26/10/2009

Lições das missas dominicais pós-Vaticano II– Parte XXVI

N’O DOMINGO, Semanário Litúrgico-Catequético, de 13/09/2009, Pe. Paulo Bazaglia comenta, no artigo intitulado “Encontrando a vida”, o Evangelho Mc 8, 27-35. Nesta passagem Jesus pergunta aos discípulos quem eles acham que Ele é, diz que vai sofrer muito, ensina a Pedro uma dura lição e acaba dizendo “quem quiser salvar a vida perdê-la-á, mas quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, salvá-la-á.”

O artigo do Pe. Bazaglia é, de fato, um exemplo didático do livre exame das Escrituras, proposto por Lutero. Se Pe. Bazaglia fosse pastor protestante, eu nada comentaria de seu artigo. Sendo padre, eu não posso deixar de comentar e reprovar o que ele escreve.

“Um dos grandes enganos do cristianismo, ao longo destes dois milênios, é ter transformado a cruz de Jesus de conseqüência em princípio”, diz Pe. Bazaglia. Veja que esse padre vem nos dizer que o cristianismo bimilenar, que só pode ser o catolicismo (palavra incômoda para os padres moderninhos), cometeu um engano que, não fosse, ele, Pe. Bazaglia, dele não teríamos notícia. Imaginem vocês toda a galeria dos Padres gregos e latinos, muitos deles santos e doutores da Igreja. Imaginem os santos medievais, Santo Alberto Magno, Santo Tomás de Aquino, São Boaventura. Imaginem depois, Santa Catarina de Sena, Santa Teresa de Ávila, Santo Inácio de Loyola. Um pouco depois, São José Maria Grignion de Montfort, Santo Afonso Maria de Ligório. Enfim, todos estes e muito mais, todos estavam enganados em relação ao significado da cruz. Numa missa imaginária em que se encontrassem todos esses santos, Pe. Bazaglia, em sua homilia, iria subir ao púlpito e dizer: todos os senhores estão e estiveram errados com relação ao significado da cruz. Imaginem a cena!

Ora, por que a Cruz deve ser o princípio para todo católico? Porque a Cruz significa Redenção e se não partirmos da Redenção, da certeza de que a Cruz nos redimiu, não a todos, mas a muitos de nós, de onde é que partiríamos? É ela que nos dá a confiança de que nós merecemos o perdão de Deus, não pelos nossos mérito, mas pelos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Pe. Bazaglia discorda disso. Querem ver? Ele diz: “Quando a cruz se transforma em princípio para a vida cristã, no entanto, a cruz de Jesus é traída. A cruz como princípio se torna facilmente dissociada da vida, levando a um espiritualismo vazio que nada transforma e pode chegar ao masoquismo.” Pe. Bortolini, em artigo do mesmo semanário, chama também de traidor a todo católico que respeita a tradição da Igreja. Agora, ficamos sabendo que nós católicos que colocamos a Cruz de Cristo como princípio de nossas vidas, somos também traidores, e também masoquistas. Chamar a frase do Pe. Bazaglia de herética é pouco. É preciso já ter perdido todos os resquícios de catolicismo para que se afirme algo tão blasfemo.

Duas lembranças me ocorreram quando li a frase acima. A primeira é que a acusação de masoquista foi feita também a São Padre Pio que, segundo os acusadores, se infligia os ferimentos dos estigmas de Cristo. Ele que viveu, durante 50 anos, literalmente crucificado. Este santo, Pe. Bazaglia, transformou a Cruz em princípio. Na verdade, ela, a Cruz, se incrustou em sua carne. São Padre Pio, rogai por nós.

A segunda lembrança foi a de 1Cor 1, 18: “De fato, a palavra da cruz é loucura para aqueles que se perdem; mas, para nós, que estamos no caminho da salvação, é força de Deus.”. Lembrei também de 1Cor 1, 22-23: “Na verdade, os judeus pedem milagres e os gregos procuram a sabedoria; nós, ao invés, pregamos a Cristo crucificado, que é um escândalo para os judeus e uma loucura para os gentios.”

Mas, Pe. Bazaglia nos informa que São Paulo estava “enganado” quando dizia (Gal 2, 19): “De fato, eu, por meio da lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus; com Cristo me encontro cravado na cruz, e já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim.” Isso, no livre exame de Pe. Bazaglia é “espiritualismo vazio”. São Paulo estava “traindo a cruz” quando dizia (Gal 5, 24): “Ora, os que pertencem a Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e os seus desejos.”

Pe. Bazaglia ainda nos surpreende ao final do artigo. Ele diz: “O único bem que temos é a vida, presente de Deus, e somente a encontraremos à medida que a entregarmos em favor dos irmãos, pela mesma causa de Jesus.” Ai, meu Jesus Cristinho! Pe. Bazaglia não sabe o que quer dizer perder esta vida para ganhar a outra.

Vamos ver se este padre aprende alguma coisa sobre “perder esta vida” para obter a outra de Santa Teresa de Ávila. Ela diz no “Caminho da Perfeição”, capítulo VIII, o seguinte. Os negritos são meus.

“Agora vamos ao desapego que devemos ter, pois tudo está nisto se for com perfeição. Digo que aqui está tudo, porque, abraçando-nos só com o Criador e não se nos dando nada de todas as coisas, Sua Majestade infunde as virtudes de maneira que, trabalhando nós pouco a pouco o que está em nosso poder, não teremos muito a pelejar, pois o Senhor toma em Sua mão a nossa defesa contra os demônios e contra o mundo. Pensais, irmãs, que é pequeno bem procurar este bem de nos darmos todas ao Todo sem fazermos partilhas? E, pois n’Ele estão todos os bens.”

Então, “perder esta vida” é morrer para o mundo, “não se nos dando nada de todas as coisas”. Mais à frente, ainda falando às suas filhas do Carmelo, Santa Teresa diz: “mas resta desapegarmo-nos de nós mesmas e este apartar-nos de nós mesmas e sermos contra nós é coisa dura, porque estamos muito unidas a nós e nos amamos muito.”

Assim, Pe. Bazaglia, morrer para esta vida, estarmos “com Cristo cravados na cruz”, não é ser solidário, não é “entregarmos a vida em favor dos irmãos” – que pode muito bem significar um marxismo de segunda mão –, não é participarmos de pastorais de nossa paróquia, não fazermos doação para o “Criança Esperança”. É muitíssimo mais que isso. É desapegarmos das coisas do mundo e também de nós mesmos. É “sermos contra nós”. E isso, padre, significa estarmos crucificados com Cristo, significa colocarmos a Cruz em primeiro lugar, no princípio. E isso, quem o consegue?



1. Para fazer DOWNLOAD DO LIVRO com os primeiros 19 posts sobre a Missa de Paulo VI (e algumas coisas mais) clique aqui.
2. Para ver outros comentários sobre a Missa nova, clique:
Parte XX, Parte XXI, Parte XXII, Parte XXIII, Parte XXIV, A dissolução da catequese: Romano Amério conta como foi, Parte XXV

22/10/2009

RAÍZES DA SANIDADE

Do livro "A Coisa", publicado em 1929.

G.K. Chesterton

O Deão da Catedral de São Paulo, quando está certo, está muito certo. Ele está certo com toda aquela ênfase ressonante que o faz, em outras questões, tão imprudente e desastrosamente errado. E não posso senão saudar com gratidão o desdém com que ele se referiu ultimamente a todo o contra-senso dos jornais a respeito do uso de glândulas de macacos para transformar homens velhos em homens jovens; ou macacos jovens, se isso for o próximo passo na direção do Super-homem. Ele tentou, não de forma artificial, contrabalançar sua denúncia daquele materialismo tão experimental que ele sempre nos acusa de denunciar, dizendo que esse materialismo é um extremo do mal e que o catolicismo é o outro. A esse respeito, ele diz uma das coisas usuais que comumente considera fácil dizer, e que nós geralmente consideramos toleravelmente fácil responder.

Um bom exemplo das acusações contraditórias do Deão contra Roma é que ele aparentemente nos coloca na mesma categoria daqueles que deixam seus filhos completamente “inadvertidos” a respeito dos perigos morais do corpo. Isso é muito divertido, considerando que temos sido insultados, por décadas, por forçarmos os jovens na direção da infame Confissão.

Outro dia mesmo, notei que Sir Arthur Conan Doyle reviveu esta acusação de um ataque à inocência; e deixarei o Deão Inge[1] e Sir Arthur resolver esta questão. E quando ele nos acusa de indiferença em relação à eugenia e à procriação de criminosos e loucos, é suficiente que ele próprio tenha denunciado a perversão da ciência manifestada no caso dos macacos. Talvez ele permita que outros se ofendam igualmente com os esquemas que fazem os homens agirem como loucos e criminosos a fim de evitarem a loucura e o crime.

Há, contudo, outro aspecto dessa questão de estar certo ou errado, que não é tão freqüentemente associado conosco, mas que é igualmente consistente com nossa filosofia, e que tem uma notável relação com o tipo de questão aqui levantada pelo Deão Inge. Este aspecto se relaciona não só a questões em que o mundo está errado, mas, ainda mais especialmente, a questões em que o mundo está certo. O mundo, especialmente o mundo moderno, alcançou uma curiosa condição de ritual ou rotina; na qual podemos quase dizer que ele está errado mesmo quando está certo. Ele continua, em grande parte, fazendo as coisas razoáveis. Mas ele está rapidamente cessando de ter qualquer argumento razoável para fazê-las. Está sempre nos afirmando a morte da tradição. Está sempre nos denunciando por superstição; e suas próprias e principais virtudes são agora, quase inteiramente, superstições.

O que quero dizer é que quando estamos certos, estamos certos por princípio; e quando eles estão certos, estão certos por preconceito. Podemos dizer, se eles assim o preferirem, que eles estão certos por instinto. De qualquer forma, eles ainda estão contidos, por saudável preconceito, contra muitas coisas em direção as quais eles correriam pela sua própria lógica doentia. É mais fácil tomar exemplos muito simples e extremos; e alguns dos extremos estão muito mais perto de nós do que muitos imaginam.

Assim, muitos de nossos amigos e conhecidos continuam a entreter um saudável preconceito contra o canibalismo. O momento em que este próximo passo na evolução ética será dado parece ainda distante. Mas a noção de que não há muita diferença entre os corpos de homens e de animais – de que não estão, de nenhuma forma, distantes, mas muito próximos – é expressa em centenas de maneiras, como um tipo de comunismo cósmico. Podemos quase dizer que é expressa de todas as formas, exceto pelo canibalismo.

Essa noção é expressa, como no caso de Voronoff,[2] na colocação de partes de animais nos homens. Ela é expressa, no caso dos vegetarianos, na não colocação de partes de animais nos homens. É expressa quando se deixa um homem morrer como morre um cachorro, ou quando se considera mais patético a morte de um cachorro do que a de um homem. Alguns se inquietam sobre o que acontece com os corpos dos animais, como se estivessem certos de que um coelho se ressentisse em ser cozido, ou que uma ostra exigisse ser cremada. Alguns são ostensivamente indiferentes ao que acontece aos corpos dos homens; e negam toda a dignidade aos mortos e todo gesto de afeto aos vivos. Mas todos têm uma coisa em comum; consideram os corpos humano e bestial como coisas comuns. Pensam neles sob uma generalização comum; ou, na melhor das hipóteses, sob condições comparativas. Entre pessoas que chegaram a esta posição, a RAZÃO para desaprovar o canibalismo já se tornou muito vaga. Permanece como uma tradição e um instinto. Felizmente, graças a Deus, embora seja agora muito vaga, é ainda muito forte. Mas, embora o número dos mais ardentes pioneiros éticos que provavelmente começariam a comer missionários cozidos seja muito pequeno, o número daqueles dentre eles que conseguiriam explicar suas próprias razões reais para não fazê-lo é ainda menor.

A razão real é que todas essas sanidades sociais são agora as tradições dos antigos dogmas católicos. Como muitos outros dogmas católicos, eles são sentidos de uma maneira vaga mesmo pelos pagãos, na medida em que são pagãos sadios. Mas quando se trata de, não meramente senti-los, mas formulá-los, será descoberto que eles são uma fórmula da Fé. Este é o caso de todas aquelas idéias de que os modernistas mais desgostam, sobre “criação especial”,[3] sobre a imagem Divina que não acontece por mera evolução, e sobre o abismo entre o homem e as outras criaturas. Em resumo, são aquelas mesmas doutrinas pelas quais homens com o Deão Inge estão nos acusando, como coisas que nos impedem de ter uma completa confiança na ciência ou uma completa unidade com os animais. São elas que se interpõem entre os homens e o canibalismo – ou possivelmente as glândulas de macacos. Eles têm o preconceito; e que eles o retenham por muito tempo! Nós temos o princípio, e eles são bem-vindos quando o quiserem.

