sábado, junho 07, 2008

1 Tessalonicenses 5, 19-22

Agitar idéias – dizia o Padre Leonel Franca – é mais grave do que mobilizar exércitos. E continuava: “O soldado pode semear os horrores da força bruta, mas tem uma hora em que seu braço cansa e a espada torna à cinta ou se enferruja e se consome com o tempo. A idéia, uma vez desembainhada, é arma sempre ativa, que não volta ao estojo nem se embota com o tempo”.


Digo isso a respeito de recente artigo do prof. Olavo de Carvalho, intitulado Errando e Aprendendo. Neste artigo o filósofo parece interpretar a expressão “Experimentai de tudo e ficai com o que é bom” como uma sugestão, ou até um comando, para que experimentemos tudo na vida, e só depois disso, separemos o bem do mal.

Se eu o entendi bem, a interpretação do professor é muito grave. Vai contra a própria constituição da Igreja como Fidei Depositum. Chesterton fala, em Porque sou católico, da Igreja nos seguintes moldes:

Não há nenhum outro caso de uma instituição inteligente e contínua que tenha pensado sobre o pensamento por dois mil anos. Sua experiência cobre naturalmente quase todas as experiências; e especialmente quase todos os erros. O resultado é um mapa no qual todas as ruas sem saída e as estradas ruins estão claramente marcadas, todos os caminhos que se mostraram sem valor pela melhor de todas as evidências: a evidência daqueles que os percorreram.

Nesse mapa da mente, os erros são marcados como exceções. A maior parte dele consiste de playgrounds e alegres campos de caça, onde a mente pode ter tanta liberdade quanto queira; sem se esquecer de inúmeros campos de batalha intelectual em que a batalha está ternamente aberta e indefinida. Mas o mapa definitivamente se responsabiliza por fazer certas estradas se dirigirem ao nada ou à destruição, a um muro ou ao precipício. Assim, ele evita que os homens percam repetidamente seu tempo ou suas vidas em caminhos sabidamente fúteis ou desastrosos, e que podem atrair viajantes novamente no futuro. A Igreja se faz responsável por alertar seu povo contra eles; e disso a questão real depende. Ela dogmaticamente defende a humanidade de seus piores inimigos, daqueles grisalhos, horríveis e devoradores monstros dos velhos erros. Agora, todas essas falsas questões têm uma maneira de parecer novas em folha, especialmente para uma geração nova em folha.

A interpretação do professor parece também contrária à tradição da Igreja. Na Homilia 11 sobre a primeira Epístola aos Tessalonicenses, São João Crisóstomo discorre sobre a passagem que contém o versículo a que o prof. Olavo se refere. Ele nos diz:

Houve entre eles [tessalonicenses] muitos que profetizavam verdadeiramente, mas alguns profetizavam falsamente. Isso ele também diz na Epístola ao Coríntios, que por isso Ele deu o
discernimento dos espíritos (1 Cor. 5, 10). Pois o demônio, por meio de sua ação vil, interfere com o espírito [‘Não extingais o espírito’] para subverter tudo quanto pertence à Igreja. Como ambos o demônio e o Espírito profetizam com relação ao futuro, um dizendo mentira e o outro, verdade, não era possível provar qual estava errado (...) [e por isso] Ele deu também o discernimento dos espíritos. Ele [Paulo] diz isso aqui porque havia então muitos que profetizavam entre os tessalonicenses. Ou seja, não proíba as profecias porque há falsos
profetas, não despreze as profecias.

“Vês que isso é o que ele quer dizer pela expressão ‘Provai todas as coisas’? Porque ele dissera ‘Não desprezeis as profecias’, para que não se pensasse que ele tinha fraqueado o púlpito a todos, ele disse, ‘Provai todas as coisas’, isto é, se as profecias são realmente verdadeiras; e apegue-se àquelas que são boas. Abstenha de todo o mal; não deste ou daquele, mas de todo o mal.


Na mesma linha de São João Crisóstomo, o comentário do Pontifício Instituto Bíblico do Roma (Novo Testamento, Edições Paulinas, 1969) diz o seguinte, sobre 1 Tessalonicenses 5, 19-21:


Devem os cristãos nutrir grande estima pelos carismas, dons que o Espírito Santo concedia especialmente nos inícios do cristianismo (cf. 1Cor 13 e 14), particularmente pelo dom da profecia; devem, porém, ter o cuidado de saber avaliar, discernir e reter só as profecias verdadeiras (cf. 1Cor 14,20).


