terça-feira, setembro 11, 2012

50 anos de Vaticano II: blog entrevista Gilbert Keith Chesterton.

Blog do Angueth – Sabemos que aggiornamento foi a palavra de ordem do Concílio Vaticano II. Esta palavra foi usada para indicar atualização, adaptação, conformação da Igreja aos novos tempos, aos tempos modernos, ao século XX. Este conceito fundamentou a afirmação, na melhor das hipóteses, ufanista de Paulo VI, que disse, ao fim do concílio: “A religião de Deus que se fez homem se encontrou com a religião (pois é uma religião) do homem que se faz Deus.” Sabemos também que em nome deste aggiornamento a Igreja foi varrida por um tsunami de proporções apocalípticas. O senhor, como grande católico e defensor da Igreja, como um erudito de primeira grandeza, como defensor fidei, certamente não se furtará a nos dar sua opinião sobre tão importante tema eclesial moderno. Would you please share your thoughts with us? (Desculpem-me, mas o homem é inglês!)

Chesterton – Embora não conheça este “Blog do Angueth”, nem saiba o que seja um blog, exceto talvez um parente distante de Frances, que tenha perdido um g em seu nome (Frances Blogg, esposa de Chesterton), reconheço que a pergunta é importante e que sua resposta é ainda mais importante.

A Igreja não pode mudar com os tempos; simplesmente porque os tempos não mudam. A Igreja pode apenas manter-se firme ao longo dos tempos, apodrecer e feder com os tempos. No mundo econômico e social em si nada há exceto aquele tipo de atividade que é chamada degeneração; o fenecimento das elevadas flores da liberdade e sua decomposição no solo aborígene da escravidão. Desse modo, o mundo está em grande medida no mesmo estágio que estava no começo da Idade das Trevas. E a Igreja tem o mesmo papel que teve no começo da Idade das Trevas; o de salvar toda a luz e liberdade que ela puder salvar, o de resistir a queda vertiginosa do mundo e o de esperar por dias melhores. Tal é o que uma Igreja real certamente faria; mas uma Igreja real poderia ser capaz de fazer mais. Poderia fazer das idades das trevas mais que um tempo de semear; poderia fazer delas o exato reverso das trevas. Poderia apresentar seu ideal mais humano, ao modo de um contraste tão súbito e atrativo à tendência desumana dos tempos, que inspirasse repentinamente os homens a uma das revoluções morais da história; de modo a que os homens ainda viventes não experimentassem a morte antes de terem visto a justiça retornar.

Não desejamos, como dizem os jornais, uma Igreja que mude com os tempos. Desejamos uma Igreja que mude o mundo. Desejamos que ela mova o mundo de muitas coisas em direção às quais ele agora se encaminha; por exemplo, o Estado Servil. É por este teste que a história realmente julgará qualquer igreja, seja ela a Igreja real ou não.

Blog do Angueth – Thank you very much!


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Nota do blog: Já escrevi aqui o que penso sobre as posições de Chesterton acerca do Concílio Vaticano II, tivesse ele vivido os tempos pós-conciliares. O texto acima apareceu num artigo do grande católico inglês, no jornal New Witness, sobre se a Igreja deve mudar com os tempos ou não. Para quem sabe ler, a conclusão sobre a posição dele em relação ao CVII é óbvia!

6 comentários:

Luiz Fernando de Andrada Pacheco disse...
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Luifel disse...

Prof. Angueth,

Acompanho seu blog faz pouco tempo e venho me aprofundando cada vez mais na fé católica graças a Deus, bem antes de conhecer o seu blog. Desde esse ano, passei a assistir regularmente à missa no rito extraordinário.

Ocorreu-me uma dúvida que acredito que o senhor possa me ajudar a sanar. Posso dizer que me considero um ex-carismático que teve a graça de descobrir a fé católica na sua beleza e profundidade reais, o que fez eu deixar de lado a RCC e seu modo de pensar.

Isso posto, fico rezando e tentando encontrar um modo de fazer com que meus pais, minha irmã (que flerta fortemente com o protestantismo) e meus amigos conheçam a beleza e a verdade da fé católica.

Contextualizando melhor: nasci numa família católica, sou a quarta geração de uma família de católicos praticantes. Ocorre que no final dos anos 1970, meus avós maternos ajudaram a difundir a RCC no Brasil. Meus avós acabaram por influencia da providência deixando a RCC e ficaram somente na vida de paroquia.