Se Euclides estivesse demonstrando com diagramas pela primeira vez e usasse o argumento da REDUCTIO AD ABSURDUM, ele teria agora somente produzido a impressão que seu próprio argumento era absurdo. Estou bem consciente de que exponho-me a esse perigo por estender o argumento de meu oponente a um extremo, que pode ser considerado uma extravagância. A questão é, por que é uma extravagância? Sei que, neste caso, será argumentado que a característica social do canibalismo é rara em nossa cultura. Pelo que sei, não há restaurantes canibais ameaçando se tornarem moda em Londres, como os restaurantes chineses. Antropofagia não é como Antroposofia, um assunto de conferências públicas; e, variadas como são as religiões e moralidades entre nós, cozinhar missionários ainda não é uma missão. Mas se alguém tem uma lógica tão modesta que não perceba o significado de um exemplo extremo, não tenho dificuldade em dar um exemplo muito mais prático e urgente. Há alguns anos, todas as pessoas sãs teriam dito que o Adamismo[4] era muito mais louco que a antropofagia. Um banqueiro que andasse sem roupa pelas ruas seria um contra-senso equivalente a um açougueiro que vendesse carne humana ao invés de carne de carneiro. Ambos seriam o surto de um lunático sob a ilusão de ser um selvagem. Mas temos visto os Novos Adâmicos ou o Movimento dos Sem Roupa se instituírem muito seriamente na Alemanha; com uma seriedade de que somente os alemães são capazes. Os ingleses são provavelmente ainda ingleses o suficiente para rirem e desgostarem disso. Mas eles riem por instinto; e eles desgostam somente por instinto. Muitos deles, com sua atual e confusa filosofia, teriam provavelmente uma grande dificuldade em refutar um professor prussiano de nudez, por mais que eles desejassem ardentemente dar nele um chute. Pois, se examinarmos as controvérsias correntes, descobriremos a mesma condição negativa e indefensável do caso da teoria do canibalismo. Todos os argumentos da moda usados contra o puritanismo levam, de fato, ao adamismo. Não quero dizer, claro, que eles não sejam muitas vezes praticamente saudáveis como contra o puritanismo; também não digo que não haja melhores argumentos contra o puritanismo. Mas digo que em relação à lógica pura, o homem civilizado baixou a guarda; e está, por assim dizer, nu contra os ataques da nudez. Desde que ele esteja meramente satisfeito em argumentar que o corpo é belo ou que o que é natural é certo, ele se rendeu ao adâmico em teoria, embora ainda possa demorar, queira Deus, um longo tempo antes que ele se renda na prática. Aqui, novamente o teórico terá de defender sua própria sanidade com um preconceito. Somente o teólogo medieval pode defendê-la com uma razão. Não preciso me aprofundar muito sobre esta razão; é suficiente dizer que ela é fundada na Queda do Homem, tal como o outro instinto, contra o canibalismo, é fundado na Divindade do Homem. O argumento católico pode ser colocado resumidamente dizendo-se que o corpo do homem não é o problema; o problema é a alma do homem.

Em outras palavras, se o homem fosse completamente deus, poderia ser verdade que todos os aspectos de seu ser corporal fossem divinos; tal como se ele fosse completamente uma besta, dificilmente poderíamos culpá-lo por qualquer dieta, por mais bestial que fosse. Mas dizemos que a experiência confirma nossa teoria sobre a complexidade humana. Esta não tem nada a ver com coisas naturais em si. Se narizes vermelhos misteriosamente fizessem os homens assassinar, faríamos leis para cobri-los; mas narizes vermelhos seriam tão puros quanto narizes brancos.

Em muitas pessoas modernas há uma batalha entre as novas opiniões, que eles não seguem até seus fins, e as antigas tradições, que eles não seguem até seus começos. Se eles seguissem adiante com as novas noções, isso os levaria até Bedlam.[5] Se eles seguissem retrospectivamente os melhores instintos, isso os levaria a Roma. Na melhor das hipóteses, eles permanecem em suspenso entre duas lógicas alternativas, tentando dizer a si mesmos, como o faz o Deão Inge, que eles estão meramente evitando dois extremos. Mas há esta grande diferença em seu caso: a questão em que ele está errado é, não importa sob que forma pervertida, uma questão de ciência, enquanto que a questão em que ele está certo é simplesmente uma questão de sentimento. Não preciso dizer que eu não uso a palavra aqui num sentido depreciativo, pois nessas coisas há um parentesco muito próximo entre sentimento e sentido. Mas o fato permanece de que todas as pessoas nessa posição podem apenas ser sentimentais. Toca a nós sermos também razoáveis.

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[1] William Ralph Inge (1860-1954), professor, escritor e padre anglicano. (N. do T.)
[2] Serge Abrahamovitch Voronoff (1866-1951), médico francês de origem russa, ganhou fama por sua técnica de extrair tecido de testículos de macacos para enxertá-lo em testículos humanos. (N. do T.)
[3] Diríamos hoje, design inteligente. (N. do T.)
[4] Crença do séc. II e II, que defendia uma nudez ritualística, à semelhança da nudez de Adão no Paraíso. (N. do T.)
[5] Nome popular do Hospital Santa Maria de Belém, em Londres, que é um sanatório de psicopatas. (N. do T.)
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Leiam, do livro "A Coisa": Por que sou católico, A Revolta contra as Idéias, A lógica e o tênis, Um pensamento simples.

16/10/2009

A dissolução da catequese: Romano Amério conta como foi

Comentei aqui, já por duas vezes (uma, duas), artigos que estão sendo publicados n’O DOMINGO, semanário dito litúrgico e catequético, sobre catequese, em função do ano catequético de 2009, assim definido pela abortista CNBB.

Estes artigos e as idéias que contêm são uma conseqüência do Concílio Vaticano II. A catequese católica foi uma das primeiras coisas que se dissolveram depois do concílio. Romano Amério, em seu magistral Iota Unum, fala sobre a dissolução da catequese no capítulo XIII de seu livro. Diz o autor que “com a remoção da autoridade magisterial e a redução da verdade à mera busca da verdade, a reforma da catequese não podia senão se dar no sentido heterodoxo que mudou seu conteúdo por meio da mudança de método.”

Amério comenta que ainda em 1969, um congresso em Assis pedia, em seu documento final, o abandono de qualquer conteúdo dogmático na catequese, isto é “qualquer coisa especificamente católico”. Devia-se substituir o ensino da religião católica pelo ensino da história das religiões, pois o primeiro tipo de ensino era “considerado um privilégio injusto num país democrático”.

O Sínodo Episcopal de 1977 discutiu a nova catequese, esta que aparece nos artigo d’O DOMINGO. O Bispo de Saragossa, segundo Amério, defendeu que a catequese “deve promover a criatividade, o diálogo e a participação ativa dos catecúmenos, sem esquecer de que é uma ação da Igreja.” Amério comenta a seguir: “Criatividade é, de fato, uma absurdidade moral e metafísica, mas mesmo que não fosse, dificilmente poderia ser o objetivo da catequese, pois na visão cristã, o homem não se torna um fim em si mesmo; o fim é dado, ele simplesmente tem de querê-lo.” Declarações ainda mais assustadoras foram feitas neste sínodo: “a catequese dever trazer a experiência de Cristo”, “a catequese é liberada pela experiência de Deus pela humanidade cristã e é uma assimilação mais profunda do amor e da fé.” Amério comenta, dizendo: “há ressonâncias místicas e modernistas nestas afirmações. Catequese é doutrina e não é liberada por uma experiência existencial dos crentes, pois ela tem conteúdo sobrenatural que a experiência não pode alcançar.”

O Bispo do Quênia ainda diz, no mesmo sínodo: “a catequese deve se responsabilizar por denunciar as injustiças sociais ... e defender iniciativas na direção da libertação social dos pobres.” Isto é marxismo da pior qualidade, claro.

Qual a conseqüência de tudo isso? Diz Amério: “As duas principais características da nova catequese, isto é, de que ela é uma busca ao invés de uma doutrina e de que ela tenta produzir reações existenciais ao invés de convicções intelectuais, estão refletidas em atitudes frente a uma variedade de catecismos e à memorização. Onde não há conteúdo dogmático a ser afirmado, não há um catecismo universal único, pois não há fórmulas de fé válidas para toda a Igreja, precisamente em virtude daquele conteúdo único. Aqueles métodos antigos, da época da Igreja primitiva, que tiveram continuidade no catecismo do Concílio de Trento, no de São Roberto Belarmino, no de São Pedro Canísio, no de Rosmini e no de São Pio X, foram abandonados.”

Acho que bastam estas palavras de Amério para que entendamos como o Concílio Vaticano II afetou o ensino de nossa fé. E não admira, claro, que algum modernista de plantão comece escrever asneiras, num semanário qualquer, sobre a catequese católica, que de católica não tem nada. Lendo Amério, entendemos como chegamos à situação atual.

É desesperadora a situação de pais que vêem seus filhos freqüentarem aulas de catecismo atualmente. Qualquer católico minimamente informado sobre sua religião sabe que o que eles aprendem não é o catolicismo. Por isso, a única forma de ensinar catecismo para nossos filhos é nos transformarmos em seus próprios catequistas.

Continuarei comentando os artigos d’O DOMINGO sobre catequese, na esperança de mostrar aos catequistas bem intencionados as mentiras que são faladas numa publicação que tem a aprovação da CNBB.

15/10/2009

Lições das missas dominicais pós-Vaticano II– Parte XXV

N’O DOMINGO (Semanário Litúrgico-Catequético) de 06/09/2009, o Sr. Zamagna escreve um artigo intitulado “Direitos e deveres na catequese”. Este artigo é um exemplo vivo do que o Concílio Vaticano II pode fazer com nossas cabeças e nossos corações; quanto nos vamos afastando do verdadeiro catolicismo, aquele ensinado pela Tradição, quando aceitamos o relativismo religioso, quando esquecemos (ou fingimos esquecer) que só há salvação na Igreja Católica.

O “Aurélio” nos ensina que catequese é “instrução metódica e oral sobre coisas religiosas”. Tecnicamente não existe apenas catequese católica. Outras religiões catequizam. Nesta perspectiva geral, qualquer um pode catequizar.

Contudo, não é esta perspectiva de catequese que se espera encontrar numa publicação católica chamada de Semanário Litúrgico-Catequético. Aqui se espera uma perspectiva de catequese católica.

Vamos começar pelo início. O Sr. Zamagna começa o artigo assim: “Desde quando Jesus Cristo ordenou aos discípulos que evangelizassem até os confins da terra, a catequese passou a ser não só um dever da Igreja – missionária por natureza –, mas também um direito de cada pessoa.” Ai, meu Jesus Cristo! Quanto tolice! Quer dizer que Jesus nos manda aos confins da terra, nos manda ensinar Seu Evangelho, nos avisa que isso não vai ser fácil e que pode nos custar a vida, nos alerta para estarmos preparados para lutar, nos manda salvar almas, e com isso Ele está criando um direito? O senhor não sabe a diferença entre direito e dever? Catequizar no sentido estrito, católico, é DEVER da Igreja e, portanto, de cada um de nós.

Sei bem porque o Sr. Zamagna colocou esta palavrinha “direito” na conversa. É que ele quer defender o direito dos outros de catequizar sobre outras coisas, claro. Ele é relativista religioso. Vejam o que ele diz em seguida: “Será um direito apenas dos católicos ou, numa perspectiva mais abrangente, apenas dos cristãos? Trata-se de um direito mesmo dos que não conhecem ainda a fé cristã.” Aqui aprendemos muitas coisas. A primeira, é que ser cristão é “mais abrangente” que ser católico. A segunda, é que a catequese agora está aberta aos que “não conhecem ainda a fé cristã”. De que catequese está-se falando aqui, então? Notem a confusão extraordinária que pode habitar a cabeça de uma pessoa.

Recapitulando: (1) Jesus criou um direito quando mandou Seus discípulos catequizar até os confins da terra; (2) Este direito se aplica aos católicos, mas de forma mais abrangente aos cristãos; e (3) Por fim, é direito também dos que “ainda não conhecem a fé cristã”, que catequizarão, ou seja, instruirão sobre coisas que não sabemos.

O parágrafo final do artigo é mais elucidativo das verdadeiras idéias do Sr. Zamagna sobre catequese. Ele diz: “Todos os batizados têm esse dever. Mas é um serviço que se estende de modo particular aos que, na nova aliança, recebem o chamado para o ministério de pastores. Os cristãos e seus pastores ...” Não admira o uso dos termos “cristãos” e “pastores” aqui, no lugar de católicos e padres. O Sr. Zamagna é quase protestante, se não o for por inteiro. Ele termina o artigo dizendo que a catequese deve ser feita “evitando o escândalo das divisões, para que o mandato do Senhor seja realmente executado...” Ou seja, se não incluirmos na catequese católica os protestantes (eles são legião) não estaremos cumprindo o mandato do Senhor, aquele mandato que criou um direito, que depois se estendeu até aos que não professam a fé cristã.

