27/11/2009
Belloc em português, pela primeira vez
Tocou a mim a tarefa da tradução da obra. Comecei-a no blog até que surgiu o interesse da Permanência. Para mim é muito significativo a publicação do livro, pois ele é o primeiro rebento do blog, rebento que sai do blog e ganha o mundo. Espero que o livro tenha para os leitores o mesmo impacto que teve para mim.
Em primeiro lugar, vê-se um verdadeiro historiador em pleno domínio de sua técnica. Em segundo lugar, vê-se um verdadeiro católico em pleno domínio de sua fé. Uma parte muito significativa da história da Igreja é contada no livro, mas não só. No livro, um período crucial do Império Romano ganha vida perante nossos olhos. Toda a trágica vida européia, do século VII ao século XVI, passa a desfilar à nossa frente. Quase participamos das Cruzadas com aqueles heróicos católicos nossos ancestrais. Sentimos todos os golpes desfechados contra a Igreja pelas sucessivas e diferentes heresias. Lutamos contra os cátaros que desejavam destruir a humanidade. Vemos o desenrolar de toda a Reforma e depois o amadurecimento de todos os seus frutos. Por fim, acompanhamos Belloc em sua análise da situação da Igreja no século XX, antes do Concílio Vaticano II, concílio este que realizou muitas das mais temerárias suspeitas do grande escritor.
Uma coisa posso garantir a todos os leitores do livro: nossa Fé será fortalecida com a leitura do livro.
Boa leitura a todos.
Auxilium Christianorum, ora pro nobis!
A farsa do aquecimento global desmascarada
Quem quiser ver o bando de safados combinando a enganação da população mundial, clique aqui. Este site poderá sair do ar. Se isso acontecer, eu tenho o arquivo em PDF e o disponibilizarei para download.
24/11/2009
Imitação de Cristo: conselhos para o estudante de filosofia e teologia
Resolvi, então, publicar os conselhos do livro IMITAÇÃO DE CRISTO para quem estuda filosofia ou teologia. São eles os capítulos 29, 39, 41 e 47 do Livro III.
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Capítulo 29 – Como se deve invocar a Deus, durante a tribulação
1. Alma fiel: – Senhor, bendito seja para sempre o vosso santo nome, porque quisestes que sobre mim viesse esta prova e tribulação. Não posso evitá-la; mas é necessário que a vós recorra, para que me ajudeis e convertais tudo em meu proveito.
Senhor, estou agora atribulado e não está bem o meu coração; muito me atormenta o presente sofrimento.
E, agora, Pai amantíssimo, que direi? Estou mergulhado em angústias; livrai-me desta hora.
E cheguei a este extremo, para que sejais glorificado, quando eu, depois de muito abatido, for por vós libertado.
Dignai-vos, Senhor, salvar-me; porque, pobre de mim, que farei e aonde irei sem vós?
Dai-me paciência, Senhor, ainda por esta vez.
Socorrei-me, Deus meu, e nada temerei por mais que esteja atribulado.
2. E agora, neste estado, que direi? Senhor, faça-se a vossa vontade. Bem mereço essas tribulações e angústias.
Convém que eu sofra e oxalá com resignação o faça, até que passe a tormenta e venha a bonança.
Poderosa é vossa mão onipotente para desviar de mim esta tentação e moderar-lhe a violência, para que eu não sucumba de todo; assim como muitas vezes tendes feito comigo. Deus meu, misericórdia minha.
E quanto mais difícil para mim, tanto mais fácil é para vós esta mudança da dextra do Altíssimo.
Capítulo 39 – Da calma que se deve conservar nos negócios
1. Cristo: – Filho, confia-me sempre a tua causa, disporei tudo bem, a seu tempo.
Espera pela minha decisão e disso tirarás proveito.
2. A alma fiel: – Senhor, de mui boa vontade, deponho em vossas mãos todos os meus negócios; porque pouco pode aproveitar a minha diligência.
Oxalá não me inquietasse com os sucessos futuros, mas, prontamente me entregasse ao vosso beneplácito!
3. Cristo: -- Filho, muitas vezes procura o homem, ansiosamente, alguma coisa que deseja; quando, porém, a alcança, começa a pensar de outro modo; porque as afeições não são duráveis e passam, facilmente, de um a outro objeto.
Não é, pois, pequena coisa, mesmo nas coisas mínimas, cada um renunciar-se a sim mesmo.
Mas o antigo adversário de todo o bem não deixa de tentar; ao contrário, dia e noite, arma cruéis ciladas, para precipitar o incauto nos laços do seu engano.
Vigiai e orai, diz o Senhor, para que não entreis em tentação.
Capítulo 41 – Do desprezo de toda honra temporal
1. Cristo: – Filho, não te entristeças, se vires que outros são honrados e exaltados, ao passo que tu és desprezado e humilhado.
Levanta para mim nos céus o teu coração e não te afligirá o desprezo dos homens na terra.
2. A alma fiel: – Senhor, somos cegos e facilmente nos deixamos seduzir pela vaidade.
Se bem me examinar, verei que nunca recebi injúria de criatura alguma; não tenho, pois, justo motivo de queixa contra vós.
Como, porém, tenho pecado, freqüente e gravemente, contra vós, é justo que se armem contra mim todas as criaturas.
Confusão e desprezo, eis o que, justamente, a mim cabe; a vós, porém, louvor, honra e glória.
E enquanto não estiver disposto a querer, de bom grado, ser desprezado e abandonado por todos e ser tido absolutamente por nada, não poderei adquirir a paz e estabilidade interior. Não serei espiritualmente iluminado, nem perfeitamente unido a vós.
Capítulo 47 – Como se devem suportar todos os trabalhos pela vida eterna
1. Cristo: – Filho, não esmoreças nos trabalhos empreendidos por amor de mim; não te desalentes nas tribulações; mas em todos os acontecimentos a minha promessa te fortaleça e console.
Posso recompensar-te acima de todas as medidas e limites. Não trabalharás aqui muito tempo, nem estarás sempre acabrunhado de dores.
Espera um pouco, e verás o término dos teus males.
Virá uma hora em que cessarão as tuas penas e angústias todas.
Pouco e breve é tudo que se passa com o tempo.
2. Faze bem o que fazes; trabalha fielmente na minha vinha; serie eu mesmo o tem galardão.
Escreve, lê, canta, geme, guarda silêncio, fala, sofre varonilmente as adversidades; de tudo isso é digna a vida eterna e de maiores combates ainda.
A paz virá um dia, que do Senhor é conhecido e não haverá mais dias e noites, como no tempo presente; senão perpétua luz, infinita claridade, firme paz e seguro repouso.
Então não dirá: Quem me livrará deste corpo de morte? Nem exclamarás: Pobre de mim, que se prolonga o meu desterro!
Porque a morte será destruída e eterna será a salvação; livre de toda ansiedade, gozarás de jubilosa ventura, em meio de agradável e brilhante companhia.
3. Oh! Se visses as coroas imarcessíveis dos santos do céu, com quanta glória exultam agora aqueles que, outrora, o mundo desprezava julgava indignos de viver! Por certo que logo te prostrarias até o chão e preferirias estar sujeito a todos os homens, que mandar a um só.
Não cobiçarias os dias felizes desta vida; ao contrário, folgarias de ser atribulado por amor de Deus e considerarias grande vantagem ser tido por nada entre os homens.
4. Oh! Se gostasses dessas coisas e penetrassem elas, profundamente, no teu coração, com ousarias, uma vez sequer, queixar-te?
Será pequena coisa perder ou ganhar o reino de Deus?
Levanta, pois, os olhos para o céu. Eis-me aqui com todos os meus santos, que, neste mundo, sustentaram grandes combates e agora se sentem consolados, agora estão seguros, agora repousam e permanecerão para sempre comigo, no reino de meu Pai.
20/11/2009
Inge versus Barnes
Nenhum de nós, espero, jamais desejou ser injusto com o deão Inge:[1] embora em tais lutas às vezes cai a proteção da espada.[2] E uma cruel injustiça está sendo feita, na sugestão amplamente ventilada de que ele concorda com o Dr. Barnes. Tais coisas não deveriam ser ditas levianamente de qualquer cavalheiro. De acordo com a atual lenda, pelo menos, o Soturno Deão, mesmo quando decide abençoar, acaba amaldiçoando. Mas se há um único ser humano a quem se possa imaginar que ele queira abençoar, este é seu aliado, o bispo Barnes de Birmingham.[3] Mesmo assim, a aliança serve somente para amenizar a maldição, não para assegurar a benção. Se pudéssemos usar termos populares a respeito de tais dignatários eclesiásticos, seriamos tentados a dizer que o deão considerou necessário desancar o bispo. Uma interessante resenha do deão sobre o recente livro de sermões do bispo contém, claro, certo número de elogios assaz convencionais e certo número de grosserias, poderíamos dizer implicâncias, com várias outras pessoas incluindo grande parte da cristandade. Mas nas duas questões notáveis e surpreendentes em que o bispo Barnes foi condenado pelos católicos, ele é quase tão fortemente condenado pelo Deão da Catedral de São Paulo. O deão Inge é muito inteligente e culto para fingir ter muita paciência com o contra-senso de testar a Transubstanciação por experimentos químicos ou psíquicos. Ele tenta revelar para seu colega da “Broad Church”[4], tão gentilmente quanto possível, que este caiu no ridículo. Mesmo levando em conta tais delicadezas entre parceiros, a verdade não poderia ter sido dita mais simplesmente e melhor. Ele sumariamente indicou ao bispo a responsável definição da doutrina encontrada no livro de Padre Rickaby sobre metafísica; e secamente observa que ela é muito mais sutil e plausível do que parece se dar conta o bispo. Ele também acrescenta, com uma amarga e muito atraente franqueza, que é muito desastroso desafiar os católicos sobre se a Missa lhes faz qualquer bem espiritual, pois eles certamente se uniriam na resposta afirmativa. Depois destas admissões francas e interessantes, é uma questão de mera rotina, e quase de respeitabilidade, que o deão devesse concordar com o bispo de que todo esse sacramentalismo é grandemente deplorável; que pessoas inteligentes que ele conhece que dizem encontrar Cristo na Missa e não no Serviço Matinal devem ser “idólatras naturais” e que é “óbvio” que o Santíssimo Sacramento tem uma afinidade com as religiões inferiores. Também com as classes inferiores. Isso, imagino, é o que o deão realmente considera tão desagradável.