No fim da minha adolescencia eu retornei a convite de pessoas à RCC cheguei a fazer parte de uma dessas comunidades novas, mas a providência não permitiu que eu chegasse a firmar um compromisso de consagração de vida. Saindo de lá, é que pude caminhar lenta e resolutamente orientado pelo Espírito Santo em caminho de conhecer verdadeiramente a fé católica. Dai vem a maioria dos meus amigos atualmente, da RCC e dessa comunidade nova.

Hoje, nossa convivencia é pacifica, mas entrar em assuntos onde tenho que ficar esclarecendo a verdade da fé católica rendeu-me a fama de ter me tornado um tradichato, mas tudo bem, faz parte e me orgulho disso.

O meu problema é, eu me preocupo com a vida deles, dos meus amigos e da minha familia. Ambos vivem nesse limbo que não é a verdadeira fé católica e gostaria de ajuda-los a abrir os olhos para a verdade completa, já rezo por eles, mas como poderia fazer mais para que eles abram os olhos e destampem seus ouvidos para ver e ouvir as maravilhas do Senhor na sua Igreja Santa e Católica?

Obrigado pela ajuda desde já! Deus abençoe ao senhor, sua familia e o seu apostolado em defesa da nossa Santa Fé Católica.

Luiz Fernando de Andrada Pacheco disse...
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Felipe disse...

Caro Prof. Angueth, Salve Maria!

Não precisa publicar.

Teve uma frase que me soou estranha, então fui checar (somente ela) no original, e o caso é que "stick in the mud" aqui é literal mesmo: "chafurdar na lama" ou algo equivalente.

Eu traduziria a frase toda assim:

"Junto com os tempos, a Igreja só tem como chafurdar na lama, e com os tempos apodrecer e feder."

No mais, parabéns e continue com o bom trabalho!

Abraços,
Em JMJ,
Felipe

Antônio Emílio Angueth de Araújo disse...

Caro Felipe,
Salve Maria!

É sempre estimulante, às vezes apavorante, ter leitores tão cuidadosos e competentes como você. Como sei que você é da área de letras, fico aqui agradecido pelos seus comentários.

Meu entendimento é que um cara "stick in the mud" é aquele que não se mistura, que não segue as modas, um conservador, antiquado. To stick in the mud significa se firmar na lama, ou seja, não seguir tendências.

Esta é a razão de minha escolha da tradução. Além disso, acho que Chesterton quis dizer exatamente que a Igreja devia se firmar na lama, pois seu papel é "o de resistir a queda vertiginosa do mundo e o de esperar por dias melhores." Este foi meu ponto de vista.

De qualquer forma, fica registrada sua observação, pela qual lhe agradeço.

Deus lhe pague por suas palavras elogiosas.

Ad Iesum per Mariam.

Felipe disse...

Caro Prof. Angueth, Salve Maria!

O senhor é excessivamente bondoso acerca de minhas capacidades!

Entendo sua escolha e a respeito, é claro.

Só não dou o braço a torcer ainda, porque me parece que "stick-in-the-mud" no sentido apontado pelo senhor não costuma ser usado sem hífen nem de outro modo que não como substantivo ou adjetivo, e o mais importante, porque acredito que tenha sempre conotação pejorativa (assim como "múmia", em português, que exprime mais ou menos a mesma ideia).

De todo o modo, entendo que toda tradução exige uma certa interpretação, e como eu disse respeito a do senhor.

Eu próprio, aliás, vejo agora que não hesitaria em me afastar da literalidade estrita, nesse mesmo trecho - e traduzir -- embora Chesterton use "can" e não "could" -- o trecho em questão como:

"Junto com os tempos, a Igreja só poderia chafurdar na lama, e com os tempos apodrecer e feder."

Pois me parece ser este o sentido intentado pelo Autor: uma concessão argumentativa antes que a admissão de uma possibilidade real.

Mas claro que é uma interpretação minha, e é natural haver diversos pareceres sobre questões de tradução difíceis (ao meu ver) como esta.

Enfim, é sempre um prazer ler suas traduções e conversar com o senhor.

Que São Jerônimo, e -- por que não?-- o próprio Chesterton, sejam em nosso auxílio!

Abraços,
Em JMJ,
Felipe