Quem poderá dizer que isto não é fruto do Concílio Vaticano II? Leiam este diálogo assustador entre Paulo VI e padre Bouyer sobre a reforma litúrgica que estava então em andamento.

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12/10/2009

No dia de N.S. da Conceição Aparecida, três historinhas da Mãe do Céu

Nossa Senhora da Conceição Aparecida, rogai por nós!


Do livro Tesouro de Exemplos.

O SORRISO DA IMACULADA

Quatro anos após a definição do dogma da Imaculada Conceição, Nossa Senhora se dignou baixar à terra para confirmar de um modo estupendo a declaração do Papa Pio IX, de santa memória.

Foi em Lourdes, na França, que Nossa Senhora apareceu repetidas vezes à inocente Bernadete e na última aparição disse: Eu sou a Imaculada Conceição.

Quem refere o seguinte episódio não é nenhum devoto, nem sequer bom cristão. Ele escreve:

"Quando já se falava muito das aparições de Lourdes, achava-me em Cauterets, povoação próxima de Lourdes, mais para distrair-me do que para curar-me. Achei graça ao ouvir que a Virgem sorrira para Bernadete e resolvi ir a Lourdes para ver a Vidente e surpreendê-la na mentira. Fui a casa dos Soubirous e encontrei Bernadete sentada à porta cerzindo umas meias. Pareceu- me o seu rosto bastante vulgar; apresentava sinais de enfermidade crônica ao par de muita doçura. A instâncias minhas contou-me as aparições com toda a simplicidade e convicção.

- Mas é verdade que a Virgem sorriu?
- Sim, sorriu.
- E como sorria?
- A menina olhou-me com ar de espanto, e disse:
- Mas, senhor, seria preciso ser a gente do céu para repetir aquele sorriso.
- Não o poderia repetir para mim? Sou incrédulo e não creio nas aparições.

O rosto de Bernadete tornou-se triste e severo.

- Então julga o senhor que menti?

Senti-me vencido. Não, aquela menina tão cândida não podia mentir. Ia pedir-lhe desculpas quando ela acrescentou:

- Bem; se o senhor é um pecador, tentarei imitar o sorriso de Nossa Senhora.

A menina ergueu-se lentamente, juntou as mãos e um reflexo celeste iluminou o seu rosto. Um sorriso divino, que jamais vi em lábios mortais, encantou os meus olhos. . . Sorria ainda, quando caí de joelhos, vencido pelo sorriso da Imaculada nos lábios da ditosa Vidente.

Desde aquele dia nunca mais se me apagou da imaginação aquele sorriso divino. Passaram-se muitos anos, mas a sua recordação enxugou-me muitas lágrimas ao perder minha esposa e minhas duas f ilhas... Parece-me estar só no mundo e vivo do sorriso da Virgem".



AMOR DE UM VELHINHO

Um dia estava rezando, diante de uma imagem de Maria, S. Afonso Rodríguez, irmão leigo jesuíta, muito bom e muito santo.

Já era velhinho e passava longas horas aos pés de sua boa Mãe do céu. As vezes punha-se a chorar como uma criança; às vezes sorria como um anjo.

Tinha algum sofrimento? Ia logo comunicá-lo a Nossa Senhora. Sentia alguma alegria? Depressa, ia contá-la à Mãe do céu. Tentavam-no os demônios? Corria aos pés da Imaculada e pedia-lhe que não o desamparasse nem na vida nem na morte.

Naquele dia estava ele a dizer a Nossa Senhora que a amava muito, muitíssimo, com toda a sua alma, com todo o seu coração. E parecia ao santo velhinho que a Virgem Santíssima lhe sorria amavelmente. Ouviu, enfim, ou pareceu-lhe ouvir do fundo de sua alma uma voz que dizia:

- Afonso, quanto me amas?

E o bom do velho respondeu:

- Olha, minha boa Mãe do céu: amo-te tanto, tanto, que é impossível me possas amar tanto como eu te amo.

A Senhora, ouvindo isso, levanta a mão amorosa, dá-lhe uma leve bofetada e diz:

- Cala-te, Afonso, cala-te!. . . que estás dizendo? Eu te amo imensamente mais do que tu me podes amar.

Eis por que devemos amar a Maria: ama-nos tanto que jamais poderemos compreender toda a grandeza de seu amor.



SENHORA, SÊDE VÓS A MINHA MÃE

Era no mês de novembro. Amarelas e secas caiam as folhas das árvores, como secas e murchas caem do coração as ilusões da vida, quando se aproxima o inverno da velhice.

Em Ávila, numa nobre casa, está agonizando na primavera da vida uma distinta e piedosa senhora: dona Beatriz Ahumada. Já os sacerdotes, ali reunidos, rezavam as orações dos agonizantes, quando aquela senhora abriu os olhos, olhou ao redor de si e, com voz apagada, disse:

- Teresa! Chamem a Teresa.

Uma menina de uns doze anos, de singular modéstia e extraordinária formosura, penetrou no quarto e aproximou-se da cabeceira da mãe agonizante. Esta, fixando a filha, e como se Nosso Senhor lhe revelasse os futuros destinos daquela menina, exclamou:- Bendita ... bendita! E expirou.

Levantando-se a menina desfeita em pranto, beijou pela última vez aquelas mãos frias e retirou-se a um aposento, onde havia um quadro de Nossa Senhora pendurado à parede. Ali deixou correr livremente as suas lágrimas. Depois, erguendo os olhos com inefável ternura e uma fé imensa, disse do fundo da alma estas comovedoras palavras:

- Senhora, eis que não tenho mãe; sêde vós a minha mãe daqui em diante.

Aquela menina, protegida da Mãe do céu, veio a ser uma das maiores mulheres da história, S. Teresa de Jesus, que mereceu as honras dos altares. Tanto bem lhe adveio por haver tomado a Maria Santíssima por Mãe desde os primeiros dias de sua vida.

10/10/2009

Um pensamento simples

Gilbert Keith Chesterton

Muitos homens retornariam à fé e moral dos velhos tempos se conseguissem alargar suas mentes o suficiente. É principalmente estreiteza mental que os mantém na rotina da negação. Mas esse alargamento é facilmente mal-entendido, porque a mente deve se alargar para perceber as coisas simples; ou mesmo as coisas auto-evidentes. Precisa-se de um esforço de imaginação para perceber os objetos óbvios contra um fundo óbvio; e especialmente os objetos grandes contra um fundo grande. Há sempre o tipo de homem que não consegue perceber nada exceto uma mancha no carpete, pois não consegue perceber o carpete. E isso tende à irritação, que ele pode exagerar e transformar numa rebelião. Então há o tipo de homem que percebe somente o carpete, talvez porque seja um carpete novo. Isso é mais humano, mas pode estar manchado de vaidade e mesmo vulgaridade. Há o homem que pode ver somente a sala acarpetada; e isso tenderá a isolá-lo demais das outras coisas, especialmente dos quartos dos empregados. Finalmente, há o homem com larga imaginação, que não consegue se sentar num cômodo acarpetado, ou mesmo no quarto de despejo, sem perceber, a todo o momento, o contorno de toda a casa contra seu fundo aborígene de terra e céu. Ele, compreendendo que o teto foi feito, desde o início, como uma proteção contra o sol ou a neve, e a porta contra o frio ou a lama, saberá melhor que o restante dos homens – e não pior –as regras internas. Ele saberá melhor que o primeiro homem que não deve haver mancha no carpete. Mas ele saberá, diferentemente do primeiro homem, porque há um carpete.

Ele considerará da mesma maneira uma nódoa ou mancha nos registros de sua tradição ou credo. Não a explicará ingenuamente; não a desprezará. Ao contrário, ele a verá de maneira muito simples; mas ele também a verá de maneira muito ampla; e contra um fundo de coisas amplas. Fará o que seus críticos nunca farão, de forma alguma; ele verá as coisas óbvias e fará as perguntas óbvias. Pois quanto mais eu leio a crítica religiosa moderna, especialmente a que se refere à minha própria religião, mais me impressiono com a acanhada concentração e a incapacidade imaginativa de considerar o problema como um todo. Li recentemente uma condenação muito moderada de práticas católicas, vinda dos EUA, onde as condenações estão longe de ser moderadas. Ela toma a forma, de maneira geral, de um enxame de questões, perguntas que eu estaria muito disposto a responder. Contudo, estou vivamente consciente das grandes questões que não foram formuladas.

E sinto, acima de tudo, este fato simples e esquecido; que se certas acusações são ou não são verdadeiras em relação aos católicos, elas são inquestionavelmente verdadeiras em relação aos demais. Nunca ocorre ao crítico fazer algo tão simples quanto comparar o que é o católico com o que é não-católico. Uma coisa que nunca parece passar pela sua mente, quando ele discute o que é a Igreja, é a simples questão do que seria do mundo sem ela.

Isto é o que eu considero ser estreito demais para perceber a casa chamada Igreja contra o fundo chamado cosmos. Por exemplo, o escritor a que me refiro entrega-se a milhares de repetições mecânicas da acusação de repetições mecânicas. Ele diz que repetimos orações e outras formas verbais sem pensar nelas. E, sem dúvida, há muitos simpatizantes dessa acusação que a repetirá sem pensar. Mas, antes que expliquemos o real ensinamento da Igreja sobre tais coisas, ou antes que citemos suas inúmeras recomendações sobre atenção e vigilância, ou que possamos expor a razão de razoáveis exceções que ela permite, há uma grande, uma simples e luminosa verdade sobre toda a situação que qualquer um pode ver, desde que ande de olhos abertos. É o fato óbvio de que TODAS as formas humanas de discurso tendem a se fossilizar em formalismos; e que a Igreja é um caso único na história, não de uma língua morta dentre línguas eternas; mas, ao contrário, como tendo preservado uma língua viva num mundo de línguas moribundas. Quando o grande clamor grego se transformou no latim da Missa, tão antigo quanto a própria cristandade, pode surpreender alguns que há muitos na igreja que realmente dizem KYRIE ELEISON e dizem-no sinceramente. De qualquer forma, dizem-no muito mais sinceramente do que um homem que começa uma carta com “Caro senhor”. “Caro” é enfaticamente uma palavra morta; naquele lugar, ela já não significa nada. É exatamente o que os protestantes chamam de ritos e formalidades papais; são feitos rapidamente, ritualmente e sem a memória do significado do rito. Quando o Sr. Jones, o pretendente, usa essa palavra ao se dirigir ao Sr. Brown, o banqueiro, ele não quer dizer que o banqueiro lhe seja querido, ou que seu coração esteja cheio de amor cristão, nem mesmo tanto quanto o coração de algum pobre e ignorante papista que assista a Missa. Mas a vida ordinária, alegre e pagã está simplesmente transbordante de tais palavras mortas e cerimônias insignificantes. Você não escapará delas escapando da Igreja e entrando no mundo. Quando o crítico em questão, ou milhares de críticos como ele, diz que exigimos apenas uma assistência material e mecânica à Missa, ele diz algo que NÃO é verdade sobre os sentimentos de um católico normal em relação aos Sacramentos Católicos. Mas ele diz algo que É verdade sobre a assistência oficial das funções oficiais ordinárias, sobre as recepções ministeriais ou na Corte, e sobre três quartos dos encontros sociais e das visitas de cortesia que ocorrem na cidade. Esse enfraquecimento da ação social repetida pode ser uma coisa inofensiva; pode ser uma coisa melancólica; pode ser a marca da Queda do Homem; pode ser qualquer coisa que o crítico escolha pensar. Mas aqueles que fazem, centenas e centenas de vezes, a acusação especial e concentrada contra a Igreja, são homens cegos para a totalidade do mundo humano em que vivem e são incapazes de ver qualquer coisa, exceto a coisa que caluniam.

Há, nessa área, inúmeros outros casos dessa inconsciência estranha e sinistra. O escritor reclama que padres são levados cegamente à vocação e não entendem as responsabilidades nela envolvidas. Isso também já ouvimos antes. Mas raramente a ouvimos de forma tão extraordinária quanto em sua afirmação de que um homem se compromete com o sacerdócio quando ainda é “uma criança”. Ele parece nutrir idéias estranhas e elásticas quanto à duração da infância. Como observou o Sr. Michael Williams, em sua ponderada e esclarecedora coleção de ensaios, “Catolicismo e Mente Moderna”, isso é brincar com uma matéria de fato, desde que um padre tem no mínimo 24 anos quando toma votos. Mas, aqui e de novo, sou assombrado pela imensa, nua, e mesmo assim, desprezada comparação entre a Igreja e tudo o mais fora dela. Muitos críticos do catolicismo declaram-no destrutivo ao patriotismo; e esse crítico diz algo sobre as desvantagens da Igreja estar meramente “ligada a uma diocese italiana.” Bem, eu mesmo fui sempre defensor do culto ao patriotismo; e nada que eu diga aqui tem alguma ligação com o que é normalmente chamado de pacifismo. Penso que nossos amigos e irmãos empreenderam, dez anos atrás, uma guerra justa contra o duro paganismo do norte; penso que o prussianismo que eles venceram era o orgulho congelado do inferno; e aqueles que morreram estão, talvez melhor que nós que vivemos para ver quão má a Paz pode ser.