Ou seja, a Tradição da Igreja, restringe aquele “Provai tudo” ao dom das profecias, para que se pudessem distinguir as profecias falsas das verdadeiras. Essa interpretação faz sentido também se analisarmos todo o epistolário Paulino. O próprio prof. Olavo admite que “São Paulo, ao longo de suas cartas, enunciou muitas regras de conduta, mais pormenorizadas do que aquelas contidas nos Dez Mandamentos. Se você lê essas regras, já sabe portanto o que, segundo o ensinamento do Apóstolo, é bom e é mau.”


Eu diria que, o católico, sabe o que é bom e o que é mau, pelas Escrituras Sagradas, pela Tradição da Igreja, pelo Catecismo. Não temos de experimentar tudo para separar o bom do mau. Mas, repitamos as palavras de Chesterton: há, no campo delimitado pela Igreja, “playgrounds e alegres campos de caça, onde a mente pode ter tanta liberdade quanto queira; sem se esquecer de inúmeros campos de batalha intelectual em que a batalha está eternamente aberta e indefinida”.

O católico antes de ser experimentador é um obediente. Obediente à Igreja, obediente a Deus. Quase sempre não realizamos a perfeita obediência, mas isso é outra história. Cito, sobre esse assunto, um trecho de “Dois Amores, Duas Cidades”, de Gustavo Corção:


Desde o pseudo-Dionísio, até os mais modernos autores de teologia mística, o progresso na santificação é de certo modo simétrico ao progresso de emancipação. Nos primeiros passos, o homem movido pela solicitação da graça de Deus põe em jogo as virtudes, e caminha com o esforço que os obstáculos do caminho pedem. Essa primeira fase, chamada via purgativa, se caracteriza, segundo o ensino clássico, pelo modo das virtudes que tem semelhança com o modo humano de progredir. É a fase da arrancada, da partida, do arranco, na qual permanecem quase todas as vidas cristãs. A fase seguinte, dos perfeitos, se caracteriza pela maior plenitude da operação dos dons, que são como os ventos de Deus nas velas das alma. O homem mais perfeitamente espiritual é aquele que é levado pelo Espírito, como diz São Paulo, e não aquele que ainda luta e se debate nas purificações ascéticas. Daí o supremo valor da obediência nessa obra em que todas as iniciativas vêm de Deus, como também todas as energias para permitirem ao homem o take-off sobrenatural. E daí os aparente paradoxos com que se tenta definir a santidade. O servo de Deus é o mais livre dos homens. A alma santificada é a que realiza a mais perfeita virilidade na mais perfeita infância. O coração do santo é um fogo que vitaliza em vez de carbonizar, ou é un ouragan docile, como disse Maritain.

Sei que essa obediência à Escritura e à Igreja pode soar a muitos como perda de liberdade – apesar dos playgrounds e alegres campos de caça de que nos fala Chesterton. Como esse conceito de liberdade já foi muito aviltado, nos últimos 4 séculos, digo apenas que o conceito de liberdade dos católicos é aquele que é muito bem definido na magistral Encíclica Libertas, de Leão XIII.


9 comentários:

Anônimo disse...

Ufa! Pensei que ninguém havia notado isso! Até fui ao Orkut ver o que diziam, e todos faziam os maiores elogios. Ler este seu texto foi um alívio, agradeço.

Gederson disse...

Prezado Prof. Angueth,
Salve Maria!

A interpretação que o Prof. Olavo de Carvalho, não esta errada, mas sim a palavra utilizada na tradução. O experimentar tudo e reter o que é bom é um dos maiores dogmas da modernidade. Em nosso tempo o homem julga o que é bom pelo sentimento produzido após a experiência. Se o sentimento for bom, ele o retém, se ele for mal, ele o descarta.

Exatamente por esta postura que nossas opiniões sobre o homossexualismo, por exemplo, são tidas como preconceito. Na mentalidade moderna, uma vez que não temos a experiência homossexual, não podemos julgar o homossexualismo, sem que nosso julgamento seja considerado um pré-conceito. Porque todo conceito atualmente é formulado a partir da experiência, ou seja, a partir do ato. Não se aceita mais um julgamento da potência para se decidir pela experiência ou para a condenar. Na era da razão, o homem não segue o seu instinto.

