domingo, agosto 28, 2005

Presunção Sociobiológica



Nota: Este artigo de Gene Callahan toca, en passant, numa questão muito polêmica, sobretudo nos EUA, que é a discussão criacionismo versus evolucionismo. Ao que parece, o Brasil está imune a essa discussão. Quando muito, algum sabichão daqui, emite uma opinião considerando o criacionismo um fanatismo religioso da direita americana. Para se ter uma idéia do estado da discussão, pode-se consultar o caso de um editor de uma revista de uma sociedade científica da área biológica que aceitou, para publicação, um artigo científico que defendia, de alguma forma, o criacionismo. O editor afirma que o artigo passou por todo o processo normal de avaliação pelos pares, antes de ser publicado. Seus críticos o acusam de favorecimento e sugerem que ele, sequer, poderia ter acolhido o artigo para revisão. A comunidade científica está se mobilizando para forçar o empregador do editor (ele tem um cargo de pesquisador no Museu de História Natural do Smithsonian Institute) a despedí-lo. Além disso, seus críticos não perdem oportunidade para difamá-lo, pessoal e profissionalmente. Curiosa e inesperada (será?) mistura de ciência, política e ideologia, não acham?


Gene Callahan


Na medida em que o paradigma darwiniano ganhou terreno nas ciências da vida no século seguinte à publicação da Origem das Espécies, alguns tópicos cruciais permaneceram além do seu campo explicativo. Um problema, especialmente, incômodo para os darwinianos foi a freqüência de aparecimento do comportamento, aparentemente, altruísta. Se, por exemplo, os golfinhos, freqüentemente, parecem salvar seres humanos que estão afogando, empurrando-os para a praia, então, de alguma forma, esse comportamento deve promover a própria sobrevivência dos golfinhos. É uma hipótese inconcebível dentro do darwinismo, que os golfinhos, simplesmente, tenham consideração para com o dilema humano.

O comportamento humano, em especial, é um enigma. Pessoas aderem a ordens religiosas celibatárias, fazem caridade, se tornam mártires, arriscam suas vidas em salvamentos ousados de pessoas desconhecidas, morrem por alguma revolução sangrenta. Como o postulado darwiniano fundamental, que todo fenômeno biológico pode ser explicado em termos de mutação e seleção natural, pode ser reconciliado com tais comportamentos?

A partir dos anos 1960, os darwinistas começaram a formular soluções para os problemas do altruísmo. O ponto de vista, geralmente, adotado tentava demonstrar que todo exemplo aparente de altruísmo ou era em proveito próprio, ou era, simplesmente, uma patologia. Por exemplo, alguém se sacrificar para defender seu país era interpretado como uma adaptação, que promovia a sobrevivência da sua própria prole ou de parentes próximos, resultando no aprimoramento de seus próprios genes, mesmo que não, de sua própria vida.

No entanto, há ainda muitos exemplos de comportamento humano que não pode ser, facilmente, atribuído a tais fatores. Um exemplo é o de Madre Teresa ajudando os pobre de Calcutá, que não são geneticamente próximos dela. Os darwinistas procuraram outras explicações. As sugestões incluem os benefícios, em termos de sobrevivência, do “altruísmo” recíproco (coce minhas costas que eu coço as suas), a possibilidade de aprimoramento do status sexual por meio de atos de bravura e sacrifício, e a manipulação do mecanismo genuinamente adaptativo de uma criatura por outra, a fim de melhorar as chances de sobrevivência dessa última. Exemplos do último caso incluem casos de pássaros canoros sendo “enganados” com a presença, em sua prole, de espécies de pássaros não canoros (Schloss, p. 245).

Surgiu, assim, um consenso sociobiológico segundo o qual é ilusão a noção de que uma pessoa aja moral ou altruisticamente. Os darwinistas, freqüentemente, acabam considerando a moral como sendo um truque aplicado sobre os seres humanos pela seleção natural. É uma forma de iludir os seres humanos, a fim de promover a sobrevivência de seus genes. Por exemplo, Edward Wilson, um dos fundadores da sociobiologia, diz que “a moral não tem nenhuma outra função demonstrável” além da de manter “o material genético humano intacto” (citado por Shloss, p. 246). Na mesma linha, Robert Wright argumenta, “O que for no interesse de seus genes parecerá ‘certo’ ... Orientação moral é um eufemismo” (citado por Schloss, p. 248).

