obra (erradamente) atribuída a S. bernardo (Patr. Lat. Migne, vol. 184, Col. 314 b]
* * *
Últimas informações de Clara
"Assim finalizou a carta de Âni sobre o Inferno. As últimas palavras eram quase ilegíveis, tão tortas estavam as letras. Quando eu acabara de ler a última palavra, a carta toda virou cinza.
Que é que lá ouço? Por entre os duros acentos das linhas que eu imaginava ter lido ressoou doce som de sino. Acordei de vez. Achei-me ainda deitada no meu quarto. A luz matinal da aurora penetrava nele. Da igreja paroquial vinham as badaladas das ave-marias.
Pois tudo era apenas um sonho?
Nunca eu sentira na Saudação Angélica, tanto consolo como após esse sonho. Pausadamente fui rezando as três ave-marias. Tornou-se-me então claro, claríssimo: ela cumpre segurar-te, à bendita Mãe do Senhor, venerar a Maria filialmente, se não quisesse ter a mesma sorte que te contou - ainda que em sonho - uma alma que jamais verá Deus.
Espantada e tremendo ainda pela visão noturna levantei-me, vesti-me depressa e fugi para a capela da casa.
O coração palpitava-me violenta e descompassadamente. Os hóspedes, ajoelhados mais perto de mim, olhavam-me preocupados. Talvez pensassem que, por haver eu corrido escada abaixo, estivesse tão excitada e vermelha.
Uma bondosa dama de Budapeste, grande sofredora, franzina como uma criança, míope, todavia fervorosa no serviço de Deus e de longo alcance espiritual, disse-me à tarde no jardim: "Senhorita, Nosso Senhor não quer ser servido no expresso".
Mas ela percebia então que outra coisa me havia excitado e ainda me preocupava. Ajuntou bondosamente: "Nada te deve angustiar - conheces o aviso de S. Teresa - nada te deve alarmar. Tudo passa.. Quem possui Deus, nada lhe falta. Só Deus basta."
Quando sussurrava isso mesmo, sem qualquer tom de mestra, parecia-me ler na minha alma.
"Deus só basta". Sim, Ele há de me bastar, neste e no outro mundo. Quero ali possuí-Lo um dia, por mais sacrifícios que aqui eu tenha ainda de fazer para vencer. Não quero cair no Inferno."

08/05/2010

Milagres e a Moderna Civilização

Gilbert Keith Chesterton

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Nota do tradutor: Este ensaio é um dos quatro que fazem parte da tremenda batalha travada entre Chesterton e Robert Blatchford, em 1903-04. Blatchford escrevera um livro intitulado Deus e Meu Próximo, que era um credo racionalista, ao estilo do século que acabara havia pouco tempo. Como editor do jornal Clarion, Blatchford generosamente abriu as páginas do jornal para os que dele discordavam, entre os quais, e principalmente, se incluía G.K. Chesterton. Os textos do grupo liderado por Chesterton veio a ser publicado num volume intitulado As Dúvidas da Democracia, mas os textos de Chesterton foram depois reunidos e publicados, pela Ignatius Press, sob o título Controvérsias com Blatchford. Há um delicioso trecho em Hereges em que Chesterton se refere à controvérsia dizendo: “... o Sr. Blatchford, que começou uma campanha contra o cristianismo e mesmo sendo advertido por muitos que isso arruinaria seu jornal, continuou por causa de um senso honorável de responsabilidade intelectual. Ele descobriu, contudo, que enquanto chocava indubitavelmente seus leitores, seu jornal muito prosperava. Passou a ser comprado – primeiramente, por todos que concordavam com ele e o queriam ler; depois, por todos que discordavam dele e queriam escrever-lhe cartas. Tais cartas eram volumosas (eu ajudei, fico feliz em dizer, a engordar o jornal) e eram geralmente publicadas quase sem cortes. A grande máxima do jornalismo foi assim acidentalmente descoberta (como aconteceu com a máquina a vapor): que se um editor conseguir enfurecer as pessoas suficientemente, elas escreverão, de graça, metade do jornal para ele.Outro dos ensaios da controvérsia já foi traduzido por este blog: Por que acredito no cristianismo.

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O Sr. Blatchford resumiu tudo o que lhe é importante em três frases. Elas são perfeitamente honestas e claras. Tampouco elas são menos honestas e claras por serem as duas primeiras falsas e a terceira uma falácia. Ele diz: “O cristão nega os milagres do muçulmano. O muçulmano nega os milagres do cristão. O racionalismo nega todos os milagres igualmente.”

Com o erro histórico das duas primeiras observações me ocuparei daqui a pouco. Concentro-me no momento na corajosa admissão do Sr. Blatchford de que o racionalista nega todos os milagres igualmente. Ele não os questiona. Ele não pretende ser agnóstico em relação a eles. Ele não suspende o juízo até que eles sejam postos á prova. Ele os nega. Frente a tal extraordinário dogma, perguntei ao Sr. Blatchford porque ele pensa não existirem milagres. Ele respondeu que o Universo é governado por leis. Obviamente, esta resposta é completamente inútil. Pois, não podemos considerar algo impossível porque o mundo seja governado por leis, a menos que conheçamos quais leis. Conhecerá o Sr. Blatchford todas as leis do Universo? E se ele não conhecer todas as leis, como será possível que ele conheça algo sobre as exceções?

Pois, obviamente, o mero fato de que uma coisa aconteça raramente, sob circunstâncias estranhas e que não haja nenhuma explicação que conheçamos, não é prova de que ela seja contra a lei natural. Isto se aplica aos gêmeos siameses, a um novo cometa, ou ao Radium três anos atrás.

O argumento filosófico contrário aos milagres pode ser facilmente considerado. Não há argumento filosófico contra milagres. Existem as leis da natureza, racionalmente falando. O que todo mundo conhece é o seguinte: há repetição na natureza. O que todo mundo sabe é que abóboras produzem abóboras. O que ninguém sabe é porque elas não produzem elefantes ou girafas.

Há uma e apenas uma questão filosófica sobre milagres. Muitos racionalistas modernos competentes não podem sequer admiti-la para si mesmos. O estudante mais pobre de Oxford na Idade Média teria entendido a questão. (Nota: como a última frase parecerá estranha em nossa época “iluminada”, posso explicar que sob “o reino cruel da superstição medieval” jovens pobres eram educados em Oxford. Graças a Deus, vivemos em melhores dias!) [1]

A questão sobre os milagres é esta: você sabe como uma abóbora se transforma numa abóbora? Se não, você não pode dizer se uma abóbora pode ou não se transformar numa carruagem. Isto é tudo.

Todas as outras expressões científicas que você está habituado a usar no café da manhã são palavras vazias. Você diz: “É uma lei da natureza que abóboras devam continuar sendo abóboras.” Isto apenas significa que abóboras, em geral, continuam sendo abóboras, o que é óbvio; mas não se diz por quê. Você diz: “A experiência nega tal coisa.” Isto apenas significa: “Tenho conhecido intimamente muitas abóboras e nenhuma delas se transformou em carruagem.”

Há um grande racionalista irlandês dessa escola (possivelmente relacionado ao Sr. Lecky) que quando soube que uma testemunha o vira cometer um assassinato, disse que poderia apresentar uma centena de testemunhas que não o viram cometê-lo.

Você diz: “O mundo moderno é contra isso.” Isto significa que uma turba em Londres, Birmingham e Chicago, num estado mental completamente “aboborado”, não pode fazer milagre por meio da fé.

Você diz: “A ciência é contra isso.” Isto significa que contanto que abóboras sejam abóboras, a conduta delas será “aboborada”, e não mantém nenhuma semelhança com uma carruagem. Isto é extremamente óbvio.

O que o cristianismo diz é apenas isto: que essa repetição na Natureza tem sua origem não numa coisa que lembra uma lei, mas numa coisa que lembra uma vontade. A expressão Pai Celeste do cristianismo é derivada de um pai terrestre. De maneira absolutamente idêntica, a expressão “lei universal” é uma metáfora de uma lei do Parlamento. Mas o cristianismo afirma que o mundo e sua repetição surgem por vontade ou Amor, tal como as crianças são geradas por um pai, e, portanto, que outras coisas podem surgir pelo mesmo motivo. Em resumo, o cristianismo acredita que um Deus que pode fazer algo tão extraordinário quanto abóboras continuarem sendo abóboras, é, como o profeta Habbakuk, capable de tout. Se você não considera extraordinário que uma abóbora seja sempre uma abóbora, pense de novo. Você sequer chegou às portas da filosofia. Você sequer viu uma abóbora.

A questão histórica contra os milagres é muito simples. Ela consiste em considerar os milagres impossíveis, e então afirmar que apenas um idiota acredita em impossibilidades: então declarar que não há nenhuma clara evidência a favor dos fatos miraculosos. Todo o truque é feito por meio do uso alternado da objeção filosófica e da objeção histórica. Se dizemos que os milagres são teoricamente possíveis, eles dizem: “Sim, mas não há evidência deles.” Quando coletamos todos os registros da raça humana e dizemos “Eis nossa evidência”, eles dizem: “Mas esses povos eram supersticiosos, eles acreditavam em coisas impossíveis.”

A questão real é se nossa pequena civilização da Rua Oxford está seguramente certa e o resto do mundo está seguramente errado. O Sr. Blatchford pensa que o materialismo dos ocidentais do século XIX é uma de suas maiores descobertas. Eu o considero tão tedioso quanto seus casacos, tão sujo quanto suas ruas, tão feio quanto suas calças e tão estúpido quando seu sistema industrial.

O próprio Sr. Blatchford, contudo, resumiu sua fé patética na civilização moderna. Ele escreveu uma divertida descrição do quão difícil seria persuadir um juiz inglês, numa corte de justiça moderna, da verdade da Ressurreição. É claro que ele está absolutamente certo; seria impossível. Mas não parece ocorrer a ele que nós cristãos podemos não sentir tão extravagante reverência aos juízes ingleses como aquela que o próprio Sr. Blatchford sente.

As experiências do Fundador do cristianismo talvez nos tenham imprimido uma vaga dúvida sobre a infalibilidade das cortes de justiça. Sei muito bem que nada induziria um juiz inglês a acreditar que um homem ressurgira dos mortos. Mas também sei muito bem que há muito pouco tempo nada induziria um juiz inglês a acreditar que um socialista pudesse ser um bom homem. Um juiz recusaria acreditar em milagres espirituais. Mas isso não seria porque ele fosse juiz, mas porque, além de juiz, ele é um cavalheiro inglês, um racionalista moderno, e algo como um antigo idiota.

E o Sr. Blatchford está completamente errado em supor que os cristãos e os muçulmanos negam os milagres uns dos outros. Nenhuma religião que se pensa verdadeira se preocupa com os milagres de outra religião. Ela nega as doutrinas da religião; ela nega sua moral; mas nunca considera útil negar seus símbolos e milagres.

