terça-feira, agosto 03, 2010

Os cátaros e a dúvida de um leitor

Prof. Angueth,
Desculpe-me, mas o assunto é importante demais para que eu aceite sua resposta sem um pouco de questionamento.

Se os cátaros eram suicidas, e contra a reprodução da Humanidade, primeiramente eles próprios é que se exinguiriam.

Os sacrifícios que são exigidos dos cristãos são tão menores do que o suicídio e tão poucas pessoas se dispõem a fazê-los que eu não acredito que os tais cátaros pudessem ser bem-sucedidos nesse tipo de persuasão, a não ser que eles fossem terroristas assassinos com grande poder de extermínio.

Continuo tentando encontrar mais motivos que pudessem levar a Igreja Católica a correr o risco de desviar-se do Evangelho de Jesus Cristo ao usar a violência extrema, quando Ele mesmo preferiu sofrê-la.
Peço-lhe desculpas mais uma vez, pela insistência.
Quase-católico
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Caro Quase-católico,

Minha primeira resposta foi curta porque sua pergunta também o foi. Vamos lá, para algo mais estendido.

É preciso primeiro conhecer o que foi a heresia dos cátaros. Já lhe recomendei ler “As Grandes Heresias”; neste livro há um capítulo sobre os cátaros. Eles não foram o que você parece os considerar; um grupo suicida que só pedia para ser deixado de lado para se matar. Não! Eles queriam, e conseguiram por um tempo, tomar as dioceses católicas; eles pregavam que sua filosofia era a verdadeira, a “pura” filosofia católica. Toda heresia, e a dos cátaros não foi exceção, não pede para ser deixada de lado, afirma ser a verdadeira religião; e o que fazem hoje as milhares de seitas protestantes. Os cátaros queriam tomar a Igreja e a humanidade. Queriam que todos pensassem como eles! Foi aí que, depois de muito tempo, depois de eles terem tomado quase todo o sul da França, depois de eles terem organizado a população e os nobres do sul da França contra a Igreja, depois de tudo isso, a Igreja se organizou militarmente e os venceu. Os católicos eram 1000 (mil) homens e os cátaros, 100 mil; isto mesmo cem mil homens. O católico Simão de Monfort venceu o exército de Pedro Aragão e Raimundo de Toulouse. A isso você chama extermínio católico?????

Você diz que Jesus preferiu sofrer a violência em vez de fazê-la. Espero que você não cometa o erro, muito comum entre os protestantes (mas não só entre eles) de pensar que Jesus era pacifista (lembra de Jesus na porta do Templo expulsando os vendilhões?). Pacifistas eram exatamente os cátaros, que eram contra qualquer tipo de guerra, exceto a guerra contra a Igreja. Jesus sofreu pessoalmente a violência, como milhares de santos católicos depois d’Ele. Aliás, os santos se violentam, através da auto-flagelação, permanentemente, quando não nascem com os próprios estigmas de Cristo. Uma coisa é você se oferecer em holocausto, outra muito diferente é oferecer a Igreja ou os cristãos em holocausto. Temos todos o dever de defender a Igreja e sua Doutrina, contra os hereges; a violência deve ser a última das possibilidades, mas não deve ser descartada.

Se você pensa que a Igreja Católica é uma instituição pacifista, como o Green Peace, você se engana grandemente. (Leia Um Pensamento Simples) Quem ama o bem, tem a obrigação de odiar o mal.

Você diz: “Os sacrifícios que são exigidos dos cristãos são tão menores do que o suicídio.” Primeiramente, suicídio não é sacrifício, é seu exato contrário; é a fuga do sacrifício. Em segundo lugar, de onde você tirou que os sacrifícios exigidos de nós cristãos católicos são de pequena monta? Vejo bem que você não está considerando a santidade como uma obrigação de todo cristão, pois se estivesse, você não falaria isso. Leia a vida de um só santo – por exemplo, santo Afonso Maria de Ligório – e você entenderá o que é exigido de nós. Suspeito que você não chegou nem perto da noção do que é ser verdadeiramente católico.

