segunda-feira, setembro 20, 2010

Ser empresário e católico; eis a questão

Angueth, gostaria de saber uma opinião sua. Eu sou empresário e católico.

Como você acha que eu posso tornar a minha empresa um caminho para a caridade cristã sem cair nessa de "responsabilidade social"? Ou você acredita que a caridade deve ser uma obrigação da pessoa e que a empresa não tem nada a ver com isso?

Rodrigo

Caro Rodrigo,

Sua pergunta é muito importante e mostra a nobreza de seus objetivos. Espero que o que vou dizer abaixo possa lhe ser de alguma ajuda.

Nossa única obrigação neste mundo é nos salvar; é não ir para o Inferno. Quando procuramos este caminho, muitas coisas acontecem e acabamos salvando-nos e também a muita gente ao nosso redor. Isto acontece qualquer que seja nossa ocupação.

Você é empresário e católico. Ora, como empresário não sei o que você faz, mas como católico imagino que você: assista a Missa todos os domingos e dias de guarda; que se confesse regularmente (obrigatoriamente na Páscoa, desejavelmente uma vez por mês); que reze seu Terço diariamente e peça a proteção de Nossa Mãe Santíssima freqüentemente, etc. Você, enfim, está procurando se santificar diariamente. É o que nós católicos fazemos; esta é a nossa vida.

Como empresário você tem, todos os dias, milhares de oportunidades de pecar, tal como qualquer um de nós (eu, por exemplo, como professor); mas tem também muitas oportunidades de se santificar.

No meu Missal há uma parte que nos ajuda a fazer o exame de consciência, antes da Confissão; é uma série de perguntas para você responder. Há perguntas que imagino serem interessantes para você: (Deveres dos superiores) Faltei com a justiça, não pagando o salário devido, ou castigando injustamente? Recusei aos meus subalternos a liberdade de cumprirem os deveres religiosos? Deixei de instruí-los sobre a religião? Deixei de vigiar a fé e os costumes de meus subalternos? Dei-lhes maus exemplos? Fui áspero, desconfiado, caprichoso, altivo, desdenhoso?

Veja que antes de pensar em “tornar sua empresa um caminho para a caridade”, nela há de haver o exercício da caridade. Quando falo caridade, não falo ser bonzinho; falo amar o próximo, desejá-lo o bem.

Penso ser importante a todo empresário católico conhecer um pouco sobre a Doutrina Social da Igreja. Dois documentos são importantes aqui; as encíclicas Rerum Novarum de Leão XIII e a Quadragesimo Anno de Pio XI. Recomendo também fortemente o livro sobre economia do ponto de vista católico de Hilaire Belloc, The Servile State, que o blog Caminho de Roma está traduzindo para o português. Há também no meu blog um marcador Economia e Catolicismo que talvez seja de seu interesse.

Transcrevi abaixo um trecho do Compêndio de Teologia Ascética e Mística, do Pe. Adolph Tanquerey, que trata da santificação das relações profissionais que, considero também interessante para você.

Por fim, rezo para que você seja um bom católico em todos os lugares e momentos de sua vida.

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Meios Gerais de Perfeição da Vida Cristã

Pe. Adolph Tanquerey

Santificação das relações profissionais

607. As relações profissionais são meio de santificação ou obstáculo ao progresso, segundo a maneira como se encaram e desempenham os deveres do próprio estado. Os deveres, que nos impõe a nossa profissão, são em si conformes à vontade de Deus; se os cumprimos como tais, com intenção de obedecer a Deus e de nos regular segundo as leis da prudência, da justiça e da caridade, contribuem para a nossa santificação. Se, pelo contrário, não temos outro fim em nossas relações profissionais, mas do que granjear honras e riquezas, com desprezo das leis da consciência, convertem-se essas relações numa fonte de pecado e escândalo.

A) O primeiro dever é, pois, aceitar a profissão a que a Providência nos conduziu como a expressão da vontade de Deus sobre nós e perseverar nela, enquanto não tivermos razões legítimas de mudar. Quis Deus, na verdade, que houvesse diferentes artes e ofícios, diversas profissões, e, se nos encontramos numa delas por uma série de acontecimentos providenciais, podemos crer que é essa, a nosso respeito, a vontade de Deus. Excetuamos o caso em que, por motivos acertados e legítimos, julgássemos dever mudar de situação; tudo o que é conforme à reta razão entra efetivamente no plano providencial.

Assim, pois, patrão e operário, industrial ou comerciante, agricultor ou financeiro que um seja, o seu dever é exercer a própria profissão, para se submeter à vontade divina, desempenhando-se dela segundo as regras da justiça, da equidade e da caridade. Então nada impede que santifiquemos cada uma das ações, referindo-as ao fim último; o que de forma alguma exclui o fim secundário de ganhar o necessário à própria subsistência e à da família. De fato, houve santos em todas as condições.

608. B) Como, porém, as múltiplas ocupações e relações são, de sua natureza, absorventes, e assim tendem a afastar-nos o pensamento de Deus, é necessário fazer esforços muitas vezes renovados para oferecer a Deus e sobrenaturalizar ações de suas natureza profanas.

609. C) Além disso, como vivemos num mundo pouco honrado, em que a maior parte avidamente disputa em proveito próprio as honras e os lucros, sem se lhe dar das leis da equidade, importa não esquecer que ante de tudo é mister procurar o reino de Deus e a sua justiça não empregando, para chegar a seus fins, senão meios legítimos. O melhor critério para discernir o que é permitido do que o não é, será ver como procedem os homens honrados e cristãos da mesma profissão: é que, de fato, há usos recebidos que não se podem mudar e a que não é possível subtrair-se, sem se impor a si mesmo e aos outros perdas consideráveis.

