quarta-feira, agosto 24, 2005

O que é Ciência

Nota: A Neurociência e a Sociobiologia são ciências recentes e estão na moda. Congressos, seminários, livros, artigos etc., sobre esses assuntos abundam. Em dois pequenos artigos (o segundo deles será postado mais tarde) Gene Callahan mostra quão frágeis são os pressupostos dessas ciências que mais sucesso fazem entre os integrantes da intelligentsia mundial.

Gene Callahan

A razão pela qual nosso ego pensante, consciente e sensitivo não encontra lugar no modelo científico de nosso mundo pode ser descrita em sete palavras: ele é o próprio modelo do mundo. Sendo ele idêntico ao todo, não pode estar contido em uma de suas partes.
- Erwin Schrodinger, Físico


Numa entrevista na edição de outubro de Reason, o psicólogo Steven Pinkey defende o materialismo e “desbanca” a idéia da existência da alma humana, da seguinte forma: “A doutrina do espírito no interior da máquina significa que as pessoas são habitadas por uma alma imaterial que é o lócus de toda a vontade e determinação, não podendo ser reduzida a uma função cerebral. Mas a neurociência está mostrando que todos os aspectos da vida mental – cada emoção, cada padrão de pensamento, cada memória – está associada à atividade ou estrutura fisiológica do cérebro.”

A afirmação de Pinker merece uma análise porque, mesmo sendo uma tolice filosófica, é um tipo de tolice que encontramos freqüentemente hoje em dia. Além disso, ela não é uma mera confusão, mas um tipo agressivo de confusão com um objetivo claro: desacreditar a religião. Pinker está vendendo sua crença religiosa, o materialismo, pela apresentação de um argumento pseudo-filosófico sob o disfarce de objetividade científica. Para aqueles leitores religiosos, ou, mesmo para qualquer leitor que esteja, simplesmente, interessado em encontrar algum sentido filosófico ao discutir ciência, é útil perceber o equívoco em tais argumentos.

Para entender o vazio da argumentação de Pinker, será necessário retroceder e considerar por um instante o que é ciência.

A palavra “ciência” tem vários usos: podemos ter a “ciência da culinária”, “a ciência da crítica literária”, e mesmo “a simpática ciência das embalagens para presentes”. Mas aqui eu considerarei a ciência como o caráter ideal do que freqüentemente é chamado de ciência dura: física, química, bioquímica, astronomia, etc. Pelo que entendo, esse caráter é a tentativa de abstração dos dados experimentais na obtenção de uma relação mecânica universal entre as quantidades mensuráveis.

Dada a missão, não há nenhuma razão, a priori, para o estabelecimento de limites sobre o tipo de experiência da qual a ciência possa tentar abstrair um aspecto mecânico. As pessoas religiosas têm, algumas vezes, se equivocado neste aspecto, declarando certas experiências – a mente, o gen, os movimentos da Terra e do Sol, ou a existência da vida na Terra – como estando interditadas à investigação científica. (Este equívoco não tem nada a ver com a questão da moralidade de certos métodos, tais como a clonagem, ou mesmo se eles devem ser usados pelos cientistas em sua busca do conhecimento.) O medo de tais pessoas está baseado numa falsa idéia: a relação mecânica abstraída de uma experiência não reduz, de forma alguma, esta experiência àquela abstração. A abstração deriva da experiência e certamente não a gera.

Se a ciência é a procura por tais abstrações, é errado repreender o cientista por “transformar tudo numa relação mecânica”. Enquanto agindo como cientista, é exatamente isso que ele está fazendo. Mas o outro lado da moeda é que o cientista agindo assim incorre em erro, quando confunde o processo de abstração com a “verdade fundamental” ou com a “forma como as coisas realmente são”. Ciência é uma maneira particular de olhar a experiência, verdadeira tanto quanto possível, não podendo pretender ter nenhum caráter definitivo vis-à-vis outros meios de entendimento do mundo, tais como a história, a religião e a arte. Nada há de surpreendente no fato de que a ciência formule abstrações mecânicas a partir da experiência e esses outros meios não o façam, pois, ela procura por tais abstrações, ao contrário da história, da religião ou da arte.

Tendo atingido tal abstração, constitui erro grave considerá-la como a causa da experiência em questão. A Lei da Gravitação Universal de Newton não é a causa da atração entre objetos físicos; ela é a descrição de um aspecto mecânico dessa atração.

Com nossa definição em mente, podemos identificar a confusão na raiz do argumento de Pinker. É muito possível que, de qualquer atividade mental, os neurocientistas possam abstrair um aspecto mecânico e associá-lo a certos pensamentos, emoções, etc. Mas isso, de forma alguma, “reduz” a atividade mental a uma “função do cérebro”. Tudo o que isso demonstra é que o pensamento também tem um aspecto mecânico. Partir desse fato para a noção de que esses processos mecânicos “causam” nossos pensamentos é similar a afirmar que, já que podemos abstrair certos aspectos de qualquer cidade e chamar essa abstração de “mapa”, os mapas são a causa das cidades!

É absurda a idéia de que a experiência “contemplar um por do sol na Baia Galway ao lado de seu verdadeiro amor”, de alguma forma possa se reduzir a certas respostas fisiológicas a um particular comprimento de onda da luz e à proximidade de um representante do sexo oposto. Pode-se, eventualmente, abstrair tal descrição da experiência, mas a experiência é o que ela significa para a pessoa que a vivenciou. O mecânico e o quantitativo são somente aspectos de nossa experiência, e como nenhuma experiência é sempre meramente mecânica ou quantitativa, tal descrição não pode, de forma alguma, pretender ser completa.



Este artigo foi publicado na página do LewRockwell.com em 07/09/2002. Gene Callahan é pesquisador associado do Ludwig von Mises Institute e colunista do LewRockwell.com.

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