sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Igualdade, Desigualdade e Destino

Thomas Sowell

Uma das confusões que contamina as discussões sobre igualdade e desigualdade é a confusão entre os caprichos do destino e os pecados do homem. Há muito dos dois, mas eles precisam ser distinguidos claramente um do outro.

O fato simples de que há grandes diferenças entre indivíduos em relação a salários e ocupações e que seus níveis de vida dependem disso, tem sido visto como “injusto”, especialmente quando o acidente do nascimento tem muito a ver com essas grandes diferenças econômicas e sociais.

A vida é injusta. Não há razão para negar isso. De fato, é difícil imaginar como a vida poderia ser justa, dados todos os inumeráveis fatores que influenciam o sucesso ou o fracasso individual – e a forma como esses fatores variam enormemente de uma pessoa para outra, de um grupo para outro e de uma nação para outra.

Quaisquer que sejam as potencialidades com que alguém entre no mundo, o desenvolvimento dessas potencialidades em habilidades específicas depende dos pais, escolas, pares e valores culturais que envolvem o indivíduo.

Os esquimós têm, certamente, toda a inteligência requerida para plantar abacaxis, mas eles, dificilmente, terão essa experiência. Nem os havaianos, provavelmente, saberão como caçar focas no Ártico.

Crianças que crescem em lares onde os esportes são discutidos constantemente, mas não as ciências, não terão, provavelmente, os mesmos objetivos e as mesmas carreiras que as crianças que crescem em lares onde o contrário é verdadeiro.

Nada disso é culpa de alguém, nem daquele bode expiatório universal, a “sociedade”. Esses são apenas os caprichos do destino.

Por milhares de anos, o Hemisfério Ocidental como um todo não teve a oportunidade de se desenvolver do mesmo modo que a Europa e a Ásia, porque os cavalos e bois permitiram aos europeus e aos asiáticos construírem sua agricultura e seu meio de transporte através dessas bestas de carga – nenhuma delas existia no Hemisfério Ocidental até que foram trazidas pelos invasores europeus.

Todo o modo de vida tinha de ser diferente nesta metade do planeta em relação ao que era na vasta massa de terra eurasiana. De quem era a culpa?

Alguns grupos étnicos têm uma idade média uma década maior do que a média de outros e mesmo países inteiros como a Alemanha e Itália têm idades médias que são duas décadas maiores que a média do Afeganistão ou Yemem.
Seria isso um campo de jogo plano*? Não! Há uma injusta vantagem para aqueles com mais experiência e com mais capacidade adquirida pela maior experiência.

Outras diferenças são devidas aos pecados dos homens – discriminação, conquista, escravidão e muito mais. Mesmo assim, quaisquer que sejam as fontes das diferenças entre os povos, elas são enormes, assim como suas conseqüências econômicas.

Nada disso é difícil de entender em si mesmo. Mas tudo fica confuso e deformado pela retórica e pelas visões e as cruzadas da intelligentsia e dos políticos.

Mesmo nossos tribunais estão prontos para considerar diferentes distribuições de grupos nas ocupações como evidência de que o empregador discriminou, uma vez que é, aparentemente, inoportuno considerar que os próprios grupos podem diferir, tanto de forma quantificável, como em idade, quanto de forma intangível, como em atitudes.

Esse dogma igualitário está tão profundamente enraizado que diferentes taxas de aprovação em testes de um grupo em relação ao outro são tomadas como evidências de que algo está errado com os testes. Taxas diferentes de promoção no trabalho ou na escola são consideradas como prova virtual de que o empregador ou a escola está fazendo algo errado.

O autor de sucesso Shelby Steele tem argumentado, persuasivamente, que os brancos temem ser considerados racistas e os negros temem ser considerados inferiores natos – e que, como resultado, ambos os grupos fazem coisas tolas e contra-produtivas, Tais atitudes se aplicam em questões além das raciais.

As leis e políticas de uma nação precisam servir a propósitos mais sérios do que permitir as pessoas fugirem de seus problemas psicológicos. Já é tempo de essas leis e políticas se basearem em realidades e serem avaliadas por suas conseqüências.



* Tradução literal da expressão “level playing field”, que significa um campo de jogo que não privilegia nenhum dos times. Um campo justo, onde cada adversário tem a mesma chance de ganhar. (N. do T.)


Publicado por Townhall

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