A questão é, contudo, que o deão definitivamente desdenha o bispo em relação à única grande questão em que os jornais lhe têm dado grande repercussão. E ele faz exatamente o mesmo, num grau menor, numa questão secundária e menor que tem similar repercussão. Falo, é claro, da questão da evolução. O deão, evidentemente, acredita na evolução, como o faz muitas pessoas, católicas, protestantes e agnósticas. Mas embora acredite em evolução, ele não acredita na evolução do bispo Barnes. Ele comenta com admirável clareza e decisão sobre a tolice de identificar progresso com evolução; ou mesmo mera complicação com progresso. Nada poderia ser melhor do que as breves e picantes frases em que ele demonstra totalmente aquela idealização da teoria científica, que é de fato simples ignorância a seu respeito. Em palavras simples, o bispo Barnes, apesar de toda sua pompa, sabe tão pouco de evolução quanto de Transubstanciação. O Deão da Catedral de São Paulo não revelou toda esta verdade em palavras simples, é claro; mas ele conseguiu fazê-lo muito simplesmente. Sua franqueza neste caso tem também de ser contrabalançada com expressões gerais de concordância com o bispo, e com expressões mais fortes de discordância com todos os demais, especialmente com os inimigos do bispo. O deão alude desdenhosamente ao mundo ortodoxo, como se este mundo necessariamente repudiasse certas teorias biológicas; ou como se importasse muito se ele o fizesse. A diferença entre a Broad Church e a Igreja Católica não é que aquela considere a evolução verdadeira e esta considere-a falsa. É que aquela considera a evolução uma explicação e esta sabe que ela não é uma explicação. Assim, aquela a considera de importância capital; e esta algo sem importância. Sendo incapaz de perceber este princípio, o deão tem de voltar-se para o antigo jargão vitoriano; e dizer que uma nova descoberta científica passa por três estágios: o de ser considerada um absurdo; o de ser considerada anti-Escrituras; e o de ser descoberta muito antiga e familiar. Ele poderia ter acrescentado que há ainda um quarto estágio; o de ser descoberta muito falsa.
Pois esse é o fato muito simples que ambos, o deão Inge e o bispo Barnes, omitiram; e que parece ser tão completamente desconhecido pelo racionalismo lúcido de um quanto pelo secularismo mais rude do outro. O arcebispo de Canterbury não está apenas certo em sugerir que velhos cavalheiros como ele tiveram a evolução como uma coisa familiar durante toda a vida; mas ele poderia ter adicionado que eles estavam muito mais certos sobre ela na parte inicial de suas vidas do que estarão no final delas. Aqueles dentre eles que realmente leram as mais recentes investigações e especulações européias sabem que aquele darwinismo está cada dia mais se tornando muito menos um dogma e muito mais uma dúvida. Aqueles que não leram as especulações e dúvidas simplesmente continuam repetindo o dogma. Enquanto o Dr. Barnes estava pregando sermões cuidadosamente fundamentados na biologia de 50 anos atrás, o Sr. Belloc estava provando conclusivamente perante todo o mundo que o Sr. H.G. Wells e o Sr. Arthur Keith desconheciam a biologia de 5 anos atrás. Em resumo, é muito justo, como dissemos, insistir na diferença entre o deão Inge e o Dr. Barnes; que é análoga à diferença entre Huxley e Haeckel. Todo mundo estaria melhor e mais feliz se o deão Inge fosse conhecido como professor Inge; e se o Dr. Barnes não fosse somente um professor, mas um professor prussiano. Então ele poderia ser alardeado juntamente com outros bárbaros que atacam a cristandade, sem ter o privilégio eclesial de realmente perseguir cristãos. Mas há pagãos e pagãos e há perseguidores e perseguidores. O deão é um pagão romano do Senado. O bispo é um pagão teutão dos pântanos e brejos. O deão desgosta da tradição cristã com o mesmo espírito de Diocleciano e Juliano. O bispo desgosta dela com o espírito mais simples de um pirata dinamarquês fitando o rígido mistério da Igreja Romana britânica. Mesmo a causa comum e a máxima geral de CHRISTIANI AD LEONES nem sempre, imagino, reconciliou romanos e godos. Essas comparações históricas podem parecer irreais; e de fato, num certo sentido ambos estão muito ligados aos seus respectivos períodos históricos. Eles são ambos muito vitorianos; mas mesmo aqui há uma diferença e uma superioridade. A superioridade do deão é que ele sabe disso e o diz. Ele é homem o suficiente para gabar-se de ser vitoriano e não ligar de ser chamado de reacionário. Enquanto que o bispo parece realmente cultivar a verdadeiramente extraordinária noção de que suas noções são novas e atualizadas.
É claro que eles têm uma filosofia em comum; e seria uma simplificação barata chamá-la de materialismo. De fato, seríamos quase tão superficiais em falar de materialismo quanto eles de falarem de mágica. A verdade é que o estranho fanatismo, que leva o bispo a bradar contra e atacar todo sacramentalismo como se fosse mágica, é em sua essência interior o próprio reverso do materialismo. Realmente, não é nem um pouco tão saudável quanto o materialismo. A raiz desse preconceito não é tanto uma crença na matéria, mas um tipo de horror à matéria. O homem com essa filosofia está sempre pedindo para que a adoração seja totalmente espiritual, ou mesmo totalmente intelectual; porque ele sente realmente um desgosto com a idéia de coisas espirituais tendo um corpo e uma forma sólida. É provável que a suposição de que Deus possa se tornar pão e vinho lhe cause um tremor místico; embora eu nunca tenha entendido porque dizer que Deus poderia se tornar carne e sangue não deveria lhe causar o mesmo tremor. Mas esses pensadores sendo ou não lógicos em sua filosofia, penso que isso é a sua filosofia. Ela tem uma longuíssima história e um antigo nome. Não é materialismo, mas maniqueísmo.
O deão verdadeiramente expressou uma verdade inconsciente quando disse que os sacramentalistas são “idólatras naturais”. Ele recua diante disso não somente porque é idolátrico, mas porque é natural. Ele não suporta pensar quão natural é o anseio pelo sobrenatural. Ele não tolera a idéia do sobrenatural realmente trabalhar através dos elementos da natureza. Inconscientemente, sem dúvida, mas muito teimosamente, esse tipo de intelectual sente realmente que sua alma pode pertencer a Deus, mas seu corpo somente ao demônio ou à besta. Esse horror maniqueísta da matéria é a única razão INTELIGENTE para qualquer rejeição abrangente das maravilhas sobrenaturais e sacramentais. O resto é jargão, repetição e argumentação em círculo; todo o insustentável dogmatismo sobre a ciência impedir os homens de acreditar em milagres; como se a CIÊNCIA pudesse impedir os homens de acreditar em algo que a ciência não professa investigar. Ciência é o estudo de admitidas leis da existência; ela não pode provar uma negativa universal sobre se aquelas leis podem ser suspensas por algo admitidamente acima delas. É como se disséssemos que um advogado conhece tão bem a onstituição americana que sabe que não pode nunca haver uma revolução nos EUA. Ou como se um homem dissesse que é um estudante tão íntimo do texto de Hamlet que está autorizado a negar que um ator possa deixar cair o crânio e sair correndo quando o teatro pegar fogo. A constituição segue certo curso, contanto que esteja lá para segui-lo; a peça segue certo curso, contanto que seja encenada; a ordem visível da natureza segue certo curso se não há nada por trás que possa impedi-la. Mas esse fato não joga nenhuma luz sobre se HÁ algo por trás para impedi-la. Esta é uma questão de filosofia e metafísica e não de ciência material. E por respeito à inteligência de ambos reverendos cavalheiros, e especialmente em respeito à alta inteligência do Deão da Catedral de São Paulo, prefiro pensar que eles se opõem ao que chamam de mágica como filósofos consistentes e não como cientistas inconsistentes. Prefiro pensar que eles estão pensando como os grandes gnósticos, budistas e outros místicos da obscura mas digna tradição histórica; ao invés de estarem cometendo erros lógicos elementares no interesse da ciência popular mais rasteira. Posso até entender ou imaginar o tremor de repulsão que os domina na presença do divino materialismo da Missa. Mas ainda penso que eles seriam mais consistentes e completos se declarassem abertamente seguirão seu princípio até o fim; e dissessem, como os mussulmanos dizem sobre o Natal, “Longe Dele ter um filho”,[5] ou os aterrorizados discípulos que clamavam, “Longe de Ti esteja isso”[6], quando Deus estava subindo para ser crucificado.
[1] Ver RAÍZES DA SANIDADE. (N. do T.)
[2] Chesterton refere-se aqui à esgrima, em que as espadas tem uma proteção na ponta, para impedir o ferimento do oponente. (N. do T.)
[3] Ernest William Barnes, eminente matemático inglês, Fellow da Real Sociedade de Londres e também bispo da Igreja da Inglaterra. Embora grande matemático, foi uma figura pública controvertida. Pacifista, foi contra a participação da Inglaterra na II Grande Guerra. Mantinha também idéias favoráveis à eugenia. (N. do T.)
[4] Um dos três segmentos da Igreja da Inglaterra. A Broad Church é o segmento ecumênico. (N. do T.)
[5] Q 4:171 (N. do T.)
[6] 1 Sam 20, 9. (N. do T.)
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Leiam, do livro "A Coisa": Por que sou católico, A Revolta contra as Idéias, A lógica e o tênis, Um pensamento simples, Raízes da Sanidade, A Máscara do agnóstico .
13/11/2009
Pequeno exercício de metafísica
Mas, na verdade, ela me ficou na cabeça por um descompasso metafísico nela contido. A campanha diz: PRESERVE A NATUREZA DO LIVRO. Pensei com meus botões: como posso preservar O livro? "O" livro não existe na natureza e, portanto, não pode ter sequer natureza a ser preservada.
De metafísica entende Aristóteles e não eu. Daí, diz o filósofo, na Metafísica (logo no Livro I, capítulo I): "a experiência é conhecimento dos particulares, enquanto a arte é conhecimento dos universais; ora, todas as ações e as produções referem-se ao particular. De fato, o médico não cura o homem a não ser acidentalmente, mas cura Cálias ou Sócrates ou qualquer outro indivíduo que leva um nome como eles, ao qual ocorra ser homem." (Tomo aqui a edição bilíngue da Metafísica de Giovanni Reale, vol. II, tradução para o português de Marcelo Perini, Edições Loyola, 2005).
Podemos dizer, com Aristóteles, que o leitor não preserva o livro, mas tal ou qual livro, tal ou qual objeto que ocorra ser livro e estar sob sua responsabilidade. Em seguida, o filósofo nos alerta: "Portanto, se alguém possui a teoria sem a experiência e conhece o universal mas não conhece o particular que nele está contido, muitas vezes errará o tratamento, porque o tratamento se dirige, justamente, ao indíviduo particular."
Assim, sejamos rápidos em corrigir a frase da campanha: PRESERVE A NATUREZA DOS LIVROS. Aí sim, preservemos a natureza (isto é, a integridade) dos livros individuais que existem nas bibliotecas da UFMG. Estes têm natureza a ser preservada.