E por que não? Porque essas coisas sempre foram consideradas possíveis por alguns homens. Porque qualquer cigano pode ter poderes psíquicos. Porque a existência do mundo dos espíritos ou de estranhos poderes mentais faz parte do senso comum de toda a humanidade. Os fariseus não questionaram os milagres de Cristo; diziam que eles eram feitos pelo demônio. Os cristãos não questionavam os milagres de Maomé. Diziam que eles eram feitos pelo demônio. O mundo romano não negava a possibilidade de Cristo ser um Deus. Isso era muito “inteligente” para eles.

Na medida em que a Igreja (principalmente durante o corrupto e cético século XVIII) insistia em que os milagres fossem uma razão para a fé, seu erro é evidente; mas não é o que supõe o Sr. Blatchford. Não é que ele pedia aos homens que acreditassem em algo tão inacreditável; é que ele pedia aos homens que se convertessem por algo tão corriqueiro.

O que importa numa religião não é que ela faça milagres como qualquer esfarrapado conjurador indiano, mas que ela tenha a verdadeira filosofia do Universo. Os romanos estavam muito dispostos a aceitar que Cristo fosse um Deus. O que eles negavam é que Ele fosse o Deus – a mais alta verdade do cosmos. E este é o único aspecto que vale a pena discutir sobre o cristianismo.


[1] É verdadeiramente irônico Chesterton estar se referindo a Universidade de Oxford nestes termos, quando sabemos que Richard Dawkins é professor desta instituição. Ou seja, um professor de Oxford atualmente tem uma menor compreensão filosófica que um estudante medieval da mesma Oxford. Veja Dawkins e o Milagre de Fátima.

05/05/2010

Leitor insiste, e eu também

 

Vou resumir aqui dois longos comentários que recebi de Wendy, leitor que me perguntou a razão de eu ser católico.

Ele diz: “Nunca consegui ver algo sobrenatural enquanto freqüentei a Igreja Católica, algo que preenchesse meu coração.” Respondo: Wendy, tendo você sido católico, você não deveria tentar “ver” o sobrenatural. Eu não vejo o sobrenatural; minha vida não é constituída de aparições de anjos e santos. Eles estão certíssimos em não aparecer para mim; eu não mereço nenhuma atenção. Ela não é constituída de sensações maravilhosas, estados de contemplação fabulosos, visões do paraíso; sou um pobre pecador. Mas consigo perceber a mão de Nosso Senhor toda vez que penso que passei quase três décadas da minha vida longe da Igreja e Ele nunca desistiu de mim. Eu criei meus filhos longe da Igreja, não os batizei quando crianças, não casei na Igreja. Ora, assim que eu me re-converti, meus filhos se converteram, eu os batizei, eles receberam a Primeira Comunhão e minha esposa aceitou que casássemos na Igreja, depois de 25 anos de casados no civil. Isso não é o sobrenatural agindo na minha vida? Desde que me converti, criei um blog para tratar de assuntos católicos e ele não pára de crescer em acessos e em comentários de interessados. É claro que isso não acontece por meus próprios méritos, que inexistem, mas porque estou sendo abençoado por Nossa Senhora, que me inspira. Ora, isso não é o sobrenatural agindo em minha vida?

Wendy diz: “Você até se considera ‘obrigado’ a me responder essa questão parafraseando o versículo 15 [na Bíblia Católica] do terceiro capítulo da epístola de Pedro - seu hipotético ‘primeiro papa’. Falo hipotético porque não vejo nada na Bíblia que possa comprovar o papado de Pedro.” Esta sua frase contém duas coisas importantes para ser elucidadas. Primeiramente é preciso afirmar, pois que verdade histórica, que só existe a Bíblia católica. A Igreja, em primeiro lugar, compilou e reconheceu aquele conjunto de escritos judeus antigos como inspirado; daí o Velho Testamento. Depois a Igreja ESCREVEU o Novo Testamento. Assim, qualquer coisa que se apresente hoje como Bíblia que não seja a Bíblia da Igreja Católica, é documento fraudulento e herético. Em segundo lugar, você diz que São Pedro é um papa hipotético, porque VOCÊ não consegue encontrar provas do papado de Pedro. Desta forma, você usa seu desconhecimento como critério da verdade. Nosso Senhor fez de Pedro a pedra angular de sua Igreja em Mt XVI, 16-20. Logo depois da morte de Nosso Senhor, quando a notícia da Ressurreição chegou aos ouvidos dos apóstolos, Pedro e João foram correndo ao túmulo. João, bem mais moço, chegou primeiro, mas não entrou, esperando Pedro. Veja você que o discípulo muito amado não ousou tomar a primazia de Pedro (Jo 20, 3-8). Outra prova da ascendência de Pedro sobre todos os apóstolos, inclusive o grande São Paulo, está na descrição do Concílio de Jerusalém em At 15, 1-15. Só quando Pedro falou a situação se resolveu.

Wendy continua: “Com essa perspectiva de relacionamento com o Espírito Santo [por potência, presença e essência], onde você vê sinais do Reino dentro dos católicos que não respeitam a própria fé? É óbvio que existe, em qualquer sistema religioso, o que chamamos de joio. No entanto, em qualquer parte que investigarmos, veremos que esse joio na Igreja Católica é um tanto exagerado, não acha? Não sei se é por conta da quantidade de fiéis no mundo todo que fica difícil os líderes católicos estabelecerem uma pregação doutrinária mais sólida. Sem contar que a maioria dos católicos com quem converso, raramente lêem a Bíblia. A Bíblia deles geralmente está aberta na sala - cheia de poeira e aberta em um salmo famoso e interessante -, na estante. Mas eles parecem realmente alheios à boa nova e aos preceitos do Evangelho. São mais fiéis ao Papa do que ao Senhor.

Caro Wendy, na Igreja sempre existiu o joio, sempre existiram aqueles que não respeitam a Fé, sempre existiram católicos nominais, que não sabem e nem querem saber nada sobre a doutrina católica. Tendo você sido católico, você demonstra conhecer bem algumas de nossas mazelas. Mas o que isto tem a ver com a nossa Fé, senão mostrar que somos imperfeitos, que alguns se perdem pelo caminho, que alguns se deixam levar pelas aparências e pelos comportamentos dos outros para justificarem seu afastamento da Igreja? Se for este seu caso, caro Wendy, volte imediatamente para a única Igreja de Cristo. Nada justifica que abandonemos a barca de Pedro. Mas não volte para ter “satisfações”, não volte para “ver o sobrenatural”. Volte para carregar a cruz de Nosso Senhor, com a ajuda das graças abundantes que Nossa Senhora derrama sempre sobre nós. São essas graças que “preenchem nossos corações”.

03/05/2010

Leitor pergunta: Por que, Angueth, você é católico?

 

Um leitor amigo, Wendy, me pergunta e eu respondo.

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Angueth, não sei se você está aberto ao debate, mas gostaria que você me explicasse apenas essas duas coisas:

1. Por que você é católico? (Qual é a espiritualidade que se tem na Igreja Católica? Qual é a relação de um católico com o Espírito Santo? De que forma você é preenchido por satisfação naquele lugar?)

2. De onde vem essa sua crença de que o protestantismo é uma heresia?

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Caro Wendy,

Você pode começar a entender o que é ser católico pelo simples fato de eu estar obrigado a lhe responder. Nosso primeiro papa nos obriga a isso: “estejam sempre prontos a satisfazer a quem quer que lhes peça razões da esperança que os anima”(1 Ped 3,15)). Nenhum católico pode deixar de respeitar isto. Somos católicos primeiramente respeitando o Papa, quando este fala ex-cathedra; ele é o representante de Nosso Senhor na Terra. Somos católicos usando as potências de nossa alma: vontade e inteligência.

Mas usando alguém muito mais competente que eu, e alguém que você também admira, sugiro que você leia POR QUE SOU CATÓLICO, de Chesterton. Penso que isto responde sua pergunta: “Por que você é católico?” Subscrevo os motivos de Chesterton.

Não somos católicos para sermos preenchidos por satisfação. Aliás, Deus trata seus filhos preferidos com tudo menos satisfação; a começar pelo seu Filho Unigênito, que morreu na cruz por nós. Os primeiros papas (acho que os primeiros 30) foram todos martirizados. Vida de católico não é vida de satisfação. Procure no blog pela história de São Policarpo e você verá o que um católico pode esperar do mundo. Pedimos a Nosso Senhor para que Ele nos permita carregar Sua cruz; dentro de nossas possibilidades, com todas as nossas fraquezas. Quando Ele assim o permite, atingimos a santidade. Esta é a espiritualidade católica; nada mais, nada menos. Sofrer o que Nosso Senhor quer que soframos e agradecê-Lo por nos deixar participar de Sua imensa dor, dor que nos salvou. Admito que isto tem muito pouco glamour! Mas isso não significa que não sejamos alegres. Para se entender a alegria católica deve-se ler TRATADO DA ALEGRIA DA ALMA CRISTÃ, de Pe. Ambrósio de Lombez, Editora Pinus, 2010.

Você pergunta também: “Qual é a relação de um católico com o Espírito Santo?” Santo Tomás de Aquino ensina que as Pessoas Divinas habitam em nós de três maneiras diferentes: por potência (estamos sob o império da Santíssima Trindade); por presença (a Santíssima Trindade vê tudo o que se passa com todos, até os mais recônditos pensamentos); e por essência (opera em toda parte e em toda parte é plenitude do ser e a causa primeira de tudo quanto há de real nas criaturas); “Nele vivemos, nos movemos e somos”. Esta é a mais pura doutrina católica.

Para finalizar, eu não tenho uma crença de que o protestantismo é uma heresia do catolicismo, isto é fato histórico e vem da própria definição de heresia. Sugiro que você leia AS GRANDES HERESIAS, de Belloc, que traduzi para a Editora Permanência.

Obrigado pela visita e pelo comentário. Espero ter-lhe respondido a contento.

30/04/2010

Hereges, de Chesterton, será publicado em português, pela primeira vez

 

Acabo de assinar contrato com uma editora que publicará minha tradução de Hereges de Chesterton. Por força deste contrato, apaguei todos os posts referentes aos capítulos deste livro. Espero que os leitores do blog entendam a situação.

Brevemente estarei anunciando a publicação do livro. Há planejamento de lançamento do mesmo em várias capitais do Brasil. Rezem para que o projeto dê certo, pois a editora está interessada em publicar mais traduções de Chesterton.

Reflexões sobre a situação atual da Igreja

 

Estamos presenciando neste momento um ataque geral contra a Igreja, na pessoa do Papa Bento XVI. O mundo está revoltado com a Igreja por um motivo que não o faz revoltado com ninguém mais. Tudo gira em torno da pedofilia. É claro que soará como uma piada diante do mundo dizer que a Igreja praticamente acabou com a pedofilia ao longo dos séculos desde a antiguidade. A pedofilia era prática comum na antiguidade. Desde que os valores da Igreja tornaram-se hegemônicos, a pedofilia tendeu a desaparecer do mundo. Isso ocorreu também com vários males que, com o desaparecimento dos valores cristãos do coração dos homens nos últimos séculos, estão voltando à superfície como, por exemplo, a escravidão. Este simples fato histórico é, como disse, piada para o mundo, tal o estado de desespero em que ele se encontra.

