sexta-feira, novembro 30, 2012

Sentenças de São Bernardo - VI


1. Para ascender desde o vale do pranto devemos perseguir e aspirar sempre o sublime. Terra deserta, intransitável e sem água.[1] Existem três desertos: o da vaidade momentânea, que devemos desprezar com a sobriedade de vida. Convém-nos sair desse deserto, como está escrito: Quem é esta, que sobe do deserto inebriada de delícias, apoiada sobre o seu amado?[2] Inebriamo-nos de delícias com a prática de muitas virtudes. Apoiamos-nos no amado quando atribuímos a Deus nossas boas ações. Há outro deserto: o da humildade pela simplicidade cristã, chamada deserto, porque quase nenhum imitador de Cristo se preocupa em praticá-la. Necessitamos nos adentrar nesse deserto. Por isso se diz: Que é isto, que sobe do deserto, entre colunas de fumaça, exalando mirra e incenso, e toda a sorte de aromas?[3] Subimos como coluna de incenso quando nos adestramo-nos na prática das virtudes e da disciplina e, ademais, animamos os outros a fazer o mesmo. Existe ainda outro deserto: o da integridade ou simplicidade da inocência mais pura. A ele devemos subir, já que temos de suspirar pela verdadeira pureza para sermos santos de corpo e espírito. Subamos, portanto, desde o deserto da vaidade momentânea através do deserto da mais humilde simplicidade, até o deserto da mais irrepreensível pureza.

2. Nosso Senhor dispõe de flechas com que fere seus inimigos e os vence com a força de Seu braço. Há três classes de flechas que atravessam os inimigos: o desencanto do dinheiro perdido, porque muito se consome aquele que perdeu as riquezas como meio de vida e promotor de prazeres. Em seguida, há a peste das moléstias corporais que açoitam com a dor física. Assim se fecha todo o caminho a quem quer se precipitar no pecado. Em seguida, vem o martírio da representação infernal. Quando alguém se imagina rodeado por todos os lados com o peso das penas corporais, estende os olhos até essa angústia sem fim e considera com temor o horrível forno de fogo.

3. Há outras três flechas; com elas Deus traspassa inclusive a quem convida a participar da doçura de seu amor. A primeira é o temor casto. Assim se chama porque ordena o escravo que tema ao Senhor, e o persuade, advertindo-o sem cessar, a que evite o ilícito por respeito ao Senhor. Segue o amor de veneração, que coroa a inteligência e a inflama com o fogo de um amor suavíssimo. Por fim, a força do desejo, que, com uma tênue brisa a soprar na capacidade da consciência, se consome esquecendo-se de tudo, e suspira só pelo rosto do Criador, o único que satisfaz o alcance de seus desejos.

4. As sentenças e exortações dos Santos Padres nos admoestam a bem pensar, a bem falar e a bem fazer. Porque quem pensa bem goza de uma inteligência honesta, humilde e piedosa, que não se mancha nunca, não se compraz em nada soberbo e não constrói nada cruel. Se aquele que se expressa o faz com correção, humildade e transparência, quem escuta o faz com agrado; e aquele que fala não se incha com as habilidade de sua eloquência, nem pretende encobrir nada com o adereço da dissimulação ao longo da conversação. Toda obra reta, piedosa e recatada supõe já algo puro que exala inocência, destila misericórdia e não ofende nem molesta a quem a observa.
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Um comentário:

Pedro Felipe disse...

Professor, estou lendo a nova autobiografia de Chesterton lançada a pouco pela ecclesiae. Esse Senhor me surpreende muito. Meu Deus, que inteligência é esta? É espelho do divino. Esse homem é verdadeiramente obra do Espirito Santo. Deo gratias!