quarta-feira, dezembro 17, 2008

Capítulo III – Sobre o Sr. Rudyard Kipling e Fazendo o Mundo Pequeno: Parte I

Gilbert Keith Chesterton

Não há assunto desinteressante sobre a terra; a única coisa que existe são pessoas desinteressadas. Nada há tão necessário quanto uma defesa dos entediantes. Quando Byron dividiu a humanidade em entediantes e entediados,[1] ele deixou de notar que as mais altas qualidades pertencem aos entediantes e as mais baixas, aos entediados, dentre os quais ele se encontrava. O entediante, por seu brilhante entusiasmo, por sua solene felicidade, pode, de alguma forma, ter se tornado poético. O entediado provou-se certamente prosaico.

Podemos, sem dúvida, considerar inoportuno contar todas as folhas da grama ou das árvores; mas isso não seria por causa de nossa ousadia ou alegria, mas por causa de nossa falta de ousadia ou alegria. O entediante seguiria em frente, ousado e alegre, e consideraria as folhas da grama tão esplêndidas quanto espadas de um exército. O entediante é mais forte e mais contente do que nós; é um semideus – não, ele é um deus. Pois, são os deuses que não se cansam da iteração das coisas; para eles, o entardecer é sempre novo, e a última rosa é tão vermelha quanto a primeira.

O sentimento de que tudo é poético é uma coisa sólida e absoluta; não é uma mera questão de fraseologia ou persuasão. Não é meramente verdade, é averiguável. Os homens podem ser desafiados a negá-lo; os homens podem ser desafiados a mencionar qualquer coisa que não seja poética. Lembro-me que, há muito tempo, um sensível subeditor se aproximou de mim com um livro nas mãos intitulado “Sr. Smith” ou “A família Smith”, ou algo parecido. Ele disse, “Bem, tu não conseguirás tirar, deste livro, nada do teu miserável misticismo,” ou palavras semelhantes. Fico contente em dizer que o decepcionei; mas a vitória foi tão óbvia e fácil! Na maioria dos casos, o nome não é poético, mas o fato é. No caso de Smith, o nome é tão poético que deve ser árdua e heróica a tarefa de suportá-lo. O nome de Smith é o nome de uma profissão[2] que mesmo os reis respeitavam, nome que pode cobrar a metade da glória daquela arma virumque que todos os épicos aclamaram. O espírito do ferreiro [smithy] é tão próximo do espírito da canção que eles se misturam em milhões de poemas, e cada ferreiro é um harmonioso ferreiro.

Mesmo a criança do vilarejo sente que, de algum modo obscuro, o ferreiro é poético – da mesma forma que não o são o dono da mercearia e o sapateiro – quando ele dança em meio a fagulhas e ensurdecedoras marteladas na caverna daquela violência criativa. O repouso bruto da Natureza, o perspicácia apaixonada do homem, o mais resistente dos metais da terra, o mais estranho dos elementos da terra, o inconquistável ferro subjugado pelo seu único conquistador, a roda e o arado, a espada e o martelo, a ordenação dos exércitos e todas as histórias das armas, todas essas coisas estão escritas – brevemente, é verdade, mas bem legíveis – no cartão de visitas do Sr. Smith. Mesmo assim, nossos romancistas chamam seus heróis de “Aylmer Valence,” que não significa nada, ou ainda “Vernon Raymond,” que também não significa nada, quando está em seu poder dar a eles esse sagrado nome de Smith – este nome feito de ferro e chama. Seria natural que certa arrogância, certo maneio de cabeça, certo gesto nos lábios, distinguissem cada um dos que tem o nome de Smith. Talvez seja assim; eu acredito. Mas dentre os novos-ricos não estão os Smiths. Desde o mais obscuro alvorecer da história, esse clã se lançou na batalha; seus troféus estão em cada mão; seu nome está em todo o lugar; é mais antigo que as nações e seu signo é o Martelo de Thor. Mas, como também observei, esse não é o caso usual. É bastante comum que coisas comuns sejam poéticas; não é tão comum que nomes comuns sejam poéticos. Na maioria dos casos, é o nome que é o obstáculo. Um grande número de pessoas fala como se essa nossa alegação, que todas as coisas são poéticas, fosse uma mera criatividade literária, um jogo de palavras. Precisamente o contrário é verdade. É a idéia de que algumas coisas não são poéticas que é literária, que é um mero produto das palavras. A palavra “signal-box” [cabine de comando de sinal[3]] não é poética. Mas a coisa cabine de comando de sinal é poética; é um local onde homens, numa agonia de vigilância, acendem luzes vermelho-sangue e verde-marinho a fim de evitar a morte de outros homens. Essa é a descrição simples e genuína do que ela é; a prosa aparece apenas na descrição da coisa. A palavra “pillar-box” não é poética. Mas a coisa pillar-box o é; ela é o lugar a que amigos e amantes confiam suas mensagens, conscientes de que quando assim o fizerem, elas serão sagradas, e não poderão ser tocadas, não somente por outros, mas nem mesmo (toque religioso!) por eles mesmos. Aquela torre vermelha [lugar das cabines de comando ao longo da ferrovia] é um dos últimos templos. Postar uma carta ou se casar estão dentre as poucas coisas inteiramente românticas; pois para ser inteiramente romântica, uma coisa dever ser irrevogável. Pensamos que pillar-box é prosaica, porque não há rima para ela. Pensamos que pillar-box não é poética, porque nunca a vimos num poema. Mas o fato ousado está inteiramente do lado da poesia.

Uma signal-box é chamada apenas uma signal-box; ela é a casa da vida e da morte. Uma pillar-box é chamada apenas uma pillar-box; ela é um santuário das palavras humanas. Se você acha o nome “Smith” prosaico não é porque você seja prático e sensível; é porque você é excessivamente afetado por refinamentos literários. O nome grita poesia a você. Se você acha o contrário, é porque você está impregnado, encharcado, com reminiscências verbais, porque você lembra tudo de Punch[4] (e suas tirinhas cômicas) sobre o Sr. Smith estar bêbado ou intimidado. Todas essas coisas lhe foram apresentadas poéticas. Foi somente por um longo e elaborado processo de esforço literário que você as fez prosaicas.

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[1] “Society is now one polish'd horde, / Form'd of two mighty tribes, the Bores and Bored.” Don Juan, Canto XIII, estrofe 95. (N. do T.)
[2] Ferreiro, forjador. (N. do T.)
[3] Para controle de tráfego ferroviário. (N. do T.)
[4] Revista britânica de humor e sátira publicada de 1841 a 1992. (N. do T.)


Ver também Hereges de G.K. Chesterton e Hereges - Capítulo I. Observações Iniciais sobre a Ortodoxia: Parte I, Hereges - Capítulo I. Observações Iniciais sobre a Ortodoxia: Parte II, Capítulo I. Observações Iniciais sobre a Ortodoxia: Final, Hereges - Capítulo II – Sobre o espírito negativista: Parte I, Hereges - Capítulo II – Sobre o espírito negativista: Final

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