Muitos católicos estão atônitos e consternados com os ataques que a Igreja anda sofrendo, como se ela não tivesse sofrido ataques em toda a sua existência; como se seu Criador não nos tivesse alertado para a perseguição que o mundo nos faria depois de Sua Ascensão, e durante todos os séculos. O que é realmente impressionante é que o mundo não nos tenha atacado tanto durante os últimos 40-50 anos, período no qual a Igreja, na pessoa dos seus mais altos representantes, teve a pretensão de fazer as pazes com o mundo. A frase que selou esta paz foi a do Papa Paulo VI, em seu discurso de encerramento do Concílio Vaticano II: “a religião do Deus que Se fez homem, encontrou-se com a religião do homem que se fez Deus”. É uma frase impressionante vinda da boca de um papa. É a frase-síntese de um período em que a Igreja não foi atacada pelo mundo.

Agora que temos um papa que não subscreve esta frase, que acha que a Igreja tem muito que ensinar ao mundo, o mundo está reagindo. A Igreja está no lugar certo e o mundo no lugar errado, como sempre. O mundo não está atacando a Igreja por causa da pedofilia, pois sem a Igreja o mundo voltará à pedofilia. O mundo está atacando a Igreja porque ele é seu inimigo, porque seu príncipe é satanás. Muitos perguntam: porque a mídia, que é tão rápida em atacar a Igreja nos casos de pedofilia, não ataca também os líderes religiosos de outras religiões, cristãs e não cristãs, pelo mesmo motivo, não ataca os espíritas, pelo mesmo motivo, não ataca os intelectuais e professores universitários, pelo mesmo motivo? Ora, é fácil entender por quê. É que não se trata da pedofilia, senão do ódio que se tem da Igreja. Não é um ódio ao cristianismo, esta expressão pastosa e quase sem sentido, que hoje em dia identifica uma pletora de denominações protestantes, cujo número ultrapassa 10.000; isto mesmo, dez mil. É um ódio à Igreja Católica Apostólica Romana. Esta Igreja agora, sob o reinado de Bento XVI, está condenando o mundo, pouco a pouco, cautelosamente, como é do estilo do papa; mas está condenando. E isso é inaceitável para o mundo.

Mas existe outro aspecto deste ataque, este mais sutil, mais difícil de perceber. Chesterton, na sua época, percebeu a sutileza. Tal sutileza consiste no seguinte. O mundo paradoxalmente não admite nenhuma falha nos membros da Igreja. O mundo parece se horrorizar quando algum padre faz algo de errado. Chesterton dizia que isso é a maior homenagem que o mundo presta à Igreja, pois com isso, ele mostra que considera a Igreja santa, uma instituição que não pode ser maculada por membros corruptos e apodrecidos. É a homenagem que o doente presta ao médico, mesmo reclamando do tratamento. Neste sentido, devemos agradecer ao mundo tal louvor. Devemos renovar as garantias que o tratamento continuará, até o final dos tempos. As garantias não são nossas, é claro, mas d’Ele que fundou a Igreja e que garante sua existência, com a de todos nós.

Assim, o ataque atual, como todos os outros ataques, tem essa dupla característica; uma motivação destruidora e um louvor. Desde que a Igreja não queira se voltar para o mundo para fazer as pazes com ele, como parece ter querido nas últimas décadas, o mundo a atacará por estes dois motivos. Enquanto a Igreja estiver sendo atacada pelo mundo, temos garantias de que ela está no lugar certo.

26/04/2010

Orlando Fedeli e eu

 

Notas do blog: 1) É inevitável, dada a situação das coisas, e depois do post Olavo de Carvalho e eu, que muitos leitores me perguntassem o que eu penso sobre o Prof. Orlando Fedeli. Isso porque parece que o mundo está atualmente dividido entre olavetes e orlandetes. Quando aparece algum ser estranho que consegue admirar os dois grandes brasileiros, que consegue ser grato a ambos, que consegue reconhecer o papel de ambos em sua própria vida, isto parece ser uma aberração. E, como todos sabem, as aberrações têm sempre que se explicar.

2)Há um depoimento sobre o Prof. Orlando de pessoa muito mais competente, Sidney Silveira, no ContraImpugnantes. Contudo, resolvi dar o meu modesto depoimento em resposta aos meus leitores.

Conheço pessoalmente o prof. Orlando há uns quatro anos. Encontro com ele, em suas visitas a Belo Horizonte, de duas a três vezes por ano. Assisto suas conferências, que muito aprecio.

Ironicamente, conheci o prof. Orlando por meio da famosa polêmica que ele manteve com Olavo de Carvalho lá pelos anos 1999-2000. Naquela época, já conhecia o prof. Olavo e, através dele, conheci o prof. Orlando. Assim, o prof. Olavo me apresentou o prof. Orlando.

De lá para cá, não há um dia que não consulte o site da Montfort. O prof. Orlando teve um papel muito grande na minha re-conversão. Ele sabe disso. Ele é um homem imprescindível, pois, é fonte seguríssima da Doutrina Católica. Nunca deixei de encontrar nele ou em sua página na Internet respostas para as minhas perguntas sobre a Igreja ou seus inimigos. Quando alguém me pede alguma coisa para ler sobre algum aspecto da doutrina da Igreja, não tenho dúvida em direcioná-lo para o site da Montfort. Meus filhos, em suas dúvidas, estão constantemente a consultá-lo.

Quem mora em São Paulo tem um raro privilégio, que é o de freqüentar os cursos que são dados pela Associação Montfort, que cobre uma ampla gama de assuntos católicos. Desde o Catecismo Romano, que é ministrado por sua esposa, até aulas de latim, passando por história da Igreja, arte sacra, etc. Sua esposa mantém um colégio católico de ensino fundamental e médio. Fazem isso tudo por amor à Igreja de Cristo.

O prof. Orlando é um homem incansável em sua obra em prol da Igreja e da conversão dos hereges e ateus. Em suas conferências, por todo o Brasil, se a audiência ou os organizadores não o instarem a parar nas horas do almoço e dos lanches, ele é capaz de falar por horas a fio, com a mesma verve, a mesma competência, o mesmo amor a Cristo. E ele já não tem nem idade, nem saúde para tanto. Faz isso por caridade.

Quase tudo que sei da doutrina da Igreja, comecei sabendo com o prof. Orlando. Quando me pedem para fazer alguma conferência sobre aspectos do catolicismo, minha primeira consulta sobre bibliografia é na Montfort. Se querem saber sobre cruzadas, inquisição, crise atual da Igreja, Concílio Vaticano II, espiritismo, sobre a devoção à Nossa Senhora, etc., a Montfort é um bom começo.

Uma das coisas que aprendi na vida é que quando nos encontrarmos frente a frente com um grande homem, a capacidade de reconhecê-lo é uma das mais importantes. Se não reconhecemos um grande homem, não reconhecemos a pequenez que existe em nós. O prof. Orlando é um grande homem. Graças a Deus ele é católico. Graças a Deus ele quer nos ensinar. Graças a Deus ele é um excelente professor. Que Deus o mantenha por muito tempo entre nós!

20/04/2010

A investida de Moscou contra o Vaticano

Corromper a Igreja foi uma prioridade da KGB[1]

Nota do Blog: Ao mesmo tempo em que a KGB tentava corromper a Igreja, objetivando sua destruição, altos prelados eclesiais, com pleno conhecimento do Papa João XXIII, negociavam e firmavam com o Kremlin o fatídico acordo de Metz, que calou a boca do Concílio Vaticano II sobre a heresia mais insidiosa da época: exatamente o comunismo. O Vaticano II foi o único concílio ecumênico, de todos que a Igreja fez até então, que não condenou a heresia de seu tempo.

Ion Mihai Pacepa[2]

Tradução: Guilherme Ferreira Araújo

A União Soviética nunca se sentiu confortável por ter de conviver com o Vaticano no mesmo mundo. As revelações mais recentes documentam que o Kremlin estava preparado para fazer tudo o que fosse preciso para agir contra o sólido anti-Comunismo da Igreja Católica.

Em Março de 2006, uma comissão parlamentar italiana concluiu “além de qualquer dúvida razoável que os líderes da União Soviética tomaram a iniciativa de eliminar o Papa Karol Wojtyla”, em retaliação a seu apoio ao movimento dissidente polonês Solidariedade. Em Janeiro de 2007, quando documentos relevaram que Stanislaw Wielgus, então recém-nomeado arcebispo de Varsóvia, havia colaborado com a polícia política do período comunista da Polônia, ele admitiu a acusação e renunciou. No dia seguinte, o pároco da Catedral Wawel de Cracóvia, lugar do sepultamento de reis e rainhas poloneses, renunciou pela mesma razão. Então, descobriu-se que Michal Jagosz, um membro do tribunal do Vaticano que está considerando a santidade do recém-falecido Papa João Paulo II, foi acusado de ter sido um agente da polícia secreta comunista; de acordo com a mídia polonesa, ele foi recrutado em 1984 antes de deixar a Polônia para realizar uma tarefa no Vaticano. Presentemente, está prestes a ser publicado um livro que identificará outros 39 padres cujos nomes foram encontrados nos arquivos da polícia secreta de Cracóvia, alguns dos quais agora são bispos. Além disso, isso parece apenas arranhar a superfície. Em breve uma comissão especial começará a investigar o passado de todos os servos religiosos do período comunista, porquanto se acredita que milhares de padres católicos em todo aquele país colaboraram com a polícia secreta. E isso apenas na Polônia — os arquivos da KGB e os da polícia política no resto do antigo bloco soviético ainda têm de ser abertos conforme o tema das operações contra o Vaticano.

Em minha outra vida, quando eu estava no centro das guerras de inteligência externa de Moscou, eu mesmo fui surpreendido por uma tentativa deliberada do Kremlin de manchar o Vaticano por meio do retratar o Papa Pio XII como um insensível simpatizante do Nazismo. No final das contas, a operação não causou nenhum dano permanente, mas ela deixou um gosto amargo residual difícil de ser enxaguado. A história nunca foi contada anteriormente.

COMBATENDO A IGREJA

Em Fevereiro de 1960, Nikita Kruschev aprovou um plano super-secreto para destruir a autoridade moral do Vaticano na Europa Ocidental. A ideia foi uma invenção de Aleksandr Shelepin, presidente da KGB, e de Aleksey Kirichenko, o membro do Politburo Soviético responsável pelas relações internacionais. Até aquele momento, a KGB havia combatido seu “inimigo mortal” na Europa Oriental, onde a Santa Sé havia sido duramente atacada como um escoadouro de espionagem pago pelo imperialismo norte-americano, e seus representantes foram sumariamente presos como espiões. Agora Moscou queria ver o Vaticano desonrado por seus próprios padres em seu território nacional como um bastião do Nazismo.

