domingo, agosto 14, 2005

A tragédia da África II

Thomas Sowell


A natureza e o homem – negro ou branco -- têm feito da África o mais trágico dos continentes.

O grande historiador francês Fernand Braudel disse que “Para entender a África negra, a geografia é mais importante que a história.” Muito da história da África foi moldada por sua geografia.

Quase toda grande cidade do mundo nasceu às margens de rios navegáveis – e tais cursos d’água são mais escassos na África do que em qualquer outro continente. Um porta-aviões pode ancorar no rio Hudson no coração de Manhattan, mas não há um só rio onde isso é possível em todo o vasto continente africano, que é maior que a Europa ou a América do Norte.

Mesmo navios menores só podem navegar pequenas distâncias na maioria dos rios africanos, por causa das cascatas e cachoeiras. A maior parte do continente está a mais de 300 metros acima do nível do mar e mais da metade da África está a mais de 600 metros. Isso significa que seus rios e cursos d’água têm de despencar dessas alturas nos seus caminhos para o mar.

O transporte fluvial foi crucial nos milhares de anos antes dos trens e automóveis. Foi crucial para o desenvolvimento da economia e crucial para o desenvolvimento de uma cultura que mantivesse contato com um número suficiente de outras culturas, amplamente espalhadas ao redor do globo, para fazer uso dos avanços do resto do mundo. Mas, muitas sociedades africanas ficaram isoladas pela escassez continental de rios e ancoradouros.

Regiões isoladas, invariavelmente, se atrasam em comparação com regiões em contato com um universo cultural mais amplo. Um dos muitos sinais do isolamento e da fragmentação cultural da maior parte da África sub-saariana é que o número de línguas africanas chega a um terço do número de línguas existentes em todo o mundo, enquanto que a população africana é aproximadamente 10% da população mundial.

Sociedades pequenas e tribais são uma outra conseqüência do isolamento geográfico – sendo outra, a vulnerabilidade de tais sociedades à conquista externa.

Se a diversidade cultural fosse tudo o que afirmam os multiculturalistas, a África seria um paraíso na terra. Muito freqüentemente e em muitos lugares, ela tem sido um inferno.

Muitos tinham a esperança de grandes feitos na África quando as novas nações africanas independentes começaram a emergir do controle colonial nos anos 1960, sempre governadas por líderes educados na Europa e nos EUA.

Infelizmente, o que esses novos líderes trouxeram de volta para a África não foram as coisas que fizeram a prosperidade e o poder do Ocidente, mas as teorias não testadas dos ideólogos e intelectuais ocidentais dos quais foram alunos. A tais líderes africanos, na sua maioria, faltavam o senso comum das massas africanas e a experiência econômica e tecnológica do Ocidente.

O resultado foi que os líderes africanos, cheios de confiança pela sua educação e pela adulação da intelligentsia ocidental, fizeram de seus povos ratos de laboratórios para imaturas teorias que não contribuíram, em nada, para o crescimento do Ocidente e, sim, para muito de sua degeneração social.

A empobrecida África tinha uma capacidade muito menor para suportar esses desastres econômicos e sociais que os países afluentes do ocidente. No entanto, os líderes africanos não foram julgados pelo Ocidente pelos seus resultados, mas por suas retóricas e visões que tinham ressonância com a retórica e a visão da intelligentsia ocidental.

Assim, Julius Nyerere se tornou, virtualmente, um santo na mídia ocidental, enquanto ele levava o povo da Tanzânia, cada vez mais profundamente, para a pobreza e a tirania. E ele não foi o único.

Contrariamente, quando Felix Nouphouet-Boigny fez da Costa do Marfim um oásis de avanço econômico e paz social, ele, ou foi ignorado, ou desdenhado. Ele foi um dos poucos líderes africanos com uma preciosa experiência em negócios e uma compreensão de Economia. Seus sucessores arruinaram o país.

Quaisquer que sejam os danos que o colonialismo europeu promoveu na África durante seu, relativamente, breve reino, eles foram, provavelmente, menores do que os danos posteriores perpetrados pelos bem-intencionados e pretensos salvadores ocidentais da África. Os africanos não precisam ser tratados como mascotes, mas como pessoas, cujos esforços, habilidades e iniciativas próprios necessitam ser liberados das tiranias de seus líderes e do paternalismo de presunçosos ocidentais.

13/07/2005


Notas
1) Para ler mais sobre a África e a história de seus vários países, ver
Conquest e Cultures: An International
History, Thomas Sowell, Basic Books, New York, 1998
2) Este artigo foi originalmente publicado em
http://www.townhall.com/columnists/thomassowell/archive.shtml.

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