segunda-feira, março 06, 2017

O Catolicão, por Murilo Mendes

O Catolicão é o título de um fantástico artigo de Murilo Mendes sobre os católicos de sua época; penso que o texto deve ser de décadas pré-conciliares, o que indica que o catolicismo já estava em vias de uma degeneração acentuada. Eis o link para  o artigo
https://periodicos.ufsc.br/index.php/literatura/article/view/5105/4809

Levado pelo artigo, procurei menções a Murilo Mendes no diário de Josué Montelo e encontrei esta pérola, na entrada do dia 20 de dezembro de 1955. Grande Murilo Mendes.

 ___________________________

Lá fui eu, esta noite, ao programa de João Condé, na TV Tupi, para ser crivado de perguntas, ao vivo, diante das câmaras, no calor do estúdio intensamente iluminado.

Antes de começar o programa, sento-me no lugar que me é destinado, por baixo de grandes lâmpadas que pendem do teto. Olho-as com receio, no temor de que estourem sobre minha cabeça, e meu temor é justificado pela experiência de meu programa anterior, naquele mesmo estúdio, quando o poeta Murilo Mendes, o diplomata Roberto Assunção e eu, convocados para um debate sobre a cultura brasileira no exterior, fomos colocados ali, debaixo das mesmas luzes.

E ia em meio o programa, com Murilo Mendes a discorrer sobre a sua experiência na Itália, quando uma das lâmpadas explode, fazendo cair sobre a cabeça do poeta uma chuva de pedaços de vidro, sem que ele deixasse transparecer a menor reação.

Ao fim do programa, perguntei ao poeta: — Como foi que você conseguiu manter-se impassível, com aquele estrondo e aqueles cacos de vidro?

E Murilo, sério, ainda a sacudir do paletó os últimos estilhaços da lâmpada:
— Graças a uma certa intimidade com o sobrenatural.

Agora, no programa de João Condé, depois de lembrar-lhe o episódio, para acentuar que me falta a intimidade de que o Murilo se desvanecia, pergunto-lhe se posso ter certeza de que não vou receber o mesmo banho, na hora em que estiver falando.

— Fique tranquilo. Murilo, por ser santo, tem direito a esses sustos; você, não.

2 comentários:

Flávio Dornelles disse...

Caro Antonio,muito interessante e inspiradora essa passagem da vida dele.

Na última palestra dissestes que o Catolicismo é a religião da vontade e não do sentimentalismo.

Poderia em poucas palavras falar sobre a parte da vontade?

Agradeço tuas respostas as minhas perguntas anteriores.

Fique com Deus.

Antônio Emílio Angueth de Araújo disse...

Farei um post para te responder, meu caro Flávio.