Eugenio Pacelli, naquela altura Papa Pio XII, foi escolhido como principal alvo da KGB, sua encarnação do mal, porque ele deixara este mundo em 1958. O slogan mais recente da KGB era “homens mortos não podem se defender”. Moscou tinha acabado de ganhar um “olho roxo” por ter incriminado falsamente e encarcerado um prelado ativo do Vaticano, Cardeal József Mindszenty, o primaz da Hungria, em 1948. Durante a Revolução Hungariana de 1956, ele escapou da prisão e encontrou asilo na Embaixada Norte-Americana em Budapeste, onde começou a escrever suas memórias. À medida que os detalhes de como ele foi incriminado falsamente se tornaram conhecidos para os jornalistas ocidentais, ele passou a ser amplamente visto como um mártir e herói santo.

Porque Pio XII havia servido como núncio apostólico em Munique e Berlim, quando os nazistas estavam dando início à sua tentativa para alcançar o poder, a KGB queria retratá-lo como um anti-semita que promoveu o Holocausto. O empecilho estava no fato de que a operação não poderia deixar o menor sinal de envolvimento do bloco soviético. Todo o trabalho sujo deveria ser executado por mãos ocidentais, usando provas do próprio Vaticano. Isso corrigiria outro erro cometido no caso Mindszenty, que havia sido incriminado falsamente com documentos soviéticos e hungarianos falsificados. (Em 6 de Fevereiro de 1949, dias antes do término do julgamento de Mindszenty, Hanna Sulner, a hungariana especialista em caligrafia que fabricou as “provas” usadas para incriminar falsamente o cardeal, fugiu para Viena e revelou microfilmes dos “documentos” a partir dos quais foi montado o falso julgamento. Hanna demonstrou, num testemunho dolorosamente detalhado, que todos eram documentos falsificados, produzidos por ela, “alguns aparentemente pelas mãos do cardeal, outros portando sua suposta assinatura”.) Para evitar outra catástrofe como a do caso Mindszenty, a KGB precisava de alguns documentos originais do Vaticano, até mesmo os que eram ligados remotamente a Pio XII, os quais seus especialistas em dezinformatsiya poderiam modificar levemente e projetar a “luz apropriada” para provar o verdadeiro “caráter” do Papa. A dificuldade estava no fato de que a KGB não tinha acesso algum aos arquivos do Vaticano, e foi aí que o meu DIE, o serviço romeno de inteligência externa, entrou em cena. O novo dirigente do serviço soviético de inteligência externa, General Aleksandr Sakharovsky, criou o DIE em 1949 e havia sido até recentemente o nosso principal mentor soviético; ele sabia que o DIE estava numa excelente situação para contatar o Vaticano e obter consentimento para investigar seus arquivos. Em 1959, quando fui designado para a Alemanha Ocidental, na posição de cobertura como agente superior da Missão Romena, eu coordenei uma “troca de espião” na qual dois oficiais do DIE (Coronel Gheorghe Horobet e Major Nicolae Ciuciulin) – que foram presos em flagrante na Alemanha Ocidental – foram trocados pelo Bispo Católico Augustin Pacha, que havia sido preso pela KGB numa acusação espúria de espionagem e finalmente retornou ao Vaticano via Alemanha Ocidental.

INFILTRANDO O VATICANO

“Assento-12” foi o codinome dado à operação contra Pio XII, e eu me tornei seu principal agente. Para facilitar meu trabalho, Sakharovsky havia me autorizado a informar (falsamente) ao Vaticano de que a Romênia estava preparada para restaurar suas relações interrompidas com a Santa Sé em troca de acesso aos seus arquivos e de um empréstimo sem juros de um bilhão de dólares por 25 anos. (As relações da Romênia com o Vaticano se romperam em 1951, quando Moscou acusou a nunciatura do Vaticano na Romênia de ser uma frente encoberta da CIA e fechou seus escritórios. Os edifícios da nunciatura em Bucareste foram transferidos para o DIE e agora abrigam uma escola de idiomas). O acesso aos arquivos papais, eu deveria dizer ao Vaticano, era necessário para que se pudessem encontrar raízes históricas que ajudariam o governo romeno a justificar publicamente sua mudança de comportamento em relação à Santa Sé. O bilhão (não, isso não é um erro tipográfico), disseram-me, foi introduzido no jogo para tornar mais plausível a suposta mudança de atitude. “Se há uma coisa que aqueles monges entendem, é dinheiro”, observou Sakharovsky. Meu envolvimento anterior na troca do Bispo Pacha pelos dois oficiais do DIE de fato me abriu as portas. Um mês depois de ter recebido as instruções da KGB, eu tive meu primeiro contato com um representante do Vaticano. Por questão de sigilo, aquela reunião — e a maioria das que se seguiram — ocorreram num hotel em Genebra, na Suíça. Lá, eu fui apresentado a um “membro influente do corpo diplomático” que, disseram-me, havia iniciado sua carreira trabalhando nos arquivos do Vaticano. Seu nome era Antonio Casaroli, e eu descobriria em breve que ele era verdadeiramente influente. Imediatamente esse monsenhor me deu acesso aos arquivos do Vaticano, e logo três jovens agentes secretos do DIE, apresentando-se como padres romenos, estavam vasculhando os arquivos papais. Casaroli também concordou “em princípio” com a exigência de Bucareste para o empréstimo sem juros, mas ele disse que o Vaticano gostaria de estabelecer algumas condições sobre ele. (Até 1978, quando deixei a Romênia permanentemente, eu ainda estava negociando o empréstimo, que foi diminuído 200 milhões). De 1960 a 1962, o DIE conseguiu furtar dos Arquivos do Vaticano e da Biblioteca Apostólica centenas de documentos ligados de algum modo a Pio XII. Tudo foi imediatamente enviado à KGB por meio de um correio especial. De fato, nenhum material que incriminasse o pontífice jamais apareceu naqueles documentos fotografados secretamente. A maioria dos documentos eram cópias de cartas pessoais e transcrições de reuniões e discursos, todas escritas à maneira habitual da linguagem diplomática que alguém esperaria encontrar. Não obstante, a KGB continuou pedindo mais documentos. E nós enviamos mais.

A KGB PRODUZ UMA PEÇA DE TEATRO

Em 1963, o General Ivan Agayants, o famoso dirigente do departamento de desinformação da KGB, desembarcou em Bucareste para nos agradecer por nossa colaboração. Ele nos disse que “Assento-12” havia se materializado numa poderosa peça de teatro que atacava o Papa Pio XII, intitulada O Vigário, uma referência indireta ao Papa enquanto um representante de Cristo na Terra. Agayants foi o responsável pelo esboço da peça e ele nos disse que ela continha apêndices volumosos de documentos de fundo, reunidos por seus especialistas com a ajuda dos documentos que nós havíamos furtado do Vaticano. Agayants também nos disse que o criador de O Vigário, Erwin Piscator, era um comunista devoto que mantinha uma relação com Moscou há muito tempo. Em 1929 ele fundou o Teatro do Proletariado em Berlim, e poucos anos depois “emigrou” para os Estados Unidos. Em 1962, Piscator retornou à Berlim Ocidental para produzir O Vigário.

Durante todos os meus anos na Romênia eu sempre lidei com certo cuidado com meus chefes na KGB, porque eles costumavam distorcer os fatos de forma a tornar a inteligência soviética a mãe e o pai de tudo. Mas eu tinha razões para crer nas alegações egocêntricas de Agayants. Ele era uma lenda viva no campo da desinformatsiya. Em 1943, como rezident no Irã, Agayants lançou o rumor desinformativo de que Hitler havia montado uma equipe especial para seqüestrar o Presidente Franklin Roosevelt na Embaixada Norte-Americana em Teerã durante a conferência de cúpula dos Aliados que seria realizada lá. Como resultado, Roosevelt concordou em estabelecer seu quartel-general numa vila ao alcance da “segurança” do complexo da Embaixada Soviética, que era protegido uma grande unidade militar. Toda a guarnição soviética designada para aquela vila era composta por oficiais secretos da inteligência que falavam inglês, mas, com poucas exceções, eles mantiveram aquilo como segredo para que pudessem escutar às escondidas. Mesmo com as limitadas capacidades daquela época, Agayants foi capaz de fornecer a Stalin relatórios monitoradores de hora em hora a respeito dos convidados ingleses e norte-americanos. Isso ajudou Stalin a obter o consentimento tácito de Roosevelt para deixá-lo reter os países bálticos e o resto dos territórios ocupados pela União Soviética em 1939-40. Foi também atribuído a Agayants o ter induzido Roosevelt a usar o familiar “Tio Joe” para Stalin naquela conferência. De acordo com o que nos disse Sakharovsky, Stalin estava mais feliz com aquilo do que estava em relação às suas conquistas territoriais. “O coxo é meu!”, exultou ele, de acordo com as notícias.

Apenas um ano antes de O Vigário ser lançada, Agayants obteve sucesso em outro golpe de mestre. Ele fabricou um manuscrito fictício destinado a persuadir o Ocidente de que no fundo o Kremlin tinha os judeus em alta conta; isso foi publicado na Europa Ocidental, com grande sucesso popular, como um livro Notas para um periódico. O manuscrito foi atribuído a Maxim Litvinov, nascido Meir Walach, ex-comissário soviético de negócios externos, que havia sido demitido em 1939, quando Stalin resgatou seu aparato diplomático dos judeus em preparação para assinatura do pacto de “não-agressão” com Hitler. (O Pacto de Não-Agressão Hitler-Stalin foi assinado em 23 de Agosto de 1939, em Moscou. Ele continha um protocolo secreto que repartiu a Polônia entre dois signatários e deu aos soviéticos liberdade irrestrita para agir na Estônia, na Lituânia, na Finlândia, na Bessarábia e na Bucovina do Norte.) Esse livro de Agayants foi falsificado de modo tão perfeito que o mais proeminente historiador britânico da Rússia soviética, Edward Hallet Carr, foi totalmente convencido da sua autenticidade e, na verdade, escreveu uma introdução para ele. (Carr foi o autor de uma História da Rússia Soviética em dez volumes)

O Vigário veio a público em 1963 como trabalho de um desconhecido alemão ocidental chamado Rolf Hochhuth, com o título de Der Stellvertreter: Ein christliches Trauerspiel (O Vigário, Uma Tragédia Cristã). Sua tese central era a de que Pio XII havia apoiado Hitler e o encorajado a seguir em frente com holocausto judaico. A peça imediatamente acendeu uma enorme controvérsia em torno de Pio XII, que foi retratado como um homem frio e cruel, mais preocupado com as propriedades do Vaticano do que com o destino das vítimas de Hitler. O texto original apresenta uma peça com duração de oito horas, apoiado por 40 a 80 páginas (dependendo da edição) do que Hochhuth chamou “documentação histórica”. Em um artigo de jornal publicado na Alemanha, em 1963, Hochhuth defende sua representação de Pio XII, dizendo: “Os fatos estão lá — 40 páginas abarrotadas de documentação no apêndice à minha peça.” Numa entrevista de rádio dada em Nova York, em 1964, quando O Vigário estreou por lá, Hochhuth afirmou: “Eu julguei necessário adicionar um apêndice histórico à peça com extensão de 50 a 80 páginas (dependendo do tamanho da impressão).” Na edição original, o apêndice é intitulado Historische Streiflichter” (informações históricas interessantes). O Vigário foi traduzida para uns 20 idiomas, drasticamente reduzido e com o apêndice usualmente omitido.