Para finalizar, a Igreja nunca se desviou do Evangelho, pois foi ela que o escreveu e seu Personagem principal foi seu Fundador. Quem se desvia do Evangelho, por mais que o leia e pense entendê-lo, é quem se afasta, ou não se aproxima, da Igreja.

5 comentários:

José Santiago Lima disse...

Caríssimo Professor Angueth, salve Maria!
Sei que este não é o espaço adequado para fazer a seguinte pergunta/pedido, mas como não possuo outro contato seu, utilizarei aqui mesmo. Lá vai: Soube que o senhor traduziu o livro "As Grandes Heresias" e disponibilizou aqui no blog, daí a Editora Permanência se interessou em publicá-lo, correto? Portanto vejo o senhor como alguém que possa me ajudar nas seguintes dúvidas. A 1ª é: Tentei adquirir o livro "A Religião Demonstrada" do P. A. Hillaire, porém após longa busca não encontrei nenhuma edição brasileira p/ venda. O senhor sabe se existe alguma? Somente encontrei Edições argentinas (em sites argentinos)
2ª: Me enviaram uma cópia em PDF e como sou professor de espanhol resolvi traduzi-la (o que me consumirá um bom tempo). Agora digamos que após traduzir e confirmando que não há nenhuma versão em português, é possível oferecê-lo a alguma editora Católica para que o publique? Caso seja possível, como ficaria a questão da autorização/direitos autorais, uma vez que o livro é antigo e a princípio não saberia eu a quem contatar? Ou isso seria resolvido pela Editora?
Um abraço e fique com Deus

Anônimo disse...

Prof. Angueth,

Agredeço-lhe pela paciência. Como o senhor já sabe, não sou católico, embora o senhor tenha me avaliado como quase-católico. Portanto, julgo ser compreensível que eu ainda não conheça o catolicismo a fundo.

Quanto ao livro sobre as heresias, ainda não o adquiri. Mas tenho um viés que faz parte da minha formação que poderá ditar os limites de minha absorção do catolicismo.

Por exemplo:
1. fui condicionado a pensar que os protestantes tiveram de dar suas vidas por suas idéias, por exemplo, naquela luta fatal entre catolicismo e protestantismo na Escócia;
2. fui condicionado, ainda, a pensar nos protestantes como mártires da liberdade de consciência.

Enfim, estou tentanto estudar com afinco o cristiansimo em geral, em todos os aspectos. Porém, estou assustado com o quadro que se me descortina.

Sincermente, não sei qual será o resultado da minha busca, mas não posso deixar de estudar o tema com uma mente aberta.

A minha surpresa é que uma pessoa como o senhor, que eu julgava representante do mais atrasado obscurantismo, e ainda com tendência a justificar a violência moral e física como método de persuasão, está se comportando com muita dignidade no sso diálogo, até mesmo com certa impessoalidade científica em suas análises.

Estou aprendendo muito com o senhor.

Meus sinceros agradecimentos, quaisquer que sejam minhas conclusões finais sobre o cristianismo em geral e o catolicismo em particular.

Quase-católico

Antonio Emilio Angueth de Araujo disse...

Caro José Santiago,

Se o livro já estiver em domínio público, você pode traduzi-lo e publicá-lo sem problema. Uma forma não muito precisa de saber é entrar do site dominiopublico.gov.br e procurar pelo livro lá. Nem todos estão lá e daí você vai ter de pesquisar quando a última edição do livro foi publicada (pelo autor) e tentar saber qual lei se aplica neste caso.

Quanto à editora, isto é mais difícil. Um livro como este interessa a muito poucas editoras no Brasil. Eu tentaria a Sétimo Selo, Permanência e a Pinus.

Um abraço e boa sorte.

Antônio Emílio Angueth de Araújo.

Anônimo disse...

Eu só gostaria de saber como é que fica um dos 10 mandamento que diz: Não matarás.

Antonio Emilio Angueth de Araujo disse...

Anônimo,

Duvido que você queira mesmo saber sobre o 5o. mandamento. Se quisesse já teria lido o Catecismo da Igreja e não teria feito essa observaçãozinha cheia de veneno.

Vá estudar doutrina católica! Se quiser aprender, conte comigo, mas sem arrogância.

Em JMJ.