quinta-feira, junho 27, 2013

A volúpia cívica do escorpião

Sidney Silveira


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Quando se amontoa com motivações políticas, qualquer multidão superior a duzentas pessoas está imbuída da divina incumbência de estupidificar-se. Aglomerados humanos reivindicantes costumam fazer rumor proporcional à despersonalização que acarretam: animados por catarses coletivas, os indivíduos acabam por embotar-se, pois se vêem privados do elementar silêncio interior sem o qual é impossível raciocinar direito. Não por nada, historicamente todos os movimentos de massa geraram violência, porque esta é a sua natureza — desenfrear-se. Tais multidões desintegram o caráter, predispõem à indolência espiritual, reduzem o senso crítico das pessoas e incutem nelas o mais letal auto-engano: confundir com pensamento a débil autonomia de suas inteligências vencidas pelo instinto de revolta.

Se acreditássemos na hipótese metafísica da geração espontânea, poderíamos supor que, numa linda manhã ensolarada, os brasileiros subitamente acordaram da letargia multissecular modeladora das nossas mazelas sociais e políticas. E, de maneira mais extraordinária do que aconteceu com a criação divina “ex nihilo”, da noite para o dia beócios viraram Boécios. Viraram Platões, Aristóteles, Cíceros e Agostinhos, numa espécie de milagre em escala que iluminou as inteligências ao ponto de lhes propiciar espírito hipercrítico acerca de nossa atávica corrupção moral. O rumoroso exército de neopensadores políticos engajados resolveu então parar o país, do Oiapoque ao Chuí, e o mais surpreendente de tudo é a mágica intuição coletiva desses ativistas com relação a várias “demandas” sociais: estão irmanados em certezas cívicas sem jamais tê-las discutido entre si! Um fenômeno.
Mas não. Não acreditamos em geração espontânea e sabemos que — desde que o mundo é mundo — onde se juntam mais de três ou quatro pessoas para falar sobre política emergem divergências de todos os tipos possíveis e imagináveis. Ademais, hoje temos conhecimento histórico suficiente para saber que as grandes massas revoltosas, dos primórdios da modernidade até hoje, foram dirigidas por elites, pequenos grupos que lhes deram o vetor de ação e as bandeiras a hastear; o movimento inercial fez o resto do trabalho sujo.
Quanto ao atual quadro brasileiro, não é objetivo do presente texto mapear o conjunto de motores da revolta, pois isto em verdade levará anos de pesquisa investigativa historiográfica, não obstante tenhamos indícios eloqüentes quanto a algumas de suas principais fontes, financeiras e políticas. Ele apenas pretende servir de luz — por pálida que seja — para consciências não recalcitrantes perdidas em meio aos bois de piranha da revolução em curso, que acabou por abrir nos últimos anos um gigantesco fosso entre a coisa pública e os homens devotados às coisas do espírito — situação quase idêntica à descrita por Platão no “Fedro”.
Nesta obra-prima da filosofia política, o genial filósofo grego aponta-nos o seguinte: uma ordem política apodrecida, na qual avultam sofistas, tiranos e demagogos, não mais está em condições de absorver ou aproveitar a substância dos homens mais capazes. Nesta situação arquetípica, a tais almas só resta a heroicização (e o provável martírio), numa atmosfera de violência e cegueira mental em que os maus sequer têm clara noção de sua própria maldade, pois a ilusão em que jazem ultrapassou os umbrais da insanidade. Hábitos de embuste e cupidez carcomeram a alma dos que se ocupam da política, e em tal situação os amantes da beleza e do bem são tomados por homens ridículos e ingênuos aos olhos dos perversos que dominam o cenário.
O caso tupiniquim é particularmente dramático porque o remédio proposto pelas massas traz consigo o veneno que gerou a atual situação: o espírito libertário-filomarxista, produto de décadas de formação espiritual deformante, associado a um democratismo liberal difuso que sequer tem noção da hierarquia de bens a preservar, para não descambarmos numa situação pior, muitíssimo pior do que a atual.
À multidão de pessoas empapuçadas de boas intenções que têm contribuído para algo que as pode engolir em breve — sem nem de longe saberem os porquês —, vale dizer sem meias palavras nem temor de ferir a pruridos ou susceptibilidades: vocês não têm o monopólio do amor à pátria! Em hipótese alguma.
E, por servir de instrumento para atos totalmente contrários ao bem comum e à paz social, o seu brado retumbante é como o veneno do escorpião da fábula de La Fontaine: numa só picada, pode matar a vocês mesmos e às instituições que tornam possível a sua ira.
O verdadeiro amor à pátria pressupõe primordialmente o desejo de servir, que é anterior ao de protestar — de maneira análoga à anterioridade dos deveres com relação aos direitos.

2 comentários:

andressa disse...

sim

Anônimo disse...

Recomendo ler o seguinte texto racional sobre a lógica das manifestaçòes:
http://scutumfidei.org/2013/06/26/algumas-consideracoes-sobre-as-manifestacoes/

Luiz Antonio