Quando são comumente seguidos pelos bons cristãos da mesma profissão, todos podem conformar com eles o seu proceder, até que, de comum acordo, seja possível reformá-los, sem comprometer interesses legítimos.[1] Mas, por outro lado, importa estar precavido para não imitar os processos e conselhos dos comerciantes e industriais sem consciência que querem enriquecer, dê lá por onde der, até mesmo como quebra de justiça: a falta de probidade e os avanços destes últimos não justificam o emprego dos meios ilícitos. É necessário buscar antes de tudo o reino de Deus e a sua justiça; tudo o mais virá por acréscimo. (Mt. 6,33)


[1] Assim, o nível salarial, na mesma profissão e na mesma localidade, é determinada por usos que um patrão não poderia modificar sem perdas que o obrigariam bem depressa a fechar sua fábrica.

10 comentários:

Anônimo disse...

Ser empresário e católico

Para um empresário, já é quase um milagre sobreviver e cumprir as leis. Se, além disso, há margem para se fazer um pouco mais, sob a perspectiva financeira, então o empresário pode exercer sua caridade.

Mas, a caridade nem sempre está afeta a aspectos financeiros. Tratar os empregados com respeito é caridade. Cuidar do seu crescimento como seres humanos, além de ser caridade, pode ser lucrativo.

Todo bom católico deveria ser um bom empresário. Mas, para ser empresário, é preciso mais do que intenção. É preciso ter vocação. Muitos empresários vão à falència apesar de sua boa intenção.

Em JMJ

Guilherme disse...

Caro professor,

Salve Maria!

Peço-lhe licença para fazer uma pequena correção. O sr. disse: "que se confesse regularmente (obrigatoriamente na Páscoa, desejavelmente uma vez por mês)". Porém, a obrigatoriedade com relação à confissão é de confessarmos ao menos uma vez por ano os pecados mortais, e não, como o sr. disse, obrigatoriamente na Páscoa. A obrigação com relação à Páscoa, de acordo com o 3o Mandamento da Igreja, é de comungarmos obrigatoriamente.

Um abraço.

Em Cristo e Maria.

Guilherme disse...

Aproveito para agradecer a divulgação do blog mais uma vez!

Antonio Emilio Angueth de Araujo disse...

Caro Guilherme,

Você está certo. É que sempre penso nos dois sacramentos juntos: Penitência e Eucaristia. Sim, a obrigatoriedade da Páscoa é para comunhão.

Em JMJ.

Guilherme disse...

De algum modo o sr. tem razão também, pois esses dois sacramentos devem estar sempre juntos na vida dos católicos.

Estamos esperando uma resposta ao Daniel Coelho! hehehe

Seria bom se ele começasse pelo Vortex sobre falso ecumenismo:

http://www.youtube.com/watch?v=K-U_ijm5r8E

Um abraço.

Em Cristo e Maria.

Luiz Ricardo disse...

Olá, professor!

Primeiramente, receba meus sinceros agradecimentos pela resposta que deu ao meu email de uma semana atrás com as perguntas sobre a Bíblia Pastoral da Paulus. Não respondi em agradecimento para não lotar sua caixa de entrada.

Passo, agora, à dúvida deste comentário:

O senhor disse que "a nossa única obrigação neste mundo é nos salvar".

Na verdade, estou quase certo de que sou incapaz de me salvar.

Por outro lado, acho (e "acho" é a palavra mais adequada para a ocasião) que a Salvação é um ato de amor divino e não uma conquista do homem, haja vista o bom ladrão, por exemplo.

São minhas "quase certeza" e "achologia" que estão erradas ou sua afirmação (temos dever de nos salvar) precisa de um tempero para se tornar mais palatável?

Atenciosamente,

Luiz Ricardo

Antonio Emilio Angueth de Araujo disse...

Caro Luiz Ricardo,
Salve Maria!

Você está certíssimo: nennhum de nós pode se salvar pelos próprios méritos. Todos nos salvamos pelos méritos de NSJC; mas nem todos se salvarão; há os cabritos e as ovelhas (Mt. 25). Mas para usufruir destes méritos (e de outros contidos na comunhão dos santos) tem de estar em estado de graça e ISTO é nossa obrigação.

Em JMJ.

Anônimo disse...

Pequena reflexão sobre a doutrina da justificação pela fé

http://www.veritatis.com.br/apologetica/artigosgracajustificacaopecadooriginal/889-pequena-reflexao-sobre-a-doutrina-da-justificacao-pela-fe

Pergunto:

A fé é um dom de Deus, é pode ser adquirida pelo ouvir, conforme diz a Bíblia?

Anônimo disse...

Oi Prof. Angueth,

Muito obrigado pela resposta rápida e cuidadosa. Vou ler com bastante cuidado o que você recomendou.

Antes disso, só mais uma pergunta, você conhece "bons cristãos da mesma (minha)profissão"? Não é um pergunta retórica, eu sei tenho certeza que existem muitos. Eu gostaria é encontrar uma biografia ou filme de um grande empresário tanto no sentido "técnico" quanto humano no qual eu possa me espelhar.

grande abraço,
Rodrigo

Jucken disse...

Rodrigo, que tal Santo Homobono?