A Igreja e o mundo
Quem quiser ter um exemplo prático disto, leia, nos links abaixo, um capítulo desta luta. Esta fase da luta Belloc chamou de "A fase moderna". Dizia ele, no livro citado, que preferiria chamá-la de Anti-Cristo, pois era isso que ela parecia ser.
Todos os links são de FRATRES IN UNUM.
Proibição do crucifixo nas escolas européias
Reação da Itália
O crucifixo é, antes de tudo, o sinal distintivo da única e verdadeira religião, a católica, depois vem o resto
12/11/2009
Lições das missas dominicais pós-Vaticano II - Parte XXVII
Comento aqui o artigo do Sr. Domingos Zamagna intitulado “A Renovação da Catequese”, n’O DOMINGO de 20/09/2009.
O Sr. Zamagna começa seu artigo atacando a “mera repetição” no ensino catequético: “Repetição nunca foi sinal ou prova de ortodoxia. Noutras palavras, quem quiser ser fiel à Igreja não precisa ficar o tempo todo repetindo frases da Bíblia, fórmulas dos concílios, expressões dos santos Padres, das autoridades, dos teólogos. O que representa conquista da teologia, da catequese, da liturgia, da história, da espiritualidade etc. merece ser conhecido, estudado, respeitado. Mas o que adianta mera repetição?”
A fala do Sr. Zamagna, não sei se ele próprio sabe disto, vem diretamente do Sínodo dos Bispos de 1977. Este sínodo não só apoiou fortemente uma variedade de catecismos, em contraposição a um único e universal catecismo da Igreja, como também atacou fortemente o método tradicional de memorização das fórmulas da Fé.
Romano Amério diz o seguinte em Iota Unum.
“A forma de pergunta e resposta foi adotada pela Conferência Episcopal Alemã em seu catecismo, mas foi rejeitada pela maioria dos bispos no sínodo de 1977. Este método é bem adaptado à forma didática, ao invés de heurística, da catequese católica, que responde diretamente com a verdade, e não formula perguntas com a pressuposição metodológica que suas respostas possam ser duvidosas. Mesmo no método socrático, tão a gosto dos oponentes da tradição, é Sócrates quem conhece a verdade, e o discípulo o sujeito a quem ela é descrita.
“A memorização é desprezada e desdenhada pelos teóricos modernos da educação como mera repetição sem sentido, quando ela é, na verdade, a fundação de toda cultura, como os antigos mostraram através de Minemósine (memória), a mãe das Musas [deusas do canto e da memória]. A memorização é muito adequada à catequese, desde que seja considerada como uma comunicação de conhecimento e não uma atividade social. Para um bispo do Equador, ‘catequese consiste não tanto no que é ouvido, mas no que é visto na pessoa que catequisa’. Isto faz a verdade percebida pelo intelecto menos importante que a experiência pessoal do discípulo, e vincula o entendimento do Evangelho à excelência de seu pregador em vez de aos seus próprios méritos”.
Assim, desprezar a memorização das verdades de fé e considerá-la “mera repetição” no ensino catequético foi um dos pilares do que Amério chama de “dissolução da catequese”.
Se na catequese as verdades em si ficam em segundo plano, aí o Sr. Zamagna tem razão em dizer: “A catequese, por isso, deve se renovar, alargar seu próprio conteúdo, descobrir novas metodologias, utilizar tecnologias contemporâneas, beneficiar-se dos avanços das ciências da comunicação, servir-se dos conceitos e imagens compreensíveis pelas crianças, pelos jovens e pelas famílias de hoje.”
O que vale são as metodologias, as tecnologias contemporâneas, em síntese, o show. Quando ao conteúdo, notem bem, quanto ao conteúdo catequético que é o fundamento da Fé, bem, este pode ser até “alargado”. Ou seja, para o Sr. Zamagna, não basta a Revelação. Ele quer alargá-la. Não basta o Antigo e o Novo testamentos e a Tradição da Igreja, deve haver um alargamento de conteúdo.
Fico imaginando se o Sr. Zamagna estará incluindo neste alargamento os “ensinamentos” do Pe. Fábio de Melo sobre a não-presença de Cristo na Eucaristia e sobre a impossibilidade da prova da existência de Deus. Quem sabe o Sr. Zamagna não está tentando alargar a Suma Teológica de Santo Tomás, ou o Catecismo Romano, do Concílio de Trento?
O Sr. Zamagna ainda nos fala do “aggiornare” do Papa João XXIII. Diz ele que, entre outras coisas, este verbo significa “tornar a mensagem cristã compreendida pelo homem moderno”. Lembro, a propósito, de uma crônica de Nelson Rodrigues em que ele comenta uma entrevista do então jovem ator Paulo José, sobre as inovações da Igreja, introduzidas pelo CVII. Ele falou tanta besteira que Nelson pergunta estupefato (cito de memória): “Será que este menino não tem algum amigo ou parente para ensiná-lo que a Igreja tem quase 2000 anos de idade, que ela não nasceu agora?” Esta é a pergunta que faço em relação ao Sr. Zamagna. Será que ele acha que a Igreja converteu o Império Romano falando uma linguagem que ninguém entendia? Será que ele acha que a Igreja converteu os bárbaros que invadiram o Império falando grego, literalmente? Será que ele pensa que nestes dois casos a Igreja deixou de ensinar as verdades de fé para adaptar-se ao mundo moderno de então? Para adaptar-se ao paganismo romano ou ao barbarismo dos povos invasores?
Uma coisa é falar de forma compreensível a cada época e lugar sobre as Verdades Eternas e outra, bem diferente, é falar sobre as mentiras e meias-verdades que cada época ou lugar deseja considerar como verdades.
Catequese não é show-business. Ensinar catequese não é conformar as Verdades Eternas às modas passageiras.
Termino aqui com um trecho da ACERBO NIMIS, do Papa São Pio X: “Esta afinal, e não outra, é a tarefa do catequista: tratar de uma verdade de fé ou de moral cristão e explicá-la em cada uma de suas partes; e porque o objetivo do ensinamento é sempre a reforma da vida, é necessário que ele faça um confronto entre o que de nós exige o Senhor e o que de fato se opera; então, por meio de exemplos oportunos, extraídos sapientemente das Sagradas Escrituras, da História eclesiástica ou das vidas dos santos, persuadir e com que aditar como se devam conformar os costumes; e concluir com exortação eficaz, a fim de que os ouvintes sejam levados a detestar e fugir do vício e a exercitar a virtude.”
1. Para fazer DOWNLOAD DO LIVRO com os primeiros 19 posts sobre a Missa de Paulo VI (e algumas coisas mais) clique aqui.
2. Para ver outros comentários sobre a Missa nova, clique: Parte XX, ParteXXI, ParteXXII, ParteXXIII, Parte XXIV, A dissolução da catequese: Romano Amério conta como foi, Parte XXV, Parte XXVI.
07/11/2009
A MÁSCARA DO AGNÓSTICO
Gilbert Keith Chesterton
Sir Arthur Keith,[1] em suas recentes observações sobre a alma, “deixou o gato escapar da maleta”. Ele o deixou escapar daquela maleta elegante e profissional que é usada pelo “médico” a quem ele descreve como conscienciosamente compelido a afirmar que a vida da alma cessa com o último suspiro do corpo. Talvez a figura do gato não se adéqüe muito bem à maleta; o gato é um animal místico, cujas nove vidas podem muito bem representar a imortalidade, pelo menos na forma da reencarnação. De qualquer forma, ele “deixou o gato escapar da maleta”, no sentido de revelar um segredo que tais homens sábios deveriam sabiamente guardar. O segredo é que tais cientistas não falam como cientistas, mas simplesmente como materialistas.
Não faz muito tempo, em sua famosa conferência sobre antropóides no Congresso de Leeds, Sir Arthur Keith disse que falava simplesmente como o primeiro jurado de um júri. É verdade que ele aparentemente não consultou o júri; e rapidamente se tornou claro que o júri violentamente discordou; o que é pouco usual num júri, depois que o primeiro jurado entrega o veredito. Mesmo assim, usando essa imagem, ele quis alegar a completa imparcialidade de tipo jurídico. Ele quis dizer que um jurado está obrigado, por juramento, a considerar inteiramente os fatos e a evidência, sem medo ou favorecimento. E esse efeito seria centenas de vezes mais efetivo se tivéssemos a liberdade de imaginar que as simpatias pessoais do jurado estivessem do outro lado; ou, pelo menos, se não soubéssemos que elas estavam muito intensamente de um único lado. Sir Arthur deveria ser cuidadoso em preservar a impressão de que, falando estrita e unicamente como antropólogo, ele foi forçado a aceitar a seleção natural de antropóides. Ele deveria então deixar que se inferisse que, como um simples cidadão, ele estaria ansiando por visões seráficas e esperanças celestiais; estaria pesquisando as Escrituras e esperando pelo apocalipse. Ele, na vida privada, seria um mórmon multiplicando as estrelas em sua coroa celestial ou um carismático continuamente convulsionado pelo Espírito Santo. O problema foi que os fatos forçaram-no na direção da conclusão darwiniana. E um homem desse tipo, sendo forçado a aceitá-los, seria uma testemunha confiável, porque relutante. No julgamento de Darwin, o homem poderia ter simpatias para com o acusador, mas como jurado, seria forçado a apoiar o réu.
E agora, Sir Arthur Keith jogou fora toda aquela imparcialidade imperial. Ele fez um grande esforço para dogmatizar e estabelecer a lei sobre a alma; que não tem nada a ver com o assunto de sua especialidade, exceto na medida em que é assunto de todos. Mas mesmo não tendo relação com sua especialidade, serviu para mostrar a todos qual é o lado de Sir Arthur. Transformou o primeiro jurado num inequívoco advogado daquele lado. De fato, tal apoiador está mais para uma das partes da acusação do que de um advogado; pois toda a questão é que sendo um ser humano particular, ele, há muito tempo, tem um preconceito particular. De agora em diante, é óbvio que Keith decidir em favor de Darwin é simplesmente como Bradlaugh[2] decidir em favor de Darwin, ou Ingersoll[3] decidir em favor de Darwin, ou qualquer ateu, num banco no Hyde Park, decidir em favor de Darwin. Quando ELES escolhem o lado da seleção natural, podemos concordar que isso é uma seleção muito natural.
