terça-feira, novembro 01, 2011

Festa de Todos os Santos

Pe. João Batista Lehmann
Na Luz Perpétua


A Festa de Todos os Santos é uma das mais importantes do ano eclesiástico. É por assim dizer a festa da família da Igreja. Ela, a mãe dos fiéis, veste gala e entoa cânticos de alegria: “regozijemo-nos no Senhor, hoje, por causa da festa de Todos os Santos”, é o convite que faz no Introito da Missa. O ofício desta festa principia com as palavras: “Adoremos ao Rei, ao Senhor dos senhores, que é a coroa de Todos os Santos”. O dia de Todos os Santos convida-nos para lançarmos um olhar às magníficas habitações celestes e contemplarmos as multidões dos Santos, aqueles benditos do Pai, que se acham no reino que lhes foi preparado desde o princípio dos tempos. (Mt. 25,334). “Tédio tenho da terra, quando olho para o céu”, dizia Santo Inácio de Loiola. Não há espetáculo aqui na terra, por mais belo, por mais atraente que seja, que se possa comparar com a magnificência do céu, que hoje se abre à nossa vista. Um dia nos tabernáculos do Senhor, vale mais que mil dias nas tendas dos pecadores. Os nossos olhos encantados vêm os anciãos levantar-se dos tronos e depositar as coroas aos pés do Cordeiro. Exércitos intérminos de Anjos e Arcanjos rodeiam o trono do Altíssimo e entoam cânticos de louvor e de adoração, de uma beleza tal, como os nossos ouvidos jamais perceberam iguais aqui na terra. Milhares e milhares de Santos de todos os povos, de todas as nações, aparecem em vestes imaculadas, com palmas nas mãos e, dobrando os joelhos diante do trono do Altíssimo, em profunda adoração, exclamam: “Assim seja! Louvor e glória, sabedoria e ação de graças, honra e poder... ao nosso Deus em todos os séculos.”

É o grande banquete que o Filho do Rei preparou para os eleitos. Hoje o vemos rodeado dos filhos. Pois todos são filhos, regatados pelo preço do seu sangue. Todos são herdeiros, chamados para com ele reinarem eternamente.

Hoje os vemos na glória, fulgurantes como as estrelas do céu.

A pátria orgulha-se dos seus filhos, dos grandes políticos, dos gloriosos generais, dos imortais cientistas, poetas e artistas. Com justo entusiasmo lhe declina os nomes, e ergue monumentos de granito e bronze à sua memória. À mocidade são apresentados como modelos, dignos de imitação. A Igreja, com muito mais razão que a pátria, se orgulha dos seus filhos, não porque foram grandes só na vida, mas porque receberam o prêmio da vitória, não de mãos humanas, mas das próprias mãos de Deus, e gozam de uma felicidade, que poder nenhum lhes pode arrebatar.

São João Evangelista, a quem foi dado ver a glória do céu, disse: “Eu vi uma grande multidão de todos os povos.” Não compartilharmos da felicidade invejável de S. João, mas com os olhos da fé podemos ver muita coisa que nos encanta, que nos consola e anima. As multidões, que se nos apresentam, quem são? São as almas glorificadas de homens, que, como nós, aqui lutaram e sofreram. A fé apresenta-nos os Santos todos como nossos irmãos, como membros da mesma família, à qual todos nós pertencemos. Como membros desta família, devemo-nos encher de alegria e congratular-nos como os nossos irmãos, que já venceram o mundo, a carne e o demônio, e se acham no lugar onde não há mais lágrimas, tristezas e dor.

Não é só a alegria de que se enche nossa alma: a lembrança do doce mistério da comunhão dos Santos dá-nos coragem e ânimo, para continuar sem desfalecimento na luta, que nos acompanha até a morte. Se a nossa consciência nos dá o consolo de uma vida pura, felizes de nós, porque o lugar nos fica reservado, entre as gloriosas virgens, para cantar a glória do Cordeiro. Se, porém, penosamente nos arrastamos pelo caminho da dor, do arrependimento e da penitência, Santos há, nossos irmãos, que nos acenam animadamente e vem-nos à memória a bela palavra de Santo Agostinho: o que ele conseguiram, será para mim coisa impossível? Os Santos e justos regojizam-se ao verem seus modelos e protótipos como seja: S. João Evangelista, as Santas Inês, Cecília, Catarina, S. Luiz Gonzaga, S. João Berchmans e outros, ao passo que os pobres pecadores se animam e se consolam, vendo as figuras dos grandes penitentes: S. Davi, Santa Maria Madalena, O Bom Ladrão, Santo Agostinho e milhares de outros.

Os Santos orientam-nos na penosa viagem ao céu. Não desdizendo a palavra de Jesus Cristo: “o reino dos céus padece força”, indicam-nos os meios que devemos aplicar para chegar ao porto da salvação. São os mesmos que eles usaram, a saber: a observação dos mandamentos da lei de Deus, a observação da lei da caridade para com o próximo, os mandamentos da lei da Igreja, trabalho, oração, sofrimentos e mortificação. “Tende coragem!” – assim os ouvimos dizer – “o céu é vosso, o céu está perto, vos está garantido.”

Desta maneira, a festa de Todos os Santos é para nós um dia de alegria, de consolo e de animação. Os Santos foram o que somos: lutadores e muitos entre eles, pecadores. Seremos o que eles são: “Benditos do Pai.” Guardemos a esperança dos céus. “Quem tem esta esperança, santifica-se.” (Jo. 3,3) “Creio na vida eterna.” Na luta, na dor, no desanimo e na tribulação, lembremo-nos da glória que nos espera. Daqui há pouco tudo está acabado e poderemos praticamente, em nós mesmos, experimentar a verdade da palavra de São Paulo, quando disse: “olho algum viu, ouvido algum ouviu, nem jamais veio à mente do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam.” (1Cor. 2,9)

2 comentários:

Fábio Graa disse...

"Daqui a pouco tudo está acabado..."

Que frase bela! Que Nosso Senhor nos conduza àquilo que S. João da Cruz descreve em poesia:

"Entrou, enfim, a esposa no horto ameno por ela desejado; e a seu sabor repousa, o colo reclinado sobre os braços dulcíssimos do Amado"

Abraço, professor.

JBM disse...

Pe. Vieira já pregava (cito em paráfrase, pois o texto original é evidentemente muito mais rico em todos os sentidos): o homem tem dois nascimentos: O primeiro, não escolhe, pois está nos insondáveis desígnios de Deus nascer em tal e qual país, em tal e qual família, em tal e qual condição física, social e econômica, e assim por diante. Já o segundo nascimento, para o céu ou para o inferno, o homem praticamente elege, com a Graça de Deus, pelas escolhas que fizer nas estradas do livre arbítrio. Fraternalmente, JBM