Antes de escrever O Vigário, Hochhuth, que não tinha um diploma de ensino médio (Abitur), estava trabalhando em várias ocupações não notáveis para a casa de publicações Bertelsmann. Em entrevistas, alegou que em 1959 ele se afastou do trabalho e foi para Roma, onde passou três meses conversando com pessoas e então escreveu o primeiro rascunho da peça, e onde apresentou “uma série de questões” a um bispo cujo nome ele recusou revelar. Provavelmente não! Quase ao mesmo tempo eu costumava visitar o Vaticano regularmente como um mensageiro oficialmente reconhecido de um chefe de estado e eu nunca consegui pegar algum bispo falador para ter uma conversa num canto com ele — e não foi por falta de tentativa. Os oficiais ilegais do DIE que nós infiltramos no Vaticano também encontraram dificuldades quase insuperáveis para penetrar nos arquivos secretos do Vaticano, ainda que eles tivessem o disfarce impermeável de padres.

Durante os meus velhos dias no DIE, quando pedia meu chefe de guarnição, General Nicolae Ceausescu (irmão do ditador), para me dar um relatório detalhado do arquivo de algum subordinado, ele sempre me perguntava: “Para promoção ou rebaixamento?” Durante seus primeiros dez anos de vida, O Vigário tendeu em direção ao rebaixamento do Papa. Ela gerou uma rajada de livros e artigos, alguns acusando e alguns defendendo o pontífice. Alguns foram longe o suficiente para pôr a culpa das atrocidades de Auschwitz sobre os ombros do Papa, alguns reduziram meticulosamente os argumentos de Hochhuth a trapos, mas todos contribuíram para a atenção que essa peça quiçá desengonçada recebeu em sua época. Hoje, muitas pessoas que nunca ouviram falar de O Vigário estão sinceramente convencidas de que Pio XII era um homem frio e malvado que odiava os judeus e ajudou Hitler a matá-los. Como costumava me dizer o presidente da KGB, Yuri Andropov, o incomparável mestre da fraude soviética, as pessoas estão mais preparadas para acreditar na sujeira do que na santidade.

FALSIDADES SOLAPADAS

Perto de meados da década de 1970, O Vigário começou a perder a força. Em 1974, Andropov admitiu para nós que se soubéssemos então o que sabemos hoje nós nunca teríamos perseguido o Papa Pio XII. O que fez a diferença foram as informações liberadas recentemente mostrando que Hitler, longe de ter sido cordial com Pio XII, estava na verdade tramando contra ele.

Apenas alguns dias antes da revelação de Andropov, o ex-comandante supremo do esquadrão da SS (Schutzstaffel) na Itália durante a Segunda Guerra Mundial, General Friedrich Otto Wolff, saiu da prisão e confessou que, em 1943, Hitler lhe dera ordens para tirar Pio XII do Vaticano à força. Essa ordem foi tão confidencial que ela nunca apareceu em nenhum arquivo nazista após o final da guerra. Ela também não apareceu em nenhum dos muitos interrogatórios de oficiais da Gestapo e da SS conduzidos pelos vitoriosos Aliados. Nessa confissão, Wolff afirmou que havia respondido a Hitler que sua ordem levaria seis semanas para ser executada. Hitler, que havia culpado o Papa pela derrota do ditador italiano Benito Mussolini, queria a ordem executada imediatamente. Finalmente, Wolff persuadiu Hitler de que haveria uma resposta muito negativa se o plano fosse implementado, e o Führer o abandonou.

Foi também durante o ano de 1974 que o Cardeal Mindszenty publicou seu livro Memórias, que descreve com detalhes dolorosos como ele foi incriminado pela Hungria comunista. Conforme as evidências de documentos forjados, ele foi acusado de “traição, mal uso de moeda estrangeira e conspiração”, ofensas “todas puníveis com a morte ou prisão perpétua”. Ele também descreve como sua “confissão” falsificada então tomou vida própria. “Eu tive a impressão de que qualquer um deveria ter reconhecido imediatamente que esse documento era uma falsificação grosseira, uma vez que era o produto de uma mente inculta e atamancada.”, escreve o cardeal. “Mas logo após, quando eu procurei pelos livros, jornais e revistas estrangeiros que lidaram com o meu caso e comentaram minha ‘confissão’, eu percebi que o público deve ter concluído que aquela ‘confissão’ havia de fato sido escrita por mim, embora num estado semi-consciente e sob influência de lavagem cerebral... Que a polícia tivesse publicado um documento que eles mesmos tinham inventado parecia, de modo geral, algo muito descarado em que se acreditar”. Ademais, Hanna Sulner, a hungariana especialista em caligrafia usada para incriminar o cardeal e que tinha fugido para Viena, confirmou que ela falsificara a “confissão” de Mindszenty.

Alguns anos mais tarde, o Papa João Paulo II deu início ao processo de canonização de Pio XII, e testemunhas de todo o mundo provaram de modo constrangedor que Pio XII era um inimigo, e não um amigo de Hitler. Israel Zoller, o rabino-chefe de Roma entre 1943-44, quando Hitler tomou aquela cidade, dedicou um capítulo inteiro de suas memórias para louvar a liderança de Pio XII. “O Santo Padre entregou aos bispos, em mãos, uma carta instruindo-os a suspender a clausura dos conventos e monastérios, de modo que estes pudessem se tornar abrigos para os judeus. Eu sei de um convento onde as Irmãs dormiam no porão, cedendo suas camas aos judeus refugiados”. Em 25 de Julho de 1944, Zoller foi recebido pelo Papa Pio XII. Notas tomadas pelo Secretário de Estado do Vaticano, Giovanni Battista Montini (que tornar-se-ia Papa Paulo VI), mostram que o Rabino Zoller agradeceu o Santo Padre por tudo o que ele fizera para salvar a comunidade judaica de Roma — e seus agradecimentos foram transmitidos por radio. Em 13 de Fevereiro de 1945, o Rabino Zoller foi batizado pelo bispo auxiliar de Roma, Luigi Traglia, na Igreja de Santa Maria dos Anjos. Em agradecimento a Pio XII, Zoller tomou como nome cristão Eugenio (o nome do Papa). Um ano mais tarde, a esposa e a filha de Zoller foram batizadas.

David G. Dalin, em O Mito do Papa de Hitler: Como o Papa Pio XII Salvou os Judeus dos Nazistas, publicado há alguns meses, compilou provas esmagadoras adicionais de que a amizade que Eugenio Pacelli nutria pelos judeus começara muito antes dele se tornar Papa. No início da Segunda Guerra Mundial, a primeira encíclica do Papa Pio XII era tão anti-Hitler que a Real Força Aérea da França jogou 88.000m cópias dela sobre a Alemanha. Nos últimos 16 anos a liberdade de religião foi restaurada na Rússia, e uma nova geração está lutando para desenvolver uma nova identidade nacional. Nós só podemos esperar que o Presidente Vladimir Putin decida abrir os arquivos da KGB e mostre, para que todos possam ver, como os comunistas difamaram uns dos Papas mais importantes do século passado.


[1] Publicado no National Review Online, em 25 de Janeiro de 2007. A National Review autorizou a tradução e a publicação do texto traduzido. (N. do Blog.)

[2] Tenente-general Ion Mihai Pacepa é o oficial de inteligência de mais alto cargo a ter desertado do antigo bloco soviético. Seu livro Horizontes Vermelhos foi republicado em 27 países.

15/04/2010

Com a palavra, Olavo de Carvalho

Nota: Este modesto blog fica honrado com a manifestação do Prof. Olavo.

Agradeço muito ao Angueth pelas palavras gentis com que ele se refere à minha pessoa, as quais podem lhe render uma condenação como gnóstico no tribunal dos inquisidores mirins de Vila Nhocunhé.

Nunca pus em dúvida -- e até já proclamei várias vezes -- que o prof. Fedeli é um homem bom, um católico sincero e uma fonte altamente confiável no que diz respeito à doutrina da Igreja. Não escondo que gosto muito dele e do seu blog. O problema é que ele é um professor de religião e não um filósofo -- o que em si não teria nada de mau se ele não achasse que, com esse seu equipamento doutrinal, está habilitado a entender e julgar filósofias. Dado um problema, tudo que ele faz é consultar a doutrina e tirar deduções que lhe parecem aplicar-se ao caso individual. A coisa é de um automatismo atroz e bem poderia ser feita por um computador. Se tudo pudesse ser resolvido por esse método, não precisaríamos nem de aritmética,nem de História nem de ciência nenhuma: bastaria um laptop e um exemplar do Enchiridion de Denziger. Desde logo, é um método autocontraditório, pois, pretendendo tudo resolver só pela doutrina católica, faz amplo uso da lógica, que não é de fonte católica. O resultado da sua aplicacão é produzir essas mentalidades mesquinhas que, por terem aderido à doutrina católica, acreditam estar no certo mesmo quando mentem, mesmo quando negam os fatos mais óbvios. "Desconheço quem tenha se convertido ao catolicismo por conta de suas aulas. Para ele tanto faz ser protestante, budista ou espirita", proclama uma dessas criaturas, com aquela segurança fedeliana característica. Pois bem: é uma afirmativa inteiramente falsa, que deduz da ignorância uma mentira, e o faz com a boa consciência de estar servindo à Igreja.

Se há um bom motivo para estudar filosofia, é aprender que ter a doutrina certa não é tudo, que nem tudo pode ser descoberto mediante leituras devotas e dedutivismo "à outrance". Antes de ter ditado a Bíblia, Deus criou o mundo. Essa foi a primeira revelação. É preciso entender a Bíblia à luz da realidade, e não só esta à luz daquela. Doutrinários sem adestramento filosófico são proclamadores de generalidades: seu desprezo pelos fatos concretos não tem fim. Seu sentimento de certeza é uma auto-ilusão filológica. Deduzem frases de frases, e acreditam com isso estar na verdade. Decerto, é coisa que infunde nos corações uma certeza, uma segurança reconfortantes. Como muitas pessoas buscam essa sensação, e não a verdade enquanto tal, é lógico que se satisfaçam muito mais com as certezas fáceis do que com as investigações trabalhosas e não raro perigosas que o exame da realidade implica. O mais irônico de tudo é que um praticante do certezismo fedeliano venha cobrar de mim uma atitude socrática, como se o proclamador de certezas acríticas fosse eu.