Mas, e quando falamos sobre a Igreja envolver jovens com votos? O que devemos dizer àqueles que contrapõem patriotismo ou cidadania pagão à Igreja nessa questão? Eles convocam, usando de violência, garotos de 18 anos, eles aplaudem voluntários de 16 anos que dizem ter 18, lançam milhares deles num enorme forno ou câmara de tortura, do qual sua imaginação nada consegue conceber e do qual sua honra os proíbe de escapar; eles os mantêm nesses horrores ano após ano sem qualquer esperança de qualquer vitória; e os matam como moscas, aos milhões antes que comecem a viver. Isso é o que o Estado faz; isso é o que o Mundo faz; isso é o que faz a sociedade protestante, prática, razoável e secular. Depois disso, eles têm a impressionante imprudência de reclamar de nós porque, ao tratar com uma minoria de especialistas, permitimos a um homem finalmente escolher uma vida de caridade e paz, não somente muito depois que ele tenha passados dos 21 anos de idade, mas quando ele esteja já bem próximo dos 30, e depois que tenha tido aproximadamente 10 anos para pensar se ele quer isso ou não.

Em resumo, o que sinto falta em tudo isso é a coisa óbvia: a comparação da Igreja com o mundo fora dela, ou a ela oposto, ou o mundo oferecido como o substituto da Igreja. E o fato é que o mundo fará tudo o que sempre acusou a Igreja de fazer, e fá-lo-á de uma maneira muito pior, e em muito maior escala, e (o que é o pior e mais importante) sem qualquer padrão de retorno à sanidade ou qualquer motivo para um movimento de arrependimento. Os abusos católicos podem ser “reformados”, porque há a admissão de uma forma. Os pecados católicos podem ser expiados, porque há um teste e um princípio de expiação. Mas onde mais, no mundo de hoje, há um tal teste ou padrão; ou algo exceto um temperamento em permanente mudança, que faz do patriotismo uma moda, dez anos atrás, e do pacifismo uma moda, dez anos depois?

O perigo hoje é que os homens não tenham alargado suficientemente suas mentes para entender as coisas óbvias; e esta é uma delas. É que os homens acusam a tradição de Roma de ser meio-pagã e então se refugiam num completo paganismo. É que os homens reclamam porque os cristãos se infectaram de paganismo; e então fogem da praga e se refugiam na pestilência. Não há um único desses defeitos alegados contra a instituição católica que não seja ainda mais flagrante e mesmo gritante em todas as outras instituições. E é para essas outras instituições, o Estado, a Escola, a máquina moderna de cobrança de impostos e policiamento, que essas pessoas realmente se voltam à procura de socorro contra a superstição de seus pais. Esta é a contradição; esta é a colisão destruidora; este é o desastre intelectual inevitável no qual eles já se envolveram; e temos apenas de esperar tão pacientemente quanto pudermos para ver quanto tempo eles ainda levarão para perceberem o que aconteceu.

Leiam, do livro "A Coisa": Por que sou católico, A Revolta contra as Idéias, A lógica e o tênis.

06/10/2009

Lições das missas dominicais pós-Vaticano II– Parte XXIV

A CNBB instituiu o ano de 2009 como o ano catequético. Em mensagem em seu site, a CNBB nos diz que: “O objetivo do ano catequético se expressa da seguinte forma: Dar novo impulso à catequese como serviço eclesial e como caminho para o discipulado. A busca de novo impulso à catequese, levando à consciência de que a catequese é uma dimensão de toda ação evangelizadora. Uma ação eclesial só é evangelizadora se também catequiza. Catequese não é portanto uma ação restrita aos ministros da catequese, mas é de todo cristão. Com isso há necessidade de recuperar a concepção de catequese como processo permanente de educação da fé e não somente preparação aos sacramentos ou destinada somente às crianças.”

Essa linguagem empolada, confusa, nunca foi típica de documentos da Igreja, que são claros e inequívocos. Tal linguagem foi inaugurada com o CVII. Seus documentos são um primor de confusão e dubiedade. Catequizar sempre foi uma ação para converter os pagãos, os hereges e os praticantes de outras religiões. A Igreja Católica faz isso porque fora dela não há salvação. Assim, catequizar é salvar almas. É papel de todo católico.

Veja que no parágrafo acima, usei duas vezes a palavra católico, mas o documento da CNBB não a usa sequer uma vez. A CNBB usou 1230 palavras em seu texto e nem uma vez a palavra “católico”. Para que religião converteremos os pagãos, hereges e praticantes de outras religiões?

Há passagens que seriam hilariantes, não fossem trágicas, como esta: “A catequese diferenciada destinada às diversas realidades e situações em que vive a maioria das pessoas, é inclusiva, acolhe as pessoas com deficiência, migrantes, crianças, adolescentes, jovens, adultos.” Vejam as palavrinhas politicamente corretas “diferenciada”, “diversas realidades”, “inclusiva”. Que tenhamos de ter modos diferentes de catequese para adultos e crianças é uma obviedade gritante. Mas que tenhamos de ter diferentes catequeses para migrantes e portadores de deficiência, aí é demais! Essa atitude politicamente correta da CNBB talvez seja a que a fez apoiar um abortista para o Supremo Tribunal Federal, esquecendo-se daquele outro Tribunal Supremo que às vezes é também chamado de Juízo Final.

Há também uma oração do ano catequético. Oração água-com-açúcar que se refere a Nosso Senhor sempre em letra minúscula.

Há outras pérolas naquelas 1230 palavras, mas que não as irei comentar aqui. Quero comentar a seqüência de artigos que estão saindo n’O DOMINGO sobre o ano catequético, assinados por Domingos Zamagna.

N’O DOMINGO de 30/08/2009, no artigo intitulado “É possível transmitir a fé?”, o Sr. Zamagna diz que a fé é “uma energia, semelhante à de uma semente, cujo dinamismo conduz à santidade.” Esta definição modernista da fé lembra um conceito novo contido na Gaudium et Spes: “Por isso, proclamando a vocação altíssima do homem e afirmando existir nele uma semente divina, o Sacrossanto Concílio oferece ao gênero humano a colaboração sincera da Igreja para o estabelecimento de uma fraternidade universal que corresponda a esta vocação.”

Enquanto isso, a Tradição da Igreja ensina, por meio do Catecismo Romano do Concílio de Trento que a fé “significa uma adesão absolutamente certa, pela qual a inteligência aceita, com firmeza e constância, os mistério que Deus lhe manifesta.” Nada de energia, nada de semente, nada de dinamismo, apenas vontade resoluta que oriente a inteligência a aceitar a Revelação.

O Sr. Zamagna diz ainda que: “A fé é incontida adesão à verdade do Pai, não pela evidência, mas pelo testemunho do Filho e pela força do Espírito.” Esta afirmação é confusa. Parece querer dizer que não há evidências sobre as verdades do Pai, de Deus. Isto é evidentemente falso. O Doutor Angélico diz na Suma Contra os Gentios que: “Há, com efeito, duas ordens de verdades que afirmamos de Deus. Algumas são verdades referentes a Deus e excedem toda capacidade da razão humana, como, por exemplo, Deus ser trino e uno. Outras são aquelas as quais a razão pode admitir, como, por exemplo, Deus ser, Deus ser uno, e outras semelhantes.”

Mesmo das verdades que excedem a capacidade humana, Deus nos dá alguma evidência. Isso parece escapar ao Sr. Zamagna, que nos brinda com outra contradição na frase acima. Ele considera que o testemunho do Filho não seja evidência da verdade do Pai. Ora, a vinda de Nosso Senhor foi profetizada com séculos de antecedência por muitos profetas. As condições de seu nascimento, assim como de sua morte, foram definidas em seus mínimos detalhes. Ele, enquanto estava vivo, sempre falava dos que O anunciaram. Em vida, Ele fez muitos e variados milagres que indicavam Sua Procedência, e quando os fazia lembrava sempre de Seu Pai. Depois de Sua morte, mandou-nos o Espírito Santo, que “fez com que homens rudes e ignorantes adquirissem instantaneamente tão elevada sabedoria e eloqüência”, como nos diz Santo Tomás. Então, qual é a evidência que nos falta para termos fé?

Outra dimensão da fé que o Sr. Zamagna se esquece de mencionar, quando pergunta se é possível transmitir a fé, é que ela é uma virtude teologal. Ou seja, ela nos vem por graça de Deus. Quem a transmite, se é que podemos usar este termo, não somos nós, pobres mortais. Quem nos infunde a fé é Deus. O máximo que podemos fazer é fornecer aos outros as evidências das coisas que podemos conhecer por razão natural, e as evidências das coisas sobrenaturais que Nosso Senhor fez para nos mostrar de onde Ele vinha. Esse conjunto de evidências, adicionados aos dogmas que foram sendo definidos pela Igreja são o que constitui o Depósito da Fé, cuja guarda foi dado, por Deus, à Igreja.

Por meio da graça da fé, Deus nos atrai para “um bem mais elevado que o capaz de ser experimentado pela fragilidade humana da presente vida”. Assim, passamos com a fé, a desejar “algo que excede totalmente o estado da presente vida, e a nos esforçar para procurá-lo.” Daí a grande graça de Deus. Sem ela, e sem a capacidade de compreender aquilo que escapa à nossa razão, não poderíamos almejar as coisas sobrenaturais. Sem a fé, não há como almejar o Céu, a visão beatífica de Deus. [As expressões entre aspas são do Doutor Angélico.]

Esqueçamos, portanto, da energia, do dinamismo semente, da fé cega, sem evidências. Tudo isso é besteirol modernista.

Há mais besteirol nos artigos do Sr. Zamagna que comentarei em futuros posts.

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03/10/2009

SANTA CASSILDA

Do livro Tesouro de Exemplos.

Era princesa moura, filha do rei de Toledo, e nasceu em fins do século décimo.

Seu boníssimo coração estremecia diante das misérias e sofrimentos que suportavam os escravos cristãos, aprisionados pelo rei em suas campanhas guerreiras.

A princesa visitava as masmorras e socorria os prisioneiros com dádivas e palavras consoladoras.

Eles, em troca, instruíam-na pouco a pouco na doutrina cristã. Atraída pela beleza de nossa religião, tão heróica e ao mesmo tempo tão misericordiosa, Cassilda pedia a Nossa Senhora, da qual lhe haviam falado os cativos, que se compadecesse dela e lhe mostrasse o caminho para receber o batismo e viver segundo a fé cristã.

A Virgem atendeu às suas súplicas. Cassilda começou a sentir-se doente de um mal estranho que lhe consumia os ossos, e contra o qual se mostravam impotentes os melhores médicos.

Um cativo cristão contou-lhe que, perto de Burgos, havia uma fonte, chamada de S. Vicente, cujas águas curariam a sua doença.

A princesa referiu ao pai o que ouvira do cativo e pediu-lhe licença para experimentar aquele remédio. Seu pai opôs-se, a princípio, por achar-se a fonte em terra de cristãos; mas, diante dos progressos da enfermidade, terminou por aceder.

Acompanhada de um séquito deslumbrante, chegou Cassilda a Burgos, onde foi cortesmente recebida pelo rei Fernando I de Castela e hospedada com todas as honras. Dirigiu-se logo à prodigiosa fonte e, quando se banhou em suas águas, recobrou a saúde corporal. Atribuindo-a à intercessão de Nossa Senhora, acabou de instruir-se na doutrina cristã e, pouco depois, as águas do batismo deram-lhe a saúde da alma.

O rei, seu pai, alarmado com a demora e com as notícias que recebia, enviou-lhe mensageiros com a ordem de regressar imediatamente.

S. Cassilda mandou dizer-lhe que já era princesa do céu e que, por seu reino temporal, não queria perder o Reino eterno.

Mandou construir uma humilde cela perto da fonte milagrosa e da igreja, onde recebera o batismo e ali passou a vida, dando exemplo de todas as virtudes, especialmente de caridade e penitência.

Sua festa cai no dia 9 de abril; e suas preciosas relíquias são veneradas, atualmente, parte na catedral de Burgos e parte na de Toledo.