Quanto à conclusão em si, parece quase inacreditavelmente inconclusiva. A menos que as palavras de Sir Arthur Keith tenham sido muito distorcidas, ele afirmou especialmente que a existência espiritual acaba juntamente com as funções físicas; e que nenhum médico poderia conscienciosamente dizer nada diferente. Por mais que seja grave o ferimento chamado morte (que é, de fato, freqüentemente fatal), este é um caso em que, surpreendentemente, é desnecessário chamar um médico. Há sempre uma ironia, mesmo nas páginas simples de minhas histórias de detetive favoritas, no fato de que todo mundo corre para um médico tão logo estejam certos de que um homem está morto. Mas na história de detetive pode haver pelo menos algo a ser aprendido, pelo médico, a partir do cadáver. Na especulação doutrinal não há absolutamente nada; apenas a eterna história de detetive é confundida pelo doutor em medicina fingindo ser um doutor em divindade. A verdade é que toda essa história é mero blefe e mistagogia. O médico “vê” que a mente desapareceu com a morte. O que o médico vê é que o corpo não pode mais chutar, falar, espirrar, assobiar ou dançar. E um homem não precisa ser médico para perceber isso. Mas se o princípio de energia – aquele que o fez chutar, falar, espirrar, assobiar e dançar – existe ou não existe em algum outro plano de existência, disso o médico não sabe mais do que qualquer homem. E quando os médicos estão lúcidos, alguns deles (como um ex-cirurgião chamado Thomas Henry Huxley[4]) dizem não acreditar que médicos, ou quaisquer outros homens, sabem algo a respeito. Esta é uma posição inteligível; mas não parece ser a de Sir Arthur Keith. Ele se manifestou publicamente para NEGAR que a alma sobreviva ao corpo; e para fazer a extraordinária observação de que qualquer médico deve dizer o mesmo. É como se disséssemos que qualquer competente construtor ou sobrevivente devesse negar a possibilidade da Quarta Dimensão; porque ele aprendeu o segredo técnico de que um edifício é medido pela largura, profundidade e altura. A pergunta óbvia é: Por que mencionar um sobrevivente? Todo mundo sabe que tudo é, de fato, medido por três dimensões. Qualquer um que pense existir uma quarta dimensão o faz apesar de estar muito consciente que as coisas são medidas por três. Ou é como se um homem fosse responder a um metafísico berkeliano, que assegura que toda a matéria é uma ilusão da mente, dizendo: “Posso usar a evidência de um operário inteligente que realmente tenha de trabalhar com concreto sólido ou aço; e ele lhe dirá que eles são muito reais.” Devemos naturalmente responder que não precisamos de um operário para nos dizer que as coisas sólidas são sólidas; e é num outro sentido que o filósofo diz que elas não são sólidas. Igualmente, não há nada que possa fazer um médico materialista, exceto o que possa fazer qualquer homem materialista. E é quando um homem absorveu todo aquele materialismo óbvio que ele começa a usar sua mente. E, como alguns afirmam, ele não para mais.
Essa grande erupção anti-filosófica no campo filosófico foi, contudo, esclarecedora em certo sentido. Jogou alguma luz nas afirmações prévias do conferencista em áreas que ele tinha mais direito de fazê-las. Mesmo nestas coisas ele traiu uma curiosa simplicidade comum entre os cientistas oficiais. A verdade é que eles se tornam constantemente menos cientistas e mais oficiais. Eles desenvolvem aquele fino disfarce usado diariamente pelos políticos. Eles realizam diante de nós os mais habilidosos truques com a mais desastrada transparência. É como assistir a uma criança tentando esconder alguma coisa. Eles estão perpetuamente tentando nos enganar com grandes palavras e sábias alusões; na suposição de que nunca nos tornaremos sábios – nem mesmo da forma divertida e apequenada deles. Todo escritor famoso que nos troveja “Galileu” supõe que saibamos ainda menos que ele sobre Galileu. Todo pregador da ciência popular que nos atira uma longa palavra pensa que iremos consultar o dicionário e espera que não a estudemos seriamente, nem mesmo numa enciclopédia. O uso que eles fazem da ciência é assaz parecido com o uso que dela faz os heróis de certas histórias de aventura, em que o homem branco amedronta os selvagens com a previsão de um eclipse ou com a produção de um choque elétrico. Estas são, em certo sentido, verdadeiras demonstrações de ciência. Eles estão, em certo sentido, certos em dizer que são cientistas. Onde talvez estejam errados seja em supor que somos selvagens.
Mas é muito divertido para nós que assistimos a preparação que fazem para nos dar o choque elétrico, quando estamos seriamente esperando ser chocados pelo choque. É como uma piada, quando nós, os selvagens ignorantes, somos não só capazes de prever o eclipse, mas capazes de prever a previsão. Dentre os fatos que nos são familiares por um longo tempo está o de que os homens de ciência encenam e preparam seus efeitos como o fazem os políticos. Eles também o fazem muito mal – exatamente como os políticos. Nenhum desses modernos mistagogos perceberam quão transparentes se tornaram seus truques. Um dos mais familiares e transparentes deles é o que é chamado de uma “contradição oficial”. É uma estranha forma simbólica de declarar que algo ocorreu pela negação de que tenha ocorrido. Assim, reportagens sobre a ilibada reputação dos políticos são sempre publicadas depois de escândalos políticos de forma tão regular quanto a publicação dos “bluebooks”.[5] Assim, o “Right Honourable Gentleman”[6] espera que não lhe seja necessário contradizer o que o “Honourable Member”, com certeza, não poderia ter pretendido insinuar. Portanto, um membro do Gabinete do Primeiro Ministro nega publicamente que não há qualquer alteração na política do governo em relação a Damasco. E então, Sir Arthur Keith nega publicamente que não há nenhuma alteração na atitude científica em relação a Darwin.
E quando ouvimos isso, damos um suspiro de satisfação; pois todos sabemos o que ISSO significa. Significa mais ou menos o oposto. Significa que houve uma briga dos diabos dentro do partido sobre Damasco, ou, em outras palavras, que está começando a acontecer um escândalo dos diabos sobre os desacreditados darwinistas dentro da comunidade científica. A coisa curiosa é que no último caso, as autoridades não estão apenas solenemente expressando a contradição oficial, mas muito mais simplesmente supondo que ninguém perceberá que seja oficial. No caso da similar ficção política, os políticos não somente sabem a verdade, mas sabem que nós também sabemos. Todos sabem, pela fofoca que é repetida em todos os lugares, exatamente o que significa o acordo absoluto em tudo que se relaciona ao Primeiro Ministro e seus colegas. O Primeiro Ministro não espera realmente que acreditemos que ele é o sagrado e amado rei de uma irmandade de cavaleiros que lhe juraram fé e lhe entregaram seus corações, a ele somente. Mas Sir Arthur Keith realmente espera que acreditemos que ele é o primeiro jurado de um júri contendo todos os diferentes homens de ciência, todos em absoluta concordância que a opinião particular de Darwin seja “eterna”. Isto é o que chamei de segredo infantil e de truque desastradamente transparente. Esta é a razão de eu dizer que eles nem sequer sabem o quanto sabemos.
Pois o político é menos pomposamente absurdo que o antropólogo, mesmo que os testemos pelo que eles chamam de Progresso; que é apenas e principalmente uma outra palavra para Tempo. Todos conhecemos o otimismo oficial que sempre defende o governo atual. Mas isso é como uma defesa oficial de todos os governos passados. Se um homem dissesse que a política de Palmerston[7] é eterna, o acharíamos um pouco desatualizado. Ora, Darwin era figura proeminente no tempo de Palmerston; e está igualmente desatualizado. Se o Sr. Lloyd George[8] se levantasse e dissesse que o grande Partido Liberal não recuou de uma única posição assumida por Gobden e Bright,[9] os únicos Tribunos do Povo, concluiríamos relutantemente (se tal coisa fosse concebível) que ele falava asneiras a um povo ignorante em relação à história do partido. Se um reformador social afirmasse solenemente que toda filosofia social ainda procedesse estritamente dos princípios de Herbert Spencer, deveríamos saber que isto não é verdade e que somente uma autoridade absolutamente fossilizada poderia pretender que fosse. Ora, Darwin e Spencer não eram somente contemporâneos, mas camaradas e aliados; e a biologia darwiniana e a sociologia spenceriana foram consideradas como partes de um mesmo movimento, que nossos avós consideraram um movimento muito moderno. Mesmo considerada a priori como uma questão de probabilidade, parece portanto assaz improvável que a ciência daquela geração fosse algo mais infalível que sua ética ou política. Mesmo baseado nos princípios que Sir Arthur professa, parece muito estranho que não haja agora nada mais a ser dito sobre o darwinismo do que o que ele disse. Mas não precisamos apelar para aqueles princípios ou para aquelas probabilidades. Podemos apelar para os fatos. Por acaso, sabemos alguma coisa sobre os fatos; e Sir Arthur Keith não parece saber que sabemos.
Foi num jornal católico que certas afirmações foram feitas sobre o atual darwinismo; afirmações que o próprio Sir Arthur Keith se esforçou em contradizer; e sobre as quais o próprio Sir Arthur Keith se mostrou sensacional e desastrosamente errado. É provável que a história seja agora conhecida de todos os leitores do jornal; mas é provável que ela nunca chegue ao conhecimento da maioria dos jornalistas, e ela certamente não será comentada na maioria dos outros jornais. Ao tocar sobre essa controvérsia cômica, a maioria dos jornais são jornais de partido; e apóiam o líder do partido quando publicam a contradição oficial. Eles não deixam o público saber quão triunfantemente suas outras contradições foram contraditadas.
Quando o Sr. Belloc afirmou que esses darwinistas estavam desatualizados e desconheciam os avanços recentes da biologia, ele citou, dentre muitas autoridades recentes, o biólogo francês Vailleton, que nega a possibilidade da seleção natural num caso particular relacionado a répteis e aves. Sir Arthur Keith, vindo resgatar o Sr. H. G. Wells, e ansioso por provar que ele e o Sr. Wells não estavam desatualizados ou desconheciam a recente biologia, contraditou o Sr. Belloc categoricamente.[10] Disse que não havia tal afirmação no livro de Vialleton; em outras palavras, ele acusou o Sr. Belloc de ter citado erroneamente ou de ter mal-entendido o livro de Vialleton. Revelou-se assim, para a surpresa de todos, especialmente do Sr. Belloc, que Sir Arthur Keith não conhecia a existência do livro. Ele se referia a um trabalho anterior e preliminar do mesmo autor, publicado muito tempo atrás. Este foi o último trabalho de Vialleton que ele leu. A notícia do importante livro, do qual eu, um mero homem da rua, ignorante e não-científico, tinha ouvido falar pelo menos alguma coisa, não tinha caído aos ouvido de Sir Arthur. Em resumo, a acusação geral, que os darwinistas estão desatualizados, foi provada tão completamente quanto teria sido possível a qualquer controvérsia existente no mundo.
Agora, quando uma coisa dessas acontece, sobretudo quando acontece a nós, nas páginas de um jornal em que escrevemos, com um de meus próprios amigos, como se pode esperar que pessoas em nossas posições levem seriamente em consideração o discurso na abertura da Associação Britânica em Leeds? Como podemos manter um rosto sério, quando o Presidente faz uma pose, apontando para as estrelas, e declara que o darwinismo é igualmente eterno? Essa coisa não é dirigida a nós; mas aos repórteres; da mesma forma que a verdadeira história de Wells e Belloc é geralmente mantida fora das reportagens.