Olavo de Carvalho

Dawkins e o Milagre de Fátima

 

Misturar Dawkins e a Virgem Santíssima num artigo me embrulha o estômago e me entristece a alma. Mas não fui eu que misturei, foi ele. Recebi, outro dia, de um amigo um link em que havia um artigo desse demente inglês sobre o milagre do sol.

O artigo é muito curto. Começa com um trecho de Hume: “[…] nenhum testemunho é suficiente para demonstrar um milagre, a não ser que o testemunho seja de natureza tal que a sua falsidade seja mais milagrosa do que o fato que tenta demonstrar.” David Hume, «Dos Milagres» (1748)

O silogismo bobinho que Dawkins monta a partir da frase de Hume é o seguinte:

Premissa maior: Milagres não ocorrem

Premissa menor: 70.000 pessoas afirmam ter presenciado um

Conclusão: Houve uma alucinação em massa que atingiu 70.000 pessoas

Depois de descrever tudo que aconteceria se o sol se movesse, ele diz: “Não temos alternativa senão a de seguir Hume, escolher a menos miraculosa das alternativas disponíveis e concluir, contrariamente à doutrina oficial do Vaticano, que o milagre de Fátima nunca aconteceu.”

Aí vem a apoteose final: “Além disso, não é de todo claro que nos caiba a nós explicar como é que aquelas 70 000 testemunhas foram enganadas.”

Perguntemos a Dawkins para começar: qual testemunho é suficiente para demonstrar a afirmação de Hume? A resposta implícita, claro, é que o testemunho suficiente é o do próprio Hume. A frase de Hume é verdadeira porque assim ele o diz.

O verdadeiro milagre é alguém com bom senso acreditar na baboseira de Hume.

Mas a frase final do artigo do Dawkins é de uma cretinice tão grande que me faz lembrar Chesterton descrevendo o ambiente das discussões intelectuais da Londres do final do século XIX, das quais ele foi testemunha: “havia uma agradável atmosfera de discussão de todas as coisas, sem qualquer particular senso de responsabilidade de se chegar a qualquer conclusão sobre elas.” Ou seja, o cara começa por dizer que a única alternativa ao suposto milagre é acreditar que houve uma alucinação coletiva de 70.000 pessoas. Ora, qualquer pessoa minimamente responsável tentaria explicar como 70.000 pessoas sofrem de tal mal subita e simultaneamente. Se tal explicação existisse, seria o modo mais fácil de se desacreditar a autenticidade do milagre. Mas, não, ele não se sente minimamente responsável por matar a curiosidade de seus leitores.

O que ele diz então é o seguinte: Não há milagres porque assim o diz Hume. As 70.000 pessoas que viram o sol dançar sobre suas cabeças, por não poderem estar presenciando um milagre, estavam em estado de alucinação coletiva, cujo modo de funcionamento não sinto vontade de explicar.

Nós católicos dizemos: nós não acreditamos em Dawkins; nós acreditamos no milagre de Fátima, porque assim nos atesta a Igreja e as 70.000 pessoas. Desta forma, as 70.000 pessoas viram o sol dançar sobre suas cabeças. Como ele fez isso, nós não o sabemos, pois os milagres sempre envolvem mistérios que nossa razão não alcança.

Aguardem um artigo de Chesterton sobre milagres.

12/04/2010

Estão de sacanagem com o Olavo

 

Parece que estão deixando o Olavo numa situação vexamosa. Com tantos católicos que dizem defender a Tradição da Igreja, só o gnóstico Olavo tem defendido o Papa Bento XVI na imprensa brasileira, com seus artigos no Jornal do Comércio de São Paulo.

Já em 1998, Olavo reclamava ter de assumir o papel de padre para dizer coisas que “os convicentes não dizem” [Verdade sem dono, Imbecil Coletivo II].

Bem, seguem aí alguns (apenas alguns) artigos de Olavo, defendendo o Papa e a Igreja dos ataques de seus inimigos. Coisa espantosa, única na história da humanidade, um gnóstico defendendo a Igreja e o Papa. Esse Olavo é danado mesmo!

A briga que ninguém quer comprar

O bem como instrumento do mal

Christopher Hitchens contra o Papa

Cem anos de pedofilia (artigo de 2002)

11/04/2010

A DEMOLIÇÃO PÓS-CONCILIAR

 

Quando me pedem alguma referência bibliográfica sobre o Concílio Vaticano II e seus frutos, sempre indico quatro livros: a trilogia de Michael Davies (Cranmer’s Godly Order, Pope John’s Council, Pope Paul’s Mass) e Iota Unum de Romano Amerio. Agora terei um vídeo-resumo para indicar também. Ele está no Glória.Tv, e a informação nos chega através de Sidney Silveira, do ContraImpugnantes.

É impressionante!!!!

09/04/2010

O CÉTICO COMO UM CRÍTICO

Do livro “A Coisa”, publicado em 1929

 

Gilbert Keith Chesterton

É preciso três pessoas para uma boa briga. Um conciliador é sempre necessário. Não se pode atingir a completa potencialidade da fúria humana até que um amigo das duas partes intervenha tacitamente. Sinto-me em tal posição no recente debate entre os puritanos e a revista Mercury do Sr. Mencken;[1] e o admito com um desconforto não desacompanhado de terror. Sei que o juiz pode ser picado em pedaços. Sei que um juiz auto-indicado deve ser picado em pedaços. Sei, sobretudo, que este é especialmente o caso em tudo que envolve quaisquer relações internacionais. Talvez a única crítica razoável seja a auto-crítica. Talvez isso seja ainda mais verdadeiro no caso de nações do que no de homens. E posso muito bem entender que muitos americanos aceitariam sugestões de seus compatriotas que refutariam de um estrangeiro. Posso apenas alegar que me esforcei por cumprir o excelente princípio patriótico de “Olhar para a Inglaterra Primeiro” na paráfrase igualmente patriótica de “Criticar a Inglaterra Primeiro”. Tenho feito isso por tempo suficiente para estar bem consciente de que há males presentes na Inglaterra que estão relativamente ausentes nos Estados Unidos; e nenhum mais conspicuamente ausente, como o Sr. Belloc observou para a surpresa de muitos, do que a adoração real, servil, supersticiosa e mística do Dinheiro.

Mas o que me faz tão condenável na presente situação é que sinto uma considerável simpatia por ambos os lados. Essa atitude ofensiva tentarei ocultar, tanto quanto possível, por um abuso tacitamente distribuído de coisas que considero abusivas, e por uma aversão elegantemente simulada por uma ou outra parte de cada caso controverso. Mas a verdade simples é que se eu fosse americano, eu muito frequentemente me regozijaria quando a Mercury criticasse algo ou alguém; tampouco meu modesto lar ficaria sem certa exultação quando a Mercury fosse criticada. Mas o que definitivamente penso é que ambos os lados, e talvez especialmente o lado iconoclasta, precisam do que todo o mundo moderno precisa – um padrão espiritual fixo, mesmo para seus próprios objetivos intelectuais. Posso expressar isto dizendo que gosto muito de revolucionários, mas não muito de niilistas. Pois, os niilistas, como o próprio nome implica, não têm com que se revoltar.

Sob esse ângulo, há pouco o que adicionar ao artigo admiravelmente são, sutil e penetrante do Sr. T.S. Eliot;[2] especialmente aquela sentença vital em que diz ao Professor Irving Babbitt[3] (que admite a necessidade de entusiasmo) que não podemos ter um entusiasmo por termos entusiasmo. Penso que sei, incidentalmente, o que devemos ter. O Professor Babbitt é um homem muito culto; e eu mesmo conheço pouco latim e menos ainda grego. Mas conheço o bastante de grego para saber o significado da segunda sílaba de “entusiasmo”, e sei que ela é a chave para esta e outras discussões.

Permitam-me considerar dois exemplos, que demonstram minha concordância com ambos os lados. Admiro grandemente o Sr. Mencken, não apenas por sua vivacidade e espirituosidade, mas pela sua veemência e, por vezes, por sua violência. Calorosamente o aplaudo por seu desprezo e detestação do Serviço; e considero que ele esteja afirmando um fato histórico quando diz, como citado em The Forum: “Quando uma gangue de agentes imobiliários, corretores de títulos e concessionários de veículos se reúnem para choramingar contra o Serviço, não precisamos ser freudianos para suspeitar que alguém está próximo à fraude.” Não vejo porque ele não devesse chamar uma espada de espada e um fraudador de fraudador. Não o culpo por usar palavras vulgares para coisas vulgares. Mas observo dois modos em que o fato de sua filosofia ser negativa faz com que sua crítica seja quase superficial. Em primeiro lugar, é óbvio que tal sátira é inteiramente insignificante a menos que fraude seja pecado. E é igualmente óbvio que somos instantaneamente tragados pelo abismo do “moralismo” e do “religiosismo”, se for pecado. E o segundo ponto, se menos óbvios, é igualmente importante – o instinto saudável do Sr. Mencken contra a hipocrisia obscena não o esclarece a respeito do coração desta hipocrisia.

A questão sobre o culto do Serviço é que, como tantas noções modernas, ela é uma idolatria do intermediário, às custas do esquecimento do principal. É como o jargão dos idiotas que falam sobre Eficiência sem qualquer crítica ao Efeito. O pecado do Serviço é o pecado de Satã: aquele de tentar ser o primeiro onde ele pode ser apenas o segundo. Uma palavra como Serviço roubou a sagrada letra maiúscula da coisa que ela em princípio devia servir. Há um sentido em servir a Deus, e um sentido ainda mais discutível em servir ao homem; mas não há sentido em servir o Serviço. Servir a Deus é pelo menos servir a um ser ideal. Mesmo se ele fosse um ser imaginário, ele ainda estaria sendo um ser ideal. Esse ideal tem atributos definidos e mesmo dogmáticos – verdade, justiça, misericórdia, pureza, etc. Servir-lhe, mesmo imperfeitamente, é servir a um particular conceito de perfeição. Mas o homem que corre pela rua acenando seus braços e desejando servir a algo ou a alguém, cairá provavelmente nas mãos da primeira casa de câmbio clandestina ou no primeiro covil de ladrões ou usurários, e será encontrado servindo-LHES diligentemente. Assim surge a horrível idéia de que dedicação, confiabilidade, pontualidade são coisas boas; que mera prontidão para servir aos poderes deste mundo é uma virtude cristã. Esta é a questão contra o Serviço, que é distinto da maldição contra o Serviço, que tão animada e inspiradamente é rogada pelo Sr. Mencken. Mas a séria questão não pode ser declarada sem uma vez mais se perguntar se a humanidade deve servir a alguma coisa; e se não seria melhor tentarmos definir primeiro a que pretendemos servir. Todas essas palavras tolas como Serviço, Eficiência, Praticidade, etc. falham porque prestam culto aos meios e não ao fim. Mas tudo se resume a se nos propomos a cultuar o fim; e preferivelmente ao fim verdadeiro.

