terça-feira, setembro 27, 2011

O amor à Sagrada Humanidade de Jesus segundo Padre Faber.

Nota do blog: Padre Faber continua a nos falar sobre os empecilhos à vida espiritual. Depois da devoção à Nossa Senhora, ele aborda o amor à Sagrada Humanidade de Jesus. Aqui fica claro, mais que em qualquer outro lugar, como nossa religião é diferente das demais, como a espiritualidade católica difere da espiritualidade oriental, tão em moda atualmente. Aqui também se pode perceber quão escandalosa pode se tornar para o mundo a cruz de Nosso Senhor.


Talvez a devoção à sagrada Humanidade de Jesus e aos seus mistérios seja defeituosa. É bem possível, e não é tão raro quanto deveria ser. Quem pode, porém, duvidar dessa devoção, que, embora nem sempre nos deixe nas mais altas regiões da contemplação, é todavia indispensável nas fases iniciais da vida espiritual? Deve impregnar todas as camadas da vida cristã. E ser cristão significa isso e não outra coisa. Cristo é o caminho do cristão, a verdade do cristão, a vida do cristão. Levar vida santa é ser esposa do Verbo incarnado, e, portanto, o amor do Verbo incarnado é o próprio coração da santidade. O amor da sagrada Humanidade é de três espécies: uma representa os afetos interiores para com nosso Senhor; outra, as provas de sinceridade e solidez desses afetos, e outra ainda, as operações que Jesus, Ele mesmo, suscita nas almas bem dispostas. São respectivamente, amor afetivo, efetivo e passivo.

O amor afetivo de nosso Senhor consiste num desejo intenso de sua glória, numa alegre complacência no triunfo dos seus interesses e num afetuoso e nobre pesar à vista do pecado. Leva-nos a derramar a alma em confidência junto d'Ele, a queixar-nos da nossa frieza e imperfeições, a expor-Lhe nossas penas, cansaços, desgostos e provações, abandonando-Lhe tudo numa indiferença tranquila e infantil.

O amor efetivo faz-nos ver a imagem viva de Jesus, representando em nossa própria vida os estados, mistério e virtudes da Sua. Trazemos exteriormente essa imagem pela contínua mortificação, diminuindo e apertando o conforto corporal, regulando os sentidos, derrubando as exigências extravagantes do mundo e da sociedade, pela ciosa moderação dos afetos e dos prazeres inocentes, e pela perpétua repressão de toda vaidade e arrogância. Nossa vida interior é conforme à de Jesus pela liberdade de espírito que significa o desapego das criaturas e a conformidade à sua vontade. Nossas ações exteriores trazem a estampa divina quando procedemos como se fôssemos membros seus, quando fazemos todas as ações em seu nome e segundo as suas inspirações.

Não devemos, de modo geral, contar com o amor passivo, nessa fase da vida espiritual; se trato dele aqui, é mais para aprendermos a anelar pelo dia em que venha a ser nosso. É sempre animador o pensamento de quão perto de Jesus somos capazes de chegar, mesmo antes de morrer, se assim aprouver a Deus. Sua primeira operação nesse estado sobrenatural é ferir-nos a alma de amor, para que percamos o gosto de tudo que não for Ele ou d'Ele. É como se nos fosse dada uma nova natureza, tão pouco em harmonia com o mundo desgraçado que nos cerca, que desfalecemos e definhamos como se estivéssemos fora do nosso elemento. Então Deus aprofunda e embebe-nos os pensamentos, afetos, palavras e obras com o Seu amor, até ficarmos incapazes de fazer outra coisa senão O procurar, qual Esposa dos Cânticos. Todo amor, exceto o Seu, é rejeitado; toda idéia, exceto a Sua, apaga-se-nos na imaginação; tudo, enfim, que não está em relação com Ele, cai-nos da lembrança, como se nunca fora, a tal ponto que Ele possui a nossa alma inteiramente e não somos nós que vivemos, mas Ele é que vive em nós. Então abrasa-nos como o fogo do Seu irresistível amor e faz-nos dar largas aos feitos de heróica caridade e união sobrenatural com Ele. Ao mesmo tempo, aviva-nos o sentimento da nossa própria vileza, do nosso nada, de tal maneira que estamos sempre a deplorar a insignificância do nosso serviço e a falta de energia dos nossos corações. Por último, Deus lança-nos num estado de sofrimento purificador; ajusta-nos aos ombros a cruz perene e nós, então, só procuramos sofrer mais, só evitamos sofrer menos. Assim, despe-nos de nós mesmos e torna-nos inteiramente Seus. Tudo isso, porém, ainda está muito longe. Fitai os olhos atentamente no alto; não sei, porém, se conseguireis sequer ver os topos das montanhas onde tudo isso se encontra. Coragem! Já é alguma coisa saber que existem tais alturas.

Inconcebíveis são as vantagens que tiramos desses exercícios de amor do Verbo incarnado. O coração desapega-se das criaturas; o amor próprio queima-se e extingue-se; as imperfeições desaparecem; a alma enche-se do espírito de Jesus e dá passos de gigante nas veredas da perfeição. Se a brisa não nos impele as velas, verifiquemos se nosso amor para com a adorável Pessoa e a sagrada Humanidade de nosso Senhor é o que deveria ser, o que Ele espera e pede de nós; se, ao menos, cultivamos visivelmente esse amor e se nos esforçamos diariamente por dilatá-lo.

2 comentários:

Guilherme disse...

Caro Angueth,

Sugiro outro texto do padre Faber: A Devoção ao Papa. Ele pode ser baixado no blog A Grande Guerra.

Grande abraço!

JBM disse...

Caríssimo Prof. Angueth: Excelente mensagem --- como todas, aliás, postadas no blog. Ouso manifestar-me com a lembrança de Pe. Vieira, em um de seus sermões, defendendo que, dentre tantas demonstrações do Amor Divino (Encarnar-se; dar a Vida pelos homens; Humilhar-se na Lavagem dos Pés dos Apóstolos {com especial destaque para Judas, já que o sabia desde sempre traidor); deixar-se ficar na Eucaristia; e assim por diante, conforme os Doutores da Igreja, cada qual destacando um Afeto ainda mais encarecido que o Outro), a maior prova do Amor de Jesus (no entender do insuperável Jesuíta seiscentista) foi o pedido de que retribuíssemos esse Amor Divino com o amor para com o próximo. Essa a retribuição que o Amor Maior e Perfeito de Cristo pediu ao amor menor dos homens: Retribuição não para Ele (posto seja nossa obrigação primeira amar a DEUS sobre todas as coisas (na Pessoa da Santíssima Trindade), repito, retribuição não para Ele, mas para com os irmãos de Humanidade.
Será que compreendi bem o que disse Pe. Vieira? Ou estou aqui expondo (para todos) o que nem eu mesmo entendi completamente? Se isso for fruto (mais um) apenas da minha consciente ignorância, por favor desconsidere e sequer publique.
Fraternalmente,

JBM