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[1] Sir Arthur Keith (1866 – 1955) foi um eminente anatomista e antropólogo escocês. (N. do T.)
[2] Charles Bradlaugh (1833 – 1891) foi o mais famoso ateu militante do século XIX na Inglaterra. (N. do T.)
[3] Robert G. Ingersoll (1833 – 1899), veterano da Guerra Civil americana, político, ateu militante e grande defensor do racionalismo científico e humanista. (N. do T.)
[4] Médico e biólogo inglês, principal defensor da teoria da evolução de Darwin. (N. do T.)
[5] Relatórios do governo inglês que são publicados regularmente. (N. do T.)
[6] Título aplicável à nobreza inglesa e também aos membros do Conselho Privado do Reino Unido. (N. do T.)
[7] Henry John Temple, 3º Visconde de Palmerston (1784 – 1865) – Político inglês que foi Primeiro Ministro de 1855 a 1858. (N. do T.)
[8] Político liberal inglês, único Primeiro Ministro inglês nascido no País de Gales. (N. do T.)
[9] Políticos radicais ingleses do séc. XIX. O Partido Liberal inglês surgiu de grupos radicais como os de Cobden e Bright. (N. do T.)
[10] Em contraposição ao livro “Outline of History”, a dupla Chesterton/Belloc escreveu vários livros. Chesterton escreveu uma de suas obras-primas, O Homem Eterno. Belloc manteve com Wells, na década de 1920, uma polêmica, que é aqui mencionada, que gerou vários livros: “Um complemento ao livro Outline of History do Sr. H.G. Wells”; “As Objeções do Sr. Belloc Ainda Persistem”, uma resposta ao livro-reposta de H.G. Wells, “As Objeções do Sr. Belloc”.
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Leiam, do livro "A Coisa": Por que sou católico, A Revolta contra as Idéias, A lógica e o tênis, Um pensamento simples, Raízes da Sanidade.
06/11/2009
Tradução deste blog na revista Conhecimento Prático: Literatura
03/11/2009
Rudolph Allers no Jornal Mineiro de Psiquiatria
Pois bem, em seu no. 31, o Jornal Mineiro de Psiquiatria traz a introdução deste livro. Vale a pena ler a introdução e, em seguida, comprar o livro. Consultem a Estante Virtual. Eu comprei minha cópia lá.
26/10/2009
Lições das missas dominicais pós-Vaticano II– Parte XXVI
O artigo do Pe. Bazaglia é, de fato, um exemplo didático do livre exame das Escrituras, proposto por Lutero. Se Pe. Bazaglia fosse pastor protestante, eu nada comentaria de seu artigo. Sendo padre, eu não posso deixar de comentar e reprovar o que ele escreve.
“Um dos grandes enganos do cristianismo, ao longo destes dois milênios, é ter transformado a cruz de Jesus de conseqüência em princípio”, diz Pe. Bazaglia. Veja que esse padre vem nos dizer que o cristianismo bimilenar, que só pode ser o catolicismo (palavra incômoda para os padres moderninhos), cometeu um engano que, não fosse, ele, Pe. Bazaglia, dele não teríamos notícia. Imaginem vocês toda a galeria dos Padres gregos e latinos, muitos deles santos e doutores da Igreja. Imaginem os santos medievais, Santo Alberto Magno, Santo Tomás de Aquino, São Boaventura. Imaginem depois, Santa Catarina de Sena, Santa Teresa de Ávila, Santo Inácio de Loyola. Um pouco depois, São José Maria Grignion de Montfort, Santo Afonso Maria de Ligório. Enfim, todos estes e muito mais, todos estavam enganados em relação ao significado da cruz. Numa missa imaginária em que se encontrassem todos esses santos, Pe. Bazaglia, em sua homilia, iria subir ao púlpito e dizer: todos os senhores estão e estiveram errados com relação ao significado da cruz. Imaginem a cena!
Ora, por que a Cruz deve ser o princípio para todo católico? Porque a Cruz significa Redenção e se não partirmos da Redenção, da certeza de que a Cruz nos redimiu, não a todos, mas a muitos de nós, de onde é que partiríamos? É ela que nos dá a confiança de que nós merecemos o perdão de Deus, não pelos nossos mérito, mas pelos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Pe. Bazaglia discorda disso. Querem ver? Ele diz: “Quando a cruz se transforma em princípio para a vida cristã, no entanto, a cruz de Jesus é traída. A cruz como princípio se torna facilmente dissociada da vida, levando a um espiritualismo vazio que nada transforma e pode chegar ao masoquismo.” Pe. Bortolini, em artigo do mesmo semanário, chama também de traidor a todo católico que respeita a tradição da Igreja. Agora, ficamos sabendo que nós católicos que colocamos a Cruz de Cristo como princípio de nossas vidas, somos também traidores, e também masoquistas. Chamar a frase do Pe. Bazaglia de herética é pouco. É preciso já ter perdido todos os resquícios de catolicismo para que se afirme algo tão blasfemo.
Duas lembranças me ocorreram quando li a frase acima. A primeira é que a acusação de masoquista foi feita também a São Padre Pio que, segundo os acusadores, se infligia os ferimentos dos estigmas de Cristo. Ele que viveu, durante 50 anos, literalmente crucificado. Este santo, Pe. Bazaglia, transformou a Cruz em princípio. Na verdade, ela, a Cruz, se incrustou em sua carne. São Padre Pio, rogai por nós.
A segunda lembrança foi a de 1Cor 1, 18: “De fato, a palavra da cruz é loucura para aqueles que se perdem; mas, para nós, que estamos no caminho da salvação, é força de Deus.”. Lembrei também de 1Cor 1, 22-23: “Na verdade, os judeus pedem milagres e os gregos procuram a sabedoria; nós, ao invés, pregamos a Cristo crucificado, que é um escândalo para os judeus e uma loucura para os gentios.”
Mas, Pe. Bazaglia nos informa que São Paulo estava “enganado” quando dizia (Gal 2, 19): “De fato, eu, por meio da lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus; com Cristo me encontro cravado na cruz, e já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim.” Isso, no livre exame de Pe. Bazaglia é “espiritualismo vazio”. São Paulo estava “traindo a cruz” quando dizia (Gal 5, 24): “Ora, os que pertencem a Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e os seus desejos.”
Pe. Bazaglia ainda nos surpreende ao final do artigo. Ele diz: “O único bem que temos é a vida, presente de Deus, e somente a encontraremos à medida que a entregarmos em favor dos irmãos, pela mesma causa de Jesus.” Ai, meu Jesus Cristinho! Pe. Bazaglia não sabe o que quer dizer perder esta vida para ganhar a outra.
Vamos ver se este padre aprende alguma coisa sobre “perder esta vida” para obter a outra de Santa Teresa de Ávila. Ela diz no “Caminho da Perfeição”, capítulo VIII, o seguinte. Os negritos são meus.
“Agora vamos ao desapego que devemos ter, pois tudo está nisto se for com perfeição. Digo que aqui está tudo, porque, abraçando-nos só com o Criador e não se nos dando nada de todas as coisas, Sua Majestade infunde as virtudes de maneira que, trabalhando nós pouco a pouco o que está em nosso poder, não teremos muito a pelejar, pois o Senhor toma em Sua mão a nossa defesa contra os demônios e contra o mundo. Pensais, irmãs, que é pequeno bem procurar este bem de nos darmos todas ao Todo sem fazermos partilhas? E, pois n’Ele estão todos os bens.”
Então, “perder esta vida” é morrer para o mundo, “não se nos dando nada de todas as coisas”. Mais à frente, ainda falando às suas filhas do Carmelo, Santa Teresa diz: “mas resta desapegarmo-nos de nós mesmas e este apartar-nos de nós mesmas e sermos contra nós é coisa dura, porque estamos muito unidas a nós e nos amamos muito.”
Assim, Pe. Bazaglia, morrer para esta vida, estarmos “com Cristo cravados na cruz”, não é ser solidário, não é “entregarmos a vida em favor dos irmãos” – que pode muito bem significar um marxismo de segunda mão –, não é participarmos de pastorais de nossa paróquia, não fazermos doação para o “Criança Esperança”. É muitíssimo mais que isso. É desapegarmos das coisas do mundo e também de nós mesmos. É “sermos contra nós”. E isso, padre, significa estarmos crucificados com Cristo, significa colocarmos a Cruz em primeiro lugar, no princípio. E isso, quem o consegue?
1. Para fazer DOWNLOAD DO LIVRO com os primeiros 19 posts sobre a Missa de Paulo VI (e algumas coisas mais) clique aqui.
2. Para ver outros comentários sobre a Missa nova, clique: Parte XX, Parte XXI, Parte XXII, Parte XXIII, Parte XXIV, A dissolução da catequese: Romano Amério conta como foi, Parte XXV
22/10/2009
RAÍZES DA SANIDADE
G.K. Chesterton
O Deão da Catedral de São Paulo, quando está certo, está muito certo. Ele está certo com toda aquela ênfase ressonante que o faz, em outras questões, tão imprudente e desastrosamente errado. E não posso senão saudar com gratidão o desdém com que ele se referiu ultimamente a todo o contra-senso dos jornais a respeito do uso de glândulas de macacos para transformar homens velhos em homens jovens; ou macacos jovens, se isso for o próximo passo na direção do Super-homem. Ele tentou, não de forma artificial, contrabalançar sua denúncia daquele materialismo tão experimental que ele sempre nos acusa de denunciar, dizendo que esse materialismo é um extremo do mal e que o catolicismo é o outro. A esse respeito, ele diz uma das coisas usuais que comumente considera fácil dizer, e que nós geralmente consideramos toleravelmente fácil responder.
Um bom exemplo das acusações contraditórias do Deão contra Roma é que ele aparentemente nos coloca na mesma categoria daqueles que deixam seus filhos completamente “inadvertidos” a respeito dos perigos morais do corpo. Isso é muito divertido, considerando que temos sido insultados, por décadas, por forçarmos os jovens na direção da infame Confissão.
Outro dia mesmo, notei que Sir Arthur Conan Doyle reviveu esta acusação de um ataque à inocência; e deixarei o Deão Inge[1] e Sir Arthur resolver esta questão. E quando ele nos acusa de indiferença em relação à eugenia e à procriação de criminosos e loucos, é suficiente que ele próprio tenha denunciado a perversão da ciência manifestada no caso dos macacos. Talvez ele permita que outros se ofendam igualmente com os esquemas que fazem os homens agirem como loucos e criminosos a fim de evitarem a loucura e o crime.