Li outras traduções na qual se lê "Julgai", na Vulgata aparece a palavra "Probate" e na Ave-Maria aparece a palavra "examinai." A mudança da palavra sugere uma mudança do sentido metafisico para o sentido empírico que não se sustenta no contexto do própio texto que é metafísico. No contexto específico, deveríamos acreditar na profecia, porque a experiência da profecia vem com a sua realização. Já o julgamento, a prova e o exame leva nos a discernir sobre a profecia sem que esperemos necessariamente pelo seu cumprimento ou não cumprimento. Isto lembra o Padre Henri Boullaird, da nova teologia, denunciado pelo grande tomista, Pe Garrigou Lagrange. Veja o que diz o Pe denunciado:

"Quando o espírito evolui, uma verdade imutável não se mantém senão graças a uma evolução simultânea e correlativa de todas as noções, mantendo entre elas uma mesma relação. Uma teologia que não fosse atual seria uma teologia falsa." Conversion et gráce chez Saint Thomas d'Aquin

Ora, não existe evolução simultânea e correlativa de todas as noções, mantendo entre elas uma mesma relação sem que se altere também a palavra. Para ilustrar isto lhe dou dois exemplos:

Já faz algum tempo, participei de um debate no Orkut, onde o nome de DEUS; "Eu sou o que sou", teria sido um erro de tradução da Septuaginta. Há tradução correta da palavra hebraíca, seria; "Eu serei o que serei" que é um reflexo da teologia moderna, a teologia do "vir a ser." Esta tradução aplica-se mais ao inimigo da fé cristã, DEUS é aquele que é, não aquele que virá a ser. É claro que é uma tradução falsa e que altera o sentido da Teologia do ser para a teologia do vir a ser que é a teologia do não ser.

Na Encíclica Spes Salvi, o Papa Bento XVI, cita uma tradução protestante que se impôs na Conferência Episcopal Alemã

"... No século XX, esta interpretação impôs-se também na exegese católica – pelo menos na Alemanha – de modo que a tradução ecuménica em alemão do Novo Testamento, aprovada pelos Bispos diz: « Glaube aber ist: Feststehen in dem, was man erhofft, Überzeugtsein von dem, was man nicht sieht » (fé é: permanecer firmes naquilo que se espera, estar convencidos daquilo que não se vê). Em si mesmo, isto não está errado; mas não é o sentido do texto, porque o termo grego usado (elenchos) não tem o valor subjectivo de « convicção », mas o valor objectivo de « prova ». Com razão, pois, a recente exegese protestante chegou a uma convicção diversa: « Agora, porém, já não restam dúvidas de que esta interpretação protestante, tida como clássica, é insustentável ».[5] " Carta Encíclica Spes Salvi - Bento XVI

Por que Lutero alterou o sentido do versiculo e em outro versículo incluí o somente pela fé ?

Professor, estes são alguns exemplos que ilustram o fato das traduções modernas não serem lá muito confiáveis. Há CNBB tem uma bíblia ecumênica que é uma porcaria, a nova KJV é um lixo e fora outras que desconhecemos. Isto sem contar a linguagem do novo catecismo. Outro lembrança problemática que prova a pouca fidelidade dos tradutores modernos, é um artigo da Montfort, sobre São Gregório Magno, veja:

Montfort:
“E se quereis saber, João é o próprio Elias que há de vir” (Mt XI, 14) - Papa São Gregório Magno proclamou que João Batista foi reencarnação de Elias?
http://www.montfort.org.br/index.php?secao=cartas&subsecao=apologetica&artigo=20060118180050&lang=bra

Bíblia Ave Maria:
14. E, se quereis compreender, é ele o Elias que devia voltar.
http://www.bibliacatolica.com.br/01/47/11.php

Vulgata:
14. et si vultis recipere ipse est Helias qui venturus est
http://www.bibliacatolica.com.br/09/47/11.php

Em um site espírita, tem se a citação da vulgata e a mesma e a mesma tradução da citação de São Gregório (Interpretada erroneamente). Há tradução da Montfort e da Vulgata, sugerem que Elias há de vir, ele não veio. Já o texto da edição Ave Maria, sugere que Elias veio e é São João Batista. Por que? Uma das interpretações esta errada, porque ambas não podem ser opostas.

Aplique a alteração das palavras as tentações que sofremos. Tanto no contexto paulino quanto no das tentações, o uso da palavra experimentai, induz a experiência e ao erro. É por isso que eu digo que para a mentalidade moderna, Jesus errou ao não experimentar as tentações no deserto.. Na modernidade até mesmo Satã é vitíma de preconceito e as suas tentações foram convertidas em ... preconceitos. Diz muito bem a escritura que ele é astuto.

O católico julga para escolher a experiência que melhor lhe convém como católico. Baseado no que também diz São Paulo, "tudo me é licíto, mas nem tudo me convém." O homem moderno tem a experiência para ter um sentimento, isto faz parte de seu processo de "evolução." Na prática ele segue o institinto e se deleita nos sentimentos que a experiência produz, é o que diz São Pio X, em relação aos modernistas:

"Agora, passando a considerá-lo como crente, se quisermos conhecer de que modo, no modernismo, o crente difere do filósofo, convém observar que, embora o filósofo reconheça por objeto da fé a realidade divina, contudo esta realidade não se acha noutra parte senão na alma do crente, como objeto de sentimento e afirmação; porém, se ela em si mesma existe ou não fora daquele sentimento e daquela afirmação, isto não importa ao filósofo. Se, porém, procurarmos saber que fundamento tem esta asserção do crente, respondem os modernistas: é a experiência individual. Com esta afirmação, enquanto na verdade discordam dos racionalistas, caem na opinião dos protestantes e dos pseudo-místicos.