Ler também: Santa Catarina de Sena, Santa Catarina de Gênova, Mais uma historinha do Tesouro de Exemplos, Tesouros de Exemplos – mais três historinhas, Mais duas historinhas católicas: Ah! se a Vozes ainda fosse uma editora católica!,Quando a Vozes ainda era uma editora católica

01/10/2009

Blog responde a comentário anônimo

Vez por outra tenho respondido a alguns comentários por meio de posts e não somente na seção de comentários, como faço usualmente. Penso que as respostas a estes comentários possam ser, de alguma forma, útil a outras pessoas.

Este é o caso do comentário ao post Lições das missas dominicais pós-Vaticano II– Parte XXIII que transcrevo, abaixo, como veio, e que não aparecerá na seção de comentários:
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Caro Angueth, dê uma lida neste artigo e tire suas próprias conslusões com relação a igualdade de erros entre modernistas e tradiocinalista. A linha que separa estas duas HERESIAS é bem mais fina do que muiot pensam. (http://www.diocesedeanapolis.org.br/ )

A humildade é das mais belas virtudes, e no visto esta te falta. Viva Santa Missa de PAULO VI. VIVA BENTO XVI!!!
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Começando pelo fim, eu diria ao meu comentarista que não é só a virtude da humildade que me falta. Faltam-me muitas outras e por isso eu me penitencio diariamente perante Deus, pedindo-O perdão. Mesmo assim, agradeço a você por ter me lembrado disso. É que às vezes nos esquecemos e quase, eu disse quase, nos orgulhamos da nossa humildade. Com leitores como você, estou certo e feliz de não me esquecer da minha falta de humildade.

Antes de prosseguir, apenas uma correção: a humildade não é uma das mais belas virtudes, ela é a principal virtude cristã. O vício correspondente, a soberba, é o único pecado puramente espiritual, que vem diretamente de satanás. Não é por outra razão que Jesus falou na primeira bem-aventurança: “Bem-aventurados os pobres de espírito ...”. A escolha não foi casual, como nada em Deus é casual!

Pelo tom de seu comentário, contudo, fico com a impressão de que você está confundindo a humildade com outra coisa. Isso é típico do espírito moderno e do espírito modernista. Chesterton diz, em Ortodoxia, que no mundo moderno, “a modéstia deslocou-se do órgão da ambição” para o da convicção. Chesterton prossegue: “Pois a antiga humildade fazia o homem duvidar de seus esforços” e “a nova humildade faz o homem duvidar de seus objetivos”.

O homem moderno (e também modernista) quando vê alguém criticando a opinião de outro homem, apresentando argumentos e dizendo que ele está errado, logo pensa que ele está faltando com a humildade. O homem para ser humilde hoje precisa dizer-se incerto, incapaz de criticar alguém, pois todo mundo tem direito a uma opinião e, como todos sabem, a verdade é relativa. Assim, faltei com a humildade por ter desmascarado Pe. Bortolini, que interpretava erroneamente as palavras de Cristo no Evangelho. Eu devia ter ponderado que o Pe. Bortolini tem a sua verdade e eu a minha e que uma crítica a ele seria uma falta grave. Acontece que o Pe. Bortolini está deformando uma verdade que não é apenas uma opinião minha, mas são as palavras de Cristo. A opinião que ele expressou em seu artigo não se sustenta quando a confrontamos com as palavras de Cristo. E ele o faz segundo a agenda modernista, tão conhecida de todos nós!

Por isso, caro anônimo, caso você queira discutir o meu post, seja mais prolixo, pois suas palavras, afirmando minha falta de virtudes são por demais modestas para merecerem uma discussão mais longa.

Agora, sua sugestão para visitar o site da Diocese de Anápolis eu não entendi. Mas uma coisa boa você acabou admitindo no início de seu comentário: os modernistas são hereges. Isso já é um bom começo e nos dá esperança.

30/09/2009

Sétimo Selo lança "As Cruzadas" de Raimundo Lúlio


Já disse aqui neste blog que as editoras Paulus e Vozes não são editoras católicas. Ou melhor, são tão católicas quanto a CNBB que, agora, apóia um abortista para o Supremo Tribunal Federal. Protegei, São José, Guarda providente da Divina Família, a raça eleita de Jesus Cristo!

Mas há editoras verdadeiramente católicas no Brasil. Uma delas é a Sétimo Selo, que está lançando As Cruzadas, de Raimundo Lúlio. A editora ainda mantém em catálogo livros extraordinários de Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino e Gilbert Keith Chesterton, além do recém lançado A Candeia Debaixo do Alqueire que já teve a primeira tiragem esgotada. Que Deus mantenha a pequena Sétimo Selo nos alimentando de obras essenciais de nossa Fé!

29/09/2009

Lições das missas dominicais pós-Vaticano II– Parte XXIII

Comento artigo do Pe. José Bortolini, n’O DOMINGO, de 30/08/2009. O Evangelho deste dia, na Missa de Paulo VI, é Mc 1, 1-8; 14-15; 21-23. Os fariseus perguntam a Jesus: “Por que os seus discípulos não seguem a tradição dos antigos, mas comem o pão sem lavar as mãos?” Daí Jesus diz a eles poucas e boas sobre o que é tradição verdadeira e o que não é.

Mas antes de comentar o que Jesus diz, vamos ver o que Pe. Bortolini nos ensina em seu artigo “O Peso da Tradição”. O título já nos alerta para o que vem depois. A tradição, para Pe. Bortolini é pesada, incômoda. Depois de uma introdução animadora, em que fala que a tradição “é em si uma coisa boa com bons objetivos”, ele vem logo com esta: “Mas nem sempre é assim, como no caso dos que são católicos por tradição e batizam seus filhos ‘porque sempre foi assim’. Tradição, traição.” Estas palavras vindas de um padre têm muito PESO. Vejam só que o católico que é católico por tradição é traidor. O católico que batiza seu filho por tradição é traidor. São palavras terríveis!

Mas o ataque que Pe. Bortolini prepara é mais amplo. Ele diz logo em seguida: “Entendida sob esse aspecto, a tradição se torna um peso e não favorece a vida. Mais ainda, quando se trata de tradição religiosa, ela engessa a religião, impedindo-a de caminhar à altura dos tempos e iluminar a história da humanidade.” Aqui entendemos bem o que ele fala. Pe. Bortolini é padre modernista, e todo padre modernista se sente moderno, em paz com o mundo, em paz com os protestantes, com os maçons, com os abortistas, com o comunismo, com Lula e, portanto, com o príncipe deste mundo. Isto é “caminhar à altura dos tempos”, justo o que Jesus não fez. Ele é contra a tradição religiosa católica, ou seja, ele é contra a Igreja de Sempre, aquela que Jesus fundou. Católico que respeita a tradição é traidor. Sim, somos traidores do mundo, somos traidores de Satanás, mas não de Jesus.

Se Pe. Bortolini só tivesse dito isto, vá lá, pois nós, depois de tantos comentários sobre seus textos em o’DOMINGO, esperamos quase tudo dele em termos de idéias heréticas. Mas ele fez mais. Ele tentou usar as palavras que Jesus dirigiu aos fariseus em favor dos modernistas e contra da tradição católica. Se isto não é farisaísmo, não sei o que é.

Diz o modernista Bortolini: “Os fariseus e alguns mestres da lei conservavam muitas coisas da tradição dos antepassados, defendiam-nas e condenavam os que não as observassem.” E, por isso, segundo Pe. Bortolini, Jesus condena os fariseus; por eles manterem tradições dos antepassados. Será que foi mesmo assim? A falsidade da afirmação do padre é facilmente demonstrada com uma frase apenas do Evangelho. Jesus não estava condenando a observância da tradição religiosa dos judeus. Ele diz: “Vós abandonais o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens.” Aí está! O mandamento de Deus é para ser seguido, é o que constitui a verdadeira tradição! Jesus condena os fariseus por seguirem a tradição dos homens, tradição falsa. Jesus desmascara Pe. Bortolini!

Mas o padre não se contenta com pouco. Ele diz em seguida: “Jesus declara boas todas as coisas.” De onde este pobre padre modernista tirou isto eu não sei. Jesus faz justo o contrário. Ele enumera as coisas más que saem do coração do homem e que constituem as verdadeiras impurezas, em contraposição às impurezas materiais que possam ser ingeridas pelo homem. Ou seja, Ele separa o joio do trigo, como sempre fez.

O destemido Bortolini ainda tem a coragem de terminar o artigo com a seguinte pergunta maldosa: “E nós, será que já nos libertamos de todas as tradições que impedem nossa vida e a dos outros?” Depois de tudo que ele nos disse ao longo do artigo, imagino que sua pergunta possa significar: E nós, já deixamos de batizar nossos filhos por tradição? Já deixamos de ser católicos por tradição? Já nos afiliamos ao PT, já nos tornamos membros da maçonaria, já estamos caminhando à altura dos tempos?

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26/09/2009

A lógica e o tênis

Nota: Eis aqui uma das muitas situações em que o grande Chesterton nos ensina ser católicos em qualquer discussão, por mais idiota que pareça. Aqui ele comenta o que um jogador de tênis disse sobre o tênis como praticado na Inglaterra e, neste comentário, ele defende toda a metafísica medieval, que é, antes de tudo, católica. Este texto é um capítulo do livro A Coisa.


Gilbert Keith Chesterton


Quando digo que duvidamos do aprimoramento intelectual produzido pelo protestantismo, pelo racionalismo e pelo mundo moderno, isso geralmente causa uma confusa controvérsia, que é um tipo de emaranhado semântico. Mas, em geral, a diferença entre nós e nossos críticos é esta: eles entendem que crescimento é um aumento do emaranhado; enquanto nós entendemos que pensamento é desemaranhar o emaranhado. Mesmo um pequeno pedaço de fio reto vale mais do que toda uma floresta de mero emaranhamento. Que haja mais assuntos sendo discutidos, ou mais termos sendo usados, ou mais pessoas usando-os, ou mais livros e autoridades citadas – tudo isso não é nada para nós se as pessoas usam impropriamente os termos, entendem mal os assuntos, invocam autoridades à esmo e sem o uso da razão; e finalmente conseguem um resultado falso. Um camponês que diz simplesmente, “Tenho cinco porcos; se mato um, fico com quatro porcos,” está pensando de uma maneira simples e elementar; mas está pensando tão clara e corretamente quando Aristóteles e Euclides. Agora, suponha que ele leia ou passe os olhos nos jornais e livros populares de ciência. Suponha que ele comece a chamar um porco de Terra e outro de Capital e um terceiro de Exportação, e finalmente chega a um resultado de que quanto mais porcos ele mata, mais ele possui; ou que cada porca que pare faz decrescer o número de porcos no mundo. Ele aprendeu a terminologia da economia como um meio de simplesmente se emaranhar com a falácia econômica. Ela é uma falácia em que ele nunca cairia se tivesse firmemente imbuído do dogma divino de que porcos são porcos. Para tal tipo de instrução e avanço, não temos nenhum uso; e é verdade, neste sentido somente, que preferimos um camponês ignorante a um pedante instruído. Mas isso não é porque consideramos a ignorância melhor do que a instrução ou o barbarismo melhor do que a cultura. É simplesmente porque consideramos que uma clara cadeia lógica de pequena extensão é melhor que uma interminável extensão do que é interminavelmente emaranhado. É simplesmente porque preferimos um homem que faça uma simples soma certa do que uma longa divisão errada.

O que observamos sobre toda a cultura atual do jornalismo e das discussões gerais é que as pessoas não sabem como começar a pensar. Não somente que seu pensamento é de terceira ou quarta mão, mas que ele começa já na terça parte do processo. Os homens não sabem de onde vêm seus pensamentos. Eles não sabem quais as conseqüências de suas palavras. Eles chegam ao final de toda controvérsia e não sabem de onde ela começou ou de que se trata. Eles estão sempre supondo certos absolutos, que, se corretamente definidos, chocariam até eles próprios como sendo não absolutos mas absurdos. Pensar é assim estar num emaranhado; continuar a pensar é se aprofundar mais e mais no emaranhado. E por trás de tudo há sempre algo entendido; que é realmente mal-entendido.