Há, contudo, outro aspecto dessa questão de estar certo ou errado, que não é tão freqüentemente associado conosco, mas que é igualmente consistente com nossa filosofia, e que tem uma notável relação com o tipo de questão aqui levantada pelo Deão Inge. Este aspecto se relaciona não só a questões em que o mundo está errado, mas, ainda mais especialmente, a questões em que o mundo está certo. O mundo, especialmente o mundo moderno, alcançou uma curiosa condição de ritual ou rotina; na qual podemos quase dizer que ele está errado mesmo quando está certo. Ele continua, em grande parte, fazendo as coisas razoáveis. Mas ele está rapidamente cessando de ter qualquer argumento razoável para fazê-las. Está sempre nos afirmando a morte da tradição. Está sempre nos denunciando por superstição; e suas próprias e principais virtudes são agora, quase inteiramente, superstições.
O que quero dizer é que quando estamos certos, estamos certos por princípio; e quando eles estão certos, estão certos por preconceito. Podemos dizer, se eles assim o preferirem, que eles estão certos por instinto. De qualquer forma, eles ainda estão contidos, por saudável preconceito, contra muitas coisas em direção as quais eles correriam pela sua própria lógica doentia. É mais fácil tomar exemplos muito simples e extremos; e alguns dos extremos estão muito mais perto de nós do que muitos imaginam.
Assim, muitos de nossos amigos e conhecidos continuam a entreter um saudável preconceito contra o canibalismo. O momento em que este próximo passo na evolução ética será dado parece ainda distante. Mas a noção de que não há muita diferença entre os corpos de homens e de animais – de que não estão, de nenhuma forma, distantes, mas muito próximos – é expressa em centenas de maneiras, como um tipo de comunismo cósmico. Podemos quase dizer que é expressa de todas as formas, exceto pelo canibalismo.
Essa noção é expressa, como no caso de Voronoff,[2] na colocação de partes de animais nos homens. Ela é expressa, no caso dos vegetarianos, na não colocação de partes de animais nos homens. É expressa quando se deixa um homem morrer como morre um cachorro, ou quando se considera mais patético a morte de um cachorro do que a de um homem. Alguns se inquietam sobre o que acontece com os corpos dos animais, como se estivessem certos de que um coelho se ressentisse em ser cozido, ou que uma ostra exigisse ser cremada. Alguns são ostensivamente indiferentes ao que acontece aos corpos dos homens; e negam toda a dignidade aos mortos e todo gesto de afeto aos vivos. Mas todos têm uma coisa em comum; consideram os corpos humano e bestial como coisas comuns. Pensam neles sob uma generalização comum; ou, na melhor das hipóteses, sob condições comparativas. Entre pessoas que chegaram a esta posição, a RAZÃO para desaprovar o canibalismo já se tornou muito vaga. Permanece como uma tradição e um instinto. Felizmente, graças a Deus, embora seja agora muito vaga, é ainda muito forte. Mas, embora o número dos mais ardentes pioneiros éticos que provavelmente começariam a comer missionários cozidos seja muito pequeno, o número daqueles dentre eles que conseguiriam explicar suas próprias razões reais para não fazê-lo é ainda menor.
A razão real é que todas essas sanidades sociais são agora as tradições dos antigos dogmas católicos. Como muitos outros dogmas católicos, eles são sentidos de uma maneira vaga mesmo pelos pagãos, na medida em que são pagãos sadios. Mas quando se trata de, não meramente senti-los, mas formulá-los, será descoberto que eles são uma fórmula da Fé. Este é o caso de todas aquelas idéias de que os modernistas mais desgostam, sobre “criação especial”,[3] sobre a imagem Divina que não acontece por mera evolução, e sobre o abismo entre o homem e as outras criaturas. Em resumo, são aquelas mesmas doutrinas pelas quais homens com o Deão Inge estão nos acusando, como coisas que nos impedem de ter uma completa confiança na ciência ou uma completa unidade com os animais. São elas que se interpõem entre os homens e o canibalismo – ou possivelmente as glândulas de macacos. Eles têm o preconceito; e que eles o retenham por muito tempo! Nós temos o princípio, e eles são bem-vindos quando o quiserem.
Se Euclides estivesse demonstrando com diagramas pela primeira vez e usasse o argumento da REDUCTIO AD ABSURDUM, ele teria agora somente produzido a impressão que seu próprio argumento era absurdo. Estou bem consciente de que exponho-me a esse perigo por estender o argumento de meu oponente a um extremo, que pode ser considerado uma extravagância. A questão é, por que é uma extravagância? Sei que, neste caso, será argumentado que a característica social do canibalismo é rara em nossa cultura. Pelo que sei, não há restaurantes canibais ameaçando se tornarem moda em Londres, como os restaurantes chineses. Antropofagia não é como Antroposofia, um assunto de conferências públicas; e, variadas como são as religiões e moralidades entre nós, cozinhar missionários ainda não é uma missão. Mas se alguém tem uma lógica tão modesta que não perceba o significado de um exemplo extremo, não tenho dificuldade em dar um exemplo muito mais prático e urgente. Há alguns anos, todas as pessoas sãs teriam dito que o Adamismo[4] era muito mais louco que a antropofagia. Um banqueiro que andasse sem roupa pelas ruas seria um contra-senso equivalente a um açougueiro que vendesse carne humana ao invés de carne de carneiro. Ambos seriam o surto de um lunático sob a ilusão de ser um selvagem. Mas temos visto os Novos Adâmicos ou o Movimento dos Sem Roupa se instituírem muito seriamente na Alemanha; com uma seriedade de que somente os alemães são capazes. Os ingleses são provavelmente ainda ingleses o suficiente para rirem e desgostarem disso. Mas eles riem por instinto; e eles desgostam somente por instinto. Muitos deles, com sua atual e confusa filosofia, teriam provavelmente uma grande dificuldade em refutar um professor prussiano de nudez, por mais que eles desejassem ardentemente dar nele um chute. Pois, se examinarmos as controvérsias correntes, descobriremos a mesma condição negativa e indefensável do caso da teoria do canibalismo. Todos os argumentos da moda usados contra o puritanismo levam, de fato, ao adamismo. Não quero dizer, claro, que eles não sejam muitas vezes praticamente saudáveis como contra o puritanismo; também não digo que não haja melhores argumentos contra o puritanismo. Mas digo que em relação à lógica pura, o homem civilizado baixou a guarda; e está, por assim dizer, nu contra os ataques da nudez. Desde que ele esteja meramente satisfeito em argumentar que o corpo é belo ou que o que é natural é certo, ele se rendeu ao adâmico em teoria, embora ainda possa demorar, queira Deus, um longo tempo antes que ele se renda na prática. Aqui, novamente o teórico terá de defender sua própria sanidade com um preconceito. Somente o teólogo medieval pode defendê-la com uma razão. Não preciso me aprofundar muito sobre esta razão; é suficiente dizer que ela é fundada na Queda do Homem, tal como o outro instinto, contra o canibalismo, é fundado na Divindade do Homem. O argumento católico pode ser colocado resumidamente dizendo-se que o corpo do homem não é o problema; o problema é a alma do homem.
Em outras palavras, se o homem fosse completamente deus, poderia ser verdade que todos os aspectos de seu ser corporal fossem divinos; tal como se ele fosse completamente uma besta, dificilmente poderíamos culpá-lo por qualquer dieta, por mais bestial que fosse. Mas dizemos que a experiência confirma nossa teoria sobre a complexidade humana. Esta não tem nada a ver com coisas naturais em si. Se narizes vermelhos misteriosamente fizessem os homens assassinar, faríamos leis para cobri-los; mas narizes vermelhos seriam tão puros quanto narizes brancos.
Em muitas pessoas modernas há uma batalha entre as novas opiniões, que eles não seguem até seus fins, e as antigas tradições, que eles não seguem até seus começos. Se eles seguissem adiante com as novas noções, isso os levaria até Bedlam.[5] Se eles seguissem retrospectivamente os melhores instintos, isso os levaria a Roma. Na melhor das hipóteses, eles permanecem em suspenso entre duas lógicas alternativas, tentando dizer a si mesmos, como o faz o Deão Inge, que eles estão meramente evitando dois extremos. Mas há esta grande diferença em seu caso: a questão em que ele está errado é, não importa sob que forma pervertida, uma questão de ciência, enquanto que a questão em que ele está certo é simplesmente uma questão de sentimento. Não preciso dizer que eu não uso a palavra aqui num sentido depreciativo, pois nessas coisas há um parentesco muito próximo entre sentimento e sentido. Mas o fato permanece de que todas as pessoas nessa posição podem apenas ser sentimentais. Toca a nós sermos também razoáveis.
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[1] William Ralph Inge (1860-1954), professor, escritor e padre anglicano. (N. do T.)
[2] Serge Abrahamovitch Voronoff (1866-1951), médico francês de origem russa, ganhou fama por sua técnica de extrair tecido de testículos de macacos para enxertá-lo em testículos humanos. (N. do T.)
[3] Diríamos hoje, design inteligente. (N. do T.)
[4] Crença do séc. II e II, que defendia uma nudez ritualística, à semelhança da nudez de Adão no Paraíso. (N. do T.)
[5] Nome popular do Hospital Santa Maria de Belém, em Londres, que é um sanatório de psicopatas. (N. do T.)
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Leiam, do livro "A Coisa": Por que sou católico, A Revolta contra as Idéias, A lógica e o tênis, Um pensamento simples.
16/10/2009
A dissolução da catequese: Romano Amério conta como foi
Estes artigos e as idéias que contêm são uma conseqüência do Concílio Vaticano II. A catequese católica foi uma das primeiras coisas que se dissolveram depois do concílio. Romano Amério, em seu magistral Iota Unum, fala sobre a dissolução da catequese no capítulo XIII de seu livro. Diz o autor que “com a remoção da autoridade magisterial e a redução da verdade à mera busca da verdade, a reforma da catequese não podia senão se dar no sentido heterodoxo que mudou seu conteúdo por meio da mudança de método.”
Amério comenta que ainda em 1969, um congresso em Assis pedia, em seu documento final, o abandono de qualquer conteúdo dogmático na catequese, isto é “qualquer coisa especificamente católico”. Devia-se substituir o ensino da religião católica pelo ensino da história das religiões, pois o primeiro tipo de ensino era “considerado um privilégio injusto num país democrático”.
O Sínodo Episcopal de 1977 discutiu a nova catequese, esta que aparece nos artigo d’O DOMINGO. O Bispo de Saragossa, segundo Amério, defendeu que a catequese “deve promover a criatividade, o diálogo e a participação ativa dos catecúmenos, sem esquecer de que é uma ação da Igreja.” Amério comenta a seguir: “Criatividade é, de fato, uma absurdidade moral e metafísica, mas mesmo que não fosse, dificilmente poderia ser o objetivo da catequese, pois na visão cristã, o homem não se torna um fim em si mesmo; o fim é dado, ele simplesmente tem de querê-lo.” Declarações ainda mais assustadoras foram feitas neste sínodo: “a catequese dever trazer a experiência de Cristo”, “a catequese é liberada pela experiência de Deus pela humanidade cristã e é uma assimilação mais profunda do amor e da fé.” Amério comenta, dizendo: “há ressonâncias místicas e modernistas nestas afirmações. Catequese é doutrina e não é liberada por uma experiência existencial dos crentes, pois ela tem conteúdo sobrenatural que a experiência não pode alcançar.”