Duas outras passagens do texto do Sr. Mencken servirão para mostrar mais agudamente a curiosa situação em que ele parece negar o que afirma. De um lado, ele parece afirmar muito positivamente a natureza puramente intencional e subjetiva da crítica; a faz individual e quase irresponsável. “O crítico está acima de tudo tentando se expressar; está tentando alcançar com isso, para seu próprio ego interior, o sentimento gratificante de uma função desempenhada, de uma tensão aliviada, de uma catarse atingida, que Wagner atingiu quando escreveu DIE WALKURIE, e uma galinha atinge toda vez que bota um ovo.” Isso tudo é muito consistente até certo ponto; mas infelizmente o Sr. Mencken parece continuar com algo muito inconsistente. Segundo o trecho citado, ele ao final irrompe com uma canção de triunfo porque há agora nos EUA não somente crítica, mas controvérsia. “Atualmente, pela primeira vez em anos, há conflito na crítica americana ... orelhas são mordidas, narizes sangram. Há bofetadas acima e abaixo da cintura.”

Ora, pode haver algo de real em suas afirmações sobre a controvérsia, mas isso é inconsistente com suas afirmações sobre a auto-expressão criativa. Se o crítico produz a crítica APENAS para se agradar, é inteiramente irrelevante que ela não agrade alguém mais. O alguém mais tem o direito de dizer o exato oposto para se agradar, e estar perfeitamente satisfeito consigo mesmo. Mas eles não podem se controverter porque não podem se comparar. Não podem se comparar porque não há um padrão comum de comparação. Nem eu nem ninguém pode ter uma controvérsia sobre literatura com o Sr. Mencken, porque não há forma de criticar a crítica, exceto perguntando se o crítico está satisfeito. E aí o debate acaba, exatamente no início; pois ninguém pode duvidar de que o Sr. Mencken esteja satisfeito.

Mas para não fazer o Sr. Mencken uma mera vítima do ARGUMENTUM AD HOMINEM, farei o experimento num corpus vile[4] e me oferecerei para dissecação. Atrevo-me a dizer que grande parte da crítica que escrevo é realmente estimulada por estado de espírito de auto-expressão; e certamente é verdade que há uma satisfação na auto-expressão. Posso tirar uma coisa ou outra em relação a qual tenha sentimentos definitivos – como, por exemplo, a filosofia do Sr. Dreiser,[5] que já foi mencionada mais de uma vez nesse debate. Posso alcançar para meu próprio ego interior o sentimento gratificante de escrever o seguinte: “Ele descreve um mundo que parece ser uma enfadonha e descolorida ilusão de indigestão, não suficientemente brilhante para ser chamada de pesadelo; malcheirosa, mas não fedorenta; cheirando a gás estragado de experimentos químicos ignorantes feitos por estudantes sujos e dissimulados – o tipo de garotos que torturam gatos em becos isolados; desfibrado e desanimado como um verme ferido; repugnantemente vagaroso e laboriosamente parecido com uma lesma interminável; desesperador, mas sem nenhuma coragem; sem vivacidade, sem vontade, sem risada e sem elevação de coração; muito velho para morrer, muito surdo para desistir de falar, muito cego para parar, muito estúpido para começar de novo, muito morto para ser assassinado, e incapaz de até mesmo ser amaldiçoado, pois em todos os seus desgastados séculos, não alcançou a idade da razão.”

Isso é o que sinto; e certamente me dá prazer aliviar meus sentimentos. Livrei-me do que me apertava o peito. Fiz uma catarse. Botei um ovo. Produzi uma crítica que satisfaz todas as definições do Sr. Mencken. Desempenhei uma função. Sinto-me muito bem, obrigado.

Mas qual influência meus sentimentos podem ter no Sr. Dreiser, ou em alguém que não admite meus padrões de verdade e falsidade, não consigo muito perceber. Pode-se dificilmente esperar que o Sr. Dreiser diga que sua química é charlatanismo, como penso que é – charlatanismo sem a vivacidade que podemos razoavelmente esperar de charlatães. Ele não considera o fatalismo vil e servil, como eu; ele não considera o livre arbítrio a mais alta verdade sobre a humanidade, como eu. Ele não acredita que o desespero é em si mesmo um pecado, e talvez o pior dos pecados, como os católicos. Ele não considera a blasfêmia o menor e mais tolo tipo de orgulho, como até os pagãos o fazem. Ele naturalmente não considera sua própria idéia da vida uma falsa idéia, assemelhando-se à vida real tanto quanto uma vastidão de linóleo assemelha-se ao campo de todas a flores vivas, como eu considero. Mas ele não a consideraria mais falsa por ser uma vastidão. Ele admitiria provavelmente que ela fosse sombria, mas consideraria isto correto. Ele provavelmente admitiria que estivesse perdido, mas não veria nenhum mal em estar perdido. O que eu apresento como acusação, ele muito provavelmente aceitaria como elogio.

Nestas circunstâncias, não vejo como eu, ou alguém com minhas idéias, poderia estabelecer uma controvérsia com o Sr. Dreiser. Não parece haver qualquer forma de eu provar que ele está errado, porque ele não aceita minhas idéias do que é errado. Não parece haver qualquer forma de ele provar que está certo, porque não compartilho suas noções do que é certo. Podemos, de fato, nos encontrar na rua e nos atracar; e embora eu acredite que somos ambos homens pesados, não duvido que ele seja o mais formidável. A própria possibilidade de que sejamos reduzidos a essa explicação inarticulada pode talvez lançar alguma luz na impressionante descrição do Sr. Mencken sobre a nova vida literária nos EUA. “Orelhas são mordidas”, ele diz; e esta curiosa forma de relacionamento cultural poderia realmente ser a única solução, quando orelhas não forem mais órgãos da audição e quando não houverem mais órgãos exceto os órgãos de auto-expressão. Aquele que tiver ouvidos para ouvir e não escutar pode muito bem ter suas orelhas mordidas. Tal surdez parece inevitável no crítico criativo, que é tão indiferente a todos os ruídos como uma galinha, exceto para o ruído de seu próprio cacarejar quando chocando seu próprio ovo. De toda forma, galinhas não criticam os ovos alheios, ou jogam ovos umas nas outras, como acontece nas controvérsias políticas. Podemos apenas dizer que o romancista em questão botou indubitavelmente um grande, sólido e magnificente ovo – algo da natureza de um ovo de avestruz; e depois disso, não há nada que impeça a avestruz de esconder sua cabeça na areia, atingindo com isso, pelo seu próprio ego interior, o sentimento gratificante de uma função desempenhada. Mas não podemos discutir se o ovo é um ovo ruim, ou se partes dele são excelentes.

Em todas essas circunstâncias, portanto, em razão da ausência de um padrão último de valor, as mais ordinárias funções não podem ser realmente desempenhadas. Elas não podem ser desempenhadas não só com “um sentimento gratificante”, ou uma catarse, mas a longo prazo não podem ser desempenhadas de forma alguma. Não podemos realmente denunciar o corretor de títulos e promotor do Serviço como um farsante, pois não temos um acordo claro que seja vergonhoso ser um farsante. Um pouco de manipulação de algumas teorias individualistas do próprio Sr. Mencken – sobre a mentalidade ser superior ao moralismo – pode apresentar o farsante como um super-homem. Não podemos realmente argumentar a favor ou contra o mero ideal do Serviço, porque nenhum dos lados considera o que é para ser servido ou como chegaremos à regras corretas para servir-lhe. Consequentemente, na prática, pode ser que o Estado de Serviço seja meramente o Estado Servil. E finalmente, não podemos realmente argumentar a respeito disso ou de qualquer outra coisa, pois não há regras para o jogo da argumentação. Não há como provar que alguém ganhou um ponto. Não pode haver “conflito na crítica americana”; os professores não podem ser “forçados a esboçar alguma defesa.” Isso exigiria acusadores e defensores frente a algum tribunal mostrando evidências segundo alguns testes da verdade. Pode haver um distúrbio, mas não uma discussão.

Em resumo, as funções normais do homem – esforço, protesto, julgamento, persuasão e prova – são prejudicadas ou impedidas por tais negações do cético mesmo quando o cético parece, a princípio, estar apenas negando alguma visão distante ou alguma lenda miraculosa. Cada função se refere de fato a algum fim, a algum teste, a alguma forma de distinção entre o uso e o abuso, que o cético mais comum destrói tão completamente como destruiria qualquer mito ou superstição. Se a função é desempenhada apenas por satisfação de quem a desempenha, como na parábola do crítico e do ovo, torna-se fútil discutir se é um ovo podre. Torna-se fútil considerar se ovos produzirão galinhas ou comporão o café da manhã. Mas mesmo para nos certificarmos de nossa própria sanidade quando da aplicação de testes, temos realmente de nos voltar para algum problema aborígene, como o do antigo enigma da anterioridade do ovo ou da galinha; temos realmente, como as grandes religiões, de começar AB OVO. Se essas sanidades primordiais são perturbadas, a totalidade da vida prática é perturbada com elas. Os homens podem ser congelados pelo fatalismo, ou enlouquecidos pelo anarquismo, ou levados à morte pelo pessimismo; pois os homens não continuarão indefinidamente agindo no que eles consideram uma fábula. E é neste sentido orgânico e quase muscular que a religião é realmente o auxílio do homem – no sentido de que sem isso ele está perdido, quase imóvel.

O Sr. Mencken, o Sr. Sinclair Lewis e outros críticos no movimento MERCURY são tão ardentes e sinceros, eles atacam tão vigorosamente tantas coisas que deve ser atacadas, eles expõem tão brilhantemente tantas coisas que são imposturas reais, que na discussão com eles um homem terá um impulso de colocar suas cartas sobre a mesa. Seria fingimento e quase hipocrisia se eu ignorasse, aqui, o fato de que eu próprio acredito numa solução espiritual especial para esse problema, uma autoridade espiritual especial sobre esse caos. Tampouco essa idéia está completamente ausente, como idéia, de muitas outras mentes além da minha. A filosofia católica é mencionada com muito respeito, e até mesmo com uma espécie de esperança, tanto pelo Prof. Babbit[6] quanto pelo Sr. T.S. Eliot. Compreendo bem sua cortesia e não procuro levá-los um passo a mais do que eles desejam ir. Mas, de fato, por uma série de infalíveis passos lógicos, o Sr. Eliot levou o Prof. Babbitt tão perto dos portões da Igreja Católica que ao final senti-me muito nervoso, por assim dizer, temendo que eles dessem outro passo involuntário e caísse dentro dela por acidente.