Por exemplo, leio um artigo do admirável Sr. Tilden, o grande tenista, que estava debatendo o que está errado com o tênis inglês. “Nada pode salvar o tênis inglês,” disse ele, exceto certas reformas de um tipo fundamental, que ele explica a seguir. O inglês, parece, tem uma maneira estranha e artificial de considerar o tênis como um jogo, ou uma coisa divertida. Ele admitia que isso é parte de um tipo de espírito amador em tudo que é (como ele observou verdadeiramente) também uma parte do caráter nacional. Mas tudo isso se coloca no caminho do que ele chama da salvação do tênis inglês. Por salvação ele entende o que outros chamariam de tornar o tênis perfeito e outros de torná-lo profissional. Tomo isso como uma passagem muito típica, tirada de jornais ao acaso, e que contém a visão de uma pessoa perspicaz e arguta sobre um assunto que ele compreende totalmente. Mas o que ele não compreende é a coisa que ele supõe entender. Ele conhece totalmente seu assunto e ainda assim não sabe do que está falando; porque ele não conhece suas suposições básicas. Ele não percebe a relação de meios e fins, ou axiomas e inferências, em sua própria filosofia. E ninguém estaria provavelmente mais surpreso e mesmo legitimamente mais indignado que ele, se eu dissesse que os primeiros princípios de sua filosofia parecem ser estes: (1) Há na natureza das coisas um certo Ser absoluto e divino; (2) Todos os homens existem para o bem e a glória desse Sr. Tênis e são obrigados a se aproximar de sua perfeição e obedecer sua vontade; (3) A esta elevada obrigação eles submetem seus desejos naturais de divertimento nesta vida; e (4) Eles são obrigados a colocar esta lealdade em primeiro lugar, e amá-lo mais apaixonadamente que a tradição patriótica, que a preservação de seu próprio estilo nacional, que suas virtudes nacionais. Este é o credo ou esquema da doutrina que é aqui desenvolvida sem ser definida. A única maneira que temos de salvar o tênis é impedi-lo de ser um jogo. A única maneira de salvar o tênis inglês é impedi-lo de ser inglês. Não ocorre a esses pensadores que algumas pessoas podem gostar do tênis porque ele é inglês e apreciá-lo porque ele é divertido. Há algum padrão abstrato e divino na coisa, para quem todos devem se levantar, sacrificando todo o prazer e afeição. Quando os cristãos dizem a mesmo coisa sobre os sacrifícios feitos para Cristo, soa como uma coisa inaceitável. Mas quando jogadores de tênis dizem isso em relação aos sacrifícios exigidos pelo tênis, soa muito natural e casual na confusão dos pensamentos e expressões da atualidade. E ninguém nota que um tipo de sacrifício humano está sendo oferecido a um tipo novo e anônimo de deus.
Nos velhos e bons tempos do racionalismo vitoriano, era convencional zombar de Santo Tomás de Aquino e os teólogos medievais; e especialmente repetir perpetuamente uma surrada piada sobre o homem que discutia quantos anjos poderiam dançar na ponta de uma agulha. Os confortáveis e comerciais vitorianos, com seu dinheiro e mercadorias, poderiam muito bem ter sentido uma ponta mais afiada da mesma agulha, mesmo que fosse seu outro lado. Teria sido bom para suas almas ter procurado pela agulha, não no palheiro da metafísica medieval, mas no elegante agulheiro de sua própria Bíblia de bolso. Teria lhes sido melhor meditar, não sobre como muitos anjos poderiam permanecer numa ponta de agulha, mas sobre como muitos camelos poderiam passar no buraco de uma. Mas há outro comentário sobre essa curiosa piada, que é mais relevante para nossos propósitos aqui. Se o místico medieval realmente discutiu sobre anjos permanecerem sobre uma agulha, pelo menos ele não discutiu como se o objetivo dos anjos fosse permanecer sobre uma agulha; como se Deus tivesse criados todos ao Anjos e Arcanjos, todos os Tronos, Virtudes, Potestades e Principados, somente a fim de que pudessem ser algo para vestir e decorar a inconveniente nudez da ponta de uma agulha. Mas essa é a maneira de raciocinar dos modernos racionalistas. O místico medieval não teria dito nem mesmo que uma agulha existe para ser suporte de anjos. O místico medieval teria dito, em primeiro lugar, que uma agulha existe para fazer roupas para os homens. Pois os místicos medievais, em sua maneira obscura e transcendental, estavam muito mais interessados nas razões reais das coisas e na distinção dos meios e dos fins. Eles desejavam conhecer a razão da existência de uma coisa, e como uma idéia dependia da outra. E eles poderiam até mesmo ter sugerido, o que tantos jornalistas parecem esquecer, a possibilidade paradoxal de que o tênis foi feito para o homem e não o homem para o tênis.

Os modernistas foram particularmente infelizes quando disseram que não se deve esperar que o mundo moderno tolere os antigos métodos silogísticos do escolástico. Eles estavam propondo que se desfizesse do único instrumento medieval que o mundo moderno exigirá mais urgentemente. Teria sido melhor ter dito que o renascimento da arquitetura gótica foi sentimental e fútil; que o movimento pré-rafaelano na arte foi somente um episódio excêntrico; que o uso da palavra “guilda” para todo tipo possível de instituição social foi artificial e fingido; que o feudalismo da jovem Inglaterra foi muito diferente do da antiga. Mas esse método elegante de dedução, com a definição de postulados e a real resposta da questão, é algo que a nossa sociedade midiática está em desesperada e urgente necessidade; como um envenenado está em necessidade do antídoto. Tomei aqui um único exemplo que atraiu meu olhar de centenas de milhares que acontecem a cada hora. E como o tênis, como qualquer outro jogo, tem de ser jogado tanto com a cabeça quanto com as mãos, penso que seja altamente desejável que ele seja discutido ocasionalmente pelo menos tão inteligentemente quanto ele é jogado.


Leiam, do livro "A Coisa": Por que sou católico, A Revolta contra as Idéias.

21/09/2009

Algumas sugestões apologéticas

Fiz, recentemente, uma palestra sobre as mentiras que são ditas sobre a Igreja Católica. Falei sobre as Cruzadas, a Inquisição, o cientificismo, e as pseudo-ciências – o freudismo e o darwinismo. Registro aqui algumas fontes de informações que usei, na esperança de que isso seja importante para mais alguém.

Sobre as Cruzadas usei um livro da Regine Pernoud (versão em inglês): The Crusaders – The Struggle for the Holy Land. Há também a obra extraordinária de Steve Runciman em três volumes: A História das Cruzadas.

Sobre a Inquisição há:
1. No site da Permanência: A História da Inquisição, A Inquisição Espanhola: Uma Questão Candente, O Processo Galileu.
2. No site da FSSPX dos EUA: Defense of the Inquisition. Este foi o melhor texto. Estou tentando contatar o autor, pois foi isto que a FSSPX americano me sugeriu, para solicitar a permissão para traduzir o texto para este blog. Estou tendo muitas dificuldades.
3. O livro “A Inquisição em seu Mundo”, do prof. João B Gonzaga, Editora Saraiva, 1993. Este livro está fora de catálogo e só é possível encontrá-lo em sebos.
4. Sobre o processo contra Galileu há o livro de Pietro Redondi, “Galileu Herético”, Companhia das Letras, 1991. Hoje está fora de catálogo.
5. Em 2006, traduzi para o MSM um interessante artigo de Gene Calahan sobre o caso Galileu, que foi recentemente publicado na Revista Mineira de Psiquiatria.

Sobre o cientificismo:
1. Há o grande Gustavo Corção. Um de seus textos sobre o assunto eu já postei aqui no blog.
2. Há um livro recente e muito bom de David Berlinsky: The Devil Delusion – Atheism and its Scientific Pretensions, cuja resenha, de George Gilder, já traduzi neste blog.
3. Há também um livro que sempre cito aqui no blog: Não tenho fé suficiente para ser ateu, de Geisler e Tuker, Editora Vida.

Sobre Darwinismo:
1. Há o livro de David Berslinsky citado acima.
2. Há o livro de Geisler e Tuker citado acima.

Sobre Psicanálise há o extraordinário livro de Rudolph Allers, “Freud: Estudo Crítico da Psicanálise”, Livraria Tavares Martins, Porto, 1970. Imagino que este livro seja encontrado somente em sebos. Agradeço ao prof. Carlos Nougué a sugestão de leitura deste livro em seu site Contraimpugnantes. Vale a pena ler o artigo do professor intitulado “Castidade e teoria psicanalítica”.

Há ainda, sobre esses assuntos, o site Montfort, do prof. Orlando Fedeli, onde se podem encontrar diversos textos, sobretudo respostas às cartas, que são muito elucidativos. Usem o mecanismo de busca do site que vocês encontrarão muita coisa boa.

SANTA CATARINA DE SENA

Do livro Tesouro de Exemplos.

Nasceu em Sena, cidade da Itália, em 1347, no dia em que a Igreja celebra o mistério da Encarnação.

Seu pai dedicava-se à indústria tintureira.

Catarina fora precedida, no lar paterno, por vinte e um irmãos. Contava apenas seis anos, quando Nosso Senhor a favoreceu com uma visão extraordinária e profética.

Sobre a torre do convento de S. Domingos viu num trono resplandecente, no qual estava sentado Jesus Cristo, revestido como um Papa, com a tiara na cabeça, e tendo a seu lado S. Pedro, S. Paulo e S. João. Jesus Cristo infundiu-lhe um conhecimento sobrenatural do que é a Igreja e um amor ardentíssimo à mesma, e anunciou-lhe que seria uma grande capitã de seus exércitos e que se valeria dela para purificar a sua Igreja.

Aos catorze anos, manifestou a seus pais o desejo de ingressar na Ordem Terceira de S. Domingos. Para provar sua vocação, empregaram-na nos trabalhos mais humildes. Foi a criada de todos. Portou-se com tamanha humildade que seus pais consentiram que seguisse a vocação religiosa.

Para que compreendesse ainda mais a Igreja, Jesus Cristo fê-la morrer, e sua alma, separada do corpo, percorreu o céu e o purgatório e mostrou-lhe mesmo o inferno, onde os separados para sempre da Igreja sofrem eternamente e logo a ressuscitou. Assim preparada, começou o seu apostolado. Não pregava dos púlpitos, porque isso compete aos sacerdotes; falava, porém, a enormes auditórios tanto nas praças como em pleno campo. Seguiam-na milhares de discípulos, entoando salmos de penitência; seguiam-na muitos sacerdotes, que confessavam os pecadores arrependidos. Aqueles eram para a Igreja dias difíceis. O Papa mudara-se para a cidade de Avinhão, na França, e esta troca de residência do bispo de Roma escandalizava e dividia os católicos.

Obedecendo a Jesus Cristo, S. Catarina apresentou-se ao Papa, que era Gregório XI, e intimou-o a voltar para Roma. O Pontífice pediu-lhe uma prova de que o Espírito Santo a inspirava e ela respondeu: "Tu mesmo o prometeste, com voto, no dia de tua elevação ao Pontificado". O Papa, ao ver descoberto esse segredo, que a ninguém da terra havia confiado, não vacilou mais e transferiu-se para Roma.

S. Catarina pediu a Deus que aceitasse a sua vida pela salvação do sucessor de Gregório XI, Urbano VI, a quem os demônios queriam assassinar, induzindo os romanos à sublevação. Aceitou Jesus a sua oferta, sendo a sua última enfermidade um verdadeiro martírio. Seu corpo parecia um esqueleto.

A 29 de abril de 1380, aos trinta e três anos de idade (isto é, na mesma idade em que morreu Jesus Cristo, segundo se crê) seu rosto iluminou-se e sua alma voou para o céu.

Festa: 30 de abril.

Ler também: Santa Catarina de Gênova, Mais uma historinha do Tesouro de Exemplos, Tesouros de Exemplos – mais três historinhas, Mais duas historinhas católicas: Ah! se a Vozes ainda fosse uma editora católica!,Quando a Vozes ainda era uma editora católica

18/09/2009

SANTA CATARINA DE GÊNOVA

Do livro Tesouro de Exemplos.

Esta Santa, falecida em 1510, não foi santa desde seus primeiros anos de vida.

Nasceu rica, viveu entre as diversões e nos dias de sua mocidade não foi lá muito piedosa, não. Era como tantas moças de hoje, que pensam ser muito santas, só porque vão à missa de preceito e não dão graves escândalos.

Casou-se, afinal, com um moço muito rico, o qual de cristão tinha apenas o nome. Isso bem o sabia ela antes de casar-se; mas, como acontece, deixou-se fascinar pelas riquezas, pela elegância e até pelas audácias daquele aventureiro do amor.

E sucedeu o que era de esperar: aquele homem, por causa de sua vida licenciosa, não pôde fazê-la feliz. Enquanto ela, em casa, chorava a sua desgraça, ele, como louco, corria de orgia em orgia. Esquecida de Deus, a pobre mulher maldizia a hora em que se casara com um vilão como aquele.

Menos mal. Morreu o canalha (e dizem que morreu convertido), e a jovem viúva pôde respirar. Buscou ainda a felicidade nas diversões, reuniões barulhentas e nos espetáculos. Tinha uma fome canina de felicidade, e cada dia se sentia mais desgraçada.

Certo dia ouviu uma voz interior que lhe dizia:
- Catarina, só em Deus acharás o verdadeiro amor e a felicidade.

A jovem viúva ficou muito comovida. Parecia-lhe, porém, impossível que a felicidade estivesse escondida atrás das grades de um convento e debaixo de um grosseiro hábito religioso. Não entrava em sua cabeça que o amor pudesse viver no silêncio do claustro e entre cilícios e disciplinas.