O Bispo do Quênia ainda diz, no mesmo sínodo: “a catequese deve se responsabilizar por denunciar as injustiças sociais ... e defender iniciativas na direção da libertação social dos pobres.” Isto é marxismo da pior qualidade, claro.
Qual a conseqüência de tudo isso? Diz Amério: “As duas principais características da nova catequese, isto é, de que ela é uma busca ao invés de uma doutrina e de que ela tenta produzir reações existenciais ao invés de convicções intelectuais, estão refletidas em atitudes frente a uma variedade de catecismos e à memorização. Onde não há conteúdo dogmático a ser afirmado, não há um catecismo universal único, pois não há fórmulas de fé válidas para toda a Igreja, precisamente em virtude daquele conteúdo único. Aqueles métodos antigos, da época da Igreja primitiva, que tiveram continuidade no catecismo do Concílio de Trento, no de São Roberto Belarmino, no de São Pedro Canísio, no de Rosmini e no de São Pio X, foram abandonados.”
Acho que bastam estas palavras de Amério para que entendamos como o Concílio Vaticano II afetou o ensino de nossa fé. E não admira, claro, que algum modernista de plantão comece escrever asneiras, num semanário qualquer, sobre a catequese católica, que de católica não tem nada. Lendo Amério, entendemos como chegamos à situação atual.
É desesperadora a situação de pais que vêem seus filhos freqüentarem aulas de catecismo atualmente. Qualquer católico minimamente informado sobre sua religião sabe que o que eles aprendem não é o catolicismo. Por isso, a única forma de ensinar catecismo para nossos filhos é nos transformarmos em seus próprios catequistas.
Continuarei comentando os artigos d’O DOMINGO sobre catequese, na esperança de mostrar aos catequistas bem intencionados as mentiras que são faladas numa publicação que tem a aprovação da CNBB.
15/10/2009
Lições das missas dominicais pós-Vaticano II– Parte XXV
O “Aurélio” nos ensina que catequese é “instrução metódica e oral sobre coisas religiosas”. Tecnicamente não existe apenas catequese católica. Outras religiões catequizam. Nesta perspectiva geral, qualquer um pode catequizar.
Contudo, não é esta perspectiva de catequese que se espera encontrar numa publicação católica chamada de Semanário Litúrgico-Catequético. Aqui se espera uma perspectiva de catequese católica.
Vamos começar pelo início. O Sr. Zamagna começa o artigo assim: “Desde quando Jesus Cristo ordenou aos discípulos que evangelizassem até os confins da terra, a catequese passou a ser não só um dever da Igreja – missionária por natureza –, mas também um direito de cada pessoa.” Ai, meu Jesus Cristo! Quanto tolice! Quer dizer que Jesus nos manda aos confins da terra, nos manda ensinar Seu Evangelho, nos avisa que isso não vai ser fácil e que pode nos custar a vida, nos alerta para estarmos preparados para lutar, nos manda salvar almas, e com isso Ele está criando um direito? O senhor não sabe a diferença entre direito e dever? Catequizar no sentido estrito, católico, é DEVER da Igreja e, portanto, de cada um de nós.
Sei bem porque o Sr. Zamagna colocou esta palavrinha “direito” na conversa. É que ele quer defender o direito dos outros de catequizar sobre outras coisas, claro. Ele é relativista religioso. Vejam o que ele diz em seguida: “Será um direito apenas dos católicos ou, numa perspectiva mais abrangente, apenas dos cristãos? Trata-se de um direito mesmo dos que não conhecem ainda a fé cristã.” Aqui aprendemos muitas coisas. A primeira, é que ser cristão é “mais abrangente” que ser católico. A segunda, é que a catequese agora está aberta aos que “não conhecem ainda a fé cristã”. De que catequese está-se falando aqui, então? Notem a confusão extraordinária que pode habitar a cabeça de uma pessoa.
Recapitulando: (1) Jesus criou um direito quando mandou Seus discípulos catequizar até os confins da terra; (2) Este direito se aplica aos católicos, mas de forma mais abrangente aos cristãos; e (3) Por fim, é direito também dos que “ainda não conhecem a fé cristã”, que catequizarão, ou seja, instruirão sobre coisas que não sabemos.
O parágrafo final do artigo é mais elucidativo das verdadeiras idéias do Sr. Zamagna sobre catequese. Ele diz: “Todos os batizados têm esse dever. Mas é um serviço que se estende de modo particular aos que, na nova aliança, recebem o chamado para o ministério de pastores. Os cristãos e seus pastores ...” Não admira o uso dos termos “cristãos” e “pastores” aqui, no lugar de católicos e padres. O Sr. Zamagna é quase protestante, se não o for por inteiro. Ele termina o artigo dizendo que a catequese deve ser feita “evitando o escândalo das divisões, para que o mandato do Senhor seja realmente executado...” Ou seja, se não incluirmos na catequese católica os protestantes (eles são legião) não estaremos cumprindo o mandato do Senhor, aquele mandato que criou um direito, que depois se estendeu até aos que não professam a fé cristã.
Quem poderá dizer que isto não é fruto do Concílio Vaticano II? Leiam este diálogo assustador entre Paulo VI e padre Bouyer sobre a reforma litúrgica que estava então em andamento.
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12/10/2009
No dia de N.S. da Conceição Aparecida, três historinhas da Mãe do Céu
Do livro Tesouro de Exemplos.
O SORRISO DA IMACULADA
Quatro anos após a definição do dogma da Imaculada Conceição, Nossa Senhora se dignou baixar à terra para confirmar de um modo estupendo a declaração do Papa Pio IX, de santa memória.
Foi em Lourdes, na França, que Nossa Senhora apareceu repetidas vezes à inocente Bernadete e na última aparição disse: Eu sou a Imaculada Conceição.
Quem refere o seguinte episódio não é nenhum devoto, nem sequer bom cristão. Ele escreve:
"Quando já se falava muito das aparições de Lourdes, achava-me em Cauterets, povoação próxima de Lourdes, mais para distrair-me do que para curar-me. Achei graça ao ouvir que a Virgem sorrira para Bernadete e resolvi ir a Lourdes para ver a Vidente e surpreendê-la na mentira. Fui a casa dos Soubirous e encontrei Bernadete sentada à porta cerzindo umas meias. Pareceu- me o seu rosto bastante vulgar; apresentava sinais de enfermidade crônica ao par de muita doçura. A instâncias minhas contou-me as aparições com toda a simplicidade e convicção.
- Mas é verdade que a Virgem sorriu?
- Sim, sorriu.
- E como sorria?
- A menina olhou-me com ar de espanto, e disse:
- Mas, senhor, seria preciso ser a gente do céu para repetir aquele sorriso.
- Não o poderia repetir para mim? Sou incrédulo e não creio nas aparições.
O rosto de Bernadete tornou-se triste e severo.
- Então julga o senhor que menti?
Senti-me vencido. Não, aquela menina tão cândida não podia mentir. Ia pedir-lhe desculpas quando ela acrescentou:
- Bem; se o senhor é um pecador, tentarei imitar o sorriso de Nossa Senhora.
A menina ergueu-se lentamente, juntou as mãos e um reflexo celeste iluminou o seu rosto. Um sorriso divino, que jamais vi em lábios mortais, encantou os meus olhos. . . Sorria ainda, quando caí de joelhos, vencido pelo sorriso da Imaculada nos lábios da ditosa Vidente.
Desde aquele dia nunca mais se me apagou da imaginação aquele sorriso divino. Passaram-se muitos anos, mas a sua recordação enxugou-me muitas lágrimas ao perder minha esposa e minhas duas f ilhas... Parece-me estar só no mundo e vivo do sorriso da Virgem".
AMOR DE UM VELHINHO
Um dia estava rezando, diante de uma imagem de Maria, S. Afonso Rodríguez, irmão leigo jesuíta, muito bom e muito santo.
Já era velhinho e passava longas horas aos pés de sua boa Mãe do céu. As vezes punha-se a chorar como uma criança; às vezes sorria como um anjo.
Tinha algum sofrimento? Ia logo comunicá-lo a Nossa Senhora. Sentia alguma alegria? Depressa, ia contá-la à Mãe do céu. Tentavam-no os demônios? Corria aos pés da Imaculada e pedia-lhe que não o desamparasse nem na vida nem na morte.
Naquele dia estava ele a dizer a Nossa Senhora que a amava muito, muitíssimo, com toda a sua alma, com todo o seu coração. E parecia ao santo velhinho que a Virgem Santíssima lhe sorria amavelmente. Ouviu, enfim, ou pareceu-lhe ouvir do fundo de sua alma uma voz que dizia:
- Afonso, quanto me amas?
E o bom do velho respondeu:
- Olha, minha boa Mãe do céu: amo-te tanto, tanto, que é impossível me possas amar tanto como eu te amo.
A Senhora, ouvindo isso, levanta a mão amorosa, dá-lhe uma leve bofetada e diz:
- Cala-te, Afonso, cala-te!. . . que estás dizendo? Eu te amo imensamente mais do que tu me podes amar.
Eis por que devemos amar a Maria: ama-nos tanto que jamais poderemos compreender toda a grandeza de seu amor.
SENHORA, SÊDE VÓS A MINHA MÃE
Era no mês de novembro. Amarelas e secas caiam as folhas das árvores, como secas e murchas caem do coração as ilusões da vida, quando se aproxima o inverno da velhice.
Em Ávila, numa nobre casa, está agonizando na primavera da vida uma distinta e piedosa senhora: dona Beatriz Ahumada. Já os sacerdotes, ali reunidos, rezavam as orações dos agonizantes, quando aquela senhora abriu os olhos, olhou ao redor de si e, com voz apagada, disse:
- Teresa! Chamem a Teresa.
Uma menina de uns doze anos, de singular modéstia e extraordinária formosura, penetrou no quarto e aproximou-se da cabeceira da mãe agonizante. Esta, fixando a filha, e como se Nosso Senhor lhe revelasse os futuros destinos daquela menina, exclamou:- Bendita ... bendita! E expirou.
Levantando-se a menina desfeita em pranto, beijou pela última vez aquelas mãos frias e retirou-se a um aposento, onde havia um quadro de Nossa Senhora pendurado à parede. Ali deixou correr livremente as suas lágrimas. Depois, erguendo os olhos com inefável ternura e uma fé imensa, disse do fundo da alma estas comovedoras palavras:
- Senhora, eis que não tenho mãe; sêde vós a minha mãe daqui em diante.
