quinta-feira, novembro 22, 2018

O deslocamento da função magisterial depois do Concílio Vaticano II, por Romano Amerio - Parte VI

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VI – O novo “magistério” pastoral levou à dissolução da crença do povo cristão

28. É-nos possível, com trinta anos de distância,[1] verificar até que ponto o movimento triunfou, uma vez que o povo cristão de hoje crê nos artigos da fé segundo o modo disseminado por esses teólogos. Como isso foi também mencionado em meu último ensaio (Zibaldone), enumerei uma série de dogmas da fé que não são mais cridos pelo povo cristão, justamente porque são rejeitados pela teologia moderna, o que faz com que não se creia mais hoje nos dogmas de acordo com a fórmula de Nicéia. O que crê hoje o povo cristão a respeito do inferno? Crê o que os teólogos debatem no Avvenire[2] ou o que as imponentes emissões da Radio Maria[3] endossam calorosamente. Eles creem que o inferno não existe, ou que se existe, é uma forma de punição que se atenua com o tempo e que, talvez, mesmo Judas não esteja lá, pois no último momento de sua vida sua alma pôde se arrepender. Assim, o inferno está provavelmente vazio – mas São Gregório Magno, numa de suas homilias, dá por certo a danação de Herodes Agrippa (At. 12, 23). “Mas, no mesmo instante, o Anjo do Senhor o atingiu, pois que ele não rendeu glória a Deus e, comido pelos vermes, expirou.

29. O que creem hoje os cristãos sobre o Gênesis? Creem que é um relato simbólico; hoje, todos os cristãos estão de acordo sobre este ponto, destruindo assim um decreto da Pontifícia Comissão Bíblica de 1906, que confirma com autoridade o caráter histórico do relato sagrado do Pentateuco. O que pensam hoje os cristãos da Eucaristia? Que a Eucaristia não é a Presença Real e individual do Corpo de Jesus Cristo, mas a presença real do povo cristão, pois a nova teoria constrói o silogismo seguinte sobre essas semelhanças: no sacramento da Eucaristia o Senhor está presente, mas o Senhor que está presente é misticamente o povo cristão, então, o povo cristão está presente na Eucaristia; a opinião comum hoje admite que a Eucaristia é o sacramento da presença do Senhor, mas o Senhor que está presente é o próprio povo cristão.

30. O que creem hoje os cristãos sobre a predestinação? Aqui nos é necessário assinalar a deformação completa do conceito de predestinação, pois que os teólogos modernos que falam ainda a compreendem como uma previsão das coisas do homem, não como a determinação das coisas do homem por parte de Deus. Esta é uma grave falsificação, pois a predestinação se ocupa de nosso fim último e nosso fim último é a coisa mais importante que há. Se se falsifica o fim último do homem, que resta do homem?

31. Acabamos, então, de ver que a prática que se iniciou depois do Concílio se impôs, virando do avesso as opiniões gerais da cristandade. Depois de trinta anos, podemos apenas constatar o sucesso desta tendência. A fé católica despedaçou-se em mil opiniões sobre os Novissimi (as últimas coisas),[4] em mil opiniões sobre a virgindade de Maria, em mil opiniões sobre a Presença Real na Eucaristia, sobre os sacramentos, sobre a Igreja, sobre o primado de Pedro e mesmo, sobre a Trindade. Não há nenhum artigo do Credo, o Símbolo da fé que professamos a cada domingo na Missa, que não tenha sido despedaçado em uma miríade de opiniões professadas, apesar de e contra a firmeza absoluta dos seus artigos. Assim, o cristão perde a fé porque perde a unidade: não há fé se ela não é UNA. Essa dispersão de opiniões significa a dissolução da fé.




[1] Este ensaio de Romano Amerio foi escrito em 1996. (N. do T.)
[2] Jornal diário fundado em 1968 para difundir as ideias do modernista do Concílio Vaticano II. (N. do T.)
[3] Conjunto internacional de rádios católicas, fundado em 1982. Também modernista até a medula. (N. do T.)

Um comentário:

Ricardo Lima disse...

Ou, em outras palavras, os católicos, no que se refere à Fé, na sua maioria, se tornaram protestantes: cada um acredita naquilo que mais lhe "agrada".

Tristes tempos os nossos. :(