Catarina tinha uma irmã, que, mais piedosa do que ela, se fizera religiosa e vivia contentíssima no convento. Quantas vezes esta santa religiosa, prostrada aos pés do sacrário, havia pedido a Jesus por aquela irmãzinha sua, que andava pelo mundo, tão fútil, tão infeliz!

Deus atendeu a sua oração. Um dia Catarina foi visitá-la. Estava triste como nunca a pobre viúva. E ali, no regaço de sua santa irmã, deixou correr lágrimas muito amargas. Disse-lhe: Sou uma desgraçada; o mundo é um impostor; o amor não é mais que egoísmo brutal; não, não agüento mais! quero morrer.

A santa irmã deixou que ela se desabafasse e, enxugando as lágrimas, disse-lhe:
- Catarina, parece mentira que andes tão louca e enganada. Já não te disse mil vezes que só Deus é a verdadeira felicidade e que só nele encontrarás o amor puro que não deixa na alma remorsos e desengano?. Deus te chama ao seu amor e tu te empenhas em fazer-te surda às suas vozes amorosas. Resolve-te de uma vez a consagrar-te a Deus e encontrarás a paz e o amor. Faze uma boa confissão e confia na divina misericórdia. Estou certa de que Nosso Senhor te fará feliz.

A dor e os desenganos, e mais que tudo a mesma graça de Deus haviam preparado já o coração de Catarina. Caiu de joelhos diante da imagem de Jesus crucificado e chorou amargamente, dizendo: Meu Jesus, não mais pecar, não mais pecar. Jesus, Amor infinito das almas, toma o meu coração. É teu.

E assim, banhada em lágrimas, ajoelhou-se aos pés de um santo confessor. Ali esteve longo tempo. Quando se levantou, já era outra.

Ajoelhara-se pecadora, levantara-se santa, porque esse foi o dia de sua definitiva conversão. Dai em diante, viveu e morreu como santa.

Festa: 22 de março.

Ler também: Mais uma historinha do Tesouro de Exemplos, Tesouros de Exemplos – mais três historinhas, Mais duas historinhas católicas: Ah! se a Vozes ainda fosse uma editora católica!,
Quando a Vozes ainda era uma editora católica

12/09/2009

Mais uma historinha do Tesouro de Exemplos

Este é o exemplo de sacerdócio que o Papa Bento XVI quer dar aos padres do mundo inteiro. Este é, segundo Bento XVI, o ideal que todo padre deve almejar em sua vida. Penitência, oração, instrução, sacramento e ... santidade.


São João Maria Vianney


Nasceu de família humilde numa pequena aldeia da França, em 1785. Aos oito anos guardava um pequeno rebanho e, levando consigo uma imagenzinha de Nossa-Senhora reunia os companheiros da sua idade e diante da imagem rezavam o rosário. Outras vezes, confiava à sua irmãzinha a guarda das ovelhas e procurava um lugar solitário para rezar.

Aos treze anos deixou o rebanho e começou a trabalhar na roça.

"Quando estava na roça - conta ele mesmo - rezava em voz alta, se não havia ninguém perto; e em voz baixa, quando havia ali algum companheiro. Ao manejar a enxada, costumava dizer: É preciso arrancar da alma as más ervas. Quando, depois de comer, os outros dormiam a sesta, eu aparentava dormir, mas continuava conversando com Deus em meu coração. Quando ouvia o relógio, dizia: Coragem, minha alma; o tempo passa; a eternidade chega; vivamos como condenados a morrer. E rezava uma Ave-Maria".

Estudou para padre. Muito lhe custou passar nos exames; mas, à força de trabalho, penitência e oração, conseguiu chegar a bom termo. Seus superiores mostraram-se benévolos com ele, porque reconheciam sua virtude e seu zelo.

Foi destinado a reger a pequenina paróquia de Ars. Os moradores de Ars eram indiferentes; não iam à igreja. João Maria recorreu a suas armas favoritas: passava horas inteiras, em oração, diante do sacrário; mortificava-se, disciplinava-se e tudo oferecia a Deus para que tocasse os corações de seus paroquianos. Ao mesmo tempo, esmerava-se em tratá-los com amor e prodigalizar-lhes conselhos e esmolas.

Pouco a pouco fez-se o milagre, e Ars começou a ser uma paróquia exemplar. A fama da santidade do cura de Ars transpôs fronteiras não só daquela aldeia, mas até da França. Milhares e milhares de pessoas chegavam de toda a parte para confessar-se com o Santo, ouvir os seus sermões, solicitar seus milagres. Em 1840, contaram-se mais de 20.000 peregrinos, e esse número continuou aumentando.

Levantava-se, invariavelmente, à meia-noite para dirigir-se à igreja e sentar-se no confessionário. Os penitentes sucediam-se sem interrupção até as sete, hora em que o vigário celebrava. Terminada a missa, outra vez confissão até as onze. Subia, então, ao púlpito e fazia a sua instrução catequética. Saía da igreja ao meio-dia. Dois guardas precisavam defendê-lo dos empurrões do povo, pois todos queriam vê-lo, falar-lhe, tocá-lo, receber sua bênção, guardar alguma palavra sua. Às 13 horas, novamente confessar até à reza da noite.

Perguntaram-lhe uma vez:
- Se Deus vos permitisse escolher entre estas duas coisas: ir para o céu, agora mesmo, ou ficar na terra, até o fim do mundo, trabalhando na conversão dos pecadores, que faríeis?
- Ficaria na terra.
- Até o fim do mundo?
- Sim, até o fim do mundo.
- Mas, com tanto tempo ainda, não vos levantaríeis tão de madrugada... não é?
- Ah! meu amigo; levantar-me-ia como agora, à meia noite, e seria o mais feliz dos servidores de Deus.

Gozava do dom da profecia e de penetrar no mais secreto das vidas e das consciências. Gente não disposta a confessar-se, resolvida a fazê-lo mal, ficava surpreendida quando o Santo recordava pecados ocultos, e saía chorando do confessionário. Dissipava as dúvidas com muita facilidade.

Fez grandes e inúmeros milagres tanto em vida como depois de sua morte, cuja data ele mesmo anunciou com exatidão. A 9 de agosto de 1859, aos setenta e três anos de idade, sua alma voou para o céu, onde goza e gozará do prêmio eterno de seus trabalhos e penitências.

Festa: 9 de agosto.

Ver Quando a Vozes ainda era uma editora católica

08/09/2009

Palavras duras de Bento XVI para a CNBB

O Santo Padre, dirigindo-se a bispos brasileiros (regionais oeste 1 e 2 da CNBB), usa de palavras duras para descrever a situação da Igreja no Brasil e, para mais uma vez, fazer uma crítica ao Concílio Vaticano II. Ele diz que depois do Concílio Vaticano II, “insensivelmente caiu-se na auto-secularização de muitas comunidades eclesiais”. Recentemente escrevi aqui sobre as famigeradas CEB’s (Comunidades Eclesiais de Base) e de um tal Encontro Intereclesial. Disse que estas CEB’s são um antro de comunismo dentro da Igreja. O Santo Padre, muito mais cuidadoso, disse que dentro de muitas comunidades eclesiais (que dirá das “de base”?) “caiu-se na auto-secularização”.

O Santo Padre diz mais. Diz que alguém que procure a Igreja, quer encontrar Jesus ressuscitado dentro de nossos corações compassivos. O que ele não disse, por ser sempre cauteloso, é que quem procura a Igreja não quer encontrar Marx redivivo em nossa língua afiada.

Disse ainda que “jovens sedentos de transcendência” batem às portas dos seminários e que a Igreja deve recebê-los “segundo o modelo do Cristo Bom Pastor”. O que ele não disse, por ser sempre cauteloso, é que é no seminário que acontece exatamente a auto-secularização da Igreja. O que ele não disse é que é aí que os jovens sedentos de transcendência aprendem a ser marxistas da mais baixa qualidade. O que ele não disse é que é nos seminários que se estuda Kant, Hegel, Marx, Wittgenstein etc., mas não se estuda Santo Tomás de Aquino, por exemplo.

Ou seja, neste discurso o que o Santo Padre diz é tão significativo quanto o que ele, sendo papa, não pode dizer tão claramente. Seguem as parte mais significativas do discurso. Os negritos são meus.

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(...) Prezados Irmãos, nos decênios sucessivos ao Concílio Vaticano II, alguns interpretaram a abertura ao mundo, não como uma exigência do ardor missionário do Coração de Cristo, mas como uma passagem à secularização, vislumbrando nesta alguns valores de grande densidade cristã como igualdade, liberdade, solidariedade, mostrando-se disponíveis a fazer concessões e descobrir campos de cooperação. Assistiu-se assim a intervenções de alguns responsáveis eclesiais em debates éticos, correspondendo às expectativas da opinião pública, mas deixou-se de falar de certas verdades fundamentais da fé, como do pecado, da graça, da vida teologal e dos novíssimos. Insensivelmente caiu-se na auto-secularização de muitas comunidades eclesiais; estas, esperando agradar aos que não vinham, viram partir, defraudados e desiludidos, muitos daqueles que tinham: os nossos contemporâneos, quando vêm ter conosco, querem ver aquilo que não vêem em parte alguma, ou seja, a alegria e a esperança que brotam do fato de estarmos com o Senhor ressuscitado.

Atualmente há uma nova geração já nascida neste ambiente eclesial secularizado que, em vez de registrar abertura e consensos, vê na sociedade o fosso das diferenças e contraposições ao Magistério da Igreja, sobretudo em campo ético, alargar-se cada vez mais. Neste deserto de Deus, a nova geração sente uma grande sede de transcendência.

São os jovens desta nova geração que batem hoje à porta do Seminário e que necessitam encontrar formadores que sejam verdadeiros homens de Deus, sacerdotes totalmente dedicados à formação, que testemunhem o dom de si à Igreja, através do celibato e da vida austera, segundo o modelo do Cristo Bom Pastor. Assim esses jovens aprenderão a ser sensíveis ao encontro com o Senhor, na participação diária da Eucaristia, amando o silêncio e a oração, procurando, em primeiro lugar, a glória de Deus e a salvação das almas. Amados Irmãos, como sabeis, é tarefa do Bispo estabelecer os critérios essenciais para a formação dos seminaristas e dos presbíteros na fidelidade às normas universais da Igreja: neste espírito devem ser desenvolvidas as reflexões sobre este tema, objeto da assembléia plenária da vossa Conferência Episcopal, em abril passado.

Certo de poder contar com o vosso zelo no tocante à formação sacerdotal, convido todos Bispos, seus sacerdotes e seminaristas a reproduzirem na vida a caridade de Cristo Sacerdote e Bom Pastor, como fez o Santo Cura d’Ars. E, como ele, tomem por modelo e proteção da própria vocação a Virgem Mãe, que correspondeu de um modo único ao chamado de Deus, concebendo no seu coração e na sua carne o Verbo feito homem para doá-lo à humanidade. Às vossas dioceses, com uma cordial saudação e a certeza da minha oração, levai uma paterna Bênção Apostólica.

05/09/2009

A Revolta contra as Idéias

Nota do Tradutor: Este é um capítulo do livro The Thing (A Coisa), publicado em 1929. Aqui vemos Chesterton expressar algumas de suas idéias sobre o capitalismo, sobre a Reforma e fazer uma defesa dos valores medievais. A propósito, a "coisa" do título é exatamente a Igreja Católica e perpassa, sem menção direta, todos os capítulos do livro. Espero um dia poder traduzir este livro.


Gilbert Keith Chesterton


Ao mesmo tempo em que o Daily Express fornece-nos terríveis informações sobre o México, a seção de cartas do Daily Express fornece-nos informações quase igualmente tão terríveis sobre a Inglaterra. Isso dá-nos uma idéia do quão monstruosas e disformes são as coisas que ainda existem em nosso meio, veladas pelas vilas de tijolos vermelhos e por chapéus de feltro. As horrorosas revelações sobre a Inglaterra foram, claro, principalmente psicológicas. Não foi a anarquia do estado que fez fracassar a luta dos povos latinos. Foi a anarquia da mente, que é um caráter especial daqueles a quem chamamos, nos momentos de raiva, de anglo-saxões. Um ateu mexicano seria muito capaz de cortar a garganta de um padre ou praticar tiro de canhão em uma freira. Mas ele seria incapaz de afirmar, como fizeram os protestantes no jornal, que era certo para Calles[1] perseguir aquela crença naquela ocasião, porque era errado para os católicos perseguirem qualquer crença em qualquer ocasião. Nenhum anarquista consegue ser tão anárquico. Calles poderia ter explodido a catedral de São Pedro, mas ele não culparia um espanhol por ter feito o que um mexicano, louvado por ele, estava tentando fazer. A esse respeito, mesmo Calles é mais católico e mais latino. Ele quer fazer as coisas à sua própria maneira, e impedir milhares de pessoas de fazer as coisas à maneira deles; mas ele não quer ambas as coisas. Este sacramento selvagem, o milagre do desaparecimento e reaparecimento do bolo, do bolo que é sempre devorado e sempre permanece – este milagre pertence à religião da irracionalidade e somente acontece nas capelas de nosso próprio e livre país.