Aquela menina, protegida da Mãe do céu, veio a ser uma das maiores mulheres da história, S. Teresa de Jesus, que mereceu as honras dos altares. Tanto bem lhe adveio por haver tomado a Maria Santíssima por Mãe desde os primeiros dias de sua vida.
10/10/2009
Um pensamento simples
Muitos homens retornariam à fé e moral dos velhos tempos se conseguissem alargar suas mentes o suficiente. É principalmente estreiteza mental que os mantém na rotina da negação. Mas esse alargamento é facilmente mal-entendido, porque a mente deve se alargar para perceber as coisas simples; ou mesmo as coisas auto-evidentes. Precisa-se de um esforço de imaginação para perceber os objetos óbvios contra um fundo óbvio; e especialmente os objetos grandes contra um fundo grande. Há sempre o tipo de homem que não consegue perceber nada exceto uma mancha no carpete, pois não consegue perceber o carpete. E isso tende à irritação, que ele pode exagerar e transformar numa rebelião. Então há o tipo de homem que percebe somente o carpete, talvez porque seja um carpete novo. Isso é mais humano, mas pode estar manchado de vaidade e mesmo vulgaridade. Há o homem que pode ver somente a sala acarpetada; e isso tenderá a isolá-lo demais das outras coisas, especialmente dos quartos dos empregados. Finalmente, há o homem com larga imaginação, que não consegue se sentar num cômodo acarpetado, ou mesmo no quarto de despejo, sem perceber, a todo o momento, o contorno de toda a casa contra seu fundo aborígene de terra e céu. Ele, compreendendo que o teto foi feito, desde o início, como uma proteção contra o sol ou a neve, e a porta contra o frio ou a lama, saberá melhor que o restante dos homens – e não pior –as regras internas. Ele saberá melhor que o primeiro homem que não deve haver mancha no carpete. Mas ele saberá, diferentemente do primeiro homem, porque há um carpete.
Ele considerará da mesma maneira uma nódoa ou mancha nos registros de sua tradição ou credo. Não a explicará ingenuamente; não a desprezará. Ao contrário, ele a verá de maneira muito simples; mas ele também a verá de maneira muito ampla; e contra um fundo de coisas amplas. Fará o que seus críticos nunca farão, de forma alguma; ele verá as coisas óbvias e fará as perguntas óbvias. Pois quanto mais eu leio a crítica religiosa moderna, especialmente a que se refere à minha própria religião, mais me impressiono com a acanhada concentração e a incapacidade imaginativa de considerar o problema como um todo. Li recentemente uma condenação muito moderada de práticas católicas, vinda dos EUA, onde as condenações estão longe de ser moderadas. Ela toma a forma, de maneira geral, de um enxame de questões, perguntas que eu estaria muito disposto a responder. Contudo, estou vivamente consciente das grandes questões que não foram formuladas.
E sinto, acima de tudo, este fato simples e esquecido; que se certas acusações são ou não são verdadeiras em relação aos católicos, elas são inquestionavelmente verdadeiras em relação aos demais. Nunca ocorre ao crítico fazer algo tão simples quanto comparar o que é o católico com o que é não-católico. Uma coisa que nunca parece passar pela sua mente, quando ele discute o que é a Igreja, é a simples questão do que seria do mundo sem ela.
Isto é o que eu considero ser estreito demais para perceber a casa chamada Igreja contra o fundo chamado cosmos. Por exemplo, o escritor a que me refiro entrega-se a milhares de repetições mecânicas da acusação de repetições mecânicas. Ele diz que repetimos orações e outras formas verbais sem pensar nelas. E, sem dúvida, há muitos simpatizantes dessa acusação que a repetirá sem pensar. Mas, antes que expliquemos o real ensinamento da Igreja sobre tais coisas, ou antes que citemos suas inúmeras recomendações sobre atenção e vigilância, ou que possamos expor a razão de razoáveis exceções que ela permite, há uma grande, uma simples e luminosa verdade sobre toda a situação que qualquer um pode ver, desde que ande de olhos abertos. É o fato óbvio de que TODAS as formas humanas de discurso tendem a se fossilizar em formalismos; e que a Igreja é um caso único na história, não de uma língua morta dentre línguas eternas; mas, ao contrário, como tendo preservado uma língua viva num mundo de línguas moribundas. Quando o grande clamor grego se transformou no latim da Missa, tão antigo quanto a própria cristandade, pode surpreender alguns que há muitos na igreja que realmente dizem KYRIE ELEISON e dizem-no sinceramente. De qualquer forma, dizem-no muito mais sinceramente do que um homem que começa uma carta com “Caro senhor”. “Caro” é enfaticamente uma palavra morta; naquele lugar, ela já não significa nada. É exatamente o que os protestantes chamam de ritos e formalidades papais; são feitos rapidamente, ritualmente e sem a memória do significado do rito. Quando o Sr. Jones, o pretendente, usa essa palavra ao se dirigir ao Sr. Brown, o banqueiro, ele não quer dizer que o banqueiro lhe seja querido, ou que seu coração esteja cheio de amor cristão, nem mesmo tanto quanto o coração de algum pobre e ignorante papista que assista a Missa. Mas a vida ordinária, alegre e pagã está simplesmente transbordante de tais palavras mortas e cerimônias insignificantes. Você não escapará delas escapando da Igreja e entrando no mundo. Quando o crítico em questão, ou milhares de críticos como ele, diz que exigimos apenas uma assistência material e mecânica à Missa, ele diz algo que NÃO é verdade sobre os sentimentos de um católico normal em relação aos Sacramentos Católicos. Mas ele diz algo que É verdade sobre a assistência oficial das funções oficiais ordinárias, sobre as recepções ministeriais ou na Corte, e sobre três quartos dos encontros sociais e das visitas de cortesia que ocorrem na cidade. Esse enfraquecimento da ação social repetida pode ser uma coisa inofensiva; pode ser uma coisa melancólica; pode ser a marca da Queda do Homem; pode ser qualquer coisa que o crítico escolha pensar. Mas aqueles que fazem, centenas e centenas de vezes, a acusação especial e concentrada contra a Igreja, são homens cegos para a totalidade do mundo humano em que vivem e são incapazes de ver qualquer coisa, exceto a coisa que caluniam.
Há, nessa área, inúmeros outros casos dessa inconsciência estranha e sinistra. O escritor reclama que padres são levados cegamente à vocação e não entendem as responsabilidades nela envolvidas. Isso também já ouvimos antes. Mas raramente a ouvimos de forma tão extraordinária quanto em sua afirmação de que um homem se compromete com o sacerdócio quando ainda é “uma criança”. Ele parece nutrir idéias estranhas e elásticas quanto à duração da infância. Como observou o Sr. Michael Williams, em sua ponderada e esclarecedora coleção de ensaios, “Catolicismo e Mente Moderna”, isso é brincar com uma matéria de fato, desde que um padre tem no mínimo 24 anos quando toma votos. Mas, aqui e de novo, sou assombrado pela imensa, nua, e mesmo assim, desprezada comparação entre a Igreja e tudo o mais fora dela. Muitos críticos do catolicismo declaram-no destrutivo ao patriotismo; e esse crítico diz algo sobre as desvantagens da Igreja estar meramente “ligada a uma diocese italiana.” Bem, eu mesmo fui sempre defensor do culto ao patriotismo; e nada que eu diga aqui tem alguma ligação com o que é normalmente chamado de pacifismo. Penso que nossos amigos e irmãos empreenderam, dez anos atrás, uma guerra justa contra o duro paganismo do norte; penso que o prussianismo que eles venceram era o orgulho congelado do inferno; e aqueles que morreram estão, talvez melhor que nós que vivemos para ver quão má a Paz pode ser.
Mas, e quando falamos sobre a Igreja envolver jovens com votos? O que devemos dizer àqueles que contrapõem patriotismo ou cidadania pagão à Igreja nessa questão? Eles convocam, usando de violência, garotos de 18 anos, eles aplaudem voluntários de 16 anos que dizem ter 18, lançam milhares deles num enorme forno ou câmara de tortura, do qual sua imaginação nada consegue conceber e do qual sua honra os proíbe de escapar; eles os mantêm nesses horrores ano após ano sem qualquer esperança de qualquer vitória; e os matam como moscas, aos milhões antes que comecem a viver. Isso é o que o Estado faz; isso é o que o Mundo faz; isso é o que faz a sociedade protestante, prática, razoável e secular. Depois disso, eles têm a impressionante imprudência de reclamar de nós porque, ao tratar com uma minoria de especialistas, permitimos a um homem finalmente escolher uma vida de caridade e paz, não somente muito depois que ele tenha passados dos 21 anos de idade, mas quando ele esteja já bem próximo dos 30, e depois que tenha tido aproximadamente 10 anos para pensar se ele quer isso ou não.
Em resumo, o que sinto falta em tudo isso é a coisa óbvia: a comparação da Igreja com o mundo fora dela, ou a ela oposto, ou o mundo oferecido como o substituto da Igreja. E o fato é que o mundo fará tudo o que sempre acusou a Igreja de fazer, e fá-lo-á de uma maneira muito pior, e em muito maior escala, e (o que é o pior e mais importante) sem qualquer padrão de retorno à sanidade ou qualquer motivo para um movimento de arrependimento. Os abusos católicos podem ser “reformados”, porque há a admissão de uma forma. Os pecados católicos podem ser expiados, porque há um teste e um princípio de expiação. Mas onde mais, no mundo de hoje, há um tal teste ou padrão; ou algo exceto um temperamento em permanente mudança, que faz do patriotismo uma moda, dez anos atrás, e do pacifismo uma moda, dez anos depois?
O perigo hoje é que os homens não tenham alargado suficientemente suas mentes para entender as coisas óbvias; e esta é uma delas. É que os homens acusam a tradição de Roma de ser meio-pagã e então se refugiam num completo paganismo. É que os homens reclamam porque os cristãos se infectaram de paganismo; e então fogem da praga e se refugiam na pestilência. Não há um único desses defeitos alegados contra a instituição católica que não seja ainda mais flagrante e mesmo gritante em todas as outras instituições. E é para essas outras instituições, o Estado, a Escola, a máquina moderna de cobrança de impostos e policiamento, que essas pessoas realmente se voltam à procura de socorro contra a superstição de seus pais. Esta é a contradição; esta é a colisão destruidora; este é o desastre intelectual inevitável no qual eles já se envolveram; e temos apenas de esperar tão pacientemente quanto pudermos para ver quanto tempo eles ainda levarão para perceberem o que aconteceu.
Leiam, do livro "A Coisa": Por que sou católico, A Revolta contra as Idéias, A lógica e o tênis.