domingo, maio 03, 2015

Libido Dominandi: o projeto de dominação do homem por meio da luxúria.

Muito se beneficiarão aqueles que, ao lerem o livro de Mons. Delassus, que indiquei no blog, lerem concomitante ou sequencialmente o livro de E. Michael Jones, Libido Dominandi: Sexual liberation and Political Control. O blog já fez algumas alusões a este livro (aqui, aqui, aqui e aqui).

Abaixo, traduzo alguns trechos da introdução do livro. Observo, mais uma vez, que este livro fundamental ainda não encontrou tradução para o português, em nosso pobre país.

(...) Não é segredo que a luxúria é também uma forma de vício. Minha questão aqui é que o sistema atual sabe disso e explora a situação em seu próprio benefício. Em outras palavras, “liberdade” sexual é realmente uma forma de controle social. O que queremos realmente dizer é que isto é um sistema gnóstico de duas verdades. A verdade exotérica, aquela propagada pelo sistema por meio da propaganda, da educação sexual, dos filmes de Hollywood e do sistema universitário – a verdade, em outras palavras, para consumo geral – é que a liberação sexual é liberdade. A verdade esotérica, aquela que permeia as operações manuais do sistema – em outras palavras, as pessoas que se beneficiam da “liberdade” – é o exato oposto, isto é, que a liberação sexual é uma forma de controle, um modo de manter o sistema no poder pela exploração das paixões do ingênuo, que se identifica com suas paixões, como se elas fossem ele mesmo, e com o sistema que lhe possibilita identificar-se como tais paixões. Às pessoas que sucumbem a suas paixões desordenadas são disponibilizadas, então, racionalizações do tipo que infestam páginas pornográficas da Internet e que são, com isso, transformadas numa poderosa força política por aqueles que são os mais especializados em manipular o fluxo de imagens e racionalizações.

(...) A revolução sexual não foi um levante social; não foi um coalescer de “partículas de revolta e iluminação”; ela foi, ao contrário, uma decisão da classe dirigente da França, Rússia, Alemanha e dos EUA, em vários momentos, durante os últimos 200 anos, no sentido de tolerar o comportamento sexual fora do casamento como uma forma de insurreição e, então, como uma forma de controle político.

(...) O que se segue é a história de uma ideia. A ideia de que a liberação sexual poderia ser usada como uma forma de controle não é uma nova ideia. Ela é o centro da história de Sansão e Dalila. A ideia de que o pecado é uma forma de escravidão é central nos escritos de São Paulo. Santo Agostinho, em sua magnum opus em defesa do cristianismo contra as acusações dos pagãos (de que o cristianismo teria contribuído para a queda de Roma), dividia o mundo em duas cidades, a Cidade de Deus, que amava Deus ao ponto da extinção de si mesma, e a Cidade do Homem, que amava a si mesma ao ponto da extinção de Deus. Agostinho descreve a Cidade do Homem como “ansiando por dominar o mundo”, mas ao mesmo tempo se via “ela própria dominada por seu domínio”. Libido Dominandi, paixão por domínio, então, é um projeto paradoxal, praticado invariavelmente por pessoas que são, elas mesmas, escravos das mesmas paixões que incitam nos outros para dominá-los.

A dicotomia que Agostinho descreve é eterna; existirá enquanto o homem existir. Os revolucionários do Iluminismo não criaram nenhum novo mundo, nem criaram um novo homem para habitar esse admirável novo mundo. O que fizeram foi adotar a visão de mundo de Agostinho e, então, reverter seus valores. “O estado do homem moral é aquele de tranquilidade e paz, o estado do homem imoral é aquele de perpétuo desassossego”. O autor dessa afirmação não foi Santo Agostinho (embora ele teria concordado incondicionalmente com ela); o autor foi Marques de Sade. Menciono isso para mostrar que ambos, Agostinho e Sade, compartilhavam a mesma antropologia e a mesma psicologia racional, se quiserem. Onde diferiam era nos valores que atribuíam às verdades dessas ciências. Para Agostinho, o movimento era mau; para Sade, o revolucionário, o movimento perpétuo causado pelas paixões incontroladas era bom porque perpetuava “a necessária insurreição em que o republicano deve sempre manter o governo do qual é membro.”

O mesmo pode ser dito sobre a liberdade. O que um chama liberdade, ou outro chama servidão. Mas a dicotomia das duas cidades – uma rebaixando a si mesma por causa do amor a Deus, a outra rebaixando Deus por causa de seu amor a si e a seus desejos – é algo sobre o que ambas concordariam.


O que segue é a história de um projeto nascido da inversão das verdades cristãs pelo Iluminismo. “Mesmo aqueles se que armaram contra Vós”, escreve Agostinho, dirigindo-se ao Todo Poderoso na Confissões, “não fazem outra coisa que não copiá-Lo de modo perverso”. O mesmo poderia ser dito do Iluminismo, que começou como um movimento para liberar o homem e quase do dia para a noite se tornou um projeto para controla-lo. Este livro é a história dessa transformação. (...) A melhor forma de controlar o homem é fazê-lo sem que ele perceba que está sendo controlado, e a melhor forma de fazer isso é através da sistemática manipulação de suas paixões, porque o homem tende a se identificar com suas paixões como se dele fossem. (...) Foi necessário o gênio do mal desta nossa época para aperfeiçoar um sistema de exploração financeira e política baseada na intuição que São Paulo e Santo Agostinho tiveram a respeito do que chamavam de “escravidão do pecado”. Este livro descreve a sistemática construção de uma visão de mundo baseada nessa intuição.

3 comentários:

Anônimo disse...

Professor Angueth,

Salve Maria.

Trago-lhe uma sugestão de tradução, o livro The Last Superstition, de Edward Feser.

A obra responde, a partir de uma perspectiva tomista, aos delírios dos neo-ateístas -- Dawkins, Hitchens e cia.

Link na Amazon : http://www.amazon.com/The-Last-Superstition-Refutation-Atheism/dp/1587314525

H4Ck3K3S disse...

Agostinho gênio.

Faid Said disse...

Sensacional texto, como eu queria ter amigos pra conversar esses assuntos.