A primeira coisa que gostaria de observar sobre o ponto de vista da sociobiologia é que se os sociobiologistas são sinceros em sua crença, então, eles são, por sua própria argumentação, inimigos da sobrevivência humana. Se a moral é, de fato, “uma ilusão coletiva da raça humana, criada e mantida pela seleção natural para promover a reprodução individual” (Ruse, citado por Schloss, p. 248), então, expor essa ilusão seria destrutivo para nossa espécie. Pela visão dos sociobiologistas, qualquer crença de que há princípios morais aos quais os seres humanos devem aderir pôde se tornar difundido porque isso conferia valor de sobrevivência aos genes de quem acreditasse naqueles princípios. Portanto, desacreditar tais crenças deve ameaçar a própria existência humana. Se os sociobiologistas consideram que eles descobriram um fato tão destrutivo, não deveriam, por humanidade, esconder essa descoberta, ao invés de, a todo o momento, divulgá-la?

Entretanto, não acho que os sociobiologistas estão, realmente, ameaçando a raça humana por difundirem suas idéias, pois, seu raciocínio é falho de formas ainda mais fundamentais, de maneira que, ao invés de exporem uma ilusão, ele estão, de fato, vertendo absurdos. Primeiramente, se a seleção natural exige, dos seres humanos, certos modos de comportamento, por que, trazer à tona tal assunto, envolveria qualquer forma de ilusão? Por que tais modos de comportamento não seriam automáticos? A idéia de que os seres humanos deveriam experimentar “uma ilusão coletiva” para se comportar de um modo geneticamente benéfico, implica que há alguma característica comum da humanidade, aquela que necessita da “ilusão moral”, que não promove a sobrevivência genética. Mas, pela teoria darwiniana, como tal característica comum pode ter sobrevivido?

No entanto, o argumento mais decisivo contra tal processo de teorização é sua natureza autocontraditória. Afinal, se as idéias morais são, simplesmente, “ilusão” em nós cultivada por nossos genes, então, também o são todas as nossas outras idéias – incluindo as idéias da sociobiologia!

Portanto, ao invés de divulgar suas teorias como algo “verdadeiro”, como o modo que as coisas realmente são quando enxergamos através de nossas tolas ilusões, os sociobiologistas teriam de admitir que suas próprias teorias são, simplesmente, um produto de seus genes. Longe de serem realidades “científicas” derivadas da observação de “evidências”, as teorias sociobiológicas devem ser algum tipo de “exibição”, muito parecida com o pavão abrindo sua cauda. As teorias sociobilógicas devem aumentar o sucesso reprodutivo dos sociobiologistas – talvez, seu “inflexível realismo” pegue bem nos coquetéis acadêmicos com seus pares mais jovens, ou algo parecido.

Michael Oakeshott chama idéias tais como a “explicação sociobiológica” da moralidade de “categoricamente absurda” (p. 38). Como ele observa:

“Quando um geneticista nos diz que ‘todo comportamento social e todos os eventos históricos são conseqüências inescapáveis da individualidade genética das pessoas envolvidas’ não temos dificuldade em reconhecer o efeito esclarecedor desse teorema nos escritos de Aristóteles, na queda de Constantinopla e na morte de Barbarossa; mas esse brilhante esclarecimento fica, talvez, algo ofuscado quando fica claro que o geneticista não tem nada mais revelador a dizer sobre sua ciência do que afirmar que ela é, também, feita por genes, e que o próprio teorema é o discurso de seus genes” (p. 15).


17 de janeiro de 2003


Referências


Oakeshott, M. (1975) On Human Conduct, Oxford, England: Oxford University Press.
Schloss, J.P. (1998) "Evolutionary Accounts of Altruism & the Problem of Goodness by Design," in Dembski, W.A. (ed.) Mere Creation: Science, Faith & Intelligent Design, InterVarsity Press: Downers Grove, Illinois, 236–261.

Gene Callahan é pesquisador associado do Ludwig von Mises Institute e colunista do LewRockwell.com.

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