Em meio à confusão de tais palavras, houve uma frase numa das cartas que é de algum interesse sociológico para nós. Um desses intolerantes “tolerantistas” estava tentando defender Calles por meio da sugestão de que somente um preconceituoso pode acusá-lo de extremismo anárquico e anti-religioso. É muito injusto (foi dito) chamar Calles de ateu ou bolchevique. De fato, podemos aprender de todas essas cartas que Calles é provavelmente um metodista wesleyano e freqüenta regularmente a capela de East Croydon. Mas ele é ainda pior. Eles parecem considerar que é um favor a Calles fazê-lo o extraordinário elogio de comparando-o aos reformadores do século XVI. O correspondente aqui em foco usa isso com um argumento contra o alegado anarquismo do mexicano – caso ele seja mexicano. “Calles e seus partidário são estigmatizados como ateus e bolcheviques – Por quê? Foram os reformadores ingleses bolcheviques? Certamente não.”

Com isso concordamos alegremente. Com uma sincera unanimidade podemos repetir, “Certamente não.” Os reformadores ingleses certamente não foram bolcheviques. Ninguém concordará com a elegante afirmação de que os reformadores ingleses foram capitalistas. Poucas pessoas na histórias mereceram ser descritos tão exatamente, tão completamente, como tipicamente capitalistas. Eles foram muitas outras coisas além de capitalistas; alguns deles eram mal-educados, alguns cavalheiros, alguns poucos eram homens honestos, muitos eram ladrões, um tipo mais ordinário de cortesões, um tipo melhor de monomaníacos; mas eles eram todos capitalistas e o que eles criaram foi o capitalismo. Todos eles conduziram suas poderosas operações políticas baseados numa enorme acumulação de capital; mas eles nunca, mesmo com seus olhos moribundos, perderam a luz de esperança e expectativa; a promessa e a visão de mais capital.

Mas o que nos preocupa hoje em dia é isto: é o capitalismo deles que permaneceu. De fato, muitos deles tinham outros ideais de simplificação espiritual que poderiam, em certo sentido, ser comparados ao comunismo. Nunca devemos chamar de bolchevique um homem como Cranmer ou um homem como Burleigh. Poderíamos dizer, com Hamlet, “Pois quiséramos que fôsseis tão honesto”. Mas havia homens naquele movimento, ou naquela confusão, que eram tão loucos e honestos quanto os bolcheviques. Havia entusiasmos teóricos e especialmente teológicos que moviam particularmente em direção à simplicidade; como aqueles dos bolcheviques. Mas uma coisa deve ser fixada: aquelas teorias estão mortas. Havia um esquema lógico e imponente de pensamento; mas foi isso que foi completamente abandonado pelo pensamento moderno. Havia ideais sinceros em alguns dos primeiros protestantes; mas eles não são os ideais dos protestantes modernos. Assim, o calvinismo foi uma definida filosofia; o que é suficiente para distingui-lo do pensamento moderno. Mesmo que os protestantes modernos retenham elementos do calvinismo, o calvinismo está morto. Se eles retivessem elementos de comunismo, como alguns deles poderiam tê-lo feito, aquele comunismo estaria agora morto. Nada além de seu capitalismo está vivo.

Devemos lembrar que mesmo falar sobre a corrupção dos monastérios é um elogio aos monastérios. Pois não falamos da corrupção dos corruptos. Ninguém pretende afirmar que as instituições medievais começaram com mera avareza e soberba. Mas as modernas instituições assim o fizeram. Ninguém diz que São Bento escreveu suas regras de trabalho a fim de fazer seus monges preguiçosos; mas somente que eles se tornaram preguiçosos. Ninguém diz que os primeiros franciscanos praticavam a pobreza para obter riqueza; mas somente que as fraternidades posteriores obtiveram riquezas. Mas é completamente claro que os Cecils, os Russels etc. quiseram de início ficar ricos. Que o que foi a morte para o catolicismo foi realmente o nascimento do capitalismo. Desde então, temos tido não a inconsistência de um homem que, fazendo voto de pobreza, ficasse rico; mas uma consistência assaz chocante, de um homem que, fazendo um voto de riqueza, ficasse mais rico ainda. Depois disso, não houve mais fim a corrida da ambição; e a crença coisas cada vez maiores. É certamente verdade que os reformadores não foram comunistas. Pode ser argumentado competentemente que os religiosos eram comunistas. Mas a questão mais vital não é o comunismo, mas um certo espírito comparativo. O grande proprietário de terras aumento e o pequeno proprietário diminuiu. Ambos eram orgulhosos em possuir terras. Mas o orgulho se tornou cada vez maior na posse de grandes propriedades, e não na posse da propriedade. Assim, por seu lado, o merceeiro parou de se preocupar com seu próprio negócio e somente conseguia se orgulhar do número de negócios com que se preocupar. Disso veio toda a megalomania mercantil de hoje; com sua transformação universal do pequeno negócio em grandes corporações. Esta foi a conclusão natural do movimento, na direção oposta à transformação de todos os pequenos negócios em guildas. Mas sua gênese foi a mudança de um ideal de humildade, em que muitos fracassavam, para um ideal de orgulho, em que, por sua própria natureza, somente alguns conseguem o sucesso.

Nesse sentido, podemos concordar com o correspondente do jornal; que os reformadores não foram revolucionários. Podemos tranqüilizar aquele simples cavalheiro com a nossa total percepção de que eles não foram bolcheviques. Podemos absolver integralmente os Cranmers e os Cromwells de qualquer desejo incansável de sublevar o proletariado. Podemos absolver os grandes nomes de Burleigh e Bacon da mancha de qualquer perigosa simpatia com o pobre. A marca distintiva dos reformadores foi um profundo respeito pelos poderosos, mas um respeito ainda mais profundo pela riqueza; e uma reverência realmente incomensurável pela própria riqueza. Algumas pessoas gostam desse espírito, e consideram-no como a mais razoável fundação de um governo estável; não precisamos discutir sobre isso aqui. Esse espírito é, geralmente, o que é considerado respeitabilidade por todos os que não têm nada mais para respeitar. Ninguém poderia certamente confundi-lo com revolução. Mas a questão de importância histórica poderia ser colocada de outra forma, também mais ou menos favorável aos reformadores. O capitalismo não era apenas sólido, era em certo sentido, cândido. Ele estabeleceu uma classe a ser adorada aberta e francamente por sua riqueza. Este é o contraste real entre esta e a ordem medieval. Tal riqueza veio do abuso dos monges e abades; veio da ação de comerciantes e grandes proprietários. Os abades avarentos violaram seus ideais. Os empregadores avarentos não tinham ideais para violar. Pois nunca houve, propriamente falando, um ideal capitalista do bem; apesar de haver um grande número de homens bons que são capitalistas seguindo outros ideais. A Reforma, especialmente na Inglaterra, foi acima de tudo o abandono da tentativa de governar o mundo por meio de ideais, ou mesmo por meio de idéias. A tentativa falhara indubitavelmente, em parte, porque aqueles que eram os supostos idealistas fracassaram em sustentar os ideais; e muitos dos supostos aceitadores da idéia geral frustraram a realização das idéias. Mas aquela tentativa sofreu o ataque daqueles que odiavam, não somente aqueles ideais, mas qualquer ideal. Foi o resultado dos apetites impacientes e imperiosos da humanidade, que odeiam ser limitados por laços; mas, acima de tudo, por laços invisíveis. Pois os reformadores ingleses não estabeleceram um ideal oposto ou um conjunto alternativo de ideais. Como nosso amigo disse verdadeiramente, eles não eram bolcheviques. Eles estabeleceram certas coisas muito formidáveis chamadas fatos. Eles estabeleceram quase abertamente que iam governar o reino meramente por meio de fatos; pelo fato de alguém chamado Russel ter tido duzentas vezes mais dinheiro que seus vizinhos; pelo fato de que alguém chamado Cecil ter obtido o poder de mandar qualquer vizinho para a forca. Os fatos são sólidos, pelo menos enquanto duram; mas a coisa fatal sobre eles é que eles não duram. Somente as idéias duram. E hoje um homem pode chamar-se Russel e ter consideravelmente menos dinheiro que um homem que chama-se Rockefeller; e a história pode assistir o espetáculo impressionante de um homem chamado Cecil ser expulso da política e chamado de idealista e um fracassado.

O mesmo progresso que fez os grandes proprietários os destruiu. O mesmo avanço comercial que exaltou a Inglaterra perante a Europa a humilhou perante a América. Na exata medida em que temos nossas afeições saudavelmente ligadas a esta aventurosa e patriótica Inglaterra dos últimos poucos séculos, devemos perceber que nossas afeições estão fadadas a ser traídas. O processo chamado prático, a tentativa de governar por meio de meros fatos, tem em sua própria natureza a essência de todas as traições. Descobrimos que os fatos, que parecem sólidos, são, de todas as coisas, as mais fluidas. Como os professores e os arrogantes dizer, os fatos estão sempre evoluindo; em outras palavras, eles estão sempre evadindo-se, escapando ou fugindo. Homens que se prostram ante a riqueza de um grande proprietário, porque isso permite-lhe comportar-se com um cavalheiro, têm de se prostrar ante a mesma riqueza de alguém que não consegue comportar-se como um cavalheiro; e, eventualmente talvez, ante a mesma riqueza que não esteja ligada a nenhum ser humano reconhecível, mas investida em uma companhia irresponsável num país estrangeiro. A riqueza cria, de fato, asas para si mesmo, e pode até habitar as mais longínquas partes do oceano. A riqueza torna-se disforme e quase fabulosa; de fato, são satíricos inconscientes que falam de “fabulosa riqueza”. Grandes financistas compram e vendem milhares de coisas que ninguém jamais viu; e que são, para todos os propósitos práticos, imaginárias. Assim termina a aventura de se acreditar apenas em fatos; termina num conto de fadas de fantásticas abstrações.

Devemos retornar à idéia de governo por meio de idéias. Há apenas um grão de verdade na já mencionada fantasia do comunismo. Mas há idéias muito mais ricas, mais sutis e mais bem equilibradas no catolicismo medieval. Repito que este catolicismo foi arruinado tanto por católicos quanto por protestantes. Os pecados medievais impediram e corromperam as idéias medievais, antes de os reformadores decidirem abandonar todas as idéias. Mas seguir aquelas idéias foi a coisa certa a fazer, ou tentar fazer; e não há e nunca haverá nada mais a fazer exceto tentar de novo. Muitos homens medievais fracassaram na tentativa de pôr em prática aqueles ideais. Mas muitos homens modernos estão fracassando ainda mais desastrosamente na tentativa de viver sem eles. E através deste fracasso estamos gradualmente entendendo as reais vantagens daquele esquema antigo que apenas parcialmente fracassou; segundo o qual, em teoria pelo menos, o homem da paz era mais elevado que o homem da guerra, e a pobreza, superior à riqueza.

Há uma curiosa e pequena frase no ensaio de Macaulay sobre Bacon; aquela grande explosão dos filisteus contra os filósofos. Numa pequena sentença, o grande filisteu trai a fraqueza de todo seu argumento de utilitarismo. Falando desdenhosamente do escolástico, ele diz que Santo Tomás de Aquino deveria sem dúvida (tal era sua simplicidade) ter pensado ser mais importante fabricar silogismos do que pólvora. Nem mesmo a Conspiração da Pólvora[2] poderia impedir aquele protestante resistente de supor que a pólvora é sempre útil. Desde seu tempo temos visto muito mais pólvora. Não é necessário ser um pacifista para considerar que a pólvora não necessita continuar a ser útil em tão larga escala. E uma grande parte do mundo atingiu agora um estado de reação no qual está disposto a clamar, “Se houver qualquer silogismo que nos salve de toda essa pólvora, pelo amor de Deus, permita-nos ouvi-lo.” Eles estão preparados, em desespero, a aceitar até a lógica. Eles não ouvirão apenas a religião, eles talvez ouçam até a razão, se ela prometer-lhes um pouco de paz.

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[1] Plutarco Elias Calles, ditador mexicano, anti-católico e maçom, em cujo governo aconteceu a Guerra dos Cristeros (1926-29), que acabou num massacre de católicos mexicanos. (N. do T.)
[2] Conspiração da Pólvora foi organizada por católicos para explodir o Parlamento quando o rei James I, em 5 de novembro de 1605 o estivesse presidindo. (N. do T.)