Tenho uma razão particular para mencionar essa questão ao modo de conclusão – uma razão que está diretamente relacionada a esse curioso efeito do ceticismo em enfraquecer as funções normais do ser humano. Em um dos mais brilhantes e divertidos livros do Sr. Sinclair Lewis há uma passagem que cito de memória, mas que penso estar mais ou menos correta. Ele disse que a Fé Católica difere do Puritanismo corrente na medida em que não pede a um homem que abra mão de seu senso de beleza, ou de seu senso de humor, ou de seus vícios prazerosos (que ele provavelmente entende como fumar ou beber, que não são absolutamente vícios), mas também na medida em que pede a um homem que abra mão de sua vida e alma, de sua mente, de sua razão, etc. Peço ao leitor que considere, tão calma e imparcialmente possível, a afirmação aqui feita; e coloque-a ao lado de todos os outros fatos sobre a gradual fossilização da função humana pelas dúvidas fundamentais de nossos dias.

Seria muito mais verdadeiro dizer que a Fé devolve a um homem seu corpo e sua alma, sua razão e sua vontade, devolve sua própria vida. Seria muito mais verdadeiro dizer que o homem que a recebeu, recebe todas as antigas funções que todas as outras filosofias estão tirando. Seria muito mais próximo da realidade dizer que somente ele terá liberdade, que somente ele terá vontade, porque somente ele acreditará no livre arbítrio; que somente ele terá razão, pois a dúvida final nega a razão tanto quanto a autoridade; que somente ele agirá verdadeiramente, porque a ação visa a um fim. É pelo menos uma visão menos improvável, que todo esse obstinado e incorrigível desespero do intelecto fará, afinal, do homem que abraçou a Fé o único cidadão andante e falante numa cidade de paralíticos.


[1] A revista Mercury foi criada em 1921 pelo jornalista, ensaísta e ácido crítico do american way of life, Henry Louis Mencken e circulou até 1981. (N. do T.)

[2] "The Humanism of Irving Babbitt"[O Humanismo de Irving Babbitt], The Forum, July 1928.

[3] Crítico literário americano que teve muita influência no movimento chamado “Novo Humanismo”. Babbitt foi professor de Eliot em Harvard. O humanismo de Babbitt é similar a um ecumenismo radical. (N. do T.)

[4] Corpo ou coisa inútil, exceto para experimentos. (N. do T.)

[5] Theodore Herman Albert Dreiser (1871, 1945) – romancista, jornalista e crítico americano. Comunista de carteirinha, era grande crítico do capitalismo e imperialismo americano. (N. do T.)

[6] “The Critic and American life,” [A crítica e a vida americana] The Forum, February 1928.

05/04/2010

O Tesouro de duas santas: Paula e Margarida de Cortona

O que nos ensinam os santos, com palavras e obras, é que não basta traçar na areia uma tênue linha que separe o bem do mal; e que é preciso, resolutamente, entre os céus e os infernos, erguer muralhas de ódio, e cavar abismos de amor. É grande o mistério da santidade. Gustavo Corção
SANTA PAULA
Natural de Roma, nasceu em meados do século IV. Era da mais alta nobreza, pois em suas veias corria sangue dos Cipiões e dos mais antigos reis.
Após as perseguições que foram terríveis, os cristãos relaxaram-se um pouco. Paula, embora cristã e honesta, vivia com excessivo luxo e moleza.
A Providência divina enviou-lhe amargos sofrimentos para desenganá-la do mundo. Faleceu-lhe o esposo, a quem amava entranhadamente e ela mesma contraiu uma grave e prolongada enfermidade.
Quando recobrou a saúde, despojou-se de suas galas e consagrou-se por completo à oração, às obras de caridade e à educação dos filhos.
Por motivo da celebração de um concílio, convocado pelo Papa S. Dâmaso, veio a Roma S. Jerônimo, grande amigo do Pontífice e incomparável conhecedor da Sagrada Escritura. Paula tomou-o por diretor espiritual e, seguindo seus conselhos, estudou os Livros Sagrados, especialmente os Evangelhos, e concebeu o desejo de visitar e venerar a gruta de Belém.
Apos a morte de S. Dâmaso, seu amigo S. Jerônimo abandonou Roma, para dedicar-se de novo a seus estudos bíblicos. Queria ultimar sua gigantesca tarefa de traduzir toda a Bíblia para o latim.
S. Paula não tardou a segui-lo. Confiou a uma filha casada a educação da menorzinha, e ela com Eustóquio, outra de suas filhas, embarcou rumo à Terra Santa.
Com S. Jeiônimo e Eustóquio, percorreu a Palestina. Ao chegar a Belém exclamou chorando: “Eu te saúdo, ó Belém, cujo nome quer dizer Casa do Pão celeste; eu te saúdo, antiga Efratá, cujo nome significa a Fértil, que tiveste por fruto e colheita ao próprio Criador! E' possível que eu, pecadora, beije o berço onde repousou o Menino Deus, ore na gruta, onde deu Jesus seus primeiros vagidos, onde a Virgem deu à luz o Salvador?”
Junto à gruta de Belém levantou um mosteiro para a comunidade de religiosas por ela fundada e dirigida; e nos arredores, outro para S. Jerônimo e seus monges. Construiu, além disso, um ótimo albergue para os peregrinos, e costumava dizer: “Se Maria e José tivessem de retornar a Belém, para o recenseamento, já não lhes faltaria lugar na estalagem”.
Passou S. Paula o resto da sua vida meditando a sagrada Escritura, orando e mortificando-se com severas penitências, animada pelo suave pensamento de que ali mesmo dera o Redentor admirável lição de todas as virtudes.
Morreu aos 56 anos e foi sepultada numa gruta ao lado daquela do Nascimento.
Sobre a porta dessa gruta mandou S. Jerônimo gravar em versos estas palavras: “Vês este humilde sepulcro nesta rocha cavado? Dentro está de Paula o corpo, e dos bens celestes gozando está a alma. Deixou pais e pátria e irmão e filhos e aqui repousa, junto à gruta de Belém, onde reis e Magos a Cristo adoraram como a Deus e homem”.
SANTA MARGARIDA DE CORTONA
Nasceu esta Santa no povoado de Laviano, na ltâlia, em 1247. Seus pais eram lavradores e viviam pobremente.
Aos sete anos teve Margarida a desgraça de perder a mãe. O pai casou-se de novo, e a madrasta odiava a pobre orfãzinha. Um rico e poderoso senhor dos arredores seduziu-a e levou-a para o seu castelo, rodeado de bosques, com muito luxo e criadagem. Nove anos durou a triste vida de Margarida naquele castelo. A miúdo sentia remorsos e como que um desejo de fazer penitência, mas não sabia como livrar-se daquela mísera situação.
Certo dia, o lebrel favorito de seu senhor aproximou-se dela, ladrando choroso, e com os dentes puxava-lhe o vestido como se quisesse convidá-la a segui-lo.
Penetraram pelo bosque adentro. Debaixo dum carvalho, junto a um monte de ramos, parou o cão e redobrou seus latidos. Afastou Margarida os ramos e encontrou, banhado em sangue, o cadáver de seu senhor. Haviam-no apunhalado. Surpreendera-o a justiça de Deus.
Aquele horrível espetáculo iluminou a alma de Margarida. Converteu-se. Resolveu começar vida nova e dirigir-se, em primeiro lugar, ao casebre de seu pai, para desagravá-lo e implorar-lhe perdão.
Não o alcançou, porque sua madrasta se opôs. Deus, porém, foi mais generoso. A pecadora, compreendendo que precisava confessar-se, para recuperar a graça divina, dirigiu-se ao convento franciscano da vizinha cidade de Cortona e, ali, aos pés do ministro de Cristo, reconciliou-se com Deus, a quem tanto ofendera.
Todas as penitências lhe pareciam leves. Cortou sua longa e negra cabeleira. Disciplinava-se sem misericórdia. Jejuava a pão e água.
Num domingo, entrou na igreja de sua vila natal, vestida de farrapos e levando, como os condenados, uma grossa corda ao pescoço, e pediu püblicamente que lhe perdoassem os escândalos que dera.
Temia não estar bem perdoada. Cria que sim, mas parecia-lhe impossível, tendo pecado tão gravemente. Até que um dia, em que estava chorando diante do Crucifixo, a imagem do Cristo abriu os lábios para dizer-lhe: “Teus pecados te foram perdoados”.
Margarida foi devotíssima da Paixão do Salvador. Numa Sexta-feira Santa, quis Jesus Cristo que ela presenciasse tudo o que acontecera durante a Paixão. Passaram diante de seus olhos: o beijo de Judas, a negação de Pedro, a cobardia de Pilatos, o ódio dos judeus, os insultos na rua da Amargura e ouviu as palavras de Cristo na Cruz; e às três da tarde, hora em que expirou nosso Salvador, inclinou também ela a cabeça e pareceu que expirava. As pessoas presentes não cessavam de soluçar.
O demônio tentou-a de mil modos; mas, rezando, como costumava, diante do Crucifixo, Jesus a consolou com as seguintes palavras: “Minha filha, tem coragem e obedece ao teu confessor; desconfia de ti mesma, mas confia na minha graça”.
Faleceu a 22 de fevereiro de 1297, contando cinqüenta anos de idade. Durante os vinte últimos dias de sua vida, não provou nenhum alimento ou, melhor, o seu alimento era a sagrada comunhão.
DO LIVRO TESOURO DE EXEMPLOS

04/04/2010

Ó Senhora,



que unicamente sois Senhora de todas as criaturas, pois sois verdadeira e admirável Mãe do que é verdadeiro Deus e criador vosso, pela imensa graça que tendes nos seus olhos e pela inefável alegria que hoje recebestes logrando sua visita nos nossos, alcançai-me que de tal modo viva eu alegre, unido e conforme a sua santíssima vontade, que, merecendo os frutos de sua Paixão Sagrada, logre o consórcio de sua Ressurreição Gloriosa.




Padre Manuel Bernardes

02/04/2010

Oh! Virgem piedosíssima, amorosíssima e desconsoladíssima!

Padre Manuel Bernardes


Com que inteira vontade e com que fiel rendimento oferecestes ao Altíssimo esse precioso holocausto! Como se ajuntaram perfeitamente as duas metades desse místico pomo, com que foi reparado, cravando-se a vossa metade nas mesmas pontas das setas com que a de Jesus estava traspassada! E em quanta obrigação vos está o mundo, por haverdes sido a tanto custo correndentora sua! Bendito seja Deus, que tanto vos comunicou de sua imensa caridade. Oh! seja eu, por intercessão vossa e dignação sua, admitido à participação dessas penas suas e vossas – que só por serem vossas e suas, só por serem penas de Jesus e de Maria, penas do Filho de Deus e da Mãe de Deus, merecem todo o meu desejo e suspiro, e em si têm o prêmio de si mesmas. Ditoso de mim, se quando Jesus é afrontado e perseguido, eu também fora digno de padecer por Jesus perseguições e afrontas! Ditoso de mim, se quando a inocente pomba Maria é sacrificada e no candor de suas penas se vêem as salpicas do sangue de suas lágrimas, eu também pudesse juntar alguma coisa a esse sacrifício e acompanhar essas lágrimas. Essa fora, sem mais outra glória, a glória de minha alma: padecer sentir e arder meu pobre coração na doce companhia desses dois corações de Jesus e de Maria.