Eis como eles o declaram: no sentimento religioso deve reconhecer-se uma espécie de intuição do coração, que pôs o homem em contato imediato com a própria realidade de Deus e lhe infunde tal persuasão da existência dele e da sua ação, tanto dentro como fora do homem, que excede a força de qualquer persuasão, que a ciência possa adquirir. Afirmam, portanto, uma verdadeira experiência, capaz de vencer qualquer experiência racional; e se esta for negada por alguém, como pelos racionalistas, dizem que isto sucede porque estes não querem pôr-se nas condições morais que são necessárias para consegui-la. Ora, tal experiência é a que faz própria e verdadeiramente crente a todo aquele que a conseguir. " Pascendi Dominici Gregis - São Pio X

O homem moderno e o modernista católica, acreditam que o julgamento após a experiência, é a medida das coisas que são e das que não são para cada um em particular. É por isto que dizem que o que é bom para mim, não é bom para você. Trata-se somente de sentimentos em relação a experiência e não em relação a razão. O que menos importa é se a razão é verdadeira ou falsa... e estamos na era da razão. Fique com DEUS.

Abraços

Gederson

Anônimo disse...

Alguém sabe se existe algum livro com os comentários dos santos sobre cada trecho do evangelho ?

Antonio Emilio Angueth de Araujo disse...

Caro Gederson,

Salve Maria!

Seus longos comentários são muito elucidativos. Os problemas de tradução das Escrituras são muitos e sempre existiram, desde São Jerônimo. O que há modernamente é um uso deletério da tradução para torcer as palavras de Deus com a intenção de destruir a Igreja. Isso é muito novo. Há até uma invenção do CVII que é a tal de Nova Vulgata. Ou seja, agora temos de mudar a tradução de São Jerônimo para adequá-la à "evolução" da Igreja.

Quem lê a obra exegética de um Santo Agostinho sente o esforço desse santo na busca da melhor compreensão das palavras de Deus e na luta contra os hereges.

Quanto ao texto do prof. Olavo, há muitos outros aspectos que eu não comentei por achar que eu devia esboçar uma resposta apenas no que diz respeito às palavras de São Paulo. Há inequívocas tendências gnósticas e protestantes no texto. Um debate amplo dessas questões foge da minha competência e assim eu me ative no que eu podia dar alguma contribuição.

Obrigado pelo seu comentário que complementa o texto do blog brilhantemente.

Que Deus te abençoe.

Antônio Emílio.

Antonio Emilio Angueth de Araujo disse...

Caro anônimo,

Muitos santos comentaram tanto o Novo quanto o Velho Testamento. Não conheço nenhum livro que compile esses comentários. Contudo, se você tiver uma boa tradução da Bíblia (antes do Concílio Vaticano II), ela terá bons comentários biblícos.

Eu sugiro que você leia uma encíclica muito boa de Leão XIII intitulada "Providentissimus Deus".

Um abraço.

Antônio Emílio.

Anônimo disse...

Já que se tocou no assunto das traduções tendenciosas da Bíblia, qual tradução portuguesa e católica disponível seria a melhor?

Antonio Emilio Angueth de Araujo disse...

Sobre traduções da Bíblia, sugiro sempre que se use uma Bíblia traduzida e comentada pré-Concílio Vaticano II.

Dizem que uma das melhores traduções da Vulgata é a do Pe. Matos Soares.

As Bíblias da década de 1960 são ainda imunes ao CVII e há até algumas dos anos 1980 que são relativamente imunes ao concílio.

Fuja da Bíblia Pastoral da CNBB. Ver, sobre esse assunto, Exegese de uma exegese bíblica.

Antônio Emílio.

Anônimo disse...

Ontem, em seu talk show, o Olavo disse que o sr. pertencia à Permanência, porque ele vira "um link para a Permanência" aqui (é um modo singular de descobrir se alguém é membro de uma associação, verificar os links...). Um ouvinte, no entanto, disse que o sr. era membro da Montfort de Belo Horizonte. Gostaria então de saber se o senhor é membro de alguma dessas Associações ou se ambos, o Olavo e seu ouvinte, estão enganados. Grato.

Glaucio Vinicius disse...

Salve Regina.

Achei isso agora. Sei que a questão parece estar resolvida, mas, o professor Olavo falou disso neste áudio.

http://www.youtube.com/watch?v=ZBjz1AC3iWM